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17/03/2013

vida


Não sei
o que querem de mim essas árvores
essas velhas esquinas
para ficarem tão minhas só de as olhar um momento.

Ah! se exigirem documentos aí do Outro Lado
extintas as outras memórias
só poderei mostrar-lhes as folhas soltas de um álbum de imagens:
aqui uma pedra lisa, ali um cavalo parado
ou
uma
nuvem perdida
perdida...

Meu Deus, que modo estranho de contar uma vida!

mario quintana  - brasil  (1906  - 1994)

24/09/2012

as cidades de plástico


Os campos de concentração na planta das cidades pós-modernas
(ou nova concepção arquitetônica do inferno)

Cidade sem olhos
Tebas
a de sete portas
inaugura sua nova
arquitortura.

Trocou retinas humanas
por câmaras de Cérbero
em alta definição
do inferno.

População cega
não age
ob
     serva
o mundo
tudo e todos
agora
monumental submundo.
Fones no umbigo
celulares ao vento
lotam de solidão as avenidas.

Foram-se os heróis
vieram as celebridades
e uma espessa camada gosmenta
de palavras acomodadas
em poemas.

Quando voltarão o incômodo, a turbulência e o tumulto?

zantonc, no blog  caosgraphia

06/06/2012

litania dos pobres

(trechos)
Os miseráveis, os rotos
são as flores dos esgotos.

São espectros implacáveis
os rotos, os miseráveis.

São prantos negros de furnas
caladas, mudas, soturnas.

São os grandes visionários
dos abismos tumultuários.

As sombras das sombras mortas,
cegos, a tatear nas portas.

Procurando o céu, aflitos
e varando o céu de gritos.

Faróis à noite apagados
por ventos desesperados.

Inúteis, cansados braços
pedindo amor aos Espaços.

Mãos inquietas, estendidas
ao vão deserto das vidas.

Figuras que o Santo Ofício
condena a feroz suplício.

Arcas soltas ao nevoento
dilúvio do Esquecimento.

Perdidas na correnteza
das culpas da Natureza.

cruz  e souza, "faróis" (póstumo, 1900)

10/04/2012

momento

Outro poema do mineiro Hélio Pellegrino, do qual já publiquei quadrilátero ferrífero - fala cristalina e ao mesmo tempo meio que soturna, a registrar a pulsação mineral do solo, do ar e do céu dos Gerais.
Já o poema abaixo me lembra um pouco Rilke, com suas densas tentativas de ouvir, e celebrar, a secreta e aparentemente silenciosa pulsação das coisas e do tempo.

momento

Oh! A resignação das coisas paradas
grávidas de silêncio, reverentes
em sua geometria sem jactância!

A placidez das ruas acolchoadas
contra a dura cintilação do dia;
o recato das árvores, a prece
das esquadrias de alumínio ionizado
na fachada do edifício em frente!

Todas as coisas — em clausura — cumprem votos
enquanto a vã filosofia do século
pensa que move o mundo.

hélio pellegrino - minas (1924-1988)

leia mais sobre o poeta em alguma poesia

18/03/2012

drummond e pellegrino: minérios e mineiros

este poema de Hélio Pellegrino, seja pela sua atmosfera mineral,  seja pela temática de Minas, me lembra um pouco o famoso poema de Drumond, confidências de um itabiranopode ser uma associação bastante pessoal, mas de qualquer forma  ambos vêm bem a propósito, como complemento  à denúncia divulgada aqui, das pretensões da corrosiva Vale (fraudulentamente privatizada) em promover explorações minerais nas cercanias da Serra da Piedade.

quadrilátero ferrífero

Em tuas colinas rasas
não há vinhedos nem olivais.
Há — púrpura difícil — a hematita
uva das Minas Gerais.

Uva sáfara, mineral
fermentando uma pinga de poeira
cujo álcool — lâmina de rocha e cal —
torna triste a embriaguez mineira.

Embriaguez vertical, contida
cujas cores explodem dentro
do peito: ocre violento, lacre
e prata, sol — e lua ferida.

hélio pellegrino - minas ( 1924-1988)
 mais sobre o autor em alguma poesia

27/02/2012

elisa lucinda, carnaval, futebol capixaba e o calor absurdo...

