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01/07/2009

anarquismo e cecília

Ao lado do registro da vertente filosófico-melancólica da poesia de Cecília Meireles, abordada em silêncios e desvelos II, os ‘Cânticos’ remetem-nos também a uma certa postura libertária e anarquista. Há neles um caráter de despojamento e de afirmação da liberdade em relação a qualquer ordem estabelecida, uma certa certa negação dos valores dos quais essa mesma ordem se utiliza para capturar as liberdades e espontaneidades que somos todos nós, ou que deveríamos ser, e no lugar da negação os poemas afirmam a atenção, o cuidado que devemos conosco mesmos, para que exercitemos mais o nosso desvelo para com as para com as coisas que estão aí, na sua gratuidade, leveza e densidade.

E, nesse ponto, podemos também tranquilamente retornar ao vínculo entre a poesia de Cecília e as cosmovisões das civilizações do Oriente, mas com aquilo que essas cosmovisões têm de consistente e de milenar, e não com os seus simulacros e fragmentos - tal como apontado em silêncios e desvelos I . Pois se há algo que a maioria dessas chamadas sabedorias propõem, é exatamente a necessidade de o indivíduo se despojar de seus enlaces excessivos com o transitório, o ruidoso, o repetitivo, o fácil e o fenomenal, que nos distraem do essencial e do sentido das coisas e de nós próprios no meio das coisas.
Aliás, parece que também haveria algo a dizer acerca da afinidade entre movimento libertário e as cosmovisões do Oriente, mas numa outra ocasião, num texto mais específico.

De qualquer forma, não se pretende aqui vincular Cecília Meireles e movimento anarquista, apenas registrar que são em poemas como esses que se pode perceber com mais nitidez a incontestável ponte que existe entre a arte e as propostas libertárias. Tanto quanto a autêntica arte, a visão libertária e anarquista é feita de riscos, de disposição criadora, de confiança no potencial fraterno dos indivíduos, de ênfase na celebração da vida e do mundo, ao invés da ênfase na conquista, na autoridade e no poder; e tanto a arte quanto a posição libertária carregam consigo a necessária lucidez e sensibilidade para perceber que, enquanto existentes, somos apenas precários mas fascinantes instantes no fabuloso mistério do tempo e do cosmos.
Essa afinidade entre arte e anarquismo com certeza que os cânticos de Cecília nos mostram - dentre tantos milhares de poemas de milhares de poetas. E como dito acima, os 'Cânticos' refletem maturidade existencial, apresentam-se de fato como o dizer verdadeiro de alguém. Aliás, vale uma consulta tanto ao conceito de dizer verdadeiro quanto ao conceito de parresiasta, presentes por exemplo no pensamento do filósofo Foucault, e difundidos entre alguns expoentes e militantes do anarquismo. Fica para uma outra oportunidade uma abordagem mais demorada acerca das relações do dizer verdadeiro da arte e dos anarquistas.
Leia, entre outros, o cântico I

21/05/2009

amamos muito tudo isso!

A edição dos poemas de maio já estava praticamenete encerrada, preparava-me para colocá-la no ar, quando veio-me o texto abaixo, como um verdadeiro maná de verbo libertário a se despejar de céus cibernéticos e incendiários. É desses textos que dispensam apresentação ou complementos.
Sua força e lucidez falam por si.
Apenas a registrar a extrema agilidade com que o autor pula de tema em tema, de imagem em imagem, amarrando-os numa fala mesclada de sensibilidade, contundência e convocatória desafiante, a desfilar ante nossos olhos e imaginação as realidades assépticas e plastificadas que passeiam pelos shoppings nossos de cada dia.
A esse respeito, que o texto seja lido junto com os poemas de Vicente Filho, logo acima, e com o texto explosões do verbo e da cidade - o pensamento e a arte juntos no incansável combate.
Amamos muito que ainda existam falas assim.

Amamos muito tudo isso!
Dos grandes templos às humildes vendas.
Amamos muito tudo isso.
Amamos.

No luxo extremo vemos as Grand Magazines.
Locais esmerados onde prevalece o topo da cadeia alimentar do consumo.
Os Shoppings Zonas sul, onde são todos loiros, até as garçonetes, até os seguranças, inclusive as moças que cuidam da faxina. É o sonho nórdico, as indiscretas atualizações da ideologia nazista. É para lá que os burgueses afluem, levando suas companhias, naqueles templos do efêmero, onde salários mínimos são gastos em intervalos de minutos.
As belas vendedoras, que atendem tão educadamente os barões e as baronesas do capital, sempre sorriem. Mas no fundo daquela gentileza há um ódio infinito e secreto, silencioso.

Amamos muito tudo isso.

Há alguns requisitados restaurantes Class A, cujos atendentes ficam às portas do estabelecimento em dias de chuva, portam guarda-chuvas para assegurar que os clientes (Deuses) não se molhem. Os garçons se encharcam, mas preservam a integridade dos consumidores. Um nobre francês do século XVIII sentir-se-ia em casa nesse lugar.

Amamos muito tudo isso.

Nos shoppings populares as pessoas se esmagam na busca sísifa pelo nada e pelo nenhum. O novo aparelho de celular é comprado, consolo momentâneo para a baixa renda, que busca no mercado pirata a consumação do seu sonho consumista. Meses depois estará novamente insatisfeito. O aquecimento da economia agradece.

Amamos muito tudo isso.

O capitalismo é bom. Inerente ao homem. O ser humano tem predisposição para a atividade comercial direcionada ao lucro. Essa teologia tinha seu charme no setecentismo, trajando vestes iluministas e prometendo a emancipação perante o intervencionismo absurdo das grandes cadeias de poder. Seus prosélitos agiram de boa fé, divulgaram aos quatro cantos do mundo as benesses do capitalismo.
Diziam pacientemente para os nômades africanos, e em voz até infantilizada, que livre comércio era o único caminho para a felicidade. Convenceram os chineses de que a única sacralidade digna de nota seria a libra esterlina. Abordaram os aborígines da Oceania e discorreram sobre a relevância existencial do ato de comprar e vender.

Divulgaram o evangelho do lucro e prometeram a felicidade. Nada sabiam sobre a destruição do bioma, a extrema exploração dos menos válidos e da crise existencial inerente ao ato insano do consumismo.
Agiram de boa fé, ainda que com uma malícia experimental. Séculos mais tardes, desacreditados por catequizadores bem mais engajados e articulados (homens barbudos, sisudos, com lenços e polainas vermelhos), acabaram por se tornar menos elegantes em suas argumentações. Alteraram o discurso, não se tratava mais de uma busca pela felicidade, mas sim de uma imperiosidade da história, uma tecnicidade, entregar-se ao capital não era uma escolha, mas uma obrigação.

A romântica inocência dos adeptos da Escola Clássica deu lugar ao sarcasmo amargo dos neoliberais. Alguns descobriram a futilidade de se dialogar com os mineiros, tornou-se mais viável ignorar seus lamentos.
Por algumas décadas eles reinaram, e a cada gemido do mundo arrotavam. As cifras estavam a seu favor. Porém, o tempo das vacas magras chegou, alguns mortos acordaram, fantasmas ameaçadores passaram a visitar os sonhos dos que nunca choram.
Os neoliberais se ajoelharam perante o panteão e imploraram pela intervenção: “Ex Machina, ajude-nos”. Foi um lampejo, mas o suficiente para que perdessem a compostura. Sentiram-se envergonhados, tal qual o apaixonado que por um rompante romântico declara o amor para uma indiferente dama.

