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27/04/2012

eu não vou me adaptar

Pe. Alfredo J. Gonçalves, CS

“Eu não caibo mais nas roupas que eu cabia
Eu não encho mais a casa de alegria
Os anos se passaram enquanto eu dormia
E quem eu queria bem me esquecia...
Será que eu falei o que ninguém ouvia?
Será que eu escutei o que ninguém dizia?
Eu não vou me adaptar... Me adaptar... Me adaptar...
Eu não tenho mais a cara que eu tinha
No espelho essa cara não é minha,
Mas é que quando eu me toquei achei estranho
A minha barba estava desse tamanho”.
(Titãs, letra e música de Arnaldo Antunes)

Esta canção, composta por Arnaldo Antunes e interpretada pelo grupo musical Titãs, deixa transparecer um mal estar indefinido, nebuloso. O personagem anônimo da canção faz supor a ideia de um descompasso entre a evolução sociocultural e o crescimento pessoal. Um desencontro que deixa feridas abertas e profundas. Aquele que era o “brinquedo animado” da família enquanto criança torna-se, na passagem para a juventude, um verdadeiro “problema”. Eu não encho mais a casa de alegria!...

A música é um grito! Um grito de quem se sente um estranho, tanto diante da sociedade em seu ritmo alucinado, quando no interior da própria casa. Clamor sem nome e sem remédio que brota atualmente do clima de não poucas famílias, em especial nos porões e periferias das grandes metrópoles. Gritos de uma rebeldia insuspeitada, com destaque para a situação dos jovens e adolescentes. Uma estranheza pungente e dolorida, descoberta frente a si mesmo. No espelho eu não tenho a cara que eu tinha, essa cara não é minha!...

Consciente ou inconscientemente, o compositor alerta para um progresso díspar, tão marcante na trajetória histórica brasileira. Por um lado, crescem vertiginosamente a produção, o comércio e o consumo. Torna-se mais fácil o acesso a uma série de bens, os quais costumam ser adquiridos com a mesma velocidade com que, em seguida, são banalizados e banidos. Multiplicam-se os itens do lixo com utensílios descartados antes mesmo de ser utilizados, ou até desembalados. Não faltam coisas, mas estas escondem uma espécie de existência sem-sentido.

Por outro lado, esse progresso técnico, por uma parte, e o crescimento físico do indivíduo, por outra, encontram-se em profunda disparidade com um amadurecimento afetivo e emocional, psíquico e espiritual. Subitamente, eu não caibo mais nas roupas que eu cabia... Enquanto mundo ao redor caminha a passos largos, geometricamente, a maturidade individual parece avançar de forma lenta, aritmeticamente. Ambas as esferas seguem órbitas diferentes e paralelas. Criam-se linguagens desconectadas, uma de costas para a outra. Rompe-se a possibilidade de qualquer diálogo.

Essa sensação de “estrangeiro no próprio país, falta de cidadania ou de órfão em sua casa”, que vem à tona em forma de melodia-protesto, na maior parte das vezes permanece silenciosa ou silenciada. Grito estrangulado, engolido a seco ou com as lágrimas amargas do abandono, da solidão e da impotência. E acaba gerando sintomas de uma enfermidade generalizada, um novo “mal estar da civilização” para ater-se à expressão de Freud.

Os resultados costumam ser altamente nefastos e irreversíveis. Diante do descaso da saúde pública e da sociedade como um todo, os jovens em geral buscam alternativas no álcool e no cigarro, no crack ou em outras drogas, no sexo fácil ou na violência gratuita. Gemidos isolados de vozes mutiladas, que dizem o que ninguém ouve e escutam o que ninguém diz!...
Disso resulta a dificuldade de adaptar-se, refrão da música. Como se os anos tivessem passado, enquanto eu dormia!... Uma avalanche de coisas, fatos, relações e novidades, em ondas cada vez mais numerosas e poderosos, atropela o ritmo dos pés, do coração e da alma humana. De repente, sentimo-nos como tartarugas, ultrapassadas pelas passadas quilométricas de um gigante chamado Tempo. Impossível mastigar, engolir, digerir e ruminar tudo o que se vê e se ouve, ou tudo o que ocorre em volta. Mais fácil, infinitamente mais fácil, buscar um analgésico... Coisa que não falta nas farmácias de cada esquina!

05/08/2011

a tirania da beleza

Pe. Alfredo J. Gonçalves, CS

São no mínimo intrigantes os títulos de livros como A tirania do prazer (Jean-Claude Guillebaud), O império do efêmero (Gilles Lepovetsky), Estrangeiro a si mesmo (Marc Augé) e Modernidade líquida, Amor líquido ou Medo líquido (Zygmunt Bauman), entre outros. Os autores expressam um contexto sociocultural onde as pessoas parecem fazer parte de um teatro de marionetes, cujos fios, controlados por forças invisíveis, adquirem maior eficácia em termos de sedução e fascínio. Por trás ou acima do palco iluminado, dedos igualmente invisíveis e poderosos manipulam gostos, vontades e desejos, na busca de um modismo permanente.

Surge em toda sua nudez o contraste entre o mundo real e o virtual. No primeiro, o cotidiano de milhões de cidadãos traz a marca da luta pelo trabalho, a moradia e a educação, pela saúde, a segurança e o transporte, pelo alimento, a roupa e o lazer. Um dia-a-dia prosaico e fastidioso, permeado de dúvidas, angústias e contradições. Já no mundo virtual, grande parte da população se move pelo glamour do fashion show, as luzes e sons do Shopping Center, o desfile das modelos ou candidatas a miss Brasil ou miss Universo, os caprichos das estrelas e celebridades da fama, os apelos das últimas novidades no mundo informática, a profusão de cirurgias plásticas, o som metálico dos vídeos-game, e assim por diante.

Num centro indeterminado, também ele invisível, um cérebro e um olho, oniscientes, onipresentes e onipotentes, dirigem o grande espetáculo. Ou, ao contrário, serão olhares múltiplos e diferenciados, estrategicamente distribuídos nos pontos nevrálgicos das redes virtuais? Seja como for, o universo da economia globalizada e da padronização cultural mais parece um gigantesco Big Brother. Cenário que nos remete ao conceito de “sociedade panoptizada”, extraído do livro Vigiar e Punir, história da violência nas prisões (Michel Foucault). Vale notar o número de palavras em língua inglesa nos dois parágrafos anteriores, o que pode nos orientar na descoberta das torres de comando onde se escondem os deuses – no plural – dessa monumental “divina comédia” ou “comédia humana” (outros títulos das grandiosas obras de Dante Aleghieri e Honoré de Balzac, respectivamente).

