18/12/2009

interrupção temporária

Em razão de alguns problemas de sáude, não tive como publicar matérias e/ou poemas no blog, durante o mês de novembro. Peço desculpas, aos raros e generosos leitores deste Desvelar, pelo aviso tardio e informo que, infelizmente, talvez somente possa retomar as publicações neste blog em março ou abril.

Para não passar em branco neste dezembro, indico os poemas e o texto publicados no ano passado, por ocasião do natal: então é natal...

Até breve.

30/10/2009

atento

a noite...
a noite!!!

a lua, a lua...
a rua!!!

a manhã, a manhã...
amanhã!!!

a boneca, a boneca...
a louca, a louca!!!

a chuva, a chuva, a chuva...
a água!!! a água!!! a água!!!

a flor...
a flor da tarde!!!

a vida!!!

a pinga!
manda mais uma...
vicente filho - belo horizonte

27/10/2009

tormentos e utopias de um poeta

guardião invisível

dormi e acordei sonhando...
um caso me desperta
dentro de outro

sonho com um louco
acordo comigo
e penso onde estará o louco

meu café amargo
começa com o meu dia
cada gole seco
um pensamento

já estou no meio do dia
meu tormento...
só espero minha noite
meu louco talvez volte
vicente filho - belo horizonte

Um certo voô da imaginação para comentar os poemas deste mês - como um breve conto.
Em 'guardião invisível', Vicente Filho dá vida a um irrequieto e sonambúlico personagem. Lembra a anônima melancolia de um daqueles passantes de Baudelaire, a vagar por ruas e cidades hostis, rodeado de gentes levadas à indiferença e ao desconhecimento mútuo, um passante que se vê em desamparado exílio de sua terra, desesperançado de qualquer outra acolhida, refugiando-se então na sua prória e secreta interioridade, à espera de se aconchegar novamente na sua obscura ‘loucura’ noturna.

É um retrato simples, mas que com certeza tem a ver com esse nosso tempo, tornado cada vez mais hostil pelo decadente e degradante modo de viver e produzir na modernidade capitalista. E, claro, tem a ver com o artista e o poeta deste tempo, levado muitos vezes a crer apenas na sua verdade, a criar apenas a partir dessa verdade interior, já descrente de uma ação e criação artísticas que comungue com o coletivo e com a vida cotidiana.

Mas, em 'adormece’, o melancólico sonâmbulo é convocado pela fala pausada de Ernesto, como um convite ao descanso, porém não um repouso feito de imobilismo, desistência ou amargura; ao contrário, é um repouso dialético, que sugere um renascer, ou ao menos uma continuidade do caminhar, agora um caminhar enriquecido pelas derrotas e revelações, mágoas e preciosidades que cada um traz consigo. Uma fala bela, rica de imagens sutis e elaboradas que, sem se apoiar num tom ‘político’ ou panfletário, convoca à superação, à ação e à crença, sustentado no puro e simples desvelar-se para as preciosidades e as virtudes de nosso estranho, mágico e cósmico estar-no-mundo.

Como resposta à invocação de Ernesto, em apego’ Vicente Filho oferece ao seu personagem uma tentativa de volta à terra e à unidade perdidas. Tentativa meio que irônica, como se o persongem soubesse de antemão do fracasso em promover esse ingênuo regresso no tempo e no espaço, sabedor de que o resgate de sua plenitude, de sua capacidade de agir, crer e criar exigirá que ele passe por outras terras; seus surdos passos de poeta terão que continuar em busca de outra festa, talvez uma festa menos precária e individualizada, menos submissa aos ditames das grandes propriedades deste mundo.
Além de retornar a um tema que lhe é sempre caro - que é o tema do retrono à terra - no tom do poema há também um retorno de Vicente: uma fala feita de ironia mesclada de melancolia, presente em vários de seus poemas.

E como se prestasse solidariedade - ou como se fizesse companhia - ao nosso personagem em 'geográfico', de Adair Carvalhais, há também uma tentativa de resgate da unidade perdida, mas sem a mesma ironia que corrói a genuína alegria pelo retorno. Porém, se no conteúdo de sua fala percebe-se uma crença ou uma gravidade maior na tentativa de retorno, a forma dessa fala desmente essa suposta certeza: versos quebrados, palavras soltas, sentido que busca se firmar em passos precários - os mesmos surdos passos?

Em ‘desperto’, o inquieto personagem, novamente às voltas com seus cansaços e perplexidades, ainda tenta se enredar nos aconchegantes labirintos da madrugada, numa aparente recusa em sair para o campo aberto de uma novo dia, no enfrentamento de um mundo tornado por demais hostil e apressado, mecânico e sem poesia - nada então como deleitar-se consigo próprio, seu mundo interior, e com as diáfanas orquestras da noite e dos sonhos.

Tudo indica que de nada teria valido seu ininterrupto périplo mundo afora - nem os convites e companhias de outros poetas - mas os últimos versos revelam: há agora a presença de outras pessoas a sustentar e apontar ao poeta a sua tarefa, a sua sina, não importando se essa companhia - a senhora - representa algo ou alguém simbólico: a história, a ação político-poética, o trabalho como crença e construção do novo, ou algo mais individual: a simples entrega à vida amorosa ou familiar. E em seguindo a sua sina o nosso personagem prossegue no seu périplos por parques, tempestades, países.
**************

O dia promete. Há o encontro com a doce presença da poeta Mariana Botelho, que de tanto se extasiar com a luxuriante paisagem de um parque ou floresta, clama à misteriosa alma do mundo que lhe permita esquecer os nomes humanos das plantas e das flores, para mais poder se embriagar exatamente nesse mistério da pura presença do mundo, com sua miríade de formas e cores, movimentos e propósitos; para mais poder deixar a jóia dos seus olhos desvelar-se para a simplicidade e preciosidade com que o mundo a presenteia - expressando assim a sua plena aceitação do convite feito há pouco pelo poeta Ernesto - numa fala amena e discreta, concisa e burilada, como é próprio de sua mineira poesia: suave coisa.

Embora ainda esteja longe, chegará um tempo em que não precisaremos mais distinguir entre poetas e não-poetas, quando todo e qualquer indivíduo poderá fazer de sua vida um poema, e quando todo e qualquer artista poderá fazer de sua arte um enriquecido encontro com a vida das gentes que o cercam, vida e arte sendo então um exercício de proximidade.

Mas, enquanto não construímos esse tempo, o nosso personagem precisa se afastar um pouco dos poetas e se irmanar com os sonhos, abismos e buscas de outras gentes. E eis que há loucura, sonho e ousadia da imaginação também nas chamadas pessoas comuns, simples. É o que se nos mostra através do poema do francês Proudhomme. Por distantes terras da Alemanha segue o nosso poeta, como silenciosa e solidária sombra da louca estrangeira que, à maneira da mineira Mariana, também busca a flor essencial, a forma fascinante, a condensada manifestação do ser e do mistério personificada nalgum perfume e nalguma cor singular.

Mas já aprendeu que, por mais intangível que seja, a flor rara está à mão, tal perfume inebriante a qualquer instante nos é oferecido pelo ser, basta que nos desvelemos o suficiente para o nosso estar-no-mundo. Sabe que é preciso procurar a preciosa ave dos ovos azuis em nós próprios e no mar de formas e presenças que nos rodeia.
Mas ao nosso poeta não cabe contrariar a estrangeira, é preciso deixar que ela própria encontre as suas respostas, esgote sua busca, mesmo que essa inquietude perpasse por toda uma vida e perdure até a morte - o que tem a fazer é apenas acompanhar a estrangeira, solidarizar-se com sua busca.
*************

Cansado de poetas, de loucos e de irrequietas pessoas. Decide por uma visita a um orfanato, onde possa testemunhar um drama mais cotidiano, e menos etéreo.
Numa primeira leitura, ‘menina no orfanato’ parece refletir descrença e até um certo deboche com a dor alheia, mas na verdade pode ser visto como um aprendizado, como se o nosso poeta não quisesse mais se iludir a si próprio, tendo compreendido que a sua ‘sina’ não lhe permite “poetizar o que não pode ser poetizável” (Flávio Kothe, a respeito de Paul Celan).

E nesse singelo registro do desamparo e da súbita alegria da orfã, reencontra a si próprio, assume de fato a sua tarefa, concilia o poeta, o louco, o andarilho e o vivente no meio de outros viventes. Começa a exercitar o difícil equilíbrio entre a intimidade com o infinito e o testemunho do finito, entre aves de ovos azuis e bonecas de plástico ordinário.

Enfim começa a fazer a sua poesia transitar entre a busca interior e a ação exterior, a viver tanto na companhia dos caçadores do intangível e do sem nome, quanto dos catadaores da vida cotidiana, vê que um mundo não exclui o outro, uma compannhia não exclui a outra, somos todos construtores da difícil e mágica história, da cósmica tarefa dada a nós pelo misterio do ser e do tempo.

Conclui que viver transcende a nossa própria existência, é compromisso com uma presença maior que nós próprios: a vida é por demais delicada, preciosa e ainda incompreensível em sua inteireza– e construída ao longo de bilhões de anos e trilhões de quilômetros - para que, ao final, fique apenas no âmbito de nossos próprios desejos e medos, sonhos e mágoas. E entende que, além dessa tarefa de viver com plenitude e generosidade que cabe a cada um, ao poeta e artista é dado também o trabalho e o privilégio de contribuir para que outros possam de fato despertar exatamente para essa possibilidasde - viver com plenitude e generosidade.