Constrangimento. “Tudo segue como antes”, disseram, “o mercado é nosso guia, confiem nele, ele nos guiará à felicidade”. O mundo olhou com um ar incrédulo e reprovador. Ficou evidente a covardia e a inépcia desses pastores, desses condutores de almas. Mais do que nunca estão solitários. O ódio de muitos se volta contra eles. Há um olhar homicida dos pobres, do primeiro e terceiro mundo. Os enganados, os despejados, os famintos, os que fedem a mijo, eles querem acertar as contas, querem tudo que foi prometido. Alguém disse carnificina? O Alto Clero do capitalismo está aterrorizado.

Amamos muito tudo isso.

07/05/2009

imagens do 1º de Maio

EM BELO HORIZONTE
Cartazes com detalhe na bandeira hasteada!
Forças do Estado: "Precisando qualquer coisa estamos aí" Ironia? Não sabemos. Detalhe ao lado esquerdo: trabalhadores trabalhando no 1º de maio.


Forças do Estado: "Só não pode é dependurar a bandeira no poste"


Presidente da Federação Nacional dos Índios

Texto abaixo publicado no blogue do MAL (Movimento AnarcoLibertário)
Neste primeiro de maio o M.A.L. fez aquela que podemos considerar sua maior e melhor ação desde sua fundação. Cerca de 30 pessoas estiveram presentes na praça Sete de Setembro (centro de Belo Horizonte) desde 8 horas da manhã, em memória ao movimento operário anarquista no Brasil e no mundo. Houve exposição de materiais históricos, imagens, textos, frases - contidos no painel histórico e em folhas de textos avulsas - e distribuição de quase 300 exemplares da primeira edição de nosso jornal.
Houve também uma descontração em praça pública, ao som de um violão, vários manifestantes cantaram músicas, a maioria de protesto. As bandeiras (do M.A.L. e do anarquismo) foram hasteadas em um poste de luz da praça, e posteriormente, a pedido das forças do Estado, retiramos as bandeiras e agitamos no decorrer da exposição. Várias pessoas pararam para conversar, perguntar o que estávamos reivindicando, o que estávamos recordando.
Dentre estas pessoas, muitos trabalhadores; pessoas de outros estados (dois matogrossenses acharam legal nossa ação e o movimento anarcossindicalista); aposentados; um trabalhador de telemarketing nos falou um pouco do trabalho árduo, submisso e humilhante que é o telemarketing, e para estarmos presentes um dia na porta da empresa para divulgarmos nosso ideal; um militante libertário dos anos 80 também parou para conversar e dar mais idéias experientes para nosso movimento, nosso jornal, etc; também o presidente da Federação Nacional dos Índios, que gostou muito de nossa luta, nossos ideais e ficou conversando conosco por bastante tempo. Ele quis manter contato com o M.AL. para ações em parceria, "é a mesma luta: do povo, dos índios, contra as pretensões do capital, do Estado" "não podemos esperar nada do governo, temos que nos organizar" - palavras que se destacaram na discussão.
Depois de um tempo, @s anarquistas ocuparam o pirulito da praça sete e lá hastearam nossas bandeiras e distribuíram exemplares de nossos jornais a carros que por lá paravam.Em suma, a exposição durou de 8 horas da manhã até 12 horas; nos mantemos no mesmo local, quase 300 exemplares de nosso jornal foram distribuídos. E diferente de como pensávamos que ocorreria, comunistas e partidos políticos não estavam presentes na praça, o que trouxe mais comodidade para nossa ação; não houve confronto com as forças do Estado.
Infelizmente, na nossa realidade, no 1º de maio tinham pessoas trabalhando. Também distribuimos nosso jornal para eles.
Fotos de: Marina Nobel e Marconne

NA GRÉCIA

Texto e imagens do blogue Grécia Libertária, com link ao lado, na seção Pontes



Manifestações se realizaram em muitas cidades gregas, como en Tesalónica, Pátra, Iráklio, Lárisa, Mytilíni e.t.c

Mais de 4.000 pessoas participaram da manifestação libertária, convocada por Corporações de Base, Grupos daa Esquerda Antiparlamentar, Grupos e coletivos Anarquistas, que se realizou no Primeiro de Maio em Atenas. A manifestação terminou com um Ajuntamento de Atenas, num acontecimento inédito, deixando desorientados os polícias. Durante as ações do Priemiro de Maio, foram detruídos, como de costume, câmeras de vigilância, caixas automaticos e fachadas de bancos.

resgate do primeiro de maio

(Texto relacionado: imagens do primeiro de maio )

Acima, algumas matérias e imagens para lembrar que o Dia do Trabalhador não se restringe apenas a shows e manifestações diversas, que têm cada vez mais um caráter institucional, de eventos patrocinados por empresas e órgãos governamentais. Nada contra o trabalhador receber uma justa homenagem no seu dia, a questão é refletir sobre o que implicam essas ‘homenagens’ patrocinadas por empresas e governos, com o aval de centrais sindicais de diversas posturas políticas.
A questão é saber até onde elas são uma conquista real e necessária, ou ao menos prioritária, ou se estão aí apenas como mais uma forma de neutralizar o potencial de mobilização e enfrentamento dos trabalhadores, na luta por suas demandas concretas, sejam demandas mais imediatas (tais como reposição de e perdas, redução da jornada de trabalho para 30 horas, pleno emprego etc) ou bandeiras de longo prazo, como a autogestão e a coletivização dos meios de produção.

E, o que é mais grave, a questão é refletir se tais ‘homenagens’ têm o prioritário objetivo de desmemoriar a classe trabalhadora, fazê-la esquecer, ou pior, fazê-la julgar como obsoletas e perigosas todas as suas lutas e aspirações de uma época não tão remota. Refletir se tais ‘homenagens’ visam, também, desqualificar a postura de resistência daqueles trabalhadores e movimentos que ainda acreditam numa forma diferente de os homens se relacionarem uns com os outros, principalmente em relação a uma nova forma de produzir suas necessidades, ou seja uma nova forma de trabalho, mais autônoma, mais livre, mais gratificante.

E essa reflexão se faz ainda mais oportuna, neste momento de profundos abalos no atual sistema de produção, com reais possibilidades de uma ruptura com os fundamentos políticos, jurídicos, sociais e culturais que dão sustentação a esse mesmo sistema. Afinal, é fundamental que se volte a pensar numa classe trabalhadora realmente mobilizada e plenamente consciente de seu papel nessa possibilidade de ruptura e superação do atual sistema; e isso seria extremamente perigoso para os grupos e indivíduos cujo papel e interesse é tentar manter o sistema funcionando, custe o que custar, ou melhor, às custas principalmente daqueles que são’ homenageados’ no seu dia: demissões, concessões às empresas, perda de direitos, tudo para se garantir a precária situação que já havia antes dos abalos no sistemas.
E tome festas, ‘homenagens’, entremeadas de discursos de lideranças trabalhistas a pregar um enfrentamento que nunca vem, no fundo um enfrentamento que, além de não estar nos planos das lideranças, também não atrai os assustados e conformados trabalhadores.

As manifestações, contidas nas matérias abaixo, são então uma prova de que, apesar da desmobilização e apatia geral, estão presentes movimentos e ações que ousam resistir e marchar contra a corrente.
Por outro lado, permanece como urgente e fundamental que se crie ações e linguagens que logrem atrair de fato a vasta maioria dos trabalhadores e cidadãos em geral, que permanecem apáticos, no fundo querendo acreditar que essa é apenas mais uma crise que será superada pela modernidade e competência do atual sistema de produção e, portanto, não lhes cabe preocupar-se com o desenrolar dos acontecimentos.

