05/10/2011

uivo

E  a denunciar esses tempos  de arte confusa, repetitiva, plastificada, aqui vai um poema do espanhol Juan Bonilla, a  lembrar, com bastante vigor, porque a fruição da arte, muitas vezes, provoca nas pessoas mais tédio do que  êxtase,  comunhão ou admiração, nestes presunçosos tempos pós-modernos.
Claro que a "ânsia de ganhar muito dinheiro" é apenas um dos fatores, afinal também colaboram para  essa indigência a preguiça intelectual, a inapetência criativa e a ausência de familiaridade com aquilo que  a tradição de poetas, escritores, pintores, compositores etc deixou de forte e de sublime, de respeitoso e de reverente, de ousado e de transgressor (preguiça, inapetência e desconhecimento que, aliás, estão muito mais presentes na arte e nos artistas da pós-modernidade do que a crítica tem a coragem de assinalar); e tudo isso, claro, misturado com muita presunção tola,  ou se se preferir mais pós-moderno, misturado com muita 'atitude'.

eu vi os melhores da minha geração
destruídos pela ânsia de ganhar muito dinheiro.
poetas conformando-se com letras de canção,
pintores desenhando sapatos para o estrangeiro.

o nosso Truman Capote aprendeu a lição
e emprega o seu talento de ávido comentador
num programa estúpido de televisão.
mas tem um chalé, dez noivas, cem admiradores.

quem estava destinado a fazer grande arte
ganha milhões com sloganes baratos.
o vanguardista exímio escreve em toda a parte.*

e o artista rebelde que viveu numa gruta
decidiu atraiçoar-se, farto de maus tratos.
dedica-se ao mesmo que os outros: é puta.

juan bonilla - espanha,  transcrito de trapézio

*variante: "Quem estava destinado a fazer a grande novela / ganha milhões com sloganes baratos. / O vanguardista exímio escreveu uma sequela."

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