Depois de se despedir de nossa orfã, caminhando novamente pelas ruas, o nosso poeta reflete que - ao lado daqueles que contribuem com o seu trabalho cotidiano e ao lado daqueles que contribuem com a sua ação política, libertária ou guerrilheira, ou mesmo espiritual – cabe ao artista contribuir com a sua sensibilidade, para que de fato se construa um mundo e uma história onde arte e vida sejam um só e mesmo exercício, onde todos possam de fato fazer de sua breve e precária existência um longo, ininterupto e mágico momento de comunhão, generosidade e confiança com todos os que o rodeiam.

Continuando sua andança pelas ruas, lembra-se de poema escrito há tempos por aqueles mesmos lugares. Admirado da leitura que faz daqueles versos que outrora escrevera sem se dar conta, agora confia em que os mendigos do mundo (sejam eles, poetas, trabalhadores, guerrilheiros ou mesmo mendigos de verdade) estarão todos de olhos abertos, mesmo com todas as suas ‘indigências’, e não permitirão que os lobos e maníacos (sejam do primeio, segundo ou terceiro mundo) imponham para sempre ao planeta os seus destrutivos consensos e exércitos.
Confia em que chegará o tempo em que não haverá mais lugar para os lobos, pois até esses terão sua energia potencial canalizada para a construção de um mundo em que todos se enxergarão de fato como ‘sal da terra’ , como ‘luz do mundo’, como olhos e centelha do divino, como pequena chama da grande energia que alimenta e move o cosmos, o ser, o tempo, os homens, mulheres e crianças... e os loucos e as flores sem nome.

Vai além: percebe que, principalmente em tempos difíceis como esse, mais o poeta deve crer e trabalhar nessa direção. Afinal, toda a hostilidade e indiferença, angústia e insegurança, pressa e massificação, que ele vê nas pessoas ao seu redor, pode não significar necessariamente que a barbárie e o disforme tenham se instalado definitivamente no meio do mundo, isso não significa que seja definitivamente vitorioso o padrão capitalista de comercializar e empobrecer a vida e as pessoas, de ferir e depredar o mundo; ao contrário, pode ser que toda essa massificação, brutalidade e passividade signifique apenas que esse modo de estar-no-mundo esteja com os seus dias contados, afinal, é bem provável que tudo chegue a um ponto insuportável, um ponto em que as pessoas finalmente não mais tolerem submeeter-se a uma tão sufocante alienação e seqüestro de sua tarefa de viver com plenitude e generosidade.
****************

Ao crepúsculo, dando por finda a sua peregrinação de um dia tão intenso, recolhe-se a um bar qualquer, afinal há horas que uma poética mas insistente chuva escorre pelas ruas e prédios, a anunciar novembro. E também é hora de buscar alguém a quem contar as suas andanças, reflexões e sensações.
Após ouvi-lo, um desconhecido boêmio, um não-poeta, resume em versos para as peripécias de nosso personagem, fundindo Guimarães Rosa e Fernando Pessoa:

Viver é muito perigoso
quando a alma não é pequena
mas vale a pena a travessia’


Ao que o nosso personagem, grato por síntese tão brilhante - embora simples e despretensiosa – responde ao companheiro de mesa que, se não podemos sempre nos deleitar com nossa melhor hora nas madrugadas e flutuar nas tardes, também não precisamos fazer a travessia de nossos dias e meio-dias como se fossem eternos tormentos.
Afinal, se estamos cada vez mais órfãos e mendigos da vida plena, precisamos, ao longo da travessia, nos manter cada vez mais famintos da Utopia, famintos do grande encontro com o divino, ou seja, o grande e enriquecido encontro de todos nós conoscos mesmos e com o mundo, o ser.

E, já inebriado de bebida e poesia, conclui que para o advento de tão grandioso encontro, não podemos nunca deixar que os exércitos e maníacos nos tornem pequena a alma, que jamais matem a ave de ovos azuis, que em tempo algum pisoteiem a flor rara e sem nome e que não permitamos nunca que apaguem a luz do mundo.
Por fim, brinda e homenageia o anônimo boêmio com um novo poema, basatnte apopriado para o momento, ali mesmo forjado - irônico como de costume, mas sincero e pleno de confiança e gratidão ao mundo e às gentes, e que declamam juntos e já embriagados. Afinal, como logo depois proclama o anônimo boêmio, citando Baudelaire:

“- É a hora da embriaguez! Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos. Embriagai-vos sem tréguas. De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor".

- Ou de utopia, para não serdes os martirizados escravos da barbárie e de uma vida de plástico... – gargalha o nosso poeta.

Roberto Soares

adormece

sempre atento às virtudes da paisagem
que a jóia dos olhos presenteia
guarda as aves dos ovos azuis, preciosos
vislumbra o abandono da tarde de verão...

se os buritis te chamam, atende-os
que outra estiva igual não acontece
enovela os desertos fiados de teus sonhos
agasalha a criança faminta dos teus olhos...

as quatro porteiras da estrada, obstáculos
que o mundo, desigual, te conjurou...
esquece de teus gritos mais recônditos
não esquece ! caminha e mitiga...

colunas gregas, ilhas pacíficas, estranhas paragens...
nada disso podes vencer ou abarcar
recolhe teus olhos para os mundos mais distantes
beija a mão quente da tarde... flutua...

adormece, amigo
carlos ernesto - viçosa, minas

apego


numa sonolenta manhã
tornei à minha imensa terra
sorrindo de seu olhar indiferente
segui meus surdos passos
no amplo terreiro acimentado
da grande propriedade dos Arandina

à frente, sempre sem me dar por nada
vi alguns semi-analfabetos
em improvisados bancos de escola
a lembrança ameaçava penetrar
pelos ocos de minha armadura

até que veio a mim uma mulher
bela e metida a freira
e me disse que ali
ainda se escrevia com carvão fino

sorri e segui meus surdos passos
até que de longe me voltei
e vi que estava numa parte alta
e pensei pensei longamente
numa festa que houvera ali
vicente filho - belo horizonte

geográfico

demorei a chegar neste
lugar onde a
lua se
põe onde constroem se

sorrisos aqui me
afasto do
que não sou do que não
quero

demorei a me
reconhecer neste
lugar onde nascem os
rios e a

noite arde no
fogão onde
retorno para ser eu

mesmo

adair carvalhais - belo horizonte
(do blog ventos desencontrados)

desperto

podem voar penas
do primeiro galo
que bateu as asas

meu último sono
virulento
caiu como uma pluma

orquestra de muares e cacarejares
deixem-me no meu leito
deleito
minha melhor hora

minha senhora, já de pé
me chama:
- a tua sina te ensina

vicente filho - belo horizonte

23/10/2009

sobre flores sem nome, poetas e loucos

diz mariana botelho:

num dia como hoje
num lugar como esse
o que eu não daria
por uma flor
sem nome...
( do blog suave coisa, outubro de 2009)

diz Sully-Prudhomme:
a louca

dia e noite ela errava a ver quem descobria
a flor que vira acaso, um dia, na Alemanha
pequena e débil flor, flor como as da montanha
de um perfume esquisito e de uma cor sombria

das viagens que fez, trouxe a melancolia
e o incurável pungir dessa lembrança estranha
certo encanto mortal, sem dúvida, acompanha
a flor que na Alemanha, acaso, vira um dia

- quem, porventura, o odor lhe aspira ao cálix, sente
um novo mundo n'alma, abrir-se de repente -
dizia ela a morrer, saudosa desse odor

por ela muita gente a planta em vão buscara
mas a Alemanha é grande e aquela flor é rara
e a louca morre, enfim, sem ver de novo a flor
(Sully-Prudhomme, poeta francês, 1839-1907)

(tradução de Raimundo Correia)

15/10/2009

casamento

1.
Aceitas para os teus olhares
as impurezas deste homem
e, para o teu corpo,
as cicatrizes que ele traz?

Aceitas para os teus sonhos
a aspereza deste homem
e, para as tuas boas lembranças,
as dores que ele provoca?

Aceitas para os teus dias
os ruídos deste homem
e, para as tuas noites vazias,
os gritos que ele te arranca?

Aceitas para a tua simplicidade
a arrogância deste homem
e, para as tuas delicadezas,
os cheiros do asfalto nele?

Aceitas para a tua beleza
a estranheza deste homem
e, para a tua sensualidade,
a prepotência e a força dele?

Diz que sim e a paz te será negada.
Mas não existe outra maneira de amar
senão em guerra.

Amor não é gelo, nem previsível
— não há uma estação do amor.

Amor é simum
avalanche
pesadelo
amor é ermo.

2.
Aceitas para a tua imponência
a permanência desta mulher
e, para as tuas muitas tristezas,
os cristais dos risos dela?

Aceitas para as tuas ausências
a espera desta mulher
e, para o teu lado de ferro,
as asas que ela te dá?

Aceitas para o teu ódio
as luzes desta mulher
e, para os teus dias de angústia,
os mapas que te oferece?

Aceitas para o teu ranger
de dentes os beijos dela
e, até para o teu cansaço,
as almas desta mulher?

Aceitas pra o teu veneno
as veias desta mulher
e, para os teus tempos de câncer,
o abraço em que te protege?

Aceita, tua sapiência,
as pistas desta mulher?
E aceitas que onde ela esteja
é onde estar é melhor?

Diz que sim e tua guerra será negada.
Existem, sim, outras maneiras de amor
que não em guerra.

Amar não é selo, nem imprevisível.
E toda estação, decerto, é estação de amar.

Amar é brisa
planície
pensamento.

Amar é zelo
— e não tem meio-termo.
miguel marvilla - vitória, es

(do blog os mortos estão no living)

cada um por si

O poeta capixaba Miguel Marvilla faleceu neste mês de outubro. Marvila nasceu em Marataízes, sul do ES, e tinha 50 anos. Era formado em Letras pela Ufes e ultimamente dedicava-se à editora que fundou, a Flor e Cultura. De Miguem Marvilla, ‘Desvelar’ publica, acima, o poema casamento e, abaixo, um texto em prosa.