A Escola de samba Boa Vista foi a campeã do Carnaval capixaba deste ano - em Vitória, os desfiles acontecem uma semana antes. O samba enredo da escola fazia uma homenagem à poetisa e atriz capixaba Elisa Lucinda, nascida em Cariacica, mesma cidade da Boa Vista.

Vai o poema  abaixo como uma lembrança do momento - e por ser bastante apropriado para essa época do ano. Gosto do poema pela seu indelicada postura de honestidade, pela sua rasgada afronta ao politicamente correto. Afinal, não é todo dia, nestes tempos de plástico, que vemos poemas escrachadamente relacionar judeus a calores infernais - o que imediatamente remete a campos de concentração - execrar a atmosfera da 'cidade maravilhosa', lamentar a companhia de  zé pagodinhos.

E gosto também pela sua inconformada diatribe contra a estúpida impiedade do calor que se apossa do país por essa época. E que, parece, vai se tornar cada vez mais impiedoso, onipresente e planetário ao longo das próximas décadas - será que de fato seremos todos assados e 'gratinados' aos poucos?   

au gratin

fumo um cigarro fino
como um palito
o calor do Rio é ridículo
calor de chuva enrustida
calor do céu oprimido
de inferno mar resolvido
que não sabe se queima esse cara
ou o assa ao ponto
um calor filho da puta
um calor de estufa
e eu sem nem ser judia
sofro aos pouquinhos
sofro esse zé pagodinho
ardo nesse pecado que não cometi
nesse forno onde me meti
por uma apimentada dica
de um nordestino
que me mostrou uma placa citada, tinhosa:
"CIDADE MARAVILHOSA"

Eu vim.

elisa lucinda - espírito santo
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Ainda a propósito do Carnaval capixaba, talvez seja a hora de rever essa preocupação da Liga em realizar antecipadamente os desfiles de Vitória, por temer que se perca audiência por causa dos desfiles de Rio e São Paulo. Afinal os desfiles têm sido muito procurados, não falta vibração nas arquibancadas e as Escolas têm cativado o público e os seus torcedores.

E a paixão do capixaba pelo samba é autêntica, não obedece a modismos a ou a influências de televisão e  de outras mídias. Para se ter uma idéia dessa relação viva e carinhosa do capixaba com o samba autêntico e multifacetado, basta acompanhar, por exemplo, as animadas e populares apresentações de Edson Papo Furado pelos bares do Centro de Vitória, acompanhado pelo pessoal dos morros adjacentes (Fonte Grande, Piedade, Moscoso) e por muitos outros sambistas, inclusive pela promissora Fabíola Santos.

Não é uma relação alienada como no caso do futebol, na qual os capixabas parece que vibram mais do que os próprios cariocas com os grandes times do Rio de Janeiro. Nada contra, não é birra de torcedor do Galo mineiro. Ocorre que muito desse apoio e dessa vibração deveria ser dado ao próprio futebol local, que há décadas atola-se no ostracismo em termos de participação em competições de nível nacional.

E muito da cobertura e do incentivo, que  a mídia local dá ao futebol de fora, deveria ser direcionado para que os torcedores capixabas se envolvessem mais com os seus times,  com o objetivo a médio ou longo prazo de ter um ou mais times ao menos na segunda divisão do cameponato brasileiro. Enfim, a relação do capixaba com o futebol tem tudo para  ser mais autêntica,  com mais senso de identidade e  de pertencimento. Tal como ocorre com  a sua relação com o carnaval e com o samba. 
*************************
Aliás, a mídia capixaba é muitas vezes provinciana, bairrista e com complexo de inferioridade. É um tal de jornalistas, colunistas e publicitários  colocarem em jornais que as mulheres capixabas são as mais bonitas do Brasil, que as praias capixabas são as melhores que existem, e por aí afora. Como se afirmações assim pudessem ser de fato aferidas, e como se isso fosse de fato importante na vida de um povo.

Mas, pelo menos no caso do samba e do Carnaval do ES, a mídia pode e deve realmente exaltar cada vez mais,  ajudando a construir uma percepção de que o carnaval daqui pode se mostrar de igual pra igual com Rio, São Paulo, Salvador, Ouro Preto, Olinda etc.

E que venha o próximo verão, com 'gratinados', carnaval, escolas de samba, desfiles de blocos na Jerônimo Monteiro e tudo o mais ... - que venham até mesmo as onipresentes partidas do campeonato carioca pela tevê.    

