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16/09/2009

flecheira libertária (5)

'Flecheira Libertária' é uma seção do endereço anarquista nu-sol - núcleo de sociabilidade libertária (nº 126, 15/09/2009).
proibição
O proibicionismo às drogas subordinou culturas, favoreceu indústria de armas, especializou polícias, organismos internacionais e rastreamentos eletrônicos. Ampliou relações diplomático-militares e controles científicos. E, principalmente, propiciou a expansão do tráfico. O proibicionismo está a serviço do lucro, da repressão, do legal e do ilegal. Consagra o proprietário, o traficante e o dissimulador.
liberação
Os defensores da liberação das drogas sabem que elas são inseparáveis da cultura; sabem que liberar as drogas é acabar com o tráfico, conter um ramo altamente lucrativo do capitalismo, paralisar temporariamente os negócios dos moralistas, arruinar parte da crença na repressão e da fé em segurança. Os defensores da liberação são um perigo à empresa, ao Estado e ao traficante. Arruínam seus negócios. Os defensores da liberação das drogas querem mais que descriminalizar maconha!
vida
O proibicionismo precisa da vida breve da criança pobre-podre-calcinada cada vez mais nas mãos do traficante como braço armado, consumidor, sicário e serviçal; precisa de jovens dispostos a morrer bem cedo, tentando, pelo avesso, imitar o burguês bem sucedido, o herói, o mártir, o bandidão das antigas na periferia, nas favelas; precisa de gente insatisfeita com esta merda de mundo, para consumir, se endividar e cair nas mãos dos traficantes como os preferenciais bibelôs de sua estética em ruínas... O proibicionismo e o tráfico celebraram um casamento indissolúvel. Só os revoltados sabem que onde há vida não há proibição e que onde há tráfico não há mais vida.
outros sonhos de ópio
A cada dia, há muitas gerações, dedos ágeis e olhares atentos de mulheres e crianças entrelaçam sem cessar fios e cores. Hoje, por horas e horas, vai sendo tecido mais um centímetro da produção média anual de 200 milhões de metros quadrados de tapetes no Afeganistão. Para as dores dos corpos constritos a ínfimos gestos, usa-se o ópio; para aquietar crianças pequenas que atrapalham os fios, usa-se o ópio, há gerações. Hoje, o país precisa de mais tapetes para superar a marca dos 170 milhões de dólares de lucro anual com as exportações. Mais horas, mais teares, mais bebês quietinhos, mais ópio. Denuncia-se, porém, o vício do ópio na população de artesãos. Estuda-se como combatê-lo com uma ação internacional. Mas nunca se pergunta pela dor.
game over
Um novo programa da força aérea estadunidense recruta jovens para o projeto de combate à distância. De uma sala nos EUA, com monitores e joysticks, os pilotos decolam aviões não-tripulados, lançam mísseis e retornam à base no Afeganistão. Um dos requisitos para a seleção é que eles tenham sido, desde criança, aficionados por videogame. O treinamento é simples, garantem os militares, porque os jovens já vêm educados: matar alvos em telas não lhes é estranho. Sensibilidades torpes e educação para lidar com mortes programadas, eis um traço das guerras na sociedade de controle.
direito e tortura
Alvos preferenciais da polícia na Itália, os imigrantes vindos da África, depois de atravessarem a ilha de Lampedusa e chegarem com vida à Europa, são enquadrados em uma nova legislação. Esta prevê seis meses de prisão para quem andar sem a documentação regularizada, despejo do morador e confisco do imóvel alugado e ainda estimula os médicos a denunciarem pacientes em situação irregular. A página da internet relacionada a um dos proponentes desta nova lei estampa que a tortura de clandestinos é um direito de defesa da nação.
preço da vida
Os canalhas de todo o tipo comemoram. Os imigrantes africanos, árabes, latinoamericanos, gente de todas as partes do planeta que não morreram na travessia em altomar tem como destino viverem sem descanso e sob suspeita, cercados pela polícia. Só assim é que seus corpos e suas existências consideradas insuportáveis são finalmente permutadas, esmagadas, submetidas à força do governo.

“é preciso um dilaceramento que interrompa o fio da história e suas longas cadeias de razões, para que um homem possa, ‘realmente’, preferir o risco da morte à certeza de obedecer” (michel foucault).
“viver é o que há de mais raro neste mundo. muitos existem, e é só” (oscar wilde).