FOI ASSIM: anoiteceu exatamente quando ela, no sinal fechado, percebeu que o motorista do carro ao lado, distraído, mordia levemente o lábio inferior. Induzido por essa visão, o coração dela pulou uma batida. Foi nessa mudança involuntária de ritmo que o outro motorista reparou quando o sinal abriu.
Tornaram-se cúmplices, num acordo feito de avenidas e olhares, enquanto atravessavam a cidade, até uma delicatessen. Ele pediu uma Coca-Cola e ela, um tímido sorvete de creme com crocante. [No jogo de sedução que se seguiu, não foi possível definir quem era assaltante, quem era vítima; quem era conquistador, quem, conquistado.]
Depois, alguém abriu uma porta e deixou que Marisa Monte se materializasse de algum lugar ao fundo e oferecesse a ela o mote para fugir:

Eu não sou da sua rua,
Eu não sou o seu vizinho.
Estou aqui de passagem.
Este mundo não é meu,
Este mundo não é seu.

Mas ela não fugiu e, em resposta, quase rasgou com um pensamento qualquer o silêncio caudaloso que, então, se abateu sobre eles, sem saber que pensavam ambos as mesmas coisas, simultaneamente.
E saíram juntos, abraçados com força, não era porque fosse a primeira hora deles juntos que se furtariam à libido. Muito pelo contrário. Estou aqui de passagem.

É ASSIM: ele subtrai à pele dela a camiseta de algodão e, bolívar, liberta os seios arfantes de sua inexpugnável prisão de lingerie. Ela, serpêntica, enrosca-se nas coxas dele e o surpreende com quantas mãos inventa para tocá-lo. Ele, mal esteve aqui, em beijos abrasivos na planície dos ombros e da nuca, preparando o que haverá em pouco, e já reaparece em outro lugar, desbravando vertigens e regiões que ela ignorava desconhecer na própria anatomia.

Mas. Porque o ar vai ficando irrespirável de tanto uso, é necessário que se abram sem interrupções cortinas portas janelas e, assim, separada do outro, ela retorna rapidamente à consciência e se recompõe. “Não foi para isso que vim”, pensa, sem muita convicção. Este mundo não é meu.

Recortado, nu, contra um néon intermitente, ele também se recupera da presença dela e está mais calmo quando ela torna a aninhar-se em seus braços, sublinhando cada gesto com um olhar muito muito azul. “Pena”, pensam tristemente, hipnotizados.
Os lábios dele beijam de leve o lobo da orelha dela e descem suavemente, sem pressa, até o pescoço delicado que lhes é oferecido. No espaço agora virtual entre os dois, o desejo acumulado de tempos em que ainda não se conheciam forma uma película oleosa, sobre a qual deslizam sons, gostos, cheiros, formas. “Pena mesmo”, repetem, cada um por si.

ANTES QUE um corte brusco de energia elétrica deixe o quarteirão inteiro às escuras, o néon ainda brilha tempo suficiente para ilustrar a surpresa de ambos quando os caninos afiados de um penetram furiosamente a jugular desprevenida do outro, em busca de alimento.

A ilustração lá em cima, "O beijo", pra quem não sabe, foi pintada em óleo sobre tela, entre 1907 e 1908, por Gustav Klimt, um pintor austríaco. Se um dia perguntarem a vcs no Faustão, digam que, junto com Rembrandt (esse vcs vão perguntar ao oráculo quem é, se não souberem), é o meu favorito. Aqui há uma centena de quadros do cara e uma penca de informações preciosas, ainda que básicas, mas... em inglês, sorry.

miguel marvilla - vitória, es

12/10/2009

menina no orfanato

(dia das crianças)

aquela mãe veio do céu
também caiu uma bicicleta
e duas bonecas
uma, pretinha, de pano
com os olhos vermelhos
em forma de estrela
e a outra, de plástico ordinário
dessas de 1,99

vicente gonçalves - belo horizonte

29/09/2009

poesia: ainda a europa

Em agosto publiquei alguns poetas de Portugal. Neste mês, continuamos o giro pela poesia européia: Bélgica, Hungria e Polônia. Todos os poemas - assim como comentários e apresentação - foram extraídos do blog português Poesia Ilimitada. São os seguintes os poetas publicados: Herman de Coninck, Tadeusz Rozewicz, Adam Zagajewski e Attila József.

a rapariga de vermeer

a rapariga de Vermeer, agora famosa
olha-me. a pérola olha-me.
os lábios vermelhos, húmidos
e brilhantes da rapariga de Vermeer.

rapariga de Vermeer, pérola
turbante azul: és toda luz
e eu sou feito de sombra.
a luz olha a sombra com altivez
condescendência, talvez piedade.

(adam zagajewski - polônia )

Adam Zagajewski nasceu em Lvov ((hoje, Ucrânia), na Polónia, em 1945. Vive entre Cracóvia, Paris e Chicago. É considerado pela crítica internacional como um clássico contemporâneo, como o foram Milosz, Herbert, Holub, Popa ou Brodsky. É um poeta dessa estirpe.
Acaba de publicar, neste 2008, na Farrar, Straus and Giroux, de Nova York, “Eternal Enemies”, traduzido do polaco por Clare Cavanagh, professora de línguas e literaturas eslávicas na Northwestern University, que já havia traduzido para o inglês, Szymborska e Milosz.
Humor, inteligência, cepticismo e economia de linguagem podem ser encontrados nesta versão que trago do inglês, onde conspiram o peso do lugar e da história, a emergência da arte e da vida quotidiana. (Transcrito do
blog português poesia ilimitada)

a alma

tu sabes que não nos é permitido usar o teu nome.
nós sabemos que tu és inexprimível
anémica, frágil e suspeita
por misteriosas ofensas quando eras criança.

nós sabemos que não te é permitido viver agora
na música ou nas árvores no crepúsculo.
nós sabemos—ou pelo menos disseram-nos—
que tu não existes seja em que lado for.
e no entanto continuamos escutando a tua voz fatigada
--num eco, numa queixa, nas cartas que recebemos
de Antígona no deserto Grego.

adam zagajewski - polônia

a poesia nem sempre...

a poesia nem sempre
adopta a forma
de um poema

depois de cinquenta anos
a escrever
a poesia
pode apresentar-se
ao poeta
na forma de uma árvore
de um pássaro
que voa
de luz

adopta a forma
de uma boca
refugia-se no silêncio
ou vive no poeta
livre de forma e de conteúdo

(tadeusz rózewicz - polônia)

Tadeusz Rózewicz nasceu em Radomsko em 1921. Estudou História da Arte na Universidade de Jagueloniana, em Cracóvia. Viveu em Wroclaw durante trinta anos. Poeta, dramaturgo e novelista foi traduzido em numerosos idiomas, sendo considerado um precursor da vanguarda em poesia e drama, um inovador firmemente arraigado na recriação incessante da tradição romântica. Independente, diz-se convencido de uma missão artística que considera um estado de concentração interna, agilidade interior e sensibilidade ética. Różewicz pesquisa as instâncias contemporâneas da crueldade humana. É o fundador de uma tendência chocante da literatura polaca que se concentra na existência, concebida como o esforço para existir, como a luta contra o nada. Jorge Sousa Braga colabora uma vez mais no Poesia Ilimitada, com a tradução de "A Poesia nem sempre...". (do blog poesia ilimitada)

rapariga

tu própria, que podes ter a noção e ao mesmo tempo
o atrevimento de simplesmente expor
de vez em quando uma opinião
ou um seio: quando começa isso

e no fundo quando acaba? as mulheres
são feitas de raparigas, aos quarenta
ainda deitam a língua de fora como aos quinze
ficam cada vez mais jovens
não sabem não seduzir. como a poesia:
um gato que prudentemente caminha sobre as teclas
de um piano e olha para trás:

ouviste? viste-me?

ah, o ar jovem das raparigas de quarenta
como umas vezes querem, e outras não
mas afinal sempre, se repararmos bem.
onde estão os bons velhos tempos? estão aqui, esses tempos.
(herman de coninck - bélgica)
Herman de Coninck, poeta belga (Mechelen, 1944) foi traduzido em Outubro de 1994 nos seminários de tradução colectiva de Mateus. A Quetzal editou-o em 1996, num livrinho revisto, completado e apresentado pelo poeta Nuno Júdice, intitulado “Os Hectares da Memória”. Coninck, um dos mais importantes flamengos do pós-guerra, foi mais um desses poetas europeus – como Egito Gonçalves, – que tanto incomodaram os puristas por possuir uma notável capacidade de apreender de um quotidiano, aparentemente estéril e banal, instantes sagazmente luminosos, através do uso de uma linguagem com notável capacidade discursiva, onde o humor não é o menor dos seus recursos. Foi um poeta do seu tempo: a fruição do leitor na leitura dos seus poemas resulta, suponho, da identificação com imagens suas contemporâneas que, com aparente objectividade, se dão a ler no poema. Herman de Coninck morreu subitamente numa rua de Lisboa, em 1997, a caminho de uma reunião de poetas (do blog poesia ilimitada).