É urgente e fundamental convocar a todos e todas para abandonarem essa postura conformista e impotente de viver como se a história se desenrolasse num nível mais alto e mais complexo que o de suas vidas cotidianas, como se os destinos de cada um e cada uma não estivesse nas suas próprias mãos, e é preciso que seja uma convocação que não exclua nenhum setor, grupo ou categoria, que todos sejam convidados ou atraídos, seduzidos ou despertados para se postarem novamente frente à sua tarefa essencial, que é a de transformar e reverenciar a vida e o mundo no qual vivem.

As manifestações do Primeiro de Maio, aqui retratadas, têm caminhado nesse sentido, ao convocarem a juventude e os artistas, com a disposição de poetas e atores de teatro em irem para as ruas ao encontro dos trabalhadores em marchas a céu aberto pelas ruas.Aliás, a propósito dessa necessidade de se aproximar novamente artistas e trabalhadores, arte e vida, vale conhecer um texto de Augusto Boal, também publicado neste mês, como discreta lembrança pelo advento de sua morte.

Roberto Soares Coelho

28/04/2009

paisagem urbana, humana (I)

Junte-se o aparecimento da gripe suína, com pessoas acuadas e mascaradas, a lembrar mórbidos cenários futuristas, junte-se as recorrentes crises econômicas do capitalismo, junte-se as primeiras desordens climáticas supostamente resultantes do aquecimento global, junte-se o desemprego, a miséria e a perplexidade de alguns, o consumismo, o medo e a modernosa/presunçosa anestesia de outros, junte-se a institucionalização das violências (mais sofisticada nos países ricos, do tipo garotos e desempregados que assassinam pessoas aos montes, e cada vez mais brutal e cínica nos nossos países de periferia), junte-se colossais engarrafamentos com uma multidão de motoristas a praguejarem dentro de seus tão acalentados sonhos de consumo (os famigerados automóveis, que fazem girar as engrenagens da economia, entopem as ruas já atulhadas de transeuntes e ambulantes e espalham seu odor fétido e seus ruídos agressivos pela cidade afora), junte-se a vertiginosa derrocada das chamadas instituições democráticas e de alguns dos aparatos ideológicos e de controle a serviço do Estado capitalista (escolas, parlamentos, ‘justiça’, polícias, igrejas), junte-se a crescente capitulação e imobilismo da esquerda institucionalizada, junte-se tudo isso e não há como não lembrar de um poeminha de Waldo Motta, publicado em 1991:

turba

quereis fugir
ondas em pânico?
não há onde ir.

Recado curto e grosso.
Mas talvez haja, sim, um lugar para ir. Para as ruas, uns ao encontro dos outros, ao encontro do projeto coletivo, libertário e planetário de finalmente termos o comando de nossas vidas, o projeto de finalmente podermos decidir quais são realmente as nossas necessidades e as nossas potencialidades, o projeto de decretarmos o fim da conquista pela conquista, o fim do domínio pelo domínio, o fim do domínio da lógica predadora e estúpida do capitalismo sobre as delicadas e complexas riquezas do mundo e de nós próprios.
Talvez haja, sim, um lugar para ir, mas um lugar ainda a ser construído, construído por nós, bandeirantes de nós mesmos. E, aí sim, talvez a ingenuidade juvenil do poema abaixo (de minha lavra, escrito no distante 1988) possa dialogar com a corrosiva e implacável certeza do poemeto de Waldo Motta:

bandeirantes do arco-íris

tudo úmido e colorido.
mas um dois três operários
as chinelas de dedo
pedalando molemente as bicicletas
cortaram nosso caminho
fazendo-nos parar no meio da rua
em frente ao jardim

nossos pés estacaram
em cima dos paralelepípedos
nossos rostos tomavam
das gotículas que caíam das ramagens

nossos e deles olhares se encararam
ao mesmo tempo que abraçavam por inteiro
as árvores vivas verdes escorrendo
sobre nós, sobre pedras, sobre o instante

houve a fugaz impressão
de que as árvores nos olhavam
as suas bicicletas nos olhavam
enquanto todos nos olhávamos molhávamos
na umidade que orava e orvalhava na tarde

olhar relâmpago, fogo azulado
tempo verde e exato
de realimentar na tarde cinzenta
a rubra crença de um dia
marcharmos juntos em avenidas
de punhos e corações erguidos
rumo às trilhas do arco-íris
(viçosa, abril de 88)

Textos relacionados: ocupar as ruas, manter a chama e explosões do verbo e da cidade (esse último a ser publicado em maio)

Roberto Soares Coelho

26/04/2009

ocupar as ruas, manter a chama

A matéria abaixo, Protestos anti-OTAN, vem como registro de que a esquerda radical e libertária não deixou passar em branco as cúpulas do G-20 e da OTAN, a aliança militar do capitalismo ocidental, ocorridas agora em Abril, na Europa.

O que se vê é que, mesmo para grande parte da esquerda, a solução da crise mundial passa pelas vias institucionais e pela negociação entre países ricos e países emergentes/subdesenvolvidos, ou seja, acredita-se na reforma do capitalismo, obtida através de sua suposta regulação e humanização; haveria depois a substituição pacífica do modelo, através de processos eleitorais e mobilizações sociais. Enfim, ainda não predomina na maioria da esquerda a visão de que é possível e urgente uma ruptura e uma imediata superação deste projeto de civilização do Ocidente, atualmente capitaneado pelo capitalismo.

Se até a esquerda assim se posiciona, não é surpresa que, para a grande maioria das pessoas e principalmente para a mídia, os protestos de abril não tenham passado de distúrbios promovidos por agitadores e sonhadores, que se aproveitam do momento de crise mundial, para tentarem colocar novamente na ordem do dia suas obsoletas idéias de anarquismo e socialismo libertário.
Mas podemos ter uma outra leitura desses questionamentos e enfrentamentos, feitos por movimentos anarquistas e libertários, partidos da esquerda radical e ongs de orientações políticas diversas. Afinal, ainda não terminou o grande combate entre o projeto de conquista capitalista e o projeto de uma caminhada socialista e libertária.

Claro que somente a História poderá dizer quem tem razão, neste momento em que se abrem dois caminhos para a esquerda: 1) apostar num suposto esgotamento do capitalismo e partir para um processo de mobilização, ruptura, enfrentamento e construção de alternativas concretas ao capitalismo e 2) uma postura mais cautelosa e ‘lúcida’, oferecendo às massas uma espécie de capitalismo melhorado para, mais à frente, construir pacificamente uma transição para uma sociedade socialista. Seria uma solução do tipo minar a ordem capitalista ‘por dentro’, com a tática de não fazer o enfrentamento direto com as desumanizadas forças da chamada ‘elite’, nem de se afastar da sempre assustada classe média.

Mas, de qualquer forma, é preciso respeitar e levar a sério a opção do movimento libertário e anarquista. Há uma clara postura do movimento em acreditar que o momento de ruptura é agora, pois se não houver uma conscientização, mobilização, resistência e construção de projetos alternativos e inteligentes, essa devastadora demonstração de irracionalidade dos países centrais do capitalismo pode desembocar num sistema de poder ainda mais desumano, alienante e opressor. O capitalismo, para se manter enquanto poder dominante, pode ter que lançar mão da instabilidade perpétua, da insegurança, da alienação e narcotização crescentes das pessoas, através da ininterrupta oferta de mercadorias e serviços visivelmente dispensáveis, e também visivelmente destruidores do já fragilizado meio ambiente.

