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19/03/2012

guimarães rosa: um estado de cavalos, num estalinho de estrelas

No épico e poético, mágico e transcendente "Grande Sertão: veredas", do mineiro João Guimarães Rosa, há a cena em que o protagonista Riobaldo se encontra pela primeira vez, frente a frente, com o lendário mundo dos jagunços do norte dos Gerais, mundo do qual ele até então somente conhecia de histórias e narrativas.
Pela admiração e pelo entusiasmo respeitosos, com os quais ele vive o momento, ele talvez já percebesse como aquele encontro e aquele mundo iriam guiar o seu destino, alimentar a sua existência. É como se ele já soubesse que, lá na frente,  haveria um novo encontro entre eles.

A sua  lembrança desse primeiro encontro é, então,  pautada pela alegria em relembrar e, ao mesmo tempo, por  uma certa mágoa, por já não poder sentir mais aquele mesmo entusiasmo revelador e ingênuo, depois de ter vivido toda uma atribulada exitência  no meio dos jagunços - inclusive tendo vindo a se tornar chefe de seu bando.
Uma jornada que ele nunca vivenciou completamente sereno, mas sempre atribulado por questões de ordem moral, existencial  e metafísica, principalmente na sua recorrente preocupação com a existência do demônio e do mal, no meio do mundo ou dentro das pessoas. E também sempre atribulado pelas dúvidas de seu amor singular, desamparado e proibido por Diadorim, que todos achavam que era um rapaz, e que somente ao final, depois de morta em combate,  fica-se sabendo que era uma jovem.

Ainda a registrar, nesse primeiro encontro, a celebração discreta mas amorosa que Riobaldo faz da presença dos cavalos, a carregar equipagens e cavaleiros. No "Grande Sertão..." há uma outra cena  com cavalos, cena forte mas triste, de cavalos em meio ao constantes tiroteios dos bandos.   Fica para uma outra ocasião. Por ora, um poema também sobre cavalos, publicado aqui. Abaixo, um pouco da magia e da epopéia genialmente forjada pelo escritor e aventureiro dos Gerais.

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"Em que, eles dois a cavalo, eu a pé, viemos até onde estavam esperando os outros, dois passos, no baixo da estrada.(...) "
"(...) De repente, de certa distância, enchia espaço aquela massa forte, antes de poder ver eu já pressentia. Um estado de cavalos. Os cavaleiros. Nenhum não tinha desapeado. E deviam de ser perto duns cem. Respirei: a gente sorvia o bafejo - o cheiro de crinas e rabos sacudidos, o pelo deles, de suor velho, semeado das poeiras do sertão. Adonde o movimento esbarrado que se sussurra duma tropa assim - feito de uma porção de barulhinhos pequenos, que nem o dum grande rio, do a-flôr. A bem dizer, aquela gente estava toda calada, Mas uma sela range de seu, tine um arreaz, estribo, e estribeira, ou coscós, quando o animal lambe o freio e mastiga. Couro raspa em couro, os cavalos dão de orelha ou batem com o pé. Daqui, dali, um sopro, um meio-arquêjo. E um cavaleiro ou outro tocava manso sua montada, avançando naquele bolo, mudando de lugar, bridava. Eu nãos entia os homens, sabia só dos cavalos. Mas os cavalos mantidos, montados. É diferente. Grandeúdo. E, aos poucos, divulgava os vultos muitos, feito árvores crescidas lado a lado. e os chapéus rebuçados, as pontas dos rifles subindo das costas. Porque eles não falavam - e restavam esperando assim - a gente tinha medo. Ali deviam de estar alguns dos homens mais terríveis sertanejos, em cima dos cavalos teúdos, parados contrapassantes. Soubesse sonhasse eu? (...)"

"(...) A gente se encostava no frio, escutava o orvalho, o mato cheio de cheiroso, estalinho de estrelas, o deduzir dos grilos e a cavalhada a peso. Dava o raiar, entreluz da aurora, quando o céu branquece. Ao o ar indo ficando cinzento, o formar daqueles cavaleiros, escorrido, se divisava. E o senhor me desculpe, de estar retrasando em tantas minudências. Mas até hoje eu represento em meus olhos aquela hora, tudo tão bom; e, o que é, é saudade."