17/06/2009

flecheira libertária (4)

flecheira - substantivo feminino; pequena abertura nas muralhas, pela qual se lançavam setas contra os inimigos ou sitiantes; frecheira, frecheiro, seteira (dcionário Houaiss)


Flecheira 112, 26 de maio

lata de lixo.
No Espírito Santo, os presos são amontoados em contêineres fétidos, latas de lixo humano, cercados por concertinas. É o horror. As autoridades obstaculizam as visitas de grupos de diretos humanos, alegando "questão de segurança". Mas estes entram e constatam que a comida podre, com "arroz, feijão e algo que parece batata", não é tão ruim diante de tanta imundice. Na revista íntima, mulheres são violentadas por agentes. Os assassinatos são contabilizados como fuga, o desaparecimento de indesejáveis, como na ditadura militar. Não há defensoria pública, somente a seletividade do sistema penal contra pobres, miseráveis, jovens e subversivos. As cercas elétricas e concertinas vão além do visual de campos de concentração: uma criança se corta ao tentar tocar em seu pai.

a lógica da reforma
A crítica que pretende humanizar a prisão-contêiner alimenta a distribuição de verbas e justifica a construção de mais prisões, fazendo a alegria de burocratas que vivem da morte lenta de gente considerada LIXO. Na democracia, representativa e participativa, há a ardilosa capacidade de conformar as pessoas na lógica da formalidade e alimentar esperanças vãs de mudança, respeitando a lei e o procedimento.

abolir
Enquanto existir prisões, de lata, de tijolos ou high-tech, existirá tortura e violência, desaparecimentos e morte lenta, polícia, secretários e burocratas alimentando-se dos corpos de pessoas que não interessam senão como ração de reformas. Para que não exista mais a lata de lixo humana, é preciso que não existam mais prisões.


tire o olho de mim
Num bairro da cidade de São Paulo moradores organizam uma patrulha sob a rubrica de “ vizinho está de olho!” o objetivo é inspecionar a casa e a vida dos outros em busca de inibir a ação de ladrões, por meio da vigilância da própria comunidade. A autoridade aprova, e reitera “ ser copiado por outros bairros” mas relembra que os moradores devem ajudar com informações e evitar qualquer tipo de ação policial. Talvez, perdido em sua própria retórica ele tenha se esquecido que o alcagüeta é aquele que mais deseja ser polícia.

guerras e inimigos nos fluxos
A mais nova guerra dos EUA é contra hackers, espiões e terroristas que transitam nos fluxos computoinformacionais imprescindíveis para o capitalismo e o governo do planeta. As guerras na sociedade de controle ganham novas profundidades que vão dos mega-bytes às vastidões cósmicas, opondo Estados, capitais, fundamentalismos. No entanto, nesses mesmos fluxos outras guerras podem surgir surpreendentes, esguias, imprevisíveis, sabendo que hoje se não se resiste fora dos fluxos, mas neles, afirmando novos costumes liberadores, guerreiros e inimigos das ordens.

“palavras fazem você ver novas terras e com elas estranhas viagens” (samuel beckett).
"Flecheira Libertária" é uma seção do endereço libertário nu-sol. É um espaço de onde são lançadas flechadas certeiras e cortantes contra o senso comum e os mecanismos de domesticação e captura de nossa liberdade. É uma abertura, um buraco nas muralhas da engrenagem e na nossa tendência para a aceitação da ordem, nossa necessidade inconsciente de se entregar a uma visão sempre tranquilizadora do mundo e da história. Flechadas que, geralmente através de um ou dois parágrafos, atingem em cheio o alvo e despertam para o risco de nos aquietarmos nas certezas estabelecidas, mesmo que tenham duramente conquistadas. Mesmo para quem não comunga das propostas anarquistas ou libertárias, vale a pena ao menos acompanhar o ousado e inusitado percurso dessas flechadas. E quem sabe se deixar flechar. Um pouco de lucidez e dúvidas não ferem tanto assim.

