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09/01/2013

Chiapas e os zapatistas: vivos e fortes!

Para quem ainda não conhece as idéias, propostas e um pouco da relidade do Exército Zapatista (México), abaixo segue um texto divulgado pelo EZLN - num estilo poético e profético de propor a  ação política, como é próprio nos comunicados do Subcomandante Marcos

COMUNICADO DO CCRI-CG DO 
EXÉRCITO ZAPATISTA DE LIBERTAÇÃO NACIONAL, MÉXICO.

Comunicado 3. La Jornada, 31/12/2012

Ao povo do México: Aos povos e governos do mundo: Irmãos e irmãs: Companheiros e companheiras:
Em 21 de dezembro de 2012, de madrugada, em dezenas de milhares de indígenas zapatistas, nos mobilizamos e tomamos, pacificamente e em silêncio, 5 cabeceiras municipais no estado de Chiapas, no sudeste mexicano.
 
Nas cidades de Palenque, Altamirano, Las Margaritas, Ocosingo e San Cristóbal de las Casas, olhamos para vocês e olhamos para nós mesmos em silêncio. A nossa não é uma mensagem de resignação. Não é de guerra, de morte e destruição. Nossa mensagem é de luta e resistência. Depois do golpe de Estado da mídia que instalou no poder executivo federal a ignorância mal-dissimulada e pior maquiada, nos fizemos presentes para fazer-lhes saber que se eles nunca se foram, tampouco isso aconteceu conosco.
 
Há seis anos, um segmento da classe política e intelectual saiu à procura de um responsável pela sua derrota. Naquele tempo, nós estávamos em cidades e comunidades, lutando por justiça para um Atenco que, naquele momento, não estava na moda. Neste ontem, primeiro nos caluniaram, e depois quiseram nos calar. Incapazes e desonestos para ver que têm em si mesmos o fermento de sua ruína, pretenderam nos fazer desaparecer com a mentira e o silêncio cúmplice.
 
Seis anos depois, as coisas estão claras: Eles não precisam de nós para fracassar. Nós não precisamos deles para sobreviver. Nós, que nunca fomos embora, ainda que os meios de comunicação tenham se empenhado em fazer-lhes crer isso, ressurgimos como indígenas zapatistas que somos e seremos. Nestes anos, temos nos fortalecido e temos melhorado significativamente nossas condições de vida.
 
Nosso nível de vida é superior ao das comunidades indígenas em sintonia com os governos de plantão, que recebem as esmolas e as submergem em álcool e artigos inúteis. Nossas casas são melhoradas sem prejudicar a natureza impondo a ela caminhos que lhe são estranhos. Em nossos povoados, a terra que antes servia para engordar o gado de fazendeiros e proprietários de terras, agora é para o milho, o feijão e as hortaliças que iluminam nossas mesas.
 
Nosso trabalho recebe a dupla satisfação de prover-nos do necessário para viver honradamente e de contribuir no crescimento coletivo de nossas comunidades. Nossas crianças vão a uma escola que lhes ensina sua própria história, a de sua pátria e a do mundo, bem como as ciências e as técnicas necessárias para engrandecer-se sem deixar de ser indígenas. As mulheres indígenas zapatistas não são vendidas como mercadorias. Os indígenas priistas vão nos nossos hospitais, clínicas e laboratórios porque nos do governo não há remédios, nem equipamentos, nem médicos, nem pessoal qualificado.
 
Nossa cultura floresce, não isolada e sim enriquecida pelo contato com as culturas de outros povos do México e do mundo. Governamos e nos governamos a nós mesmos, buscando sempre primeiro o acordo no lugar da confrontação. Tudo isso não só foi conseguido sem o governo, sem a classe política e os meios de comunicação que a acompanham, mas também resistindo a seus ataques de todos os tipos, Mais de uma vez, temos demonstrado que somos quem somos.
 
Com nosso silêncio nos fizemos presentes. Agora, com nossa palavra anunciamos que:
Primeiro. Reafirmaremos e consolidaremos nossa integração no Congresso Nacional Indígena, espaço de encontro com os povos originários do nosso país.
 
Segundo. Retomaremos o contato com nossos companheiros e companheiras aderentes da Sexta Declaração da Selva Lacandona no México e no mundo.
 
Terceiro. Tentaremos construir as pontes necessárias em direção aos movimentos sociais que têm surgido e surgirão, não para dirigir ou suplantar, e sim para aprender deles, de sua história, de seus caminhos e destinos. Para isso, temos conseguido o apoio de indivíduos e grupos em vários lugares do México, conformados como equipes de apoio das comissões Sexta e Internacional do EZLN, de modo que se transformem em correias de comunicação entre as bases de apoio zapatistas e os indivíduos, grupos e coletivos aderentes à Sexta Declaração no México e no mundo, que ainda mantêm sua convicção e compromisso com a construção de uma alternativa não institucional de esquerda.
 
Quarto. Continuará nossa distância crítica frente à classe política mexicana que, em seu conjunto, não fez nada mais do que prosperar às custas das necessidades e das esperanças do povo humilde e simples.
 
Quinto. Em relação aos maus governos federais, estaduais e municipais, executivos, legislativos e judiciários e dos meios de comunicação que os acompanham, dizemos quanto segue: Os maus governos de todo o âmbito político, sem nenhuma exceção, têm feito o possível para nos destruir, para nos comprar, para nos render. PRI, PAN, PRD, PVEM, PT, CC e o futuro partido de RN [Renovação Nacional] têm nos atacado militar, política, social e ideologicamente. Os grandes meios de comunicação tentaram nos fazer desaparecer, com a calúnia servil e oportunista antes, com o silêncio cúmplice depois. Aqueles aos quais serviram e de cujos dinheiros de amamentaram não estão mais aí. E aqueles que agora os substituem não durarão mais do que seus predecessores.
 
Como tem se tornado evidente em 21 de dezembro de 2012, todos têm fracassado. Resta então ao governo federal, executivo, legislativo e judiciário, decidir se reincide na política contra-insurrecional que tem conseguido só uma frágil simulação torpemente sustentada no manejo da mídia, ou se reconhece e cumpre seus compromissos elevando a nível constitucional os direitos e a cultura indígenas, assim como o estabelecem os chamados "Acordos de San Andrés", assinados pelo governo federal em 1996, então encabeçado pelo mesmo partido que agora está no executivo.
 
Ao governo estadual resta decidir se continua com a estratégia desonesta e ruim de seu predecessor que, além de corrupto e mentiroso, empregou dinheiros do povo de Chiapas no enriquecimento próprio e de seus cúmplices, e se dedicou à compra descarada de vozes e homenagens nos meios de comunicação, enquanto mergulhava o povo de Chiapas na miséria e ao mesmo tempo em que fazia uso de policiais e paramilitares para tratar de frear o avanço organizativo dos povos zapatistas; ou, em vez disso, com verdade e justiça, aceita e respeita nossa existência e se faz a idéia de que floresce uma nova forma de vida social em território zapatista, Chiapas, México.
 
Florescer que atrai a atenção de pessoas honestas em todo o planeta. Resta aos governos municipais decidir se continuam tragando as rodas de moinho com as quais as organizações antizapatistas ou supostamente "zapatistas" os extorquem para agredir nossas comunidades; ou, melhor, se usam esses dinheiros para melhorar as condições de vida de seus governados. Resta ao povo do México que se organiza em formas de luta eleitoral e resiste, decidir se continua vendo em nós os inimigos e rivais em quem descarregar sua frustração pelas fraudes e agressões que, afinal, todos sofremos, e se em sua luta pelo poder continuam se aliando com nossos perseguidores, ou, por fim, reconhecem em nós outra forma de fazer política.
 
Sexto. Nos próximos dias, o EZLN, através de suas comissões Sexta e Internacional, divulgará uma série de iniciativas, de caráter civil e pacífico, para continuar caminhando junto a outros povos originários do México e de todo o continente, e junto àqueles que, no México e no mundo inteiro, resistem e lutam embaixo e à esquerda. Irmãos e irmãs: Companheiros e companheiras: Antes, tivemos a boa ventura de uma atenção honesta e nobre de vários meios de comunicação. Então, os agradecemos por isso.
 
