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16/08/2010

flor que se cumpre...




sede assim - qualquer coisa
serena, isenta, fiel

flor que se cumpre
sem pergunta


leia aqui o poema de cecília, na íntegra

21/04/2010

os dias felizes

Os dias felizes estão entre as árvores
como os pássaros:
viajam nas nuvens
correm nas águas
desmancham-se na areia.

Todas as palavras são inúteis
desde que se olha para o céu.


A doçura maior da vida
flui na luz do sol,
quando se está em silêncio.

Até os urubus são belos
no largo círculo dos dias sossegados.
 Apenas entristece um pouco
este ovo azul que as crianças apedrejaram:

formigas ávidas devoram
a albumina do pássaro frustrado.

Caminhávamos devagar
ao longo desses dias felizes
pensando que a Inteligência
era uma sombra da Beleza

cecília meireles

veja charge e texto sabedoria paterna

09/03/2010

carta

eu sim - mas a estrela da tarde que subia e descia o céu
[cansada e esquecida?
mas os pobres, batendo às portas, sem resultado, pregando a noite
[e o dia com seu punho seco?
mas as crianças, que gritavam de coração alarmado: "por que
[ninguém nos responde?"
mas os caminhos, mas os caminhos vazios, com suas mãos
[estendidas à toa?
mas o santo imóvel, deixando as coisas continuarem seu rumo?
e as músicas dentro de caixas, suspirando de asas fechadas?

ah! - eu, sim - porque já chorei tudo, e despi meu corpo
[usado e triste
e as minhas lágrimas o lavaram, e o silêncio da noite o enxugou.
mas os mortos, que dentro do chão sonhavam com pombos leves
[e flores claras
mas os que no meio do mar pensavam na mensagem que a praia
desenrolaria rapidamente até seus dedos...
mas os que adormeceram, de tão excessiva vigília - e eu não sei
[mais se acordarão...
e os que morreram de tanta espera... - e que nem sei se foram
[salvos...

eu, sim. mas tudo isso, todos esses olhos postados em ti, no alto
[da vida
não sei se te olharão como eu
renascida de mim, e desprovida de vinganças
no dia em que precisares de perdão

cecília meirelles
******************
Em Carta, Cecília Meirelles se assume como porta-voz da fragilidade e da precariedade, não apenas do humano, mas de toda e qualquer realidade finita.
Mas essa sua rebeldia e acusação contra o Infinito, provocada exatamente pela sua compaixão pelo finito, deve ser lida como uma celebração tanto do finito quanto do Infinito, tanto do Eterno quanto do provisório - se bem que uma celebração negativa, é verdade.

Pois ao perceber (e se comover com) o secreto lamento e perplexidade das coisas, Cecília no fundo o que faz é um impressionante inventário do colorido e da diversidade, da palpitação e da delicadeza que habita no mundo que é ofertada pelo Infinito - ou riqueza na qual o Ser se desdobra. São tantas criaturas, são tantos inatantes, frutos pendentes da árvore. E o único que pode ter olhos e compaixão para todos eles é exatamente o fruto humano.

Donde se pode entender que, ao fazer a sua acusação, a poeta está apenas cumprindo-se como olhos do divino, pois na fala da poeta é o próprio Infinito que fala, é o Infinito que, transmutado no finito humano, testemunha seus próprios desdobramentos, os seus quase infinitos entes - ou sua criação, para quem preferir.
É o Infinito, a Fonte, Deus, o Ser, a Presença, quem, através do poético e profundo olhar humano, permite a esse mesmo humano perceber as falhas, os limites que ainda existem e sempre existirão no meio do mundo.

E no processo de nos permitir esse olhar, o mesmo Infinito também nos insinua, ou nos abre a possibilidade, ou nos coloca a tarefa de, enquanto frutos privilegiado que somos, realizarmos uma intervenção e uma participação generosas, cuidadosas, praticarmos um real envolvimento na transformação e no aperfeiçoamento da criação, do mundo, dos entes e, por conseqüência, do próprio Infinito, do próprio Espírito.
Afinal, se como diz Hegel o Espírito negou-se a si mesmo para se cumprir como Natureza, como finito e imperfeito, nada mais lógico que convoque suas criaturas privilegiadas para ajudarem-no a se aperfeiçoar, para colaborarem, co-operarem no sentido de que o Espírito retorne a si mesmo. Ou para quem preferir a Bíblia: “Pois sabemos que toda a criação geme e sofre como que dores de parto ato o presente dia” (Romanos, 8-22).