Guimarães Rosa,"Grande sertão: veredas", Ed. Nova Fronteira, 2011, pag. 117-118.

31/03/2009

o duelo, de guimarães rosa

A seção “Falas” é um espaço reservado para trechos de obras em prosa, de autores consagrados ou não, publicados ou inéditos. Trazemos, neste mês, trechos de um vibrante conto do mineiro Guimarães Rosa.

‘O Duelo’ é um dos nove contos de ‘Sagarana’, primeiro livro publicado por Guimarães Rosa. Em mais ou menos trinta páginas, num clima solerte e aventureiro, conta a história de uma perseguição, desencadeada através do sertões de Minas Gerais. Sabe-se que a literatura de Rosa é marcada pela inventividade, pelo experimentalismo da linguagem e da forma de contar histórias; e, como se já não bastasse, essa difícil originalidade é sobriamente permeada por uma atmosfera meio filosófica, uma metafísica própria das vastidões, asperezas e delicadezas do sertão mineiro, e própria das falas, cismas e silêncios de seus moradores, viajantes e andarilhos. Mas, se comparada à sua obra posterior, ‘Sagarana’ é quase leve, obra gostosa de ler, indicada principalmente para quem não ainda tomou contato com a desafiadora literatura roseana.
São narrativas cheias de incidentes, situações meio fantásticas ou imaginárias, mas que no mais das vezes não colocam os personagens em situações-limite, não têm o propósito de trazer para o leitor a dramaticidade e a trágédia, a peplexidade e as cismas de um ‘Grande Sertão: Veredas’, por exemplo. Além disso, não há ainda todo aquela festiva e genial abundância de criação de palavras, de liberdades sintáticas, de experimentações narrativas, que acaba por dificultar a fruição por parte de leitores menos habituados. Assim, ‘Sagarana’ è uma ótima porta de entrada para o inigualado universo de Gumarães Rosa. Segue abaixo uma vibrante e sedutora amostra dessas ‘quase sagas’ - ‘rana’ em tupi, significa algo como parecido, semelhante
(
Roberto Soares Coelho)
" Mas, por essa altura, Turíbio Todo teria direito de queixar-se tão-só da sua falta de saber-viver; porque avisara à mulher que não viria dormir em casa, tencionando chegar até ao pesqueiro das Quatorze-Cruzes e pernoitar em casa do primo Lucrécio, no Dêcàmão. Mudara de idéia, sem contra aviso à esposa; bem feito!.: veio encontrá-la em pleno (com perdão da palavra, mas é verídica a narrativa) em pleno adultério, no mais doce, dado e descuidoso, dos idílios fraudulentos.

Felizmente que os culpados não o pressentiram. Turíbio Todo costumava chegar com um mínimo de turbulência: ouviu vozes e espiou por uma fisga da porta; a luz da lamparina, lá dentro, o ajudando, viu. Mas não fez nada. E não fez, por que o outro era o Cassiano Gomes, ex-anspeçada do 1° pelotão da 2° companhia do 5° Batalhão de Infantaria da força Pública, onde as gentes aprendiam a manejar, por música, o ZB tchecoslovaco e até as metralhadoras pesadas Hotchkiss; e era, portanto, muito homem para lhe acertar um balanço na testa, mesmo estando assim em sumaríssima indumentária e fosse a distância para duzentos metros, com o alvo mal iluminado e em movimento.
Turíbio Todo não ignorava isso, nem que o Cassiano Gomes era inseparável da parabellum, nem que ele, Turíbio, estava, no momento, apenas com a honra ultrajada e uma faquinha de picar fumo e tirar bicho-de-pé.

