20/11/2012

ato de contrição - parada de beira de estrada

por várias semanas, no ano de 2000, eu  acompanhei as idas desse senhor a  uma pracinha perto de onde eu morava, aqui no centro de vitória.
sempre após o almoço, e sempre solitário, calado e meio que melancólico.
algum tempo depois eu vi que era mais um dos milhares de catadores de papel e de quinquilharias,  que vagam pelas esquinas
e lixos das cada vez mais absurdas cidades dos homens. 

e suas idas à pracinha me pareciam uma espécie de parada de beira de estrada, um repouso, um intervalo na sua solitária e anômina jornada em meio à cidade. 
somente consegui registrar suas idas e vindas em três ocasiões - ele sempre usava as mesmas duas camisas, na maior parte dasa vezes com uma sacola de plástico nas mãos, certamente a carregar suas parcas coisas. 
e o que me chamava  a atenção era o fato de ser uma parada na qual o peregrino  não se permitia nem mesmo se sentar ou se deitar num dos bancos da pracinha, como qualquer andarilho o faria.

como se um resto de dignidade o impedisse de demonstrar que era apenas mais um andarilho, um catador de coisas, de restos.
ou como se se estivesse a fazer -  ali em pé, solitário e silencioso - um espécie de ato de contrição.

um ato de contrição pelo pecado, pela falha de não ter sabido, ao longo da vida, tornar-se minimamente um vencedor, por não ter aprendido a se comportar de maneira minimamente obediente, disciplinada, ou apenas esperta, em meio à vitoriosa estupidez da civilização ocidental.

quem está na idade média: gaza ou israel?


Ódio e Negócios
por Laerte Braga - trechos


Estão juntos na barbárie nazissionista contra palestinos. O ódio bíblico da presunção de superioridade racial, de missão divina, os “negócios”, nos saques e na pirataria contra vidas e riquezas palestinas. Pior. Esse ódio e esses “negócios” se espalham pelo mundo no cinismo que caracteriza os sucessores de Hitler.

“Vamos levar Gaza de volta à Idade Média”. Foi a declaração de um dos ministros do gabinete terrorista de Tel Aviv. Ficou estampada em todos os jornais do mundo. Não havia como esconder. Os vídeos e fotos de corpos de crianças, mulheres, idosos mortos na insanidade fingida, na falsa indignação de quem ocupa terras alheias são universais e se incorporam à História da crueldade em todos os tempos.


Os ataques de Israel contra Gaza são crime de genocídio e têm o apoio de nações como os Estados Unidos e sua principal colônia na União Européia, a Grã Bretanha. O sangue de palestinos corre por todo o mundo despertando a revolta de seres humanos que ainda se mantêm como tal.


Os corpos estendidos, os olhares aflitos, a dor, a revolta, são da incompreensão de tanto ódio, de tantos “negócios”.


O governo terrorista de Israel se apropriou de terras e águas palestinas. No caso da água uma empresa sionista explora o bem em terras palestinas e cobra o dobro de palestinos. São ladrões contumazes ao longo da história. E curiosamente o Alcorão proíbe a cobrança de juros. É uma diferença abissal entre o ódio e os “negócios” e simplicidade de pastores de ovelhas, agricultores expulsos de suas terras, cercados por um muro e atemorizados por batalhões de homens bestas, ou bestas feras armados até os dentes e sem o menor brilho humano nos olhos. 

Em Gaza os palestinos vivem da produção de flores e frutas, entre outras atividades primárias, mas ricos em sua essência. As flores estão sendo mortas e não estão “vencendo canhões”.

Parar com esse horror? Basta que os chamados grandes queiram fazê-lo. Israel deixou de ser um direito de um povo – a despeito dos protestos de judeus em todo o mundo contra o seu governo – para se transformar naquilo que Einstein, ainda no final da década de 40 e início da década de 50, previa. Criminosos no governo.

É uma falácia a afirmação que foguetes do Hamas atingem Jerusalém. São rojões perto do arsenal químico (fósforo branco) e nuclear (urânio empobrecido) dos terroristas de Tel Aviv. Ou de Treblinka, difícil dizer a diferença.

É inexplicável o silêncio de governos do Egito, da Jordânia, dos países muçulmanos diante do massacre inaceitável. É um silêncio que soa como punhalada. (...)
(...) É ódio e são “negócios”.
A judiação imposta ao povo palestino só encontra paralelo nos campos de concentração do 3º Reich.
Vivemos o apogeu insano do 4º Reich.

Começam a soprar ventos de insatisfação nos EUA. Nem os norte-americanos agüentam mais tanta violência e tanta crueldade.
Bem fez Chávez que, em 2006, percebendo o perigo da suástica transformada em cruz de Davi expulsou de seu país todo o corpo diplomático israelense da Venezuela.


Não basta pedir paz. Que paz? Há que ter ser liberdade para a Palestina. O Estado Palestino como decidido pela ONU.
Há que se cumprir as mais de 50 resoluções da ONU que condenam Israel por práticas terroristas, tais como uso de força excessiva (eufemismo para barbárie), armas químicas, biológicas, tortura, estupros, assassinatos seletivos.
Israel nunca quis a paz e quando a paz se ofereceu Israel matou seu próprio líder, Itzak Rabin. Atribuíram o crime a um “fanático” judeu. Se sabe, hoje, que era um agente do MOSSAD abrindo caminho para os terroristas; à frente, Ariel Sharon.
A sanha bárbara e terrorista de Israel quer terras, quer negócios, quer juros nos seus bancos, usa a bíblia como escudo, no fundo têm a convicção que são superiores.
Superiores sim na insanidade.
 