Mas isso foi completamente apagado com sua atitude posterior. Aqueles que apostaram que só existíamos na mídia e que, com o cerco de mentiras e silêncio, desapareceríamos, se equivocaram. Quando não havia câmaras, microfones, homenagens, ouvidos e olhares, existíamos. Quando nos caluniaram, existíamos. Quando nos silenciaram, existíamos. E aqui estamos, existindo. Nosso andar, como ficou demonstrado, não depende do impacto da mídia, e sim da compreensão do mundo e de suas partes, da sabedoria indígena que rege nossos passos, da decisão inquebrantável que dá a dignidade de baixo e à esquerda.
 
A partir de agora, nossa palavra começará a ser seletiva em seu destinatário e, salvo em determinadas ocasiões, só poderá ser compreendida por aqueles que têm caminhado e caminham conosco sem render-se às modas conjunturais e da mídia. Por aqui, com não poucos erros e muitas dificuldades, outra forma de fazer política já é realidade. Poucos, muito poucos, terão o privilégio de conhecê-la e aprender dela diretamente. Dezenove anos atrás, os surpreendemos tomando com fogo e sangue suas cidades. Agora fizemos isso de novo, sem armas, sem morte, sem destruição.
 
Assim, nos diferenciamos daqueles que, durante seus governos, distribuíram e distribuem morte entre seus governados. Somos os mesmos de 500 anos atrás, de 44 anos atrás, de 30 anos atrás, de 20 anos atrás, de apenas alguns dias atrás. Somos os zapatistas, os mais pequenos, os que vivem, lutam e morrem no último lugar da pátria, os que não claudicam, os que não se vendem, os que não se rendem.
 
Irmãos e irmãs: Companheiros e companheiras: Somos zapatistas, recebam nosso abraço. Democracia! Liberdade! Justiça! Das montanhas do Sudeste Mexicano. Pelo CCCRI-CG do Exército Zapatista de Libertação Nacional. Subcomandante Insurgente Marcos. México, Dezembro de 2012 - Janeiro de 2013.

21/12/2012

venezuela: o começo de uma nova etapa

Eric Nepomuceno, em carta maior 
Nas eleições regionais do domingo, 16 de dezembro, o Partido Socialista Unido da Venezuela, o PSUV do presidente Hugo Chávez, varreu o país: ganhou em 20 dos 23 estados. Entre os conquistados estão cinco que eram governados pela oposição. E, desses cinco, pelo menos dois têm sabor especial: Zulia, maior produtor de petróleo, e Carabobo, o terceiro mais populoso do país.

Já a oposição manteve o governo de Miranda, e essa foi uma vitória de importância capital: o vencedor, Henrique Capriles, o mesmo que foi amplamente derrotado por Hugo Chávez na recente disputa pela presidência, venceu Elias Jaua, que até outubro era o vice-presidente da República.

O resultado das eleições regionais é, de certa forma, bom para os dois lados. Para a oposição, porque manteve Capriles em evidência, reforçado por haver derrotado alguém muito chegado a Chávez. Depois de ter conseguido unir todos os oposicionistas ao redor de seu nome e obter uma votação significativa (cerca de 46%) em outubro, perder o governo de Miranda congelaria sua carreira. Com a vitória se confirma como principal nome oposicionista numa eventual nova eleição presidencial.

Para o PSUV de Chávez, o fato de conquistar 20 dos 23 governos em disputa reafirma sua consistente maioria no âmbito nacional, o que não deixa de ser uma sólida base para o inicio da nova e delicada etapa que se abre na Venezuela.

Qual nova etapa? A do desafio de manter a revolução bolivariana sem seu principal líder. Porque, a esta altura, está praticamente descartado que Hugo Chávez se recupere da cirurgia que fez em Cuba a tempo de assumir, no dia 10 de janeiro, seu quarto mandato presidencial. Só os especialmente otimistas ou os olimpicamente ingênuos acreditam nessa possibilidade.
Não foi à toa, e muito menos um gesto histriônico, o pedido de Chávez para que o povo bolivariano apoie Nicolás Maduro, nomeado seu sucessor.

É muito alta a possibilidade de que dentro de menos de dois meses os venezuelanos sejam novamente convocados às urnas para escolher seu presidente. Correm rumores de que se estaria procurando uma alternativa, como prorrogar o prazo para Chávez assumir. Ainda assim, convém se preparar para novas eleições.

Chávez, apesar de seu voluntarismo surpreendente e de sua ousadia muitas vezes desconcertante, é um político habilidoso e experiente. E, em momentos críticos, soube mostrar-se realista. Foi assim agora, quando exibiu friamente a realidade: são grandes a possibilidades de que ele não se recupere, ou não possa mais exercer plenamente a condução do processo político que inaugurou há treze anos. Um processo político tenso, que mudou a face do país e o cotidiano de milhões de venezuelanos e que certamente exige uma capacidade física que ele já não tem nem terá.

Admitiu com todas as letras que o que está em risco elevado é sua própria vida. Se voltar, não terá as condições de antes – mesmo considerando-se esse ‘antes’ como o último ano e meio, de extremos sacrifícios pessoais causados pelo câncer. Será um Chávez extremamente debilitado fisicamente: afinal, foram quatro operações prolongadas e complexas em pouco mais de dezoito meses.

O comandante da revolução bolivariana sabe disso, e deixou claro que a Venezuela começa a viver uma etapa de transição. Voltando ou não, o cenário será outro. Seu estado de saúde passou a ser um obstáculo quase intransponível para a condução do país.
Assim, de certa forma ele se despediu do poder. E essa despedida inaugura um período de profundas incertezas não só na Venezuela, mas em toda a América Latina.

Um aspecto merece atenção: a transição venezuelana está acontecendo muito antes do que se podia prever. Apesar de sua saúde debilitada, Chávez não demonstrava um estado tão grave como o que admitiu ao comunicar que iria se operar novamente e que por isso nomeava um sucessor. Sob muitos aspectos, é possível concluir que nem ele mesmo soubesse da sua verdadeira situação.

Diante desse quadro, as eleições do domingo 16 de dezembro foram um teste positivo para o processo político conduzido por Chávez até aqui. Conquistar 20 de 23 estados foi um passo importante. Miranda ficou onde estava, ou seja, com a oposição. Somados, o eleitorado de Zuila e Carabobo, agora em mãos chavistas, mais que dobra o do estado governado por Henrique Capriles. Além disso, em 12 desses 20 estados foram eleitos militares seguidores do comandante da revolução bolivariana.

Nicolas Maduro, se não sai muito fortalecido das eleições regionais – afinal, ele mal teve uma semana como presidente interino –, ao menos passou a pisar um terreno mais sólido para a disputa eleitoral que, a menos que ocorra um milagre, terá pela frente. Também no cenário externo ele conta com um apoio que tem reflexos nítidos entre os chavistas, principalmente nas Forças Armadas: é um interlocutor privilegiado dos cubanos. Raúl Castro manifestou ao presidente venezuelano, em mais de uma ocasião, sua simpatia pelo chanceler chavista. Isso talvez sirva para acalmar, no seu devido momento, os setores militares que preferiam ter um de seus pares nomeado sucessor de Chávez.

Já as muito diferentes e às vezes antagônicas correntes que integram o movimento bolivariano são mais difíceis de permanecer aglutinadas sem a figura centralizadora de Chávez. Seu sucessor, considerado negociador hábil, terá pela frente, em todo caso, um argumento importante e indiscutível: o país é, definitivamente, outro. A maioria da população foi beneficiada ao longo dos últimos 13 anos, e não aceitará facilmente pôr em risco suas conquistas, quer diante de uma oposição conservadora, quer diante de divisões internas dentro do próprio processo político atual.

18/09/2012

el seclanteño


dois vídeos com a mesma canção: acima o próprio pedro aznar interpreta el seclanteño.
abaixo, outra interpretação,  tendo ao fundo um pouco da paisagem da província
de salta, onde fica o município de seclantas, na argentina.