02/06/2009

flecheira libertária (3)

"Flecheira Libertária" é uma seção do endereço libertário nu-sol. É um espaço de onde são lançadas flechadas certeiras e cortantes contra o senso comum e os mecanismos de domesticação e captura de nossa liberdade. É uma abertura, um buraco nas muralhas da engrenagem e na nossa tendência para a aceitação da ordem, nossa necessidade inconsciente de se entregar a uma visão sempre tranquilizadora do mundo e da história.
Flechadas que, geralmente através de um ou dois parágrafos, atingem em cheio o alvo e despertam para o risco de nos aquietarmos nas certezas estabelecidas, mesmo que tenham duramente conquistadas. Mesmo para quem não comunga das propostas anarquistas ou libertárias, vale a pena ao menos acompanhar o ousado e inusitado percurso dessas flechadas. E quem sabe se deixar flechar. Um pouco de lucidez e dúvidas não ferem tanto assim.
Flecheira 112, 26 de maio
assim já caminhou a humanidade.... ?
Chifre da África. 4 milhões de crianças correm o risco de desaparecer de fome, doenças, maus-tratos; 6 milhões de pessoas dependem de doações da caridade internacional, para serem mantidas lá, em seus campos de refugiados, em suas aldeias de terra seca, aguardando a caixinha de ração, a vacina contra sarampo, o fotógrafo condoído. E se a tal ajuda não chegar? Se nem o fotógrafo aparecer? Esses milhões começarão a se mover, a sair de suas choças e atravessar mares apenas para fazer viver suas crianças? Tal qual aqueles hominídeos primatas que se ergueram em duas pernas e, andando livres a partir da África, ocuparam o mundo inteiro, das estepes geladas às florestas úmidas, dos desertos às praias. Ou não, ou morrerão a míngua? Confinados dentro de cercas farpadas, esperando o comboio humanitário chegar pelo caminho empoeirado.

zeladores
Moças e senhoras educadas dedicam-se a delatar condutas politicamente incorretas. São as novas policiais ou zeladoras da sua vida. Há homens também entre elas, firmes em deixar tudo limpo. Limpar o congresso, bares, escolas e lares. Nada de barulhos, risadas, choros, diversão; somente ruídos controlados, sorrisos breves, lágrimas com discrição: violência surda! Não fume, não beba, não minta, não diga as palavras erradas. Seja um (a) conformista sóbrio (a). Ao abrir a capa vê-se no corpo as carnes do fascista!

tráfico de gente ou imigrações ilegais?
Não há capitalismo sem ilegalidades, sem tráfico de mercadorias, produtos e gente. Não são poucos os livros, os relatórios, as reportagens jornalísticas que informam como se ganha dinheiro arruinando a vida de pessoas, paisagens, ares e lugares. Na maioria das vezes, e em nome da segurança, o cidadão responsável pede mais polícia, exército, força-tarefa. Não raramente polícias, comerciantes ilegais e as legalidades capitalistas associados extraem lucros em grana, bebem o sangue, detonam crianças e jovens, traficam gente para empresas legais e ilegais. Lidam com vidas de pessoas como excesso no matadouro.
flecheira 111 - 19/05/09
fósforos queimados
Gaza (Palestina), Bagram (Afeganistão), Fallujah (Iraque), tanto faz. Bombas explodem a pretexto de portar luz à noite durante combates e o pó de branca fumaça adere à pele de corpos vivos e queima até ser totalmente consumido. Polêmicas humanitárias espocam aqui e ali com alarde, depois caem na apatia. Estaria o fósforo branco dentro das proibições do direito de guerra internacional? Não é arma química, nem arma incendiária, concluem especialistas internacionais, os quais permitem seu emprego, exclusivamente, para sinalizar, iluminar e fazer fumaça. Queima? Tanto faz um fósforo ou outro queimado para a vitória dos exércitos, tanto faz qual exército.

você pode fumar baseado (continuação)
Deu na primeira página da grande imprensa paulista: jovens fumam maconha, a direção da escola chama a polícia e acontece o confronto. Universidades pelo Brasil: jovens fumam pelos cantos temerosos e sorrateiros. Nos lares por aí, o uso de drogas segue condenado pelos pais. Seus filhos usuários, bem domesticados, calam ou concordam. E com sorrisinhos marotos se declaram antitabagistas. Era da dissimulação e dos contingentes reativos que pedem segurança, polícia, vigilância, prisão, tribunal e, ao mesmo tempo, consomem sua droguinha de juventude. Enquanto isso o tráfico enriquece, os bancos lucram, a polícia se arma e espiona sob a alegação de controle dos perigosos.

você pode ...
Um desfigurado contingente reativo escorre pelas ruas e avenidas fritos pelo crack. Um montado pequeno contingente reativo sacode pelas pistas de danças com cocaína e sintéticos. Um enorme contingente reativo tenta dormir contagiado pelos medicamentos. Hoje você pode, mas no interior dos variados contingentes reativos.