E neste processo de co-operarem no retorno do Espírito a si mesmo, o finito que somos nós estará se alçando a um nível mais elevado de compreensão e vivência, estaremos nos tornando de fato parte, centelha do Espírito.
É neste sentido que o poema-acusação de Cecília pode ser lido como uma singela, entre milhares, co-operação no sentido de continuarmos o difícil e fascinante parto da criação.

06/07/2009

silêncios e desvelos I

Os cinco poemas de Cecília Meireles, abaixo publicados, somente vieram a público em uma edição póstuma, “Cânticos”, publicada em 1982, pela Editora Moderna.
São 26 peças admiravelmente singelas, com um quê de aforismos. Na verdade, numa primeira leitura é como se não passassem de fórmulas sobre o bem viver, vazadas numa atmosfera de despojamento - no melhor estilo dessas supostas sabedorias orientais, oferecidas aos montes em livrarias, seitas e sites, como remédios existenciais milagrosos, eivados de lições sobre renúncia e autoconhecimento, estimulantes de desapego às ilusões e de indiferença às contradições deste mundo terreno.

Mas esse aparente esquematismo dos poemas é facilmente ultrapassado numa leitura minimamente cuidadosa. Aí, sim, percebe-se que há neles uma certa atmosfera filosófica, ou melhor, de maturidade existencial, que faz o leitor, mais do que refletir, sentir que se tratam de impressões realmente amadurecidas, de uma fala que reflete de fato a vivência de alguém, que se trata de um dizer verdadeiro, longa e pacientemente produzido no interior, e não apenas reproduzido do exterior.

Aliás, a esse respeito, leia o texto acerca da poesia de Rilke, no qual são apontadas algumas aproximação entre Cecília e o poeta alemão.
************
Claro que essa sugestão de afinidade entre os dois poetas não tem a presunçosa pretensão de inventar filiações e referências para a poesia de Cecília Meireles. Apenas situá-la num plano diferente, realçar a atmosfera meio filosófica de seus poemas. Pela maior parte da poesia de Cecília perpassa uma discreto diálogo com o silêncio e a densa presença das coisas, diálogo feito de delicadeza e nostalgia - como se sua poesia murmurasse uma secreta saudade e lamento por aquele perecimento das coisas e de nós próprios no meio das coisas e do tempo.
Essa talvez a grande diferença entre a poetisa brasileira e o poeta alemão. Rilke é mais denso, trágico, a sua fala é mais carregada de perplexidades e interrogações. Cecília é mais singela, menos metafísica e mais terrena, menos discursiva e mais ‘retratista’ (‘Retrato natural’, uma de suas obras) das coisas. Mas, sem querer entrar em sutis e profundas considerações acerca daquilo que gestou a obra de um e de outra, vale apenas lembrar que o mundo de Rilke é outro, a história vivenciada pelo poeta alemão é bem diferente daquela vivida pela poeta brasileira - estavam cercados por coisas e histórias diferentes.

02/07/2009

cântico I

Não queiras ter Pátria
Não dividas a Terra
Não dividas o Céu.
Não arranques pedaços ao mar.
Não queiras ter.
Nasce bem alto,
que as coisas todas serão tuas.
Que alcançarás todos os horizontes.
Que o teu olhar, estando em toda parte
te ponha em tudo
como Deus.
cecília meireles

leia também o anarquismo e cecília

cântico XII

Não fales as palavras dos homens.
Palavras com vida humana.
Que nascem , que crescem, que morrem.
Faze a tua palavra perfeita.
Dize somente coisas eternas
Vive em todos os tempos
Pela tua voz .
Sê o que o ouvido nunca esquece.
Repete-te para sempre.
Em todos os corações.
Em todos os mundos.
cecília meireles

