08/09/2021

Um Grito contra o pandemônio e o esgoto fascista

Com um dia de atraso, seguem alguns registros do Grito dos Excluídos, em 2021. A concentração foi na Praça Getúlio, Vargas, centro da cidade, e a chegada foi na Prefeitura de Vitória.


                                       

                                       

saída da concentração, seguindo pela av. Beira-Mar


Padre Kelder, da Paróquia Madre de Calcutá (Itararé). O padre tem se tornado quase que um símbolo do Grito, em Vitória. Como aliás confirmam essas fotos das manifestações de  2009
Foi ele quem, anos atrás, interrompeu a procissão do Domingo de Páscoa e rezou a missa  num local onde se encontrava o corpo de um homem recém-assassinado, num gesto de comoção, compaixão e denúncia contra a violência econômica e social que se abate sobre os mais desamparados; nessa época Pe Kelder atuava na Grande São Pedro, uma das regiões mais precarizadas de Vitória.
                                      

                                      
A arrogância do prefeito Pazolini, uma espécie de filhote de Bolsonaro, também foi muito lembrada. Em apenas oito meses de governo, o tal prefeito tem tomado decisões que impactam e muito a vda dos munícipes e servidores da Prefeitura, mas que passam por cima de instâncias como os Conselhos Municipais, Associações e entidades diversas. 
Recentemente, determinou que o contingente da Guarda Civil fosse retirado do centro da cidade, sem ouvir o Conselho de Segurança  nem a Associação de Moradores (AMACENTRO). Dialogar com sindicatos e entidades de servidores municipais, então, nem pensar, vide as decisões tomadas com relação a aposentados e professores, entre outras. 
Não foi à-toa que o local, escolhido para finalizar o Grito, foi exatamente em frente da Prefeitura Municipal, como mostram as imagens abaixo.

 


Narciso, liderança do Morro da Capixaba e diretor de Política Urbana da AMACENTRO, ao lado de seu Waldemar, ex-presidente do CPV (Conselho Popular de Vitória) por duas gestões. 
Aliás, o interessante e gratificante, nessas jornadas de protesto contra o Esgoto, tem sido o reencontro com pessoas, militantes, lideranças, a quem não víamos há muito tempo. Sabemos que desde 2016 o  movimento popular e de resistência tem estado em recuo, na defensiva. 
Antigamente, brincávamos que éramos sempre os mesmos nas manifestações (o que nunca foi verdade, sempre houve pessoas ingressando no movimento). Hoje, a brincadeira é a de que ainda bem que os "mesmos"  de antigamente estão de volta às ruas. 

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a coisa toda parecia um duelo de imagens: foto pra lá, câmera pra cá, disparos de todo lado


Bem, a nota grotesca, e também revoltante, deixei por último. De um momento para o outro, esse cidadão de capacete e camisa azul, começou a filmar e gritar, acompanhando o nosso movimento. Alguns militantes chegaram a agredi-lo, para que ele se afastasse e parasse com as provocações. 
O revoltante, na verdade, não foi nem a atitude em si desse cidadão, mesmo porque ele estava com um adesivo de FORA BOLSONARO, na verdade parece que ele é desse  movimento NEM LULA NEM BOLSONARO, que estão tentando consolidar,  e que fará manifestação dia 12 de setembro, próximo domingo.
                              

O revoltante mesmo foi a atitude da polícia militar, que, a muito custo, dispôs-se a sair da viatura e afastar o cidadão. As imagens abaixo mostram a insistência de  nossa militância com os policiais. Era visível que a omissão deles visava estimular um conflito e uma grave agressão de nossa militância contra o grotesco cidadão. O de sempre: provocar-nos, dar motivos para que aparecêssemos na imprensa como agressivos, intolerantes, baderneiros, radicais. Algumas pessoas chegaram, inclusive, a aventar a possibilidade de que o tal cidadão fosse um policial disfarçado, para tumultuar nosso ato.  
Conjecturas à parte, se havia um armadilha, não caímos nela - por pouco, aliás. 
Mas isso leva a um outro dado revoltante. O descaramento com que a TV Gazeta noticiou a provocação. Ou foi por negligência e3 descaso profissional, ou por pura má-fé. Pois informou ao seu público que o incidente foi rapidamente solucionado com a prestativa interferência da  polícia.



Como se o dito cidadão não houvesse nos acompanhado praticamente durante mais da metade do percurso (as imagens acima mostram isso, o cidadão somente se afastou próximo da Ilha da Fumaça); como se a nossa militância não tivesse que praticamente intimar os policiais - aliás, ao menos tive o gostinho de ver como se portaram de forma cordata, quase humilde e temerosa, ao invés de partirem logo para a repressão, inclusive chamando rapidamente outras viaturas, como é praxe quando se trata de nossas manifestações  de resistência popular.



