05/08/2011

a tirania da beleza

Pe. Alfredo J. Gonçalves, CS

São no mínimo intrigantes os títulos de livros como A tirania do prazer (Jean-Claude Guillebaud), O império do efêmero (Gilles Lepovetsky), Estrangeiro a si mesmo (Marc Augé) e Modernidade líquida, Amor líquido ou Medo líquido (Zygmunt Bauman), entre outros. Os autores expressam um contexto sociocultural onde as pessoas parecem fazer parte de um teatro de marionetes, cujos fios, controlados por forças invisíveis, adquirem maior eficácia em termos de sedução e fascínio. Por trás ou acima do palco iluminado, dedos igualmente invisíveis e poderosos manipulam gostos, vontades e desejos, na busca de um modismo permanente.

Surge em toda sua nudez o contraste entre o mundo real e o virtual. No primeiro, o cotidiano de milhões de cidadãos traz a marca da luta pelo trabalho, a moradia e a educação, pela saúde, a segurança e o transporte, pelo alimento, a roupa e o lazer. Um dia-a-dia prosaico e fastidioso, permeado de dúvidas, angústias e contradições. Já no mundo virtual, grande parte da população se move pelo glamour do fashion show, as luzes e sons do Shopping Center, o desfile das modelos ou candidatas a miss Brasil ou miss Universo, os caprichos das estrelas e celebridades da fama, os apelos das últimas novidades no mundo informática, a profusão de cirurgias plásticas, o som metálico dos vídeos-game, e assim por diante.

Num centro indeterminado, também ele invisível, um cérebro e um olho, oniscientes, onipresentes e onipotentes, dirigem o grande espetáculo. Ou, ao contrário, serão olhares múltiplos e diferenciados, estrategicamente distribuídos nos pontos nevrálgicos das redes virtuais? Seja como for, o universo da economia globalizada e da padronização cultural mais parece um gigantesco Big Brother. Cenário que nos remete ao conceito de “sociedade panoptizada”, extraído do livro Vigiar e Punir, história da violência nas prisões (Michel Foucault). Vale notar o número de palavras em língua inglesa nos dois parágrafos anteriores, o que pode nos orientar na descoberta das torres de comando onde se escondem os deuses – no plural – dessa monumental “divina comédia” ou “comédia humana” (outros títulos das grandiosas obras de Dante Aleghieri e Honoré de Balzac, respectivamente).

Em meio a esse choque, o indivíduo se vê afogado pela enxurrada da publicidade agressiva e permissiva, ao passo que, por outro lado, corre atrás das necessidades básicas de uma sobrevivência penosa e precária. Diariamente prensado entre dois chamados igualmente pungentes. Sonha com o ideal e tropeça no real. Bate as asas para subir ao céu e se vê acorrentado às urgências terrenas. O pensamento voa, os pés se arrastam lenta e laboriosamente. Almeja brilhar como estrela, mas não passa do reflexo de um planeta. A tirania da beleza, de maneira invasiva e estridente, tanto mais forte quanto sub-reptícia, dita as regras, as medidas, o vaivém da moda, os produtos necessários para “manter-se em dia”, os padrões modernos, as fórmulas mágicas para emagrecer ou melhorar a perfomance... Diante de tantas exigências artificiais para ser alguém, o indivíduo se descentra e, no dizer de Marc Augé, a própria casa invadida por tantas sugestões pode se converter em um “não-lugar”.

Prevalece a busca por um corpo perfeito, obcecado pela balança, pelo espelho, pela foto estampada ou pelo bolso – talvez os órgãos mais sensíveis do corpo humano! Ou ainda, a visão mágica de um sucesso instantâneo, revestido de luxo e poder. Multiplicam-se por toda parte os Ronaldinho(s), Neymar(s), Michael Jackson(s), Henry Porter(s) ou as Gisele Bündchen(s), Amy Winihause(s) Elis Regina(s), Lady Diane(s)... De passagem, que tal um voo de pássaro pelas páginas dos jornais ou pelos noticiários televisivos dos últimos anos! Bastaria isso para dar uma idéia de quantos jovens, de ambos os sexos, foram vítimas às vezes fatais dos aplausos de uma platéia eletrizada e enlouquecida, da idolatria massificada, ou, mais concretamente, da lipoaspiração, das overdoses de álcool e droga, do da riqueza fácil e precoce, etc. Rojões que se apagam, despencam e viram cinzas de forma tão veloz e abrupta como haviam subido, explodido na “sociedade do espetáculo” (Guy Debord) e iluminado o céu de luzes e cores. Espigas ceifadas em plena primavera: murchas e mortas antes da colheita ou do outono!