Enfim, o tão esperado capitalismo reformado, com o qual a esquerda entende que tem que se comprometer, pode não passar de uma monstruoso modelo social e econômico, um modelo de anticivilização, uma espécie de ditadura com aparência de democracia, disfarçada numa mistura de instabilidade, insegurança e sedução tecnológica e modernosa e, o que é pior, uma ditadura acolhida e até mesmo defendida pela massa assustada e narcotizada.
O que está em jogo então nessas manifestações, como as ocorridas agora em abril, é muito mais que saudosismos de movimentos e grupos desorientados, supostamente incapazes de se adequar a um avanço da história, incapazes de perceber a possibilidade e a necessidade de um suposto encontro entre a esquerda lúcida e responsável e um capitalismo reformado, humanizado, um capitalismo que, em razão de uma crise profunda, estaria disposto a se regenerar, a percorrer o bom caminho.

O que está em jogo, nessas manifestações, é o grito de alerta de pessoas e movimentos que conseguem discordar dessa postura otimista, ou conformista. É o grito que ousa discordar dessa postura que vê o capitalismo como um sistema que sempre será capaz de superar suas próprias crises, aliás, um sistema que até precisaria dessas crises para sair mais fortalecido e consolidado e, assim, promover progressos e saltos de qualidade e de aprendizado para o a humanidade.
As manifestação são também um grito contra as táticas da maioria da esquerda mundial, que acredita que haverá tempo para vencer o capitalismo de forma gradual, institucional, até conseguirmos sutil mas firmemente promover a sua substituição. O problema é que o caos e a irracionalidade, a instabilidade e a barbárie estão se institucionalizando, estão se tornando algo natural, estão se tornando até mesmo instrumentos de poder (a esse respeito, aguarde texto poético a ser publicado em maio: explosões do verbo e da cidade); a questão é saber se haverá tempo para essa substituição ‘civilizada’ do capitalismo.

É, então, um grito contra o perigo que pode estar à espreita, o perigo de uma sociedade completamente narcotizada, robotizada, assustada, plastificada, tecnologizada. É um grito alertando para a urgência da ação e do enfrentamento, da urgente construção de alternativas ao modelo de civilização produtivista e consumista, modelo que seduz e aprisiona tanto à esquerda quanto à direita.
Ocupar as ruas significa, também, que o grito de alerta não é apenas abstrato, teórico, acadêmico, intelectualizado. Significa sair do âmbito do pensar, mesmo que seja o correto e lúcido pensar, para realmente acreditar e estar disposto ao enfrentamento do perigo, significa o complemento concreto do pensar lúcido e corajoso.
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É preciso lembrar, também, que as atuais manifestações de rua não são fenômenos isolados, anacrônicos, perdidos no tempo; elas têm toda uma história, fazem parte, sim, de uma seqüência, cujo início podemos, em termos de época moderna, situar na Revolução Francesa (que teve o seu ímpeto libertário capturado, neutralizado pela nascente burguesia).
Há uma continuidade através de centenas de ações de resistência e enfrentamento, mesmo que tenham se dado em contextos e com motivações diferentes, e mesmo que tenham sido derrotadas, capturadas ou distorcidas: Comuna de Paris, Rússia, Guerra Civil espanhola, Cuba, apenas para citar as mais consagradas. As manifestações deste ano e as da última década (Seattle, Washington, Genova, Chiapas, as revoltas dos imigrantes na França, entre outras, sem esquecer, claro, as recentes rebeliões populares na Grécia) têm, assim, ligação direta com todas as ações de resistência e enfrentamento ao capitalismo, e estão bem próximas, no tempo, de um dos momentos maiores mais vibrantes e ousados do movimento de contestação ao atual modelo de civilização, que foram as ações dos estudantes, operários e da juventude em geral na chamada contracultura, nas décadas de 60 e 70.

Enfim, são combativas demonstrações, que mantêm viva a crença na possibilidade de uma humanidade concretamente voltada para sua tarefa essencial, que é a de respeitar e reverenciar a vida, as pessoas e o próprio mundo, uma humanidade que não se entregue a estruturas e grupos de poder cegos, irracionais e cada vez mais desumanos. Mantêm viva a crença de que podemos cuidar e fruirmos da riqueza que há em nós próprios e no mundo que nos cerca, sem estarmos submissos a estruturas que nos alienem de nós próprios, estruturas que cada vez mais nos afastam uns dos outros, tomados pelo medo, hostilidade, indiferença e futilidade.

Claro que uma postura de respeito e de maior atenção, para com essas ações de resistência e enfrentamento do movimento libertário, não exclui a legitimidade a necessidade das outras formas de atuação, propostas ou praticadas pela esquerda institucional, principalmente aquelas mais incisivas, adotadas por alguns governos progressistas da América Latina, na tentativa de construção de um socialismo institucionalizado. O que importa é que cada parte compreenda a escolha e a forma de luta, que reconheça a força e a verdade bem como compreenda as eventuais limitações da outra parte, todos sabendo que o fundamental é resisitir e derrotar o inimigo comum, sabedores de que lá na frente, à época da colheita e da Grande Festa da humanidade, cada um terá dado o seu trabalho e a sua crença.

Que as ruas sejam cada vez mais tomadas, que o grito de alerta dos anarquistas e libertários soe cada vez mais sonoro e vibrante, e que seja cada vez mais ouvido, antes que estejamos todos narcotizados em nossas almas de plástico.
Roberto Soares Coelho

15/04/2009

Protestos anti-OTAN

Por CMI-internacional 06/04/2009, às 20:25

A mobilização contra o encontro da OTAN de 2009 havia começado desde o ultimo encontro, no qual uma ativista morreu atropelada por um carro do comboio do encontro. Desde o final de março um acampamento autogestionado, anti-autoritário e ecológico foi instalado na cidade de Estrasburgo para abrigar milhares ativistas. Paralelamente aconteceu o G20 em Londres, e lá durante o grande protesto um manifestante foi espancada pela policia e ao fim da tarde foi encontrado morte, parada cardíaca.
Após receber essa informação, cerca de 3 horas da madrugada, vários ativistas do acampamento anti-OTAN decidiram fazer um protesto anti-repressão durante a tarde de 2 de Abril. A primeira manifestação de rua do contra encontro contava com cerca de 700 pessoas ao inicio, e tinham como palavras de ordem: Anti capitalista, No peace, No justice. Fight the police! etc. O trajeto foi marcado por afrontamentos com a policia, ataque a um quartel militar, a uma delegacia, barricadas... Até perto do fim a policia não havia conseguido prender ninguém, ao retornar ao camping a manifestação teve que passar pelo meio de uma floresta pois as ruas estavam bloqueadas, a partir de então a policia começa a caça. Helicópteros dizem onde estão os manifestantes e a policia inunda a floresta de gás lacrimogênio e tiros de balas de borracha.
Varias prisões aconteceram, e um grupo de aproximadamente 250 pessoas foi cercado pela policia e todos presos. Por conta de desorganização policial quase todos foram liberados ainda na mesma noite. Durante a caça da policia na floresta, outro grupo de manifestantes que estavam no acampamento decidiram ir a floresta ajudar os outros, daí a policia utilizou isso como pretexto para atacar o campo, resultando numa batalha de horas entre barricadas do campo e policia. Por fim,a policia foi embora.

