13/09/2010

o grito que ainda se faz ouvir

(depois de ler o texto, veja abaixo algumas  imagens do Grito dos Excluídos 2010, em Vitória)

O Grito dos Excluídos é realizado há já 16 anos, no dia 07 de setembro, por iniciativa da CNBB, em articulação direta com a Campanha da Fraternidade. Quem mantém vivo o movimento, ao longo desses 16 anos, são as Pastoriais Socias junto com a ala progressista e socialmente engajada da Igreja Católica.
O Grito é hoje a maior, senão a única, manifestação popular organizada, massiva e abrangente que temos no Brasil.

Sabemos que o próprío MST tem se recolhido um pouco, com o advento do governo Lula. Talvez por haver mais diálogo com o governo petista, talvez para contribuir com a chamada governabilidade, evitando dar munição para os eternos inimigos de um governo popular, o fato é que o MST não tem alavancado ostensivamente o seu projeto de uma integração das lutas campo-cidade.

Claro que não se trata aqui de fazer comparações inócuas entre MST e Igreja Progressista. Mesmo porque os objetivos imediatos do MST são bem específicos – a luta pela reforma agrária – ao passo que o horizonte da Igreja Progressista é mais amplo e difuso: a construção de um Projeto Popular para o Brasil, que, aliás, foi o tema do Grito deste ano: “Vamos às ruas para construir um Projeto Popular”.
Além disso, o MST, a Via Campesina e outros movimentos camponeses têm participado ativa e regularmente do Grito ao longo dos anos, e também e na construção conjunta desse Projeto Popular para o Brasil.

Trata-se apenas de registrar que, hoje, quem dá visibilidade pública à construção desse Projeto Popular são os setores progressistas da Igreja Católica. É o Grito dos Excluídos quem hoje leva as lideranças populares para as ruas, na tentativa de despertar a cidade e o campo para a necessidade e a possibilidade de o povo brasileiro construir um movimento que supere as limitações políticas e institucionais que os sucessivos governos do PT trazem consigo.

Resumindo: se houver um movimento que esteja em condições de promover a superação dialética desse momento histórico representado pelo PT, esse movimento tem tudo para brotar novamente de dentro da Igreja Progessista, e não de algum sindicato, partido ou movimento social.
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Não se afirma aqui que a Igreja vá criar um movimento ou partido para comandar os avanços na luta popular em nosso país, mas simplesmente que ela está novamente a exercer o seu papel de aglutinadora, de articuladora da resistência e do avanço popular.

Ou seja, ela estaria cumprindo de novo aquela sua tarefa histórica que exerceu na década de 70 quando - principalmente através das Comunidades Eclesiais de Base, CEBs, e da Comissão Pastoral da Terra, CPT - forjou e ofertou muitos e indispensáveis quadros para o movimento de ruputura política que se inciou naquela década, que foi posteriormente conduzido pelo Partido dos Trabalhadores e que tem dado os seus primeiros frutos nesta década.
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É preciso registrar ainda que a construção desse Projeto Popular é a razão de ser tanto da Consulta Popular quanto da Assembléia Popular, dois movimentos que, embora não sejam muito citados na mídia e no nosso dia a dia, talvez sejam as iniciativas que mais estejam se preparando para substituir dialeticamente o PT enquanto articuladores do processo de transformação popular.
Lembrando que tanto a Assembléia Popular quanto a Consulta Popular são constituídas, em sua maioria, por lideranças e quadros oriundos exatamente dos movimentos camponeses, das pastorias sociais e das CEBs.
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É preciso também levar em conta as posições das tendências mais à esquerda do PT, notadamente a AE - Articulação de Esquerda. Para a autodenominada Esquerda Partidária do PT, ainda é possível e necessário disputar internamente os rumos do Partido, para que o PT resgate a sua vocação socialista e tenha mais poder de decisão no governo Dilma e nos futuros eventuais governos petistas.

Dessa forma, o PT poderia superar a si próprio e voltar a exercer a tarefa de força motora da transformação popular no Brasil. Ou seja, a esquerda partidária seria uma espécie de antítese a esse PT moderado, institucionalizado e cada vez mais burocratizado que vem governando o país. Desse enfrentameneto dialético surgiria uma nova síntese, um novo PT, efetivamente capaz de continuar impulsionando com lucidez, coragem e eficiência a luta popular.

Não deixa de ser uma possibilidade, essa de o PT ser seu próprio ‘substituto’, realizar sua própria superação histórica. A história está sempre em aberto. Por outro lado, essa autossuperação somente poderá se dar se a chamada Esquerda Partdidária de fato conseguir envolver novamente no PT os quadros e militantes que hoje estão alimentando exatamente as CEBs, as Pastorais, os movimentos camponeses, a Assembléia Popular, a Consulta Popular.

Enfim pode ser um PT redimido, ou um novo partido, essa força que irá fazer avançar a luta popular. De qualquer forma resta ainda saber por quanto tempo esse PT que vem conduzindo o processo de transformação ainda permanecerá à frente do governo; resta saber quantos anos ainda faltam para que esse PT esgote de fato o seu papel histórico de - bem ou mal, de forma ousada ou medrosa – conduzir o processo de transformação das estruturas sociais e econômicas de nosso país.

Mas isso já é outro tema, que exigirá um outro espaço.

imagens do grito I

bandeiras a postos: entre as arquibancadas do sambão
 do povo,  os foliões do movimento popular se preparam
para o desfile da esperança e da resistência popular

nós, do CPV - conselho popular de vitória; estou segurando o cartaz contra as guerras

também haviam urnas para quem quisesse votar no plebiscito popular
 sobre os limites  das propriedades rurais, que aconteceu agora em setembro;

o desfile popular nas imediaçãões do parque moscoso...

... e da vila rubim

imagens do grito II

não é ainda o povo popular tomando de assalto o palácio das elites,
e assumindo de fato o poder sobre sua história e sobre suas vidas,
mas ainda chegaremos lá...

... afinal, o grito continua, a luta continua, continua a crença de que o ser
humano  pode de fato elevar-se acima de suas contradições,
pode construir uma história e uma morada menos condicionada
por projetos imediatistas, individualistas, limitados e medrosos  

a outra frase escrita neste belo pano vermelho de 30 metros de comprimento foi esta:
"O futuro á agora: por soberania já.
Queremos democracia direta e popular.
Fora essa DEMOCRA$$IA de faz de conta",
 de cuja criação tive a alegria de participar.

o povo, carregando nos braços o longo e vistoso tecido da esperança,
 da crença e da resistência, sobe a rampa que leva ao Palácio Anchieta

um outro 11 de setembro

Basta refletir um pouco sobre as imagens e as palavras abaixo para poder entender muito bem porque os americanos foram alvo de ataques  em 11 de setembro de 2001.




Claro, resta saber até onde foram os muçulmanos da Al-Qaeda os responsáveis pela assombrosa eficiência do ataque, e até onde as coisas foram facilitadas, incentivadas ou direcionadas pelas obscuras articulações do obscuro poder militar-industrial dos Estados Unidos. A respeito de uma suposta armação por parte do próprio governo americano, o que não faltam são vídeos, reportagens, suspeitas, e um monte de perguntas sem respostas.
Uma simples pesquisa no YouTube com a expressão 'farsa do 11 de setembro' retorna com cerca de 700 resultados. Um texto recente está na página resistir, afirmando que Bin Laden estava internado num hospital do Paquistão (aliado dos Estados Unidos) no dia dos atentados; ou seja, completamente à disposição do governo americano à época, sem necessidade do sangrento ataque ao Afeganistão. Para quem se interessar mais por essa ainda mal contada história:
onde estava osama...

casonão consiga acessar o vídeo acima, clique abaixo:
http://www.youtube.com/watch?v=7vrSq4cievs&feature=player_embedded

16/08/2010

flor que se cumpre...




sede assim - qualquer coisa
serena, isenta, fiel

flor que se cumpre
sem pergunta


leia aqui o poema de cecília, na íntegra

minas, urbana - I

a presunçosa e servil arte da publicidade criou, há décadas atrás, a figura do homem-sanduíche. eis que agora, no auge da irracionalidade, da  voracidade e da estupidez capitalista, somos brindados com mais este engenhoso advento da arte publicitária: a figura da criança-sanduíche.

o garoto júlio, de plantão na esquina da carijós com amazonas,
 em belo horizonte 

minas, transcendente - I

fachada lateral da basílica de lourdes, belo horizonte

minas, rural - I

capivara, município de são miguel do anta

13/07/2010

modesto tributo a saramago

É público, notório e inquestionável o constrangimento provocado por essas bem-intencionadas iniciativas de homenagear, discutir, debater, aplaudir e, às vezes, pateticamente tentar divinizar obras de escritores ou artistas quando morrem.