Mas apesar do sentimento de revolta com esse descaramento da polícia, sabemos que não podemos esperar coisa muito diferente disso, por parte dessas pobres, brutais e brutalizadas, capturadas nas classes populares pelo aparato da repressão, por força das necessidades econômicas de cada um. A solução definitiva desse problema certamente passa por aquilo que Rui Pimenta do PCO sempre nos lembra: dissolução da PM e construção de Forças de Segurança sob CONTROLE POPULAR OU COMUNITÁRIO.

Quanto às televisões, não era de se esperar mais do que isso: distorções e cobertura breve e negligente de nosso Grito de cada ano. Lamentemos também  por esses pobres jornalistas, capturados e doutrinados geralmente nas classes médias da vida.

vitória, imagens - II - a Catedral

 

Na postagem anterior, me propus a divulgar imagens das igrejas de Vitória, em memória do Dia da Cidade e de sua Padroeira. E acabei não postando nenhuma imagem exatamente da Catedral, a mais conhecida e a mais impactante das igrejas da capital. Por óbvio que isso não faria sentido, tanto que reservei aqui vai uma postagem especial, com muitas  e variadas fotos da Catedral. 


na dúvida entre começar pelo interior ou pela fachada, optei pelo primeiro. Fica mais solene, reverente. Além do que, a Catedral tem um dos oratórios (espaço dedicado ao Santíssimo) que mais me fascinam. 
Embora não seja católico praticante, conheço igrejas e igrejas de Minas Gerais e de alguns outros estados. E em nenhuma delas (mesmo nas pujantes-douradas de Ouro Preto) encontrei um espaço do Santíssimo que transmitisse tanta serenidade e densidade, algo não apenas transcendente, mas verdadeiramente cósmico e mesmo metafísico. 


Não foram poucas as vezes em, que nesse espaço ,tive a fortíssima impressão de que estava de fato caminhando, vagando, respirando, testemunhando junto com o Cosmos, o Ser (ou a Criação, para quem preferir) no exato instante em que ali estava, no exatos minutos em que contemplava (ou comungava com) o revestimento circular, dourado e cravado de delicadas arabescos, que, apesar de ficar atrás e do lado de fora, parece que ele é que  guarda o Santíssimo. 

Nunca tentei nem quis explicar isso para mim mesmo. Prefiro que continue pulsando como um misterioso poema ainda não escrito.



Agora, sim, a fachada, na clássica imagem que as pessoas fotografam. Bela e imponente, em sua brancura (dá licença,  identitários, não vou me policiar, não) recortada contra o azulíssimo céu, que as suas góticas agulhas buscam, em reverência ou ânsia - sabe-se uma das realidades que a arquitetura gótica quer marcar é exatamente essa tensão entre céu e terra, a tensão entre a impotência, a ânsia e a reverência de nossa vida terrena para com uma suposta vida celestial, num perfeito, de formas e perenes (Platão etc etc)

                       

De minha parte, não mais me sinto impotente anseio m suposto mundo celestial, a ser alcançado após a morte. apenas reverencio, celebro, como um poema, essa tensão entre o explicado e o inexplicado, o longínquo e o aqui, enfim tudo isso que nos é ofertado pelo Ser, pelo Mistério, e que me é lembrado toda vez que miro ou navego, com o devido cuidado e silêncio interior, esse conjunto arquitetônico da Catedral.
                               

              

as  laterais da Catedral: acima, quem vai pela Dionísio Rosendo, abaixo, do lado de quem chega pela Gama Rosa



Gosto tanto de fotografar a Catedral, que até mesmo nos dias nublados a sua massa arrojada, silenciosa e poética me atrai. Embaixo algumas imagens. Ela se torna ao mesmo tempo mais terrena, mais humana, , ao mesmo tempo, mais cósmica, como se remetesse ao inícios do tempos, ou à Origem.