Segundo dia: um exército de palhaços partiu para uma intervenção na cidade, conseguiram furar o bloqueio, fizeram sua ação e foram cercados pela policia que queria prender todos eles. A noticia chega ao acampamento, e milhares de pessoas partem para os liberarem. Palhaços liberados, ação com sucesso. Mas nem tudo acabou, novamente a policia utiliza essa ação como pretexto para atacar o campo, dessa vez com a cooperação alemã e um enorme caminhão com jatos d'agua. O afrontamento dura horas, barricadas pegam fogo e os manifestantes ?se revezam? durante o afrontamento. No camping as bombas de gás lacrimogênio parecem fogos de artificio. Policia recua mais uma vez, sem nenhuma prisão.
Vídeo resumido:

Terceiro dia: grande manifestação com mais de 30 mil pessoas. Durante a trajetória acampamento ? ponto de encontro (6 KM) a policia tenta proibir os ?manifestantes radicais? de passar 3 vezes. 3 vezes afrontamentos e recuo da policia. Ao chegar ao ponto de encontro da manifestação, há um atrasa para a partida e milhares de alemães não podem atravessar a fronteira bloqueados pela policia. Esperando a manifestação começar 3 postes com câmera são derrubados, um hotel incendiado, um posto de alfandega incendiado, um posto de gasolina incendiado, 2 igrejas pilhadas, e diversos afrontamentos com a policia. Durante a manifestação a policia bloqueia mesmo o percurso legal, e mais uma vez os afrontamentos acontecem. A partir daí varias prisões acontecem e a manifestação ?termina? caoticamente. Como todas as ruas estavam bloqueadas as pessoas não podiam nem mesmo chegar ao acampamento, aos seus veículos ou a estação de trem.

Após essa séie de protestos a policia visa ainda mais o acampamento e faz prisões quando os ativistas retornam da manifestação. No último dia a policia cerca todo o acampamento e faz o controle de todas as pessoas que saem do acampamento, várias pessoas são presas, materiais de foto e vídeo apreendidos, meninas sendo revistadas por policiais homens, entre outras arbitrariedades. Algumas dezenas de manifestantes ainda estão em prisão preventiva e três alemães foram julgados e condenados a penas entre 3 e 6 meses em prisão fechada. 2 deles já anunciaram que vão começar uma greve de fome. Breve relato entre preguiça, erros ortográficos e necessidade de falar.

31/03/2009

preparar a grande festa da humanidade

No texto abaixo, como escapar do serviço militar, as interessantes peripécias de um jovem para escapar de obrigações impostas pela visão militarista, que por muito ainda influenciará conceitos como os de estado, nação e soberania. E, pelo menos enquanto ainda estiver de pé essa estrutura econômica e política que opõe pessoas e povos, até mesmo nações que lograram romper ou iniciar um processo de ruptura com o capitalismo (felizmente, muitos aqui na América Latina, em maior ou menor grau: Cuba, Venezuela, Equador, Bolívia, Brasil, Paraguai, Nicarágua e agora o caçula El Salvador) terão que tolerar a presença dessa tola, maléfica e primitiva visão guerreira.

Registre-se também a breve queixa que o rapaz faz dos movimentos anarquistas, com relação à falta de firmeza e coerência dos mesmos. E o interessante é que esse texto vem sendo divulgado por entidades e espaços ligados ao movimento libertário e anarquista. Chamamos a atenção para esse detalhe, aparentemente insignificante, porque isso só mostra que há no movimento a necessária lucidez para perceber e lidar com suas próprias contradições, contradições que fazem parte de qualquer movimento que busca um mínimo de compreensão do desenvolvimento dialético da história e da humanidade.

E também mostra que o importante é ter em mente que, passar do velho para o novo, passar da compreensão à transformação das estruturas - seja para anarquistas, libertários ou socialistas - não significa exatamente agir de forma sempre coerente, perfeita, plena; afinal, isso seria fazer o jogo da velha ordem, seria deixar-se envolver por uma visão purista que somente beneficiaria aqueles que não querem a transformação, que fazem de tudo para negar a presença de pessoas, idéias e movimentos insatisfeitos com a ordem estabelecida.

Aos que querem conservar a ordem, é um ótima tática essa de desqualificar, apontar as incoerências, contradições e supostos oportunismos daqueles que pretendem revolucionar, como se aqueles que apregoam e forjam o novo tivessem que vir como anjos, tivessem que vir já como perfeitos frutos do novo. Como se os agentes da transformação não tivessem o direito de também estar em construção, a viver um constante e às vezes desgastante processo de ruptura com o dia a dia da ordem que negam, e na qual têm que trabalhar, evoluir, criar ou respeitar laços afetivos e familiares. E, nesse processo de recorrente construção e ruptura, claro que existem aqueles agentes que, em maior ou menor grau, aderem aos valores, práticas e vivências que caracterizam a velha ordem, passando reproduzir seus vícios, suas relações de poder, sua visão verticalizada e opressora. Mas isso não significa que todos os agentes da transformação enveredem por esse caminho, ou que não estejam minimamente lúcidos com relação a essas contradições e armadilhas.

Por outro lado, o detalhe acima apontado também mostra que, para aqueles que se colocam revolucionários da ordem, não há palavras, posições ou verdades definitivas. O movimento anarquista é passível das mesmas limitações, incoerências ou contradições que os socialistas. Uns e outros têm que se ver como complementos e não como oposição insolúvel ou agentes mutuamente excludentes.

Anarquistas têm que levar em conta que, talvez, talvez, o projeto de eliminar o Estado limitador, hierárquico e burocrático, somente possa se concretizar junto com o processo socialista, quer dizer, talvez uma sociedade libertária somente possa se consolidar a partir de um mínimo de superação do capitalismo pelo Estado socialista. Enquanto isso, libertários têm que aprender a respeitar e conviver com os agente do processo socialista, mas sem jamais renunciar à tarefa de denunciar os desvios desses agentes, seus deslumbramentos, seus oportunismos, suas reproduções das relações autoritárias próprias da velha ordem.

E, claro, também jamais renunciar à sua tarefa de insistir em apontar para os socialistas, e às pessoas em geral, o horizonte último da caminhada humana sobre a Terra, qual seja, o horizonte do congraçamento, da pacificação, da confiança, da riqueza de relacionamentos, da reverência para com os outros e com o mundo, enfim o horizonte da verdadeira Festa, com a qual podemos nos deparar lá à frente na História.
Anarquistas e libertários talvez sejam os últimos agentes que podem e devem manter acesa a chama que aponta para esse horizonte último da humanidade, e que aponta concreta e lucidamente, com argumentos e análises sérias, convincentes (sem se inspirar na metafísica própria da religião e nem se amparar na liberdade visionária própria da arte). Portanto, devem fazê-lo sem o constrangimento de parecerem utópicos, sonhadores, obsoletos, inconsistentes, escapistas e outros tantos adjetivos que são lançados - ora da direita, ora da esquerda - contra o movimento.

Já socialistas têm que meramente cumprir a sua tarefa de superação e eliminação do Estado capitalista, com eficiência e disciplina, lucidez e coragem, sem se preocuparem com um horizonte muito longínquo, com um hipotético mundo sem contradições e conflitos de qualquer ordem. Socialistas não trabalham com o ideal ou o desejável, mas com aquilo pode ser construído e forjado a partir das condições históricas presentes, concretas. Mas isso não os habilita a ignorar as posições de libertários e anarquistas, ou a desqualificá-las.

Pelo contrário, deveriam entender as aspirações libertárias como algo que mantém acesa a chama da utopia maior para a humanidade, como a lembrança de que a luta não se esgotará na superação do capitalismo, mas terá que ir adiante, rumo à supressão total de toda e qualquer estrutura que aliene o os homens e mulheres de sua palpitante relação com o mundo e consigo próprios.
Socialistas têm que ter em mira o horizonte apregoado pelos movimento libertário - claro, não para se basearem nele, mas para não se mumificarem, não se acomodarem, não se traírem no seu glorioso, redentor e indispensável combate contra o capitalismo, sabedores que os brados e barricadas libertários são como uma alerta para seus desvios de conduta no duro e cotidiano enfrentamento com as estruturas da velha ordem.
E, tão importante quanto os alertas, socialistas têm que aprender a ouvir os chamados à utopia feitos pelos libertários.