O seclantenho*
Pedro Aznar

firme como rocha
mastiga coca
e se ilumina
o seclantenho
caminha tranquilo
como o seu sonho

uma nuvem se abaixa
enquanto ele sobe
não tem pressa
o seclantenho
de pele escura
como o seu sonho

uma flor de areia
me fala de sua dor
sua dor de areia
não vale a pena
o verde vale
longe se perde
como o seu canto
o seclantenho
mastiga o seu pranto
como o seu sonho

baguala** e dor
adeus e areia
pelo caminho
o seclantenho
sem destino
como o seu sonho

*seclantenho: natural de Seclantás, norte da Argentina
**baguala:  música folclórica do noroeste da Argentina
    tradução livre: roberto soares

*********************
el seclanteño
Pedro Aznar

Cara de roca
Mastica coca
Y se ilumina
El seclanteño
Lento camina
Como su sueño

Baja una nube
Mientras él sube
No tiene apuro
El seclanteño
De pelo oscuro
Como su sueño

Zarcillo de arena
Contame la pena
Tu pena de arena
No vale la pena

El valle verde
Lejos se pierde
Como su canto
El seclanteño
Mastica el llanto
Como su sueño

Baguala y pena
Adiós y arena
Por el camino
El seclanteño
Sin un destino
Como su sueño

18/08/2012

américa do Sul: a hora de um novo ciclo

A incerteza mundial trouxe novas condicionalidades à agenda do desenvolvimento na América do Sul. Vive-se uma corrida contra o tempo. A crise legitimou o descolamento progressista anterior em relação ao torniquete dos mercados desregulados. Mas a travessia inconclusa enfrenta agora o icebergue das dificuldades trazidas pela implosão da ordem neoliberal. A volatilidade financeira e a retração do comércio externo cobram um novo pacto político de crescimento. Investimentos são requeridos para integrar infraestruturas e associar cadeias produtivas.

Está em jogo o gigantesco impulso industrializante representado pelo mercado de massa regional, cobiçado pelo mundo rico em crise. Com a adesão da Venezuela, o Mercosul passa a ser a quinta economia mundial; reúne uma população de 270 milhões de habitantes (70% da América do Sul); um PIB de US$ 3 trilhões (mais de 80% do PIB sul-americano). Até que ponto os países dispõem de coesão política e estrutura estatal para ordenar essa travessia sob a ótica do interesse público? O Brasil está apto a ser o guarda-chuva aglutinador do processo? A quem cabe a iniciativa do novo ciclo?

Na Argentina, a direita acusa Cristina Kirchner de rumar para um capitalismo de Estado que pretende determinar o que as empresas devem produzir, em que quantidade, a que preço e com que taxa de lucro. No Brasil, setores da esquerda criticam Dilma Rousseff por uma suposta guinada privatista: o pacote de infraestrutura anunciado esta semana, US$ 65 bi de obras em concessões ao setor privado, prescreve extamente onde investir, quanto, a que prazo e com que taxa de retorno (leia mais aqui) .

Tensões internas e geopolíticas vão se acirrar nas escolhas estratégicas colocadas na mesa dos governantes e das instâncias regionais de agora em diante. O relógio da crise não admite hesitações: é hora de um novo ciclo na história regional. (Leia o especial deste fim de semana: 'América do Sul: os rumos da Integração'; nesta pág.). carta maior, 17/08 

02/08/2012

Enfrentamentos reais e miragens conservadoras

transcrito de carta maior, 01/08

A adesão da Venezuela como membro pleno do Mercosul consolida no coração da América Latina uma referência de recorte progressista como talvez nunca tenha existido na região, com a abrangência institucional e o fôlego econômico intrínseco ao bloco agora liderado por Dilma Rousseff, Cristina Kirchner, Pepe Mujica e Chávez.

Cuba certamente exerceu um magnetismo ideológico superior ao desse quarteto nos anos 60, mas esse ardor não se traduziu em uma organização duradoura com o alcance potencial que o Mercosul desfruta e deve ampliar, graças à incorporação do detentor da maior reserva de petróleo cru do mundo (a Venezuela tem 296,5 bilhões de barris, seguida da Arábia Saudita,com 264,5 bilhões de barris).

Trata-se de mais um enfrentamento no qual os interesses conservadores, muito bem refletidos no bombardeio midiático contrário a essa inclusão, foram habilidosamente derrotados . Não é um revés em torno de uma questiúncula pontual. Os que hoje, como há uma década, sopram o interdito à presença venezuelana, são os mesmos que, paralelamente, defenderam à exaustão a ALCA, como alternativa a uma inserção global do continente assumidamente subordinada e dependente do gigantesco mercado norte-americano. Foram derrotados.

Há pouco, no golpe contra Lugo, encrespado com a suspensão dos golpistas no âmbito do Mercosul, o jornal 'Estadão' destilou a nostalgia da velha agenda. Em editorial efervescente aconselhou a direita paraguaia a responder à punição jogando-se nos braços dos EUA, de modo a consumar, pelo menos, mais uma mini-Alca regional, expressão cunhada pelo embaixador Samuel Pinheiro Guimarães, em coluna recente em Carta Maior.

A opção de desenvolvimento regional integrado e soberano , reafirmada pela Cúpula de Brasília do Mercosul, insere-se assim numa espiral de enfrentamentos em que o guarda-chuva maior do conservadorismo verga sob o peso da dissolução da ordem neoliberal. É nesse esquina de derrotas históricas apreciáveis que a seção brasileira perfila armas e concentra tropas para fazer do julgamento do chamado mensalão uma espécie de 3º turno simbólico de sua anemia política.

O julgamento que começa nesta 5ª feira oferece-se como um raro campo em que a relação de forças aparenta ser-lhes favorável. Mídia e judiciário conjugam-se como donos de um espetáculo em que 38 réus, entre eles algumas das maiores lideranças do PT, 50 mil páginas processuais e 600 testemunhas ouvidas serão esmiuçadas e reiteradas em 15 sessões, somando-se um total de 90 horas de julgamento, a ocupar os holofotes noticiosos ao longo de todo o mês de agosto e 1ª quinzena de setembro.

Não se subestime o poder de fogo dessa parafernália. Mas não se perca o pano de fundo sobre a qual ela se dá. O conservadorismo aferra-se à batalha do dia anterior na esperança de apagar do imaginário social a percepção de que seus interesses e credo são parte de um mundo que ruiu. A ver.

26/06/2012

comédia ou drama para o povo paraguaio?

E os fascistas das elites paraguais venceram a primeira batalha contra o povo, através da deposição, pelos seus senadores fantoches, pura e simples do presidente Fernando Lugo, baseados  em argumentos inconsistentes e descaradamente  oportunistas.
Se não fosse dramático e humilhante para a soberania do povo paraguaio, seria risível, grotesco, ver os desprezíveis parlamentares votando pela deposição, mas distantes do povo, protegidos por tanques de guerra e agentes da repressão.

Por esse inaceitável isolamento do povo, nota-se o tão alto grau de representatividade popular que têm esses cretinos membros do parlamento paraguaio! 
Mas, apesar de todo o aparato repressivo e midiático, o episódio tem tudo para se tornar tão risível quanto o foi a tentativa de golpe na Venezuela há exatos dez anos atrás, desnudando o seu caráter de  farsa institucional-burguesa.
Parlasul deve seguir decisão do Mercosul

Afinal, os golpistas paraguaios já estão sendo isolados e acuados pelos governos parceiros do Mercosul e da Unasul,  numa atuação firme e coerente, que, aliás, é o mínimo que se espera dos governos progressistas da América Latina.
E, além da pressão internacional, começam a ser articuladas as resistências internas ao golpistas:
Fernando Lugo anuncia resistência
Paraguai: resistência ao golpe ganha página na internet

