18/03/12

drummond e pellegrino: minérios e mineiros

este poema de Hélio Pellegrino, seja pela sua atmosfera mineral,  seja pela temática de Minas, me lembra um pouco o famoso poema de Drumond, confidências de um itabiranopode ser uma associação bastante pessoal, mas de qualquer forma  ambos vêm bem a propósito, como complemento  à denúncia divulgada aqui, das pretensões da corrosiva Vale (fraudulentamente privatizada) em promover explorações minerais nas cercanias da Serra da Piedade.

quadrilátero ferrífero

Em tuas colinas rasas
não há vinhedos nem olivais.
Há — púrpura difícil — a hematita
uva das Minas Gerais.

Uva sáfara, mineral
fermentando uma pinga de poeira
cujo álcool — lâmina de rocha e cal —
torna triste a embriaguez mineira.

Embriaguez vertical, contida
cujas cores explodem dentro
do peito: ocre violento, lacre
e prata, sol — e lua ferida.

hélio pellegrino - minas ( 1924-1988)
 mais sobre o autor em alguma poesia

15/03/12

o céu das gruas

poema bem a propósito, nestes tempos cinzentos para os europeus, quando dirigentes, banqueiros e especuladores, com  a ajuda de uma mídia e de uma intelectualidade sabujas,  conseguem transformar a crise do capital em crise do trabalho, e então trabalhadores e pessoas  são descartados como peças inúteis.

o céu das gruas 
          
Lázaro Inocêncio do Nascimento
manobrador de gruas na auto-estrada
transmontana, sai do túnel do Marão
para a negra luz do desemprego
e das carências em família. Manobrou

com perícia a cegonha de ferro no céu
da montanha, dialogou com Deus
e com os pássaros sociáveis; olhou
para o fundo de si e concluiu que na terra
ou nas nuvens a vida é sempre abismo
onde a altura é uma questão menor. Hoje
desceu de vez as escalas íngremes
findou a concessão do troço e do capital
agora está entregue a si, que o mesmo é dizer
ao destino de ninguém. Lázaro
Nascimento diz que com esta descida
à terra morreu um pouco, e assim à terra
descerá definitivamente em tempo certo
sem estranheza de maior. Não carece
pois o Mestre de o ressuscitar por mais

que alastre o pranto das irmãs
e os direitos da quadra. Na ferrugem
definitiva dos materiais o sinal perene
de que não vale a pena o esforço
de retirar os panos uma e outra vez.
fernando de castro branco  - portugal

de hospedaria camões

14/03/12

em viagem... e um pouco de 'dala'

Em viagem desde o dia 09, sexta. Em retiro, acolhido pelas montanhas das Minas Gerais. No caminho do campo. Desde então, somente postagens previamente programadas para publicação: poemas, literatura, vídeos (música, cinema). 
A partir do dia 23 é que estarei em condições de acompanhar e editar temas e fatos locais, nacionais e globais. Mas, já que no meio da montanhas de Minas, um techo de meu "Dala", ainda não publicado:

"(...)Saíam de casa geralmente às cinco da manhã, chegavam à Usina, local frio e enfumaçado, às oito horas e só retomavam a viagem à tardinha. Ele aguardava do lado de fora, no terreno junto à rodovia e nas barracas, dentro da Usina só podiam entrar motoristas e funcionários, adultos enfim.
Quase doze horas espreitando e espreitando-se, jogando-se no (e jogando com o) tempo inútil amontoado à sua volta, ele fazendo por ignorar a profusão de montanhas úmidas e verdes que envolviam-no, envolviam a Usina, com seus fornos e máquinas zunindo inacessíveis (para ele brilhantes e futuristas), com o sem número de caminhões e motoristas que iam e vinham; ele tentando fixar-se em máquinas, caminhões e pessoas de gestos apressados ou mecânicos ou indolentes, do que ter que

saber da solidão das montanhas
e compreender a prisão de Deus

compreender os espaços inabitados entre elas, montanhas e espaços inviolados sucedendo-se uns aos outros em olímpico mutismo, ele, ainda que não soubesse, achando-se extenuado por aquela mistura de humano e de divino que o agarrava de todos os lados. Impaciência, Impaciência.
E, vez por outra, também uma fome cômica, quando ele e seu pai ainda não sabiam de um restaurante nas proximidades da Usina, e ele tinha que se contentar com biscoitos, queijos e sanduíches surgidos melancólicos nas barracas.