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A íntegra do texto está aqui

19/11/2012

guaranis-kaiowás x veja: direito de resposta

Campanha reivindica direito de resposta aos guaranis-kaiowás

A fúria conservadora contra o reconhecimento dos direitos constitucionais dos índios guarani-kaiowá ganha corpo na mesma proporção em que a campanha em prol da etinia ocupa mais e mais espaços, nas ruas e nas redes sociais de todo o mundo. E neste processo, a mídia conservadora, como era de se imaginar, se torna terreno fértil para a propagação de todo tipo de preconceitos e inverdades históricas contra as populações indígenas. É neste ambiente que índios e defensores dos direitos humanos se uniram para lançar a campanha “Direito de resposta aos Guarani-Kaiowá Já!”, direcionada à revista Veja, precussora dos ataques.

“A escrita, quando você escreve errado, também mata um povo”, afirmaram professores guaranis-kaiowás a respeito da matéria “A ilusão de um paraíso”, publicada na edição de 4/11. De acordo com os organziadores da campanha, a matéria é “claramente parcial no que diz respeito à situação sociopolítica e territorial em Mato Grosso do Sul, pois afirma que os indígenas querem construir ‘uma grande nação guarani’ na ‘zona mais produtiva do agronegócio em Mato Grosso do Sul’”.
Também distorce à atuação política de grupos indígenas supracitados e órgãos atuantes na região, “desmoralizando os primeiros ao compará-los, ainda que indiretamente, a ´massas de manobra´ das organizações supostamente manipuladoras e com uma ´percepção medieval do mundo´.

A campanha classifica a matéria como irresponsável e criminosa, por estimular medo, ódio e racismo. Um exemplo? “O resto do Brasil que reze para que os antropólogos não tenham planos de levar os caiovás (sic) para outros estados, pois em pouco tempo todo o território brasileiro poderia ser reclamado pelos tutores dos índios”, afirma o texto da revista.

A postura de Veja não é isolada. Hoje, foi a vez da Folha de São Paulo ceder espaço para um outro texto-síntese do pensamento conservador brasileiro. O artigo de Luiz Felipe Pondé aparentemente se volta contra os adultos que aderiram à defesa da causa guarani-kaiowá e uniram o nome da etnia aos seus próprios nas redes sociais. Os militantes virtuais são chamados de loucos, ridículos e mediocres, entre outros adjetivos de nível idêntido.

Mas o pano de fundo do texto também é atacar a causa do povo indígena também é duramente atacada. “Desejo que eles arrumem trabalho, paguem impostos como nós e deixem de ser dependentes do Estado. Sou contra parques temáticos culturais (reservas) que incentivam dependência estatal e vícios típicos de quem só tem direitos e nenhum dever. Adultos condenados a infância moral seguramente viram pessoas de mau-caráter com o tempo”, diz um trecho do artigo.

Participe da campanha.

somos todos gaza



transcrito  de   resistir

13/11/2012

josé dirceu: não acabou

"Esse processo viola a Constituição e o Estado Democrático de Direito"

por José Dirceu, em  carta maior

Dediquei minha vida ao Brasil, a luta pela democracia e ao PT. Na ditadura, quando nos opusemos colocando em risco a própria vida, fui preso e condenado. Banido do país, tive minha nacionalidade cassada, mas continuei lutando e voltei ao país clandestinamente para manter nossa luta. Reconquistada a democracia, nunca fui investigado ou processado. Entrei e saí do governo sem patrimônio. Nunca pratiquei nenhum ato ilícito ou ilegal como dirigente do PT, parlamentar ou ministro de Estado. Fui cassado pela Câmara dos Deputados e, agora, condenado pelo Supremo Tribunal Federal sem provas porque sou inocente.

A pena de 10 anos e 10 meses que a suprema corte me impôs só agrava a infâmia e a ignomínia de todo esse processo, que recorreu a recursos jurídicos que violam abertamente nossa Constituição e o Estado Democrático de Direito, como a teoria do domínio do fato, a condenação sem ato de ofício, o desprezo à presunção de inocência e o abandono de jurisprudência que beneficia os réus.

Um julgamento realizado sob a pressão da mídia e marcado para coincidir com o período eleitoral na vã esperança de derrotar o PT e seus candidatos. Um julgamento que ainda não acabou. Não só porque temos o direito aos recursos previstos na legislação, mas também porque temos o direito sagrado de provar nossa inocência.

Não me calarei e não me conformo com a injusta sentença que me foi imposta. Vou lutar mesmo cumprindo pena. Devo isso a todos os que acreditaram e ao meu lado lutaram nos últimos 45 anos, me apoiaram e foram solidários nesses últimos duros anos na certeza de minha inocência e na comunhão dos mesmos ideais e sonhos.

