28/03/2011
poema, jogo do desvelamento II - rilke
01/11/2010
rilke e o morrer verdadeiro
(rilke - os cadernos de malte laurids brigge)
e olha-se fixamente para fora
talvez com um grande olhar de animal'
'Ó, senhor, dai a cada um a sua morte
o morrer que seja verdadeiramente fruto desta vida
onde ele encontrou amor, sentido e aflição'
(rilke - fragmentos)
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se ao menos uma vez tudo se aquietasse
se se calassem o talvez e o mais ou menos
e o riso à minha volta...
se o barulho que fazem meus sentidos
não perturbasse mais minha vigília...
então, num pensamento multifário
poderia eu pensar-te até aos teus limites
e possuir-te (só o tempo de um sorriso)
e oferecer-te a vida inteira, como
um agradecimento
(rainer rilke, "livro de horas")
28/03/2010
que vais fazer, Deus?
que vais fazer, Deus, se eu morrer?
eu sou teu cântaro (e se eu me quebrar?)
eu sou tua água (e se eu me estagnar?)
eu sou teu hábito e sou teu ofício;
sem mim, tu perderias a razão de ser...
depois de mim, não terás casa em que
palavras próximas e tépidas te acolham
vai cair de teus fatigados pés
a sandália macia que sou eu.
teu largo manto deixar-se-á cair.
teu olhar, que com minhas faces eu
aqueço, como se com almofadas,
virá de longe a procurar por mim
- e ao pôr-do-sol se porá
no colo de estranhas rochas.
que vais fazer, Deus? estou preocupado.
rainer maria rilke (livro de horas, ed. civilização brasileira, 1994)
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Esse poema de Rilke é como um eco, uma pereita confirmação daquilo que foi dito há pouco: com sua costumeira mescla de delicadeza e transcendência, Rilke faz uma verdadeira sagração da simbiose entre Deus e homem.09/03/2010
tu, escuridão
tu, escuridão da qual descendo
de ti gosto mais que da labareda:
ela reduz
o mundo em que reluz
a uma espécie de círculo
fora do qual nenhum ser a conhece.
já a escuridão, em si tudo contém:
formas e flamas e animais, e eu
- assim como também ela reúne
pessoas e potências...
e pode ser isto: uma grande força
a se mover nos subúrbios de mim...
acredito nas noites.
rainer rilke
(livro de horas, ed. civilização brasileira, 1994)
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Mas deixemos que Rilke feche este cortejo de poemas para Deus, de Deus, contra Deus.
O seu poema é um sereno, mas não menos profundo, cântico ao obscuro, ao inominado, ao informe, ao nada, às trevas.
Pareceria uma contradição fechar com um cântico ao nada, se até aqui viemos falando de Luz, Olhar, Forma, Ser, Presença.
Mas este poema de Rilke faz lembrar que o Ser somente se sustenta em relação ao Nada, em combate ao Não-Ser: o Universo se expande rumo ao intocado, o Cosmos cresce exatamente ocupando o Vácuo, ou por outra, a Criação, que ainda geme as dores do parto, só pode se parir em meio ao Grande Útero do Vazio. Tudo o que o Mistério foi, é e vier a ser somente pode se dar num cenário cercado de Nada, de Obscuro.
São então duas faces da mesma realidade: de um lado a ameaça do Nada a rondar e espreitar o Ser, o Cosmos; de outro, uma espécie de comunhão entre o Ser e Nada, entre Criação e Vazio, ente Cosmos e Escuridão: a Criação precisa do Vazio para parir, o Cosmos precisa da Escuridão para se intumescer, o Nada atrai o Ser para que este o preencha.
Mas deixando de lado a metafísica: o poema de Rilke é uma celebração àquilo que ainda não é mas que será penetrado pelo Ser, e ao mesmo àquilo que oferece ao Ser a possibilidade de vir a ser, de se fazer Presença e Mistério.
02/07/2009
silêncios e desvelos II
Nos ‘Cânticos’, publicados acima, vemos confirmar-se uma certa afinidade de Cecília Meireles com o poeta alemão Rainer Rilke, que tem alguns de seus poemas publicados abaixo. Ambos são poetas de coisas, poetas que reverenciam o mundo que nos cerca, na sua simples e ao mesmo tempo enigmática aparição: paisagens, casas, cidades, céus, árvores, nuvens, o próprio tempo. Sabe-se que Rilke desenvolvia, principalmente através de suas cartas, quase que uma estética e uma metafísica para explicar sua própria criação poética. Para ele, escrever era uma forma de buscar aquilo que chamava de ‘o espaço interior do mundo’. Escrever seria uma decorrência do cuidado que deveríamos dedicar às coisas, era uma forma de retratar com palavras o ‘indizível’ que há na simples presença dos entes.