Afinal, anarquismo não é brincadeira, não é escapismo ou fuga da verdadeira luta; não é algo abstrato, que existiria independente da realidade humana, o anarquismo não tem vida separada do ser humano, não surgiu antes dos homens e mulheres, as exigências e propostas libertárias são exigências própria da condição humana, há todo um fundamento filosófico, ético e ontológico a ampará-las.
Na verdade, as aspirações libertárias são apenas uma síntese daquilo que há de melhor, mais digno e mais comovente na arte, na religiosidade, na cultura popular, na ação política. O que acontece é que o que diferencia esse diferença desse movimento está exatamente em propor tudo isso para aqui e agora, a essência do anarquismo está na sua postura de acreditar que o melhor do ser humano e da vida pode e deve ser vivido sem mais delongas, sem quaisquer mediações ou condicionamentos, sejam eles filosóficas, políticas, artísticos, religiosos ou econômicos.

Quer dizer, a riqueza libertária está em nos lembrar que sempre seremos capazes de dar o melhor de nós e despertar o melhor do mundo e dos outros aqui e agora. O anarquismo nos lembra que a Grande Festa da vida e do mundo não é utopia, sonho ou delírio, muito menos prêmio raro ou celestial, e sim algo a ser construído pela nossas mãos e mentes, pelos nossos corações e espíritos. . E essa lembrança, esse apelo deve ser levado a sério também pelos seus irmãos de luta, os socialistas das mais diversas correntes.
Roberto Soares Coelho

como escapar do serviço militar

(postado na lista de discussões da palca, volume 113, assunto 01)
Caio Maniero D’Auria é um enxadrista. Calculista. Paciente. Insistente. Irritante, até. Graças a essas características, tornou-se, aos 22 anos, o primeiro brasileiro dispensado do serviço militar obrigatório por “razões políticas e filosóficas”. Na prática, significa que ele foi dispensado sem nem precisar jurar à bandeira. Para muitos, a formalidade é apenas um detalhe. Para ele, uma batalha de quase cinco anos de duração em defesa da “liberdade”.

Todos os anos 1,6 milhão de jovens alistam-se e cerca de 100 mil são incorporados ao Exército, à Marinha ou à Aeronáutica (em 2008 foram 80 mil), segundo o Ministério da Defesa. Desses, 95% declararam no alistamento desejo de servir. Os que não queriam, foram convocados por ter alguma habilidade necessária à unidade militar da região. “A Estratégia Nacional de Defesa pretende alterar esse quadro, de modo a que o serviço militar seja efetivamente obrigatório, e passe a refletir o perfil social e geográfico da sociedade brasileira”, anuncia o Ministério da Defesa, sem dar detalhes de como isso será feito.

Por ora, a única exigência feita para os dispensados é uma pastosa cerimônia de Juramento à Bandeira, tão esvaziada quanto a obrigação de executar o Hino Nacional antes das partidas de futebol em São Paulo. Ninguém reclama. Caio recusou-se.

Determinado a encontrar um meio válido de não jurar à bandeira, entranhou-se nas leis militares. Telefonou para o Comando Militar do Sudeste e soube que podia pedir para prestar um serviço alternativo e que, por não haver convênio firmado, isso resultava na dispensa automática. “Mas a secretária da Junta Militar me falou que só Testemunhas de Jeová podiam alegar objeção de consciência. Ela me mandou jurar à bandeira, mas eu estaria mentindo se jurasse dar a vida pela nação, pois jamais faria isso”, diz, com um sorriso tímido de quem mal deixou a adolescência.

De próprio punho, Caio redigiu uma “declaração de imperativo de consciência”, e declarou-se anarquista. A Junta Militar exigiu a declaração de uma associação anarquista confirmando o vínculo. Caio, então, contatou mais de vinte organizações em busca de, como diz, uma “carta de alforria”. Perdeu um ano nessa. “Os anarquistas brasileiros não tiveram a coragem de colocar em prática o que tanto pregam. A maioria está mais interessada em festinhas”, reclama. E pondera: “Acho que eles tiveram medo de ser fichados pelo Exército”.

Desiludido, encontrou na internet a organização Movimento Humanista. Enfim, sentiu que seria atendido. “Pregamos a não-violência e somos contra o serviço militar obrigatório”, diz Paulo Genovese, coordenador do grupo, que faz reuniões semanais e promove a Marcha Mundial pela Paz e pela Não-Violência.
Diante de nova declaração de objeção de consciência, a Junta pediu dados dos integrantes e o CNPJ da organização. Três meses depois, foi preciso detalhar quais eram as incompatibilidades do movimento com o serviço militar. Era janeiro de 2008. “Passei noites em claro redigindo. Fui pessoalmente entregar”, diz, satisfeito. Sustentou que os humanistas colocam “o ser humano como valor central”, enquanto os militares devem defender a pátria “mesmo com o sacrifício da própria vida”. E que o “repúdio à violência” é incompatível com o “amor à profissão das armas”.
Quatro anos e oito meses após se alistar, Caio pegou seu Certificado de Dispensa do Serviço Alternativo. Em 2008, apenas seis jovens foram eximidos por objeção de consciência. Nos últimos cinco anos, 232. Mas Caio foi pioneiro. “Nunca motivos políticos livraram alguém, o meu processo é o número 001/08. Abri um precedente e agora tenho onde lutar por minha liberdade e pela dos demais”, comemora ele, que é analista de dados de telemarketing. Há anos quer prestar concurso público. Agora pode.