Em meio a esse choque, o indivíduo se vê afogado pela enxurrada da publicidade agressiva e permissiva, ao passo que, por outro lado, corre atrás das necessidades básicas de uma sobrevivência penosa e precária. Diariamente prensado entre dois chamados igualmente pungentes. Sonha com o ideal e tropeça no real. Bate as asas para subir ao céu e se vê acorrentado às urgências terrenas. O pensamento voa, os pés se arrastam lenta e laboriosamente. Almeja brilhar como estrela, mas não passa do reflexo de um planeta. A tirania da beleza, de maneira invasiva e estridente, tanto mais forte quanto sub-reptícia, dita as regras, as medidas, o vaivém da moda, os produtos necessários para “manter-se em dia”, os padrões modernos, as fórmulas mágicas para emagrecer ou melhorar a perfomance... Diante de tantas exigências artificiais para ser alguém, o indivíduo se descentra e, no dizer de Marc Augé, a própria casa invadida por tantas sugestões pode se converter em um “não-lugar”.

Prevalece a busca por um corpo perfeito, obcecado pela balança, pelo espelho, pela foto estampada ou pelo bolso – talvez os órgãos mais sensíveis do corpo humano! Ou ainda, a visão mágica de um sucesso instantâneo, revestido de luxo e poder. Multiplicam-se por toda parte os Ronaldinho(s), Neymar(s), Michael Jackson(s), Henry Porter(s) ou as Gisele Bündchen(s), Amy Winihause(s) Elis Regina(s), Lady Diane(s)... De passagem, que tal um voo de pássaro pelas páginas dos jornais ou pelos noticiários televisivos dos últimos anos! Bastaria isso para dar uma idéia de quantos jovens, de ambos os sexos, foram vítimas às vezes fatais dos aplausos de uma platéia eletrizada e enlouquecida, da idolatria massificada, ou, mais concretamente, da lipoaspiração, das overdoses de álcool e droga, do da riqueza fácil e precoce, etc. Rojões que se apagam, despencam e viram cinzas de forma tão veloz e abrupta como haviam subido, explodido na “sociedade do espetáculo” (Guy Debord) e iluminado o céu de luzes e cores. Espigas ceifadas em plena primavera: murchas e mortas antes da colheita ou do outono!

Nos termos de Bauman, com frequência inusitada, a fama, o sucesso e o dinheiro se liquidificam, uma vez que nem sempre se erguem sobre alicerces sólidos. Vale o mesmo, não raro, para os valores, as relações e os direitos humanos. A metáfora do “ficar” é sem dúvida um exemplo emblemático. Namorar exige compromisso, carinho, compreensão, mudança, diálogo, renúncia, capacidade de perdoar, respeito à alteridade... Numa palavra, renascimento e crescimento recíprocos. O diabo é que o ato de nascer e crescer pressupõe insegurança, impotência e sofrimento. O amor é flor exposta ao vento e às intempéries. Por que seguir esse caminho longo, se existem atalhos mais curtos? Por que suportar a dor, se o mercado dispõe de analgésicos para tudo? Por que ruminar fracassos, se a lição acaba saindo tão cara?

Claro, melhor ficar, utilizar o outro para o prazer momentâneo. De preferência alguém sem rosto, sem nome, sem endereço, sem família e sem história... Dá menos trabalho e tudo se resolve sem conseqüências embaraçosas. A intimidade pode trazer sérios problemas. Mais fácil cada um ficar na sua, numa boa! E se houver algum acidente de percurso, uma gravidez inesperada e indesejada, por exemplo? Bem, neste caso a mulher que resolva! Isso explica porque conhecemos tão bem ( e julgamos tão mal) as mães solteiras, mas em geral ignoramos o paradeiro dos pais solteiros. Explica também a quantidade de abortos e o abandono de tantos recém-nascidos, muitas vezes por adolescentes e jovens, incapazes de levar adiante, e sem qualquer ajuda, semelhante “fardo”. Numa sociedade histórica e estruturalmente patriarcal, o peso de uma relação fugaz e irresponsável recai quase que inteiramente sobre o sexo feminino.

Também as relações se liquidificam. De duas uma: ou se descartam as pessoas da mesma forma que os objetos, ou cultivamos um amor doentio e possessivo. O que joga luz sobre dois extremos tão comuns na sociedade atual. De um lado, troca-se de namorada, de amigo ou até de esposa quase como se troca de roupa; de outro, um rompimento da relação pode significar um risco de morte, na imensa maioria dos casos para a mulher. Leviandade ou tirania, dois conceitos que, da mesma forma que outros extremos, também se tocam e andam juntos. Ou se joga pela janela um relacionamento de anos ou décadas, ou, pelo contrário, se inibe e intimida qualquer idéia de rompimento. Muitas vezes, sob a mira de um revólver e a ameaça de perseguição, sequestro ou morte.

A ansiedade entre a realidade e a ilusão acaba sendo elevada à máxima potência pelos apelos de um marketing pesado e repetitivo. Um verdadeiro tsuname de mercadorias invade, varre e devasta a vida e a casa de cada família. A força, a insistência ou a subtilidade da propaganda cria e mantém necessidades artificiais. Evidencia-se, assim, a dimensão dupla da globalização: extensiva, na medida em que procura incorporar novas regiões e países, novas matérias-primas e pessoas à economia de mercado; e intensiva, no sentido de ampliar a fé e o consumo dos que já professam o credo capitalista. Não poucos passam a desejar coisas que nem sempre sabemos para que servem, se é que servem para algo! As novidades exibem sua dança contínua diante dos olhos, é preciso atualizar-se, fazer como todo mundo!

A tirania se instala pelo lado mais fraco do desejo: propõe, impõe, padroniza e impera. Mas o faz de forma diferenciada e perversa. Enquanto uns são despertados para o desejo e a compra, a população em geral o é somente para o primeiro, pois não pode dar-se ao luxo de adquirir tudo o que deseja. Imaginemos, por exemplo, os sentimentos de um trabalhador de baixa renda, frente à telinha apelativa juntamente com seus filhos pequenos, às vésperas do Natal ou do Dia da Criança! Esta aponta o dedo e deseja o brinquedo, profusa e estrategicamente iluminado. Os meninos e meninas de Fulano, Sicrano e Beltrano têm carrinho de controle remoto, bonecas capazes de falar e chorar, jogos que brilham e emitem vozes metálicas...

Mas o pobre pai tem consciência da dispensa vazia (quando há uma), do aluguel atrasado, das contas a pagar, das exigências da escola, dos remédios, do trocado para o ônibus... Daí o sentimento de inferioridade, e às vezes de fracasso. A felicidade passa a ser sinônimo de ter, consumir, aparentar, renovar, descartar. Frágil e efêmera felicidade, incapaz de resistir à primeira queda ou desilusão. Pior ainda, essa tirania vem acompanhada de uma cegueira inevitável para outras dimensões da beleza, tais como a das relações humanas, do silêncio da oração e meditação, da sensibilidade estética, da compaixão e solidariedade. A beleza se reduz a um “eu” atomizado, onde as partículas dos interesses, afeições e sentimentos gravitam em torno do próprio núcleo, quando não do próprio corpo cristalizado numa estátua ou num fóssil.

12/04/2011

massacre de realengo: mais vítimas da besta agonizante

Passada o choque inicial, que se segue a toda tragédia, e passada também a espetacularização e a banalização próprias dos atuais veículos de comunicação,  já se pode refletir com um pouco mais de lucidez sobre o Massacre de Realengo. Embora lucidez seja uma palavra um pouco difícil de se aplicar em acontecimentos como esse Massacre.

