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10/07/2012

eu nunca fui capaz de rezar

Guia-me até ao porto
onde o farol jaz abandonado
e a lua range nas vigas de madeira.

Deixa-me ouvir o vento chamar por entre as árvores
e ver as estrelas irromperem, uma a uma
como os rostos esquecidos dos mortos.

Eu nunca fui capaz de rezar
mas deixa-me gravar o meu nome
no livro das ondas

e depois olhar intensamente a cúpula
de um céu que não tem fim
e ver a minha voz navegar pela noite dentro.

edward hirsch - estados unidos  (1950 -  )

12/06/2012

grilo

Durante uma semana inteira
um grilo andou pela cave
algures entre
a fornalha
e o estojo de críquete.
Eu gostaria de ter ido lá abaixo
todas as noites
para o ouvir trinar.
Ele daria pelos meus passos
e interromperia
a sua música mágica.
Logo depois começaria
de novo a cantar.
Isto seria assim
e eu falaria com ele
e seria seu amigo.
Mas esta noite
na cave
só encontrei um silêncio gelado
e uma aranha
a tecer uma mortalha
junto à janela.

dave etter - estados unidos
tradução: do trapézio

04/04/2012

felicidade


Tão cedo que ainda é quase noite lá fora.
Estou perto da janela com o café
e tudo aquilo que sempre a essa hora
nos passa pela mente.

Quando vejo o garoto e seu amigo
subindo a rua
para entregar o jornal.

Eles usam bonés e agasalhos,
e um deles traz uma mochila nas costas.
Estão tão felizes
que nem sequer conversam, os garotos.

Acho que, se pudessem, estariam até
de braços dados.
É de manhã bem cedo
e os dois caminham lado a lado.
Lentamente, eles vêm vindo.
O céu começa a clarear
embora a lua ainda paire sobre a água.

Tanta beleza que por um instante
a morte e a ambição, mesmo o amor
não se intrometem nisso.

Felicidade. Ela vem
inesperadamente. E vai além, na verdade,
de qualquer discurso sonolento.

raymond carver - estados unidos  (1938-1988)
de alguma poesia

13/07/2011

primeira noite

Eu dormia debaixo de ti
quieta e escura, tão deserta
como uma paisagem de campos, o meu sangue lentamente
secando entre nós, a brecha na minha carne
começando a sarar, aberta, uma fronteira
irreversivelmente abolida.

Os habitantes do meu corpo começaram a
erguer-se no escuro, a fazer as malas, a mudar-se.

Toda a noite, hordas de gente
em roupas pesadas mudaram-se para sul dentro de mim
com as casas às costas, sacas de
grão, crianças pela mão, debaixo
de um céu como fumo. Os pastos
deslocaram-se centenas de milhas. Alguns animais
de repente, quase se extinguiram
uma ou duas formas singulares
nodosas, nas partes opostas da terra.
Outras formas se multiplicaram
Massas de asas de um vermelho escuro
Jorrando de parte nenhuma. Os rios mudaram de curso
a linguagem deu uma volta
completa sobre si
e encaminhou-se na direcção oposta.


Ao amanhecer, as migrações tinham terminado. Secou
a derradeira orla do laço de sangue
e como um animal recém-nascido prestes a ser ferrado
abri os olhos e vi o teu rosto.


sharon olds -  estados unidos, ed. antígona,  2004
tradução: margarida vale de gato