De bom grado, então, ao entardecer ele se reacomodava na cabine, o desejo interrompido, mas conservado e talvez acrescido, de ganhar o asfalto como uma ave qualquer ganhava o espaço: percorrer, percorrer, em silêncio percorrer a terra estrada mundo, sabendo que o próximo ponto de descarga, e de espera, ainda estava longe, ainda estava depois da noite que se avizinhava. Na última encosta, de onde ainda se via a Usina, ele se voltava e ainda via a Usina. Apesar da demora, tristeza de despedida, mitigada pela quase certeza de que voltaria. Já escurecendo, ele se deitava no chão da cabine: um pouco de repousono.

Mas o desconforto e o cansaço ansiosos, que haviam se acumulado durante o tempo de espera fora da siderúrgica, voltavam, em menor grau é verdade, após as primeiras dezenas de quilômetros de subidas, descidas e curvas; ele sobressaltava-se, principalmente, com as curvas que pareciam puxar o caminhão agora pesado para fora da estrada, para os despenhadeiros que ladeavam a rodovia nas proximidades de Ouro Preto e Itabirito.

Tudo tornava-se, então, um misto de cansaço, medo e felicidade: a cadência gostosa e com um quê de poderosa do 1113 ocupando a estrada, o ronco acolhedor do motor que também aquecia o chão da cabine, a pergunta “pai, onde vamos jantar?”, formulada após algumas dúvidas sobre dormir ou não dormir, afinal dormir depois de um “vamo ver se a gente agüenta até o Água Limpa” (que ainda estava longe), adivinhando na noite as passagens velozes dos outros caminhões, ora vindo em sentido contrário, ora sendo arduamente ultrapassados pelo 1113, ora corajosamente ultrapassando o caminhão deles, roncando, bufando.

Sua consciência ingênua e sonhadora via algo como um gesto de solidariedade nesses encontros ruidosos sob o negrume frio, sua consciência frágil e perplexa via neles gestos de abandono e mútua indiferença; encontros e desencontros nebulosos, necessários."
(Roberto Soares, em "Dala", cap. 3) 

13/03/12

o sal da língua

Escuta, escuta: tenho ainda
uma coisa a dizer.
Não é importante, eu sei, não vai
salvar o mundo, não mudará
a vida de ninguém – mas quem
é hoje capaz de salvar o mundo
ou apenas mudar o sentido
da vida de alguém?
Escuta-me, não te demoro.
É coisa pouca, como a chuvinha
que vem vindo devagar.
São três, quatro palavras, pouco
mais. Palavras que te quero confiar.
Para que não se extingue o seu lume
o seu lume breve.
Palavras que muito amei
que talvez ame ainda.
Elas são a casa, o sal da língua.

eugénio de andrade  - portugal    (1923- 2005)

de lusofonia poética

12/03/12

volver a los 17

um pouco de memória, resgatando esse clássico  de nuestra américa, neste admirável encontro entre a doce guerreira argentina  mercedes sosa milton,  o menestrel maior das minas gerais.

um pouco mais desse encontro entre minas e a latinoamérica, extraído do wikipedia (destaques meus):
"Habitualmente de costas para a música de “nuestros hermanos” latino-americanos, o Brasil começou a despertar para a riqueza da voz de Mercedes Sosa em 1976, após um dueto da cantora argentina com Milton Nascimento. A faixa “Volver a los 17″, da compositora chilena Violeta Parra - de quem Mercedes foi uma das principais intérpretes -, virou um dos maiores destaques do hoje clássico álbum “Geraes”. A partir daí, a barreira da língua não mais impediu que brasileiros se apaixonassem pelo marcante timbre de contralto de Mercedes Sosa e por seu repertório, que incluía desde canções folclóricas a músicas de conteúdo político e social.
"
e pensar que o fantástico da rede bobo já ofereceu magias assim ao seu público, em pleno domingo à noite.
depois do vídeo,  a letra da música, em espanhol e português. lembrando que a autora da música é a chilena  violeta parra e não mercedes sosa.