08/11/2012

poema de finados - 2

e como condenados

e como condenados
por trás de horas desapiedadas
ao vento confiamos
clandestinas mensagens, testemunhos
de que passamos, de que compreendemos
e tivemos um breve senhorio

para que ninguém
nos confunda
amanhã com o nada.

miguel d'ors - espanha  (1946  -   )
veja também poema da casa assassinada

06/11/2012

o bangue-bangue paulista: a cidade quer saber

 transcrito de  carta maior

(antes de passar propriamente ao texto de Carta Maior, vale registrar o comentário de um leitor, publicado no mesmo site:
Baco diz: Eu não entendo esse governo do PT. O PT sob fogo cruzado intenso-via mídia empresarial e "mini-ministros" do STF. E o Governo Federal se prontifica a ajudar ao governo do PSDB, que é o responsável direto por essa violência. Tinha que deixar eles solicitarem socorro e não socorre-los!
Na verdade, caro Baco, você não deixa de ter um pouco de razão, mas ocorre que é isso que diferencia um governo popular, ou ao menos progressista, de um governo despersonalizado e pró-elite: a generosidade e o compromisso sério com a vida e a dignidade das pessoas em primeiro lugar. E valeu pelo 'mini-ministros'. Ao texto de Carta Maior) 
  
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A criação de uma agência de cooperação e inteligência entre o governo de São Paulo e Brasílial é a primeira providência estrutural diante da pasmaceira de violência e incompetência que assola a maior e mais rica capital do país.

Com mais cinco assassinatos verificados na madrugada desta 3ª feira, São Paulo atingiu a apavorante marca de 290 homicídios nos últimos 60 dias. A marca da 3ª feira ficou dentro da média do período: quase 5 mortes (4,8) por dia.

O padrão equivalente a cerca de 150 mortes por mês é mais que o dobro do descalabro registrado em Ciudad Juarez, a capital conflagrada do narcotráfico mexicano. De janeiro a setembro deste ano Ciudad Juarez recolheu uma média mensal de 65 cadáveres de suas ruas, entre corpos baleados e algumas cabeças decapitadas.

São Paulo não é Ciudad Juarez. Assiste-se aqui a um surto; uma irrupção refletida no aumento de 90% no total de homicídios dos últimos dois meses, em relação ao bimestre equivalente de 2011.

Um surto de execuções, melhor dito. E isso guarda semelhança com o padrão de Ciudad Juarez. Lá e cá a matança em nada se confunde com latrocínio, o roubo seguido de morte, tampouco é fruto de confrontos eventuais entre policiais e bandidos. Esses são casos de contabilidade distinta.

A sangria desatada que interliga tristemente as estatísticas das duas cidades reflete a morfologia de uma violência planejada. Há listas de mortes programadas e jagunços a campo. Portanto, é mais assustador ainda.

O acerto de contas acontece nas ruas da maior e mais rica cidade brasileira, no estado cuja segurança pública é ordenada há 18 anos por governos do PSDB. A nominação é pertinente na medida em que a proficiência na matéria sempre foi um apanágio reclamado pelos tucanos. O que houve então?

Há 60 dias, alternam-se em toda a região metropolitana paulista execuções de policiais e civis. Noventa e dois policiais militares foram fuzilados em situações semelhantes desde o início do ano. Média de nove corpos por mês. A maioria, fora de serviço, vestida à paisana, muitas vezes próxima da residência ou dentro dela. Parentes também foram alvejados.

Até a semana passada, o governo do PSDB paulista repetia a cada enterro: temos o controle. Na 5ª feira depois das eleições, um telefonema da Presidenta Dilma ao tucano Geraldo Alckmin desfez a encenação: o governo de SP aceitou a ajuda federal para tentar conter a guerra. Nesta 3ª feira surgiram as primeiras iniciativas, como a da agencia de cooperação.

Outras providências de sensatez desconcertante pelo ineditismo serão tomadas a partir de agora. Líderes do PCC serão transferidos para presídios federais de segurança máxima.

Hoje, eles estão espalhados em cárceres do sistema prisional paulista sabidamente saturado e, é quase uma delicadeza colocar as coisas assim, co-administrados pelo crime.

A inteligência federal ajudará a deslindar um dos mistérios mais guardados pela cúpula tucana: quem está matando quem, e por qual motivo?

Documentos apreendidos em batidas policiais feitas em favelas comprovam a deliberada aritmética da morte comandada de dentro das prisões: dois policiais por bandido morto.

Há, ainda, a suspeita de um ajuste de contas entre milícias compostas de policiais da PM paulista fora do expediente e traficantes ligados ao PCC.

Os dois lados estariam redesenhando a chumbo e sangue os perímetros de controle do jogo clandestino e do comércio de drogas. É uma das hipóteses da investigação.

Sobram perguntas numa crise encoberta pelo lacre da opacidade conveniente à leniência oficial e ao matador clandestino. A cidadania tem o direito de saber o que se passa. E mais que isso, de arguir o que deixou de ser feito a ponto de se ter, não pela primeira vez, diga-se, a maior cidade brasileira ao sabor de bandos e balas fora do controle. Sobretudo, tem o direito de cobrar as providencias para que o horror cesse -- e a sua ameaça não se repita.

Assusta a opinião progressista de São Paulo que até hoje a sua Assembleia de representantes não tenha tido a coragem, e a responsabilidade soberana, de convocar uma Comissão Parlamentar de Inquérito para tirar a segurança da sarjeta onde bandos armados disputam o território com a incompetência desarmada pela soberba e o interesse eleitoral. Ainda é tempo.