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Esse episódio do Paraguai serve para refletir sobre  as exigências de radicalidade que os movimentos populares podem e devem fazer aos governos progressistas da América Latina.
Refletir sobre o difícil equilíbrio que deve ser preservado, entre radicalidade e governabilidade, entre projetos e ações autenticamente de esquerda e os posturas moderadas ou conciliatórias dos governos progresssistas.
Com o golpe do Paraguai, fica mais uma vez evidente que os fascistas estão à espreita, aguardando oportunidades para se lançar à retomada (seja através de desestabilizações, eleições ou golpes miliatres/institucionais) dos governos arduamente conquistados por progressistas, mais ou menos contundentes nos seus enfrentamentos com a ordem capitalsitas. 
E, claro, os fascistas só tem a agradecer quando explodem divisões e confrontos incontornáveis entre movimentos autenticamente populares e governos progressistas, moderados.
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O que não quer dizer que, em nome da governabilidade e em nome do acúmulo de forças - visando a transformações mais radicais da ordem burguesa - a luta popular tenha que se tornar refém de conciliações excessivas, desnecessárias e, em consequência, deslegitimadoras dos governos progresssitas, e dos movimentos populares que os apóiam.
Como no caso do PT, no Brasil, com sua espantosa concordância em relação às iniciativas de Lula em eleger Fernando Haddad em São Paulo, a qualquer custo, até mesmo ao custo de uma ressurreiçaõ do cadáver político de Paulo Maluf.
Qual o limite, afinal, que o PT impõe a si próprio, no seu projeto de,  supostamente, construir  a hegemomnia popular no Brasil? 
Iniciativas como a  de Lula precisam ser realmente toleradas? O PT não conhece mais a sua própria força e sua própria história, para entender que pode impor, na aliança com o PP, a condição inegociável de não se abrir espaços excessivos para o cadáver polítco de Paulo Maluf?
Que pelo alguém no PT tenha a coragem, e  o cacife político necessário, para conseguir alertar Lula, para ele não manchar de forma tão ingênua e desnecessária a sua respeitável biografia.
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Enfim,  as elites e os fascistas do Paraguai - através de seus parlamentares golpistas e fantoches - poderão estar prestes a fazer um papel tão risível quanto os seus congêneres da Venezuela, em 2002. Que tudo termine realmente em comédia, que não seja mais uma nova tragédia para o povo do Paraguai.




21/06/2012

os fascistas se articulam

Na Venezuela e no Equador os golpistas a serviço das elites foram barrados pela reação popular e pelas pressões dos governos progressistas da região.
Em Honduras os fascistas e golpistas venceram e desalojaram do poder Manuel Zelaya, presidente legitimamnete eleito pelo voto popular.
Agora, é contra o povo e o governo do Paraguai a nova  tentativa de golpe branco, mascarado de institicionalidade. 
Embora pareça inócua, a ampla divulgação das reais causas da tentativa de impeachment de Fernando Lugo pode contribuir, e muito, para deter essa iniciativa dos fascistas, que estão sempre à espreita na América Latina.

Lugo sob ameaça de golpe no Paraguai
Gilberto Maringoni, em carta maior
 
A Câmara paraguaia, dominado pelos partidos de direita, abriu processo de impeachment nesta quinta-feira (21) contra o presidente Fernando Lugo. Senado agora também discutirá a medida. Trata-se de um eufemismo para golpe de Estado, segundo analistas consultados por Carta Maior.

Não é a primeira vez que setores dos grandes proprietários de terra aliados de setores empresariais tentam interromper a vida democrática do país vizinho. À diferença de outras situações ao longo do século XX é que a ação atual recobre-se de uma fachada legal.
 
O pretexto é que Lugo teria sido negligente na resolução de conflitos agrários, como o ocorrido há uma semana em Curuguaty, próximo a fronteira com o Brasil. Na ocasião morreram nove camponses e seis policiais.

Por "negligência" entenda-se as tentativas do mandatário de resolver os problemas com negociação e não através de violência pura que caracteriza historicamente a resolução de conflitos sociais no país.

Os presidentes da Unasul, reunidos no Rio de Janeiro, colocam-se frontalmente contra o golpe. A situação em Assunção é de calma aparente. Manifestações populares de apoio começam a acontecer na capital. Em pronunciamento feito nesta manhã e transmitido pela tevê paraguaia, Lugo descartou a possibilidade de renúncia.

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Na segunda-feira, 18, Carta Maior já antecipava essa tentativa de golpe: Latifundiários brasiguaios querem derrubar Lugo"

Leia também:  Legalização de um golpe

22/04/2012

venezuela, argentina, brasil, colômbia: viva a luta de latinoamérica

Neste mês de abril a luta popular latinoamericana relembra os dez anos da humilhante derrota imposta pelo povo venezuelano aos golpistas que, em abril de 2002, tentaram depor o comandante popular - e presidente legitimamente eleito - Hugo Chávez, tentativa golpista que, ao final, se revelou uma inciativa grotesta e risível - embora com a arrogância e brutalidade sempre).
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E como se fosse um presente, uma celebração dessa vitória não apenas do povo venezuelano, mas de toda a luta popular da latinoamérica, eis que agora a corajosa presidenta Cristina, da Argentina, impõe outra derrota ao capital espoliador, representado dessa feita pela petrolífera espanhola Repsol.
A batalha ainda está se desenrolando, com as costumeiras ameaças de retaliação econômica e política por parte dos países ricos.

Mas, com certeza, serão desmentidos os prognósticos pessimistas e os alertas ameaçadores, feitos por analistas, jornalistas globais não globais, intelectuais e acadêmicos presunçosos e seduzidos pelo capital. Da mesma forma como foram desmentidos os mesmos alertas e prognósticos, feitos pelos mesmos personagens - os mesmos papagaios do capital e d aordem dominate - quando da reestrução da dívida argentina, feito pelo outro Kirchner, o Nestor.
Hoje, esses mesmos papagaios se calam, quando falam daquela moratória, já que têm que engolir o crescimento e a recuperação da Argentina, em função exatamente de sua atitude digna e corajosa ao caminhar na contramão do neoliberalismo, ao promover um enfrentamento solitário contra a arrogância e a desumanidade dos mercados financeiros.
(de novo, os papagaios)
(e para  aluta popular planetária, claro)
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Em várias situações os dois últimos governos peronistas da Argentina fizeram enfrentamentos mais contundentes do que os três governos petistas no Brasil. Iniciaram o processo de democratização da mídia , com a aprovação da Lei de Meios; na área dos direitos humanos, e do resgate da memória nacional, têm feito valer posições mais contundentes de investigação dos crimes dos gorilas da ditadura (1976-1983); e, agora, com o resgate da YPF, mais uma vez enfrentam as adversidades e as poderosas pressões dos países ricos, ao colocar em primeiro lugar a soberania nacional e as necesidades econômicas do país, desafiando os mantras e dogmas do neoliberalismo, questionando a legitimidade de uma privatização que, mesmo que correta em termos de comércio e de direito internacional, não o é em termos de dignidade e de soberania para o povo argentino.

Bem que este terceiro governo do PT poderia ir pelo mesmo caminho e fazer algum enfrentamento mais contundente com as estruturas econômicas do capitalismo. Um bom começo seria rever o fraudulento processo de privatização da VALE DO RIO DOCE – há uns anos atrás, mudaram até o nome, tiraram o RIO DOCE, para apagar da memória nacional suas origens brasileira, e mineira, para fazer esquecer que uma das maiores empresas de mineração do mundo foi construída com os esforços e com a competência do povo de um país da periferia do capitalismo.

E assim também foi construída uma das maiores empresas de petróleo do mundo, a PETROBRÁS. Aliás, todo mundo se lembra de como o governo FHC tentou vender a PETROBRÁS, iniciando o seu processo de desmonte exatamente pela grotesca tentativa de mudança de nome – queriam mudar para PETROBRAX: risível.
E ainda tem gente que - na sua eterna e imbecilizada submissão aos símbolos e valores dos antigos colonizadores - acha que essas usurpações significam modernidade...

De qualquer forma é preciso reconhecer alguns avanços- simbólicos ou concretos – do governo Dilma: já nos primeiros meses de governo, numa demonstração de soberania e de solidariedade com o povo argentino, simplesmente proibiu que aviões da Inglaterra, com destino às Malvinas, pousassem em solo brasileiro. Têm feito esforços , ou ao menos não têm colocado obstáculos, para a implantação da Comissão da Verdade, que irá apurar os crimes da ditadura dos gorilas brasileiros. E, recentemente, têm iniciado um processo de enfrentamento com os grandes bancos, com o objetivo de abaixar os CRIMINOSOS juros cobrados dos trabalhadores. Esse enfrentamento contra essa BANDIDAGEM FINANCEIRA já deveria estar acontecendo desde o governo Lula, mas antes tarde do nunca.