De toda forma, os trechos abaixo colocam  a questão num foco menos distorcido, ao invés de se procurar causas e soluções fáceis e moralistas. Pode parecer discurso repetitivo e inócuo, mas não é  focando em indivíduos e situações específicas que se compreende tragédias assim.

Sabemos que é apenas mais um infeliz episódio provocado pela irracionalidade do atual modelo de sociedade, a irracionalidade desta organização de controle e manipulação que não cessa de produzir dor, infelicidade, conflitos e às vezes tragédias explícitas. Tanto Columbine, nos EUA, quanto Realengo são aspectos da mesma realidade. E  sabemos que infelizmente muita dor e muita tragédia ainda hão de ocorrer, até que a humanidade consiga finalmente superar esse estágio em que a besta agonizante do capitalismo ainda consegue ferir e escoicear. 

palavra e silêncio (trechos)
por alfredo gonçalves, publicado originalmente em  província são paulo

O que dizer deste trágico e inesquecível dia 7 de abril carioca? O que dizer frente ao massacre de 12 crianças e adolescentes em plena sala de aula? O que dizer, na noite seguinte, diante dos muros revestidos de flores e velas da Escola Municipal de Realengo, zona oeste do Rio de Janeiro? O que dizer de uma violência tão nua e crua, tão fria e meticulosamente calculada?

As palavras emudecem. Emudece a escola Tasso de Oliveira, com suas paredes banhadas de sangue inocente. Igualmente mudos ficam a Cidade Maravilhosa, o Brasil e o Mundo. Mudos e atordoados, estupefatos, quedamos todos nós! Palavras como perplexidade, terror, barbárie ficam aquém dos fatos brutais… Infinitamente aquém! Parece que só o silêncio respeitoso e reverente é capaz de dizer algo. No sangrento espetáculo de vidas tão precocemente ceifadas, as palavras parecem sobrar ou faltar. Serão sempre de mais ou de menos.

Entretanto, não basta o silêncio! Ainda que as palavras sejam de menos, é preciso arriscar algumas, sob pena de cumplicidade ou omissão. Mas, de forma insistente, volta a pergunta: o que dizer?

(...)O que dizer às famílias enlutadas, obrigadas a sepultar seus entes queridos no vigor de sua primavera? Expressões de conforto? Abraços de carinho? Mensagens de confiança? Presença de holofotes, câmeras e microfones? Notícias sensacionalistas? Espaço para desabafos na mídia? Mas a dor é mais forte e mais funda, muito mais forte e mais funda que tudo isso. E ainda neste caso o silêncio se sobrepõe às palavras indiscretas e ao pranto sufocado, engolido.(...)

(...)O que dizer sobre o ex-aluno da escola, Wellington Menezes de Oliveira? Nome inglês mesclado com sobrenome bem brasileiro. O que dizer desse jovem de apenas 23 anos, órfão e só, perdido e abandonado? O que dizer de sua existência solitária e subterrânea, fora do alcance de toda a análise? Poderia ser o irmão mais velho das crianças que alvejou de maneira tão friamente pensada. O que dizer de alguém que mata, fere e em seguida se mata? Aqui poderíamos enfileirar uma série de por quês: de ordem social, econômica, política, cultural, psicológica, psicopatológica… Também poderíamos recorrer à sua carta-testamento ou ao testemunho dos policiais. Mas tanto seus tiros letais quanto suas palavras escritas continuam um enigma para quem segue vivendo sobre a face da terra. O que sobra desses poucos minutos de horror? Um silêncio tão cerrado quanto a boca dos mortos!

O que dizer, enfim, de uma sociedade que engendra ações desse gênero? Cenas que estávamos acostumados a presenciar pela telinha, vindas do outro lado do mundo ou mar: dos Estados Unidos, da Alemanha, ou da Inglaterra…(...)

(...) Desta vez, porém, a violência parece ter atingido um grau mais elevado. Ou descer aos porões sombrios infectos, inusitados e selvagens em que se escondem inúmeras crianças, adolescentes e jovens. Quantas vezes já estivemos reféns desses seres, agindo em grupo ou solitariamente! E quantos deles nunca conheceram um olhar mãe, um beijo molhado, um carinho de afeto, uma palavra de ternura, um leito suave, uma roupa nova ou uma comida quente!

A brutalidade é grande demais para caber, inteira, na alma de um jovem. Wellington carrega muito mais anos de sofrimento do que sua tenra idade pode suportar. Sofrimento que se transfigura em agressão e, como um dique que se rompe, devasta tudo o que vê pela frente. Violência exacerbada à máxima potência, que atinge simultaneamente as vítimas, seus familiares, a sociedade e o próprio assassino. É aqui que a palavra emudece! Como emudeceu diante do holocausto da Segunda Guerra Mundial, por exemplo. As letras e palavras se tornam estreitas, acanhadas, impotentes. Incapazes de conter os sentimentos que varrem o coração de cada um de nós.(...)

22/12/2010

o natal como resistência

Abaixo seguem considerações acerca do Natal.
Não tive tempo de selecionar alguns poemas, tal como gostaria.
Por isso, tomo a liberdade de remeter o leitor para texto, poemas e imagens que postei aqui no blog em dezembro de 2008:
"então é natal..."

o natal como resistência

Os hábitos consumistas, barulhentos e presunçosos - estimulados pelas mensagens espetaculosas e de um nauseante tom comovente-humanitário da mídia - já tornaram a passsagem de Natal e Ano Novo algo tão sem graça, repetitivo e superficial que fica até chato fazer a crítica dessas efusões, patéticas em suas ilusões de comunhão, de fraternidade e de real confraternização entre pessoas.

Mas tudo bem, não deixa de ser um momento de resistência, um momento de promessa para uma civilização futura, de fato voltada para o humano, para a vida, o planeta e para o Cosmos, e não uma humanidade rastejando apática e ilusoriamente feliz sob uma engrenagem estúpida, antihumana e burra como o é atualmente a engrenagem capitalista-ocidental.

Se não vale a pena fazer essa crítica, então que confraternizemos todos dentro de nossos estreitos e exclusivos círculos familiares, sociais e profissionais, até onde puder ser legitimamente honesto e moralmente suportável.
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Mas, por outro lado, não poderia deixar de divulgar esse belo e poético texto de Padre Alfredinho, "Tocamos flauta e vocês não dançam", afinal é um verdadeiro e contundente manifesto em prol de uma Igreja Católica que realmente faça jus às palavras que os seus padres e bispos lançam de seus púlpitos por ocasião do Advento e do Natal.

Uma Igreja que deveria se fazer cada vez mais presente nas lutas dos povos, nesse momento de expectante encruzilhada pelo qual passa a humanidade, mais especificamente as sociedades ocidentais, e que no entanto é uma Igreja que permanece distante das tensões e angústias que se avolumam neste decisivo século XXI.

Talvez se faça alguma ressalva ao texto de Padre Alfredinho, no sentido de o autor clamar demais por uma Igreja mais atuante no aspecto social, concreto, no cotidiano dos povos e das pessoas.

