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ah, equador de calmarias
dala, capítulo 6 (registro bn 248.522)
...primeiras manhãs
digo que o impalpável deus mistério
tem dias que dá de dormitar e orar
nestas bandas aqui do mundo
acontece:
os raios engenheiros do sol
vêm vistoriar a ponte e a manhã
mas se esquecem e se encantam:
brincam
cintilam
tintilam
nas águas profundas da baía
toda céu-dourada lá pelas dez horas
parece:
ora querem trazer o céu para a terra
ora querem fundir mar-e-céu azuzuis
ora querem
afundar e
dormir
ali
parece - e acontece – uma
oração de alegria azul dourada e calada
(danada de bonita, uai!)
roberto soares
Textos relacionados: ocupar as ruas, manter a chama e explosões do verbo e da cidade (esse último a ser publicado em maio)
Roberto Soares Coelho
pequena pedra
no verde vê.
...água...
paredão de pedra
na névoa verte.
...água...
pedra cá pede.
pedra lá perde.
...água...
prece à.
pressa da...
...água...
poema: roberto soares
fotografia: roberto soares - santana do paraíso, vale do aço, minas
É com uma forte ironia que Celan relembra o breve tempo em que pode “escutar”, em que pode acreditar numa redenção da humanidade advinda da fé ou da abnegação cristã. Mas apesar da gradual descrença e do desespero - mesmo em relação à ação política e à própria possibilidade da vida (Celan se matou em 1970) - a figura do Messias mantém o seu fascínio para Celan: o Cristo como poeta que assume para si o louco e absurdo projeto de se imolar em nome de uma tarefa que ele sabia fadada ao fracasso, ao menos em termos imediatos. Mas mesmo assim se aniquilando, se ilhando, anônimo e desamparado, em nome dessa absurda escolha, em nome do projeto de ligar o homem ao divino, de despertar o que havia de divino no homem e de mostrar ao homem o que poderia haver de humano e precário no divino. O poema parece ser uma espécie de acerto de contas de Celan com a sua nostalgia, com o que ainda restava em seu imaginário de fascínio pela figura do Messias, mas um Messias humano, poeta, precário.
mina mariana
minas não mira o mar
o mar não ri para minas
minas canta uma outra ária
bebeu de outra mina: mariana
ouro preto, ponte inconfidente
a pele - becos e escadas, ruas e templos,
é polvilhada de puros poros de tempo
a alma - amores e escravos, poetas e o polvo
é ponte entre a mina e o horizonte
o ouro: duro, dourado e o sangrado alferes
a alimentar o polvo
a apontar perto e reto o porto ao povo
horizonte belo
floresta concreta plantada no prado
gestada já na mina, nutrida no ouro
promessa vibrátil de amoroso
contorno ao derredor da serra sagrada
consagrada
mas por ora: o polvo
devora a cordilheira e a seara
enquanto imensa família
ora pujante ora indigente
labuta o barro do preto sustento
de serena e morena estrada-manhã
a marchar célere como o amazonas
rumo ao cerrado e serrando ao meio
a bastilha e as esquadrilhas do polvo
e então talvez o mar e as minas
se beijem - aliviados
e o mar leve às aldeias do globo
o polvo - domesticado
o mar a murmurar em cada diferente porto
o nome da canção esquecida - canhota, torta
que brota da mina pura, singela
trilha a ponte de ouro e o horizonte belo
e jorra vibrante lavanda no seu corpo gigante.
tal mágica e rubra bandeira
talvez.
roberto soares
choveu bem agora bem cedo
poças de brilho aquático brincam
pula-pula para os pés passeantes
pássaros ensandecidos à cata
de gotas de arco-íris
cheiro verde e fecundo: sensualidade
saindo de paus umedecidos
no tenro ventre da terra
ruas andam encolhidas
nos becos um ar de susto
sob a ameaça de desabar
sobre todos nós sobre tudo
um céu que desfila plumas
(lavadas, pefumosas)
mas ainda carregando
sob vestes azuis-cinzentas
bombas de chumbo líquido
é precioso prosseguir:
pacificado périplo no templo do dia
tempo de águas primordiais
a imergir a memória com acenos
ora sedentos ora amenos
( roberto soares, outubro 2006)
Ainda envolto na transcendente atmosfera de Rilke, esta modesta tentativa de comunhão poética com o mundo, de minha lavra.
de setembro o sol se perfuma
manhãs de cheiro de mexerica
fumos e incensos insondáveis
escorrem pelas largas alturas
aves inventam voltas
em intérminas vias de vento
límpidas estradas aguardam e acolhem
o andar sereno de secretas sedes
em janelas de escola, sonha-se:
o rolar de sedosas bolas de gude
por trilhas de delicada poeira
tantos moradores do mundo
a entoar o mesmo e uno hino:
- vivo, divinizo...
enquanto o sol de azul se bronzeia
nos aéreos areais
o Teu olho alimenta e aquece
o meu se alimenta e não esquece
juntos nossos olhos
se alumbram em instantes de setembro