Falta, ainda, o governo Dilma saldar uma outra dívida dos governos petistas para com o país: a democratização dos meios de comunicação, através de um marco regulatório que se arrasta há anos, com os governos petistass paralisados e assustados pelo poder fascista, manipulador e golpista dos grandes grupos de comunicação.
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imagem extraída mensagem
de ano novo das farc, citada abaixo

E já que estamos falando de resgates da soberania na América Latina,  a direita do mundo inteiro mais uma vez decretou o fim do levante do povo colombiano, representado pelo exército popular das FARC, que já resistindo por décadas na Colômbia, como sempre faz, quando um de seus líderes da guerrilha é morto ou capturado, ou quando o exército colombiano, assessorado pelos americanos, ganha uma ou outra batalha contra os insurgentes.

Dessa vez o motivo de celebração foi o recente comunicado das FARC, anunciando que não iria mais realizar sequestros como forma de financimanto de suas atividades de guerrilha. De forma alguma, a mídia reconhece que esse foi mais um dos inúmeros esforços dos insurgentes das FARC, para iniciarem um processo de diálogo e de conversações para por fim aos combates aramdos, mas uma apaz que atenda à dignidade do povo colombiano, uma paz que traga consigo a condição fundamental de uma efetiva e popular democratização das estruturas sociais e econômicas da Colômbia. O que a mídia, os EUA e as froças dominantes da Colômia querem (ou sonham com) é pura e simplesmente uma rendição incondicional dos representantes do levante popular na Colômbia. Nada de discutir mudanças estruturais no país, nada de levar a sérioo projeto político proposto pelas FARC.

Simplesmente desqualificam ou ignoram esse projeto, manipulam deturpam a realidade, impondo à sociedade colombiana e ao mundo a visão de que as FARC são apenas um bando de guerrilheiros que se se aproveitam de uma mensagem política para dominarem áreas da Colômbia junto com os narcotraficantes.

Nesse sentido, é importante conhecer e divulgar qual é de fato o projeto das FARC. O tema da guerrilha do povo colombiano é complexo e tem uma longa história, não pode ser simplificado com receitas fáceis.

Assim, seguem a abaixo alguns textos divulgados há algum tempo, pelo comando do movimento insurgente colombiano. Mesmo que movido por uma legítima resistência ideológica ou ética, ou movido por pura má vontade e doutrinação política, o leitor honesto há de reconhecera a coerência e a seriedade que emana dos textos. Reconhecer que se trata de um movimento comprometido com uma longa história de resistência e de esperança na transformação, mesmo que ao custo de um levante armado. E, assim, ao menos recusar a interpretação difundida e manipulada pela mídia, de que se trata apenas de narcotraficantes travestidos de guerrilheiros, ou de revolucionários retrógrados, perdidos na história.

(mensagem de ano novo)
(para os que se orientam somente pela grande mídia: até  fsp já trata as farc com seriedade)
(por ocasião da morte de um comandante da guerrilha, no final do ano passado)

12/03/2012

volver a los 17

um pouco de memória, resgatando esse clássico  de nuestra américa, neste admirável encontro entre a doce guerreira argentina  mercedes sosa milton,  o menestrel maior das minas gerais.

um pouco mais desse encontro entre minas e a latinoamérica, extraído do wikipedia (destaques meus):
"Habitualmente de costas para a música de “nuestros hermanos” latino-americanos, o Brasil começou a despertar para a riqueza da voz de Mercedes Sosa em 1976, após um dueto da cantora argentina com Milton Nascimento. A faixa “Volver a los 17″, da compositora chilena Violeta Parra - de quem Mercedes foi uma das principais intérpretes -, virou um dos maiores destaques do hoje clássico álbum “Geraes”. A partir daí, a barreira da língua não mais impediu que brasileiros se apaixonassem pelo marcante timbre de contralto de Mercedes Sosa e por seu repertório, que incluía desde canções folclóricas a músicas de conteúdo político e social.
"
e pensar que o fantástico da rede bobo já ofereceu magias assim ao seu público, em pleno domingo à noite.
depois do vídeo,  a letra da música, em espanhol e português. lembrando que a autora da música é a chilena  violeta parra e não mercedes sosa.

Volver a los diecisiete después de vivir un siglo
Es como descifrar signos sin ser sabio competente,
Volver a ser de repente tan frágil como un segundo
Volver a sentir profundo como un niño frente a dios
Eso es lo que siento yo en este instante fecundo.

Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Como el musguito en la piedra, ay si, si, si.

Mi paso retrocedido cuando el de usted es avance
El arca de las alianzas ha penetrado en mi nido
Con todo su colorido se ha paseado por mis venas
Y hasta la dura cadena con que nos ata el destino
Es como un diamante fino que alumbra mi alma serena.

Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Como el musguito en la piedra, ay si, si, si.

Lo que puede el sentimiento no lo ha podido el saber
Ni el más claro proceder, ni el más ancho pensamiento
Todo lo cambia al momento cual mago condescendiente
Nos aleja dulcemente de rencores y violencias
Solo el amor con su ciencia nos vuelve tan inocentes.

Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Como el musguito en la piedra, ay si, si, si.

El amor es torbellino de pureza original
Hasta el feroz animal susurra su dulce trino
Detiene a los peregrinos, libera a los prisioneros,
El amor con sus esmeros al viejo lo vuelve niño
Y al malo sólo el cariño lo vuelve puro y sincero.

Se va enredando, enredando
Como en el muro la hiedra
Y va brotando, brotando
Como el musguito en la piedra
Como el musguito en la piedra, ay si, si, si.

De par en par la ventana se abrió como por encanto
Entró el amor con su manto como una tibia mañana
Al son de su bella diana hizo brotar el jazmín
Volando cual serafín al cielo le puso aretes
Mis años en diecisiete los convirtió el querubín.

(violeta parra - chile)

*****************************************

Voltar aos dezessete depois de ter vivido um século
É como decifrar sinais sem ser sábio competente
Voltar a ser de repente tão fragil como um segundo
Voltar a um sentir profundoe como uma criança ante Deus
Isso é o que sinto eu neste instante fecundo

Vai se envolvendo, envolvendo
Como no muro a hera
E vai brotando, brotando
Como o musgo na pedra
Como o musgo na pedra, ai sim, sim, sim.

Meu passo retrocede quando o teu avança
A arca das alianças penetrou em meu ninho
Com todo seu colorido tem passeado por minhas veias
E até a dura cadeia com que nos prende o destino
Como um diamante fino que ilumina minha alma serena

Vai se envolvendo, se envolvendo
Como no muro a hera
E vai brotando, brotando
Como o musgo na pedra
Como o musgo na pedra, ai sim, sim, sim.

O que pode o sentimento, não tem conseguido o saber
Nem o mais claro proceder, nem o maior pensamento
Tudo o muda no momento qual mago condescendente
Nos afasta docemente de rancores e violências
Só o amor com sua ciência nos torna tão inocentes

Vai se envolvendo, envolvendo
Como no muro a hera
E vai brotando, brotando
Como o musgo na pedra
Como o musgo na pedra, ai sim, sim, sim.

O amor é um torvelinho de pureza original
Até o mais feroz aminal sussura seu doce trinar
Detém os pergerinos, liberta os prisioneiros
O amor com seus esforços ao velho torna criança
E ao mau só o carinho lhe faz puro e sincero

De par en par la ventana se abrió como por encanto
Entró el amor con su manto como una tibia mañana
Al son de su bella diana hizo brotar el jazmín
Volando cual serafín al cielo le puso aretes
Mis años en diecisiete los convirtió el querubín.

Vai se envolvendo, envolvendo
Como no muro a hera
E vai brotando, brotando
Como o musgo na pedra
Como o musgo na pedra, ai sim, sim, sim.

De par em par a janela se abriu como por encanto
Entrou o amor com seu manto como uma frágil manhã
Ao som de sua bela alvorada fez brotar o jasmim
Voando que nem serafim ao céu lhe pôs brincos
Meus anos em  dezessete os converteu o querubim

tradução: roberto soares

22/06/2011

videO: me gustan los estudiantes

por indicação do poeta e dramaturgo wilson coelho, segue essa belíssima canção de mercedes sosa, na voz de violeta parra. vem bem a propósito, nestes tempos de benfazejo e guerreiro retorno dos estudantes e trabalhadores às praças e ruas do espírito santo, do brasil, da europa,  da áfrica e até dos estados unidos, mostrando que a nova geração não foi totalmente capturada por assépticos e plastificados  shoppings, por idiotizantes bate-papos virtuais e redes sociais e pela frenética sedução de bugigangas eletrônicas.