Volver a los diecisiete después de vivir un siglo
Es como descifrar signos sin ser sabio competente,
Volver a ser de repente tan frágil como un segundo
Volver a sentir profundo como un niño frente a dios
Eso es lo que siento yo en este instante fecundo.

Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Como el musguito en la piedra, ay si, si, si.

Mi paso retrocedido cuando el de usted es avance
El arca de las alianzas ha penetrado en mi nido
Con todo su colorido se ha paseado por mis venas
Y hasta la dura cadena con que nos ata el destino
Es como un diamante fino que alumbra mi alma serena.

Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Como el musguito en la piedra, ay si, si, si.

Lo que puede el sentimiento no lo ha podido el saber
Ni el más claro proceder, ni el más ancho pensamiento
Todo lo cambia al momento cual mago condescendiente
Nos aleja dulcemente de rencores y violencias
Solo el amor con su ciencia nos vuelve tan inocentes.

Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Como el musguito en la piedra, ay si, si, si.

El amor es torbellino de pureza original
Hasta el feroz animal susurra su dulce trino
Detiene a los peregrinos, libera a los prisioneros,
El amor con sus esmeros al viejo lo vuelve niño
Y al malo sólo el cariño lo vuelve puro y sincero.

Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Como el musguito en la piedra, ay si, si, si.

De par en par la ventana se abrió como por encanto
Entró el amor con su manto como una tibia mañana
Al son de su bella diana hizo brotar el jazmín
Volando cual serafín al cielo le puso aretes
Mis años en diecisiete los convirtió el querubín.

(violeta parra - chile)

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Voltar aos dezessete depois de ter vivido um século
É como decifrar sinais sem ser sábio competente
Voltar a ser de repente tão fragil como um segundo
Voltar a um sentir profundoe como uma criança ante Deus
Isso é o que sinto eu neste instante fecundo

Vai se envolvendo, envolvendo
Como no muro a hera
E vai brotando, brotando
Como o musgo na pedra
Como o musgo na pedra, ai sim, sim, sim.

Meu passo retrocede quando o teu avança
A arca das alianças penetrou em meu ninho
Com todo seu colorido tem passeado por minhas veias
E até a dura cadeia com que nos prende o destino
Como um diamante fino que ilumina minha alma serena

Vai se envolvendo, se envolvendo
Como no muro a hera
E vai brotando, brotando
Como o musgo na pedra
Como o musgo na pedra, ai sim, sim, sim.

O que pode o sentimento, não tem conseguido o saber
Nem o mais claro proceder, nem o maior pensamento
Tudo o muda no momento qual mago condescendente
Nos afasta docemente de rancores e violências
Só o amor com sua ciência nos torna tão inocentes

Vai se envolvendo, envolvendo
Como no muro a hera
E vai brotando, brotando
Como o musgo na pedra
Como o musgo na pedra, ai sim, sim, sim.

O amor é um torvelinho de pureza original
Até o mais feroz aminal sussura seu doce trinar
Detém os pergerinos, liberta os prisioneiros
O amor com seus esforços ao velho torna criança
E ao mau só o carinho lhe faz puro e sincero

De par en par la ventana se abrió como por encanto
Entró el amor con su manto como una tibia mañana
Al son de su bella diana hizo brotar el jazmín
Volando cual serafín al cielo le puso aretes
Mis años en diecisiete los convirtió el querubín.

Vai se envolvendo, envolvendo
Como no muro a hera
E vai brotando, brotando
Como o musgo na pedra
Como o musgo na pedra, ai sim, sim, sim.

De par em par a janela se abriu como por encanto
Entrou o amor com seu manto como uma frágil manhã
Ao som de sua bela alvorada fez brotar o jasmim
Voando que nem serafim ao céu lhe pôs brincos
Meus anos em  dezessete os converteu o querubim

tradução: roberto soares