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18/06/2012

barbárie tingida de verde

E começou a Rio + 20.
Então, nada mais apropriado do que o artigo de Laerte Braga, que desnuda com contundência um pouco do jogo de cena que está por detrás, não apenas da Rio + 20, mas da própria tentativa de se trasnformar o atual e futuro desastre ambiental numa fórmula para adiar a derrocada do capitalismo.

Seria sectarismo simplista negar a validade deste encontro de cúpula, que tenta avançar em propostas e ações urgentes, sérias, para se tentar evitar o pior, não para o planeta em si, mas para a humanidade, e para outras espécies que o habitam, e que serão levadas de roldão pelos erros humanos.
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Mas a questão é saber até onde é possível negociar com o capitalismo a solução do impasse em que está metido o projeto ocidental de civilização. E, também, refletir sobre até onde é necessária essa negociação.

Ao que se sabe, não é possivel instaurar uma verdadeira racionalidade nos mecanismos de dominação que sustentam o capitalismo. Uma racionalidade voltada para o desenvolvimento das plenitudes do ser humano, e para o convívio inteligente e transcendente com o mundo que rodeia esse mesmo ser humano.

A história, passada e presente, tem dado provas cada vez mais terríveis, sufocantes e absurdas da impossibilidade desse tipo de negociação com o capitalismo, da impossibilidade de humanização do capitalismo.
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Resta pensar seriamente até onde é necessário levar a sério o capitalismo. Claro que muita barbárie, muito sofrimento e muita besteira ainda será provocada pelos atuais mecanismos de dominação das pessoas.
Mas parece cada vez mais claro que, ao lado da impossibilidade de negociação com o capitalismo, cresce a consciência de que não há mais necessidade de levar em conta esse sistema outrora revolucionário e necessário para a história humana, e hoje apenas obsoleto, burro, criminoso e decadente.

É como se as pessoas e povos aguardassem, ou estivessem se preparando para acolher um novo projeto de civilização. Como se fosse uma mera questão de tempo a queda desse sistema obsoleto, mas cada vez mais perigoso, insano e maléfico à esmagadora maioria das pessoas.

O texto de Laerte Braga toca nesse ponto, ao registrar que a legitimidade da Rio + 20 está exatmente no acúmulo de articulações, debates e forças das lutas populares, que se farão presentes na Cúpula dos Povos, evento paralelo ao encontro oficial e institucional da ONU.
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Apenas a título de ilustração literária - e a propósito dessa consciência de povos e pessoas, acerca da obsolescência do atual modelo de organização social e econômica - transcrevo um trecho de uma novela de minha autoria.
Na cena, Dala (personagem-título e personificação do planeta Terra), discorre para o poeta U. suas angustiadas expectativas acerca dos anos decisivos vividos pela humanidade, acerca do impasse em que suas criaturas prediletas estão se envolvendo - e envolvendo a ela própria, Dala.
Na sua fala, Dala também trata levemente da intuição das massas, da 'turba', que suspeita que algo está muito errado, mas uma intuição feita apenas de ironia e de resignação, sem ainda potencial de enfrentamento:
"sim, não se entende o que falta, para onde dar o passo final. tudo ainda são suspeitas, vislumbres no meu horizonte, sussurros trocados entre os astros e estrelas mais próximos de minha trajetória e que escuto sem querer, apostas ora cautelosas ora piedosas sobre o meu destino e o de vossa raça. quanto a mim aprendi, nesses dois mil anos de sustos e aplausos, que não se deve concluir com segurança sobre vós ocidentais. é preciso às vezes apelar para o humor e, então, se não fosse tão trágico, eu diria que a hesitação de vossa raça, nestes esplêndidos e atormentados anos, é uma vingança dos deuses do Olimpo (ou uma feitiçaria dos deuses de áfrica, ásia ou ameríndia) por terdes incumbido o ocidental Prometeu da serpenteante e ígnea tarefa de roubar o fogo do saber e do saber fazer...

enquanto isso, todos esperam, cansam-se... o pensamento exaspera-se, tortura-se, confunde-se, estiola-se, nega-se, volta-se sobre si mesmo, obras e mais obras, a palavra intentando viver de sua própria nave, de sua construção paralela, de si própria palavra, tentando dar vazão à sua própria sede de domínio sobre o Real... a casta dos comandantes acautela-se, perde-se e perde a razão de existir como comando, faz que não ouve a urgência, a possibilidade e a necessidade de um repouso planetário... e a turba dos comandados espera, apenas mais uma vez espera, parecendo ironizar, na sua condição de impotente e ainda faminta de tanto, parecendo dolorosamente debochar dos esforços patéticos e desnecessários dos comandantes para resguardar o domínio da jornada, com suas antiquadas, arrogantes e cruéis barreiras erguidas em volta dos castelos, anéis e plantações...