13/01/2011

vídeo: mercedes sosa - razón de vivir

Mais um magnífico momento da cultura de nossa latinoamárica: Mercedes Sosa interpretando, junto com  León Gieco e Victor Heredia, a tocante e poética canção de autoria desse último. Não resisiti e fiz uma tradução livre da letra original, tomando algumas liberdades com o fito de reforçar  a sua poesia.

Como é gratificante lembrarmo-nos da existência de momentos assim, nesses tempos de atentados fascistóides, de lastimáveis e nauseantes BBBs e de patéticos endeusamentos aos ronaldinhos da vida.

Mas um dia esse valoroso povo de latinoamérica e de todo o planeta  há de se reencontrar, e se livrar das garras dessa venenosa e desumanizada sociedade de controle, essa  decrépita mas eficientíssima tábua de salvação do decadente sistema capitalista.



razão de viver
victor heredia
(tradução livre: roberto soares)

Para decidir se eu sigo colocando
Este sangue em terra
Este coração que bate seu remendo
de sol e trevas.

Para continuar andando ao sol
Por esses desertos
Para lembrar que estou vivo
No meio de tantos mortos

Para decidir
Para continuar
Para lembrar
Eu só preciso de você aqui
Com seus claros olhos

Ai! fogueira de amor e mestre
Razão de viver de minha vida

Para aliviar o pesado fardo
desses nossos dias
Essa solidão que todos somos
Ilhas perdidas

Para perder esse sentimento
De te perder todo
Para procurar por onde seguir
E escolher o caminho

Para aliviar
Para perder
Para procurar e escolher
Eu só preciso de você aqui
Com seus claros olhos

Ai! Fogueira de amor e mestre
Razão de viver a minha vida

Para combinar a beleza e a luz
Sem perder a lucidez
Para estar contigo sem perder o anjo
Da nostalgia

Para descobrir que a vida vai
Sem nos pedir nada
E compreender que tudo é lindo
E não custa nada

Para combinar
Para estar com você
Para descobrir e compreender
Eu só preciso de você aqui
Com seus claros olhos

Ai! Fogueira de amor e mestre
Razão de viver a minha vida


razón de vivir
victor heredia

Para decidir si sigo poniendo
Esta sangre en tierra
Este corazon que bate su parche
Sol y tinieblas.

Para continuar caminando al sol
Por estos desiertos
Para recalcar que estoy vivo
En medio de tantos muertos

Para decidir
Para continuar
Para recalcar y considerar
Solo me hace falta que estes aqui
Con tus ojos claros

Ay! fogata de amor y guia
Razon de vivir mi vida
Para aligerar este duro peso
De nuestros dias
Esta soledad que llevamos todos
Islas perdidas

Para descartar esta sensacion
De perderlo todo
Para analizar por donde seguir
Y elegir el modo

Para aligerar
Para descartar
Para analizar y considerar
Solo me hace falta que estes aqui
Con tus ojos claros

Ay! fogata de amor y guia
Razon de vivir mi vida

Para combinar lo bello y la luz
Sin perder distancia
Para estar con vos sin perder el angel
De la nostalgia

Para descubrir que la vida va
Sin pedirnos nada
Y considerar que todo es hermoso
Y no cuesta nada

Para combinar
Para estar con vos
Para descubrir y considerar
Solo me hace falta que estes aqui
Con tus ojos claros.

Ay! fogata de amor y guia
Razon de vivir mi vida.

06/05/2010

vídeos - llanto del olvido e américa 4


Duas canções da Latinoamérica



É uma bela canção, que fala de perdas e da fatalidade da morte, e também de exílio e distância, de solidão e remorso.

Disseram-me que a letra remete à dura e solitária trajetória de um filho que emigra em busca da sobrevivência, da conquista de seu próprio espaço ou da simples aventura de lançar-se no mundo, e que depois retorna à terra natal, atrás de um impossível reencontro com a mãe que já não vive mais.

É uma comovente amostra da densidade e profundidade típicas das letras e melodias que fazem a diferença da cultura andina.

****************

O outro vídeo retrata é uma apresentação do Grupo América 4.
O América 4 tem pesquisado muito o Floclore no ES, e dessa trajetória brotou a  integração dos Tambores de Congo com os instrumentos Andinos, buscando uma resistência cultural.



Tobi Gil (Bolivia), Zamponha, Quena e Voz
César Rebechi (Argentina) - Guitarra, Violão, Charango e voz
Rogerio Pardal (Brasil) - Baixo
Marcos Coelho (Brasil) - Bateria

CD Tambores de Congo - 1998, gravado na Barra do Jucu, em Vila Velha, ES.
Produção independente.

28/02/2010

américa latina: lúcida e ousada... (I)

... e colorida como sempre

Num encontro de cúpula, ocorrido agora em fevereiro, no México, os países da América Latina e do Caribe aprovaram a criação de um novo bloco regional, sem a participação dos Estados Unidos e do Canadá. O nome provisório da organização é Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos. Ressalte-se que a decisão se deu por unanimidade, com aprovação dos chefes de governo e ministros de todos os 32 países presentes ao Encontro.

A iniciativa é de uma ousadia histórica e extremamente oportuna. Não se trata de exercitar aqui um antiamericanismo estéril e supostamente ultrapassado.Pois o fato é que as ações do governo Obama, na política externa, caminham com segurança na direção da manutenção e ampliação do domínio militar dos Estados Unidos sobre o resto do mundo.

Aumento do número de tropas no Afeganistão, ampliação para o Paquistão da chamada “guerra contra o terror” e preparação da opinião pública mundial para uma eventual invasão do Irã. Analistas atentos vêem nessas ações uma estratégia para ‘cercar’ militarmente cada vez mais a Rússia e principalmente a China.
Ou seja, o governo americano já teria optado pelo confronto militar em grandes proporções, como forma de evitar a todo custo o seu inevitável declínio no âmbito da economia, da política e da cultura.

Os governantes e as elites dos EUA não estariam aceitando a clamorosa mudança pela qual o mundo vem passando, em direção a uma pluralidade de poder, com mais países, ou blocos de países, tendo condições econômicas e políticas de decidir os destinos de seus povos, e da própria humanidade. Os EUA não estariam prontos para renunciar ao seu arrogante e implacável, doentio e assassino papel de império mundial, de única superpotência do mundo, para se contentar em ser apenas uma entre dez ou mais potências mundiais.
Enfim, a conhecida e perigosa situação de uma fera agonizante, que esperneia para todos os lados, atacando e ferindo a todos que estiverem muito próximos, antes de se aquietar, de ser dominada.
O terrível é que, no caso, a fera americana possui uma apavorante capacidade destrutiva, todos os povos do mundo estão ao seu alcance, ‘muito próximos’ da fera e, além disso, toda essa capacidade de destruição está sob o controle de indivíduos e grupos de poder que nunca puderam descobrir outros sentidos para a existência que não fossem o poder, a destruição, o domínio sobre as pessoas, sobre os povos e sobre o próprio planeta.

No momento oportuno, publicaremos alguns textos que procuram demonstrar como essa opção pelo caminho militar já está claramente desenhada nas ações do governo Obama.
Por ora, fiquemos no âmbito da nossa pátria América Latina: instalação de bases militares na Colômbia e no Paraguai, apoio clandestino ao golpe em Honduras, reativação da IV Frota no Atlântico Sul, ocupação militar do Haiti e militarização da região das Malvinas pela aliada Inglaterra.
São todas ações decididas, rápidas, como se estivessem seguindo de fato um cronograma já traçado pelos núcleos de decisão do governo americano. São ações que parecem ter como objetivo transformar o continente num território potencialmente explosivo - uma das ações mais visíveis de provocação e de tentativa de instauração da discórdia entre os povos da região vem se dando através da criação de uma atmosfera de tensão entre os povos da Colômbia e da Venezuela.
Afinal, quem mais teria a perder com conflitos armados na região seriam os governos democráticos e populares - que pela primeira vez na história são maioria na região - que vêm implementando as condições para as transformações profundas neste sofrido e espoliado continente latino. E é óbvio que essas transformações não interessam às elites desses países e muito menos ao poder imperial das elites americanas.
Na postagem abaixo, seguem os endereços de alguns textos, para quem quiser refletir melhor sobre essas questões e extrair suas próprias conclusões.

américa latina: lúcida e ousada... (II)


A IV Frota em ação: um porta-aviões chamado Haiti
Aqui o autor mostra como o terremoto no Haiti foi extremamente interessante para os interesses geopolíticos americanos, dando aos EUA a oportunidade de - com uma rapidez suspeita de tão impressionante e precisa - deslocar mais de dez mil soldados para o país devastado, promovendo uma verdadeira ocupação militar de portos e aeroportos sob pretexto de ajuda humanitária. Esses milhares de soldados com certeza estarão mais próximos do cenário de um eventual conflito entre Venezuela e Colômbia.

