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20/11/2012

ato de contrição - parada de beira de estrada

por várias semanas, no ano de 2000, eu  acompanhei as idas desse senhor a  uma pracinha perto de onde eu morava, aqui no centro de vitória.
sempre após o almoço, e sempre solitário, calado e meio que melancólico.
algum tempo depois eu vi que era mais um dos milhares de catadores de papel e de quinquilharias,  que vagam pelas esquinas
e lixos das cada vez mais absurdas cidades dos homens. 

e suas idas à pracinha me pareciam uma espécie de parada de beira de estrada, um repouso, um intervalo na sua solitária e anômina jornada em meio à cidade. 
somente consegui registrar suas idas e vindas em três ocasiões - ele sempre usava as mesmas duas camisas, na maior parte dasa vezes com uma sacola de plástico nas mãos, certamente a carregar suas parcas coisas. 
e o que me chamava  a atenção era o fato de ser uma parada na qual o peregrino  não se permitia nem mesmo se sentar ou se deitar num dos bancos da pracinha, como qualquer andarilho o faria.

como se um resto de dignidade o impedisse de demonstrar que era apenas mais um andarilho, um catador de coisas, de restos.
ou como se se estivesse a fazer -  ali em pé, solitário e silencioso - um espécie de ato de contrição.

um ato de contrição pelo pecado, pela falha de não ter sabido, ao longo da vida, tornar-se minimamente um vencedor, por não ter aprendido a se comportar de maneira minimamente obediente, disciplinada, ou apenas esperta, em meio à vitoriosa estupidez da civilização ocidental.

22/09/2012

o pastor em sua tenda

olhares,rostos, corpos 

flagrei a imagem desse jovem pastor, numa feira livre de ipatinga, minas.
além da referência bíblica do bairro onde acontecia a feira (canaã)
não há como não  ligar a imagem aos poéticos versos do profeta isaías
"e o verbo se fez carne e habitou tenda entre nós" (Ìsaías, 1, 14) 

19/07/2012

quadrilha ao amanhecer

olhares, rostos, corpos -  2




nada de muito original em postar fotos de quadrilhas nesta época do ano.
afinal pululam pelo país afora as festas juninas, e julinas


mas tenho um carinho especial por essas imagens. tinha acordado cedo e caminhava pelo bairro
de feu rosa,  na serra, es. a foto não é de agora, foi tirada há uns cinco, seis anos. eram mais de
 seis horas da  manhã e a festa junina, embora se encerrasse, ainda estava extremamente animada.
como se na sua euforia matinal os dançarinos se despedissem, aguardando o próximo ano.   


gostei particularmente de ter podido flagrar a postura majestosa, confiante e
ao mesmo descontraída do jovem rei, ladeado pelo seu bufão,
ou por um súdito um tanto ou quanto anarquista - como se o aniamdo
término das danças fosse uma homenagem a Sua Majestade.

18/06/2012

nas manhãs de minas

olhares, rostos, corpos - 2

junto com a família, jarbas cultiva uma pequena propriedade no interior das minas gerais  - em
são miguel do anta, na famosa zona da mata mineira). e se ele não existisse na vida real,
com certeza que teria que ser inventado pela arte, principalmente nessa ancestral postura
de quem amanha a terra e cuida da criação, já nas primeiríssimas horas de uma enevoada e fria
manhã de junho. não falta nem mesmo o indefectível cigarrim de palha.   

e a nubescente filha de nome núbia, após haurir da vaca  o sagrado leite matinal, sorridente retribui,
compensando os filhotes com o não tão sagrado alimento produzido  pelos  homens.
se os famintos filhotes em questão acham a troca justa e agradável, já é outra história.  

ainda a propósito de ordenhas ,da manhã ou do verbo,
veja os poemas: 

13/06/2012

o cão e a terceira margem

olhares, rostos, corpos  - 1

captei essas imagens em guriri (são mateus, norte do es) à beira do rio cricaré,
na comunidade de meleiras
sério, numa postura ciscunspecta, o atento cão mira o rio,
parece que tenta desvelar a sua fluida e inconstante aparição.
tal como um cão-filósofo grego, parece  buscar, 
na origem e na presença mesma das coisas,
a razão de tanta diversidade no mundo, principalmente a
visível e gritante diferença entre  a sólida, protetora e perfumosa
terra e a escorregadia, hipnótica e perigosa água 
imagina então que, se se apossar do ágil e ousado
 barco dos homens, quem sabe chegue ao destino final das
águas, e à solução desse infinito e silencioso fluxo. 

então talvez poderá decidir qual dos mestres tem razão,
em explicar as leis que de fato governam o  cosmos,
o mundo e  a vida dos homens:
se o grego heráclito - o filósofo da mudança e da inconstância, ou
o também grego parmênides - o filósofo da unidade e da permanência 
mas o cão-filósofo, ao fim, decide que não é uma atitude sábia
 se aventurar no ávido, inquieto e precário barco dos homens;
afinal não importa tanto saber quem tem razão,
mesmo porque talvez ambos os filósofos estejam certos 
.o mais importante, o verdadeiramente sábio, para o cão-filósofo,
é sentir, viver o fluir do próprio rio em terra firme.
desvelar, a cada instante, o mistério de sua aparição
 mesmo sem sair da aconchegante presença da terra.
a cada instante, desvelar o presença do rio, do cosmos e da vida,
como uma oração. ou como um poema, tal como o escrito aí embaixo.
ou como uma reverente vígilia daquele homem que foi para 
a terceira margem do rio, lá nos nortes de minas. 

tradução do rio
Sento-me e traduzo o rio,
É difícil reproduzir
Esta coisa líquida,
São precisas palavras raras,
Expressões firmes,
Ritmos eternos,
Uma centena de fontes em uníssono
A contar de novo um mito antigo.
Durante toda a noite traduzi o rio.
De manhã
A minha versão tinha desaparecido.

xhevahir spahiu - albânia  (1945  -  )
tradução : do trapézio sem rede