E, nesse caso, Pe Alfredinho esquecer-se-ia de que também é tarefa da Igreja, ou de qualquer religião, conservar e alimentar a reverência, a transcendência. E reverência e transcendência supõem silêncio, contemplação e às vezes também rituais, momentos litúrgicos ancestrais - seculares e às vezes até milenares. Ou seja, para esses críticos a religiosidade não se esgota em ações e missões no cotidiano, em atender aos 'desafios da história'.

Mas o texto de Pe Alfredinho não traz 'receitas' ou exigências simplificadoras, não propõe um sacerdócio unilateral, reduzindo a religiosidade a uma mera ação transformadora das estruturas. O que o texto resgata é a necessidade de haver um equilíbrio entre as duas tarefas da Igreja: a tarefa de celebrar o terreno e o divino, a tarefa da contemplação e da ação, da transcendência e da imanência.

Tanto que essa postura de denúncia de excessos e de busca do equilíbrio já estava presente num outro texto seu, e que também publicarei no próximo mês: "O espírito sopra onde quer".
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Para quem não sabe, Pe. Alfredo Gonçalves é ligado à ala progressista da Igreja Católica e atua nas Pastorias urbanas da cidade São Paulo, e também ministra palestras e cursos de formação pelo Brasil afora, para pastorais sociais e outras entidades e movimentos ligados à Igreja Progressista - ainda bem que esses movimentos ainda existem aqui no Brasil e na América Latina, e felizmente cada vez mais atuantes, nesse ambíguo momento de avanço institucional de governos progressistas, mas também de desmobilização e de perda de autonomia dos movimentos populares, ao menos aqui no Brasil.

O texto de Pe Alfredinho aproxima-se bastante daquela síntese tão necessária entre religiosidade e filosofia, entre transcendência e fé, uma religiosidade que contemple a) uma vivência da liturgia e da fé b) uma ação evangelizadora que se traduza em ação transformadora das estruturas injustas e pecadoras e c) uma religiosidade ao mesmo tempo mais cósmica e existencial, que se alimente da e na transcendência do divino e do mistério.

Ou seja, uma religiosidade que vai além até mesmo da clássica complementação entre fé e obras, exigindo uma terceira a presença : a relação especial, única e necessária de cada consciência vivente com o Ser que nos cerca e com a Fonte desse Ser, num testemunho admirado do fascínio de se saber, de se sentir portador dessa relação especial com a Fonte.
Todos os meses tenho recebido e lido vários de seus textos, e como não tenho tido tempo para selecioná-los e publicá-los, publico, então, mais dois textos de Pe Alfredinho nesta época do Advento: "Labirinto da Oração" e "O silêncio".

São leituras bastante apropriadas para essa época de interiorização, reflexão e de retrospectivas existenciais - claro para quem ainda consegue dialogar com o silêncio e com o Cosmos, nessa época de falatórios, efusões ingênuas e manipuladas e de barulhentas e presunçosas confraternizações.

Ainda acerca do Natal, segue também um texto, "Às vésperas do Natal", que fala exatamente de como somos irresistivelmente levados a nos envolver, a nos deixar seduzir pelo clima de falsa efusão e de falsa confraternização dos festejos de fim de ano, as efusões e convocações de caráter comovente-humanitário de que falei no iício desta postagem.

De qualquer forma, essa sedução e essa adesão ao espírito natalino - mesmo que conspurcado pela mídia e pelas engrenagens narcotizantes da moderna e espetaculosa sociedade de controle – mesmo assim essa adesão significa um real anseio de real confraternização entre povos e pessoas.

E se o anseio e a esperança existem, é porque há uma negação das nauseantes engrenagens dessa sociedade de controle; mesmo que seja uma negação inconsciente, mesmo que seja uma revolta que não a se assume, temos então que continuar a tarefa de tentar trazer para a humanidade e para o planeta o verdadeiro Advento da vida, do mistério e do divino.

Nesse sentido, no sentido da esperança, da resistência e da ação de enfrentamento e de transformação, vale a pena sim dizer

FELIZ NATAL!!!

tocamos flauta e vocês não dançam

Pe. Alfredo J. Gonçalves, CS
“Tocamos flauta e vós não dançastes
entoamos lamentações e vós não batestes no peito” (Mt 11,17)
De início, chama a atenção o comportamento que Jesus, através do evangelista, atribui às crianças. De fato, as palavras acima são colocadas na boca delas. Estão impacientes com seus colegas, pois eles se recusam a aderir ao momento presente. Recusam a alegria simbolizada no toque da flauta e recusam, igualmente, a tristeza que costuma acompanhar as lamentações. Afinal, o que querem? São incapazes de dançar e incapazes de “bater no peito”. Ambas as atitudes parecem incompatíveis com a espontaneidade e a transparência da criança. Esta, em geral, traduz no olhar, no rosto e no modo de agir aquilo que se passa em seu interior. Como é possível essa contradição?

Também chama a atenção o fato de essa passagem do Evangelho de Mateus ser utilizada pela liturgia do Advento. Tempo em que se prepara o coração, a casa e toda a existência para a vinda do Senhor. Tempo de conversão e penitência, sem dúvida, mas que tem como horizonte os festejos natalinos. Celebra-se o mistério da encarnação, a chegada do Emanuel, Deus-conosco! Luzes, música, anjos, pastores, estrela, reis magos, manjedoura, animais, gruta de Belém – tudo lembra a magia do Natal. O verbo de faz carne, “arma sua tenda entre nós”, mexendo com as recordações da infância, da família e da reconciliação com os parentes e a vizinhança. Um toque inefável de um Deus que, feito menino nu e pobre, débil e indefeso, visita a história humana. Um Deus que se humaniza para abrir o caminho a divinização humana.

Mas nem Jesus nem Mateus estão falando de crianças. O que está em jogo é o comportamento dos contemporâneos das narrativas evangélicas. Veio João Batista, um profeta austero, sisudo, homem do deserto, ainda vinculado ao predomínio do julgamento, próprio do Antigo Testamento, “que não come nem bebe”, e vocês dizem que “ele está com o demônio”. Veio o Filho do Homem, “que come e bebe”, caminha ao lado dos pobres, fala de misericórdia e compaixão, e vocês o acusam de “comilão e beberrão, amigo dos cobradores de impostos de dos pecadores”. Afinal de contas, que querem vocês? Não são capazes de se lastimar com a profecia de João, rude e enérgica, nem se alegram com a Boa Nova do Evangelho!

Talvez esteja aqui um dos males mais evidentes da Igreja atual, em grande parte de seus representantes, setores e instâncias: indiferença, inércia, omissão frente aos desejos e temores do povo, a seus fracassos e vitórias. Nas dores e angústias, incapaz de marcar presença; nas esperanças, lutas e sonhos, manifestando ceticismo e apatia. Uma Igreja que constrói uma redoma de vidro entre si e os embates das ruas, praças e campos. Retorna à sacristia, à atitude dogmática e doutrinária, à primazia da formação do clero, às exigências dos sacramentos, ao liturgismo desligado da vida, à solenidade de uma aparência triunfal, às exterioridades das manifestações religiosas, ao intimismo e espiritualismo ineficazes, ao autoritarismo hierárquico, ao abandono da “opção preferencial pelos pobres”, em alguns casos à aliança com o poder... Uma Igreja que ainda ergue um muro intransponível entre os de dentro e os de fora, os nossos e eles, os salvos e os perdidos!