Dá margem a jornalistas e críticos oportunistas, que geralmente não têm muito o que dizer, para se destacarem ainda mais em suas mídias espetaculosas e inócuas, manifestando-se cheios de boas intenções com seus textos inteligentes e acrobáticos, grandiloquentes e contritos.
Além, é claro, de cheirar a hipocrisisa de pessoas e mídias, que não dão o devido respeito ou atenção ao autor ou obra, quando em vida, já que isso naquele momento não daria a esperada audiência.

E, por fim, isso de destacar em demasia a morte de alguém, seja um artista ou qualquer outra 'personalidade', é coisa de cultura e manipulação burguesa, elitista. Tem o efeito de distanciar o 'homenageado' do nosso cotidiano. Coloca-o num plano superior a aos outros.
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Óbvio que aqui não se coloca em questão o valor do talento individual e das diferenças de personalidade, que fazem A ou B se destacar dos demais. A questão é a má-fé de mídias e pessoas, ao fetichizar esse talento, absolutizando, destacando apenas e tão somente a personalidade individual, como se toda uma história e um contexto coletivo não houvessem contribuído para o aparecimento e desenvolvimento do talento individual. Como se o autêntico talento não fosse exatamente uma resposta a um determinado tempo e a uma determinada situação, seja ela artística, política ou científica-acadêmica.

Na verdade, funciona como uma maneira de anular exatamente a força e a verdade desse talento, ao passar a idéia de que foi produto apenas de uma decisão individual, ao passar a idéia de que basta ter 'força de vontade' para ‘vencer’, basta querer ‘competir’ para ‘vencer’.

Enfim, é o velho artifício de exagerar nas homenagens, de divinizar, para separar, engolir e neutralizar, principalmente quando se trata de alguém que incomoda, que contesta, que desmascara a ordem vigente e os seus mecanismos ocultos. E certamente que o talento de José Saramago é um desses que incomodaram e e incomodam essa ordem.
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Por isso, esse longo preâmbulo antes de prestar a merecida homenagem ao escritor português. Tal como Sartre, outro grande exemplo de engajamento e recusa, Saramago não pode, não merece e não precisa ser fetichizado por essas homenagens de uma mídia que finge acreditar ( e faz de tudo para passar essa ‘verdade’) que Saramago era apenas mais um grande escritor, o ‘único escritor em língua portuguesa ganhador do Prêmio Nobel’, etc, etc;

Por essa mídia que não consegue ou não quer ver que a grandeza de Saramago também estava exatamente em sua recusa do erro e do velho que há nesta ordem vigente, essa mídia que não consegue ou não quer ver que o escritor português nutria simplesmente desprezo e indignação por essa ordem injusta e obsoleta, à qual essa mídia despersonalizada e presunçosa pressurosamente serve.

As palavras abaixo, do próprio escritor, atestam essas afirmações e mostram um pouco do verdadeiro Saramago.

É a minha modesta homenagem ao escritor, ativista e pessoa José Saramago, nesse mês em que Desvelar também lembra o dançarino-menino Michael Jackson, que está a ser transformado numa mercadoria-mito pela mesma e implacável engrenagem da indústria cultural que o sugou até à exaustão, quando em vida.

saramago: cadernos de lanzarote

Comecemos esse tributo com um verbo bastante contundente de Saramago. Como se fosse um raivoso e desesperado poema de escárnio que ele lança, tal qual um projétil, em direção a essa putrefata ordem burguesa, em direção à patética e desumana elite que a impõe e em direção às submissas e deslumbradas camadas intermediárias, as chamadas classes médias, que parecem ter tem como único alimento existencial macaquear essa mesma e lamentável elite.

«Privatize-se tudo, privatize-se o mar e o céu, privatize-se a água e o ar, privatize-se a justiça e a lei, privatize-se a nuvem que passa, privatize-se o sonho, sobretudo se for diurno e de olhos abertos. E, finalmente, para florão e remate de tanto privatizar, privatizem-se os Estados, entregue-se por uma vez a exploração deles a empresas privadas, mediante concurso internacional. Aí se encontra a salvação do mundo... E, já agora, privatize-se também a puta que os pariu a todos"

José Saramago em «Cadernos de Lanzarote – Diário III», pág. 148

saramago: esquerda

Temos razão, a razão que assiste a quem propõe que se construa um mundo melhor antes que seja demasiado tarde, porém, ou não sabemos transmitir às pessoas o que é substantivo nas nossas ideias, ou chocamos com um muro de desconfianças, de preconceitos ideológicos ou de classe que, se não conseguem paralisar-nos completamente, acabam, no pior dos casos, por suscitar em muitos de nós dúvidas, perplexidades, essas sim paralisadoras. Se o mundo alguma vez conseguir ser melhor, só o terá sido por nós e connosco. Sejamos mais conscientes e orgulhemo-nos do nosso papel na História. Há casos em que a humildade não é boa conselheira. Que se pronuncie bem alto a palavra Esquerda. Para que se ouça e para que conste.

Escrevi estas reflexões para um folheto eleitoral de Esquerda Unida de Euzkadi, mas escrevi-as pensando também na esquerda do meu país, na esquerda em geral. Que, apesar do que está passando no mundo, continua sem levantar a cabeça. Como se não tivesse razão.

por José Saramago 

extraído de os cadernos de saramago

saramago: outra leitura...

Outra leitura para a crise

A mentalidade antiga formou-se numa grande superfície que se chamava catedral; agora forma-se noutra grande superfície que se chama centro comercial. O centro comercial não é apenas a nova igreja, a nova catedral, é também a nova universidade. O centro comercial ocupa um espaço importante na formação da mentalidade humana. Acabou-se a praça, o jardim ou a rua como espaço público e de intercâmbio. O centro comercial é o único espaço seguro e o que cria a nova mentalidade. Uma nova mentalidade temerosa de ser excluída, temerosa da expulsão do paraíso do consumo e por extensão da catedral das compras.

E agora, que temos? A crise.
Será que vamos voltar à praça ou à universidade? À filosofia?

por José Saramago

extraído de os cadernos de saramago

06/07/2010

o menino michael

O primeiro aniversário da morte de Michael Jackson  não passou em brancas nuvens, como era de se esperar.
Na verdade, tudo leva a crer que a data do 25 de junho se tornará a cada ano mais marcante, tanto para os seus fãs em vida quanto para os que passarem a conhecê-lo após a sua morte. Podemos estar presenciando o nascimento de um ícone ainda mais forte do que Elvis Presley, John Lennon, Beattles, Airton Senna, Lady Di, e tantas outras tentativas ou necessidades de se criar mitos e mártires na cultura pop.

Mas se todas essas construções de ícones pops são iguais em essência - se, numa análise resumida,  são todos uam msitura de mídia e de sociedade do espetáculo com uma necessidade que as massas têm de suprir suas perdas de referência e de autonomia - em que então o fenômeno Michael Jackson iria diferir tanto dos outros ícones ou espetáculos post mortem?

Uma pista, talvez. Talvez pela sua imagem de fragilidade, de criança crescida, de adulto que se perdeu nos confusos caminhos do mundo. Mas não um adulto qualquer. E sim um artista que foi por demais engolido, sugado pelo pavoroso sistema no qual ele cresceu e venceu.

Ou seja, ao mesmo tempo em Jackson se tornou mais um mito, mais um boneco criado pela narcotizante indústria cultura pop, ele foi uma de suas vítimas, tanto quanto muitos outros artistas sérios ou consistentes, que não sucumbiram à contradição de criar e viver no mundo moderno e acabaram sendo destruídos ou se autodestruindo: Raul, Cazuza, Elvis, Hendrix, Celan e tantos outros artistas, menos conhecidos e mesmo anônimos - certamente que esses últimos existem aos montes por aí.

Que contradição? A contradição de ser um grito, um guerrilheiro  contra essa cultura pop e ao mesmo tempo ser filho do sistema, a contradição de aceitar ser uma mercadoria do engrenagem para poder bradar contra essa mesma engrenagem.

E, mais dramático ou desesperador, ao final ver que os seus brados, ódios e combates contra a engrenagem de nada servem, já que a engrenagem absorve, vive desses combates e supostos ódios, transforma-os em mercadoria altamente vendável, coloca como produtos de mercado a arte e o artista. E aí  a perplexidade,  a impotência, a perda de identidade e, por fim, autodestruição. Na verdade, esse parece ser  o eterno círculo vicioso da muito daquilo que que se chama de arte moderna.

E o fenômeno Michael Jackson talvez tenha levado ao ápice essa contradição: foi o mais endeusado das crias da cultura pop e ao mesmo tempo uma de suas maiores vítimas, um dos maiores exemplos de perda de identidade, de autodestruição ou de autonegação. Uma negação tão forte, que Jackson se recusava até mesmo a crescer, a se postar como adulto perante uma tão engrenagem tão complexa, que ele sabia que estava a devorá-lo.
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E é preciso não esquecer o escabroso detalhe, no caso do menino Jackson: ele foi fabricado e engolido pela engrenagem já na infância, antes mesmo dos dez anos de idade. Ele não pode sequer vivenciar o que seria uma infância feita de inocência, espantos e transcendentes contatos com o mundo e com a vida - aliás, até onde as virtuais e presunçosas crianças de hoje vivenciam uma infância digna desse nome?