ah, talvez seja necessário dizer como o suicidoce vidente celan: ‘que um homem saia desta tumba!’, para que de fato o ocidente mergulhe naquele estado de espanto-admiração, mostrado no final da obra de sagan e kubrick, e a partir daí verem-me, a si próprios e ao formidável campo além de mim, ver tudo isto com outros olhos, olhos mais pacificados, mais doces, menos ansiosos... o homem do ocidente como um embrião novo para si próprio, para o meu corpo, para o oriente, para o Real...

ah, equador de calmarias
vibrar o canto e fazer os homens
em cada nascer de luas, maiores:
o mundo precisa de artesãos

o mundo, esta pedra de alabastro
pedra-sabão, âmbar, marfim seleto
peça de ferro cru, a carecer
de têmpera e mãos doces, inspiradas

estão os homens a construir?
estão os homens?”

dala, capítulo 6 (registro bn 248.522)

06/05/2012

abrigos e desabrigos em meio ao ser

delicada, tocante imagem oferendada pelo Ser.
como esgotados e desamparados dançarinos
os acrobatas do ar se aquietam, unidos na fragilidade
à espera de que finde a outra dança
a alva e álgida dança da neve.

mas aguardam solenes, silentes
crentes de que o Ser oferta o  momento certo
para as acrobacias e cantos, dores e encantos 
aparições  e desapariçoes
de todos os entes que se abrigam
em meio ao seu cósmico e incessante velar e desvelar.    

Família de passarinhos se expreme em galho de árvore para enfrentar nevasca


14/03/2012

em viagem... e um pouco de 'dala'

Em viagem desde o dia 09, sexta. Em retiro, acolhido pelas montanhas das Minas Gerais. No caminho do campo. Desde então, somente postagens previamente programadas para publicação: poemas, literatura, vídeos (música, cinema). 
A partir do dia 23 é que estarei em condições de acompanhar e editar temas e fatos locais, nacionais e globais. Mas, já que no meio da montanhas de Minas, um techo de meu "Dala", ainda não publicado:

"(...)Saíam de casa geralmente às cinco da manhã, chegavam à Usina, local frio e enfumaçado, às oito horas e só retomavam a viagem à tardinha. Ele aguardava do lado de fora, no terreno junto à rodovia e nas barracas, dentro da Usina só podiam entrar motoristas e funcionários, adultos enfim.
Quase doze horas espreitando e espreitando-se, jogando-se no (e jogando com o) tempo inútil amontoado à sua volta, ele fazendo por ignorar a profusão de montanhas úmidas e verdes que envolviam-no, envolviam a Usina, com seus fornos e máquinas zunindo inacessíveis (para ele brilhantes e futuristas), com o sem número de caminhões e motoristas que iam e vinham; ele tentando fixar-se em máquinas, caminhões e pessoas de gestos apressados ou mecânicos ou indolentes, do que ter que

saber da solidão das montanhas
e compreender a prisão de Deus

compreender os espaços inabitados entre elas, montanhas e espaços inviolados sucedendo-se uns aos outros em olímpico mutismo, ele, ainda que não soubesse, achando-se extenuado por aquela mistura de humano e de divino que o agarrava de todos os lados. Impaciência, Impaciência.
E, vez por outra, também uma fome cômica, quando ele e seu pai ainda não sabiam de um restaurante nas proximidades da Usina, e ele tinha que se contentar com biscoitos, queijos e sanduíches surgidos melancólicos nas barracas.

De bom grado, então, ao entardecer ele se reacomodava na cabine, o desejo interrompido, mas conservado e talvez acrescido, de ganhar o asfalto como uma ave qualquer ganhava o espaço: percorrer, percorrer, em silêncio percorrer a terra estrada mundo, sabendo que o próximo ponto de descarga, e de espera, ainda estava longe, ainda estava depois da noite que se avizinhava. Na última encosta, de onde ainda se via a Usina, ele se voltava e ainda via a Usina. Apesar da demora, tristeza de despedida, mitigada pela quase certeza de que voltaria. Já escurecendo, ele se deitava no chão da cabine: um pouco de repousono.