05/02/2012

noturno de belo horizonte

O chope não me traz o desejado esquecimento
Os insetos morrem de encontro à lâmpada
Ou se açoitam no sofrimento destas rosas secas.
Vem do Montanhês este ar de farra oculta,
Bem mineira, e um trombone, atravessando
A pensão "Wankie", próxima à Empresa Funerária,
Acorda os mortos desolados na Rua Varginha.
Uma lua muito calma desce do Rola-Moça
E se deita, magoada, sobre os jardins da Praça,
O telhado do Mercado Novo, o bairro da Lagoinha.

Tísicos bóiam que nem defuntos na solidão
Dos Guaicurus. O próprio noturno de Belo Horizonte
Tem lá suas virtudes: nas pensões mais imorais
Há sempre um Cristo manso falando à Samaritana.
As mulheres do Norte de Minas, uma de Guanhães,
Duas de Grão-Mogol e três da cidade do Serro
Mandam ao ar esta canção intolerável
Que aborrece até mesmo o poeta Evágrio.
Pobre Evágrio, perdido na estação de Austin.
Triste e duro como uma garrafa sobre a mesa.

Entanto nada indica haja tiros, facadas, brigas
De amantes na Rua São Paulo, calma e sem epístolas.
O Arrudas desce tranqüilo, grosso e pesado,
Carregando cervejas, fetos guardados, rótulos de
Farmácia, águas tristes refletindo estrelas.
Tudo, ao depois, continuará irremediavelmente
Como no princípio. Somente, ao longe,
Na solidão de um poste, num fim de rua,
O vento agita o capote do guarda.

dantas mota - carvalhos, minas gerais
"planície dos mortos" (1945)

24/01/2012

de chumbo eram somente dez soldados

de chumbo eram somente dez soldados
plantados entre a Pérsia e o sono fundo
e com certeza o espaço dessa mesa
era maior que o diâmetro do mundo

aconchego de montanhas matutinas
com degraus desenhados pelo vento
mas na lisa planície da alegria
corre o rio feroz do esquecimento

meninos e manhãs, densas lembranças
que o tempo contamina até o osso
fazendo da memória um balde cego
vazando no negrume de um poço

pouco a pouco vão sendo derrubados
as manhãs, os meninos e os soldados

antônio carlos secchin
todos os ventos, ed. nova fronteira, 2002

05/12/2011

ladainha

Por que o raciocínio,
os músculos, os ossos?
A automação, ócio dourado.
O cérebro eletrônico, o músculo
mecânico
mais fáceis que um sorriso.

Por que o coração?
O de metal não tornará o homem
mais cordial,
dando-lhe um ritmo extra-
corporal?

Por que levantar o braço
para colher o fruto?
A máquina o fará por nós.
Por que labutar no campo, na cidade?
A máquina o fará por nós.
Por que pensar, imaginar?
A máquina o fará por nós.
Por que fazer um poema?
A máquina o fará por nós.
Por que subir a escada de Jacó?
A máquina o fará por nós.

Ó máquina, orai por nós.

cassiano ricardo em "jeremias sem chorar" (1964)

03/12/2011

eu queria tanto

eu queria tanto
ser um poeta maldito
a massa sofrendo
enquanto eu profundo medito
eu queria tanto
ser um poeta social
rosto queimado
pelo hálito das multidões
em vez
olha eu aqui
pondo sal
nesta sopa rala
que mal vai dar para dois

paulo leminski

16/08/2011

a tecelã

Toca a sereia na fábrica
e o apito como um chicote
bate na manhã nascente
e bate na tua cama
no sono da madrugada

Ternuras de áspera lona
pelo corpo adolescente.
É o trabalho que te chama.
Às pressas tomas o banho
tomas teu café com pão
tomas teu lugar no bote
no cais de Capibaribe.

Deixas chorando na esteira
teu filho de mãe solteira.
Levas ao lado a marmita
contendo a mesma ração
do meio de todo o dia
a carne-seca e o feijão.

De tudo quanto ele pede
dás só bom dia ao patrão
e recomeças a luta
na engrenagem da fiação.

Ai, tecelã sem memória
de onde veio esse algodão?
Lembras o avô semeador
com as sementes na mão
e os cultivadores pais?
Perdidos na plantação
ficaram teus ancestrais.