Enfim, a par do virtuoso e emblemático dançarino que foi, Jackson compunha e cantava letras que falavam desses gritos, impotências - veja-se os dois vídeos publicados abaixo.
Certamente que esse seu lado incontestável de grande e verdadeiro artista foi captado pelos seus milhões de fãs, juntamnte com a sua tragédia de menino que não queria crescer num mundo por demais delirante, amedrontando e plastificado, como o é a sociedade americana e suas colônias culturais mundo afora - aí se incluindo muito de nossa pátria amada, é claro.
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E tem-se então a criação de um dos maiores ícones desses nossos tenebrosos tempos. Acompanhemos, pois, a construção desse mito moderno em que está se tornando o menino Michael, já nesse seu primeiro ano de vida-virtual-após-a- morte.

Afinal, enquanto participamos da dura batalha para afastar em definitivo o risco da bárbarie e da plastificação da vida,  relaxemos um pouco. Embora crucial e urgente, a batalha também pode ser divertida.

Nem só absurdos  vazamentos no Golfo devemos vigiar, também podemos presenciar os dançantes passos de Jackson e dos artistas do futebol nos gramados da Copa da África - claro, aplaudir a dança dos verdadeiros artistas do futebol, os jogadores, e não a dança macabra dos espectros sujos e infelizes que estão a sugar e mercadejar o futebol: fifas, federações, salários milionários, construção suspeita de estádios novos e faraônicos (qual será o verdadeiro motivo de a FIFA não aceitar o Morumbi para a copa de 2014?), mercado de publicidade, direitos televisivos da Rede Bobo,  e tantos outros miasmas fedorentos...  

01/07/2010

o menino michael: cure o mundo

o menino michael: grito

copa da áfrica X: chávez profeta?

Copa da África do Sul, Copa do Mercosul?

Já na primeira semana da Copa, o lider popular da Venezuela, Hugo Chávez, fazia uma provocação política - inconsistente apenas na aparência. Chávez relacionava o fracasso de algumas seleções européias, e o sucesso das seleções sul-americanas, com a respectiva situação econômica de seus países (detalhes no site da Band).

Profético, folclórico ou apenas provocativo,  o fato é que Chávez foi o primeiro - e isso já no início da Copa - a chamar atenção para a singular predominância do futebol sulamericano neste Mundial.
Alguns números: das 13 seleções européias, apenas 06 se classificaram para  a segunda fase (menos de 50%), enquanto que todas as 06 seleções sulamericanas passaram (100%).
E mesmo se for levadas em conta todas as seleções americanas, das 08 seleções, 07 passaram à segunda fase ( +- 90% de aproveitamento).

Mais surpreendente ainda: há grandes possibilidades de termos uma semifinal exclusivamente sulamericana, melhor, uma semifinal de países do Mercosul.
Claro, são coisas do futebol, diríamos nós. E é o imprevisível que torna o futebol apaixonante. Claro que na próxima Copa pode ocorrer exatamente o inverso.
Mas, neste momento, não deixa de ter um caráter simbólico muito forte comparar a renovação do futebol sulamericano com as transformações sociais e políticas que vem acontecendo na região.

Como se as rupturas e os avanços políticos e populares inspirassem os nossos técnicos e jogadores a promoverem também uma ruptura nos campos de futebol. Ou melhor, uma síntese. Já não mais se preocupando em praticar apenas o futebol força, o futebol de resultados, tipicamente europeu. Mas promovendo um retorno às origens, procurando aliar o futebol de resultados com o futebol criativo, dançante, espontâneo, mais próximo da cultura latinoamericana  e africana. Tomara que Chávez seja tão bom profeta quanto o é como líder popular.
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Assim, eis-nos de volta ao Mundial da África. Afinal, Copa do Mundo somente de quatro em quartro anos. Mesmo porque a próxima será no Brasil, e de um jeito ou de outro (a favor ou contra, execrando ou aplaudindo, ou uma mistura de ambos) o tema estará presente em nossos noticiários, textos, debates e conversas. 

Como uma prévia desses nossos questionamentos futuros, interessante, então, começar com uma análise da questão política e econômica da Copa e do país onde ela acontece atualmente. O texto abaixo, trecho de uma matéria do Correio da Cidadania aborda com seriedade a questão.

Como se lerá, a excelente  matéria faz contundentes e benvindos questionamentos e denúncias ao papel da FIFA e de seus dirigentes, notadadmente Joseph Blatter e apaniguados. 
Não apenas por uma feliz coincidência, mas aproveitando muito bem o clima de Copa do Mundo,  a revista Carta Capital  desta semana (edição 602) também traz uma contundente reportagem, exatamente sobre essa ambígua e onipresente entidade máxima do futebol mundial.

Infelizmente não dá para ter acesso online, é preciso comprar a revista impressa. Mas para se ter uma idéia: na capa aparecem Havelange, Blatter e Ricardo Teixeira, com a seguinte chamada: 'Eles não resistiriam a uma Lei da Ficha Limpa'. Uma ótima oprtunidade para você conhecer melhor  'a FIFA que poucos conhecem'.
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Retornando ao enfrentamento de Dunga com a Rede Bobo, abordado aqui no mês passado, temos um texto de Laurindo Lalo Leal Filho, bastante elucidativo ao relacionar a atitude de Dunga com outras posturas de enfrentamento à Rede Bobo, que aconteciam já na década de 70.

Já o texto do site R7 faz um histórico das tensões, de longa data, existentes entre o técnico da seleção e a dupla CBF-Rede Bobo. Por conta desse enfrentamento, o autor do texto afirma que mesmo que o Brasil vença  a Copa, Dunga será alijado do comando da seleção - para não incomodar o esquema.

Os três textos ora publicados, mais a matéria de Carta Capital, dão bem uma idéia de como os mecanismos de mercado e de dominação social - com seus inseparáveis mecanismos de corrupção e de fraude - se apropriaram dessa que deveria ser a mais festiva e a mais universal das manifestações populares; de como se aproriaram do maior de nossos eventos em nível planetário, a Copa do Mundo, que deveria e poderia legitimamente integrar, mesmo que precária e fugazmente, todos os povos do planeta - e não apenas servir de mais uma oportunidade para enriquecimento, exploração de trabalhadores, dominação política e corrupção. 

copa da áfrica IX: a fifa que poucos conhecem

Trecho da reportagem do Correio da Cidadania, citada acima.

E se os africanos esperavam ao menos desfrutar a parte lúdica do evento, também se decepcionaram fortemente. A poucos meses da abertura, a FIFA anunciou que havia um encalhe de cerca de 800 mil ingressos, reclamando abertamente da falta de adesão do povo local ao Mundial. No entanto, ao analisarmos os fatos, veremos que foi a própria senhora do futebol quem propiciou este revés.

Primeiramente, ignorou-se a realidade econômica do país sede, com os ingressos sendo postos à venda somente por internet, com cartão de crédito e a preços similares aos da Alemanha-2006, fatores de exclusão imediata de uma infinidade de fãs. De quebra, para os estrangeiros, já atemorizados com as inúmeras notícias da violência das cidades sul-africanas, a intermediação das vendas era obrigatoriamente feita pela Match, agência oficial da FIFA, que tem como sócio Philip Blatter, sobrinho do ilustríssimo Joseph, presidente da entidade e sucessor de João Havelange, unanimemente considerado o homem que injetou o futebol-negócio em nossas veias.

E a incompetência (e avareza) da empresa apadrinhada por tio Blatter contribuiu de forma magnífica para que as previsões de 500 mil turistas no país caíssem pela metade. Por conta das imposições que a FIFA faz a toda sede, 80% dos quartos dos hotéis mais estrelados ficam reservados, e não tem conversa, para a Match. Sabendo-se dona do pedaço, a agência cobrou ágios de até 30% na hospedagem dentro dos pacotes de viagem. Assim, muitos torcedores resolveram assistir aos jogos de casa. E a rede hoteleira sul-africana ficou na mão.

Mas como toda boa famiglia, os laços sangüíneos tornam as relações inabaláveis. Philipinho Blatter também é dono da empresa que detém a prerrogativa de negociar os direitos de transmissão da Copa em nome da FIFA. Fora que sua consultoria para ajudar na organização de perfumarias da entidade lhe rendeu US$ 7 milhões em honorários.