Para Rilke, seríamos os “os mais perecíveis entre os perecíveis” de todos os entes, ou seja, os únicos a tomar consciência não só de nossa finitude e precariedade mas também da finitude e precariedade de todos os entes, de todas as coisas que nos cercam. Para Rilke, então, deveríamos existir no mundo como viventes perplexos e admirados, a testemunhar acerca da queda e da precariedade de todas as coisas. E escrever seria uma forma de trazer para o mundo um pouco desse cuidado para com o perecimento das coisas e de nós próprios. Na verdade, escrever seria dar um duplo testemunho, pois é através da escritura que se realizam a delicadeza e o silêncio que existem no perecimento e na finitude das coisas e de nós próprios.
Ao reverenciar e registrar a precariedade, aquele que escreve traz para o ser o que ainda não existe, acrescenta entes ao ser, dá vida ao indizível que há no ser e nos entes, e isso não para evitar o perecimento ou para deixar uma espécie de memória nobre daquilo que se vai, ou qualquer coisa do tipo – escrever seria algo mais profundo, algo mais ôntico e cósmico, e ao mesmo tempo mais inútil, ou menos ‘útil’, é simplesmente dar voz àquilo que não fala, pensa ou sente, mas que no seu silêncio está tão ou mais presente do que ao ser do que nós.
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Rilke é de fato um dos representantes da tradição da poesia filosófica ou metafísica alemã. Aliás, percebe-se como a poesia e o pensamento de Rilke ecoam a filosofia de Heidegger - mas tendo escrito sua obra antes do filósofo alemão. Em sua filosofia Heidegger irá apresentar conceitos como o cuidado e o desvelamento que devemos ter em relação ao ser, a preocupação em resgatar o sentido de ser que se manifesta na aparição das coisas; enfim, naquilo que interessa aqui, há a mesma preocupação, o mesmo desvelo que há em Rilke com a aparição e desaparição das coisas.
Em ambos há também o cuidado em não permitir que sejamos demasiadamente envolvidos pela tecnologia modernosa, com a consequente instrumentalização e padronização da existência. Heidegger fala da existência autêntica em oposição a uma existência inautêntica, a uma existência padronizada, fabricada por uma modernidade na qual o que alimenta a engrenagem é a necessidade de que o indivíduo fale o que todos falam, coma o que todos comam, pense o que todos pensam, sinta o que todos sintam - aliás, uma engrenagem que é extremamente competente em fazer com que sintamos medo e desconforto ao não pensarmos e sentirmos uns iguais aos outros.
Roberto Soares
01/07/2009
rilke - fragmentos
Não é só minha voz que canta: tudo ressoa."
"Aqui, entre aqueles que passam, sê, no reino do declínio
Sê o cristal que ressoa e no fragor da ressonância já se quebrou."
"Um ser sem invólucro, aberto à dor.
Atormentado pela luz, abalado por cada som."
"Mas quando, em qual de todas vidas
Somos nós, enfim, seres que se abrem para acolher?"
rainer rilke (extraido de 'O espaço literário', de Maurice Blanchot, ed. Rocco, 1987)
através
espaço interior do mundo. Silenciosamente voam as aves
através de nós. Ó eu que quer crescer
olho para fora e em em mim que a árvore cresce! rainer rilke (extraido de 'O espaço literário', de Maurice Blanchot, ed. Rocco, 1987)
quem quer que sejas
da qual já sabes tudo que desejas;
teu lar na tarde, longe, se renova
quem quer que sejas
com teus olhos exaustos, que ainda a custo
entre os gastos umbrais logram passar
ergues inteira a sombra dum arbusto
posto ante o céu - esguio, singular
e tens já pronto o mundo; estranho assim
como palavra que amadurecesse
no silêncio, e que teu olhar esquece
quando lhe captas o sentido, enfim...
rainer rilke (O livro de horas, ed. Civilização Brasileira, 1994)
01/12/2008
que vais fazer, Deus?
que vais fazer, Deus, se eu morrer?
eu sou teu cântaro (e se eu me quebrar?)
eu sou tua água (e se eu me estagnar?)
eu sou teu hábito e sou teu ofício;
sem mim, tu perderias a razão de ser...
depois de mim, não terás casa em que
palavras próximas e tépidas te acolham
vai cair de teus fatigados pés
a sandália macia que sou eu.
teu largo manto deixar-se-á cair.
teu olhar, que com minhas faces eu
aqueço, como se com almofadas,
virá de longe a procurar por mim
- e ao pôr-do-sol se porá
no colo de estranhas rochas.
que vais fazer, Deus? estou preocupado.