23/09/2009

lendo milosz

li a tua poesia uma vez mais
poemas escritos por um rico homem, sabedor
e por um mendigo, sem casa
um emigrante, só.

sempre quiseste ir
além da poesia, superá-la, planando
mas também abaixo, onde a nossa região
começa, modesta e tímida.

por vezes o teu tom
transforma-nos por um momento
e acreditamos - verdadeiramente
que cada dia é sagrado

que a poesia - como pôr isto?
torna a vida plena
mais cheia, orgulhosa, ousada
de formulação perfeita.

mas o fim de tarde chega
eu poiso o livro de lado
e o estrondo banal da cidade retoma –
alguém tosse, alguém chora e maldiz.

adam zagajewski - polônia

aí está o saldo final

confiei em mim desde o primeiro momento.
custa muito pouco ser dono do vento.

e à besta não lhe é mais custosa
a vida, até que a lançam à fossa.

nasci, amei, fui longe, fiz o resto.
com medo, às vezes, mantive-me no posto.

paguei sempre as dívidas contraídas
e agradeci, com as mãos estendidas.

se fingida mulher aqui e além me quis,
amei-a, para que pudesse ser feliz.

fiz cordas, varri, dei-me ao vinho
e entre os espertos fingi-me cretino.

vendi brinquedos, pão e poesia,
jornais e livros: o que se vendia.

não morrerei enforcado em fácil trama
ou em grande batalha, mas na cama.

vivi (já está aí o saldo final):
muitos outros morreram deste mal

attila józsef - hungria
Attila József (1905-1937) viveu apenas 32 anos, tempo suficiente porém para se ter tornado um dos mais importantes poetas húngaros do século XX. Nascido em Budapeste, filho de mãe lavadeira e pai operário da indústria de sabões, tem um curriculum impressionante de miséria, fome e dificuldades de vária ordem. A sua poesia é muitas vezes reflexo disso mesmo, com influências desde o expressionismo alemão ao surrealismo francês, num tom - a melhor parte das vezes - amargo. Guillevic escreveu a seu respeito: “Ele tem o dom de exaltar, de elevar qualquer coisa ao nível em que a derrota pessoal se torna vitória sobre a infelicidade.” (Transcrito do blog português poesia ilimitada)

17/09/2009

aforismos no twitter

As frases abaixo são de autoria de Fabrício Carpinejar e estão no seu twitter http://twitter.com/CARPINEJAR. São textos que valem pela sua originalidade despretensiosa, ora divertida ora com um quê de filosofante, e alguns são realmente poéticos, de um poesia singela e breve.
Embora na sua maioria não passem de aforismos, longe de se pretenderem como trabalho literário, é um dos espaços mais interessantes do novo modismo; na verdade, em meio a essa míriade de novos e repetitivos espaços surgidos com o twitter, o de Carpinejar é um dos poucos que merece visitas recorrentes, ou até mesmo ser seguido pelo internauta interessado em algo realmente criativo e original.
O olhar de despedida é o mais bonito: o que confere se não esqueceu nada no olhar do outro.
Quando se aposenta dos rios, o vento envelhece no deserto.
O avô do twitter é o parachoque do caminhão.
Sarcasmo do cemitério: o escritor morre mesmo numa gaveta.
O quintal é uma rua sem saída.
O quarto depende da dignidade de um corredor para curar o pesadelo.
Eu já me abandonei várias vezes. Deveria ter me mandado uma carta: “Desculpe por não ter escrito antes".
Cócega é quando o corpo faz a piada.
Se é ironia, não pode ser fina.
O soneto é um poema sonâmbulo.

16/09/2009

flecheira libertária (5)

'Flecheira Libertária' é uma seção do endereço anarquista nu-sol - núcleo de sociabilidade libertária (nº 126, 15/09/2009).
proibição
O proibicionismo às drogas subordinou culturas, favoreceu indústria de armas, especializou polícias, organismos internacionais e rastreamentos eletrônicos. Ampliou relações diplomático-militares e controles científicos. E, principalmente, propiciou a expansão do tráfico. O proibicionismo está a serviço do lucro, da repressão, do legal e do ilegal. Consagra o proprietário, o traficante e o dissimulador.
liberação
Os defensores da liberação das drogas sabem que elas são inseparáveis da cultura; sabem que liberar as drogas é acabar com o tráfico, conter um ramo altamente lucrativo do capitalismo, paralisar temporariamente os negócios dos moralistas, arruinar parte da crença na repressão e da fé em segurança. Os defensores da liberação são um perigo à empresa, ao Estado e ao traficante. Arruínam seus negócios. Os defensores da liberação das drogas querem mais que descriminalizar maconha!
vida
O proibicionismo precisa da vida breve da criança pobre-podre-calcinada cada vez mais nas mãos do traficante como braço armado, consumidor, sicário e serviçal; precisa de jovens dispostos a morrer bem cedo, tentando, pelo avesso, imitar o burguês bem sucedido, o herói, o mártir, o bandidão das antigas na periferia, nas favelas; precisa de gente insatisfeita com esta merda de mundo, para consumir, se endividar e cair nas mãos dos traficantes como os preferenciais bibelôs de sua estética em ruínas... O proibicionismo e o tráfico celebraram um casamento indissolúvel. Só os revoltados sabem que onde há vida não há proibição e que onde há tráfico não há mais vida.
outros sonhos de ópio
A cada dia, há muitas gerações, dedos ágeis e olhares atentos de mulheres e crianças entrelaçam sem cessar fios e cores. Hoje, por horas e horas, vai sendo tecido mais um centímetro da produção média anual de 200 milhões de metros quadrados de tapetes no Afeganistão. Para as dores dos corpos constritos a ínfimos gestos, usa-se o ópio; para aquietar crianças pequenas que atrapalham os fios, usa-se o ópio, há gerações. Hoje, o país precisa de mais tapetes para superar a marca dos 170 milhões de dólares de lucro anual com as exportações. Mais horas, mais teares, mais bebês quietinhos, mais ópio. Denuncia-se, porém, o vício do ópio na população de artesãos. Estuda-se como combatê-lo com uma ação internacional. Mas nunca se pergunta pela dor.
game over
Um novo programa da força aérea estadunidense recruta jovens para o projeto de combate à distância. De uma sala nos EUA, com monitores e joysticks, os pilotos decolam aviões não-tripulados, lançam mísseis e retornam à base no Afeganistão. Um dos requisitos para a seleção é que eles tenham sido, desde criança, aficionados por videogame. O treinamento é simples, garantem os militares, porque os jovens já vêm educados: matar alvos em telas não lhes é estranho. Sensibilidades torpes e educação para lidar com mortes programadas, eis um traço das guerras na sociedade de controle.
direito e tortura
Alvos preferenciais da polícia na Itália, os imigrantes vindos da África, depois de atravessarem a ilha de Lampedusa e chegarem com vida à Europa, são enquadrados em uma nova legislação. Esta prevê seis meses de prisão para quem andar sem a documentação regularizada, despejo do morador e confisco do imóvel alugado e ainda estimula os médicos a denunciarem pacientes em situação irregular. A página da internet relacionada a um dos proponentes desta nova lei estampa que a tortura de clandestinos é um direito de defesa da nação.
preço da vida
Os canalhas de todo o tipo comemoram. Os imigrantes africanos, árabes, latinoamericanos, gente de todas as partes do planeta que não morreram na travessia em altomar tem como destino viverem sem descanso e sob suspeita, cercados pela polícia. Só assim é que seus corpos e suas existências consideradas insuportáveis são finalmente permutadas, esmagadas, submetidas à força do governo.

“é preciso um dilaceramento que interrompa o fio da história e suas longas cadeias de razões, para que um homem possa, ‘realmente’, preferir o risco da morte à certeza de obedecer” (michel foucault).
“viver é o que há de mais raro neste mundo. muitos existem, e é só” (oscar wilde).

09/09/2009

o grito em movimento (1)

grito dos excluídos 2009

abrimos nosso registro com um doloroso contraste: enquanto no grito pela vida muitos jovens aprendem o caminho da vida plena, no desfile oficial muitos outros se vêem obrigados, por necessidade de sobrevivência ou por sedução patrioteira, a abraçar os instrumentos da morte e da opressão.

tudo bem que aqui no Brasil não temos colocado nossos soldados para espalhar a morte em guerras...

... mas dá pena ver esses garotos da marinha e do exército tão iludidos com seus brinquedinhos de fogo, sem a menor noção de que, ao estar a serviço da força bruta, são a última forma de sustentação de um modelo de civilização que impede a vida plena, ao promover a competição, a indiferença e o medo entre as pessoas.

as mãos que clamam e combatem se preparam para a caminhada, enquanto padre Kelder saúda os peregrinos de um mundo renovado



e começa a marcha, o grito pela vida e pelo resgate da organização popular ganha as ruas, ocupando os elitizados e iludidos espaços da Praia do Canto...

... iludidos porque seus moradores ainda não puderam aprender que o sentido da vida plena não está apenas em nossos apegos e afetos individuais ou familiares.
enquanto isso, as maõs erguidas em ação: incansáveis pés peregrinos e corações generosos

outro contraste: na marinha, a cor branca tenta passar a idéia de pureza nossos garotos e garotas, abaixo o exército seduz nossas mulheres com uma elegância militar, guerreira, mas para embalar o grito pela vida, com sua vibrante voz, basta a despojada elegância da Raquel


veja também:

o grito e a cura

A continuidade do Grito dos Excluídos (veja nesse blog as matérias O grito ecoa... e O Grito dos Excluídos 2009), já por 15 anos, na verdade reflete uma postura histórica de iniciativas e responsabilidades que alguns setores católicos sempre tiveram em relação às lutas sociais e populares. É a opção verdadeiramente missionária da Igreja.

Como bem colocou padre Kelder Brandão numa de suas homilias, é esta a cura que o Cristo pregava e praticava: não apenas a cura física ou corporal, mas a cura do espírito e dos corações dos desamparados, abandonados ou ignorados por um mundo por demais competitivo, apressado e hostil; enfim, sair de dentro do templo em direção ao mundo e ao povo sofredor, humilhado, manipulado.

