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01/11/2010

mineral

existe um homem cada mineral
e luta quando é chamado à vida
flui entre os quatro cantos do cristal...

também no limo, no lêvedo, e tudo
o mesmo homem, o vazio mudo
indiferente a prisão tão incontida

existe um homem cada mineral
mas estou só, perdendo-me amiúde
devolvo à morte a vida universal

carlos ernesto, em “flutuais” – viçosa, minas

28/03/2010

a Deus

tua delicadeza não bastou
quero chamas a consumir
os cataventos se foram
e meu rosto desaba no espelho

quero uma aliança com o eterno
que se renove na imensidão
da morte
e quando o equinócio chegar
quero estar no seu zênite

como um deserto que reflete
como um deserto que não termina
e se dana
na própria infinitude

quero-te e não te quero
aos demônios ouço
e te persigo
e me arrebato em tua poesia
inefável


retenho a vida, forte e insubmisso
tramas a minha morte
sou anjo de pedra
pedra ou sonho?
vida ou torpor?


sou-te e não me abrigo
tens a mim e não me possuis
amo-te e não entendo
a razão deste amor

carlos ernesto
(cartas ao mar fechado, edição do autor, 1979)

*************

Mas, interrompendo a vívida celebração de Vicente e Rilke, com o poema de Carlos Ernesto brota já uma primeira dissidência, um primeiro desafio à onipotência da divindade. Há na verdade uma como que rebelião da razão contra o mistério, do finito contra o infinito.
É como um grito que misturasse raiva e impotência, fascínio e lamento, pelo fato de a razão do poeta-filósofo não conseguir captar em sua inteireza o mistério do ser, e principalmente não conseguir se apreender no meio da rica ambigüidade humana, que é ser ao mesmo tempo fruto e alimento do Espírito.

É um magnífico e rico desfile de imagens a ilustrar a ambígua condição de alguns poetas do ocidente, a condição de ateus arrependidos e nostálgicos. Como se o Ser, o Mistério, não desse ao poeta ocidental outra opção que não um ateísmo, a partir do momento em que não se nos revela de forma clara, racional, a partir do momento em Deus não se nos manifesta de forma inequívoca, com sinais claros no céu da nossa vida e da nossa História.

A condição de ateu arrependido provém então, dessa incapacidade de poetas e filósofos do Ocidente em apreenderem o Mistério e o Sagrado através da simples intuição - ou daquilo que os religiosos chamam de fé – exigindo que esse Sagrado, que essa Fonte se manifeste de forma racional, ou pelo menos de forma mais direta, que jogue de igual para igual com o homem, e não do alto de sua obscura, intangível e arrogante realidade.
E ao mesmo tempo há uma certa nostalgia nesse ateísmo, uma saudade de um obscuro tempo de inocência, provavelmente na infância, quando tudo é magia, comunhão, celebração do mundo e do Mistério.

No fim do poema, um interessante e denso jogo entre rendição e resistência, entre comunhão e distanciamento, esse jogo de presença e fuga com que o Ser se apresenta àqueles que procuram inutilmente capturá-lo, desvelá-lo em toda sua inteireza, ou por outra, esse jogo com que Deus se apresenta àqueles que buscam vê-lo de perto, Face a Face

27/10/2009

adormece

sempre atento às virtudes da paisagem
que a jóia dos olhos presenteia
guarda as aves dos ovos azuis, preciosos
vislumbra o abandono da tarde de verão...

se os buritis te chamam, atende-os
que outra estiva igual não acontece
enovela os desertos fiados de teus sonhos
agasalha a criança faminta dos teus olhos...

as quatro porteiras da estrada, obstáculos
que o mundo, desigual, te conjurou...
esquece de teus gritos mais recônditos
não esquece ! caminha e mitiga...

colunas gregas, ilhas pacíficas, estranhas paragens...
nada disso podes vencer ou abarcar
recolhe teus olhos para os mundos mais distantes
beija a mão quente da tarde... flutua...

adormece, amigo
carlos ernesto - viçosa, minas

23/05/2009

constelação

o céu é uma abóbada de lótus
tudo é público...

as abstrações, os vapores... desprezíveis!

só existe a prostituta, qualquer prostituta
que conta estrelas, só
despojada, infernal
pernalta
gritante

e na última constelação
só ela vibra, ruflando asas
voando...

sobre horizontes pudicos e justos

carlos ernesto - flutuais, 1985

nosso tempo

meu tempo é louco
louco e mastigável (feito drops)
nele não há orifícios é incolor
e decíduo

onde repasta-se é mudo, torpe e
aleijado (parece um velho doente)

meu tempo não vibra, não torna
em nada transforma - é feio e arrasta-se

meu tempo é fantoche ridículo
estático
cheirando a pó e fungos
venenosos

carlos ernesto (flutuais)

noturna

passeiam o bêbado e o frio
com o rosto pesado e violento
sob um montulho de círios
a cidade é um pasto adverso

tem seus signos e visgos
hálitos e urtigas

e também um eco medonho
que o bêbado sorve, pensando
trair frieza da vida

carlos ernesto (flutuais)

21/05/2009

a metamorfose

diante de mundo rápido
tempo estremece
não há tempo para vertigens
movimentos
soluços
revoltas

seus olhos ardem
não compreendes as razões
há mercúrio letal
em tuas veias
em tuas artérias
mercadores
marcam tua carne
mostram-na
avaliam-na

você compra diariamente
consome
vício inadiável
pacto ancestral
gosto de carne
ferro aço
naves de alumínio
(nunca voaste)

trazes
alma volátil
peso absurdo
se desfaz em mil folhetos

dia a dia
gota a gota
você não percebe
não discrimina
o homem da maqui-máscara
a fruta da massa plástica

e qualquer dia
você vai correndo
pela rua
em becos
e bueiros
e te chamarão...
rato rato
rato rato

carlos ernesto (flutuais)

04/12/2008

poema inexato a arthur rimbaud

percebi um anjo correndo
quase-luz, fugia lépido
carregando pesados fardos

no chão algumas moedas engraçadas
no fim da linha um brilho esquisito

o anjo nada via
eu notei que devorava as flores
de um jardim intangível e perfeito


carlos ernesto