Que farás tu, meu Deus, se eu perecer?
Eu sou o teu vaso - e se me quebro?
Eu sou tua água - e se apodreço?
Sou tua roupa e teu trabalho
Comigo perdes tu o teu sentido.
Depois de mim não terás um lugar
Onde as palavras ardentes te saúdem.
Dos teus pés cansados cairão
As sandálias que sou.
Perderás tua ampla túnica.
Teu olhar que em minhas pálpebras,
Como num travesseiro,
Ardentemente recebo,
Virá me procurar por largo tempo
E se deitará, na hora do crepúsculo,
No duro chão de pedra.
Que farás tu, meu Deus? O medo me domina.
(Tradução: Paulo Plínio Abreu)
(rainer rilke, 'O livro de horas')a hora inclina-se - rilke
a hora inclina-se e toca em mim
com claro bater metálico
os sentidos me tremem. sinto: eu posso...
e colho o dia plástico. nada estava acabado antes de eu ver:
todo o devir aguardando em quietude.
maduros meus olhares: a cada um
como uma noiva, chega a coisa ansiada.
nada é pequeno para mim: gosto de tudo
e tudo eu pinto sobre ouro com grandeza
e bem alto o levanto
sem saber de quem vai a alma libertar (rainer rilke, "O livro de horas")
se ao menos - rilke
se ao menos uma vez tudo se aquietasse
se se calassem o talvez e o mais ou menos
e o riso à minha volta...
se o barulho que fazem meus sentidos
não perturbasse mais minha vigília...
então, num pensamento multifário
poderia eu pensar-te até aos teus limites
e possuir-te (só o tempo de um sorriso)
e oferecer-te a vida inteira, como
um agradecimento
(rainer rilke, "livro de horas")
sobre rainer rilke
São belas amostras de sua poesia metafísica, vazados numa fala mais singela, que às vezes lembra o tom coloquial, mas nem por isso destituídos da densidade própria de seus poemas, densidade até aflitiva para esses nossos assépticos tempos e, infelizmente para muitos, uma densidade obsoleta . Nessa obra Rilke parece dialogar diretamente com a fonte de todo o universo, mas numa espécie de religiosidade terrestre, como se estivesse a conversar com um Deus acessível, quase tão frágil e desamparado como a criação. A própria referência do título é significativa: livros de horas são manuscritos próprios da Idade Média, ricamente ilustrados para fazer referência à devoção cristã, contendo textos, orações e salmos. Em sua forma original o livro de horas servia como leitura litúrgica para determinados horários do dia.
E “O Livro de horas” de Rilke é como se fossem singelas conversas com o divino, das quais lançamos mão ao longo do precário horário de nosso existir. Nessa obra Rilke consegue com naturalidade exercitar um encontro entre beleza e transcendência, oferecendo um pequeno vislumbre daquilo que poderia ser um real encontro entre arte e religiosidade, para além das limitações impostas impostas por religiões, filosofias, sabedorias e escolas artísticas.
Enfim, poetas como Rilke oferecem uma visão do que poderá ser o grande encontro entre arte, religião e razão, a grande integração - entre todas as formas de saber e perceber o mundo - que nos espera lá á frente da história; claro, desde que consigamos superar este momento de barbárie imposto ao mundo pelo perda de controle da razão tecnicista, domindora e instrumental própria do capitalismo industrial, caso consigamos criar e consolidar alternativas ao visível esgotamento do outrora revolucionário e necessário modo de produção capitalista.
13/11/2008
as folhas caem
as folhas caem como se do alto
caíssem murchas, dos jardins do céu
caem com gestos de quem renuncia.
e a terra, só, na noite de cobalto,
cai de entre os astros na amplidão vazia.
caímos todos nós. cai esta mão.
olha em redor: cair é a lei geral.
e a terna mão de Alguém colhe, afinal,
todas as coisas que caindo vão.
(rainer rilke, "livro de horas")