cântico XIX

Não tem mais lar o que mora em tudo.
Não há mais dádivas
para o que não tem mãos.
Não há mundos nem caminhos
para o que é maior que os caminhos e os mundos.
Não há mais nada além de ti.
Porque te dispersaste...
Circulas em todas as vidas
pairas sobre todas as coisas
e todos te sentem
sentem-te como a si mesmos
e não sabem falar de ti.
cecília meireles

cântico XX

Não digas que és dono.
Sempre que disseres
Roubas-te a ti mesmo.
Tu, que és senhor de tudo...
Deixa os escravos rugirem
querendo.
Inutiliza o gesto possuidor das mãos.
Sê a árvore que floresce
que frutifica
e se dispersa no chão.
Deixa os famintos despojarem-te.
Nos teus ramos serenos
Há florações eternas
E todas as bocas se fartarão.
cecília meireles

cântico XXV

Sê o que renuncia
altamente:
sem tristeza da tua renúncia!
Sem orgulho da tua renúncia!
Abre a tua alma nas tuas mãos
e abre as tuas mãos sobre o infinito.
E não deixes ficar de ti
nem esse último gesto!
cecília meireles

sugestão

sede assim - qualquer coisa
serena isenta, fiel

flor que se cumpre
sem pergunta

onda que se esforça
por exercício desinteressado

lua que envolve igualmente
os noivos abraçados
e os soldados já frios

também com este ar da noite:
sussurrante de silêncios
cheio de nascimentos e pétalas

igual à pedra detida
sustentando seu demorado destino
e à nuvem, leve e bela
vivendo de nunca chegar a ser.

à cigarra, queimando-se em música
ao camelo que mastiga sua longa solidão
ao pássaro que procura o fim do mundo
ao boi que vai com inocência para a morte

sede assim qualquer coisa
serena, isenta, fiel.

não como o resto dos homens.
cecília meireles

silêncios e desvelos II


Nos ‘Cânticos’, publicados acima, vemos confirmar-se uma certa afinidade de Cecília Meireles com o poeta alemão Rainer Rilke, que tem alguns de seus poemas publicados abaixo. Ambos são poetas de coisas, poetas que reverenciam o mundo que nos cerca, na sua simples e ao mesmo tempo enigmática aparição: paisagens, casas, cidades, céus, árvores, nuvens, o próprio tempo. Sabe-se que Rilke desenvolvia, principalmente através de suas cartas, quase que uma estética e uma metafísica para explicar sua própria criação poética. Para ele, escrever era uma forma de buscar aquilo que chamava de ‘o espaço interior do mundo’. Escrever seria uma decorrência do cuidado que deveríamos dedicar às coisas, era uma forma de retratar com palavras o ‘indizível’ que há na simples presença dos entes.

Para Rilke, seríamos os “os mais perecíveis entre os perecíveis” de todos os entes, ou seja, os únicos a tomar consciência não só de nossa finitude e precariedade mas também da finitude e precariedade de todos os entes, de todas as coisas que nos cercam. Para Rilke, então, deveríamos existir no mundo como viventes perplexos e admirados, a testemunhar acerca da queda e da precariedade de todas as coisas. E escrever seria uma forma de trazer para o mundo um pouco desse cuidado para com o perecimento das coisas e de nós próprios. Na verdade, escrever seria dar um duplo testemunho, pois é através da escritura que se realizam a delicadeza e o silêncio que existem no perecimento e na finitude das coisas e de nós próprios.

Ao reverenciar e registrar a precariedade, aquele que escreve traz para o ser o que ainda não existe, acrescenta entes ao ser, dá vida ao indizível que há no ser e nos entes, e isso não para evitar o perecimento ou para deixar uma espécie de memória nobre daquilo que se vai, ou qualquer coisa do tipo – escrever seria algo mais profundo, algo mais ôntico e cósmico, e ao mesmo tempo mais inútil, ou menos ‘útil’, é simplesmente dar voz àquilo que não fala, pensa ou sente, mas que no seu silêncio está tão ou mais presente do que ao ser do que nós.

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Rilke é de fato um dos representantes da tradição da poesia filosófica ou metafísica alemã. Aliás, percebe-se como a poesia e o pensamento de Rilke ecoam a filosofia de Heidegger - mas tendo escrito sua obra antes do filósofo alemão. Em sua filosofia Heidegger irá apresentar conceitos como o cuidado e o desvelamento que devemos ter em relação ao ser, a preocupação em resgatar o sentido de ser que se manifesta na aparição das coisas; enfim, naquilo que interessa aqui, há a mesma preocupação, o mesmo desvelo que há em Rilke com a aparição e desaparição das coisas.