Parece ter medo de sair a campo, de “sujar as mãos” nos desafios da história. Incapaz de dançar ao som da flauta, de participar das festas populares, de inebriar-se com a alegria que nasce e cresce até mesmo em meio à pobreza mais adversa. Incapaz, ao mesmo tempo, de entristecer-se com as tragédias que se abatem sobre pessoas, grupos e comunidades inteiras. Mais propensa a encerrar-se em debates sem fim sobre a origem e o carisma, seja da Igreja como um todo, seja de cada Congregação Religiosa. Tudo indica estar ela mais inclinada a visitar o berço e o museu, do que enfrentar os novos problemas da fronteira. Nada contra o berço e o museu, desde que esse passo atrás signifique uma busca das fontes, para beber a água do próprio poço, fortalecer o ardor missionário e avançar para horizontes desconhecidos. Enfim, não poucos representantes da Igreja, pessoas ou instituições, parecem viver das glórias do passado, cultivando uma espécie de narcisismo doentios, debruçada sobre o próprio umbigo, sem coragem de erguer a cabeça e seguir o caminho. O saudosismo do paraíso perdido toma o lugar da promessa e da tarefa de libertação.

Daí, não raro, sua postura cortês e polida, atenciosa e diplomática, mas sempre a certa distância dos fatos reais. Resulta que, diante dos conflitos, prevalece uma reconciliação camuflada e envernizada, não uma resolução corajosa e definitiva. Como as crianças da praça, nada de riso ou choro, nada de lágrimas ou festa. A neutralidade parece ser a norma: não vi, não ouvi, não sei, não conheço, não me meto em política, nosso campo de ação é de caráter puramente espiritual! Neutralidade extremamente cômoda, mas sempre suspeita. E facilmente usada e abusada por quem sabe manipular as forças sociais, religiosas ou não. Tudo ao contrário dos quatro verbos, na primeira pessoa do singular, atribuídos a Deus no Livro do Êxodo: “eu vi a aflição do meu povo, eu ouvi seu clamor, eu conheço seu sofrimento e eu desci para libertá-lo” (Ex 3,7-10). Onde foi parar a experiência desse Deus tão atento, sensível e solidário com as condições de vida e trabalho em que vive o seu povo? Ou então, voltando-se para o Novo Testamento, onde foi parar a figura de Jesus de Nazaré que “percorria todas as cidades e aldeias”, encontrava-se com as “multidões cansadas e abatidas” e por elas “sentia compaixão”, pois estavam como “ovelhas sem pastor” (Mt 9,35-38)?

Pular, cantar, danças como as crianças! Gemer, gritar, revoltar-se como os oprimidos! Numa palavra, viver o momento presente. Carpe die – diz a expressão latina, linguagem tão conhecida pela Santa Madre Igreja. Ao invés disso, esta prefere refugiar-se numa posição distante e hermética, enquanto o sangue da vida, quente e em franca ebulição, passa pelos botecos, feiras livres, padarias, açougues, supermercados e shopping centers; pelos ônibus, trens e metrô; pelos shows e estádios de futebol; pelas festas de aniversário, casamento, natal e carnaval... Raramente passa por nossas celebrações eucarísticas, muitas vezes frias, vazias formais e demasiadamente preocupadas com o ritual litúrgico.

Nem lágrimas, nem expressões efusivas! É preciso manter a tradição, a doutrina e a formalidade! Mas, onde fica o “caldeirão cultural” que vem da fusão das expressões negras, indígenas e populares? Isso nada tem a ver com a liturgia! Seu lugar é nas ruas e praças! E assim, como no testemunho de Jesus, ou a Igreja se torna itinerante, abrindo-se ao “outro, estranho, diferente”, e com isso se converte e se salva; ou permanece trancada no tempo e no templo, irremediavelmente impermeável à Boa Nova do Evangelho. Ainda a exemplo de Jesus, ou a Igreja tem coragem de manifestar sua sede e sai a buscar água até mesmo em fontes estrangeiras; ou se afoga e asfixia num doutrinarismo obsoleto e cristalizado, a-histórico e sem vida. Enfim, sempre de acordo com a proposta evangélica, ou a Igreja retoma um profetismo que, na expressão da Gaudium et Spes (nº 1), a aproxima “das alegrias e esperanças, das tristezas e angústias dos homens de hoje, sobretudo dos pobres e de todos os que sofrem”, ou permanecerá debruçada à janela, “pra ver a banda passar cantando coisas de amor”, como lembra o poeta.

às vésperas do natal

Pe. Alfredo J. Gonçalves, CS
“O que fostes ver no deserto,
um caniço agitado pelo vento?” (Lc 724b)
A metáfora do “caniço agitado pelo vento” se presta como uma luva para os dias que correm. De fato, um simples olhar às ruas, praças e corredores dos shoppings centers é suficiente notar como parecemos “caniços” agitados pelos ventos do marketing, da propaganda e da publicidade.

Um exemplo apenas um: lançado novo produto, shampoo dois em um, que “acaba com a caspa e, ao mesmo tempo, hidrata os cabelos”. Apelo comercial: “você não pode viver sem ele!”. A insistência no apelo e a obsessão em apregoar as qualidades do produto revelam exatamente o contrário: você pode, sim, viver sem ele! A ânsia mercadológica mascara a mensagem, fala pelas entrelinhas, nega-se a si mesma. A propaganda estridente sinaliza para o vazio e a inutilidade do objeto. Por outro lado, o apelo dirige-se ao desejo de posse daquilo que está exposto na vitrine, envernizado por luzes e enfeites. Desejável, porque simultaneamente próximo e distante. Mas o desejo de posse se desfaz no exato momento da compra. Esta, ao tornar seu o que parecia um sonho impossível, dilui automaticamente o desejo. A magia derrete-se com a própria aquisição. Mas faz nascer outros impulsos ou paixões, e assim por diante...
O mercado nutre-se dessa fome e dessa sede insaciáveis de comprar, ter, exibir, aparentar, inovar, competir. Fome e sede de novidades que, constantemente, morrem com a posse e renasce com novos desejos frente a produtos inéditos, ou simplesmente reciclados. Basta uma mudança no rótulo, na cor, no formato, nos ingredientes ou na embalagem, para que o velho se torne novo. Instala-se o círculo fechado e vicioso do “produzir e consumir”, no ritmo da matemática, tão veloz e alucinado que não deixa lugar nem tempo à reflexão. O anseio da compra substitui a pergunta pela necessidade. Com razão, Marx referia-se ao “fetiche da mercadoria”.