“ na escola ensinam-lhe cidadania, patriotismo... e como eleger chefes”
“ os que optam pela via libertária têm pela frente todas as adversidades”
(edgar rodrigues).

15/04/2009

flecheira libertária II

Também presentes neste mês mais algumas amostras da contundente seção ‘Flecheira Libertária’, publicada toda terça-feira no site do nusol, bem como dois textos da ‘Hypomnemata’, esta última publicada mensalmente, também elaborada pelo pessoal do nusol. Ambas as seções são sagazes retratos das contradições insolúveis, que presenciamos no dia a dia de nossas vidas e num mundo cada vez mais dominado e manipulado pelos poderes do Estado.
São leituras que aguçam o senso crítico, que dão um choque na nossa justificável tendência para o otimismo e para a crença na capacidade humana de superação dos dilemas e perigos ao longo de nossa história. O problema é que dessa vez parecem estar muito mais urgentes e perigosas as crises, as contradições e o empobrecimento existencial-afetivo, sob as engrenagens de poder dos estados capitalistas.
Essas seções do nusol mostram com clareza e argúcia que não adianta tentar ir pelo pensar e agir mais fáceis, ou mais tranqüilizadores.
flecheira 106 - 14/04/09
história de vida
Presas tomam seus filhos nos braços e fogem a pé da prisão, no final da tarde do domingo de Páscoa, em São Paulo. Estão vivas! Enquanto as boas almas reclamam por falta de segurança, elas correm riscos por si e por seus filhos.

conservadorismo moderado: fragmentos de notícias
Reativar manicômios; renovar a cortina de ferro na Europa; saudades de Stalin; tribunal penal internacional;greve de fome de presidente contra o parlamento; cotas; proibicionismos; amor ao emprego; amor à escola; amor ao perdão; separar-arruinar-reduzir para depois incluir; condenar as drogas; cultuar a psiquiatria e a farmacologia; acreditar no fim das impunidades; fazer plástica para parecer menos velho (a); câncer; o ovo de Darwin; clamar por segurança, prisões e punições; viver solitário na vida computo-informacional; confiar na mídia; assistir abestalhado execuções por penas de morte na televisão; conviver com um micro big-brother...

satélites com batatas fritas
Nos anos 1960, a McDonald’ Corp. sobrevoava bairros em monomotores para localizar escolas e, perto delas, instalar lanchonetes. Nos anos 1970, passaram a buscar locais promissores de helicóptero. Na década de 1980, começaram a comprar fotos de satélite, para estudar padrões de crescimento urbano e, assim,
planejar novas lojas. Já nos anos 2000, a companhia criou um programa, o Quintillion, que indica lugares para novas unidades a partir do cruzamento de mapas georreferenciais, dados demográficos, fluxogramas de produtos, pessoas e padrões de consumo. Tecnologia como a da NASA, das polícias, dos governos, dos bancos, dos exércitos poderosos. Eis, também, o negócio de vender hambúrgueres na sociedade de controle!

flecheira 105 - 07/04/09
pedagogia da revista
R$ 945,00 sumiram da escola. A direção do estabelecimento de ensino chamou a PM e apontou os suspeitos. Diversos adolescentes foram obrigados a tirar a roupa para serem revistados. Nada foi encontrado. Cenas de uma escola estadual da periferia de Goiânia. “Queremos segurança nas escolas, mas tem que ter limite!” — reclamou um pai perplexo com a condução do caso. Sem perceber que abrir a porta para a almejada segurança implica perscrutação ilimitada, extensiva a quem dela acredita necessitar.

flecheira 104 - 31/03/09
um perigo para a sociedade. Qual?
Famosa proprietária de um shopping de consumo caríssimo de São Paulo foi presa juntamente com seus assessores. Ela foi sentenciada a mais de 90 anos de cana por diversos crimes de sonegação. Em poucas horas saiu livre porque os juízes não a consideram um perigo para a sociedade. De fato ela não é um perigo para a sua sociedade de granfinos. Ela é daquelas que se protegem dos outros: o perigo para a sociedade (dela). Isso tem um nome: seletividade do sistema penal. Tem outro: a propriedade é um roubo (das forças de invenção e contestação). E mais um: as outras sociedades são compostas por conformistas e otários.

melhor ou pior?