03/11/2012

poema de finados - 1

poema da casa assassinada

a casa abandonada foi encontrada.
e olhá-la do lado de fora, parece
ainda mais abandonada.

por segurança, melhor mesmo é
manter-se distante.
não haveremos de nos lembrar ?

pois somos nós, eternamente
o planeta das criaturas abandonadas.
como meninos largados
numa rua  qualquer do cosmos.

então de vez em quando cheiremos
alguma cola pela vida afora.

 e salve Proust:
''Mas quando nada subsiste de um passado remoto, após a morte das criaturas e a destruição das coisas, sozinhos, mais frágeis, porém mais vivos,mais imateriais, mais persistentes, mais fiéis,o odor e o sabor permanecem ainda por muito tempo,como almas, lembrando, aguardando,esperando, sobre as ruínas de tudo o mais, suportando sem ceder, em sua gotícula impalpável, o edifício imenso da recordação."
vicente gonçalves - belo horizonte, minas

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Na verdade, na versão original do poema que Vicente Gonçalves enviou, o 7° e 8° versos eram assim:
Seremos nós,eternamente o
pais dos (menores) abandonados.
Gosto muito dos poemas de Vicente, e trocamos algumas idéias acerca de seus versos.
Desta feita, chegamos à conclusão de que a nova versão dos citados versos ganhou em amplitude, já que agora a denúncia não é apenas social, ou histórica - ela se trona cósmica, metafísica, fala da mistura de admiração e perplexidade, de desorientação  e impotência, ás vezes até mesmo de mágoa e de tédio, essas impressões que nos  perseguem quando desistimos de compreender o propósito último, claro e inquestionável de termos sido lançados  no meio do ser e do tempo (sem maiores explicações) pelos desígnios de uma potência até hoje desconhecida e para  a qual danos nomes vários: Ser, Cosmos, Espírito, Deus, Alah, Javé, Energia, Big Bang, Força, Tao etc etc etc. 

Na peculiar e comovente ironia que marca seus poemas, também acima  Vicente Gonçalves fecha bem a questão: já que numa etapa qualquer do tempo e do espaço, foi-nos dada a desgastante exigência, ou a privilegiada tarefa, de não mais cumprirmo-nos como pacificados animais, então  precisamos de uma forma ou de outra cumprir nosso compromisso histórico e/ou espiritual, entrar de fato no jogo, "cheirar uma cola qualquer", seja ela a cola da revolução, da fé, do ninho familiar, do poder ou do dinheiro, ou mesmo a 'cola' da arte, do poema, mesmo que às vezes a 'cola' de um poema irônico-desistente.

26/10/2012

a última eleição sob a tutela da Globo

(trechos transcritos de artigo publicado em carta maior)

A sólida dianteira de Haddad em SP, reafirmada pelo Ibope e o Datafolha desta 5ª feira, deixa ao conservadorismo pouca margem para reverter uma vitória histórica do PT; talvez a derradeira derrota política do seu eterno delfim, José Serra. Ainda assim há riscos. Não são pequenos. Eles advém menos da vontade aparentemente definida do eleitor, do que da disposição midiática para manipulá-la, nas poucas horas que antecedem o pleito de domingo.

Há alguma coisa de profundamente errado com a liberdade de expressão num país quando, a cada escrutínio eleitoral, a maior preocupação de uma parte da opinião pública e dos partidos, nos estertores de uma campanha como agora, desloca-se propriamente do embate final de idéias, para prevenir-se contra a 'emboscada da véspera''.
Não se argui se ela virá; apenas como e quando a maior emissora de televisão agirá na tentativa de raptar o discernimento soberano da população, sobrepondo-lhe seus critérios, preferências e interditos.
Tornou-se uma aflita tradição nacional acompanhar a contagem regressiva dessa fatalidade.

Em qualquer sociedade democrática uma vantagem de 15 pontos como a de Haddad seria suficiente para configurar um pleito sereno e definido.
Mas não quando uma única empresa possui 26 canais de televisão, dezenas de rádios, jornal impresso, editora, produção de cinema, vídeo, internet e distribuição de sinal e dados.

Tudo isso regado por uma hegemônica participação no mercado publicitário, inclusive de verbas públicas: a TV Globo, sozinha, receberá este ano mais de 50% da verba publicitária de televisão do governo Dilma.

Essa concentração anômala de munição midiática desenha um cerco de incerteza e apreensão em torno da democracia brasileira. Distorce a vida política; influencia o Judiciário; corrompe a vaidade de seus membros; adestra-os, como agora, com a cenoura dos holofotes a se oferecerem vulgarmente, como calouros de programas de auditório, ao desfrute de causas e interesses que tem um lado na história. E não é o do aperfeiçoamento das instituições nem da Democracia.

O conjunto explica porque, a três dias das eleições municipais de 2012, pairam dúvidas sobre o que ainda pode acontecer em São Paulo, capaz de fraudar a eletrizante vitória petista contra o adversário que tem a preferência do conservadorismo, a cumplicidade dos colunistas 'isentos',a 'independência' do Judiciário e a torcida, em espécie, da plutocracia.
Não há nessa apreensão qualquer traço de fobia persecutória. 

Mencione-se apenas a título ilustrativo três exemplos de assalto ao território que deveria ser inviolável, pelo menos muitos lutaram para que fosse assim; e não poucos morreram por isso.

Em 1982, a Rede Globo e o jornal O Globo arquitetaram um sistema paralelo de apuração de votos nas eleições estaduais do Rio de Janeiro.
Leonel Brizola era favorito, mas o candidato das Organizações Globo, Moreira Franco, recebera privilégios de cobertura e genuflexão conhecidos. Os sinais antecipavam o estupro em marcha das urnas.