Cabe perguntar por que as emissoras de TV interessadas em transmitir a Copa não podem ir à sede da federação em Zurique e sentar pra negociar diretamente com sua diretoria e departamentos comercial e jurídico. Cabe também questionar por que a intermediadora tem sede no mesmo local (Zug, na Suíça) da ISL, a antiga representante comercial da FIFA, cuja falência a justiça suíça comprovou ser uma fraude após seis sócios confessarem desvios de 96 milhões de dólares. Tais indagações podem ser feitas por qualquer um que leia ‘As contas erradas da FIFA’, no Le Monde brasileiro deste mês de junho.
texto do jornalista Gabriel Brito

Leia aqui, a matéria completa

copa da áfrica VIII: o povo não é bobo...

o povo não é bobo...
Laurindo Lalo Leal Filho
(publicado originalmente em carta maior)


A arrogância com que a Rede Globo sempre tratou a sociedade brasileira tem volta. Basta uma oportunidade e toda a humilhação suportada pelo público durante mais de 40 anos vem à tona. É o que explica a reação imediata, realizada através da internet, ao editorial veiculado pela emissora na noite de domingo contra o técnico Dunga.

Trata-se do episódio mais recente de uma série iniciada lá no final dos anos 1970 e, ao que tudo indica, não acabará tão cedo. “Cala boca Galvão” ou “Cala a boca Tadeu (o jornalista que se prestou a servir de voz do dono)” são as versões modernas e futebolísticas do famoso “O povo não é bobo, fora a Rede Globo”, ouvido pela primeira vez nas ruas de São Bernardo e no estádio da Vila Euclides, durante a greve dos metalúrgicos do ABC, em 1979.

Foi lá que a mascara global começou a cair em público e o Jornal Nacional se desencantou para uma parte dos seus telespectadores, até então crentes de que o que ali se dizia era verdade. Mas como podia ser verdade se, eles operários em greve e seus familiares participavam de atos e passeatas gigantescas ao longo dia e, à noite, ao ligarem na Globo assistiam tudo enviesado e distorcido. Deu-se ai o desencantamento, ou o fim das ilusões mediáticas, pelo menos para essa parcela da população, a uma só vez personagem e espectadora da notícia.

A resposta à manipulação foi imediata. Ao voltarem no dia seguinte para cobrir a greve, as equipes da Globo passaram a ser hostilizadas e recebidas com bordão que se tornou famoso, usado depois em outras ocasiões: o povo não é bobo...

Presenciei aqueles cenas antigas e outra um pouco mais recente: a saia-justa vivida pelo pessoal da Globo, em 2001, numa passeata na Av. Paulista. Estudantes voltavam às ruas para protestar contra a criação da Alca, iniciativa dos Estados Unidos para institucionalizar a dependência absoluta da América Latina aos seus interesses. Várias emissoras mandaram equipes de reportagem para cobrir o evento, talvez não tanto pelo conteúdo da manifestação, mas pelo fato de ser inusitado. Já haviam se passado quase dez anos das últimas manifestações estudantis de rua, ocorridas ao final do governo Collor e essa, de 2001, era uma novidade.

Constatei na avenida Paulista o constrangimento dos repórteres, operadores de câmara e auxiliares da Globo. De todas as emissoras, eram os únicos que escondiam os seus crachás, colocando-os por baixo das camisas e dos casacos. Temiam hostilidades, conscientes da existência de uma imagem fortemente negativa da empresa junto à população.

O incômodo provocado pela Globo na sociedade brasileira, sentido por alguns de forma mais concreta, por outros mais difusa, não encontra muitos caminhos para se manifestar. Através da mídia é impossível diante do controle quase monopolista da própria Globo sobre a comunicação no Brasil.

As respostas da sociedade, até o episódio Dunga, se davam de forma artesanal, em protestos de rua – como na greve do ABC – ou em faixas, cartazes, vaias e bordões vistos e ouvidos de forma cada vez mais constante nos estádios de futebol.

A internet deu uma nova dimensão aos protestos. É impressionante o número de manifestações contrárias ao poder global que circula na rede. Além do protesto em si, essas mensagens vão aos poucos constituindo comunidades, cujos integrantes descobrem, nesses contatos, que os seus sentimentos não são isolados e pessoais. Ao contrário, são coletivos e sociais, fortalecendo suas convicções.

Curiosas são as reações da empresa, talvez surpresa com o abalo de sua soberba. De forma errática ataca o técnico da seleção em editorial procurando manter a empáfia, de outro assimila o refrão “cala a boca Galvão” tentando minimizá-lo e ainda coloca funcionários para dizer que as pessoas falam dela mas assistem aos seus programas, como se audiência fosse adesão.

O público sintoniza a Globo por absoluta falta de alternativa, dentro e fora da TV. Dentro, porque o que há de concorrência ou é semelhante à Globo ou ainda pior. Fora, pela falta de opções de cultura e lazer acessíveis a maioria da população brasileira. Não há amor pela Globo. Ninguém a chama de “tia”, como os britânicos fazem com a BBC, numa demonstração de afeto resultante de uma relação aberta e honesta.

Mas é preciso ressaltar que a combinação Dunga-internet está prestando um serviço inestimável à nossa sociedade. Permitiu que o grito reprimido na garganta durante tanto tempo ganhasse novos caminhos e, acima de tudo, encontrasse eco tornando-o cada vez mais forte. São caminhos sem volta.

copa da áfrica VII: dunga fora?

Briga com a Globo pode tirar Dunga da seleção após a Copa
(publicado originalmente no site R7)

Em três frentes a CBF procurou a TV Globo para tentar acabar com a crise provocada pelos palavrões de Dunga ao apresentador Alex Escobar após a vitória da seleção brasileira contra a Costa do Marfim, no último domingo (20).
O presidente da entidade, Ricardo Teixeira, procurou Marcelo Campos Pinto, diretor da Globo Esportes. O chefe da delegação, Andrés Sanchez, tratou de falar com João Ramalho, funcionário da emissora que cuida só da seleção brasileira. E o diretor de comunicação da CBF, Rodrigo Paiva, esteve no espaço reservado à Globo no IBC (centro de mídia internacional), em Johannesburgo.

Todos trataram do mesmo assunto: mostrar que a atitude partiu do treinador. E pediam para evitar a retaliação. A TV Globo aceitou a reaproximação. E o cargo de Dunga está mais do que ameaçado, mesmo se o Brasil vencer a Copa do Mundo.

Teixeira não quer o rompimento com a TV Globo. Há vários acordos milionários entre a entidade e a emissora. Mas tratou de avisar a Campos Pinto que Dunga está tomando as suas atitudes por livre e espontânea vontade. Os palavrões do treinador a Escobar foram a gota d'água para a emissora. O treinador já criou problemas demais.

Desde que assumiu, em 2006, ele resolveu acabar com os privilégios que a Globo sempre teve, como livre acesso aos jogadores e treinadores. Antes de ganhar o cargo de treinador da seleção, Dunga foi comentarista do canal a cabo BandSports. Foi trabalhando como comentarista que ele viu toda a confusa situação na Copa da Alemanha. Estava lá. E jurou que com ele seria tudo diferente.

Já começou em Teresópolis, na Granja Comary, o centro de treinamento da CBF, mandando desmanchar tendas especiais da emissora. Passou a proibir jornalistas da emissora mostrando momentos íntimos da seleção, como o trajeto para os jogos nos ônibus. Barrou as entrevistas exclusivas. Mesmo aconselhado por Rodrigo Paiva a ceder, ser mais maleável, não houve acordo. Não teve como impedir jornalistas da emissora em voos da seleção, mas não os deixa sair antes dos jogadores para filmá-los chegando ao local onde o time vai jogar.
Campanha
Dunga não tolera alguns jornalistas específicos da emissora. Acredita que uns defendem o retorno de Vanderlei Luxemburgo ao seu cargo. Diz que recusou diversos convites para jantar com profissionais da Globo, estratégia utilizada pela emissora com antigos treinadores da seleção. Até pessoas das quais a Globo sabia que Dunga não gostava perderam seus cargos.

Depois do que aconteceu com Escobar, há uma ordem expressa para os jornalistas da Globo não darem entrevistas aqui em Johannesburgo. Em off, porém, há a confirmação do imenso mal-estar com Dunga e há muito tempo.

O técnico já reclamou que a emissora chegou a pedir entrevistas a uma hora da manhã a seus atletas, nos Estados Unidos. E que os repórteres estão acostumados ao abuso pelo fato de a Globo ter os direitos de transmissão dos jogos da seleção.

Na Olimpíada de Pequim, o clima já foi bem ruim. Ele achou que a medalha de bronze não foi valorizada. De lá para cá, o clima conseguiu ficar pior. Dunga respeita poucos jornalistas. Entre eles, William Bonner e Fátima Bernardes. Eles o convenceram a ir para o Jornal Nacional depois da convocação definitiva para a Copa de 2010. Os executivos da Globo acreditaram que tudo estava resolvido.

Tanto que estava sendo preparado um profundo perfil de Dunga e não teria apenas lados positivos. A reportagem foi suspensa como uma demonstração de boa vontade. E os executivos da emissora mandaram cerca de 280 profissionais para a África do Sul. O 'Exército Verde', porque todos usam a camisa verde do uniforme.