E, aqui, um registro histórico, singular, e quase exótico. Era época da reforma da Catedral, e os pedreiros tiveram que colocar a devida proteção par os pedestres exigidas nesses casos. E, então, o que era apenas exigência técnica, para mim adquiriu evidentemente contornos poéticos, inesperados.
A Catedral apareceu-me como uma verdadeira noiva , vestida para o sacramento de um  casamento a se realizar em breve. 
                                                     
Para um católico, certamente a simbologia remeteria ao casamento da santa madre Igreja com o Cristo, ou a algo menos transcendente, os votos de alguma jovem freira, por exemplo, a sua entrega a uma vida devotada aos ensinamentos do Cristo - enfim,  a famosa expressão "Noiva de Cristo" aqui se aplicaria de uma forma ou de outra.
Mas eu preferi ver na imagem o símbolo de algo ainda mais transcendente, ou profético. Vi o casamento da Igreja Católica com a Revolução que se aproxima, para provocar de vez a superação do Capitalismo, outrora revolucionário e necessário, atualmente em estado obsoleto  e terminal - mas  estúpido e cruel, enquanto agoniza.

                                 
Pois, que me desculpem os companheiros trotskistas, a Revolução, além de internacionalista, melhor, planetária, terá que ser também transcendente, terá que ter algum componente metafísico, ou místico. Somente a rigorosa Ciência Marxista (dos quais os trotskistas são os autênticos guardiães), por mais rigorosa, lúcida e combativa que se apresente no momento adequado - quando formos convocados para ocupar as ruas e praças do mundo inteiro, - somente essa ciência e esse combate não serão suficientes, para dar conta da gigantesca e redentora tarefa.
Não será tarefa exclusiva da vanguarda revolucionária. Ou melhor, a vanguarda revolucionária trotskista terá que encontrar formas de convocar muitas e muitas outras instâncias, para dar conta da gigantesca tarefa. 
E terá que aceitar e conviver com esse componente místico e transcendental, que será um ponto de sustentação fundamental para a Revolução. Mística e transcendência que virão com a JUVENTUDE, OS ARTISTAS, A RELIGOSIDADE, entre outras instâncias (reparem, companheiros trotskistas, disse religiosidade, e não apenas religião ou igrejas). E, certamente, a "noiva do Cristo" será convocada e, ao mesmo tempo, quererá dar sua contribuição transcendental para a  Revolução (mas isso o que me a Igreja Católica em seu todo,  e não apenas na sua ala progressista, a Igreja das CEBs, da Teologia da Libertação).
Enfim, foi  o que se me insinuou aos poucos, a cada vez que eu via a Catedral Vestida de Noiva.                                                                                     

07/09/2021

vitória, imagens -- I : igrejas

A produtora cultural Stael Magesck é uma das pessoas que se propôs a me ajudar no plantio de uma horta, que pretendo cultivar aqui no meu quintal.

E, navegando pelo seu face e seu insta, vi que ela também gosta muito das ruas, casarios, parques etc do Centro de Vitória. Como tenho arquivada  uma montanha de fotografias aqui do Centro (desde 2000/2001), programava -me para publicar algumas delas. A vibração de Stael serviu como gatilho para eu parar de adiar o projeto. Publicarei em etapas fotos das ruas, da Baía de Vitória, do Parque da |Fonte Grande, do Moscoso, do Centro em geral, e por aí afora.

Claro, aproveitando o Dia da Cidade e da Padroeira da Capital (08/09), nada mais pertinente do que postar as fotografias que tenho das igrejas e capelas do Centro, e também da Basílica de Santo Antônio, com seu charme singular, a lembrar uma mesquita.

 pretendo  


Começo pela minha vizinhança, a Igreja do Rosário, que, em tempos idos, serviu de fato á comunidade, com as portas abertas para celebrações, missas e grupos diversos - eu mesmo cometia  a ousadia de participar de um pequeno coral, em princípios do milênio, reuníamo-nos todos os sábados à tarde. noutra ocasião, mostro alguma coisa, inclusive uma vibrante e singular missa afro, que houve lá.
a bela fachada da Mitra, com sua encosta verdejante-abundante,  não poderia faltar. fica de frente para a rua  São Francisco, e sempre me lembra uma sentinela a velar pela Cidade Alta - uma sentinela do bem, não das forças da repressão, registre-se; se bem que polícias, repressões e autoridades católicas tiveram fortes enlaces ao longo da sofrida história de nosso país. Ao menos um enlace não tão descarado e vulgar como certos "sacerdotes" das igrejas evangélicas mantém com aquilo que se chama de governo em Brasília.- sem generalizar para todos os evangélicos, claro. 
acima, um registro dos fundos da Capela de Santa Luzia. fiz da sala aonde trabalho. fica próximo à Catedral. não tenho fotos de sua fachada.