Ele veio na forma de um contagem paralela - contratada pela Globo - que privilegiaria colégios do interior onde seu candidato liderava, a ponto de se criar um 'consenso' de vitória em torno do seu nome.
O assédio só não se consumou porque Brizola recusou o papel de hímen complancente à fraude.

O gaúcho recém chegado do exílio saiu a campo, convocou a imprensa internacional, denunciou o golpe em marcha e brigou pelo seu mandato. Em entrevista histórica --ao vivo, por sua arguta exigencia, Brizola denunciou a manobra da Globo falando à população através das câmeras da própria emissora.

Em 1983 os comícios contra a ditadura e por eleições diretas arrastavam multidões às ruas e grandes praças do país.
A Rede Globo boicotou as manifestações enquanto pode, mantendo esférico silêncio sobre o assunto. O Brasil retratado em seu noticioso era um lago suíço de resignação.
No dia 25 de janeiro de 1984, aniversário da cidade, São Paulo assistiu a um comício monstro na praça da Sé. Mais de 300 mil vozes exigiam democracia, pediam igualdade, cobravam eleições.

O lago tornara-se um maremoto incontrolável. A direção editorial do grupo que hoje é um dos mais aguerridos vigilantes contra a 'censura' na Argentina, Venezuela e outros pagos populistas, abriu espaço então no JN para uma reportagem sobre a manifestação. Destinou-lhe dois minutos e 17 segundos.

Compare-se: na cobertura do julgamento em curso da Ação penal 470, no STF, o mesmo telejornal dispensou mais de 18 minutos nesta terça-feira a despejar ataques e exibicionismos togados contra o PT, suas lideranças e o governo Lula.

Em 1989, o candidato do PT, Luiz Inácio Lula da Silva e Fernando Collor de Mello realizariam o debate final de uma disputa acirrada e histórica: era o primeiro pleito presidencial a consoliar o fim da ditadura militar.
No confronto do dia 14 de dezembro Collor teve desempenho pouco superior ao de Lula. Mas não a ponto de reverter uma tendência de crescimento do ex-líder metalúrgico; tampouco suficiente para collorir os indecisivos ainda em número significativo.

A Globo editou o debate duas vezes. Até deixá-lo 'ao dente', para ser exibido no Jornal Nacional.
Collor teve um minuto e oito segundos a mais que Lula; as falas do petista foram escolhidas entre as suas intervenções mais fracas; as do oponente, entre as suas melhores.

Antes do debate a diferença de votos entre os dois era da ordem de 1%, a favor de Collor; mas Lula crescia. Depois do cinzel da Globo, Collor ampliou essa margem para 4 pontos e venceu com quase 50% dos votos;Lula teve 44%. As consequências históricas dessa maquinação são sabidas.

A indevida interferência avulta mais ainda agora. Há sofreguidão de revide e um clima de 'agora ou nunca' no quase linchamento midiático promovido contra o PT, em sintonia com o calendário e o enrêdo desfrutáveis, protagonizados por togas engajadas no julgamento em curso do chamado mensalão'.

Os governantes e as forças progressistas brasileiras não tem mais o direito --depois de 11 anos no comando do Estado- de ignorar esse cerco que mantem a democracia refém de um poder que só a respeita enquanto servir como lacre de chumbo de seus interesses e privilégios.
A conivência federal com o obsoleto aparato regulador do sistema de comunicações explica um pedaço desse enredo. Ele esgotou a cota de tolerância das forças que elegeram Lula e sustentam Dilma no poder.
O país não avançará nas trasformações econômicas e sociais requeridas pela desordem neoliberal se não capacitar o discernimento político de mais de 40 milhões de homens e mulheres que sairam da pobreza, ascenderam na pirâmidade de renda e agora aspiram à plena cidadania.

A histórica obra de emancipação social iniciada por Lula não se completará com a preservação do atual poder de veto que o dispositivo midiático conservador detém no Brasil.

Persistir na chave da cumplicidade, acomodação e medo diante desse aparato tangencia a irresponsabilidade política.
Mais que isso: é uma assinatura de contrato com a regressão histórica que o governo Dilma e as forças que o sustentam não tem o direito de empenhar em nome do povo brasileiro.

Que a votação deste domingo seja a última tendo as urnas como refém da rede Globo, dos seus anexos, ventrílocos e assemelhados. Diretas, já!
Esse é um desejo histórico da luta democrática brasileira. Carta Maior tem a certeza de compartilhá-lo com seus leitores e com a imensa maioria dos homens e mulheres que caminharão para a urna neste domigo dispostos a impulsionar com o seu voto esse novo e inadiável divisor da nossa história.
Bom voto.

24/10/2012

supremo político

por Lincoln Secco (*),  transcrito de  Vi o Mundo

Conta-nos George Duby que no século XII o cavaleiro Guilherme Marechal descobriu uma jovem dama e um monge em fuga. Ao saber que se dirigiam a uma cidade para empregar seu dinheiro a juros, ele ordenou a seu escudeiro que lhes retirassem o dinheiro. Para ele aquilo não era roubo! Ele não tocou na jovem, não impediu que continuassem e nem lhes tomou a bagagem. Nem mesmo quis ficar com o dinheiro tomado pelo escudeiro. É que para a moral da cavalaria o metal era vil, a acumulação desonrada e a usura um pecado.
Ninguém nos dias de hoje concordaria com aquele “Direito Medieval”. Todo o Direito corresponde ao seu tempo e à leitura política que predomina numa sociedade.