Todas as estrelas do jornalismo da emissora estão aqui na África. Vieram cheias de pautas para serem feitas com os jogadores. Só que Dunga trancou a seleção. E para todos os veículos, inclusive a Globo. São apenas dois jogadores por dia dando coletiva e depois treino apenas para ser filmado. Na semana passada, ele resolveu ainda fechar os treinos. A emissora teve de espalhar jornalistas pela África do Sul para buscar matérias. Isso teve um custo inesperado, caro e improdutivo.

A audiência está mesmo com os jogadores. O repórter Mauro Naves conseguiu uma exclusiva com Robinho na segunda folga em Johannesburgo. Dunga deu uma enorme bronca no jogador. O atacante foi obrigado a pedir desculpas a todo o grupo. E jurou que não cairia no mesmo erro.
Dinheiro
Com os treinos fechados, os patrocinadores também reclamaram. Os treinos são as grandes vitrines para os 11 patrocinadores que pagam, juntos, R$ 220 milhões anuais à CBF. Eles investem tanto para aparecer nas TVs. Dunga sozinho está travando esse forte interesse econômico.

A emissora chegou mesmo a negociar com Ricardo Teixeira entrevistas de jogadores para entrar no Fantástico de domingo. Dunga vetou. E foi além. Há um espaço reservado para as emissoras que são donas dos direitos de transmissão das partidas da Copa. Fica à beira do gramado. Os destaques dos jogos sempre param ali para falar. Só que, no último domingo, Dunga não deixou seus atletas falarem à Globo, os retirou, gritando “vestiário”, e sabotou também essas entrevistas.

Os palavrões do treinador a Alex Escobar foram a gota d'água. A emissora carioca fez um editorial forte, respondendo a Dunga no Fantástico. Na saída do estádio Soccer City, jornalistas flagraram o chefe de Esportes da emissora, Luiz Fernando Lima, desabafando: reclamando que de nada adiantaram encontros com a cúpula da CBF para garantir paz entre o treinador e a Globo durante a Copa.
Ex-repórter, Luiz Fernando desabafou em voz alta. Para evitar que tudo ficasse pior, a CBF teve de entrar em várias frentes para se desculpar com a Globo. Isso desagradou, e muito, a Ricardo Teixeira.

Antes da Copa, Dunga disse ao R7 que seu futuro na seleção, depois da Copa, dependia “do doutor Ricardo”. É bom ele ficar atento a convites de equipes italianas. Ricardo Teixeira está disposto a não mantê-lo no cargo para a Copa de 2014. Mesmo se o Brasil for campeão.

O presidente da CBF não quer mais quatro anos desse clima. Só não pode afastá-lo agora para não atrapalhar a seleção. Mas os dias de Dunga parecem estar chegando ao fim, graças à sua postura radical e agressiva. O sonho é um técnico mais maleável para 2014.

24/06/2010

futebol e resistência popular - copa da áfrica VI

Abaixo, vídeos e textos relacionados com a Copa da África.

Não pretendia entrar nessa melindrosa questão da Copa do Mundo. Mas vale o registro, já que tantos têm sido os acontecimentos extra-campo neste atual Campeonato Mundial, alguns divertidos, outros lamentáveis, outros gratificantes: briga do técnico francês com Parreira, crise na seleção francesa, com greves, cortes, abandonos, protestos de trabalhadores contra a poderosa FIFA, repressão policial, o carisma e a arrogância de Maradona e, por fim, o surpreendente enfrentamento de Dunga com a Globo e a CBF.

Melindrosa, porque como todo fenômeno, muitos podem ser os ângulos de leitura, ou de visão. A Copa não pode ser vista apenas e tão somente como momento de alienação, espetacularização e imbecilização das massas, como querem alguns.

A Copa é uma construção cultural que vem se consolidando no imaginário popular ao longo de décadas - aliás, tal como o futebol em geral. É momento de integração, de comunhão entre povos ou entre pessoas de uma nação. É certo, trata-se de uma comunhão precária, de uma integração apenas em potencial, ou virtual, mas não deixa de ser uma reafirmação dessa possibilidade e necessidade de integração entre pessoas, povos e culturas.

Não é muito previdente condenar drástica e unilateralmente todas essas grandes manifestações populares, nem é muito inteligente colocá-las todas ‘no mesmo saco’ da alienação, da manipulação e da imbecilização: procissões religiosas, carnavais, peregrinações, futebol e mesmo enterros de ícones como Airton Senna, Tancredo Neves, Michael Jackson. Principalmente no caso do futebol, que talvez seja a única - ou ao menos a mais intensa - manifestação de cultura popular que atravessa praticamente todos os países do mundo.

Todos essas formações de multidão não deixam de ser uma negação do individualismo, da fragmentação, da hostilidade, da indiferença, que são tão bem utilizados pelos mecanismos de dominação para minar o potencial de transformação de pessoas e povos, quando tomam consciência de si e para si.

Se as elites, o mercado, a mídia etc etc etc aproveitam esse momento de magia e de precária comunhão para aperfeiçoarem ou reforçarem o seu controle sobre a história e as forças populares, isso não invalida o caráter de resistência e de construção popular presente na prática do futebol e dos campeonatos em geral, principalmente do Campeonato Mundial.

Seria muito tolo destruir, negar a identidade de tantos povos somente em razão da lamentável apropriação do futebol que os mecanismos de dominação praticam, e cada vez com mais eficiência (ou cada vez de forma mais patética, presunçosa e boba - depende da forma como cada um vê as ‘inteligentes’ e ‘sensíveis’ criações de nossos publicitários). Copa do Mundo não é meramente fruto das ações de indivíduos e grupos que exercem a sua lamentável tarefa de manter o controle dos povos e pessoas, pelo menos até o momento em que essa dominação for percebida, enfrentada, destruída e superada por esses mesmos povos e pessoas.

E já que estamos falando de Copa da África, aqui cabe lembrar a famosa pergunta que uma vez um jornalista fez a Sartre, parece que a propósito de uma crítica, que o lúcido e combativo filósofo francês teria feito à cultura popular africana, a qual estaria ‘desviando’ os esforços da luta pela libertação da África. O jornalista teria então perguntado: “Sim, mas e depois da revolução, os africanos vão fazer o quê? Vão ler os livros de Sartre?”

P.S. - Uma nota de caráter pessoal, apenas para reforçar esse aspecto de resistência de construção popular das Copas. Ainda aos oito anos, no mesmo ano em que fui arrancado de minha terra para morar na cidade (digo arrancado porque não me foi permitido decidir se eu já estava pronto romper com o aparentemente monótono mas denso universo rural) pude acompanhar a Copa de 70. Os vizinhos e os numerosos parentes iam para a sede do município (São Miguel, Minas) no caminhão de meu pai, para experimentar a grande novidade, que era a televisão. Haviam apenas três ou quatro televisões na pequena cidade. Amontoávamo-nos nas salas, janelas e varandas, numa tensa, expectante, mas festiva integração. Na volta, na escuridão e no frio da estrada de chão, havia a costumeira festa – afinal o Brasil ganhou todas. E com certeza toda essa emoção não era em função das manipulações dos ideólogos da ditadura militar, com certeza a maioria de nós – crianças ou adultos - nem sabia quem eram esses infelizes. E as Copas de antes da televisão obviamente já galvanizavam a todos, mesmo sem a presença dos maléficos bobos da mídia. Copa do Mundo é memória, é história coletiva ou pessoal. Quem não tem essa memória que se sinta à vontade para criticar ou se manter indiferente. Quanto a mim, sou grato por essas memórias.

vídeo de protestos - copa da áfrica V

Feitas as ressalvas acima, temos então diversificado material acerca da Copa.

Os textos ‘copa da áfrica II’ e ‘copa da áfrica III’, juntamente com um vídeo, retratam o mais gratificante dos tais acontecimentos ‘extra-campo’ aos quais me referi acima. Foi o episódio da ‘peitada’ de Dunga para cima da poderosa Rede Bobo de Televisão. Mais detalhes no texto que segue junto o vídeo.

Supondo quer tudo não passe de mais uma dessas armações que os mecanismos de dominação aprontam, com esse gesto Dunga se redime de sua cara antipática, de seu futebol isento de arte e criatividade, e até mesmo daquelas vestes bregas que ele usava, ou ainda usa, para promover a sua filha estilista.

Vale reforçar a ênfase que o texto dá a um detalhe: é a primeira vez que um brasileiro de expressão enfrenta publicamente a Rede Bobo.

Mas vale principalmente registrar os desdobramentos do auspicioso do fato: é também a primeira vez que há uma manifestação de massa contra a Rede Bobo, via internet.