O governo brasileiro distribuirá à PM de todo o país armas do tipo taser, consideradas “menos letais”. Só isso já causaria o deleite da maioria, porém há mais: nas armas existem mecanismos de registro da hora do disparo e que permitem sua identificação para uma eventual auditoria. Deleite dos democratas. A assepsia da sociedade de controle induz à complacência. As palavras de um filósofo ecoam: perguntar o que é mais tolerável é cair numa armadilha.

Babel?

“A viagem foi bem menos perigosa do que a maioria esperava” declarou uma das integrantes da primeira visita turística ao Iraque desde 2003. Após beberem uma “ Heineken gelada” e caminharem por Basra, Uruk, Kerbala e Najaf, entraram no microônibus com ar refrigerado escoltado por seguranças particulares. Enquanto no porta-retrato ou no álbum destes turistas pioneiros ficarão pregadas as recordações desta “ viagem” em Bagdá, corpos e mais corpos silenciados por metralhadoras abrem espaço para novas e lucrativas expedições.

Hermanos...

Os correntes protestos na Argentina por mais segurança levaram o governo a anunciar um novo plano nacional de segurança pública: a contratação de 6.800 policiais, a compra de 500 viaturas equipadas com GPS, 5.000 câmeras de vigilância, além de 21.500 celulares a serem distribuídos para os caguetes de plantão. Os pontos principais de ação são as zonas de vulnerabilidade: periferias de Buenos Aires e de Mendoza. As pessoas reivindicam, confiam e apreciam cada vez mais equipamentos tecnológicos de monitoramento; é a naturalização de uma conduta policial em nome do bem comum e da prevenção geral. Desejam e clamam pela propagação do governo sobre as suas vidas e sobre a tua.

“ nômade não é forçosamente aquele que se movimenta: existem viagens paradas num mesmo lugar, viagens em intensidades” (gilles deleuze)

Hypomnemata nº 107

(março 2009)