Plantaram muito. O algodão
nasceu também na cabeça
cresceu no peito e na cara.

Dispersiva tecelã
esse algodão quem colheu?
Muito embora nada tenhas
estás tecendo o que é teu.
Teces tecendo a ti mesma
na imensa maquinaria
como se entrasses inteira
na boca do tear e desses
a cor do rosto e dos olhos
e o teu sangue à estamparia.

Os fios dos teus cabelos
entrelaças nesses fios
e noutros fios dolorosos
dos nervos de fibra longa.
Ó tecelã perdulária
enroscas-te em tanta gente
com os ademanes ofídicos
da serpente multifária.

A multidão dos tecidos
exige-te esse tributo.
Para ti, nem sobra ao menos
um pano preto de luto.

Vestes as moças da tua
idade e dos teus anseios
mas livres da maldição
do teu salário mensal
com o desconto compulsório
com os infalíveis cortes
de uma teórica assistência
que não chega na doença
nem chega na tua morte.

Com essa policromia
de fazendas, todo o dia
iluminas os passeios
brilhas nos corpos alheios.

E essas moças desconhecem
o teu sofrimento têxtil
teu desespero fabril.
Teces os vestidos, teces
agasalhos e camisas
os lenços especialmente
para adeus, choro e coriza.

Teces toalhas de mesa
e a tua mesa vazia

Toca a sereia da fábrica,
E o apito como um chicote
bate neste fim de tarde
bate no rosto da lua.

Vais de novo para o bote.
Navegam fome e cansaço
nas águas negras do rio.

Há muita gente na rua
Parada no meio-fio.
Nem liga importância à tua
blusa rota de operária.

Vestes o Recife e voltas
para casa, quase nua.

mauro mota - pernambuco, brasil, "elegias" (1952)

04/08/2011

a arte do poeta

escrever um poema é ser assaltado
e manter o sangue frio

ou fazê-lo ferver, borbulhar e correr
nas frias treliças metálicas
do concreto armado

escrever um poema é costurar
gotas
de suor ou lágrimas
tecer longa colcha de ondas
sobre sonhos profundos

ou subir na espiral dos sons
de uma escada cujos degraus
são as notas de uma canção oca
e ascender
através das nuvens evaporadas
rumo ao sol
ao céu
ao nada

lucas nicolato

30/07/2011

minas e as encruzilhadas do mundo


presenças harmoniosas do antigo e do moderno? 


ou lenta extinção das moradas da  memória


e das estradas do tempo?

 

sufocadas pelas enfumaçadas forjas


da inigualada mas por demais apressada 

e já envenenada nave ocidental

texto e fotografias: roberto soares

as duas primeiras fotos são do centro de belo horizonte, encontro da augusto de lima com rua da bahia, bem em frente ao maletta; as duas seguintes são da zona rural de são miguel, também em minas, e as três últimas de ipatinga, com as onipresentes chaminés e torres da usiminas 

02/05/2011

bin laden: luto, lustro

Na impossibilidade de escrever um texto mais abrangente acerca do desfecho da suposta caçada a Bin Laden, publico aqui um poema que escrevi em 2006, por ocasião do lustro (cinco anos) do atentado ao World Trade Center.


bin laden: luto, lustro
(cinco anos de 11 de setembro)


olha aí do seu lado
pode ser ele
bin laden
ei, olha de lado
não olha direto


mas onde ele tá
à direita
à esquerda
do lado de lá
do lado de cá?


agora olha lá bin laden
escorregando
nas grutas e ladeiras da ásia
ladino, latino


olha bin laden
bombando todas
bum! bum!
being! being!
boing! boing!
bom bom?


e olha os doidos dos árabes
orando para bin laden
e lá em cima no norte
a ladainha da morte
o louco balé de bush e blair
envoltos nas bandeiras listradas
por quanto tempo sangrentas
e ensangüentadas?


bin, bin, bum, bum!


roberto soares
vitória, 11/09/2006

26/04/2011

degraus

Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo...

mário quintana

28/03/2011

poema, jogo do desvelamento I - mariana botelho

um poema novo de Marina Botelho - há um bom tempo que não se via tal. aliás, bastante oportuna  a sua publicação no desvelar, afinal faz eco a recente edição de poemas que tinham fio condutor exatamente a manhã, aqui publicados em janeiro.