quem conhece sabe que essas duas imagens não são de igreja. é o prédio da antiga Assembleia Legislativa, vizinho ao Fórum. como a sua cúpula me lembra nitidamente a de uma igreja e como, no dia, recebi esse fabuloso presente dos deuses dos  arco-íris, decidi incluir as imagens. e o fiz em dobro, não resisti. ao fundo, São Torquato, em Vila Velha, e na segunda foto um pouco do teto do Palácio  Anchieta. também fica no campo de visão de minha sala de  trabalho.


e, por fim, a Basílica de Santo Antônio, para mim a "mesquita capixaba". por uas cúpulas, janelões e arestas me lembrarem um daqueles templos árabes não me importa se em termos técnicos-arquitetônicos tenho ou não razão.  ainda mais plantada assim, como teimosa e airosa cabra em cima de um rochedo,  a insinuar um deserto nas proximidades, e o nosso imaginário logo nos remetendo a uma paisagem árabe, ou oriental.





as duas últimas fotos foram tiradas de um barco, num passeio pelo mangue de Vitória, organizado  pelo extinto COLEDUC,  coordenado pela professora Graça Lobino,  nos tempos da administração PeTista de Coser, e quando o CPV (Conselho Popular de Vitória) era presidido por seu Waldemar. 

uma das premissas do COLEDUC (Coletivo Educador Ambiental de Vitória )  era o de promover o conhecimento do território pelos que nele moram, e principalmente pelas lideranças comunitárias, pois somente se pode denunciar, cuidar e  proteger aquilo que se conhece. o passeio pelo mangue teve essa função.

quanto às fotos, repare-se que a Basílica nem parece estar no alto de uma rocha, parece ao nível do chão. sempre interessantes, essas ilusões óticas. temos sempre que nos espantar, nos admirar com o mundo. é o que nos torna poetas e filósofos. é preciso muitas vezes colocar a cientificidade, a técnica em segundo plano, para dar lugar à admiração, à poesia, á surpresa para com os entes jorrados do Ser e por ele alimentados e iluminados. danem-se  as parciais e presunçosas explicações da Técnica.

para quem ainda não se informou, uma das características da  Basílica, pelos cânones católicos, é o fato de ser um templo com alguma importância especial, seja importância religiosa - lugar de peregrinação dos devotos em razão de alguma relíquia sagrada, de um suposto milagre (Basílica de Aparecida, Basílica de Fátima), seja  arquitetônica (a aqui de Santo Antônio, a delicada e  quase hipnótica Basílica de Lourdes, em Belo Horizonte). posto abaixo umas fotos de Lourdes, para ilustrar.



30/08/2021

a redenção e a revolução já estão nas ruas - I

noite de sábado dessas, de tanto bombardeio da televisão, a incensar o supostamente hipnótico espetáculo da neve em terras do brasilacabei eu próprio entrando no clima, literalmente - já que chovia a cântaros pelas ruas  de Vitória afora. e então cometi breve e modesto poemeto, com um vídeo como pano de fundo.

e já enevoado de poesia e vinho e fantasia, não pensei muito e me empolguei e  divulguei rapidamente o poemeto com o vídeo, para contatos mais próximos. só que me esqueci e acabei enviando o vídeo-poema para Índio, liderança do movimento de população de rua, o SAI DA RUA

Que, junto com alguns de seus companheiros, naquele momento estava exatamente deitado, preparando-se para dormirem,  numa das calçadas que circundam a Praça Costa Pereira - tal como mostrado no vídeo logo abaixo. O grupo, desamparado, isolado, exposto a frio e chuva, a silêncio, aflições - e certamente a saudades e memórias de outros tempos.

foi-me um verdadeiro tapa na cara, tanto as imagens quanto as tristes-pacatas palavras de Índio. Humilde, educado, sem ironia ou rancor, apenas realista, incisivo -  como um bom  e simbólico tapa na cara deve ser.

a surpresa foi tão grande, e o tapa tão áspero, mas didático e  enriquecedor, que senti necessidade de responder qualquer que fosse, imediatamente - no calor, ou melhor, no frio da batalha.

E, então,  enviei mensagem a Índio, com estas exatas palavras:

Realmente pesado. Vcs são a vida real. A denúncia de que nossa civilização fracassou, a mancha benigna na paisagem. Um tapa na cara da ilusão, na cara da sociedade capitalista modernosa, mas  doentia, cancerosa.

Mas tenho a impressão de que vcs tem uma tarefa profética a cumprir,  na  mudança e cura dessa civilização doente . 