17/02/2009

os ingovernáveis deste mundo: anarquistas e libertários

De certa forma dialogando com a matéria Rumos do FSM, postada agora em fevereiro, DESVELAR publica abaixo trechos de manifestos, elaborados em 2001, e outros textos e endereços de caráter libertário. Mas não apenas com o objetivo de complementar as abordagens sobre o FSM, o foco aqui não é um contraponto ou debate sobre o Fórum, e sim divulgar e contribuir para o próprio movimento libertário, que é uma das propostas deste blog. Na verdade, já vinha há algum tempo preparando uma seleção de textos de natureza libertária. São matérias extraídas de publicações anarquistas ou independentes - alguns endereços estão na lateral, na seção “pontes - dia-a-dia”.
Claro que não há aqui a pretensão de esgotar, em meia dúzia de textos, a história, as idéias, as diferenças e singularidades do anarquismo em relação ao socialismo, e muitas outras questões. Afinal, a luta libertária tem uma trajetória longa, rica e extremamente combativa, trajetória essa que inclusive vem demonstrando sua atualidade nas revoltas populares da Grécia, agora em dezembro de 2008, nas quais os anarquistas têm tido uma combativa e destacada presença. Dessa forma, optei por publicar aos poucos, em cada mês, o material teórico, as notícias e os manifestos oriundos do movimento libertário, nos seus diversos movimentos e correntes, ou seja, pretende-se neste blog uma continuidade e uma constância desse diálogo com o movimento libertário.
Mas voltar ao FSM é uma boa maneira de começar a conhecer as propostas do movimento libertário. De um lado, intelectuais e militantes de movimentos sociais, partidos e governos de esquerda, fazem exigências e propostas à direção do Fórum Social Mundial, para que esse de fato avance na busca conjunta de alternativas concretas para a superação do capitalismo. Principalmente neste momento de abalos nas estruturas do sistema, quando podem se abrir oportunidades reais, não de uma ruptura súbita e de uma transformação total em nível global, mas ao menos para se consolidarem governos e formas de organização alternativos, de caráter mais popular, democrático e igualitário, e menos individualistas e agressores do homem e da natureza.
Já quanto aos militantes e expoentes do movimento anarquista e libertário, vão numa direção diferente as suas críticas ao FSM, tanto em termos de apontar caminhos para o Fórum quanto para a superação do modelo econômico que domina as nossas vidas. Os movimentos libertários alertavam, já desde os inícios do Fórum, em 2001, para o perigo da “captura”. Ou seja, o advento de um espaço global como o Fórum Social Mundial teria sido, na verdade, uma forma de neutralizar, de capturar a revolta e o enfrentamento ao capitalismo (e à sua versão mais recente, o neoliberalismo), enfrentamento esse que se iniciou através das grandes manifestações de rua em Seattle, em Gênova, em Bolonha, em Washington e inúmeras outras cidades, por ocasião dos encontros do G8, do Fórum de Davos, do Banco Mundial e de outras instâncias representativas do neoliberalismo. Na verdade, anarquistas e libertários colocam-se nas origens do próprio Fórum Social Mundial, reivindicando para eles uma atuação combativa e fundamental nessas mesmas articulações e manifestações de rua, que inauguraram uma contestação mais consolidada ao capitalismo neoliberal.
Nessa crítica radical ao FSM, o risco estaria, então, na perda da espontaneidade e da horizontalidade dos protestos e dos esforços que buscam construir um mundo diferente. Pois, para o anarquismo, toda ação realmente revolucionária e transformadora do mundo e da vida não pode ser limitada, não pode se dar nos estreitos limites dos poderes instituídos, tais como partidos políticos, governos, sindicatos, poderes que se caracterizam pela hierarquia, pela autoridade e pela verticalidade de comando, mesmo que se tratem de poderes com propostas esquerdistas, socialistas ou progressistas. Pois, a partir do momento em que as forças revolucionárias institucionalizam-se através do poder do Estado, o seu ímpeto transformador, igualitário e criativo é neutralizado, é contaminado pelas práticas e valores da velha ordem, mantida por aqueles que deveriam ser combatidos e superados pela historia.
Desse ponto de vista, os anarquistas entendem que, senão todas, a maioria das forças presentes no FSM - ONGs, movimentos sociais, partidos e representantes de governos progressistas - fariam parte do mesmo processo de captura da espontaneidade e da verdadeira transformação, a partir do momento em que essas próprias forças também já teriam sido capturadas, neutralizadas pelas práticas, valores e visões institucionais, verticais e hierarquizadas.
Para uma melhor compreensão, publicamos aqui trechos de manifestos de dois coletivos libertários. Vale informar que os textos são do ano de 2001 e 2002. A escolha deve-se não só à clareza, firmeza e atualidade de suas posições e análises, como também a uma espécie de resgate histórico, de mostrar que já existia uma produção teórica anterior ao próprio FSM, enfim, todo um acúmulo em termos de enfrentamento do neoliberalismo. Independente de se concordar ou não com as posições expressas nos textos, conhecê-los é um exercício de inquietação intelectual e abertura àqueles que pensam diferente, e que manifestam essa diferença com coragem e lucidez.
E, para quem se interessar, seguem outros textos e páginas, diretamente nos endereços de origem:
http://ervadaninha.sarava.org/pagina2.html - espaço anarquista com conteúdo abrangente e linguagem incisiva.
http://anarkopagina.org/noticias/grecia.nova.internacional.html - manifesto anarquista por uma nova internacional.
http://diplo.uol.com.br/2009-01,a2732 - embora não focado no movimento libertário, o texto traz infomações e análises do Le Monde Diplomatique sobre a participação dos anarquistas nas recentes revoltas populares na Grécia.
http://grecia-libertaria.blogspot.com/ - divulga o movimento libertário na Grécia, bem antes das revoltas de Dezembro de 2008 (em espanhol).
http://www.nu-sol.org/links/links.php?tipo=1 - página do nu-sol que remete a vários outros endereços.

dois manifestos libertários

Os textos abaixo são fragmentos de manifestações de coletivos anarquistas e libertários expondo os motivos de sua recusa em participar do FSM, já em 2001. São um complemento da matéria os ingovernáveis, publicada este mês aqui no DESVELAR, e a íntegra dos textos está em http://www.geocities.com/comunistasdeconselhos/fsm.htm.

FSM 2001
Não iremos ao Forum "Social" Mundial! E não estamos sós!

Companheir@s
Nós não iremos ao autoproclamado Fórum Social Mundial. Em nosso coletivo, há um "consenso" de que tal Forum é a tentativa dos setores da esquerda tradicional, a velha esquerda estatista e burocrática, de apropriar-se da luta contra a "globalização" capitalista numa perspectiva nacional - desenvolvmentista. É a esquerda que quer o capitalismo "humanizado"; que quer "socializar" a mercadoria; que quer governar o Estado. Não é à toa que se realizará em Porto Alegre, escolhida, aliás, como capital permanente do evento: é o laboratório dos governos da esquerda oficial em nosso país, com o PT à frente.

O Forum é uma articulação que vai desde a Conferência dos Bispos Católicos (CNBB), passando pela degradada CUT, os partidos da esquerda institucional, o MST, até organizações empresariais.

A estrutura do Forum é hierárquica, verticalizada, como sói de ser esses eventos da esquerda burocrática. Palestrantes/conferencistas, de um lado, e, de outro, público espectador. Não tem nada a ver com as nossas experiências horizontais, democráticas, autônomas, organizadas desde baixo, como no N30, M1, S26 e assim por diante. Aliás, é preciso que se diga: nenhum dos grupos que estão organizando o FSM participou de nenhum dos dias de ação global contra o capitalismo!!!! Eles não se sentiriam bem: o que eles sabem fazer são os velhos congressos de "representantes" que não representam ninguém, manifestações que mais parecem "showmícios", campanhas eleitorais mais estetizadas do que as dos partidos tradicionais da burguesia...

O que eles querem com esse Fórum?

1. Apropriar-se de uma luta da qual não participam: os dias de ação global conta o capitalismo;

2. Absorver a crítica anticapitalista numa elaboração de um projeto de administração capitalista, cujo centro a ilusão de uma política de "desenvolvimento nacional";

3. Catapultar-se eleitoralmente como alternativa de governo.

Nós não vamos ao Forum Social Mundial. Nem nós, nem a grande maioria (se não a totalidade) dos grupos que vêm participando das lutas em nosso país contra a farsa dos 500 anos, das ações globais, que rejeitaram a burocratização e a partidarização do II Encontro Americano pela Humanidade e contra o Neoliberalismo...
Coletivo Contra-a-corrente, 6 de Dezembro de 2000

FSM 2002 - A re-edição do espaço concedido das cúpulas, da recaptura e do falso diálogo