No caso do Supremo Tribunal Federal, a sua natureza política se torna quase transparente. É que os juízes do STF não fazem concurso, eles são indicados. A Constituição garante ao Presidente da República e à maioria que ele constitui no Senado Federal, o poder de interferir na sua composição.

Dessa forma é dever constitucional do presidente nomear pessoas que estejam de acordo com a correlação de forças políticas que a população livremente estabeleceu pelo voto. Quando Fernando Henrique Cardoso foi eleito, ele nomeou juízes que estavam afinados com o seu projeto liberal de privatizações. Nomeou pessoas que deveriam criar o ordenamento jurídico dentro do qual ele ergueu o modelo econômico escolhido pelo povo. Caberia aos juízes inviabilizar questionamentos que duvidassem das privatizações, por exemplo.
Em 2002 o povo escolheu um novo modelo de desenvolvimento oposto ao anterior e era esperado do presidente que nomeasse para o STF juízes que calçariam o sua opção pelo social com uma segurança jurídica mínima que impedisse ações contra sua política de cotas ou seus programas de transferência de renda, por exemplo. Mas, ao contrário de FHC, Lula seguiu uma interpretação errônea do que seria a República.

Ocorre que se o STF não é politizado pelo presidente ele o é pela oposição. É que o Direito não é só um conjunto de fatos ou normas, como rezam os positivistas, mas a expressão de uma relação de poder. Se um lado hesita em exercê-lo o outro o fará. Nada disso atenta contra a Democracia. Esta é apenas a forma de um domínio encoberto pelo consenso da sociedade. A violação do direito ocorre se um dos lados usa a força e se põe fora da legalidade.

Até ontem, o consenso jurídico era o de que na dúvida prevalecia a absolvição do réu. Cabia ao acusador fornecer a prova, e não o contrário. Provas não podiam ser substituídas pela crença espírita de que uma pessoa devia necessariamente conhecer determinado fato. Todo cidadão tinha o direito de ser julgado em mais de uma instância.

No século XIX havia escravos que iam às barras do tribunal para requerer a liberdade alegando que teriam ingressado cativos no Brasil depois da proibição do tráfico. E quando perdiam num Tribunal da Relação, podiam recorrer até a última instância, embora a nossa mais alta corte defendesse a escravidão.

No Estado Novo esta mesma corte autorizou a entrega de uma judia comunista para morrer nas Câmaras de Gás de Hitler. Esteve dentro da estrita legalidade de uma Ditadura. Em 1988 recebemos um ordenamento jurídico resultante da luta contra o terrorismo de Estado que imperou no Brasil depois de 1964.

A condenação de José Dirceu mostra que o consenso de 1988 mudou. Doravante, empresários, políticos e lideres de movimentos sociais terão grande dificuldade de se defender no STF.
A não ser que o julgamento tenha sido de exceção!

Neste caso, tudo voltará a ser como antes. Mas então a ilusão que a esquerda acalentou na democracia será posta em causa e ela poderá se voltar aos exemplos tão temidos pela oposição, como a Argentina, a Bolívia, o Equador e a Venezuela.

(*) Lincoln Secco é professor do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas (FFLCH) da USP

08/10/2012

democracia popular: quem puder, confira...



“Quem quer ver uma democracia que venha e caminhe pelas ruas da Venezuela”, afirmou o presidente da República Bolivariana da Venezuela, Hugo Chávez, ao responder perguntas de um grupo de jornalistas acerca do conceito estereotipado de que no país há uma ditadura, criado pela direita internacional através de matrizes midiáticas.
Do Liceu Manuel Palacio Fajardo, localizado na paróquia (bairro) 23 de Enero (Janeiro), onde exerceu seu direito de voto durante a jornada eleitoral deste domingo, 7 de outubro, o mandatário venezuelano comentou que uma mentira repetida muitas vezes termina fazendo crer a algumas pessoas que é verdade.

“Quem quer ver uma democracia pujante, sólida, madura e aberta, pode vir, e não só porque se realizam eleições com frequência, isso é palpável todos os dias com um povo que despertou participando todos os dias, um povo recebendo poder que é a essência da democracia”, destacou.

forças progressistas resistem


VIRADA EM SÃO PAULO, VITÓRIA EM CARACAS:
O ELEITOR RESOLVEU 'METER O BICO'