Mas, na verdade, a Igreja sair em direção ao povo e ao mundo significa também uma outra 'cura', ou melhor, uma tripla 'cura'. Além da oferecida aos desamparados, há também a 'cura' do próprio movimento popular, como dito acima; afinal o movimento está enfermo, paralisado, esvaziado de seus melhores quadros, que foram convocados pelo governo federal e pelos inúmeros governos municipais e, nesse processo de se colocar a serviço de governos populares, são muitas vezes seduzidos por uma nova maneira de ver o mundo, a si próprios e ao movimento do qual faziam parte, uma visão por demais institucional, que passa a enxergar nas pessoas apenas agentes políticos, apenas peças do jogo político-partidário.

E outra 'cura' se processa, claro, no âmbito dos próprios fiéis e da própria Igreja Católica. Ao se colocar à disposição para aprender e praticar a 'cura', o católico está curando a si próprio, encontrando o verdadeiro sentido de ser cristão, ao conseguir ver de fato em si e no outro a ' luz do mundo', o 'sal da terra'.

Quanto à Igreja Católica, enquanto instituição milenar ('santa e pecadora', para usar uma expressão do documento conclusivo do 1º Sínodo da Arquidiocese de Vitória), ela se ‘cura’ ao cumprir o seu papel de fundir num plano maior a prática espiritual e a prática política.
Ao optar verdadeiramente por cuidar do céu e da cidade, do cosmo e da polis, a Igreja traz para uma outra dimensão a atividade política, lembra que os frutos de todo o trabalho e de toda vivência humana têm sempre algo de sagrado e sempre colocam a vida plena em primeiro lugar, porque é sempre sagrada não apenas a vida humana mas a de todas as coisas, de todo o cosmos.

E, ao se ‘curar’, a Igreja peregrina acaba por ‘curar’, depurar, sacralizar a própria atividade política. Já não se trata de ver nas pessoas apenas peças de um processo político, por mais transformador ou revolucionário que esse processo seja, ou pretenda ser. Trata-se agora de ver no outro uma realidade mais rica e complexa e ao mesmo tempo mais frágil e carente de afeto, de acolhimento. Trata-se de ver a ação política também como espaço para que as pessoas se irmanem de fato, se reconheçam uns aos outros - o espaço político não deve se pautar apenas pela eficiência, pragmatismo, mesmo que se trate de um espaço revolucionário.

Mesmo porque, talvez somente esse ato de se irmanar e de acolher é que seja realmente revolucionário. A história tem demonstrado à exaustão que a simples eficiência revolucionária - ou transformadora das estruturas sociais e econômicas - não se sustenta, não transforma de fato os indivíduos e, por extensão, as novas instituições que eles criam a partir do processo revolucionário.
Pois, por mais que a ação política revolucionária tenha aprendido a colocar em pauta temas como o respeito às diferenças, a fraternidade, a solidariedade, nos momentos decisivos a chamada dimensão subjetiva, interior, das pessoas é esquecida em nome da defesa ou manutenção do processo revolucionário e, então, as pessoas voltam a ser friamente tratadas apenas como soldados de uma causa ou de um exército.

Assim, é preciso uma abordagem mística, ou transcendente, da ação política transformadora, construir coletivos que sejam de fato sinônimos de acolhimento e amizade, um acolhimento e uma transcendência que não se percam nos primeiros percalços ou urgências do processo de transformação. A ação política tradicional nunca acolhe com a mística e o calor humano necessários para transcender a si própria, ou para se situar numa outra dimensão.

A igreja peregrina pode e deve ser a doadora dessa ação política transcendente. Principalmente nestes tempos de indiferença, hostilidade e desconhecimento do outro, é possível trabalhar com o projeto de uma Igreja que atraia e seduza as pessoas, ao reverenciar em primeiro lugar o acolhimento, e nesse acolhimento propor às pessoas um novo sentido, não somente para a ação política mas para as suas próprias existências: enfim, a Igreja peregrina pode e deve atrair novos sujeitos, se souber construir coletivos onde a própria ação politica esteja sumetida a um sentido maior, o sentido do sagrado, do mistério que há em todos e tudo.


E, sem cair aqui no idealusmo ou na ingenuidade, é lúcido dizer que, talvez aí sim, tenhamos um movimento, um ação política verdadeiramente revolucionária e, quiçá, de caráter global, pois terá conseguido fundir o sagrado e a polútica, o terreno e o transcendente, o indivíduo e o coletivo, o cotidiano e o mistério.
E talvez não seja exagero dizer que somente um evangelho e uma ação assim possam relamente dar conta de vencer a barbárie e o abismo que nos espreitam cada dia mais perigosamente, ao conseguir encantar e agregar, se não todas as pessoas, ao menos um imenso e combativo exército de peregrinos em busca da cura e do sagrado.

07/09/2009

o grito em movimento (2)

grito dos excluídos 2009 - vitória, es

imagem bem a propósito: a necessidade de uma verdadeira reaproximação entre o movimento popular e a igreja peregrina (ou progressista, para quem preferir), simbolizada por padre Kelder dando uma 'forcinha' para a faixa do CPV, observado por Waldemar Cunha (de verde), presidente do entidade.

e começa, nas escadarias do tribunal de contas do espírito santo, a lavagem da corrupção, do desrespeito com a coisa pública, da visão de mundo que impede a vida plena, o mundo novo

antes da lavagem no judiciário capixaba, um descanso nos gramados do presunçoso 'palácio': afinal o trabalho ali iria ser árduo e demorado... - para quem já se esqueceu, em dezembro passado a polícia federal ocupou o tribunal de justiça do espírito santo e prendeu o seu presidente e três desembargadores

as acusações: favorecimento a parentes e amigos nos concursos irregulares e nos cargos comissionados e, claro, as famosas vendas de sentenças, como bem resgata a faixa acima
dei uma forcinha para a lavagem e para os sempre presentes agentes do Comando de Caça aos Corruptos - mesmo porque, fui um dos poucos funcionários do judiciário capixaba (se é que não fui o único) presente nessa 'afronta' ao egrégio tribunal.
e, no ato de lavar a sujeirada, os peregrinos do mundo novo expulsam o dragão da maldade, da burrice, da visão de mundo que não deixa os poderosos e seus agregados ir além de uma ganância estúpida e vazia, que se ilude com uma sede de poder cada vez mais exigente, mas que nunca é completamente saciada...

... uma sede de poder que alimenta uma estrutura social, econômica e política cada vez mais perversa, desumana e que está nos levando cada dia mais para perto uma barbárie disfarçada de modernidade, consumismo e progresso.


“viver sob este céu sufocante nos obriga a sair ou ficar. a questão é saber como se sai, no primeiro caso, e porque se fica, no segundo” (albert camus).

25/08/2009

poesia de portugal, ora pois

Depois da publicação, em julho, de alguns trechos de O senhor Ventura, obra em prosa do escritor português Miguel torga, temos neste agosto uma pequena amostra da poesia feita atualmente em Portugal, com poemas selecionados dos blogs portugueses Hospedaria Camões e Casa dos Poetas.

Esta primeira seleção é de poemas mais longos, que refletem uma certa vocação da literatura portuguesa para o abundante, o barroco, para a escrita derramada aos borbotões, sem constrangimentos de parecer obsoleta, sem preocupação de etiquetagens modernas ou pós-modernas.

Mas essa abundância verbal não significa um descolamento de temas atuais, vívidos, e nem impossibilita o presença de uma atmosfera ou tonalidade contemporânea. Atmosfera ora desamparada e melancólica, melancolia bem típica aliás da tão decantada ‘alma’ portuguesa (‘beleza destroçada’) ora despojada/prosaica (‘computador no lixo’, ‘ode ao vinil’) ou com tons de engajamento no coletivo, mas engajamento numa dimensão mais complexa, mais abrangente, como em ‘nós somos’.

Há que registrar ainda duas falas mais para o transcendente (‘crepúsculo’, ‘se o teu olho é simples...’), que certamente se inserem na tradição daquela poesia metafísica (mas de uma metafísica terrena, que se desvela no concreto) tão bem representada pela poesia de Rilke, brevemente desvelada no mês passado.

E por fim a a celebração de venturas/desventuras amorosas e existenciais - ‘duas vezes nada’, 'a secção dos congelados', ‘os amantes inadequados’ e o singelo-contundente ‘as prostitutas’. Aqui, outra infiltração brasileira nessa celebração portuguesa, a mineira Mariana Botelho, com a ardente-generosa entrega de seu ‘toma’.

Leia mais sobre os poetas de Portugal, aqui publicados, em Hospedaria Camões e Casa dos Poetas.

as prostitutas

Naquele tempo
elas desciam à vila, as prostitutas –
a única saída
exactíssima resposta para a nossa
angústia seminal acumulada.

Vinham de Vale da Porca, ou outra
terra assim pasmada.
Traziam na cabeça lenços garridos
na carteira de mão a triste história:
a sedução primária, a miséria espessa
mas jamais o vício mercenário.

Nas eiras recebiam nossas águas
de permeio plantados como reis.
Procuravam lisonjeiras acertar
seu êxtase fingido com o nosso.
Beijavam-nos, diziam: tão novinho!
Suportavam-nos insultos e arremessos.
Com mão experiente (mas não habituada)
guiavam-nos na bela, impreterível
urgente aprendizagem
concediam-nos crédito e carinho –

as tãos castas mulheres
as prostitutas.

a. m. pires cabral (macedo de cavaleiros - portugal)

toma

toma
esgota tua menina

até que não reste uma fibra
no ventre ardendo em brasa

no corpo a se apagar na treva

dois vaga lumes no pote
e o silêncio dos retratos –

bebe.

mariana botelho (minas - brasil)

o grito ecoa...

