27/10/2008

eternas... - roberto soares

Um de meus poemas, lidos durante o encontro "Poesia ao Vivo" - a leitura foi feita pela atriz Cristina Garcia.
eternas ternuras desencontradas
moça dançarina manhã.
tudo então lhe revelado
o êxtase explodiu sábado
na fronteira da noite com o dia
entre o baile dos clubes e becos
e o piquenique dos ônibus e campos.
domingueira. toda. úmida.
“as veias túmidas de ser.”

embora o fruto tenha sido
colhido
lambido
bebido
comido
por um outro, ímpar
embora saiba ter explodido
o caminho antigo:
o par esquecido

embora assim, vai embora
com o par – atrás do novo par!
segui-lo-á por todo o domingo
e por toda a nova e enevoada
trilha do coração
(par-ou-ímpar?)

ecos


meditação no crepúsculo

que obstinação nesta árvore em dar
por dar frutos por todo o pomar.
e que obstinação em virar lenha
no fogo das causas em que se empenha,
negando-se ao discurso enfadonho
que incendeia as pontes para o sonho,
negando-se a ouvir os boletins
de um mundo de inúteis galarins,
e renegando o homo-hierarchicus
com todos os seus cânceres tão práticos,
rasgando a pele e a carne da aparência
em busca dessa sempre esquiva essência,
e transformando em mantra a vida humana
vibrando nessa consciência una.

(waldo motta, "waw")

19/10/2008

luto - roberto soares

luto, lustro
(cinco anos de 11 de setembro)

olha aí do seu lado
pode ser ele
bin laden
ei, olha de lado
não olha direto

mas onde ele tá
à direita
à esquerda
do lado de lá
do lado de cá?

agora olha lá bin laden
escorregando
nas grutas e ladeiras da ásia
ladino, latino

olha bin laden
bombando todas
bum! bum!
boing! boing!
bom bom?

e olha os doidos dos árabes
orando para bin laden
e lá em cima no norte
a ladainha da morte
o louco balé de bush e blair
envoltos nas bandeiras listradas
por quanto tempo sangrentas
e ensangüentadas?

bin, bin, bum, bum!


ecos

laivos - roberto soares

laivos, lavai-vos


é preciso que a memória
se lave nesses laivos de dourado
que descem escadas de nuvens e pedras
a ondular como carícias aéreas
sobre verdes recém-amanhecidos

(até a dura mãe-montanha
se curva a admirar:
a chuva de ouro matinal
sobre as cabeças das árvores-crianças)

e rasgue como faca
os espessos véus de tempo
rumo a surpresas primevas
e aí erga templos despojados
e precários sustentáculos

antes que a ponte de tempo
se esfume no instante
e que a fome de verbo
de novo ignore a si mesma
e ao alimento aí à tua frente