Numa outra metáfora, a cidade às vésperas dos festejos natalinos, mais parece um imenso espetáculo de marionetes controlado pela gigantesca “mão invisível” do sistema capitalista, para usar a expressão de Adam Smith. Nesse palco de milhões de atores/consumidores embriagados, a poderosa mão transforma seus dedos em tentáculos que chegam aos quatro cantos do planeta, ou às mais íntimas dimensões do ser humano, tais como as relações de afeto, de família, de amizade... Penetra até no sacrário do que existe de mais sagrado.
A cidade vira um formigueiro humano, para terminar com uma terceira metáfora. Torrentes de pessoas se movem nos centros comerciais, num vaivém permanente, deslocamento centrípeto e centrífugo, onde não faltam gritos, promoções, cifrões, pechinchas, pacotes, empurrões... Mas, em meio a tudo isso, a alegria inebriante de diluir-se nessa multidão viva e ansiosa por novidades. Evidente que o cidadão tem o direito de adquirir aquilo para o que tanto trabalhou e com o que tanto sonhou. O conforto não pode ser privilégio de poucos. Graças a Deus, muitos brasileiros hoje podem ter acesso a produtos que antes estavam longe de seu bolso. Mas fica o alerta contra a embriaguez que nos torna “caniços, marionetes”, uma espécie de seres com opinião invertebrada, que o poder do marketing facilmente manipula e explora. Vale, pois, a advertência de Jesus narrada pelo evangelista Lucas. “O que fostes ver no deserto?”

o labirinto da oração

Pe. Alfredo J. Gonçalves, CS
Parafraseando Octavio Paz (El Laberinto de la Soledad ), podemos começar dizendo que rezar é entrar num labirinto complexo e desconhecido. De acordo com o Dicionário Aurélio da Língua Portuguesa, a palavra em seu sentido figurado significa “coisa complicada, confusa, obscura”. Trata-se de um ambiente relativamente estranho e tortuoso, onde se entra com relativa facilidade, mas de onde é difícil sair sem tropeçar em repetidos obstáculos. Os corredores e aparentes saídas frequentemente nos enganam e nos deixam perdidos. Numerosas possibilidades se abrem, mas quase todas se revelam falsas. É preciso, a toda hora, fazer, desfazer e refazer a trajetória. Neste caso, a linha reta é o caminho mais longo entre a entrada e a saída.

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 Num primeiro momento, entramos no labirinto das próprias sensações, percepções e pensamentos. Prevalecem de início os ruídos internos e externos. De um lado, os sons múltiplos da casa, das ruas e da cidade teimam em nos acompanhar. Difícil livrar-se deles. Uma conversa próxima, um grito ou uma buzinada; a televisão, o rádio e outros aparelhos ligados; o ronco dos motores, a algazarra das crianças ou uma discussão acalorada; sirenes da polícia, dos bombeiros ou de ambulâncias; o latido de cães, o toque da campainha e o do telefone; o burburinho indefinido da vizinhança – enfim, uma imensa cacofonia que reveste um cotidiano cada vez mais eletrônico, metálico e ruidoso. Isso sem falar dos “ruídos abstratos”, tais como as injustiças e assimetrias, as desigualdades sociais, as notícias sensacionalistas, a discrepância entre luxo e lixo, a miséria e a fome, as agressões à natureza, as guerras, conflitos e violência, o efeito das drogas e do álcool...

De outro lado, do fundo das entranhas sobem outro tipo de ruídos. Temores e desejos, paixões e impulsos, medos e angústias, dores e esperanças, sonhos e fantasias se mesclam e se confundem. Sentimo-nos dilacerados entre aquilo que aflora imediatamente aos sentidos e a busca de algo mais profundo e indefinido. Divididos entre os apelos aparentes e imediatos e uma sede que brota do íntimo do ser e que não se deixa calar tão facilmente. O fascínio pelo que está ao alcance dos olhos, dos ouvidos e das mãos contrasta com um vazio que parece aprofundar-se à medida que nos enchemos das “coisas supérfluas”.
Semelhantes ruídos – externos e internos – distraem e impedem uma verdadeira concentração. A eles, podemos acrescentar ainda os sentimentos de inveja, ciúme, rancor, vingança, ódio, inferioridade ou superioridade, orgulho ou falsa humildade, etc., os quais, de forma estridente, também brotam como erva daninha no terreno de um coração que nos parece sempre selvagem e desconhecido. Em tal clima ruidoso, torna-se impossível avançar na direção de um encontro íntimo com Deus e conosco mesmos. Permanecemos numa espécie de ante-sala da oração. Perplexos, descentrados, com uma vontade sedutora de retomar as atividades diárias. Nessa ante-sala, vem a sensação de perda de tempo. E vem, com mais força ainda, o ímpeto de voltar a produzir, fazer, consumir, aparentar, mexer-se...

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 Prisioneiros nessa confusão de ruídos multiformes, variados e polifônicos, nos debatemos entre a busca de uma atitude orante, de um lado, e, de outro, a busca de algo para fazer. Pois, como diz a cultura ocidental marcada pelos critérios do capitalismo e da filosofia liberal, “time is money”. Entramos então no segundo momento da oração. Há uma barreira a ser vencida. A impaciência precisa ser domada pela perseverança. Se formos persistentes, passamos a um novo estágio: o labirinto do silêncio.

Neste novo labirinto, duas dimensões se descortinam: o silêncio pessoal e o silêncio de Deus. No silêncio pessoal, não se trata de deixar do lado de fora os ruídos acima descritos. Eles são teimosos como um rosto amado. O próprio esforço para esquecê-los torna-os ainda mais vivos e presentes. Não nos livramos deles tão facilmente. Trata-se, então, de trazê-los para dentro da oração, ou em linguagem popular, de “encarar o touro pelos chifres, de dar nome aos bois”. Ou seja, ao invés de ignorá-los, o desafio é verbalizá-los com toda a coragem e sinceridade. Conforme nos indica a psicologia, o ato de verbalizar as sombras do passado faz com que elas vão se desvanecendo. Verbalizar os ruídos é uma maneira de ir controlando seu poder, de impedir que eles nos dominem, de não deixar que nos afoguem e asfixiem.

Numa palavra, o segredo está em rezar os próprios ruídos. Rezando-os, começamos a transformá-los em música. Aqui deparamo-nos com uma espécie de alquimia da oração: reconhecer e verbalizar os ruídos que ameaçam nos dominar é a única forma de transfigurá-los em nova sinfonia. Na base dessa transfiguração está o fato de que o coração humano anseia profundamente refazer a sintonia com a grande orquestra que é o universo. Fazem parte dela o canto dos pássaros, o som da chuva e das águas, o brilho das flores e das estrelas, o sorriso das crianças, o olhar dos enamorados... Se os ruídos humanos rompem essa sintonia, seu reconhecimento traz a possibilidade de reconciliação. No fundo, trata-se de encarar nossos sentimentos, fragilidades e fraquezas com os olhos de Deus. Se nossa atitude for de arrependimento de sincera busca, seu amor, misericórdia e compaixão nos convidarão novamente a fazer parte da gigantesca orquestra da criação.