Do amor ao Estado e dos amantes da ordem

Pesquisadores especialistas em segurança pública, durante muito tempo, insistiram que o problema da violência e da segurança fazia com que muitas pessoas que viviam em situação ou áreas de riscos, ou mesmo dentro dos presídios, ficassem a mercê de bandidos e criminosos integrantes de comandos e facções.
Argumentavam que essas pessoas entregavam-se nas mãos dos criminosos, por falta de presença do Estado, na medida em que o Estado só aparecia para pobres e favelados com sua face repressiva — a polícia —, capaz apenas de conter os efeitos e não as causas da violência e da insegurança. Para atacar as alegadas causas, era preciso investir em políticas públicas voltadas para redução da pobreza e ampliação do exercício de diretos. Seguindo tal argumentação, a polícia não serve para nada, logo, ela pode ser dispensada, abolida. Mas não foi isso que aconteceu.
Hoje, o amor ao Estado e a atuação dos amantes da ordem, ampliou a presença da polícia como prova do zelo de governantes com os seus comandados. Diversificaram as atribuições dos policiais, agora divididas com policiais que não usam fardas militares. Atualmente, a polícia baixa, desce o cacete, para depois oferecer assistência social, médica e odontológica; dar cursos de formação cidadã e até oferecer serviços de agência de empregos.
Irmanadas às ONGs, financiadas por grandes empresas e coordenadas pelo governos estaduais, multiplicam-se os policiais bem formados e caridosos que atuam em periferias, vielas, cortiços, becos, bocas e bibocas, seduzindo um rebanho normalizado que atende, voluntariamente e com fervor, à convocação para serem, também, policiais que zelam pela saúde, bem-estar e segurança da comunidade. Essa educação para a ordem começou, no Brasil, com a aplicação das medidas sócio-educativas em meio aberto para jovens classificados como infratores, que recebiam, dentro e fora das instituições austeras, formação e formatação necessária para acreditar na sua condição de futuro cidadão e adolescente em desenvolvimento.
A polícia, hoje, retoma suas funções iniciais de zeladora do bem comum, como anunciada em sua emergência na Europa, multiplicando a presença dos pastores laicos que cumprem suas cátedras policiais como atuação da chamada sociedade civil organizada. Assim, amplia-se o esplendor do Estado e faz-se o regozijo dos assujeitados e amantes da ordem que habitam os campos de concentração a céu aberto.
Na sociedade de controle, política e polícia se irmanaram como a tecnologia de poder que perpetua as práticas disseminadas de governo entre os assujeitados e a crença no Estado como incontornável condição de existência.
Conversa pra boi dormir, ou pra adormecer o corpo
Nos EUA, depois de uma série de suicídios e assassinatos em massa nas escolas, médicos, pedagogos, juristas e especialista, em geral, começaram a chamar a atenção na mídia para o que seria o fenômeno bullying.
O bullying, de acordo com os mesmos especialistas, seria a prática, entre os alunos, de agredir física, verbal ou psicologicamente os coleguinhas.
Tal fenômeno provocaria tamanho transtorno psicológico, que levaria crianças e jovens a cometer suicídio ou a responder de forma extremamente violenta, como os massacres de Columbine, ou, mais recentemente, na Alemanha.
Acontece que o american way of life — tão disseminado durante a chamada guerra fria para valorizar o capitalismo em contraposição ao socialismo — estabelece uma lógica de vencedores e perdedores. E hoje em dia, num mundo cada vez mais globalizado, cada um cultiva a crença de que as possibilidades se resumem em: ser como os bem sucedidos empresários (sejam eles médicos, publicitários, psicólogos, traficantes ou altruístas de plantão), ou ser um zé, um resto, um nada.
Esta relação despertou entre alguns a posição de perdedores radicais, cuja existência, sujeita a essa mesma ordem, se restringe à rancorosa destruição do outro que ele não consegue ser. São aqueles que, tendo suportado calados ou covardemente, uma série de sujeições e humilhações de outros colegas, reagem em uma explosão autoritária.
A partir destes casos extremos pesquisas são realizadas para fundamentarem novas medidas e investimentos sobre o corpo das crianças e dos jovens. Criam-se conceitos, doenças, e transtornos que passam a compor uma atmosfera de medo e desconfiança generalizada, e imobilizadora.
Jovens e crianças se tornam alvo da vigilância constante, sob a ameaça de se tornarem de suicidas a psicopatas. Qualquer impulsividade (própria de qualquer um que tem sangue nas veias) se torna um possível Transtorno Compulsivo já ou na “fase adulta”, que deve ser contido IMEDIATAMENTE.
Pais, escolas, comunidade, médicos, polícia e os próprios alunos se voltam para a prevenção e contenção de um perigo (inexistente) que pode vir a existir. A paranóia é preferível ao descontrole, e desta forma, não sobra muito espaço para a vida.
Crianças e jovens, em qualquer lugar do mundo (ao menos aquelas que já não foram completamente podadas ou dopadas) gostam de experimentar. Experimentam sensações, sabores, sentidos, outras ordens e a sua potência.
Algumas experimentações às vezes são cruéis. Crianças já adestradas e engessadas na família e mesmo na escola se mostram como pequenos tiranos ou conformistas; para essas, a escola já cumpriu bem o seu papel. Mas qualquer outra criança que tenha sido criada de forma livre sabe reconhecer que só se sujeita quem quer e, como qualquer guerreiro, não fica imóvel diante de um confronto.