Foi um domingo para não esquecer. A história rugiu, rangeu e se mexeu; repôs certas correlações entre a nervura social e o voto; entre o discernimento popular e o legado histórico de projetos e propostas antagônicas. As urnas falaram e como é natural, em escrutínios municipais marcados por peculiaridades locais, emitiram vereditos ecumênicos. Mas certas linhas se destacaram. Ali onde a natureza da disputa incorporou a tensão do conflito entre dois grandes blocos de interesses contraditórios -- não apenas no âmbito local, mas nacional e também no plano da crise global-- a resposta do voto desautorizou o prognóstico conservador. Ou seria melhor dizer a torcida e, em alguns casos, a quase fraude? O domingo mostrou que o mundo seria perfeito para o conservadorismo se a democracia pudesse ser resolvida à frio. No campo das ilações, digamos, tão a gosto de certas togas e dos interesses aos quais elas se oferecem ao desfrute, sendo por eles obscenamente desfrutadas. Se bastassem as ilações do Datafolha, por exemplo, Serra iniciaria hoje um passeio pelo segundo turno para desmontar o frágil Russomano. O Datafolha modelou esse cenário e insistiu nele até o último instante, reservando a Haddad uma 3ª colocação algo desanimadora (quem é que gosta de votar em quem vai perder?). Súbito, em 24 horas, o candidato do PT saltou dos 19% que lhe eram atribuídos pelo instituto dos Frias e encostou nos 29%. Como um instituto que se pretende isento não capta um migração de votos dessas proporções? Se Haddad fosse um furacão e o Datafolha um serviço de meteorologia, que destino caberia aos responsáveis por tão clamorosa falha? As ilações --engajadas-- tampouco se revelaram pertinentes na tarefa de derrotar Chávez neste domingo. Maciçamente apresentado como uma ruína política pelo jornalismo conservador --incluindo-se os mervais brasileiros-- o 'autoritário' Chávez venceu Henrique Capriles, num pleito limpo, por uma diferença superior a mais de um milhão de votos (54% a 44%). Um domingo, portanto, memorável em que o eleitor resolveu 'meter o bico' em São Paulo, em Caracas e outras praças, para horror dos Serras, Aécios e Capriles, que não suportam 'estrangeiros' em seus currais. O impacto dessas transgressões, ademais de desautorizar e desqualificar pesquisas e colunistas que agora terão que explicar seus malabarismos de campanha e boca de urna, mais uma vez, inclui também uma advertência às candidaturas de esquerda que seguem para o 2º turno: é hora de vestir a camisa do bloco progressista ao qual pertencem, se quiserem obter os votos que --tradicionalmente-- a eles se destinam.

06/10/2012

orgulho

Digo-te, até as rochas se partem
e não é por causa do tempo.
Durante anos mantém-se deitadas de costas
no calor e no frio
durante tantos anos
isso quase parece pacífico.
Não se mexem, por isso as fendas permanecem escondidas.
É uma espécie de orgulho.
Os anos passam sobre elas, e elas aguardam.
Seja o que for que venha despedaçá-las
ainda não chegou.
E assim o musgo cresce, as algas
chicoteiam à sua volta
o mar avança sobre elas e retrocede -
as pedras parecem imóveis.

Até uma pequena foca vem esfregar-se contra elas
chega e vai-se embora.
E de súbito a rocha tem uma ferida aberta.
Eu disse-te, quando as rochas se quebram, isso acontece de surpresa.
Tal como as pessoas.

dahlia ravikovitch - israel  (1936 - 2005)        

03/10/2012

os antecedentes das próximas horas


Quis o destino que a resposta da Presidenta Dilma Rousseff à soberba 'paulista' de Serra acontecesse num simbólico 2 de outubro. Nessa data, há 80 anos, Getúlio Vargas derrotou a secessão da oligarquia de São Paulo, cuja marca de fantasia se atribui o rótulo de 'revolução constitucionalista de 32'.
O tucano que se gaba de já ter disputado sete eleições para cargos executivos, enfrenta um crepúsculo de campanha -talvez de vida pública - perfilando assim no lado que lhe compete na história.

Em 12 de setembro, ao ranger do chão da candidatura que pode marcar a sua despedida política, Serra vestiu a farda da nostalgia separatista. E evocou prerrogativas pré-republicanas sobre o eleitorado de São Paulo.
Como um guardinha de 32, desengavetou a carabina da resistência à construção do Estado nacional, implementada então por Getúlio Vargas. E apontou a mira contra aquela cujo cargo e trajetória política simbolizam a presença de Vargas no Brasil atual.

"Ela vem meter o bico em São Paulo; ela que mal conhece São Paulo, vem aqui dar palpite", disparou o tucano para gozo da mídia oligarca que se esponjou em manchetes nostálgicas.
A filiação da frase foi captada pela Presidenta gaúcha Dilma Rousseff.

Uma saraivada de recados históricos soterrou o tucano na sua resposta. Em um palanque na periferia de São Paulo, junto a um conjunto popular, ao lado de um líder operário que ultrapassou as expectativas mais otimistas de Getúlio e se fez presidente por duas vezes, bem como do adversário direto de Serra no pleito municipal, Fernando Haddad, Dilma foi ao ponto.

Deu uma lição de republicanismo ao porta-voz do apartheid conservador nos dias que correm.
Disse a Presidenta :
"Eu morei na Celso Garcia; lutei contra a ditadura aqui; fui presa política em São Paulo. Foi pelas liberdades, pelo direito de cada um dos paulistas e dos brasileiros de meter o bico em todos os assuntos que eu lutei aqui em São Paulo. Devo a São Paulo não só respeito, mas gratidão por ter me protegido. Por isso, quem vai governar essa cidade é muito importante para a presidenta. Eu estou aqui metendo o bico em uma eleição porque para o Brasil, São Paulo é muito importante. E não tem como dirigir o Brasil sem meter o bico em São Paulo".

Em síntese, ela explicou a sinhozinho Malta que, desde Getúlio, São Paulo não é mais uma sesmaria consuetudinária dos endinheirados. Seu povo não compõe um protetorado eleitoral tucano; e ela, a exemplo de Vargas, em 30 e em 50; de Lula, em 2002 e 2006, não se sujeita às regras de quem arrota retórica liberal. Mas dispensa 'aos de fora' - os 'baianos', os gaúchos, os operários, os comunistas - as armas da capangagem política mais conveniente à ocasião.