Nos termos de Bauman, com frequência inusitada, a fama, o sucesso e o dinheiro se liquidificam, uma vez que nem sempre se erguem sobre alicerces sólidos. Vale o mesmo, não raro, para os valores, as relações e os direitos humanos. A metáfora do “ficar” é sem dúvida um exemplo emblemático. Namorar exige compromisso, carinho, compreensão, mudança, diálogo, renúncia, capacidade de perdoar, respeito à alteridade... Numa palavra, renascimento e crescimento recíprocos. O diabo é que o ato de nascer e crescer pressupõe insegurança, impotência e sofrimento. O amor é flor exposta ao vento e às intempéries. Por que seguir esse caminho longo, se existem atalhos mais curtos? Por que suportar a dor, se o mercado dispõe de analgésicos para tudo? Por que ruminar fracassos, se a lição acaba saindo tão cara?

Claro, melhor ficar, utilizar o outro para o prazer momentâneo. De preferência alguém sem rosto, sem nome, sem endereço, sem família e sem história... Dá menos trabalho e tudo se resolve sem conseqüências embaraçosas. A intimidade pode trazer sérios problemas. Mais fácil cada um ficar na sua, numa boa! E se houver algum acidente de percurso, uma gravidez inesperada e indesejada, por exemplo? Bem, neste caso a mulher que resolva! Isso explica porque conhecemos tão bem ( e julgamos tão mal) as mães solteiras, mas em geral ignoramos o paradeiro dos pais solteiros. Explica também a quantidade de abortos e o abandono de tantos recém-nascidos, muitas vezes por adolescentes e jovens, incapazes de levar adiante, e sem qualquer ajuda, semelhante “fardo”. Numa sociedade histórica e estruturalmente patriarcal, o peso de uma relação fugaz e irresponsável recai quase que inteiramente sobre o sexo feminino.

Também as relações se liquidificam. De duas uma: ou se descartam as pessoas da mesma forma que os objetos, ou cultivamos um amor doentio e possessivo. O que joga luz sobre dois extremos tão comuns na sociedade atual. De um lado, troca-se de namorada, de amigo ou até de esposa quase como se troca de roupa; de outro, um rompimento da relação pode significar um risco de morte, na imensa maioria dos casos para a mulher. Leviandade ou tirania, dois conceitos que, da mesma forma que outros extremos, também se tocam e andam juntos. Ou se joga pela janela um relacionamento de anos ou décadas, ou, pelo contrário, se inibe e intimida qualquer idéia de rompimento. Muitas vezes, sob a mira de um revólver e a ameaça de perseguição, sequestro ou morte.

A ansiedade entre a realidade e a ilusão acaba sendo elevada à máxima potência pelos apelos de um marketing pesado e repetitivo. Um verdadeiro tsuname de mercadorias invade, varre e devasta a vida e a casa de cada família. A força, a insistência ou a subtilidade da propaganda cria e mantém necessidades artificiais. Evidencia-se, assim, a dimensão dupla da globalização: extensiva, na medida em que procura incorporar novas regiões e países, novas matérias-primas e pessoas à economia de mercado; e intensiva, no sentido de ampliar a fé e o consumo dos que já professam o credo capitalista. Não poucos passam a desejar coisas que nem sempre sabemos para que servem, se é que servem para algo! As novidades exibem sua dança contínua diante dos olhos, é preciso atualizar-se, fazer como todo mundo!

A tirania se instala pelo lado mais fraco do desejo: propõe, impõe, padroniza e impera. Mas o faz de forma diferenciada e perversa. Enquanto uns são despertados para o desejo e a compra, a população em geral o é somente para o primeiro, pois não pode dar-se ao luxo de adquirir tudo o que deseja. Imaginemos, por exemplo, os sentimentos de um trabalhador de baixa renda, frente à telinha apelativa juntamente com seus filhos pequenos, às vésperas do Natal ou do Dia da Criança! Esta aponta o dedo e deseja o brinquedo, profusa e estrategicamente iluminado. Os meninos e meninas de Fulano, Sicrano e Beltrano têm carrinho de controle remoto, bonecas capazes de falar e chorar, jogos que brilham e emitem vozes metálicas...

Mas o pobre pai tem consciência da dispensa vazia (quando há uma), do aluguel atrasado, das contas a pagar, das exigências da escola, dos remédios, do trocado para o ônibus... Daí o sentimento de inferioridade, e às vezes de fracasso. A felicidade passa a ser sinônimo de ter, consumir, aparentar, renovar, descartar. Frágil e efêmera felicidade, incapaz de resistir à primeira queda ou desilusão. Pior ainda, essa tirania vem acompanhada de uma cegueira inevitável para outras dimensões da beleza, tais como a das relações humanas, do silêncio da oração e meditação, da sensibilidade estética, da compaixão e solidariedade. A beleza se reduz a um “eu” atomizado, onde as partículas dos interesses, afeições e sentimentos gravitam em torno do próprio núcleo, quando não do próprio corpo cristalizado numa estátua ou num fóssil.

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