18/02/2009

flecheira libertária I

flechadas nas couraças da ordem
flecheira - substantivo feminino; pequena abertura nas muralhas, pela qual se lançavam setas contra os inimigos ou sitiantes; frecheira, frecheiro, seteira (dcionário Houaiss)
"Flecheira Libertária" é uma seção do endereço libertário nu-sol. É um espaço de onde são lançadas flechadas certeiras e cortantes contra as tribos do senso comum ou contra os mecanismos de domesticação e captura de nossa liberdade. É uma abertura, um buraco nas muralhas da engrenagem e na nossa tendência para a aceitação da ordem, nossa necessidade inconsciente de se entregar a uma leitura sempre tranquilizadora do mundo e da história, mesmo que essa leitura tenha o máximo cuidado para se fazer transformadora, ou simplesmente crítica e lúcida.
Flechadas que, geralmente através de um ou dois parágrafos, atingem em cheio e despertam para o risco de não nos aquietarmos nas certezas estabelecidas, ainda que sejam aquelas mais dura, honesta e lucidamente conquistadas. Vale a pena ficar na linha de tiro dessas flecheiras, mesmo que seja só pra acompanhar o seu ousado e inusitado percurso.
Selecionamos algumas 'Flecheiras' com mais atualidade e concisão. Começamos pela edição nº 90, já que trata de um tema recorrente: flechadas que buscam atingir exatamente a complexa realidade das escolas e das revoltas juvenis. A seguir, outras edições, que falam da crise capitalista, do nadador Michael Pelps e seu baseado e terminamos com um retrato ácido, embora um tanto caricatural, da forma como o cotidiano sas dondocas e peruas dos 'financistas' foi 'afetado' pela crise.
Subindo no telhado
Numa escola da cidade de São Paulo, alguns estudantes subiram no
telhado, arremessaram telhas e a polícia desceu o cacete.
Especialistas, jornalistas e autoridades falam em punição e
reformas: expressão da guerra em torno dos resíduos de
instituições disciplinares. Aqui e ali a acomodação desse embate
se traduz numa nova institucionalização, que leva o nome de escola
democrática para as escolas preferenciais dos governos, e noutros
casos a agenciamentos de guetos e miséria cultural nada incomum em
grandes cidades de países desenvolvidos. No entanto, onde está a
coragem dos estudantes diante da urgência em abolir a escola?
Vã escola
As garotas brigam. Motivo: uma delas é do bairro vizinho. Os alunos se divertem e se dividem em bandos, bondes, famílias, e demais nomenclaturas conservadoras que reforçam identidades e
comunidades. Amam a merda em que vivem. Não querem ultrapassá-la, mas governá-la. Detonam o espaço da escola; são aviltados pela polícia; explodem. Já vimos esse filme norte-americano, funcionando tanto para disseminar valores punitivos como a vã esperança no professor paciente e bonzinho capaz de normalizar a ortopedia escolar.
Se fosse ...If e Zero de conduta
O tumulto não anunciou demolições inventivas dos estudantes como as expressas em filmes libertários como 'If' e 'Zero de Conduta' (viram? não?). Ao contrário, estes alunos pretendem dominar as escolas com táticas similares às do PCC e CV. E os professores, amontoados em procedimentos, sob rebaixados salários e precária formação clientelista no sistema de ensino superior, transformam-se de temidas autoridades punitivas em alvos da força transbordante de alunos reativos e violentos.
Eu não agüento mais!
(...) Será que esses jovens expressam uma saudável ânsia em enterrar algo que há muito está morto e podre?
O que você está fazendo de si?
Os estudantes, interessados na potência da vida, querem demolir a escola: abandonam o prédio ou ignoram seus comandos, não se deixam apanhar, desfiguram. Os alunos assimilam as violências de pais e autoridades, se integram no sistema de castigos e almejam ser algozes.('Flecheira Libertária' 90, de 18/11/2008)
“ Respire! Sinta o hálito do mundo em sua pele! Aproveite o dia! Respire! Respire!” (hakim bey)
Obrigatoriedades
Um menino vivo de 6 anos berra, grita, esperneia ao ser obrigado a entrar na sala de aula. Uma funcionária da escola corre até ele e tenta convencê-lo em vão. Ele se mostra irredutível. Ela, então, escondida da funcionária superior o convence a ficar no corredor próximo de sua mesa, lhe dá papel para desenhar e inicia uma conversa. Ele, sem meias palavras, diz que não quer estar na escola e que está imaginando uma menina linda em um parque de diversões. A funcionária sugere que ele desenhe o parque. Ele se nega e diz não poder desenhar. Ela lhe pergunta por que? Afinal ele não está também no parque? Ele sério se volta e encerra a conversa ao dizer: Não, não estou lá, porque eu estou aqui.(Flecheira 85, 14/10/08)
Capitalismo e morte!
Hades. É a tal da crise recorrente do capitalismo. É uma nova oscilação em direção a um novo modo de dar continuidade ao mercado capitalista com mais ou menos Estado. Mas sempre com Estado para repassar encargos, taxar impostos, proteger mercadorias, acolher negociatas, cobrir as apostas, os riscos e a liberdade dos capitalistas com o dinheiro seqüestrado dos cidadãos e a dívida pública. A mesma velha coisa renovada: o capitalismo é uma multidão de miseráveis, de serviçais aos superiores, às máquinas, aos programas, à morte. Uma coisa é inédita: o capitalismo não é mais planetário, é sideral. Ele, o Estado e o patriarca vivem do amor à obediência, da morte entre os súditos, das instituições para matar.
Mercado, anarquia e liberdade
Moiras. Quer liberdade de mercado? Faça anarquia, autogestão, invente, viva sem Estado, desobedeça, seja indisciplinado. Não queira saber tudo, mandar, vigiar, persuadir, amar o consenso. Aproveite a democracia para viver mais livre. Esqueça a utopia; faça já. Não seja prisioneiro do amor; não tente ser esperto; liberte-se do segredo e do controle que dão poderes aos pais, burocratas, encarceradores, governantes... Deixe de pensar neles ou por eles, nessa mesmice, numa identidade. Note os novos espaços de liberdades e não tente governá-los. Desgoverne-se. Lide com direitos livres de deveres. Não dê as costas aos inimigos, contorne os lisonjeadores, não tente ser esperto, evite a cólera, experimente, entre. (Flecheira 85, 21/10/08)
"Revolta? Como? Irromper fora da prisão, do teatro, para dentro do mundo" (julian beck)