Mas essa deliciosamente benvinda movimentação da chamada sociedade civil não é uma fato isolado, ela vem já no rastro de um outra e surpreendente articulação: a campanha, via twitter, que está sendo movida contra o locutor oficial da Rede Bobo, o coitado do Galvão Bueno, o “Cala a boca, Galvão”. Mais detalhes nos googles e nas execráveis vejas da vida.

É, a continuar assim, parece que em breve teremos no ar algo menos sonolento e imbecilizante do que os indefectíveis plim-plim da Rede Bobo de Televisão. É verdade que com um considerável atraso em relação aos hermanos da Venezuela, mas afinal nunca é tarde para começar...
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Já deixando um pouco o aspecto da mídia e do futebol propriamente dito, e embarcando na canoa da questão explicitamente política, há o texto de Pe Alfredinho, ' O gol e o voto', publicado em 14 de junho - no qual Pe Alfredinho aproveita para expor um pouco das vulnerabilidades, limitações, armadilhas e hipocrisias da democracia burguesa ou representaiva.

Abaixo, um vídeo que mostra os protestos dos trabalhadores africanos contra o descumprimento de obrigações trabalhistas por parte da FIFA. Belo fundo musical, a canção sul-africana .

os bafana bafana não são uns bananas

A polícia sul-africana teve que assumir a segurança em quatro dos dez estádios da Copa do Mundo depois que os trabalhadores contratados para a função cruzaram os braços. Eles receberiam cerca de 100 reais por dia de trabalho, mas apenas 40 reais foram pagos após o primeiro dia. O impasse começou no dia 13 ainda no estádio Moses Mabhida Stadium, em Durban, após o jogo entre a Alemanha e a Austrália. Quando os trabalhadores receberam menos da metade do combinado, no estacionamento do estádio, centenas deles se reuniram para protestar e a polícia foi chamada pelos organizadores do evento para reprimir a massa inconformada. Bombas de gás e tiros de bala de borracha foram disparados a esmo pela repressão em direção aos trabalhadores, que responderam com pedras e garrafas.
Vídeo e texto extraidos do blog  rebelião popular
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E na postagem abaixo há uma divertida paródia feita pelo poeta capixaba Marcos Tavares, que aproveitou o clima de Copa do Mundo e elaborou um convite, para um conversa sobre sua obra, em forma de decreto ou portaria.

convite paródia - copa da áfrica IV

Embora o convite seja evidentemente tardio, vale a sua publicação pela criatividade e pela bem humorada crítica a Copa: 

CONSIDERANDO que, nesse momento, muitos nacionalistas de ocasião não ousam despregar da telinha ( ou telões) os olhos verde-amarelos;

CONSIDERANDO que “o escrete nacional é a pátria de chuteiras”, conforme máxima de Nelson Rodrigues;

CONSIDERANDO que, neste momento, até os nerds trocam as mãos pelos pés;

CONSIDERANDO que, neste momento, até jazófilos e bossanovistas de carteirinha trocam sutilezas musicais, filigranas sonoras, por altissonantes e truculentas vuvuzelas ;

CONSIDERANDO que mesmo os bons da “bola” [cerebral], os adeptos do papo-cabeça, preferem a instabilidade da esférica jabulani ;

CONSIDERANDO que, nesse momento, discute-se apaixonadamente as zangadezas do Dunga , ou o pretenso (ou falso) bom-mocismo do Kaká , quando não se tece loas às divinas fenomenalidades do Luiz Fabiano;

RESOLVE o nosso anti-herói MT arriscar um Debate-papo na Biblioteca Pública Estadual . Será nesta quinta-feira (dia 24 ) , a partir das 19 hs. Marque na sua agenda da Internet. Avise a amigos e , sobretudo, a inimigos ( porque amigos sempre aparecem, obrigados).

A Biblioteca? Nada borgiana, fica ali ao lado das peixarias da Praia do Suá. Ou defronte ao Hortimercado, num local favorável a estacionamento veicular.

Marcos Tavares falará de sua vida ( que daria um livro  ) e de sua obra (que daria até “cadeia” ). Enfim, nascido na Vila Rubim e crescido nas grimpas do Morro de Santa Tereza, poderia estar matando, roubando, estuprando, e até...se prostituindo. Mas, embora peralta , descobriu o caminho das pedras, ou seja, o lado bom da Humanidade : a linguagem.

 Exaltará MT, sobretudo, “a última flor do Lácio , inculta e bela ” ( O . B.), a mesma que, língua vivíssima, com José Saramago conquistou um Nobel de Literatura .

Viva Portugal !

'dia sem globo' - copa da áfrica III

O técnico da seleção brasileira abriu fogo contra a Rede Globo.Dunga deu na canela do comentarista Alex Escobar, da Globo. Poucas horas depois, um dos apresentadores do programa Fantástico, Tadeu Schmidt, da África leu um editorial da emissora detonando Dunga (leia o caso aqui).

O motivo da briga foi por que a Globo negociou diretamente com Ricardo Teixeira, presidente da CBF (Confederação Brasileira de Futebol), entrevistas exclusivas com três jogadores da seleção, entre os quais Luis Fabiano. As entrevistas iriam ser exibidas durante o programa “Fantástico”, no domingo, horas depois da partida contra Costa do Marfim, vencida pelo Brasil por 3 a 1. Dunga vetou o acerto.

O incidente entre Dunga e Alex Escobar ocorreu quando o jornalista conversava ao telefone com o apresentador Tadeu Schmidt exatamente sobre este assunto. O técnico percebeu o que ocorria e perguntou: “Algum problema?” Escobar respondeu: “Nem estou olhando para você, Dunga”. O técnico replicou em voz baixa, o suficiente para ser captado pelo microfone à sua frente: “Besta, burro, cagão!” (veja o vídeo abaixo).

Horas depois do incidente, durante o “Fantástico”, Schmidt falou: “O técnico Dunga não apresenta nas entrevistas comportamento compatível de alguém tão vitorioso no esporte. Com frequência, usa frases grosseiras e irônicas”. O jornalista da Globo não mencionou, no entanto, o motivo do atrito, ou seja, a recusa do técnico em aceitar um acordo feito entre o presidente da CBF e a emissora.A reação do povo foi imediata.O editorial lido no programa "Fantástico", da Rede Globo, deu repercussão no mundo virtual. .E pela primeira vez na história o Brasil inteiro apóia o técnico da Seleção. Só a Globo para conseguir isso...

Dentre os assuntos mais comentados no Twitter nesta segunda-feira (21), a frase "Cala boca, Tadeu Schmidt" era líder absoluta --superou até a antecessora "Cala Boca, Galvão", que liderou por dias seguidos os Trending Topics.

E não parou por ai. Em apoio ao técnico da seleção brasileira, os twiteiros lançaram o "DiaSemGlobo", que será nessa sexta-feira, quando o Brasil vai jogar com a seleção de Portugal, no encerramento da primeira fase da copa.

Nós, "Os amigos do Presidente Lula" estamos aderindo a campanha #DiaSemGlobo, e gostaríamos contar com o apoio de todos vocês queridíssimos leitores.
Para quem for ver o jogo na internet, uma dica é o site: http://www.diarioda tv.com/

dunga, o tsunami da globo - copa da áfrica II



Abaixo, outro texto que está circulando na internet e que também trata do caso DUNGA x REDE BOBO. Eu o recebi através da Lista de Discussão "AE Vitória", voltada para membros da Articulação de Esquerda, corrente interna do Partido dos Trabalhadores.  Também publico o vídeo do editorial do Fantástico de 20 de junho.
Entenda porque a Rede Globo quer comer o fígado de Dunga
O Jornal O Globo em sua primeira página da edição de hoje, quarta-feira 16 de junho de 2010, desce a lenha na seleção e principalmente no seu treinador.

Qual a razão dessa súbita mudança de comportamento ? Vamos aos fatos.
Segunda-feira, véspera do jogo de estréia da seleção brasileira contra a Coréia do Norte, por volta de 11 horas da manhã, hora local na África do Sul.

Eis que de repente, aportam na entrada da concentração do Brasil, dona Fátima Bernardes, toda-poderosa Primeira Dama do jornalismo televisivo, acompanhada do repórter Tino Marcos e mais uma equipe completa de filmagem, iluminação etc.

Indagada pelo chefe de segurança do que se tratava, a dominadora esposa do chefão William Bonner sentenciou :
“ Estamos aqui para fazer uma REPORTAGEM EXCLUSIVA para a TV Globo, com o treinador e alguns jogadores…”

Comunicado do fato, o técnico Dunga, PESSOALMENTE dirigiu-se ao portão e após ouvir da sra. Fátima o mesmo blá-blá-blá, foi incisivo, curto e grosso, como convém a uma pessoa da sua formação.

“ Me desculpe, minha senhora, mas aqui não tem essa de “REPORTAGEM EXCLUSIVA” para a rede Globo. Ou a gente fala pra todas as emissoras de TV ou não fala pra nenhuma…”

Brilhante !!! Pela vez primeira em mais de 40 anos, um brasileiro peitava publicamente a Vênus Platinada !!!