Mas o desconforto e o cansaço ansiosos, que haviam se acumulado durante o tempo de espera fora da siderúrgica, voltavam, em menor grau é verdade, após as primeiras dezenas de quilômetros de subidas, descidas e curvas; ele sobressaltava-se, principalmente, com as curvas que pareciam puxar o caminhão agora pesado para fora da estrada, para os despenhadeiros que ladeavam a rodovia nas proximidades de Ouro Preto e Itabirito.

Tudo tornava-se, então, um misto de cansaço, medo e felicidade: a cadência gostosa e com um quê de poderosa do 1113 ocupando a estrada, o ronco acolhedor do motor que também aquecia o chão da cabine, a pergunta “pai, onde vamos jantar?”, formulada após algumas dúvidas sobre dormir ou não dormir, afinal dormir depois de um “vamo ver se a gente agüenta até o Água Limpa” (que ainda estava longe), adivinhando na noite as passagens velozes dos outros caminhões, ora vindo em sentido contrário, ora sendo arduamente ultrapassados pelo 1113, ora corajosamente ultrapassando o caminhão deles, roncando, bufando.

Sua consciência ingênua e sonhadora via algo como um gesto de solidariedade nesses encontros ruidosos sob o negrume frio, sua consciência frágil e perplexa via neles gestos de abandono e mútua indiferença; encontros e desencontros nebulosos, necessários."
(Roberto Soares, em "Dala", cap. 3) 

30/07/2011

minas e as encruzilhadas do mundo


presenças harmoniosas do antigo e do moderno? 


ou lenta extinção das moradas da  memória


e das estradas do tempo?

 

sufocadas pelas enfumaçadas forjas


da inigualada mas por demais apressada 

e já envenenada nave ocidental

texto e fotografias: roberto soares

as duas primeiras fotos são do centro de belo horizonte, encontro da augusto de lima com rua da bahia, bem em frente ao maletta; as duas seguintes são da zona rural de são miguel, também em minas, e as três últimas de ipatinga, com as onipresentes chaminés e torres da usiminas 

02/05/2011

bin laden: luto, lustro

Na impossibilidade de escrever um texto mais abrangente acerca do desfecho da suposta caçada a Bin Laden, publico aqui um poema que escrevi em 2006, por ocasião do lustro (cinco anos) do atentado ao World Trade Center.


bin laden: luto, lustro
(cinco anos de 11 de setembro)


olha aí do seu lado
pode ser ele
bin laden
ei, olha de lado
não olha direto


mas onde ele tá
à direita
à esquerda
do lado de lá
do lado de cá?


agora olha lá bin laden
escorregando
nas grutas e ladeiras da ásia
ladino, latino


olha bin laden
bombando todas
bum! bum!
being! being!
boing! boing!
bom bom?


e olha os doidos dos árabes
orando para bin laden
e lá em cima no norte
a ladainha da morte
o louco balé de bush e blair
envoltos nas bandeiras listradas
por quanto tempo sangrentas
e ensangüentadas?


bin, bin, bum, bum!


roberto soares
vitória, 11/09/2006

26/04/2011

dala: excertos

Dando seqüência ao mergulho na contrita e transcendente atmosfera da Sexta-Feira da Crucificação (veja vídeo abaixo), selecionei um trecho de minha novela Dala, que publicarei em breve em meio eletrônico.

Dala personifica nada mais nada menos do que a Terra, o planeta.  U. é a sede de Absoluto, de Espírito, do transcendente no cotidiano, e é a radical recusa desse cotidiano, exatamente por não perceber nele o espaço do divino. Tão embriagado dessa sede e dessa recusa, tão desgastado pelo vaivém de sua tarefa de poeta num mundo excessivamente prosaico, que o seu processo de ruptura torna-se-lhe insuportável, culminando em visões mágicas na noite de seu aniversário, através das quais ele é alçado até a órbita terrestre, e lá envolto pela magia de Dala, personagem através do qual dou feições humanas ao nosso próprio planeta.
 
O trecho em questão é a parte final do capítulo em que o jovem U. narra a trajetória de sua existência a Dala, até a noite em que logrou encontrar-se face  a face com ela.