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Convertidos os ruídos em melodia, entramos no labirinto do silêncio divino. Deus é Aquele que não fala, insiste Bruno Forte em seus escritos. Jesus, revelando seu rosto ausente, é quem traduz o silêncio do Pai em palavras para a compreensão humana. Mas nem por isso o mistério se desfaz. O revelado novamente silencia e se oculta. Presença ausente, ausência presente! Nenhuma oração ouve diretamente a voz de Deus, apenas seu silêncio misterioso e impenetrável. Podemos ter alguns vestígios de sua voz através da palavra de Deus, nas Sagradas Escrituras, mas seus desígnios não cabem em palavras humanas. A razão não tem condições de alcançar a profundidade incomensurável do Eterno Silencioso.

Aqui, se Jesus é a revelação do Pai, o rosto humano de Deus, o Espírito Santo é quem nos reconduz até Ele. Conclui-se que, nesta terceira etapa do labirinto da oração, o segredo é deixar-se conduzir pelo Espírito. É Ele que reza em nós, que conhece nossos pedidos antes mesmos de serem formulados, lembra a teologia e a espiritualidade do apóstolo Paulo. Conhece nosso coração e nossa alma antes que as palavras cheguem à nossa boca. Abrir-se à presença do Espírito é deixar-se conduzir ao mais íntimo de nosso ser. Ali, para além de nossos desejos e temores superficiais, reside o desejo único e insaciável de todo o ser humano: habitar na Casa de Deus. Ou, nas palavras de santo Agostinho, o coração humano caminhará irrequieto enquanto não repousar junto de Deus, de onde se originou.

Mas, seguindo ainda a linha de pensamento de Bruno Forte, o silêncio de Deus é também a condição da liberdade humana. Deus se oculta e se retrai para que possamos ser livres, decidir nossos destinos. Ele não interfere nas decisões que tomamos, mesmo que estas nos levem a negar sua oferta de amor e salvação. Em síntese, o silêncio pessoal, espelhando-se no silêncio de Deus, encontra luzes para vencer as trevas, para orientar-se no labirinto escuro da oração e traçar novas veredas que levem a refazer a história individual e coletiva.

o silêncio

Pe. Alfredo J. Gonçalves, CS
O silêncio representa uma das formas de linguagem mais significativas de que dispõe o ser humano. Mais do que a fala ou a escrita, às vezes constitui um fator predominante da comunicação. Porém, existem diferentes qualidades de silêncio. Este, tanto quanto as palavras e os discursos, pode simultaneamente revelar e esconder a verdade. Tanto o diálogo verbalizado quanto a comunicação silenciosa podem ser enganosos. De fato, há silêncios opacos e despidos de luz, e há silêncios transparentes e cristalinos como a água da fonte. Convém deter-se em algumas atitudes humanas em que o silêncio exerce funções distintas, não raro contraditórias.

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Tomemos, de início, o silêncio da indiferença. O mundo gira, a história caminha sobre campos minados, o embate de interesses permeia a vida de tensões, conflitos e incongruências, mas o silêncio insiste em nada ver. Cego e surdo, permanece omisso diante dos embates que se desenrolam a seu lado. Assimetrias entre povos, nações e culturas; desigualdades econômicas, sociais e culturais; o luxo e a miséria de mãos dadas, caminhado lado a lado, guerras e catástrofes sucedem-se com crescente brutalidade – nada disso o incomoda.
Nem sequer os escândalos estridentes das disputas e da corrupção política são capazes de acordar esse tipo de silêncio. Desfruta um sono profundo em meio às turbulências e abalos sísmicos do cotidiano. Seria capaz de cochilar no fragor de uma batalha, ao som da metralha e dos canhões, tal a ausência e descompromisso com a vida que o cerca. Interpelado por todos os lados, segue indiferentemente seu caminho. Não se deixa sacudir por confrontos que a outros exigem imediata tomada de posição. Surfando na superfície dos oceanos, jamais suspeita das correntes subterrâneas.

Pode tratar-se de uma postura silenciosa ou silenciada. Silenciosa, quando parte do próprio indivíduo, que não quer saber de “meter-se na vida alheia”. Ou então: “em briga de marido e mulher não se põe a colher”. Não importa que crianças e esposas sejam vítimas, espancadas, e às vezes cruamente assassinadas. A pessoa não se deixa perturbar em seu ninho de paz! Mas pode tratar-se também uma postura silenciada, isto é, calada à força de perseguição ou repressão. Neste caso, o medo paralisa toda e qualquer atitude em favor de si mesmo ou dos mais débeis. É o silêncio do cemitério! Com freqüência a atitude silenciada se converte em atitude silenciosa. De tanto ser censurada, a pessoa se auto-silencia.

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 Em segundo lugar, temos o silêncio envenenado. Por trás dele oculta-se quem desdenha qualquer gesto de comunicação. É o silêncio da recusa, do isolamento. Neste caso não há somente indiferença inerte ou submissa, mas uma atitude hostil para com tudo e todos. Trata-se de um silêncio ativo e agressivo, com requintes de constrangimento. Silêncio que habita e divide amigos, casais, famílias, grupos, comunidades, companheiros de trabalho, etc. Atitude francamente belicosa frente ao menor sinal de aproximação.

É um silêncio que destila ódio e rancor, erguendo barreiras a qualquer tentativa de diálogo. Enquanto o silêncio da indiferença foge do confronto por mera preguiça ou desconhecimento, o silêncio envenenado o faz para fechar-se a todo tipo de encontro. Levanta cercas, muros e obstáculos a toda possibilidade de relação. Resulta ser um silêncio frio, estéril, corroído pelo medo de abertura, trancado em si mesmo, completamente incomunicável. Nessa perspectiva, “o outro é o inferno”, como diria o filósofo Sartre.
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 Por fim, há o silêncio povoado. Memória habitada por lembranças agradáveis, por rostos, nomes e histórias conhecidas e pelo totalmente Outro. Silêncio onde as palavras se calam para fazer emergir a Palavra que se manifesta no mais íntimo de nosso ser. Se o silêncio da indiferença é omisso diante das injustiças e disparidades socioeconômicas, e o silêncio envenenado constitui uma declaração de guerra a quem está por perto, o silêncio povoado tem a marca da serenidade pacífica. Convive como uma memória repleta de pérolas que lhe proporcionam uma intensa vida interior.

Um exemplo: é notório e amplamente sabido que um casal que se ama, ou um grupo que cultiva grande intimidade, costuma comunicar-se muito mais por meio do silêncio do que por palavras. Quando estas se fazem tão necessárias pode ser um sinal de que o amor escasseia. É preciso preencher com a tagarelice o vazio deixado por um silêncio incômodo. De fato, enquanto as palavras são dirigidas aos ouvidos, o silêncio une corações e almas, na medida em que oculta segredos, cultiva um mistério que aquelas tendem a banalizar.