ao poema de mariana, então: o que me atraiu de imediato foi o jogo denso, aparentemente contraditório e obscuro, entre presença e esquecimento do verbo, da fala. a fala, ou a sua ausência, a sua impossibilidade, misturada com o silêncio, mas o próprio silêncio se alimentando de verbo, o  poema respeitando, reverenciando o verbo, com o silêncio, quando isso se faz necessário.

e tudo com a habitual habilidade, seriedade e  concisão  da poeta, evitando que o poema, ou a fala, se resuma a apenas mais um dos inúmeros jogos verbais que proliferam não apenas nesta década cibernética, mas há ja décadas e décadas de poesia moderna/pósmoderna.

afinal,  é preciso aceitar que há de fato diferenças vísiveis e viscerais entre um mero jogo verbal e entre jogar com o verbo, jogar o jogo do verbo com o ser, com a presença.

 jogar o jogo do desvelar das coisas e de nós no meio do ser: essa talvez uma das principais razões de ser do poema. e mariana botelho é uma das pessoas que de tudo faz para evitar que esse jogo se transforme numa brincadeira repetitiva, ou num joguinho apenas aparentemente criativo ou essencial.

tal como uma emily dickson atual (aliás, alguém, não me lembro quem, já a acomparou com poeta americana) e tal como insinuada no iníco dessa apresentação, essa poeta lá das entranahs de minas nem sequer se preocupa com quantidades, com volumes de palavras escritas ou publicadas.a poeta parece se esforçar para por em prática o aprendizado, ou o exercício, de colocar o silêncio a serviço do verbo, quando assim é necessário ou suficiente.

a manhã nos obriga
a chorar
sempre

esquecer
a tosse noturna do filho

a urgência
do amor

o verbo
nosso pai

o silencio
nosso filho

nosso rito diário
de esquecer

mariana botelho - minas    

28/01/2011

a bica



corre, sempre a esperar-te
a água da bica
para que você venha
e lave teu rosto criança
tomada a atitude
ela seguirá no fluxo normal
levando para onde você não sabe
teus sonhos da noite dormida
vicente filho



 

a ontológica angústia do despertar

Alguns poemas que falam da manhã, esse momento mágico que no mais das vezes é visto tão somente como sinômino de luz, renascimento, de celebração da vida que recomeça.

Mas a manhã e os instantes do despertar também devem ser vividos como o decisivo momento em que - mesmo sem perceber, ou manifestar explicitamente - confirmamos ou recusamos as escolhas que fazemos para cumprir a nossa inevitável tarefa de estar na vida e de estar no mundo.

Enfim, momento ora admirado ora angustiado, ora de celebração ora de decisão, mas sempre presente, denso e irrevogável. Embora sejamos formados para ignorar e mesmo condenar essa densidade e essa angústia - somos educados para ter a obrigação de apenas celebrar, nunca interrogar ou duvidar, e quanto mais ruidosamente celebramos, sem fazer perguntas, mais somos socialmente aceitos e benvindos.

Mas Sartre já lembrava que somente pedras e couve-flores é que estão imunes à interrogação, à perplexidade, enfim, somente coisas estão imunes à angústia própria do humano ao se descobrir lançado livre (no sentido de indeterminado, sem essência) no mundo, no tempo e na vida.

E a manhã é o momento por excelência desse reconhecimento da liberdade e da indeterminação ao qual estamos 'condenados' (para usar a famosa expressão de Sartre). A manhã, os instantes de acordar: momentos fugazes, mas densos, quando somos como que convidados, ou exigidos, a retomar cada uma de nossas escolhas, ou cada uma das situações que aceitamos que o mundo e os outros nos imponham, ou nos solicitem.

Ocorre que a modernidade tecnicista e capitalista, com suas sociedades de controle, de tudo faz para que situações de incerteza, de precariedade ou de perplexidade não estejam presentes no dia a dia do seu exército de trabalhdores/consumidores (a propósito, vide texto acerca da morte, publicado aqui em novembro).