O xadrez mundial do petróleo: Brasil
Exaustivo e instrutivo texto de um professor , Numa análise séria e com dados convinncentes, sem viés ideológico, o texto nos torna mais lúcidos acerca da intensidade das mudanças que estão a ocorrer na América Latina e, em especial com relação ao Brasil, e como essas novas situações de poder – principalmente na questão da energia e das democracias populares estão a incomodar o poder imperial americano e suas forças auxiliares, as elites regionais da América Latina.

Malvinas: colonialismo e soberania
Breve texto de Gilson caroni, a alertar que a questão das Ilhas Malvinas interessa a todos os povos da América Latina e não apenas ao povo argentino. Junte-se a inciativa britânica - de enviar considerável força militar para o sul de nosso continente - com a reativação da IV Frota dos EUA e certamente teremos que que nos perguntar se mais uma vez os ingleses estariam cumprindo o seu papel de lacaios dos EUA, numa eventual militarização do Atlântico Sul que, não por coincidência, é onde estão as fabulosas reservas do petróleo brasileiro na camada de pré-sal.

A politica da administração Obama ameaça a humanidade
No endereço abaixo uma análise de como a opção dos EUA pela militarização e pela guerra se espalha pelo mundo afora. Oportunamente indicaremos outros textos acerca da estratégia americana no arco geográfico que engloba o Afeganistão, o Paquistão, o iraque e o Irã.
**********************************
A matéria abaixo foi transcrita na íntegra da site da Folha Online, publicada no dia 23 de dfeevreiro, e aborda com competência e concisão a iniciativa da criação da Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos.
E como é apenas uma matéria informativa, sem viés ideológico, não é preciso que o leitor tenha receios ou torça o nariz, pelo fato de ter sido extraída de um dos muitos veículos de comunicação que temem e combate ma consolidação de uma democracia real e popular no nossso país.
"Os países de América Latina e Caribe aprovaram nesta terça-feira, em cúpula regional no México, a criação de um novo bloco regional, sem os Estados Unidos e o Canadá. Os estatutos da Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos serão definidos apenas em 2011, em reunião em Caracas (Venezuela), anunciou o presidente do México, Felipe Calderón.

O grupo, considerado uma versão B da OEA (Organização dos Estados Americanos), "deverá, prioritariamente, impulsionar a integração regional com o objetivo de promover nosso desenvolvimento sustentável, de impulsionar a agenda regional em fóruns globais, e de ter um posicionamento melhor frente aos acontecimentos relevantes mundiais", disse Calderón ao ler parte da declaração final.
Calderón inclui ainda na lista de tarefas do novo grupo defender os direitos humanos e a democracia e ampliar a cooperação entre a América Latina e os países do Caribe.
A criação do novo bloco "é de transcendência histórica", completou o presidente cubano, Raúl Castro, durante a sua participação na Calc (Cúpula da Unidade da América Latina e Caribe). "Cuba considera que estão dadas as condições para se avançar com rapidez na constituição de uma organização regional puramente latino-americana e caribenha".
O grupo foi criado para que a região tenha uma voz uníssona nos fóruns multilaterais. O maior apoio à iniciativa vem dos presidentes de esquerda da região, como o venezuelano Hugo Chávez e o boliviano Evo Morales, que defendem o novo organismo como uma opção ao "imperialismo" dos Estados Unidos.
A ideia é que o novo organismo reúna o Grupo do Rio e a Comunidade do Caribe (Caricom), funcionando paralelamente à OEA, criticada no seu papel de guardiã da democracia regional depois dos seus infrutíferos esforços para reverter o golpe de Estado de junho em Honduras.
Aos olhos dos especialistas, a OEA não conseguiu por completo integrar uma região dividida entre esquerda e direita. Cuba se nega a reintegrar o organismo, depois de uma suspensão de quase meio século por pressões dos EUA.
EUA
Antes da criação do novo grupo regional, autoridades americanas minimizaram os efeitos da Comunidade na OEA.
O secretário geral da OEA, José Miguel Insulza, afirmou em entrevista à rede americana CNN nesta terça-feira que o novo bloco não competiria com a organização. "Não vejo assim. Se trata mais de caminhar e estimular a integração. A OEA tem um papel importante a desempenhar em coisas de caráter hemisférico", declarou Insulza.
Na véspera, o número um da diplomacia americana para a América Latina, Arturo Valenzuela, e o embaixador americano no Brasil, Thomas Shannon, utilizaram mesmo tom.
Valenzuela disse nesta segunda-feira que o projeto de criação de um bloco que não tenha participação dos Estados Unidos não incomoda e descartou que esse eventual novo bloco de 32 países suplante a OEA.
Já Shannon disse, durante encontro na Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), que nada pode substituir a OEA. "OEA é OEA, um espaço sumamente importante para que todos os países do hemisfério possam ter um diálogo político. Esta importância só vai aumentar com o tempo. A capacidade das Américas, diferentes Américas, Caribe, América Central, América do Sul, de dialogar é uma coisa boa e vamos apoiar."
Burocracia
Um total de 25 chefes de Estado e de governo participam da cúpula, com sete chanceleres. Honduras, que estava na lista de 33 países que deveriam participar do encontro, foi excluído por estar suspenso da OEA (Organização dos Estados Americanos) desde o golpe de Estado de junho de 2009 que tirou Manuel Zelaya do poder.
Segundo o presidente mexicano, o nome Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos ainda não é definitivo e deve ser definido ao longo do processo de constituição que começou nesta terça-feira e deve culminar com as reuniões na Venezuela, em 2011, e no Chile, em 2012.
"Me parece que, como disse Raúl Castro, que o nome não tem que ser o primordial", disse Calderón, ao afirmar que nos próximos encontros da Calc e do Grupo do Rio talvez surja uma opção definitiva.
Calderón explicou ainda que, enquanto os trâmites para a criação não sejam concluídos, a Calc e o Grupo do Rio manterão suas agendas, métodos de trabalho, práticas e procedimentos "a fim de assegurar o cumprimento de seus mandatos". "
(publicado no site da Folha Online, em 23/02/2009)

25/06/2009

se cada dia cai

se cada dia cai
dentro de cada noite
há um poço
onde a claridade está presa.

há que sentar-se
na beira do poço da sombra
e pescar a luz caída
com paciência.

Pablo Neruda

21/05/2009

os rios profundos

Obra do escritor peruano José Maria Arguedas (1911-1969).

Essa obra reflete a preocupação de Arguedas com o resgate das raízes míticas e históricas não apenas do povo peruano mas de todos os povos andinos. O que estava em questão, para o escritor, não era apenas defender ou buscar uma identidade nacional para o Peru, mas desconstruir a própria noção de pátria tal como imposta pelos colonizadores europeus. Antes das pátrias de imposição européia, já existiam as pátrias andinas, astecas, maias, guaranis, tupis, mapuches e inúmeros outros.

Mas os trechos aqui escolhidos não refletem essa problemática de identidades e alteridades, eles mostram outra faceta da prosa de Arguedas. Mostram um encantamento com as coisas que ultrapassa até mesmo o poético: árvores, rios, rochas, pontes, estradas, são mostrados numa fala que tem algo de denso e cósmico. Fogem daquela magia meio delirante que é comum na literatura do chamado realismo fantástico, a qual imperou por algum tempo na literatura latinoamericana.

A magia de Arguedas não recorre a nenhum fantástico, antes, com a sua sensibilidade, mostra o que há de fascinante mesmo nas coisas e paisagens que não aparecem como espetaculares. É como se em sua obra Arguedas buscasse um reencontro com o mítico e com o ancestral, não apenas através dos homens e de suas culturas e costumes, mas também através das coisas, dos lugares, do mundo, vendo o ancestral na simples presença ou na simples aparição das coisa no mundo e em volta de nós; como se buscasse, à maneira de um Heidegger (um europeu, note-se), a pura manifestação do ser nos entes que nos rodeiam.