Fica firme!

poucas, mas era como se com essas palavras me redimisse, pudesse me transportar lá para o meio do grupo, a fazer-lhes companhia, bem no meio da Praça deserta e  tristonha.


continua daqui a alguns dias

a enevoada oficina da poesia

na lépida e noturna dança-chuva
em torno da urbana  lamparina 
até parece que a aquática dançarina
se torna  - menina e sulina neve





27/08/2021

um lugarzinho pra chamar de seu

Sai da Rua já nasce  atuante e com ações concretas. De imediato, reivindica da Prefeitura de Vitória,  a urgente instalação de um banheiro químico e de um quiosque, no meio da Praça Costa Pereira. Sobre a urgência e a importância dessa iniciativa, leia em Abaixo-assinado

Também já conseguiu, através de contribuição de seus próprios associados,  alugar uma sede, ainda  pequena para as necessidades e projetos do movimento, mas extremamente bem localizada. Fica na Rua São Francisco, em frente à ladeira que passa  por baixo do Viaduto Caramuru, ou seja, bem no meio dos principais pontos utilizados pela população de rua: Praça Costa Pereira, Praça da Catedral e o Parque Moscoso. 

Sabemos que são muitas e muitas as associações comunitárias e coletivos, que não têm sua sede própria. Registre-se, também, que são os 160 participantes do Coletivo que assumiram o compromisso de arcar com as despesas do aluguel e outras, para manutenção do imóvel. Ou seja, sem recorrer ou se submeter a órgãos públicos e entidades diversas. Com a cara e a coragem. Com autonomia e persistência, o que certamente resulta numa maior liberdade movimentos e posições políticas.

Claro que boa parte desses recursos é oriunda de pedidos de ajuda, feitos, por cada um,  a pessoas e ao comércio local. Mangueando, como dizem na gíria da população de rua. O que não é nenhuma vergonha ou constrangimento, nem atitude antiética, parasitária; ao contrário, ajuda  até a desmistificar essa visão discriminatória,  de que toda a população de rua só pede ajuda para poder comprar suas famosas pedrinhas de crack ou  garrafinhas de corote (cachaça).

Enfim, precariedade, coragem, persistência, improvisos. Na sua vinda ao mundoe na  busca de uma ação transformadora, o coletivo SAI DA RUA traz consigo os mesmos termos e situações que são próprios do dia a dia da população de rua.


 sede do Coletivo SAI DA RUA
(rua São Francisco, Cidade Alta)


Registrei minha vista à sede, ladeado por Indio e Carlão, dois membros da Coordenação do Coletivo Sai da Rua

abaixo, Giresse Nolasco, também da Coordenação, faz uma filmagem (me recuso a usar a colonialista expressão "live") da sede e das primeiras doações feitas pelo  SAI DA RUA - momento histórico para o Coletivo. Não consegui editar o vídeo feito por Nolasco.



15/08/2021

abrigos e desabrigos


esgotados e desamparados dançarinos
os acrobatas do ar tensos se aquietam
unidos na fragilidade
à espera de que finde 
a alva e álgida dança-neve

mas aguardam solenes-silentes
crentes de que o Ser oferta
sempre o certo  momento
para acrobacias e cantos
dores e tremores 

justas aparições  e desaparições
para a todos os entes que jorram
de Seu cósmico, sagrado e incessante 
velar e desvelar e velar e desvelar

roberto soares

Família de passarinhos se expreme em galho de árvore para enfrentar nevasca

razões de um participante

 podemos carregar a infância

levá-la pela estrada até ao centro
das praças onde gritam.
ninguém a vai pisar
e o que tivemos é apenas nosso
conforma-nos o rosto.

isso não faz sentido, dizem.
os que assim falam
não sabem que o presente
é passado e futuro
e que todo esse tempo nos completa
se o levarmos connosco
tentando ser alguém nas praças cheias.   

nuno dempster   - portugal  (1944  -   )

14/08/2021

fotos : eleição da AMACENTRO nestedomingo


Lino Feletti, candidato a presidente pela AMACENTRO, ao lado de Charles Reis, 
em atividade de mobilização na Feira Livre do Calçadão, neste sábado (de camisa azul) 


Material de divulgação da chapa Unidos para Avançar


Há outras fotos e também um interessante vídeo de divulgação, 
mas eu não consegui extrair do whatsapp e publicar aqui.

13/08/2021

um centro ( e um país) em movimento

O Centro de Vitória está, de fato, passando por  uma certa efervescência, em termos de movimentos e atividades comunitárias.

Além de inúmeras e recorrentes ações de coletivos comunitários e culturais, está havendo atualmente o Fórum de População de Rua , que já teve dois encontros e finalizará na próxima quinta-feira (19/08).