Mais ainda, é um silêncio profundamente fecundo, capaz de engendrar relações sempre mais abrangentes. Abre veredas insuspeitadas para o encontro comigo mesmo, com os outros, com a natureza e com Deus. Também é um terreno fértil para o nascimento de palavras novas, vivas e criativas. A palavra que gera vida se forja, se gesta e cresce no útero do silêncio. Só ele é capaz de produzir a palavra eficaz e oportuna para abrir novos horizontes à história humana, pessoal e coletiva. Somente quem é capaz de silenciar será igualmente capaz de dizer algo novo.

14/06/2010

o gol e o voto - copa da áfrica I

Embora sobejamente conhecida de todos, nunca é demais lembrar a ora sutil ora descarada manipulação que a mídia faz com a legítima paixão que os brasileiros têm pelo futebol.

Principalmente nestes tempos de Copa do Mundo, quando a espetacularização promovida pelos profissionais de mídia beira uma tentativa de imbecilização do torcedor - até que grau o torcedor se deixa imbecilizar por todo esse aparato da mídia é difícil saber, mas com certeza os profissionais de mídia (seja em nome da sobrevivência ou de uma festiva e acrítica adesão) absorvem em si próprios um pouco de toda essa 'macaquice'.  

De qualquer forma, nada desssa espetacularizção e manipulação é capaz de ofuscar a legítima festa popular que é uma Copa do Mundo, e não apenas para os brasileiros. É preciso respeitar e mesmo comungar com este momento de precária comunhão entre os povos, enquanto construímos uma comunhão maior, ou mais autêntica.

Mas nem por isso precisamos fechar os olhos para a manipulação, o exagero. O acurado texto do Pe Alfredo Gonçalves, 'O gol e o voto' é um ótimo lembrete neste sentido, fazendo um interessante paralelo entre  a arena do futebol e a arena da luta de classes que ocorre aqui no Brasil, já que desde 1994 as nossas elições presidenciais coincidem com uma Copa do Mundo.

o gol e o voto
O gol e o voto, em termos brasileiros, parecem irmãos gêmeos. A cada quatro anos, estreitam de tal modo os laços, que um acaba cruzando o caminho do outro. Não que o povo brasileiro seja exatamente o que se pode chamar de exemplo de participação cidadã, mas porque é obrigado a comparecer às urnas, sob penas de multa e outras complicações. O que, de quatro em quatro anos, nas eleições majoritárias, ocorre juntamente com a Copa do Mundo.

Depois de vibrar com os gols e com as vitórias da seleção, ou de amargar seus reveses e falar mal do técnico, o cidadão é submetido a um desfile políticos: nomes, rostos e discursos que lhe invadem a casa através da televisão e do rádio. Em alguns casos, mais parecem múmias recém-saídas do túmulo; em outros, despejam uma verborréia que não lhes dá tempo sequer de respirar direito; enfim, há também os que enchem o tempo com promessas e expectativas que se revelam verdadeiros balões furados; embora raros, há ainda os que estão vinculados ao cotidiano popular.

Passado o festival verde e amarelo de gols, vem a disputa acalorada pelo voto de cada brasileiro ou brasileira. Nas ruas, as cores da bandeira nacional são substituídas pelas cores dos partidos políticos. No primeiro caso, a população consome e desfruta do espetáculo; no segundo, é forçada a digerir o “compromisso com a democracia e com os destinos da nação”. Duas formas de cidadania?

Poder-se-ia alegar que enquanto no futebol há os jogadores e os torcedores com papéis diferentes e bem definidos, no processo eleitoral todos se envolvem no jogo. O povo é chamado a descer das arquibancadas e entrar em campo. Teoricamente , todos se convertem em protagonistas do exercício democrático, na construção do futuro. Ledo engano ou franca demagogia! Na democracia representativa do mundo ocidental acumularam-se vícios e entraves que impedem um protagonismo efetivo da população. A economia e a política se entrelaçam de tal modo, desenvolvem uma promiscuidade tão profunda, que a riqueza gera poder e o poder é caminho para maior enriquecimento. O círculo de ferro fecha-se sobre poucos privilegiados.

Da mesma forma que o futebol, o jogo das eleições também tem seu gramado, exclusivo de uns poucos, e as arquibancadas, de onde o povo assiste mais ou menos passivo ao desenrolar dos fatos. Em campo estão aqueles que dispõem de poder e de condições financeiras para colocar na órbita da mídia seu nome e imagem, rosto e palavras. Nas arquibancadas, em frente à telinha, o povo torce, aplaude, se irrita ou simplesmente desliga o aparelho. Parafraseando Gilberto Freire, são os senhores da Casa Grande que entram no gramado, enquanto os moradores da Senzala se limitam a ocupar a platéia. Perpetuam-se o domínio, de um lado, e a dependência, de outro.

Tanto o gol como o voto tem seus heróis e sua torcida. Uns participam ativamente do jogo, outros o assistem de longe. Em última instância, votar não é escolher, mas apontar alguns entre os já escolhidos. A escolha é feita previamente entre os donos do poder, da riqueza e da influência. Ao eleitor compete aplaudir ou vaiar aqueles que sobem ao palco do grande teatro do processo eleitoral, vale dizer, que reúnem as condições de subir ao palanque.

Entre os vícios e entraves da democracia dos países ocidentais, está o fato de que as regras democráticas pararam a meio caminho. Surfam nas águas superficiais da política, mas não descem às correntes subterrâneas da economia. De fato, como diz Bertrand Russell (História do pensamento ocidental), os países do ocidente eliminaram as dinastias políticas, muitas vezes sacramentadas pela Igreja, mas não conseguiu fazer o mesmo com as dinastias econômicas. Se por um lado é ilícito ao filho de um presidente receber do pai o legado de sua função, como era o caso da monarquia, por outro é absolutamente natural que ele herde todas as suas riquezas, não importa a maneira como tenham sido adquiridas. O governo “do povo, pelo povo e para o povo” não inclui o domínio sobre o fruto do trabalho de todos, o qual, embora coletivo, segue sendo privadamente apropriado.

Resulta que o poder econômico, de uma forma ou de outra, acaba determinando as funções do poder político juntamente com seus ocupantes. Especialmente nos dias de hoje, em que os gastos com uma campanha eleitoral se elevam a cifras exorbitantes medidos em milhões de reais. Na última hora, o povo é chamado às urnas para legitimar um jogo já definido nos bastidores. Como alguém que lança os dados, mas não domina as regras do jogo. Regras que se limitam, salvo raríssimas exceções, a manter os privilégios das classes dominantes. Garantidos tais privilégios, os diferentes setores da Casa Grande, do alto de seus alpendres, para não falar do Planalto Central, podem ou não distribuir algumas migalhas para a população faminta.
É assim que, após alguns séculos da Independência dos Estados Unidos (1776) e da Revolução Francesa (1789), a democracia ocidental não passa de um arcabouço legal do sistema de produção capitalista, de corte liberal ou neoliberal. Pouco ou nada tem a ver com a vida e as necessidades concretas das populações mais pobres. Gols e votos, fantasiados de verde e amarelo, constituem duas formas de “brincar de patriotismo”, onde a euforia e a emoção tendem a deixar cega e surda a razão.

Pe. Alfredo J. Gonçalves, CS