“ Mas… prosseguiu dona Fátima – esse acordo foi feito ontem entre o Renato ( Maurício Prado, chefe de redação de Esportes de O Globo ) e o Presidente Ricardo Teixeira. Tenho autorização para realizar a matéria”.

“ Não tem autorização nem meia autorização, aqui nesse espaço eu é que resolvo o que é melhor para a minha equipe. E com licença que eu tenho mais o que fazer. E pode mandar dizer pro Ricardo ( Teixeira ) que se ele quer insistir com isso, eu entrego o cargo agora mesmo!”

O treinador então virou as costas para a supra sumo do pedantismo e saiu sem ao menos se despedir.
Dunga pode até perder a Copa , seu time pode até tomar uma goleada, mas sua atitude passa à história como um exemplo de coragem e independência.

Dunga, simplesmente, mijou na Vênus Platinada ! Uma estátua para ele !!!
Dunga II - O tsunami na Rede Globo.
Quem presenciou na noite de domingo o editorial do programa “Fantástico” da rede Globo, lido pelo repórter Tadeu Schmidt, há de ter compreendido todo o desespero que se apossou da “Vênus Platinada”, em relação ao técnico da seleção brasileira.

Chamando-o de “grosseiro, mal educado” e outros mimos a mais, a poderosa estação do Jardim Botânico viu pela primeira vez em mais de 40 anos, um brasileiro desafiar seu domínio, e literalmente mijar na sua cabeça.

Recordando os fatos mais recentes, inconformado com a proibição das tais “entrevistas exclusivas” que só seriam concedidas à Globo, na sexta feira o Assessor de Imprensa da CBF levou ao técnico Dunga outro memorandum, dessa vez do próprio Presidente Ricardo Teixeira, solicitando que se ordenasse a abertura para que as tais “exclusivas” fossem concedidas.

Dunga então rasgou o memorandum na frente do Assessor de Imprensa e como a reclamação vinha diretamente por ordem da Todo-Poderosa Sra. Fátima Bernardes, Prima Dona do jornalismo televisivo, Dunga foi mais uma vez taxativo:

- Diz pro Ricardo que se é o que ele deseja, que coloque essa senhora como treinadora da seleção, eu entrego meu cargo” !!!!

Na entrevista coletiva, após o jogo contra a Costa do Marfim, Dunga então resolveu “premiar” os repórteres da rede Globo que lá se encontravam. Pela leitura labial ficou fácil identificar que ele chamou Marcos Uchoa de “chato” e Alex Escobar de “babaca” e “cagão”

E disse tudo. O sr. Marcos Uchoa com aquela cara de diarréia reprimida é realmente um chato de galochas, e o sr. Alex Escobar, metido a engraçadinho e a bobo da corte, é a própria imagem do babaca cagão.

Em razão disso tudo que foi descrito, o sr. William Bonner, absolutamente descontrolado, escreveu do próprio punho o editorial ridículo que foi lido no Fantástico.

Agora à tarde chega a notícia publicada no Portal do Lancenet que a FIFA punirá Dunga pelos fatos ocorridos. A rede Globo certamente está por detrás dessa punição covarde e canalha.

Dunga merece uma estátua em praça pública.
É o primeiro brasileiro vivo a desafiar publicamente a força e o poderio da rede Globo, numa competição de cunho internacional. Leonel Brizola já o fizera antes, mas em assuntos de política interna.

A seleção brasileira de 2010, muito mais que uma seleção, passa a ser o retrato fiel de seu treinador. Que o seu sucesso seja um insulto à podridão que reina nas hostes da emissora do Jardim Botânico.

Dunga mijou na rede Globo por todos nós.

21/06/2010

o mundo como prostíbulo

Volta e meia, surgem na grande mídia denúncias de escravidão sexual, para depois se perderem no mar de informações sérias e de factóides nem tanto, dos qual essa mesma grande mídia vive.

De qualquer forma, nessas matérias esporádicas percebe-se que as vítimas da escravidão sexual são mulheres, jovens e adolescentes oriundas - como não poderia deixar de ser - dos países pobres ou em desenvolvimento.

É mais um dos perversos efeitos da nunca suficientemente denunciada globalização capitalista. O que é incentivado, defendido, permitido e apregoado como sinônimo de modernidade e liberdade não é a livre circulação de pessoas, idéias e culturas, mas tão somente a livre circulação de mercadorias e capitais - e, claro, a livre circulação de corpos, desde que esses corpos se enquadrem no mecanismo de manter ou aumentar a taxa de lucro do mercado, desde que sirvam com mão de obra barata ou de segunda categoria.

Ou, mais indecente ainda, desde que esses corpos sirvam como mercadoria erótica, como mão-de-obra sexual, alimento para a rede mundial de prostituição. Claro, a prostituição não é invenção da globalização, nem se restringe a essa bárbaro fornecimento carnal dos países pobres para os países ricos.

Mas certamente essa irracional globalização capitalista tem tornado a prostituição uma realidade ainda mais desumana e degradante; é de fato uma nova escravidão, que conspurca, destrói e faz sofrer mulheres e adolescentes, agora iludidas ou arrancadas de sua família, de seu povo, de sua cultura e levadas para longe, para a terra estrangeira, o que torna essa nova escravidão tão ou mais cruel e implacável do que o foi a escravidão dos negros africanos, com o agravante de que agora vivemos na chamada modernidade democrática e tecnológica, pretensamente evoluída e racional.

O contundente texto de Lola Galan, abaixo publicado, retrata um pouco dessa prostituição do mundo.

O mundo como um prostíbulo

Fruto de uma investigação, um ex-empregado de um banco denuncia o negócio planetário do tráfico sexual e a vida atroz das cerca de um milhão de mulheres escravizadas para exercer a prostituição. A reportagem é de Lola Galán, publicada no jornal El País, 30-05-2010. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

As meninas e jovens que se oferecem por umas poucas rúpias nos prostíbulos gigantescos de Kamathipura e Falkland Road, em Mumbai, não são muito diferentes das adolescentes do Leste Europeu encerradas em clubes noturnos em Mestre, perto de Veneza. Ou das jovens nigerianas detidas, sob ameaça de morte, em cortiços perdidos entre as estufas de Almería, na Espanha, como as que a polícia libertou há alguns dias.

Umas e outras são escravas sexuais. Um termo aparentemente defasado em pleno século XXI, que descreve, infelizmente, uma realidade nada infrequente. Mais de um milhão de adolescentes e de mulheres jovens alimentam hoje esse sórdido negócio que proporciona aos que o exploram milhares de milhões de euros de lucro por ano. Mulheres vendidas, enganadas ou raptadas pelos próprios grupos mafiosos que controlam o tráfico sexual.

Como se desenvolve o tráfico de mulheres no mundo global? Quem são suas vítimas e quem são os carrascos? "As vítimas são mulheres jovens, pobres, muitas pertencem a minorias étnicas, ou vêm de países instáveis e estão desesperadas para emigrar. Os campos de refugiados também são um campo propício para recrutá-las", explica Siddharth Kara, na conversa telefônica de sua casa em Los Angeles. Ele é autor de um livro sobre o assunto, "Tráfico sexual. El negocio de la esclavitud moderna", publicado pela Alianza Editorial. Kara, de 35 anos, ex-empregado do banco de negócios Merrill Lynch, deixou seu lucrativo trabalho para iniciar, no ano 2000, uma série de viagens pelo mundo que o levariam ao coração do tráfico sexual através de três continentes.

Nos países do sul e do leste da Ásia, nos Estados Unidos, no leste da Europa, nos Bálcãs e na Itália, Kara teve contato com escravas, assistentes sociais, intermediários e alguns traficantes. O resultado desse amplo trabalho de campo é o livro sobre esse negócio desumano, que analisa os aspectos econômicos sem esquecer o drama profundo das jovens exploradas.

Dramas como o de Mallaika, uma ex-escrava sexual que Kara encontrou em Mumbai. Casada aos 13 anos, após dar a luz à dois filhos mortos, o marido a vendeu a um intermediário quando ela tinha recém completado 16 anos. Mallaika trabalhou toda a sua juventude como escrava sexual, obrigada a satisfazer a dezenas de clientes por dia. No gigantesco bordel, imperava a lei mais brutal. Todos os dias, escravas como ela morriam violentamente. Depois, ela passou a trabalhar como prostituta pelo sistema indiano de adhiya. A metade do que ela ganhava era para o dono do prostíbulo. Infectada pelo vírus da Aids quando Kara a encontrou, Mallaika estava consciente de que seus dias estavam contados.
Free the Slaves
Siddharth Kara, membro da direção da ONG Free the Slaves, criada em 2000 por um grupo de intelectuais para lutar contra a escravidão, conta que seu interesse pelo assunto surgiu quando era estudante na Universidade de Duke (Carolina do Norte). Em 1995, Kara passou algumas semanas no campo de refugiados de Novo Mesto (Eslovênia). Ali, uma jovem bósnia lhe contou que soldados sérvios raptaram algumas de suas companheiras e as levaram a prostíbulos de Belgrado.