... mais forte a cada ano

Os trechos publicados abaixo fazem parte do material de divulgação e mobilização do 15º Grito dos Excluídos, cujo lema, em 2009, é “A força da transformação está na organização popular”. O Grito foi lançado em 1995, numa iniciativa da CNNB (leia-se Igreja Católica progressista) junto com os movimentos sociais, e é sempre realizado no 07 de setembro, nos mesmos horários e locais das comemorações do chamado Dia da Independência. Segundo os organizadores, essa é uma forma de chamar a atenção para a longa caminhada que o povo brasileiro tem pela frente, antes de poder se considerar realmente independente e soberano.

O texto e o tema deste ano demonstram que o Grito dos Excluídos não é um evento isolado, circunstancial, que ocorreria apenas por inércia, mas que é paciente e lucidamente construído no interior da chamada Igreja Progressista e junto com os movimentos sociais e as comunidades. Ou seja, mobilizações como essa mostram que amplos setores da Igreja Católica ainda estão comprometidos com a transformação das estruturas sociais e políticas e com as contradições deste mundo terreno, e não apenas com a evolução espiritual de indivíduos e sociedades.

A CNBB acertou em cheio ao eleger para este ano o tema da organização popular. Pois, na verdade, já passou a hora de se promover no país uma reorganização ou um resgate do movimento popular.
Sabemos que o movimento está cada dia mais anestesiado e esvaziado, e muito dessa apatia está na opção, ou necessidade tática, de ter que apoiar (ou ao menos não ameaçar) a estabilidade de um governo que tem claramente um projeto, ou pelo menos uma orientação, democrático-popular, mas que optou por se sustentar cada vez mais nos poderes instituídos, formais ou informais (Congresso, Judiciário, empresários etc) ao invés de se apoiar preferencialmente nas organizações populares e nos movimentos sociais.

Esse afastamento de um governo popular, em relação aos movimentos que o instituíram, torna difícil para esse mesmo governo implementar um projeto mais ousado, criativo e transformador, já que sempre encontrará resistências daquelas forças institucionais com os quais o governo se aliou - e isso independente do grau de corrupção, de desumanidade ou de descompromisso com a vida plena por parte dessas forças. Além disso, perde-se a oportunidade histórica de oferecer às camadas populares a possibilidade aprender a governar, de se co-responsabilizar pelos destinos de seu país, com todos os erros e acertos que um tal aprendizado implicaria.

E se as organizações e as lideranças não são convocadas para participar e se responsabilizar efetivamente pelo governo popular, e se não há uma renovação do movimento através da mobilização e sedução (promovida também pelo governo popular) de novas pessoas até então desligadas do movimento, a conseqüência é aquela apatia, esvaziamento e desorientação do movimento apontada no início. Desorientação que poderá até mesmo repercutir contra o próprio governo, quando se tornarem insustentáveis as pressões golpistas que costumam ser o último recurso de pessoas e forças sociais que nunca se conformam quando um povo começa e despertar e a aprender a dar um novo sentido, uma nova condução às instituições e poderes de Estado.

É nesse contexto que iniciativas como o Grito dos Excluídos são um sopro de alento para aqueles que crêem numa ação política mais espontânea, corajosa e calorosa.
Pois com essa institucionalização e engessamento dos movimentos sociais fica evidente que, neste momento histórico do Brasil, tem falhado o tripé Partido-Governo-Movimentos Sociais. Sabe-se que não tem havido a necessária autonomia entre do PT e dos Movimentos Sociais em relação ao Governo Popular, como também não tem havido a necessária integração entre o PT e os movimentos sociais.

Neste sentido, mais que benvindo é fundamental esse quarto ‘pé’, não somente para ajudar a sustentar o tripé da transformação, mas também para renovar, arejar, animar (no sentido de dar ‘anima’, alma) às pessoas e instâncias que promovem a transformação - e para questioná-las e enfrentá-las quando for o caso.


Veja também

o grito em movimento 1

o grito em movimento 2

20/08/2009

grito dos excluídos 2009

Reforçando a Campanha da Fraternidade com o tema “Vida em primeiro lugar” e lema “A força da transformação está na organização popular”, a Arquidiocese de Vitória, através do Fórum das Pastorais Sociais, e os movimentos sociais estão articulando o Grito dos Excluídos 2009.

O evento, que conta com o apoio e a participação de todas as comunidades, escolas e organizações sociais, ocorrerá no dia 7 de setembro, com concentração a partir das 8 horas, na Praça dos Namorados. Todos devem levar vassouras para varrer o chão da corrupção e lavar as escadarias do Tribunal de Contas, do Tribunal da Justiça e da Assembléia Legislativa.

Com base na ação de Jesus Cristo que, diante da exclusão, defende os fracos e o direito a uma vida digna para todo ser humano, o Grito condena as formas de exclusão e as causas que levam o povo a viver em condições de vida precárias, muitas vezes sem perspectiva de futuro; denuncia a política econômica que privilegia o capital financeiro em detrimento dos direitos sociais básicos; propõe alternativas que tragam esperança aos excluídos e perspectivas de vida para as comunidades locais; promove a pluralidade e igualdade de direitos, bem como o respeito nas relações de gênero, raça e etnia e, também, pretende multiplicar as assembléias populares para discutir a organização social a partir do município, fortalecendo o poder popular.

“Ao invés de irmos ver e aplaudir tanques, canhões, metralhadoras, fuzis e outras armas que ferem e matam, vamos levar para a rua nossa indignação, nossa fé, nossa coragem, nosso compromisso, nossa alegria e nossa vontade de ver a vida sendo gerada e defendida. Vamos levar nosso grito, o grito de centenas, de milhares, de milhões de brasileiros que amam a vida acima de tudo e creem que um outro Estado é possível”, convida o coordenador de pastoral da Arquidiocese, padre Kelder Brandão.

“Vida em primeiro lugar, a força da transformação está na organização popular”

7 de setembro: vamos gritar por justiça e paz
O ano de 2009 vem sendo de muitas alegrias para a Igreja de Vitória. Os trabalhos e articulações pastorais em nossa Arquidiocese têm sido intensos. A cada dia, novas demandas e desafios surgem e necessitam de respostas.

No primeiro semestre foram muitas as realizações. Destacamos a Abertura da Campanha da Fraternidade, que transformou o Centro de Vitória num grande espaço celebrativo, com um evento profético. Um outro grande feito foi o 9º Encontro Estadual de CEB’s, que, à luz do tema “Ecologia e Missão”, reuniu centenas de pessoas para refletirem como a Igreja deve se comprometer diante de um tema tão atual e relevante.

“Vários foram os ‘gritos’ que surgiram antes, durante e depois desses eventos”, afirma Padre Kelder Brandão. E constata: “Anunciamos, denunciamos e incomodamos. Fomos cristãos, somos cristãos!”.
Vamos na fé, orando e lutando.

computador no lixo

eis um computador
no lixo. E todavia
o crânio de lata teve memória dentro
– gigabytes dela! –
fez as quatro operações
aceitou versos
no seu imaculado
vazio virtual.

agora já não soma
nem subtrai
nem geme poemas, nem sublinha
erros de ortografia.
os pingos de solda, precários
neurónios de metal
perderam a memória.

já que te antecipaste
companheiro
diz-me como é não funcionar.

e se a ferrugem dói.

a. m. pires cabral (macedo de cavaleiros - portugal)

ode ao vinil

uma agulha suja
por muitos acordes
suicidas enche-me
de catástrofes
entre o sentido
e a dissimulação
do seu destino

lá fora dançam impessoais
as personagens-fantasma
da poética mutilação
do eterno retorno
que lá dentro dança
fora de si

espero-me em silêncio
tal anjo perdido
poeticamente distorcido
pela palavra

espero-te ao espelho quebrado
sem nada para te dar
entre gemidos agudos e graves
na camisa de sete forças
da palavra

A. Dasilva O. (portugal)

a secção dos congelados

truncadas, indefinidas, passam
na memória como filmes mudos
pequenas histórias de amor
carnal. os grandes caudais da noite
sempre desaguam na tarde salobra
e rasa: janeiro amolece a tinta
das paredes, levamos à rua uma cara
mais fechada, e depois, na secção
dos congelados, não sabemos distinguir
o que sentimos além do frio que represa
as coisas todas: caminhamos sós

num privado bosque, convocamos
sombras que foram perdendo o nome
sinais que não transportam já
um sentido automático de desejo
ou sofrimento. e contudo, à revelia
das certezas que não quiséramos ter
acabamos sempre por tornar
às mesmas ruas, à noite insone
e imensa, onde nos dói descobrir
na companhia dos outros

o quanto nos reclama a solidão.

rui pires cabral (macedo de cavaleiros - portugal)

os amantes inadequados

Os meus amantes nunca
foram belos
magros, de veias grossas
esculpidos em osso
dramáticos, ternamente trágicos
até ao sorriso.

Os meus amantes eram difíceis
resistiam de modo selvagem
para logo se entregarem
resignados e impossíveis
com a altivez domesticada
a cabeça em baixo
olhando o meu sexo
destruídos pelo desejo
mais poderoso que o espírito.
Tristes.

Nenhum conquistou
os meus demônios
abriu as minha folhagem débil
e entrou
para não sair.

Nenhum me fez fanática
do seu sexo
me desviou a luxúria
para o centro da sua boca
concentrou a surpresa
nos seus passos arrastados
o prazer, no som
da sua voz categórica
na gravidez dos seus olhos.