E amanhã, domingo, 15/08, haverá eleição para a nova Diretoria da AMACENTRO - Associação dos Moradores do Centro de Vitória. Será na Praça Ubaldo Ramalhete, a partir das 08:00 h, esclarecendo que será uma eleição com chapa única, a Unidos Para Avançar.

Mas, mesmo não havendo disputa, a Coordenação da campanha entendeu de realizar uma divulgação abrangente da eleição, visitando praticamente todas as regiões do Centro. No que as lideranças acertaram em cheio.

Nesta sexta-feira à noite, por exemplo,  participei como colaborador de uma caminhada com alguns membros da chapa (Lino Felette, presidente, Narcísio Soares - Política urbana,  Ricardo Aguiar - Conselho Fiscal  e Felipe - Cultura) pelas ruas Pereira Pinto e Alziro Viana e, depois, pelo Morro da Capixaba. Para divulgar a eleição, apresentar os membros presentes, as propostas e, claro, para ouvir moradores.

E me parece que é exatamente essa disposição - "desnecessária" em termos de disputa por votos - que dá esse caráter de efervescência, de mobilização e resistência, a uma eleição que, por si, seria banal, uma mera homologação de chapa. Pelo que percebi, foi bastante válida a iniciativa, as pessoas querem participar, saber o que está acontecendo, ter canais de escuta e atuação. A chapa não foi recebida de maneira morna. 

E, o mais importante, é algo que certamente acontece em termos de país, e não apenas de bairro ou cidade. 

Como se consolidássemos, a cada dia, o renascimento da resistência e da articulação da luta popular, após um longo período de perplexidade e imobilismo, a partir do golpe de 2016 e da eleição, em 2018, de certo personagem infeliz e digno do mais absoluto desprezo. **

Posso até estar enganado, um tanto ou quanto entusiasmado, digamos - afinal militantes socialistas vão acreditar na Revolução, na Festa da Humanidade, até o último dia de suas vidas, ou até o dia de seu encontro com o Mistério, para quem preferir assim. 

Mas, para mim, a recepção na caminhada é parte de uma disposição maior, em termos de país, parece-me que há uma espécie de expectativa, de preparação para alguma ação, um enfrentamento concreto do impasse nacional,  uma disposição para a discussão, a busca de alternativas populares, vindas de baixo, e não de apenas Instituições, Instituições, Instituições, Partidos, Lideranças, Imprensas etc etc.

Por óbvio, que não se está defendendo aqui a patética condenação da Política, que serve somente aos interesses dos donos do dinheiro e de vidas ***

Pelo contrário, entendo que o  renascimento da resistência e da luta popular terá que se amparar em partidos e lideranças populares, fortes e  autênticos, para de fato podermos reverter o caótico quadro de destruição no qual o país ainda está sendo mergulhado. Sem meias palavras, falo aqui do único líder de massas que pode conduzir um arrojado projeto nacional e popular para o Brasil - LULA, por óbvio. 

*****

Deixando um pouco de lado a questão da eleição da AMACENTRO, mesmo porque ela nos conduz a um cenário mais amplo.

Antes, registre-se que, há muito,  não sou mais filiado petista (tive a honra de ser suplente no Diretório de Vitória, indicado pela corrente Articulação de Esquerda - liderada por nomes como Magno Pires, Ana Rita Esgario, Iriny Lopes, Cláudio Vereza, Baioco, o paulistano Emílio, entre tantos outros combativos e lúcidos militantes; jamais esquecerei o aprendizado moral e político  que ali fiz. A corrente da Articulação de Esquerda continua atuante até hoje dentro do PT, fazendo a disputa no Partido por posições mais à esquerda, liderada por Walter Pomar.

Hoje, sou fervoroso simpatizante do PCO, Partido da Causa Operária, presidido pelo sempre lúcido Rui Costa Pimenta. Em suas análises políticas semanais, Rui é uma verdadeira metralhadora giratória, armada com o mais lúcido e rigoroso marxismo, às vezes com uma ironia corrosiva, áspera, porém sempre elegante e honesta, corajosa - de vez em quando sobra até para LULA, cuja prioridade de candidatura o PCO defende com unhas e dentes, de forma crítica, é claro. De minha parte, concordo plenamente com o PCO, e, parafraseando Voltaire, defenderei até o fim o direito de o PT tentar reencontrar, ou resgatar, seu papel histórico, e liderar o processo de um projeto popular para o Brasil. 

Goste-se ou não do PT, aponte-se, com ou sem razão, os seus desvios, o fato é que não dá para criar do nada uma força política, suficientemente forte e carismática, que consiga enfrentar os reais perigos que nos ameaçam, cada dia com mais estupidez e impiedade. O resto é divisionismo, é querer inventar a realidade. 