************************
Dala - final do capítulo V
 
Dala:
(reinstalando a seriedade no âmbito da navigagem)
"então, imune à trajetória terrena, te vi numa tentativa de retorno ao transcendente, às rarefeitas e incompletadas raízes: houve o retornar reticente e tardio aos cânticos e templos. a matriz de Santa Rita de Cássia, repleta de penumbras proibidas, ainda afastadas de ti. a procissão nas manhãs da Crucificação, o roxo lutuar das flores exigindo silêncio. tu de longe, no espaço a ti reservado.’’

U.:
(ainda com a cabeça recostada no peito de Dala, numa voz recatada, olhando para baixo)
"sim, dala amiga, recordo  tais vivências com dolorosa nitidez. nas manhãs:

 procissão. silêncio. contritos todos.
a manhã é um culto secreto, místico
estamos possessos pela melodia, aturdidos

e à tarde e à noite as sete palavras varavam a cidade, ecoavam pela casa. tornavam tudo bíblico, pareciam circundar a cidade com muralhas invisíveis e arcanjos terríveis. um santo sepulcro, transcendental. até que um dia os senhores padres houveram por bem alternar as comemorações da Santa Semana: um ano numa paróquia, o seguinte na outra. mudou-se também o itinerário das procissões. eu habitava longe da outra igreja e das ruas por onde a revivescente passou a passar, ano sim ano não. eu não era bom peregrino, perdi um pouco do ritmo

fomos para o jardim da casa
rezava-se à cidade. articulamos
negras vozes que se dissiparam

a horas altas, olhos nebulosos
plantar lírios azuis, impossíveis

migrar para o alto e além, purificar-se da impressão de pecado que nos invade, nos oprime, por percebermos quão longe o humano está de exercer o seu testemunho, a sua tarefa de sentinela e companheiro do Real, ou de Deus, se preferires. essa mistura de singeleza e magnetismo das alturas que nos advém quando da Santa Semana lavava-me, deixava-me apenas triste, pequeno, amamentava-me numa melancolia modesta, uma espécie de nostalgia e recatada solidariedade para com o Crucificado, que me dispensava da condição de pecador por fazer parte de uma tão incompreensível raça.
enfim, a celebração religiosa, feita ao mesmo tempo de recatos e tremores, parecia fazer com o mundo terreno perdesse sua face medonha, medrosa, religando-se a um outro mundo, não celestial, perfeito, mas apenas distante, diferente, impassível, feito de lírios azuis e impossíveis, modesto e melancólico em sua incapacidade para tornar verdadeiramente azul e etéreo o mundo terreno, concreto, vivente.

enfim, viajava, vivia, celebrava solitário em minha ambígua condição de ateu saudosista. mas o que deveria durar até o domingo de Páscoa (o renascimento, a vida nova) acabava já na manhã de sábado de Aleluia, o mundo e a vida apareciam-me novamente como terrenos, sensuais, triviais. acho que, para mim, o calendário humano deveria ser uma constante sexta-feira da Paixão, um eterno ano de recolhimento, silente respeito e contrição, até que de fato pudéssemos todos enxergar um palmo adiante do nariz, vermos a nossa condição de testemunhas e amparo do Real

senti que caíamos: tudo e todos
houve uma alegria... e uma manga
caiu no quintal. no jardim da casa

em tudo estava ela...
em tudo!

o que digo é que, depois da sexta-feira da Compaixão, da solidariedade lutuosa dos humanos para com o Real e sua testemunha Crucificada, havia sempre a queda, o retorno da lucidez e da desdenhosa resignação para com os justificáveis frutos terrenos dos homens. até que num domingo à noite, embriagado e faminto numa missa, retirei-me definitivamente do culto, cabisbaixo, definitivamente descrente da possibilidade de um mundo azul e etéreo, desdenhosamente prisioneiro de um mundo terreno. devo ter me tornado qualquer coisa como um adulto, feito de sentimentos sérios e confiáveis

ensejei viver por hábito.
amei por necessidade

e assim foi a jornada, em meio a teus filhos,  desta

criatura nula
sem razão, método, ciência
cura

foi só, passaram-se anos
atravessei as terras
ergui o substituto
assim vivi. mas não me bastando
as fontes secaram-se

e por detrás desse espantalho, a quem deleguei a função de substituir-me, estava sempre à espreita Uoutro, dilacerado e entediado, raivoso e desdenhoso, crente e errante, mas sempre escondido, sem se achar com direito à cidadania, impondo a si próprio uma clandestinidade como única forma de não sangrar mais, de não se arrebentar de vez. até que nesta noite imensa, ofegante, não suportei mais, ousei e consegui vir aqui, até ti

por entre fendas e musgos
te entrevi - misto de estrela
seda pedra vento

Dala, errante do plenilúnio
girando girando a dança
dança
cadente e ligeira...
na trança do infinito...
sarabanda

são estas as notícias que te traz teu mais recente acompanhante, confuso... fala-me agora, de ti...”

