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18/08/2012

aqui

Estás sozinho sentado em frente ao vale
com um livro nas mãos
que de vez em quando abandonas
para olhar, com a devida calma
quanto a vista alcança.
Reina o silêncio. Por vezes, soa
o rumor dos ramos
ou o canto intermitente dum pássaro.
Respiras fundo. Vês.
Aprecias um por um os momentos
que te oferece o viver à margem.

Não perfilhas a queixa
daqueles que querem partir
mas adiam sempre
o momento da fuga.
Permaneces aqui
por vontade própria
é este o teu lugar.
E tu és dele.

álvaro valverde - espanha  (1959  -  )

19/07/2012

cinquenta anos esta noite....

mandala

Cumpri os 40.
Vi esta noite o universo despenhar-se nas minhas costas
e abrir-se um buraco negro absoluto para diante.
Depois tive que fazer 41.
A metade que já se foi da minha vida faz sinais
à outra metade que está para vir
e ambas duas se esquivam de mim.
De modo que não tive outro remédio senão fazer 42.
Posta então a meio do caminho desmorono-me
pedaço de terra vou terra na terra girando.
Ninguém sabe o que espera em que futuro se houver futuro
cinzas sombra e sombra apenas sobre figuras de lama
grão de areia pó no pó a derramar-se
há quatro mil milhões de anos.

teresa calderón  - chile (1955 -  )

12/04/2012

sem chaves e às escuras

Era um desses dias em que tudo corre bem.
Tinha limpado a casa e escrito
dois ou três poemas que me agradavam.
Não pedia mais.

Então saí para o patamar para deitar o lixo fora
e, atrás de mim, com uma corrente de ar,
a porta fechou-se.
Fiquei sem chaves e às escuras
sentindo as vozes dos meus vizinhos
através das suas portas.
É passageiro, disse para mim;

no entanto também a morte poderia ser assim:
um patamar escuro,
uma porta fechada com a chave do lado de dentro,
o lixo na mão.

fabián casas - argentina (1965 -  ) 

08/04/2012

esperemos

há outros dias que não têm chegado ainda
que estão fazendo-se
como o pão ou as cadeiras ou o produto
das farmácias ou das oficinas

- há fábricas de dias que virão -
existem artesãos da alma
que levantam e pesam e preparam
certos dias amargos ou preciosos
que de repente chegam à porta
para premiar-nos
com uma laranja
ou assassinar-nos de imediato

pablo neruda  - chile  (1904-1973)

04/04/2012

felicidade


Tão cedo que ainda é quase noite lá fora.
Estou perto da janela com o café
e tudo aquilo que sempre a essa hora
nos passa pela mente.

Quando vejo o garoto e seu amigo
subindo a rua
para entregar o jornal.

Eles usam bonés e agasalhos,
e um deles traz uma mochila nas costas.
Estão tão felizes
que nem sequer conversam, os garotos.

Acho que, se pudessem, estariam até
de braços dados.
É de manhã bem cedo
e os dois caminham lado a lado.
Lentamente, eles vêm vindo.
O céu começa a clarear
embora a lua ainda paire sobre a água.

Tanta beleza que por um instante
a morte e a ambição, mesmo o amor
não se intrometem nisso.

Felicidade. Ela vem
inesperadamente. E vai além, na verdade,
de qualquer discurso sonolento.

raymond carver - estados unidos  (1938-1988)
de alguma poesia

22/09/2011

daquilo que sou



neste corpo
onde a vida já anoitece
vivo eu
ventre murcho
cabeça calva
poucos dentes
e eu dentro
como um condenado
dentro e ainda apaixonado
e estou velho
então busco decifrar minha dor com a poesia
mas o resultado é especialmente doloroso
vozes que anunciam: lá vem sua angústia
vozes quebradas: seus dias se foram
acostume-se com suas facadas
a poesia é a única companheira

é a única
 
De lo que soy
En este cuerpo
en el cual la vida ya anochece
vivo yo
Vientre blando y cabeza calva
Pocos dientes
Y yo adentro
como un condenado
Estoy adentro y estoy enamorado
y estoy viejo
Descifro mi dolor con la poesía
y el resultado es especialmente doloroso
voces que anuncian: ahí vienen tus angustias
Voces quebradas: ya pasaron tus días
La poesía es la única compañera
acostúmbrate a sus cuchillos
que es la única.
raúl gómez jattin - colômbia
tradução: roberto soares

a foto acima extraí de noctambulario, ótimo blog mexicano de poesia, complementado por fotografia.
Achei interessante o contraponto entre verbo e imagem: como se um lembrasse a juventude e a vivacidade que se foram pelos dedos, e como se a outra mirasse a vastidão do ser, vislumbrando no oceano do tempo o aniquilamento que  espera a precariedade de sua beleza e sensualidade; o mesmo aniquilamento ao qual o poeta  se sente já condenado, mas que apesar de sentir a vida cada dia mais com um ventre a murchar, ainda assim logra celebrá-la em companhia da poesia, mas celebração sem desnecessárias ilusões e sem medrosos lamentos, poema-celebração cortante como uma faca.
A propósito, este outro poema, um dos raros de Hemingway,  trata também da larga, voraz e aparentemente lenta estrada do tempo - só que, além de também cortante, o poema faz não propriamente uma celebração mas uma espécie de repto, de atrevido desafio ao tempo.   

o tempo exigiu

O tempo exigiu que cantássemos
E arrancou-nos a língua.