Essa lembrança nunca lhe abandonou. E, no ano 2000, com alguma coisa de dinheiro economizado, uma simples mochila, uma câmera de fotos e um gravador, lançou-se à aventura de ver com seus próprios olhos a natureza do tráfico de mulheres. "Calculo que agora mesmo haja em torno de 1,3 milhões de escravos sexuais, a maioria mulheres e meninas", diz Kara. "Mas não devemos esquecer que são muitas mais as pessoas escravizadas no negócio da prostituição".

Kara acredita que uma das razões do auge desse comércio é a sua rentabilidade, só superada pelo tráfico de drogas. Mas com um risco muito menor. Por que os mafiosos que controlam o tráfico sexual correm menos risco de ser detidos? "Há várias razões. A corrupção policial, a dos guardas da fronteira, a do sistema judicial. Também não há fundos para atender as escravas que conseguem se libertar, e é difícil que elas denunciem os traficantes. Além disso, as forças encarregadas de lutar contra essa chaga não têm meios, nem estão coordenadas globalmente".

Quando Siddharth Kara iniciou sua investigação, ele se deparou com o fato de não haver dados nem evidências testemunhais do tráfico. "Dedicavam-lhe muito pouca atenção. Nem sequer na imprensa. Hoje, há mais interesse, mas nem sempre é um interesse sadio. Há jornalistas e membros de ONGs que só querem contar histórias sensacionalistas para construir suas próprias carreiras. Além disso, os recursos econômicos são limitados. Por não sei qual razão, a luta contra o tráfico de mulheres está subordinada a outros problemas, como o terrorismo, o tráfico de drogas, ou a imigração. Além de haver uma apatia institucional histórica na hora de reconhecer as dimensões desse problema e de lhe dar uma solução. Seguramente, como as mulheres ainda são discriminadas no mundo, elas recebem uma atenção menor".
Dramas pessoais
A vida das escravas sexuais está dominada por um mesmo horror, seja no Oriente ou no Ocidente, no Norte ou no Sul. Kara entrevistou jovens que sobrevivem meio drogadas nos prostíbulos mais sujos de Mumbai e meninas do Leste Europeu obrigadas a ficar nas ruas de Roma e encontrou trágicas semelhanças.

"Poderia parecer mais sórdida a situação das escravas sexuais na Índia, mas o trato que essas jovens recebem tem aspectos comuns em ambos os países. Todas sofrem contínua violência, são torturadas e ameaçadas constantemente e obrigadas a ter relações sexuais com dezenas de indivíduos por dia. Na Índia, a prostituição está proibida, e tudo é feito às escondidas, enquanto que na Itália a prostituição de rua é autorizada, salvo para as menores de idade".

Na cidade santa de Benarés, Kara se encontrou com Devika, uma adolescente com uma história estremecedora. "Quando eu tinha 13 anos, um dia um homem, ao qual eu conhecia pelo nome de Raj, me abordou a caminho da escola. Me pegou pela mãe e me disse que me mataria se eu gritasse pedindo ajuda. Ele me levou para a sua casa e me violentou. Abusava de mim todos os dias e trazia outros homens para que tivessem relações sexuais comigo". Até ser resgatada, Davika passou meses trabalhando na casa-prostíbulo de Raj, que a obrigava a ter relações sexuais com mais de 20 homens por dia. ua história, com exceção das enormes distâncias culturais e geográficas, parece-se à de Tatyana, uma menina moldava de 18 anos que passou 26 meses como escrava sexual na Itália.

O erro de Tatyana (os nomes que Kara cita em seu livro não são autênticos) foi se apresentar ao anúncio publicado por um jornal de sua cidade natal, Chisinau (Moldávia), no qual se solicitavam jovens para trabalhar no serviço doméstico na Itália. "Assim que saí de casa, meus companheiros me violentaram e depois me mantiveram vários dias sem comer", relata no livro. Sua primeira parada foi na Sérvia, onde foi comprada por traficantes albaneses. Mais tarde, foi vendida novamente para a Albânia. Dali passou para a Grécia, onde os mafiosos que a acompanhavam colocaram-na em um barco rumo à Itália. "Ali, os albaneses a colocaram no porta-malas de seu carro", relata Kara em seu livro, "e a levaram diretamente para Milão, onde foi vendida ao proprietário de um clube noturno". Todas as noites, ela tinha que deitar com os clientes e satisfazê-los sexualmente. "Quando eu não queria beber, o proprietário injetava tranquilizantes para animais em mim".

A oferta de escravas sexuais na Itália é tão abundante que os preços do ato sexual reduziram-se pela metade. A clientela se multiplicou. Hoje em dia, constata Kara em seu livro, "frequentar prostíbulos está cada vez mais integrado na cultura italiana". Depois de serem exploradas nos bares de Roma, Turim, Mestre ou Milão, muitas dessas mulheres são enviadas para outros países da Europa onde seu calvário continua.

Clientes não lhes faltam. Segundo Kara, no mundo inteiro, entre 6% e 9% dos homens maiores de 18 anos compram sexo de escravas pelo menos uma vez por ano. Seja por entretenimento, por impulsos violentos ou por qualquer outro propósito, ele reconhece que não há canto do mundo onde os homens não recorrem aos prostíbulos. Os Estados Unidos, com leis proibicionistas muito restritas e implacavelmente aplicadas, é um dos lugares onde o comércio sexual parece ter menos êxito. Mas não deixa de ser uma exceção.

O que caracteriza os consumidores desse sexo barato? "Não sou a pessoa indicada para responder essa pergunta. É verdade que alguns homens o consomem sem maiores problemas de consciência. Há razões biológicas, sociais, não sei. Obviamente, sem homens dispostos a pagar por sexo, não existiria essa escravidão. Mas nem todos os homens são responsáveis por ela. Só uma pequena parte".

Entre os clientes de imundos salões de massagem, ou das prostitutas de rua, estão os imigrantes, que chegam, muitas vezes sozinhos, a um país desconhecidos e hostil. "A globalização foi um agravante enorme. O tráfico de seres humanos é uma das consequências mais horríveis do capitalismo global, que gerou enormes desigualdades econômicas. Porque se produz uma transferência clara de riqueza e de recursos das economias pobres para as ricas junto com outro fenômeno, o da falta de direitos humanos nos países em desenvolvimento".
Papel negativo da religião
E a religião? Tem algum papel nesse fenômeno? Kara, que viajou várias vezes para a Tailândia, outro país com maior oferta de escravas sexuais e prostitutas menores de idade, cita o budismo theravada, religião oficial, como uma das últimas razões do desprezo para com a mulher, considerada como uma reencarnação inferior ao homem.

Mas o hinduísmo também não é mais compassivo com as mulheres, nem os ritos africanos. As mulheres nigerianas pegas pelo tráfico muitas vezes aceitam condições de vida terríveis sem se queixar, por temor aos ritos Ju ju, aos quais estão submetidas. "Existe ainda uma opressão bastante generalizada das mulheres por parte dos homens. E a religião é um meio a mais para submetê-las. Não é culpa da religião em si, mas sim do uso que se faz dela", diz Kara.

O autor de "Tráfico sexual" acompanhou com interesse as leis liberalizadoras da prostituição em alguns países europeus, caso da Holanda. E não parece convencido de que sirvam para erradicar o tráfico de mulheres. "A legalização da prostituição é ruim porque é utilizada como uma tela, uma vitrine atrás da qual se desenvolve o mesmo comércio sexual com escravas nas condições mais terríveis".

Siddharth Kara relata em seu livro seus percursos pelos bairros mais degradados de Bangkok, onde abundam os prostíbulos imundos. Ali, encontram-se autênticas escravas, adolescentes que cobram apenas quatro euros pela hora de sexo, e onde a atmosfera é deprimente e sórdida a extremos inauditos. Também existem prostíbulos suntuosos para os turistas ricos e homens de negócios que chegam ao país em busca precisamente disso. Lugares de luxo para os ricos e barracos para os pobres. Sexo pago para todos. Até os escravos trazidos da Birmânia, de Laos e de Cambodja, para construir rodovias e edifícios de moradias, recebiam um salário minúsculo, "com o qual podiam se permitir o sexo com escravas", indica Kara.

Frente a esse panorama desolador, o autor propõe, mais do que soluções, novos enfoques para o problema. O primordial, em sua opinião, é tornar a vida de traficantes e exploradores muito mais difícil. Que as máfias não operem com a impunidade atual, que sofram perseguição e prisão. Que a colheita anual de escravas seja cada vez mais incerta e escassa. E uma maior conscientização dos clientes? Siddharth Kara considera isso menos factível. Enquanto a oferta exista, a demanda nunca irá decair.