19/01/2011

o poema nosso de cada dia

acordar todo dia
babando tantas gotas
de vazio
não traz a cura
perplexa criatura

é-se
desintegrado
nas noites escuras
nas noites brancas
nas noites
há açoites

mas anda...
nas manhãs
do mundo
há deleites
ainda...

roberto soares

07/12/2010

simbioses

vinde ver o devir de verdes e carmins
folhagens lenhos cogumelos aleitados
 deitados em penumbras e fiapos de sol*
gozosas núpcias de vegetais, sóis e sombras





estas também são fotografias tiradas no morro da fonte grande - veja mais acima


* ou fiapossóis, só para lembrar o poeta paul celan

01/11/2010

ilha, luto

a domingos, companheiro atropelado pelo real

pater, eu tenho um mar até o peito
mas não me alço alto e forte

nada a dor

na tarde que neblina, brinda
e escorre cremes e cristais de melancolia

eu temo e amo a visão boquiaberta
a que me lava e voa em sonhos:

tu e tua urna sem porto
aí nesse mar maior
que esta ilha de migalhas

urna úmida, muda e balouçante
a vadear as areias e arestas desta terra
arrastada em ondas que voam, rugem
além da vitória ou da derrota
no seio da vertigem

e então reconto, desponto
de praia a ponta
de barra a mar
de campos a serra viçosa:
eu busco o esquife inesquecido
as memórias jamais perdidas
na fraturada memória da partida

e ja à porta do espanto
à meia fundura do mar
eu paro, eu espero
eu-parto: o olhar ofega
mas esse teu ômega afaga-o

então já não mais naufrago
a memória na melancolia
continuarei.
carregarei essas tardes como quem carrega teus
sapatos de afogado

ancoro-me em lágrimas doces e as mesclo
com neblinas, ondas, espumas, crinas
e gotejo esses imensos instantes
que ardem na tarde
num só num só num só
                                           poemar

e envio a esse teu
celeste deserto nublado:
inimaginável intangível
impossível imperecível
                                           pomar

deserto de pó, de mar
                                          pós-mar

pater?

roberto soares (ilha de guriri, es, inverno de 96)

16/03/2010

terceira ponte...

...primeiras manhãs

digo que o impalpável deus mistério
tem dias que dá de dormitar e orar
nestas bandas aqui do mundo

acontece:
os raios engenheiros do sol
vêm vistoriar a ponte e a manhã
mas se esquecem e se encantam:
brincam
cintilam
tintilam
nas águas profundas da baía
toda céu-dourada lá pelas dez horas

parece:
ora querem trazer o céu para a terra
ora querem fundir mar-e-céu azuzuis
ora querem
afundar e
dormir
ali

parece - e acontece – uma
oração de alegria azul dourada e calada
(danada de bonita, uai!)

roberto soares

*******************

Este meu poema, e mais os três que se seguem, querem tão somente uma celebração do divino no meio mesmo do mundo. Três despretensiosas e singelas tentativas de desvelar a fugitiva presença do Ser em meio à infinidade de entes e fenômenos que povoam o Real, sem tentar fixar o Indizível, o Difuso, de forma desesperada ou exigente; ao contrário, a única preocupação é a de identificar e reconhecer o divino em realidades concretas, bem ao alcance nossos olhos e mãos: os raios do sol, o vento, os lírios, azul, o mar.
O poema terceira ponte, primeiras manhãs eu o escrevi em 98, logo nos primeiros meses de minha chegada aqui em Vitória. Publico aqui uma fotografia da Terceira Ponte.
Quanto a deus nos lírios, poema da portuguesa Renata Botelho, foi extraído do blog Hospedaria Camões.
Note-se o vigoroso contraste do poema a pérola... com o poema pluma noturna, ambos de Vicente Filho: no primeiro o sagrado é nomeado e apontado com firmeza, confiança e ímpeto quase guerreiro, ao passo que no segundo poema, como já apontamos tudo é difícil, hesitante, difuso.
A registrar ainda que tempo, vazado num tom mais engajado e menos metafórico, mais prosaico, não se detém tanto nessa ênfase da pura celebração - ou melhor, não faz a celebração do homem em meio aos entes do mundo, faz a celebração do homem em meio à sua própria história, embora, claro, uma celebração meio amarga, ou mais lúcida.
Uma reverente prospecção do mistério que se manifesta na história que fazemos, uma politização transcendente, uma inserção desta mesma história que fazemos num horizonte maior, no vasto e enigmático horizonte do tempo ao qual não temos acesso - bem, pelo menos enquanto não podemos ou não conseguimos ver a Fonte face a face.