Em ambos há também o cuidado em não permitir que sejamos demasiadamente envolvidos pela tecnologia modernosa, com a consequente instrumentalização e padronização da existência. Heidegger fala da existência autêntica em oposição a uma existência inautêntica, a uma existência padronizada, fabricada por uma modernidade na qual o que alimenta a engrenagem é a necessidade de que o indivíduo fale o que todos falam, coma o que todos comam, pense o que todos pensam, sinta o que todos sintam - aliás, uma engrenagem que é extremamente competente em fazer com que sintamos medo e desconforto ao não pensarmos e sentirmos uns iguais aos outros.

Roberto Soares

01/07/2009

anarquismo e cecília

Ao lado do registro da vertente filosófico-melancólica da poesia de Cecília Meireles, abordada em silêncios e desvelos II, os ‘Cânticos’ remetem-nos também a uma certa postura libertária e anarquista. Há neles um caráter de despojamento e de afirmação da liberdade em relação a qualquer ordem estabelecida, uma certa certa negação dos valores dos quais essa mesma ordem se utiliza para capturar as liberdades e espontaneidades que somos todos nós, ou que deveríamos ser, e no lugar da negação os poemas afirmam a atenção, o cuidado que devemos conosco mesmos, para que exercitemos mais o nosso desvelo para com as para com as coisas que estão aí, na sua gratuidade, leveza e densidade.

E, nesse ponto, podemos também tranquilamente retornar ao vínculo entre a poesia de Cecília e as cosmovisões das civilizações do Oriente, mas com aquilo que essas cosmovisões têm de consistente e de milenar, e não com os seus simulacros e fragmentos - tal como apontado em silêncios e desvelos I . Pois se há algo que a maioria dessas chamadas sabedorias propõem, é exatamente a necessidade de o indivíduo se despojar de seus enlaces excessivos com o transitório, o ruidoso, o repetitivo, o fácil e o fenomenal, que nos distraem do essencial e do sentido das coisas e de nós próprios no meio das coisas.
Aliás, parece que também haveria algo a dizer acerca da afinidade entre movimento libertário e as cosmovisões do Oriente, mas numa outra ocasião, num texto mais específico.

De qualquer forma, não se pretende aqui vincular Cecília Meireles e movimento anarquista, apenas registrar que são em poemas como esses que se pode perceber com mais nitidez a incontestável ponte que existe entre a arte e as propostas libertárias. Tanto quanto a autêntica arte, a visão libertária e anarquista é feita de riscos, de disposição criadora, de confiança no potencial fraterno dos indivíduos, de ênfase na celebração da vida e do mundo, ao invés da ênfase na conquista, na autoridade e no poder; e tanto a arte quanto a posição libertária carregam consigo a necessária lucidez e sensibilidade para perceber que, enquanto existentes, somos apenas precários mas fascinantes instantes no fabuloso mistério do tempo e do cosmos.
Essa afinidade entre arte e anarquismo com certeza que os cânticos de Cecília nos mostram - dentre tantos milhares de poemas de milhares de poetas. E como dito acima, os 'Cânticos' refletem maturidade existencial, apresentam-se de fato como o dizer verdadeiro de alguém. Aliás, vale uma consulta tanto ao conceito de dizer verdadeiro quanto ao conceito de parresiasta, presentes por exemplo no pensamento do filósofo Foucault, e difundidos entre alguns expoentes e militantes do anarquismo. Fica para uma outra oportunidade uma abordagem mais demorada acerca das relações do dizer verdadeiro da arte e dos anarquistas.
Leia, entre outros, o cântico I

01/12/2008

leveza

leve é o pássaro:
e a sua sombra voante
mais leve

e a cascata aérea
de sua garganta,
mais leve

e o que lembra, ouvindo-se
deslizar seu canto
mais leve

e o desejo rápido
desse antigo instante
mais leve

e a fuga invisível
do amargo passante
mais leve
cecília meirelles

ecos