A ressalvar, apenas o clima cansativo que o enredo adquire, por girar excessivamente em torno das aventuras e desventuras afetivas, físicas e existenciais do jovem narrador. Abordagem mítica, busca ancestral das coisas, com a maestria com que Arguedas o faz, exigiria um enredo menos juvenil, mais amadurecido; embora vazado na mesma poesia frágil e encantada que perpassa a narrativa do jovem em questão.
As Viagens
"Meu pai nunca pôde encontrar onde fixar residência; foi advogado do interior, instável e errante. Com ele conheci mais de duzentas cidadezinhas. Temia os vales quentes e só passava por eles como viajante; ficava algum tempo morando nas cidades de clima temperado: Pampas, Huaytará, Coracora, Puquio, Andahuaylas, Yauyos, Cantagallo... Sempre junto de um rio pequeno, sem bosques, com grandes pedras brilhantes e peixes miúdos. A murta, os sachos, o salgueiro, o eucalipto, o capuli, a tara, são árvores de madeira limpa, cujo galhos e folhas se recortam livremente. O homem as contempla de longe; e quem procura sombra se aproxima delas e repousa sob uma árvore que canta sozinha, com uma voz profunda, em que o céu, a água e a terra se confundem.

As grandes pedras fazem parar a água desses rios pequenos; e formam os remansos, as cascatas, os redemoinhos, os vaus. As pontes de madeira ou as pontes pênseis e os cestos para as travessias apóiam-se nelas. Brilham ao sol. É difícil escalá-las porque quase sempre são compactas e polidas. Mas desses pedras percebe-se como o rio se remonta, como aparece nas curvas, com em suas águas se reflete a montanha. Os homens nadam para alcançar as grandes pedras, cortando o rio chegam até elas e dormem lá. Porque de nenhum outro lugar se ouve melhor o som da água. Nos rios largos e grandes nem todos chegam até as pedras. Só os nadadores, os audazes, os heróis; os outros, os humildes e as crianças, ficam; espiam da ribanceira como os fortes nadam na correnteza, onde o rio é profundo, como chegam até as pedras solitárias, como as escalam, com quanto trabalho, e depois se erguem para contemplar a quebrada, para espirar a luz do rio, a força com que corre e se interna nas regiões desconhecida."
(Página 27)****************
"Por isso, aos domingos, saía precipitadamente do colégio, a percorrer os campos, a atordoar-me com o fogo do vale.
Descia pelos caminhos dos canaviais, à procura do grande rio. Quanto mais descia, mais poeirento e quente era o caminho; os pisonayes formavam quase bosques; os terebintos ficavam mais altos e grossos. O terebinto que nas montanhas mornas é cristalino, de vermelhas uvas musicais que cantam como chocalhos quando sopra vento, aqui, no fundo do vale ardente, transforma-se numa árvore frondosa, alta, coberta de terra, como que esmagada pelo sono, seus frutos apagados pelo pó; submersa como eu no ar denso e calcinado.
Às vezes podia chagar ao rio, depois de andar várias horas. Chegava a ele quando mais angustiado e aflito me sentia. Contemplava-o, de pé sobre o vão da grande ponte, apoiando-me numa das cruzes de pedra encravadas no alto da coluna central.
O rio, o Pachachaca temido, aparece numa lisa, na base de um precipício onde não crescem senão trepadeiras de flor azul. Nesse precipício costumam descansar os grandes papagaios migradores; prendem-se nas trepadeiras e chamam aos gritos, da altura.

Rumo ao leste, o rio desce em corrente tranqüila, vagarosa e trêmula. Os grandes galhos de chachacomo, que roçam a superfície de suas águas, arrastam-se e voltam violentamente, ao desprender-se da corrente. Parece um rio de aço líquido, azul e risonho, apesar de sua solenidade e de sua fundura. Um vento quase frio varre o alto da ponte.
A ponte do Pachachaca foi construída pelos espanhóis. Tem dois olhos altos, sustentados por bases de alvenaria, tão poderosas como o rio. Os contrafortes que canalizam as águas estão presos nas pedras, e obrigam o rio a avançar agitando-se, dobrando-se em correntes forçadas. Sobre as colunas dos arcos, o rio esbarra e se parte; a água se eleva lambendo o muro, pretendendo escalá-lo, e se lança depois nos olhos da ponte. Ao entardecer, a água que salta das colunas forma arco-íris fugazes que giram com o vento.

Eu não sabia o que mais amava, se a ponte ou o rio. Mas ambos desanuviavam minha alma, inundavam-na de fortaleza e de sonhos heróicos. Apagavam-se de minha mente todas as imagens lastimosas, as duvidas e as recordações más."
(Pagina 67)
Os rios profundos, editado pelo Círculo do Livro, com cortesia da Editora Paz e Terra

05/02/2009

volúpia

Rasga o espaço
a flecha

Minha volúpia
percorre o artesanato
do teu corpo

Chego
à longitude
do teu sexo
e do teu recato

Tua inocência
se fecha
tardiamente

Logo
cansa-se o guerreiro
que mora
no meu sangue

Guardo o arco
e vou-me embora

Não sei até que
ponto
eu feri
o teu céu azul
simón zavalla - 'biografia circular'

20/01/2009

introspecção revolucionária

Esta contundente e singela fala de Simón Zavalla vai como testemunho poético neste momento em que, perplexos e indignados, estamos com os olhos em Gaza
I
ontem, quando brincávamos
atrás das palavras
qualquer coisa nos admirava
e nos calava a boca
e tão imunes ao mundo estávamos
que hoje se nos entristece a alma

sim, éramos tão imunes:
os bancos da escola
pulavam na nossa vida
e mil filas de letras
jogueteavam alegres nas vermelhas
tranças da companheirinha ou no olhar
que buscava o sonho
ainda de calças curtas

ontem, os dias eram outros dias
os beijos de nossas mães
moravam nas nossas bochechas
e o canto do avô nos vinha
como um até amanhã
sem palavras

foram tempos fugazes
a barba e o bigode
nos despertaram dos sonhos
e viemos caminhando metidos nos farrapos
dos irmãos maiores que morreram
II
hoje estamos aqui
sobre a terra que tantas vezes
se vestiu de sangue
sou um dos vossos
eu me chamo Simon, um qualquer
sou um grito com nome
e um punhado de sangue
sou uma incertitude que sorri
e um casualidade dentro do tempo
com desejos de homem

venham a ver-me:
as unhas pouco a pouco comi e a fome
condecorou o meu estômago -
com dores agudas
sou um triunfo a mais –
para a miséria

olha-me, humanidade:
tenho um fuzil
que canta na minha cabeça
e venho estender-lhes a minha mão
e a minha fraqueza de esqueleto
III
aqui estamos
pulando de migalha em migalha
com um lasso passo de vermes
os domingos nos doem
e o tic-tac das semanas nos golpeia
vamos já derrotados por esta estrada
disparando palavras como velharias
e sequer Deus nos reconhece

pobrezinho do fuzil!
deve estar chorando
esta noite não pude acariciá-lo
nem deitá-lo em meus braços
que vou fazer
já é de manhã!

Olhem-nos, hermanos:
somos meros caranguejos
com bandeiras de luta
aos farrapos no asfalto.
simón zavalla

05/11/2008

epílogo - simón zavala

O poema abaixo é do Simón Zavala, poeta equatoriano


epílogo
vim uma vez aqui
e te atirei minhas mãos

te entreguei minha palavra
desgarrada

te disse que o meu nome
era emprestado
e que eu era outro
enfiado neste corpo

te contei do meu sonho
forjado nos temporais
te mostrei o pedaço de minha alma
que permaneceu em minha mãe

por fim te ofereci minha sombra

no teu aniversário
e pendurei minhas pegadas
no teu quarto

um dia
me acordaram e encurralaram
outra vez as horas
me despedi de todos os teus desejos
e te deixei à porta
o meu olhar

(Simón Zavala Guzmán – Guayaquil, Equador, tradução: Roberto Soares)



ecos