De manhã, então, nem pensar em perplexidades, interrogações, angústias. É preciso estar a postos para ir atrás da ração diária de trabalho massacrante, despersonalizado, às vezes rastejante, para alimentar adequadamente os mecanismos de poder, dominação e controle das massas, e em troca os soldados do exército recebem a sua cota de sobrevivência - e de ilusões e falsas necesssidades fabricadas pela sociedade de controle, seja lá que soldado for: masculino, feminino ou de terceiro gênero, seja ‘artista’ ou pessoa ‘comum’, seja ‘graduado’ ou ‘povão’, seja ‘militante’ ou ‘alienado’).

E para que esse exército não fique prostrado na cama, é preciso oferecer-lhe efusões, alegrias, metas, sonhos de consumo, de posse, de imagem, de atitudes, enfim, caricaturas de existência. Mas nunca, jamais, permitir que os cansados e domesticados soldados se debrucem sobre esse tenso e ôntico momento de recomeço, de reinventar-se, de assumir novamente ou recusar as suas escolhas no mundo e na vida.

Finalizando, e relembrando: não é que o despertar para a vida e o mundo tenha que se dar sempre no modo de angústia, indeterminação, perplexidade. Mas também não temos a obrigação social, existencial ou afetiva de apenas celebrar e agir de forma autômata, imposta, escamoteando a angústia e a interrogação, que são constitutivos ontológicos essenciais do ser humano, são aqueles que (ao lado da capacidade de se autoperceber e de perceber o mundo, de se admirar, de se fascinar, de celebrar a vida e o mundo) nos diferenciam radicalmente das coisas, dos animais, enfim, para citar novamente Sartre, aquilo que nos diferencia de pedras e couve-flores.

Manhã é isso: momento de se afirmar novamente como existente autêntico, como consciência ciosa de si no meio do mundo e dos outros, com tudo o que isso implica de celebração e de risco, de angústia e de gratidão, de enfrentamente e de comunhão.
***********
Então, alguns versos e verbos que resgatam um pouco dessa vivência do matinal ontológico ou existencial.

Há o brevíssimo poema de Rui Caeiro, todos os dias logo pela manhã, tão fugaz e cortante quanto o reconhecimento do indivíduo ao se deparar com o sempre renovado enigma da manhã e, no caso do poeta, do renovado enigma do encontro coma a palavra criada, ou revelada. 

Há um poema meu, o poema nosso de cada dia, que também fala desse sempre virginal, embora às vezes angustiante, momento de novamente deparar-se com a palavra criada ou revelada, e isso logo de manhã.

Republiquei o poema de vicente Filho, a bica, por achá-lo bastante oportuno: com certeza é o uma das mais crentes orações já feitas por um poeta à manhã.

Com chego cedo ao café, Adilia Lopes faz outra sucinta saudação à manhã, breve confissão da angústia que lhe traz a manhã que lhe ameaça a 'paz'.

O poema deixe-me te dar o verão embora não seja um olhar à manhã e sim ao verão, não deixa de carregar também uma certa saudação à fugacidade e ao impalpável, carrega uma percepção acerca do tempo e do ser, uma interrogação do narrador no meio das coisas que o cercam – enfim, são palavras, imagens e mensagens bastante diferentes dessas com as quais somos bombardeados pela engrenagem nesses longos dias de sol, e só por isso já valeria a sua publicação.

E não poderia ficar de fora o antológico poema de João Cabral de Melo neto, tecendo a manhã, no qual, com ágil inventividade e vibrante apelo,  o poeta tece uma verdadeira rede matinal de imagens e sons.  

19/01/2011

o poema nosso de cada dia

acordar todo dia
babando tantas gotas
de vazio
não traz a cura
perplexa criatura

é-se
desintegrado
nas noites escuras
nas noites brancas
nas noites
há açoites

mas anda...
nas manhãs
do mundo
há deleites
ainda...

roberto soares

15/01/2011

tecendo a manhã

Um galo sozinho não tece a manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro: de outro galo
que apanhe o grito que um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzam
os fios de sol de seus gritos de galo
para que a manhã, desde uma tela tênue,
se vá tecendo, entre todos os galos.
E se encorpando em tela, entre todos,
se erguendo tenda, onde entrem todos,
se entretendendo para todos, no toldo
(a manhã) que plana livre de armação.
A manhã, toldo de um tecido tão aéreo
que, tecido, se eleva por si: luz balão.

joão cabral de melo neto, em 'a educação pela pedra'