Ontem, a secessão à bala; hoje, o golpismo conservador calibrado pela fuzilaria interrupta do bombardeio midiático. Não cometerá desatino histórico quem incluir na engrenagem dessa cortina de fogo o circo criado em torno do julgamento do processo 470.
Em alguma medida, neste caso também, são 'os de fora' que estão sendo julgados, sob critérios de uma exceção definida e vocalizados pelos d 'de dentro', através do seu aparato midiático.
É o PT que surgiu de baixo em afronta à regra não escrita dos partidos feitos pelo e para o dinheiro grosso comandar a vida do Brasil miúdo.

São lideranças que, ademais das concessões e renúncias --e por mais que às vezes remetam à imagem do cardume exaurido levado pela correnteza depois de vencer os pedrais da piracema-- demarcaram um campo popular de extensão inexistente no Brasil até então. E inédito no mundo redesenhado pela derrocada do projeto socialista, após a queda do Muro de Berlim, em 1989.
Foi o contraponto dessa gênese de vigor paradoxal que atraiu para o PT o olhar da esperança progressista mundial; mas também o ódio tenaz dos que imaginavam ter erradicado 'essa raça para sempre', com o efeito dominó subsequente ao colapso da ex-URSS e da supremacia neoliberal.
Três vitórias presidenciais sucessivas abalaram as certezas dos que consideravam questão de tempo destruir a excessão petista dentro das regras do jogo.
Não é preciso ser de esquerda para admitir que esse abalo influencia nesse momento a redefinição das fronteiras da norma, do bom senso e da isonomia no julgamento em curso no STF.
Está no ar, mas é de tal maneira denso que se pode cortar com uma faca: uma engrenagem gigantesca se move para desacreditar por outros meios, aquilo que se consolidou como referência de luta pela democracia social no país e no imaginário do povo.

Não se poupa aqui de reprovação a prática do caixa 2 de campanha. Sobre isso Carta Maior já disse e sublinha: ela amesquinha projetos progressistas, aleija suas lideranças, desmoraliza a soberania do voto popular.O que causa espécie, todavia, é o esforço concentrado para distinguir o caixa 2 cometido pelos ' fora' (a 'companheirada', no tratamento quase racial do jornalismo isento), daquele precedido na natureza e no calendário pelos 'de dentro'.
Tal malabarismo assumiu dimensões e contornos de sofreguidão caricatural na a pulsão condenatória de mídias e togas , que nunca antes , 'nem depois', vaticinou o cientista político Wanderley Guilherme dos Santos em entrevista à Carta Maior - reproduzirão o mesmo tratamento para igual delito.

Quando Vargas derrubou as oligarquias da República Velha que se perpetuavam na Presidência à base do Café com Leite, irritaria sobremaneira aos 'liberais' paulistas a legalidade concedida aos sindicatos operários e ao Partido Comunista.
O apoio do novo governo a um aumento salarial reivindicado por uma greve geral que paralisou 200 mil trabalhadores no Estado de São Paulo pode ter sido a gota d'água da 'intentona constitucionalista'.
Muitos estudiosos enxergam nesse entrelaçamento histórico a semente de um conflito entre duas linhagens frontalmente distintas de democracia e de projeto para o país: de um lado, um Brasil ordenado pela democracia social; de outro, uma sociedade circunscrita pela democracia de recorte liberal, vista pelo tenentismo mais aguerrido dos anos 30 como uma farsa.

Os ecos desse conflito ainda comandam a disputa política brasileira no século XXI.
Foi isso que o dedo de Dilma apontou em direção a Serra no discurso desse 2 de outubro encharcado de referências históricas implícitas e explícitas.
É de alguma maneira a extensão desse embate que se assistirá nas próximas horas no STF, no julgamento de lideranças petistas, entre elas José Dirceu e Genoíno.

O calendário ordenado com o definido propósito de tornar eleitoralmente desfrutável esse momento autorizará o historiador do futuro a arguir se aquilo foi um julgamento isento. Ou terá sido mais um capítulo da tentativa recorrente, desde 1932, de impedir que os 'de fora' venham meter o bico nos destinos da 'São Paulo ampliada', que é como os 'de dentro' enxergam o Brasil.

02/10/2012

sem título

Encontrámo-nos em Washington
Square, tu e eu.
Convidaste-me para jantar
num clube, e a orquestra
tocou para nós
Indian summer... Dançámos
imersos na noite
novaiorquina. Mais tarde, o meu vestido
brilhava abandonado no chão
daquele apartamento, e aí era
bem diferente a música: palavras
e suspiros à mistura com sirenes
de barcos ao longe...

Mas como é que eu não consigo
lembrar-me, agora
enquanto abro os olhos
como é que se chamava o filme
em que vi estas cenas?

maría sanz  - espanha (1956  -  )

24/09/2012

as cidades de plástico


Os campos de concentração na planta das cidades pós-modernas
(ou nova concepção arquitetônica do inferno)

Cidade sem olhos
Tebas
a de sete portas
inaugura sua nova
arquitortura.

Trocou retinas humanas
por câmaras de Cérbero
em alta definição
do inferno.

População cega
não age
ob
     serva
o mundo
tudo e todos
agora
monumental submundo.
Fones no umbigo
celulares ao vento
lotam de solidão as avenidas.

Foram-se os heróis
vieram as celebridades
e uma espessa camada gosmenta
de palavras acomodadas
em poemas.

Quando voltarão o incômodo, a turbulência e o tumulto?

zantonc, no blog  caosgraphia