07/07/2009

dança de outono



os diuturnos duros troncos
aspiram a adormecer
ao menos mínimo sono
no veludoso dourado
leito de folhas filhas

texto e fotografia: roberto soares

dança de inverno




num ninho
de nuvens
náufragos
navios
rodopiam
sem norte
à sorte
de volta ao vasto
útero da morte


texto e fotografia: roberto soares

23/05/2009

fotopoema

café da manhã de domingo

apanhado
desacompanhado
desfocado
cortado
faminto
à porta da padaria. sem apanhar nosso pão gostoso de cada dia.
poema e fotografia: Roberto Soares Coelho

28/04/2009

paisagem urbana, humana (I)

Junte-se o aparecimento da gripe suína, com pessoas acuadas e mascaradas, a lembrar mórbidos cenários futuristas, junte-se as recorrentes crises econômicas do capitalismo, junte-se as primeiras desordens climáticas supostamente resultantes do aquecimento global, junte-se o desemprego, a miséria e a perplexidade de alguns, o consumismo, o medo e a modernosa/presunçosa anestesia de outros, junte-se a institucionalização das violências (mais sofisticada nos países ricos, do tipo garotos e desempregados que assassinam pessoas aos montes, e cada vez mais brutal e cínica nos nossos países de periferia), junte-se colossais engarrafamentos com uma multidão de motoristas a praguejarem dentro de seus tão acalentados sonhos de consumo (os famigerados automóveis, que fazem girar as engrenagens da economia, entopem as ruas já atulhadas de transeuntes e ambulantes e espalham seu odor fétido e seus ruídos agressivos pela cidade afora), junte-se a vertiginosa derrocada das chamadas instituições democráticas e de alguns dos aparatos ideológicos e de controle a serviço do Estado capitalista (escolas, parlamentos, ‘justiça’, polícias, igrejas), junte-se a crescente capitulação e imobilismo da esquerda institucionalizada, junte-se tudo isso e não há como não lembrar de um poeminha de Waldo Motta, publicado em 1991:

turba

quereis fugir
ondas em pânico?
não há onde ir.

Recado curto e grosso.
Mas talvez haja, sim, um lugar para ir. Para as ruas, uns ao encontro dos outros, ao encontro do projeto coletivo, libertário e planetário de finalmente termos o comando de nossas vidas, o projeto de finalmente podermos decidir quais são realmente as nossas necessidades e as nossas potencialidades, o projeto de decretarmos o fim da conquista pela conquista, o fim do domínio pelo domínio, o fim do domínio da lógica predadora e estúpida do capitalismo sobre as delicadas e complexas riquezas do mundo e de nós próprios.
Talvez haja, sim, um lugar para ir, mas um lugar ainda a ser construído, construído por nós, bandeirantes de nós mesmos. E, aí sim, talvez a ingenuidade juvenil do poema abaixo (de minha lavra, escrito no distante 1988) possa dialogar com a corrosiva e implacável certeza do poemeto de Waldo Motta:

bandeirantes do arco-íris

tudo úmido e colorido.
mas um dois três operários
as chinelas de dedo
pedalando molemente as bicicletas
cortaram nosso caminho
fazendo-nos parar no meio da rua
em frente ao jardim

nossos pés estacaram
em cima dos paralelepípedos
nossos rostos tomavam
das gotículas que caíam das ramagens

nossos e deles olhares se encararam
ao mesmo tempo que abraçavam por inteiro
as árvores vivas verdes escorrendo
sobre nós, sobre pedras, sobre o instante

houve a fugaz impressão
de que as árvores nos olhavam
as suas bicicletas nos olhavam
enquanto todos nos olhávamos molhávamos
na umidade que orava e orvalhava na tarde

olhar relâmpago, fogo azulado
tempo verde e exato
de realimentar na tarde cinzenta
a rubra crença de um dia
marcharmos juntos em avenidas
de punhos e corações erguidos
rumo às trilhas do arco-íris
(viçosa, abril de 88)

Textos relacionados: ocupar as ruas, manter a chama e explosões do verbo e da cidade (esse último a ser publicado em maio)

Roberto Soares Coelho

19/02/2009

fotopoema: advento


pequena pedra
no verde vê.