E isso de reduzir o debate político ao quesito corrupção, como estrela na testa do PT,  é pura demagogia e hipocrisia, é oportunismo eleitoreiro, é moralismo de esquerda pequeno-burguesa e de classe média; serve na verdade apenas a interesses de lideranças supostamente de esquerda,  que querem se construir como alternativa aceitável para as classes dirigentes, no lugar de LULA. A tal da já nauseante terceira via. Basta saber um pouco de história e de ciência marxista para entender que corrupção é um elemento essencial ao funcionamento do Capitalismo. 

Por óbvio, não se está aqui justificando a corrupção, ou defendendo uma certa tolerância para com ela,  apenas apontando a hipocrisia ou ingenuidade de se exigir total e completa pureza ética do maior partido de massas do Ocidente, quando na verdade qualquer partido é obrigado a conviver com esse esgoto essencial à estrutura capitalista - nalguns países  é um esgoto mais mal cheiroso, noutros é menos. 

Agora, a questão crucial é saber se Lula , o PT e os outros partidos autenticamente de esquerda saberão, desta feita, conduzir esse processo (e saber conduzir-se nele) de instauração de um autêntico e contundente projeto social e  popular para o Brasil. 

Da última feita, erraram feio. Não convidaram, de verdade, a luta popular para a festa da ação política, não convocaram o povo, mas convidaram (e se estreparam com) as tais Instituições, Instituições, Instituições, Partidos, Lideranças, Imprensas etc etc

Admiro muito o companheiro Zé Dirceu que, sabemos, foi o grande  e perspicaz  artífice político de Lula,  mas a sua tática se mostrou um desastre para a estratégia de um projeto popular.

E todo mundo conhece o fim da  história. Quando Lula, Dilma e o PT precisaram da luta popular, ela se encontrava em estado  de completa catatonia: perplexa, confusa, induzida ao erro. E deu no que deu, no esgoto fascista e no caos  a céu aberto que está aqui e agora olhai as praças, com sua comovente população de rua. 

Não se pode manietar,  amortecer, aparelhar a luta popular, domesticar com cargos administrativos os seus movimentos, coletivos, lideranças. Ou é transformação, ou é submissão a migalhas, ilusão.

                                                    *****

Agora, voltando à eleição da AMACENTRO, como pequeno retrato desse cenário maior. 

Se a Coordenação, com as suas muitas caminhadas pelo bairro, visava apenas legitimar uma eleição em chapa única, para não haver contestação moral e argumentos desqualificadores de  opositores, a inciativa acertou no alvo, e em mais alguma coisa. 

Mostrou que, de uma forma ou de outra, os movimentos e forças populares aprenderam com a experiência dos governos petistas. Aprenderam que não podem afastar-se das ruas e pessoas, e certamente aprenderão a não se deixar domesticar, a não se burocratizar e se institucionalizar, excessivamente, num eventual Quinto mandado petista. 

Apoiará, sustentará, defenderá esse mandato, mas também saberá exigir a autonomia e a atenção, o apoio político e material que lhe é devido num governo de esquerda autentico, para que cresça e se fortaleça cada vez mais como luta popular autônoma, atuante, critica e reflexiva. Enfim, sua difícil tarefa será a de aprender a caminhar no fio da navalha entre autonomia e engajamento, entre reflexão crítica e sustentação do Terceiro mandato LULA.

Enfim, não se pode esquecer nunca das singelas palavras de Milton, menestrel das Minas Gerais: "todo artista tem que ir aonde o povo está". Os militantes da luta popular parece que estão aprendendo e praticando essa arte de encontrar o povo das ruas.

Quanto ao PT, PCB, PSOL, PC do B, UP,  Lula, Boulos, Haddad, Flávio Dino, e tantos outros, espera-se que sejam bafejados pelos ventos da História, para praticarem, ou resgatarem, essa arte das ruas e do povo. 

Isso, se de fato todas essas lideranças e partidos cumprirem seu papel histórico de apoiar LULA, ao invés de descaradamente somarem forças com o PSDB e a direita, para lançar a já famosa e nauseante terceira via. De certa esquerda tudo se pode esperar. Aliás, no programa do PCO de hoje, 14/08, Rui mais uma vez alerta para essa possibilidade. 

Goste-se ou não do PCO, considere-se ou não as suas teses políticas obsoletas e estreitas, o fato é que sua liderança maior, o companheiro Rui Costa Pimenta, alerta e bate nessa tecla 24 horas por dia, sete dias por semana: ir para as ruas e fábricas e comunidades, ir aonde o trabalhador está. 