Mais uma vez, milhares de todos os continentes acorrerão ao FSM: governos de esquerda, entidades clericais, ONGs, intelectuais, catedráticos, estudantes, grupelhos ideológicos detentores de toda verdade ou de humildes meias-verdades, políticos profissionais, sindicalistas, ou seja, representantes e especialistas de toda espécie; igualmente, gente desavisada e curiosa, muitos turistas e até mesmo indivíduos e coletivos revolucionários, organizados ou desorganizados, alguns honestos e de boas intenções. De fato, o arco-íris perde feio para a infinidade de cores que vai se estabelecer em Porto Alegre, em fins de janeiro e início de fevereiro de 2002. Perde feio exatamente ali onde a diversidade de cores do arco-íris é uma diversidade real, ao passo que o falso arco-íris do FSM é o inútil arremedo da diversidade que o mercado e os estados conseguem produzir quando para isso se esforçam.
Mas até já podemos antever os resultados desse espetáculo: a promessa de lutar contra e em prol de muitas coisas. Lutar contra o domínio do capital especulativo sobre o produtivo, contra o modelo econômico excludente (mas nunca contra o próprio capital e seus estados); reivindicar por mais verbas sociais, pela taxação do capital especulativo, pela participação popular, cooperação e autogestão local, enfim, por medidas concretas de incremento da cidadania plena, num esforço em desenvolver o protagonismo da sociedade civil, ampliar e democratizar ainda mais os programas e as finalidades das instituições globais de crédito financeiro para projetos sociais, esforços há muito sugeridos pelos setores hoje hegemônicos do capital transnacional, através do Banco Mundial, do Banco Interamericano de Desenvolvimento e outros instrumentos. Os protagonistas do FSM lutarão por muitas coisas, desde que pelo bem do estado democrático de direito e por um bom desenvolvimento capitalista com distribuição de renda e justiça social - como se isso fosse possível sob o domínio mundializado do mercado e do sistema de estados - sempre sem pôr em xeque o próprio desenvolvimento capitalista.
Num jogo de cartas marcadas, o único protagonista real é quem as dá; @s demais jogador@s são apenas coadjuvantes que, conscientes ou ludibriad@s, colorem e ajudam a corroborar a farsa. É desse modo que o FSM se constitui como um espaço das cúpulas, dos dirigentes e chefes da sociedade civil burguesa, para os quais a condição de assalariad@ é o objetivo essencial a ser atingido, desde que com bom salário e capacidade de consumo. Eis a garantia básica de que haverá sempre eleitores e bases políticas, sindicais, etc para garantir a fortaleza e a legitimidade das instituições democráticas e da representação e o poder que necessariamente elas comportam. O FSM é um paraíso dos especialistas de esquerda, um exemplar exercício das separações entre os que pensam e os que fazem, os que falam e os que assistem e/ou ouvem, os que decidem e os que executam. A passividade que concede fôlego ao sistema é fortalecida no FSM através de suas palestras e pequenos arranjos cosméticos, como as oficinas e os acampamentos que tentam seduzir a juventude e muit@s anticapitalistas. Estes acabam, no final das contas, envolvid@s como massa manobrada ou, no máximo, como vanguarda crítica, pois têm seus discursos e iniciativas autônomas engolidas por uma supremacia oficial que só poderia ser neutralizada e destruída através de espaços que lhes fossem antagônicos desde a raiz e em tudo.
Um espetáculo como o FSM é um momento central do sistema, pois tem o objetivo de forjar um pacto social democrático que ponha rédeas no movimento contestatório mundial, sob as mãos dos fiéis ideólogos e representantes da esquerda do capital. Como alternativa de administração do sistema mercantil-estatal, com relativa influência nos meios sociais de resistência cotidiana, a esquerda do capital procura, desesperada, recuperar para a ordem as lutas e organizações autônomas d@s de baixo para enquadrá-las nesse pacto. Desde Seattle e, principalmente, após as insurreições do Equador, da Bolívia; desde Gênova, e mais recentemente na insurgência d@s proletarizad@s que vivem sob e contra o Estado argentino, a esquerda do capital busca desesperadamente implementar esse projeto de despotencialização e captura da autonomia. Eis a verdadeira intenção do FSM: colocar a rebeldia sob o domínio institucional, intenção esta que ultimamente tem tomado mais fôlego devido ao clima de "guerra e anti-terrorismo", fato que exigiria mais moderação, cautela e sapiência dos "movimentos antiglobalização", segundo os hipócritas ideólogos de plantão.
Não pode haver no FSM lugar para a horizontalidade das relações diretas. Antes, o FSM credencia-se como espaço de cúpula dos agentes do capital corruptores das resistências parciais cotidianas. Enquanto os agentes hegemônicos do FSM estimulam na vida cotidiana as hierarquias próprias do mundo da mercadoria, as resistências autênticas e as lutas sociais perdem cada vez mais a capacidade de se desenvolver como iniciativas autônomas, diretas e solidárias, como uma negação prática do capital capaz de se contrapor aos ataques diretos ou sinuosos que este realiza com a finalidade de impedir uma ação coletiva anti-mercado e anti-Estado.
Da mesma forma que o esforço das demais forças da ordem democrática do capital, o FSM estabelece, através do falso diálogo, sutilmente, a conservação das hierarquias. O falso diálogo se dá antes e além do próprio estabelecimento do FSM, já que a existência de um espetáculo como o Fórum só é possível a partir do espetáculo cotidianamente vivido por muitas organizações e lutas de resistência; basta observarmos como os valores e métodos da ordem estato-mercantil, como a tutela pelas lideranças, o ativismo, o autoritarismo, o verticalismo organizativo, o machismo, a homofobia etc. estão arraigadas em várias destas experiências de "resistência". Não podemos falar de relações diretas, de horizontalidade e de diálogo prático em espaços que não estejam fundados na socialização direta de experiências efetivas de luta contra o capital.
Além dos seus promotores, também irão ao Fórum os autoproclamados revolucionários de várias gradações vanguardistas, dos leninistas e guevaristas aos troskos e maoístas; ali, irão para espernear, denunciar e demarcar, buscando obter ganhos à sua posição, depois de terem devidamente esclarecido, com a ajuda da ideologia revolucionária de suas bíblias, os "iludidos", mas "honestos" e "combativos" transeuntes do FSM. Entretanto, o Fórum precisa ser criticado não essencialmente devido ao reformismo da esquerda brasileira, de ATTAC & Cia., suas hegemonias, suas políticas e seus programas burgueses, mas sobretudo porque, independentemente de quem o coordene ou o conduza, o FSM é um espaço baseado na sociabilidade burguesa, com suas representações, separações e passividade, fundado no falso diálogo e na falsa diversidade e na tolerância próprias do mundo burguês democrático.
Como parte do espetáculo, os grupelhos autoritários candidatos à vanguarda radicalizada são desde sempre também parte do espírito democrático do Fórum e não por acaso tão estatistas quanto os seus promotores, embora em defesa de um suposto "estado revolucionário". Todos fazem parte do espetáculo porque afinal é necessário ao espírito burguês que haja no Fórum, como no parlamento ou nas entidades sindicais, as oposições, as vozes "radicais" dissonantes participando dos momentos "horizontais" - e, de preferência, juvenis - do evento. Afinal, "outro mundo é possível" e tanto mais será "outro" quanto mais colorido for o espetáculo do espaço consentido de Porto Alegre. Que o mesmo - o capital e o estado - seja aquilo que se afirma por baixo desse falsamente outro, é coisa já dita e sabida... (...)
Esta nota é um esforço inicial de contraposição ao FSM, esforço ao qual chamamos que tant@s outr@s compas possam somar-se, assinando e multiplicando a sua divulgação massiva, antes, durante e após o FSM.
Um abraço forte!

Janeiro de 2002, sob os sons e as cores da insurreição d@s proletarizad@s contra o estado argentino.

Coletivo Acrático Proposta (Belo Horizonte), Proletarizad@s contra a corrente (Fortaleza), alguns anticapitalistas do Rio Grande Sul e do Ceará, Moésio Rebouças (São Paulo), Anselmo Malaquias, Tomás Bueno (Pirenópolis) vivendo sob e contra o estado brasileiro.