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03/06/2014

de volta... à poesia e à resistência

Após quase um ano sem novas postagens, chega ao fim o período de hibernação do desvelar.
Para marcar essa volta um poema da espanhola ana montojo micó.

E também uma nota de esclarecimento do movimento black block, postada abaixo, acerca de matéria postada pelo jornal Estado de São Paulo.

Caminha pelo parque
num dia de semana de Outono
sem tom nem som, sem cão
sem cadeira de empurrar
de velho ou de menino.

Não anda depressa nem devagar
deixa-se afagar
pelo sol mentiroso de Novembro.
Não corre atrás dum corpo inverossímil
fuma apenas com música de pássaros.

Doente terminal de saudades
desempregado, reformado, arguido
ou ao menos suspeito de tristeza.

ana montojo micó   -  espanha   (1949  -   )

08/11/2012

poema de finados - 2

e como condenados

e como condenados
por trás de horas desapiedadas
ao vento confiamos
clandestinas mensagens, testemunhos
de que passamos, de que compreendemos
e tivemos um breve senhorio

para que ninguém
nos confunda
amanhã com o nada.

miguel d'ors - espanha  (1946  -   )
veja também poema da casa assassinada

18/05/2011

no fio da navalha

quando o amor decide se suicidar
não há quem o detenha;
súbito, gelam-se os abraços
e as palavras da véspera, queimam

cavalgam os capangas do orgulho
libertos de negra caverna masoquista
para nos roubar a ingenuidade infantil
de amar como loucos e sem exigências -
crianças inocentes e sem medos

mas agora crescemos e estamos a postos
nada nem ninguém nos engana:
nossos próprios demônios nos defendem
de qualquer tentação de ser felizes
e então podemos placidamente dormir
apoiados no lasso travesseiro do fracasso

a punta de navaja
Cuando al amor le da por suicidarse
no hay quien sea capaz de detenerlo;
de pronto se congelan los abrazos
y queman las palabras de ayer mismo.

Regresan los sicarios del orgullo
desde un negro reducto masoquista,
a robarnos la infantil inconsciencia
de amarnos a lo loco y sin preguntas,
como niños idiotas, sin recelos.

Ahora que hemos crecido y somos listos,
no nos engaña nadie; nos protege
nuestro propio demonio de la guarda
de cualquier tentación de ser felices
para poder dormir, plácidamente,
sobre la tibia almohada del fracaso.

ana montojo micó - espanha
tradução: roberto soares

07/05/2011

dizes que me quer

você diz que me quer de uma tal forma
que não consigo deixar de corar;
que me quer de um modo primitivo
sem razão aparente e sem desculpas
e que me quer porque me deseja
porque sabe que eu também te quero
e como o monstro deste amor nos come
a alma, a paciência e as maneiras.

que pena que todas estas coisas
morram em nós afogadas de silêncio.

amalia bautista - espanha
tradução: roberto soares

pobres, gritai comigo!

Pobres, gritai comigo:

Abaixo o D. Quixote
com cabeça de nuvens
e espada de papelão!
- E viva o Chicote
no silêncio da nossa mão!

Pobres, gritai comigo:
Abaixo o D. Quixote
que só nos emperra
de neblina!
- E viva o Archote
que incendeia a terra
mas ilumina!

Pobres, gritai comigo:
Abaixo o cavaleiro
da lança de soluços
e bola de sabão
no elmo de barbeiro!

- E vivam os nossos Pulsos
que, num repelão
hão-de rasgar o nevoeiro!

josé gomes ferreira - portugal

01/11/2010

como temer-te, morte?

como, morte, temer-te?
não estás aqui comigo, a trabalhar?
não te toco em meus olhos; não me dizes
que não sabes de nada, que és vazia,
inconsciente e pacífica? Não gozas,
comigo, tudo: glória, solidão,
amor, até tuas entranhas?
não me estás a sustentar,
morte, de pé, a vida?
não te levo e trago, cego,
como teu guia? Não repetes
com tua boca passiva
o que quero que digas? Não suportas,
escrava, a gentileza com que te obrigo?

juan ramón jiménez, em "la muerte"  - espanha
(tradução de José Bento)