E, amparado nessa lucidez, o PCO tem acertado todas as suas reflexões mais importantes, desde que acompanho as suas  análises, a partir de 2014 - alertaram para o Golpe Parlamentar de 2016, para a prisão de Lula, para a farsa da eleição de 2018 (defenderam até o fim a candidatura Lula mesmo sub judice, como tática de enfrentamento e desmoralização da farsa eleitoral  de 2018). 

E, atualmente, o companheiro Rui Pimenta tem alertado muito sobre a necessidade de estarmos preparados para a difícil tarefa de  GARANTIR a inevitável vitória de Lula nas urnas. Mas GARANTIR essa vitória nas ruas e fábricas e comunidades, com os trabalhadores e movimentos populares, e não apenas recorrendo às famosas Instituições da democracia burguesa, que certamente estarão todas vendidas, ou melhor, estarão todas cumprindo o seu papel de aparato burocrático e institucional do grande poder econômico. 

Rui ultimamente tem, inclusive, alertado que,  no momento decisivo - na falta de uma candidatura de terceira via que lhes sirva a contento - todas as tais Instituições, Instituições, Instituições, Partidos, Lideranças, Imprensas etc etc apoiarão a candidatura do infeliz a quem somos obrigados a chamar de  presidente;  ou, no limite, apoiarão hipócrita e disfarçadamente a cretina e animalesca solução militar (minhas escusas aos animais da natureza) - tudo para impedir que as forças populares e de esquerda, através do governo LULA, construam, finalmente,  um autêntico governo popular no Brasil.


**  esses pobres e cretinos ricos que, na sua degradante mas inevitável e implacável condição de marionetes do Capital, da Lógica do dinheiro, nunca conseguirão cuidar de seu mal maior - sua triste miséria existencial e espiritual. 

*** para os cristãos autênticos, talvez fosse também o caso de se falar em compaixão, em co-afetação, isso se o nosso infeliz personagem não estivesse, direta ou indiretamente, envolvido na morte e no sofrimento de milhares de corpos e consciências.

04/08/2021

E vem ao mundo o "SAI DA RUA"...

 

Amanhã, 05 de agosto,  será um dia especial para os moradores de rua que habitam, e orbitam, pelo Centro de Vitória e suas imediações: Praça Costa Pereira, Praça da Catedral, Parque Moscoso, Vila Rubim, e em muitas outras ruas, viadutos, calçadas e marquises.

Será aberto o Fórum de Pessoas em Situação de Rua, que terá 03 encontros semanais  (sempre na quinta-feira), durante os quais se dará o lançamento da Ação Social Sai da  Rua.

Conforme consta no documento formal de divulgação "A Ação Social Sai da Rua é um coletivo formado por 160 pessoas em situação de rua da cidade de Vitória-ES, constituída em 15.05.2021. Busca ações de INCLUSÃO do Poder Público Municipal nos programas de geração de Emprego e Renda e/ou Habitação" . 

Não consegui editar e publicar o documento aqui no blog, com a programação do Fórum, os temas a serem abordados, os convidados, lideranças de diversas entidades  e representantes de órgão públicos. Os encontros ocorrerão no auditório Museu do Telefone, de 19:00 às 21:00 h.

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Sai da Rua já nasce  atuante e com ações concretas. Reivindicará da Prefeitura de Vitória, por meio de Abaixo-assinado, a ser entregue durante o Fórum, a imediata instalação de um banheiro químico e de um quiosque, no meio da Praça Costa Pereira. Serão coletadas assinaturas não apenas dos associados, mas também de moradores e comerciantes do Centro. Leia aqui o teor do abaixo-assinado, para entender a importância desses equipamentos públicos para os moradores de rua (tive a satisfação de poder redigir o documento, a pedido das lideranças do movimento). 

Também já conseguiu, através de contribuição de seus próprios associados,  alugar uma sede, ainda  pequena para as necessidades e projetos do movimento, mas extremamente bem localizada. Fica na Rua São Francisco, em frente à ladeira que passa  por baixo do Viaduto Caramuru, ou seja, bem no meio dos principais pontos utilizados pela população de rua: Praça Costa Pereira, Praça da Catedral e o Parque Moscoso.

imagens da sede da Ação Social SAI DA RUA
(rua São Francisco, Cidade Alta)


Ladeado por Indio e Carlão, dois membros da Comissão Provisória do 
Sai da Rua; os outros dois membros são Girardi  Nolasco e Leonardo Burim.