Nenhum me fez habituar-me aos seus costumes
me criou a necessidade de o necessitar
e por fim se ofereceu a ministrar-me
a dose de si mesmo que
me faria depender-lhe, nem
tampouco me instalou
um tumor benigno
no útero.

E agora tudo é diferente
tudo é diferente.
E já não estou
Só.

Eva Vaz (Espanha)
tradução de Tiago Nené

duas vezes nada

"é assim, amiga. encontramo-nos
quando calha nos bares de antigamente
deixando que sobre o tampo azul
das mesas volte a pousar
um baço cemitério de garrafas.

constatamos o pior, os seus aspectos.
corpos e livros que foram ficando
por ler na voracidade da noite de Lisboa.
de facto, crescemos em alcoolémia
acordamos tarde, em pânico
e perdemos os dias e os dentes
com uma espécie de resignação.
não temos, ao que parece, serventia.

sorrimos um pouco, ao terceiro
gin, como quem renasce para a morte
seus gestos de ternura ou de exuberância.
talvez tenhamos calculado mal
o ângulo da queda, esta vitória
sem nobreza dos venenos todos.

mas agora é tarde. Tudo fechou
para nós, para sempre. O amor
o desejo, até o onanismo da destruição.
antes de procurares a esmola
do último táxi, fica esta imagem
parada, a desvanecer-se
no frio mais frio da memória:

não dois corpos sentados a trocarem
medo, cigarros e palavras póstumas
mas duas vezes nada, ninguém
o silêncio da noite destronando
as cadeiras onde por razão nenhuma
nos sentámos. Os anos, amiga, passaram."

manuel de freitas (vale de santarém - portugal)

17/08/2009

nós somos

Como uma pequena lâmpada subsiste
e marcha no vento, nestes dias
na vereda das noites, sob as pálpebras do tempo.

Caminhamos, um país sussurra
dificilmente nas calçadas, nos quartos
um país puro existe, homens escuros
uma sede que arfa, uma cor que desponta no muro
uma terra existe nesta terra
nós somos, existimos.

Como uma pequena gota às vezes no vazio
como alguém só no mar, caminhando esquecidos
na miséria dos dias, nos degraus desconjuntados
subsiste uma palavra, uma sílaba de vento
uma pálida lâmpada ao fundo do corredor
uma frescura de nada, nos cabelos nos olhos
uma voz num portal e a manhã é de sol
nós somos, existimos.

Uma pequena ponte, uma lâmpada, um punho
uma carta que segue, um bom dia que chega
hoje, amanhã, ainda, a vida continua
no silêncio, nas ruas, nos quartos, dia a dia
nas mãos que se dão, nos punhos torturados
nas frontes que persistem
nós somos
existimos.

António Ramos Rosa (Faro - Portugal)

beleza destroçada

gostava dessa espécie de beleza
que podemos surpreender a cada passo,
desvelada pelo acaso numa esquina
de arrebalde; a beleza de uma casa devoluta
que foi toda a infância de alguém,
com visitas ao domingo e tardes no quintal
depois da escola; a beleza crepuscular
de alguns rostos num retrato de família
a preto e branco, ou a de certos hotéis
que conheceram há muito os seus dias de fulgor
e foram perdendo estrelas; a beleza condenada
que nos toma de repente, como um verso
ou o desejo, como um copo que se parte
e dispersa no soalho a frágil luz de um instante.
gostava de tudo isso que o deixava muito a sós
consigo mesmo, essa espécie de beleza arruinada

onde a vida encontra o espelho mais fiel.

rui pires cabral (macedo de cavaleiros - portugal)

se o teu olho é simples...

...todo o teu corpo será luminoso
Começa por atentar ao que se passa entre a urze e as abelhas
à doce árvore entre a terra e o céu.
Sobe às alturas das pedras nuas,
estão difíceis estes modernos tempos para a contemplação,
na rarefacção dos lugares teofânicos.
Toma nos lugares mais baixos a beleza
de uma azeitona no silêncio do meio-dia estival.
Contemplações insignificantes
contemplações mais magnificentes.
Depois deves numerá-las: a cerimónia.
Para que germinem no teu vaso de ouro
e sobre elas desça o orvalho e o perfume dos cedros.
adelino ínsua (porto- portugal)

crepúsculo

a oliveira cresce de encontro ao céu
com a luz dourada entre os ramos.
há um perfume de rosas murchas
o som do mar lá muito ao longe.
calam-se por fim os ecos, as coisas.

todos os caminhos levam à noite
à sua cilada de estrelas e penumbra.

josé mário silva

07/07/2009

dança de outono



os diuturnos duros troncos
aspiram a adormecer
ao menos mínimo sono
no veludoso dourado
leito de folhas filhas

texto e fotografia: roberto soares

dança de inverno




num ninho
de nuvens
náufragos
navios
rodopiam
sem norte
à sorte
de volta ao vasto
útero da morte


texto e fotografia: roberto soares

06/07/2009

silêncios e desvelos I

Os cinco poemas de Cecília Meireles, abaixo publicados, somente vieram a público em uma edição póstuma, “Cânticos”, publicada em 1982, pela Editora Moderna.
São 26 peças admiravelmente singelas, com um quê de aforismos. Na verdade, numa primeira leitura é como se não passassem de fórmulas sobre o bem viver, vazadas numa atmosfera de despojamento - no melhor estilo dessas supostas sabedorias orientais, oferecidas aos montes em livrarias, seitas e sites, como remédios existenciais milagrosos, eivados de lições sobre renúncia e autoconhecimento, estimulantes de desapego às ilusões e de indiferença às contradições deste mundo terreno.

Mas esse aparente esquematismo dos poemas é facilmente ultrapassado numa leitura minimamente cuidadosa. Aí, sim, percebe-se que há neles uma certa atmosfera filosófica, ou melhor, de maturidade existencial, que faz o leitor, mais do que refletir, sentir que se tratam de impressões realmente amadurecidas, de uma fala que reflete de fato a vivência de alguém, que se trata de um dizer verdadeiro, longa e pacientemente produzido no interior, e não apenas reproduzido do exterior.

Aliás, a esse respeito, leia o texto acerca da poesia de Rilke, no qual são apontadas algumas aproximação entre Cecília e o poeta alemão.
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Claro que essa sugestão de afinidade entre os dois poetas não tem a presunçosa pretensão de inventar filiações e referências para a poesia de Cecília Meireles. Apenas situá-la num plano diferente, realçar a atmosfera meio filosófica de seus poemas. Pela maior parte da poesia de Cecília perpassa uma discreto diálogo com o silêncio e a densa presença das coisas, diálogo feito de delicadeza e nostalgia - como se sua poesia murmurasse uma secreta saudade e lamento por aquele perecimento das coisas e de nós próprios no meio das coisas e do tempo.
Essa talvez a grande diferença entre a poetisa brasileira e o poeta alemão. Rilke é mais denso, trágico, a sua fala é mais carregada de perplexidades e interrogações. Cecília é mais singela, menos metafísica e mais terrena, menos discursiva e mais ‘retratista’ (‘Retrato natural’, uma de suas obras) das coisas. Mas, sem querer entrar em sutis e profundas considerações acerca daquilo que gestou a obra de um e de outra, vale apenas lembrar que o mundo de Rilke é outro, a história vivenciada pelo poeta alemão é bem diferente daquela vivida pela poeta brasileira - estavam cercados por coisas e histórias diferentes.

02/07/2009

cântico I

Não queiras ter Pátria
Não dividas a Terra
Não dividas o Céu.
Não arranques pedaços ao mar.
Não queiras ter.
Nasce bem alto,
que as coisas todas serão tuas.
Que alcançarás todos os horizontes.
Que o teu olhar, estando em toda parte
te ponha em tudo
como Deus.
cecília meireles

leia também o anarquismo e cecília

cântico XII

Não fales as palavras dos homens.
Palavras com vida humana.
Que nascem , que crescem, que morrem.
Faze a tua palavra perfeita.
Dize somente coisas eternas
Vive em todos os tempos
Pela tua voz .
Sê o que o ouvido nunca esquece.
Repete-te para sempre.
Em todos os corações.
Em todos os mundos.
cecília meireles

cântico XIX

Não tem mais lar o que mora em tudo.
Não há mais dádivas
para o que não tem mãos.
Não há mundos nem caminhos
para o que é maior que os caminhos e os mundos.
Não há mais nada além de ti.
Porque te dispersaste...
Circulas em todas as vidas
pairas sobre todas as coisas
e todos te sentem
sentem-te como a si mesmos
e não sabem falar de ti.
cecília meireles

cântico XX

Não digas que és dono.
Sempre que disseres
Roubas-te a ti mesmo.
Tu, que és senhor de tudo...
Deixa os escravos rugirem
querendo.
Inutiliza o gesto possuidor das mãos.
Sê a árvore que floresce
que frutifica
e se dispersa no chão.
Deixa os famintos despojarem-te.
Nos teus ramos serenos
Há florações eternas
E todas as bocas se fartarão.
cecília meireles

cântico XXV

Sê o que renuncia
altamente:
sem tristeza da tua renúncia!
Sem orgulho da tua renúncia!
Abre a tua alma nas tuas mãos
e abre as tuas mãos sobre o infinito.
E não deixes ficar de ti
nem esse último gesto!
cecília meireles

sugestão

sede assim - qualquer coisa
serena isenta, fiel

flor que se cumpre
sem pergunta

onda que se esforça
por exercício desinteressado

lua que envolve igualmente
os noivos abraçados
e os soldados já frios

também com este ar da noite:
sussurrante de silêncios
cheio de nascimentos e pétalas

igual à pedra detida
sustentando seu demorado destino
e à nuvem, leve e bela
vivendo de nunca chegar a ser.