O tempo exigiu que fluíssemos
E cravou-nos uma rolha.

O tempo exigiu que dançássemos
E vestiu-nos uma calças de ferro.

E no fim o tempo recebeu em troca
Toda a quantidade de merda que exigiu.

ernest hemingway - estados unidos

13/07/2011

primeira noite

Eu dormia debaixo de ti
quieta e escura, tão deserta
como uma paisagem de campos, o meu sangue lentamente
secando entre nós, a brecha na minha carne
começando a sarar, aberta, uma fronteira
irreversivelmente abolida.

Os habitantes do meu corpo começaram a
erguer-se no escuro, a fazer as malas, a mudar-se.

Toda a noite, hordas de gente
em roupas pesadas mudaram-se para sul dentro de mim
com as casas às costas, sacas de
grão, crianças pela mão, debaixo
de um céu como fumo. Os pastos
deslocaram-se centenas de milhas. Alguns animais
de repente, quase se extinguiram
uma ou duas formas singulares
nodosas, nas partes opostas da terra.
Outras formas se multiplicaram
Massas de asas de um vermelho escuro
Jorrando de parte nenhuma. Os rios mudaram de curso
a linguagem deu uma volta
completa sobre si
e encaminhou-se na direcção oposta.


Ao amanhecer, as migrações tinham terminado. Secou
a derradeira orla do laço de sangue
e como um animal recém-nascido prestes a ser ferrado
abri os olhos e vi o teu rosto.


sharon olds -  estados unidos, ed. antígona,  2004
tradução: margarida vale de gato

01/11/2010

homenagem

de costas para o mundo, para o pó
para o frágil redemoinho de nostalgias e sonhos
e de efêmeras representações
esta leve fábrica se levanta
só pelo milagre de haver vencido
o tempo e suas mais recônditas argúcias

alvaro mutis - colômbia

05/02/2009

volúpia

Rasga o espaço
a flecha

Minha volúpia
percorre o artesanato
do teu corpo

Chego
à longitude
do teu sexo
e do teu recato

Tua inocência
se fecha
tardiamente

Logo
cansa-se o guerreiro
que mora
no meu sangue

Guardo o arco
e vou-me embora

Não sei até que
ponto
eu feri
o teu céu azul
simón zavalla - 'biografia circular'

20/01/2009

introspecção revolucionária

Esta contundente e singela fala de Simón Zavalla vai como testemunho poético neste momento em que, perplexos e indignados, estamos com os olhos em Gaza
I
ontem, quando brincávamos
atrás das palavras
qualquer coisa nos admirava
e nos calava a boca
e tão imunes ao mundo estávamos
que hoje se nos entristece a alma

sim, éramos tão imunes:
os bancos da escola
pulavam na nossa vida
e mil filas de letras
jogueteavam alegres nas vermelhas
tranças da companheirinha ou no olhar
que buscava o sonho
ainda de calças curtas

ontem, os dias eram outros dias
os beijos de nossas mães
moravam nas nossas bochechas
e o canto do avô nos vinha
como um até amanhã
sem palavras

foram tempos fugazes
a barba e o bigode
nos despertaram dos sonhos
e viemos caminhando metidos nos farrapos
dos irmãos maiores que morreram
II
hoje estamos aqui
sobre a terra que tantas vezes
se vestiu de sangue
sou um dos vossos
eu me chamo Simon, um qualquer
sou um grito com nome
e um punhado de sangue
sou uma incertitude que sorri
e um casualidade dentro do tempo
com desejos de homem

venham a ver-me:
as unhas pouco a pouco comi e a fome
condecorou o meu estômago -
com dores agudas
sou um triunfo a mais –
para a miséria

olha-me, humanidade:
tenho um fuzil
que canta na minha cabeça
e venho estender-lhes a minha mão
e a minha fraqueza de esqueleto
III
aqui estamos
pulando de migalha em migalha
com um lasso passo de vermes
os domingos nos doem
e o tic-tac das semanas nos golpeia
vamos já derrotados por esta estrada
disparando palavras como velharias
e sequer Deus nos reconhece

pobrezinho do fuzil!
deve estar chorando
esta noite não pude acariciá-lo
nem deitá-lo em meus braços
que vou fazer
já é de manhã!

Olhem-nos, hermanos:
somos meros caranguejos
com bandeiras de luta
aos farrapos no asfalto.
simón zavalla

05/11/2008

epílogo - simón zavala

O poema abaixo é do Simón Zavala, poeta equatoriano


epílogo
vim uma vez aqui
e te atirei minhas mãos

te entreguei minha palavra
desgarrada

te disse que o meu nome
era emprestado
e que eu era outro
enfiado neste corpo

te contei do meu sonho
forjado nos temporais
te mostrei o pedaço de minha alma
que permaneceu em minha mãe

por fim te ofereci minha sombra

no teu aniversário
e pendurei minhas pegadas
no teu quarto

um dia
me acordaram e encurralaram
outra vez as horas
me despedi de todos os teus desejos
e te deixei à porta
o meu olhar

(Simón Zavala Guzmán – Guayaquil, Equador, tradução: Roberto Soares)



ecos