21/05/2009

a hora adiada

Depois de mim, este miserável
quarto de pensão, quantos não abrigará?
os olhos se arrastam pelas coisas
como os de quem, no limiar da morte
olha pela última vez o mundo de que se desgarra

Os parcos móveis não me explicam
Esses cubos de concreto que compõem a cidade
não me explicam
a lua, distante e neutra, as estrelas
omissas em sua intangibilidade
não me explicam

Mas porque dessa coisa indefinida
e indócil e fechada que sou
vem esta vaga esperança
de me explicar a mim
não me suicido
por hoje

waldo motta (o signo na pele, 1981)

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