A delação transparente
Ele foi o grande nome das Olimpíadas de 2008. Saudável, recordista, o grande fôlego, a maior velocidade na água, a elegância do nado, o preferido da mídia e das boas famílias. Apesar de tudo ele também é uma pessoa comum. Come, dorme, bebe, treina e às vezes mente. Isso é insuportável tanto para o delator, que o fotografa em festa, fumando maconha, quanto para a mídia, a federação e os patrocinadores irmanados na atual idiotia transterritorial. Ele foi suspenso por doping moral. Não serve mais aos Estados Unidos, aos bons cidadãos, aos tolerantes, aos responsáveis, aos empresários, aos adoradores de exemplos? Aplica-se a sanção: suspensão temporária. Depois virão mais arrependimentos e a dívida infinita.(Flecheira 97, 11/02)
I’ sorry
Esta é a frase que o nadador celestial profere dia e noite para se desculpar do uso festivo da sua maconha. O jovem nadador constata que é um produto valioso da eficiência individualista no capitalismo e se prepara para aceitar as punições. Os contratos não serão renovados sem pedidos de perdão eterno. Em breve, ele, rico e arrependido, se transformará em encenador de devoções religiosas e do bom-mocismo cidadão como já ocorreu com vários outros esportistas. Aprendeu que a ilegalidade impune e lucrativa se comete na surdina. I’ sorry, mesmo!(Flecheira 98, 18/02)
Capitalismo em crise: as dondocas top
Em Manhatan as dondocas-adornos de financistas de Wall-Street fundaram um grupo de apoio às suas colegas, o DABA (Namoradas de Banqueiros Anônimas) tipo A. A. , mas sem abrir mão do acesso restrito, é claro, para se solidarizarem e trocarem desabafos sobre a crise, lamentando “ de gastos em seus cartões de crédito” ou “ o sexo passou a ficar horrível!” ou “ estão entediadas”. Suas vidinhas de mulherzinhas seguem impecáveis.
as aspirantes
Em São Paulo, noivas e esposas de investidores bem sucedidos do mercado financeiro, que aspiram ser como as do top de Manhatan, comentam na coluna social como sofreram abalos indescritíveis, “ como ficar sem uma babá para o filho, que só dá para pensar em ter após ter feito o primeiro ou segundo milhão de dólares? E o que é pior como viver sem uma babá e uma enfermeira?” Rindo, começam “ a pensar em vender a mãe para recuperar investimentos...” Suas vidinhas de mulherzinha seguem incólumes.

e as periféricas
Numa roda de peruas classe média periféricas, que desejam um dia ascender a aspirantes e a top, uma delas diz às outras: “ não agüenta mais ter de vender tudo para pintar o cabelo, lembrando que seu ex-marido a alerta: por favor só não venda as crianças!” Ela, solícita, o tranqüiliza, dizendo que caso as venda, não as entregará. Os seus cabelos e a sua vidinha de mulherzinha seguem intactos.

Enquanto isso:
Uma enquete com jovens estudantes de Economia que acabam de ingressar na universidade, aponta que eles escolheram o curso porque “ trabalhar na área de investimento financeiro.” (Flecheira 98, 18/02)
“ Prefiro ser uma loba faminta a ser um cão gordo encoleirado.” (nise da silveira)