...água...

paredão de pedra
na névoa verte.

...água...

pedra cá pede.
pedra lá perde.

...água...

prece à.
pressa da...

...água...

poema: roberto soares
fotografia: roberto soares - santana do paraíso, vale do aço, minas

22/12/2008

"então é natal, e ano novo também..."


Sabemos que a época natalina, há muito tempo, não é mais vivida apenas como momento maior da cristandade. O natal se tornou para todas as pessoas sinônimo de solidariedade, de esperança, de perdão e superação de conflitos. Em parte, talvez pelo fato de ser comemorado tão próximo ao Ano Novo das sociedades ocidentais. A proximidade das datas fortaleceria naturalmente o sentimento de renovação, de fim de um ciclo e início de outro (tal como insinuado no verso da famosa música de Lennon, que escolhemos como título desta postagem). O sagrado e o profano. A memória religiosa e a promessa terrena se encontrando. A celebração anual da esperança de que um dia a Grande Festa ocorra aqui e agora no reino dos homens.

Nem mesmo esta época de desenfreado consumismo e de indiferença e medo entre as pessoas é capaz de desvirtuar ou eliminar completamente esse momento de celebração e de resistência, que chamamos de espírito natalino.

Trazemos então três poemas, tendo como motivo a figura do Cristo, esse que, até hoje no Ocidente, ainda é o símbolo dessa crença, celebração e resistência. Poemas aparentemente amargos, pessimistas, até mesmo irônicos. Mas nem por isso menos tributários da crença e da possibilidade da Grande Festa, nem por isso menos respeitosos para com essa figura-símbolo. Ao contrário, é da sua crença que brota a sua aparente amargura e ironia.


o lamento do ressuscitado
não nasci, não cresci
nem morri de verdade...
até hoje!!!
chorei assim mesmo
sem mais sangue nas veias

é muito complicado ir além
a porta não abre, não abre...
forçá-la é tentativa vã
e pela fresta a fé não vem

nada do que dei fez a festa
o trunfo, sem triunfo
é só um defunto...
vicente filho




fotopoema: madeiro milenar


ei, companheiro crucificado
2000 já veio e já se foi admirado
da abundância de brilhosas bündchens
de bytes & gates, de gatunos & wall streets
e de restos de gente humana exilada
nas ruas capitais
deitadas em escadarias de catedrais salpicadas de bosta


cruz credo! credo em cruz! não
se
acenderam
ainda
as
luzes
de
tuas
árvores

(poema e fotografia de roberto soares - a foto foi tirada em ponta da fruta, vila velha, es)



UMA VEZ bem que o escutei
ele mesmo lavou o mundo, limpou tudo
sem ser notado, a noite toda
efetivamente

Uno e infinito
aniquilado
ilhado

Brilho havia. Luz. Salvação.
paul celan Junto com este poema de Celan, pretendia publicar os comentários de Flávio Kothe, o seu tradutor aqui no Brasil (em sua tradução de “Poemas”, publicada pela Tempo Brasleiro, Kothe comenta todos os poemas de Celan). Mas como estou em viagem não tenho o livro em mãos.
Assim, vou tentar transmitir de memória o essencial dos comentários de Kothe e quando possível publicá-los-ei na íntegra.

É com uma forte ironia que Celan relembra o breve tempo em que pode “escutar”, em que pode acreditar numa redenção da humanidade advinda da fé ou da abnegação cristã. Mas apesar da gradual descrença e do desespero - mesmo em relação à ação política e à própria possibilidade da vida (Celan se matou em 1970) - a figura do Messias mantém o seu fascínio para Celan: o Cristo como poeta que assume para si o louco e absurdo projeto de se imolar em nome de uma tarefa que ele sabia fadada ao fracasso, ao menos em termos imediatos. Mas mesmo assim se aniquilando, se ilhando, anônimo e desamparado, em nome dessa absurda escolha, em nome do projeto de ligar o homem ao divino, de despertar o que havia de divino no homem e de mostrar ao homem o que poderia haver de humano e precário no divino. O poema parece ser uma espécie de acerto de contas de Celan com a sua nostalgia, com o que ainda restava em seu imaginário de fascínio pela figura do Messias, mas um Messias humano, poeta, precário.