à cigarra, queimando-se em música
ao camelo que mastiga sua longa solidão
ao pássaro que procura o fim do mundo
ao boi que vai com inocência para a morte

sede assim qualquer coisa
serena, isenta, fiel.

não como o resto dos homens.
cecília meireles

silêncios e desvelos II


Nos ‘Cânticos’, publicados acima, vemos confirmar-se uma certa afinidade de Cecília Meireles com o poeta alemão Rainer Rilke, que tem alguns de seus poemas publicados abaixo. Ambos são poetas de coisas, poetas que reverenciam o mundo que nos cerca, na sua simples e ao mesmo tempo enigmática aparição: paisagens, casas, cidades, céus, árvores, nuvens, o próprio tempo. Sabe-se que Rilke desenvolvia, principalmente através de suas cartas, quase que uma estética e uma metafísica para explicar sua própria criação poética. Para ele, escrever era uma forma de buscar aquilo que chamava de ‘o espaço interior do mundo’. Escrever seria uma decorrência do cuidado que deveríamos dedicar às coisas, era uma forma de retratar com palavras o ‘indizível’ que há na simples presença dos entes.

Para Rilke, seríamos os “os mais perecíveis entre os perecíveis” de todos os entes, ou seja, os únicos a tomar consciência não só de nossa finitude e precariedade mas também da finitude e precariedade de todos os entes, de todas as coisas que nos cercam. Para Rilke, então, deveríamos existir no mundo como viventes perplexos e admirados, a testemunhar acerca da queda e da precariedade de todas as coisas. E escrever seria uma forma de trazer para o mundo um pouco desse cuidado para com o perecimento das coisas e de nós próprios. Na verdade, escrever seria dar um duplo testemunho, pois é através da escritura que se realizam a delicadeza e o silêncio que existem no perecimento e na finitude das coisas e de nós próprios.

Ao reverenciar e registrar a precariedade, aquele que escreve traz para o ser o que ainda não existe, acrescenta entes ao ser, dá vida ao indizível que há no ser e nos entes, e isso não para evitar o perecimento ou para deixar uma espécie de memória nobre daquilo que se vai, ou qualquer coisa do tipo – escrever seria algo mais profundo, algo mais ôntico e cósmico, e ao mesmo tempo mais inútil, ou menos ‘útil’, é simplesmente dar voz àquilo que não fala, pensa ou sente, mas que no seu silêncio está tão ou mais presente do que ao ser do que nós.

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Rilke é de fato um dos representantes da tradição da poesia filosófica ou metafísica alemã. Aliás, percebe-se como a poesia e o pensamento de Rilke ecoam a filosofia de Heidegger - mas tendo escrito sua obra antes do filósofo alemão. Em sua filosofia Heidegger irá apresentar conceitos como o cuidado e o desvelamento que devemos ter em relação ao ser, a preocupação em resgatar o sentido de ser que se manifesta na aparição das coisas; enfim, naquilo que interessa aqui, há a mesma preocupação, o mesmo desvelo que há em Rilke com a aparição e desaparição das coisas.

Em ambos há também o cuidado em não permitir que sejamos demasiadamente envolvidos pela tecnologia modernosa, com a consequente instrumentalização e padronização da existência. Heidegger fala da existência autêntica em oposição a uma existência inautêntica, a uma existência padronizada, fabricada por uma modernidade na qual o que alimenta a engrenagem é a necessidade de que o indivíduo fale o que todos falam, coma o que todos comam, pense o que todos pensam, sinta o que todos sintam - aliás, uma engrenagem que é extremamente competente em fazer com que sintamos medo e desconforto ao não pensarmos e sentirmos uns iguais aos outros.

Roberto Soares

01/07/2009

rilke - fragmentos

"Não existe uma coisa na qual eu não me encontre
Não é só minha voz que canta: tudo ressoa."

"Aqui, entre aqueles que passam, sê, no reino do declínio
Sê o cristal que ressoa e no fragor da ressonância já se quebrou."

"Um ser sem invólucro, aberto à dor.
Atormentado pela luz, abalado por cada som."

"Mas quando, em qual de todas vidas
Somos nós, enfim, seres que se abrem para acolher?"

rainer rilke (extraido de 'O espaço literário', de Maurice Blanchot, ed. Rocco, 1987)

através

Através de todos os seres para o único espaço:
espaço interior do mundo. Silenciosamente voam as aves
através de nós. Ó eu que quer crescer
olho para fora e em em mim que a árvore cresce!
rainer rilke (extraido de 'O espaço literário', de Maurice Blanchot, ed. Rocco, 1987)

quem quer que sejas

quem quer que sejas: deixa tua alcova
da qual já sabes tudo que desejas;
teu lar na tarde, longe, se renova
quem quer que sejas

com teus olhos exaustos, que ainda a custo
entre os gastos umbrais logram passar
ergues inteira a sombra dum arbusto
posto ante o céu - esguio, singular

e tens já pronto o mundo; estranho assim
como palavra que amadurecesse
no silêncio, e que teu olhar esquece
quando lhe captas o sentido, enfim...

rainer rilke (O livro de horas, ed. Civilização Brasileira, 1994)

legado

navegar o centímetro do gesto
no mar infinito do verbo

é teu o que te for dado:
o olhar cansado preso à teia
o medo já domado da fera
o beijo.

tudo o mais
entrega.
mariana botelho

Também vão nesse mês dois poemas de Mariana Botelho. O seu poema ‘Legado’ parece dialogar com os ‘Canticos’ de Cecília Meireles, com a diferença de ter sido construído numa fala um pouco mais enxuta e com uma imagética mais simbólica, ou mais cerrada. Já ‘Paraíso’ remete tanto a Cecília quanto a Rilke, com sua prece feita às coisas e à solitude do poeta em meio ao fluxo do tempo; mas, claro, com uma fala toda própria de Mariana Botelho, ou uma fala mais apropriada para estes tempos de urgência.

Aliás, a atração que a poética de Mariana exerce parece estar um pouco ligada à essa faculdade de explorar e explicitar veios esquecidos veios da poesia; mesmo em tempos de falas e vivências fragmentadas, atomizadas, bombardeadas por signos e velocidades, a sua poesia se detém em essências, silêncios, solidões; enfim, a sua poesia tem não apenas o dom, mas encontra também o tom certo, o tom próprio da contemporaneidade, para trazer para este tempo de urgências aquelas conversas diretas e delicadas com o ser das coisas, apontadas nos textos acima, quando falei de Rilke e Cecília.

paraíso

aqui temos todas
as horas do
dia

prata escorre dos
lajedos
depois da
chuva

lágrimas engrossam o
canto dos pássaros o
uivo dos
cães

estar só
é dádiva
mariana botelho

minha cidade: padre paraíso, vale do jequitinhonha, minas - aqui somos quase sertão

anarquismo e cecília

Ao lado do registro da vertente filosófico-melancólica da poesia de Cecília Meireles, abordada em silêncios e desvelos II, os ‘Cânticos’ remetem-nos também a uma certa postura libertária e anarquista. Há neles um caráter de despojamento e de afirmação da liberdade em relação a qualquer ordem estabelecida, uma certa certa negação dos valores dos quais essa mesma ordem se utiliza para capturar as liberdades e espontaneidades que somos todos nós, ou que deveríamos ser, e no lugar da negação os poemas afirmam a atenção, o cuidado que devemos conosco mesmos, para que exercitemos mais o nosso desvelo para com as para com as coisas que estão aí, na sua gratuidade, leveza e densidade.

E, nesse ponto, podemos também tranquilamente retornar ao vínculo entre a poesia de Cecília e as cosmovisões das civilizações do Oriente, mas com aquilo que essas cosmovisões têm de consistente e de milenar, e não com os seus simulacros e fragmentos - tal como apontado em silêncios e desvelos I . Pois se há algo que a maioria dessas chamadas sabedorias propõem, é exatamente a necessidade de o indivíduo se despojar de seus enlaces excessivos com o transitório, o ruidoso, o repetitivo, o fácil e o fenomenal, que nos distraem do essencial e do sentido das coisas e de nós próprios no meio das coisas.
Aliás, parece que também haveria algo a dizer acerca da afinidade entre movimento libertário e as cosmovisões do Oriente, mas numa outra ocasião, num texto mais específico.

De qualquer forma, não se pretende aqui vincular Cecília Meireles e movimento anarquista, apenas registrar que são em poemas como esses que se pode perceber com mais nitidez a incontestável ponte que existe entre a arte e as propostas libertárias. Tanto quanto a autêntica arte, a visão libertária e anarquista é feita de riscos, de disposição criadora, de confiança no potencial fraterno dos indivíduos, de ênfase na celebração da vida e do mundo, ao invés da ênfase na conquista, na autoridade e no poder; e tanto a arte quanto a posição libertária carregam consigo a necessária lucidez e sensibilidade para perceber que, enquanto existentes, somos apenas precários mas fascinantes instantes no fabuloso mistério do tempo e do cosmos.
Essa afinidade entre arte e anarquismo com certeza que os cânticos de Cecília nos mostram - dentre tantos milhares de poemas de milhares de poetas. E como dito acima, os 'Cânticos' refletem maturidade existencial, apresentam-se de fato como o dizer verdadeiro de alguém. Aliás, vale uma consulta tanto ao conceito de dizer verdadeiro quanto ao conceito de parresiasta, presentes por exemplo no pensamento do filósofo Foucault, e difundidos entre alguns expoentes e militantes do anarquismo. Fica para uma outra oportunidade uma abordagem mais demorada acerca das relações do dizer verdadeiro da arte e dos anarquistas.
Leia, entre outros, o cântico I