Todavia, com o bom, o legítimo capiau, quanto maior é a raiva tanto melhor e com mais calma raciocina, Turíbio todo dali se afastou mais macio ainda do que tinha chegado, e foi cozinhar o seu ódio branco em panela de água fria.
E fez bem, porque então lhe aconteceu o que em tais circunstâncias acontece as criaturas humanas, a 19° de latitude S. e a 44° de longitude O.: meia dúzia de passos e todo o mau-humor se deitava num estado de alívio, mesmo de satisfação. Respirava fundo e sua cabeça trabalhava com gosto, compondo urdidos planos de vingança.
E pois, no outro dia, voltou para casa, foi gentilíssimo com a mulher, mandou pôr ferraduras novas no cavalo, limpou as armas, proveu de coisas a capanga, falou vagamente numa caçada de pacas, rui muito, se mexeu muito, e foi dormir bem mais cedo do que de costume. E isso foi na quarta-feira. Quinta-feira pela manhã...
(...)
Bem, quinta-feira de manhã, Turíbio Todo teve por terminados os preparativos, e foi tocaiar a casa de Cassiano Gomes. Viu-o à janela, dando as costas para a rua. Turíbio não era mau atirador: baleou o outro bem na nuca. E correu em casa, onde o cavalo o esperava na estaca, arreado, almoçado e descansadão.
Nem por sonhos pensou em exterminar a esposa (Dona Silivana tinha grandes olhos bonitos, de cabra tonta) porque era um cavalheiro, incapaz da covardia de maltratar uma senhora, e porque basta, de sobra, o sangue de uma criatura, para levar, enxaguar e enxugar a honra mais exigente.
Agora tinha que cair no mundo e passar algum tempo longe, e tudo estaria muito bem, conseqüente e certo, limpamente realizado, igualzinho a outros casos locais.

Mas... Houve um pequeno engano, um contratempo de ultima hora, que veio pôr dois bons sujeitos, pacatíssimos e pacíficos, num jogo dos demônios, numa comprida complicação: Turíbio Todo, iludido por uma grande parecença e alvejando um adversário por detrás, eliminara não o Cassiano Gomes, mas sim o Levindo Gomes, irmão daquele, o qual não era metralhador, nem ex-militar e nem nada, e que, por sinal, detestava mexida com mulheres dos outros. Turíbio todo soube do erro, ao subir no estribo . –Ui!.. Galope bravo, em vez de andadura!... – pensou. E enterrou as esporas e partiu, jogando o cascalho para os lados e desmanchando poeira no chão.
Cassiano Gomes acompanhou o corpo do irmão ao cemitério, derramou o primeiro punhado de terra, e recebeu, com muita compostura, entristecido e grato, as condolências petentes. Depois voltou em casa, fechou muito bem janelas e portas – felizmente ele era solteiro – e saiu, com a capa verde reiúna, a winchester, a parabellum e outros petrechos, para procurar o Exaltino-de-trás-da-Igreja, que tinha animais de sela para vender.

Comprou a besta douradilha; mas, antes, examinou bem, nos dentes, a idade; deu um repasse, criticou o andar e pediu uma diferença no preço. Encerrado o negócio, com os arreios e tudo, Cassiano mandou que dessem milho e sal à mula; escovaram-na, lavaram-na e ferraram-na de novo.
Já ele pronto, quando estava amarrando a capa nas garupeiras, ainda ouviu o que o Exaltino-detrás-da-igreja falou, baixinho, para Clodinho Preto:
- Está morto. O Turíbio Todo está morto e enterrado!.. Esta foi a última trapalhada que o papudo arranjou...

Cassiano pensou, fumou, imaginou, trocou, crismou, e, já a duas léguas do arraial, na grande estrada do norte, os seus cálculos acharam conclusão: Turíbio Todo tinha uns parentes na Piedade do Bagre, ou ali por menos longe... Para lá batera, direitinho, ainda assustado por conta do malfeito. Não podia ter tomado outro rumo, e, de seguro, dando o mais que pudesse, teria vindo a galope. Quando ele chegasse na Piedade – para diante não havia terras aonde um cristão pensasse ir, - descansado, junto de gente sua, tornaria e ter raiva e tratava de voltar nos passos.
E estava muito certo disso tudo:
- Ele vai como veado acochado, mas volta como cangussu... No meio do caminho agente topa, e quem puder mais é que vai ter razão... "


Guimarães Rosa, ‘O Duelo’, da obra ‘Sagarana’, Ed. Record, 1984