02/12/2008

minas - de ouro e horizontes

Em 1997, em BH, participei de uma criativa oficina de poesia, orientada pelo escritor mineiro Duílio Gomes. Num dos encontros, Duílio pediu que criássemos um poema a partir da palavra 'mariana'. Na ocasião criei o poema abaixo: 'mina mariana'. Por algum tempo fiquei inquieto, achava que faltava alguma coisa.
Depois desdobrou-se nesta trilogia, onde falo de passado, presente e vislumbres ou promessas de futuro, tendo como cenário e fio condutor as três capitais de Minas Gerais e o caminho para o mar - entre outras coisas, hoje vejo nos poemas uma espécie de reversão ou superação da história (dolorosa mas generosa) como se Minas ainda pudesse oferecer algo ao mundo, para além dos metais e minérios arrancados de suas entranhas - ou seja, percebo hoje que esses poemas são o meu tributo inconsciente a essa Minas mítica que carregamos dentro de nós, a Minas inconfidente, libertária, redentora, que o nosso imaginário insiste em preservar.

mina mariana

minas não mira o mar
o mar não ri para minas
minas canta uma outra ária
bebeu de outra mina: mariana

ouro preto, ponte inconfidente

a pele - becos e escadas, ruas e templos,
é polvilhada de puros poros de tempo

a alma - amores e escravos, poetas e o polvo
é ponte entre a mina e o horizonte

o ouro: duro, dourado e o sangrado alferes
a alimentar o polvo
a apontar perto e reto o porto ao povo

horizonte belo

floresta concreta plantada no prado
gestada já na mina, nutrida no ouro

promessa vibrátil de amoroso
contorno ao derredor da serra sagrada
consagrada

mas por ora: o polvo
devora a cordilheira e a seara

enquanto imensa família
ora pujante ora indigente
labuta o barro do preto sustento
de serena e morena estrada-manhã

a marchar célere como o amazonas
rumo ao cerrado e serrando ao meio
a bastilha e as esquadrilhas do polvo

e então talvez o mar e as minas
se beijem - aliviados
e o mar leve às aldeias do globo
o polvo - domesticado

o mar a murmurar em cada diferente porto
o nome da canção esquecida - canhota, torta
que brota da mina pura, singela
trilha a ponte de ouro e o horizonte belo
e jorra vibrante lavanda no seu corpo gigante.
tal mágica e rubra bandeira
talvez.

roberto soares

ecos

01/12/2008

outubro

choveu bem agora bem cedo
poças de brilho aquático brincam
pula-pula para os pés passeantes
pássaros ensandecidos à cata
de gotas de arco-íris
cheiro verde e fecundo: sensualidade
saindo de paus umedecidos
no tenro ventre da terra

ruas andam encolhidas
nos becos um ar de susto
sob a ameaça de desabar
sobre todos nós sobre tudo
um céu que desfila plumas
(lavadas, pefumosas)
mas ainda carregando
sob vestes azuis-cinzentas
bombas de chumbo líquido

é precioso prosseguir:
pacificado périplo no templo do dia
tempo de águas primordiais
a imergir a memória com acenos

ora sedentos ora amenos

( roberto soares, outubro 2006)

vivo, divinizo

Ainda envolto na transcendente atmosfera de Rilke, esta modesta tentativa de comunhão poética com o mundo, de minha lavra.

de setembro o sol se perfuma
manhãs de cheiro de mexerica

fumos e incensos insondáveis
escorrem pelas largas alturas

aves inventam voltas
em intérminas vias de vento

límpidas estradas aguardam e acolhem
o andar sereno de secretas sedes

em janelas de escola, sonha-se:
o rolar de sedosas bolas de gude
por trilhas de delicada poeira

tantos moradores do mundo
a entoar o mesmo e uno hino:
- vivo, divinizo...

enquanto o sol de azul se bronzeia
nos aéreos areais

o Teu olho alimenta e aquece
o meu se alimenta e não esquece

juntos nossos olhos
se alumbram em instantes de setembro

(roberto soares, setembro 2006)

anil


manhãs, rastros de infância:
riachos fugidios
paisagens feitas de alimentos
ausências

afluentes recorrentes
areias sem porto fixo

o aberto abraço da manhã carrega um sorriso anil de felicidade, que se estende quilometricamente. borboletas edificam casas bonitas como crianças. um coração ainda não esquecido das primeiras fomes se alimenta nestas veias feitas de mansidão.
roberto soares