15/06/2011

a história voltou para as ruas

No início dos anos 90 obteve grande repercussão midiática a tese do "fim da História", elaborada por Francis Fukuyama, economista, professor de Filosofia Política e um dos principais ideólogos dos anos Reagan. Segundo essa tese, a História teria chegado ao fim com a queda do Muro de Berlim e a derrocada da União Soviética. Esses dois acontecimentos marcariam a vitória definitiva da democracia liberal e do modelo de civilização liderado pelos Estados Unidos. Mas a História costuma ridicularizar esse tipo de profecia determinista que pretende ditar os rumos do mundo.
por Marco Aurélio Weissheimer, extraido de carta maior

Fukuyama publicou o artigo intitulado “O fim da história”, em 1989. Três anos depois, reapresentou o tema em um outro texto, “O fim da história e o último homem”. A tese central dos dois textos consistia em fazer uma apologia da superioridade do capitalismo e da democracia liberal ocidental sobre todos os demais sistemas e ideologias concorrentes. A partir dali, a única oposição se manifestaria sob a forma de focos isolados de nacionalismo e do fundamentalismo islâmico que ficariam restritos à periferia do sistema. O mundo entraria, comemorava Fukuyama, em uma nova fase dourada, um novo renascimento, marcado desta vez pelo desenvolvimento de novas tecnologias de comunicação que dissolveriam as fronteiras do planeta.
Não é a primeira vez que isso acontece. A História costuma ridicularizar esse tipo de profecia determinista que pretende ditar os rumos do mundo. Fukuyama teve seus momentos de glória. Ganhou imenso espaço midiático e fez conferências mundo afora. E eis que, apenas 20 anos depois, suas teorias foram reduzidas a pó. A História não só não acabou como atravessa hoje um período de grande turbulência.

O admirável mundo novo prometido pela globalização financeira resultou em uma das mais graves crises da economia ocidental. Por uma dessas ironias que a História parece gostar de praticar as receitas econômicas amargas de austeridade impostas a países da América Latina, Ásia e África hoje adotadas nos Estados Unidos e na Europa como suposta solução para a crise econômica. Bilhões de dólares foram pelo ralo com os negócios do cassino financeiro global. O Estado, apresentado até então pelos defensores deste sistema, como um gigante a ser diminuído, foi chamado a socorrer grandes bancos e instituições financeiras privadas. Quem pagou o socorro foram os contribuintes que agora são chamados a apertar os cintos para pagar essa conta. A crise econômica que atingiu os EUA e a Europa repercutem, é claro, em todo o mundo.

No plano político, o mundo vive também um período de turbulência, consequência direta dessa crise econômica. Há apenas alguns meses, ninguém se atreveria a prever a eclosão de múltiplas revoltas populares em países do Oriente Médio, da África e, mais recentemente, da Europa. Governos que eram apontados como padrão de estabilidade, como é o caso do Egito, foram obrigados a renunciar em poucas semanas. A guerra da Líbia levou os EUA e seus aliados europeus a se envolverem em mais um conflito armado na região mais instável do planeta. A combinação da instabilidade política com a crise econômica constitui um caldo de cultura explosivo de consequências imprevisíveis. Na Europa, milhares de jovens estão saindo às ruas em diversos países em protesto contra o desemprego, a falta de perspectivas e a falência do sistema político tradicional. Nos últimos meses, as manifestações ruas multiplicaram-se pela Islândia, Grécia, Inglaterra, Espanha e Portugal, entre outros países.

Por outro lado, o terremoto e o tsunami que devastaram o Japão no dia 11 de março acabaram provocando, além de um saldo trágico de milhares de mortos e de grande destruição material, um acidente nuclear de proporções ainda não bem conhecidas, com repercussões globais. A perspectiva de uma tragédia planetária esteve bem presente até bem poucos dias, levando mais uma vez milhares de pessoas às ruas, especialmente no Japão e na Alemanha, país que já decidiu desmontar seu sistema de usinas nucleares.

O resumo da obra, neste início de 2011, é, portanto, o seguinte: crise econômica internacional, elevado índice de desemprego em países apontados até então como modelos de estabilidade, revoltas populares e guerras civis na África e Oriente Médio, grandes protestos populares na Europa, desastres naturais e um acidente nuclear de grandes proporções e consequências imprevisíveis.

Diante desse conjunto de problemas e da crise das representações políticas tradicionais, as ruas voltaram a ser um espaço de manifestação e debate público. Este novo especial da Carta Maior pretende registrar algumas das principais expressões deste renascimento das ruas, um fenômeno salutar para uma democracia que está sendo cada vez mais ameaçada por um sistema econômico predatório, alicerçado fundamentalmente no setor financeiro. A história não só não acabou como está viva e pulsante nas ruas de diversas cidades do mundo.

louvor do bairro dos olivais

Não tive nunca nada a ver com as
guitarras estudantes; eu vivia
num lento bairro da periferia
onde a chuva apagava os passos das

pessoas de regresso a suas casas
fazia compras na mercearia
e algum livro mais forte que então lia
já era para mim como um par d'asas

amigos vinham ver-me que eu servia
de ponche ou Madeira malvasia
para soltar as línguas livremente

um que bramava um outro que dormia
eu abria a janela e só dizia
ao menos estas ruas têm gente

fernando assis pacheco
(a musa irregular, lisboa, ed. asa 1996)

a ponte

Parávamos a meio da Ponte 25 de Abril. Se fôssemos rápidos, a coisa resolvia-se sem muitas chatices. Fazíamos o que tínhamos a fazer, metíamo-nos no carro, dávamos a volta a Alcântara e regressávamos a casa.

Por vezes, quando eram muitos ou quando tu te comovias particularmente, os minutos alongavam-se terminávamos por ter a companhia do carro da GNR. Perdi a conta ao número de vezes em que tive de explicar ao graduado de serviço ao que vínhamos. Cansava-me de explicar que embora fosses calada e eu te acompanhasse em silêncio, não éramos potenciais suicidas nem nos passava pela cabeça atirarmo-nos da ponte abaixo. Não éramos desses. Com o passar do tempo, acabámos por ficar conhecidos do pessoal do Posto e a vida tornou-se mais fácil.

O ritual era sempre o mesmo. Saías de manhã, bem cedinho. Apanhavas o barco das 05.15 para o Cais do Sodré e fazias a tua peregrinação de sempre pela Ribeira.

As bancas do peixe eram a tua perdição. Passavas horas naquilo. Pé após pé, fazias quilómetros dentro do Mercado. Alinhados nas pedras, cobertos de gelo, os peixes fitavam-te, olhos nos olhos. Descobrias entre todos eles os mais infelizes, os mais desalinhados, os mais desconsolados. E, invariavelmente, comprava-los todos.
Carregada com os peixes mais tristes do dia, retornavas a casa. Na manhã que te sobrava e durante toda a tarde, celebravas as exéquias devidas: vestias-te de negro, oravas, meditavas e choravas. Depois, quando o turno da Setenave terminava e eu regressava a casa, comias em silêncio a malga da sopa e o pão escuro e duro que nela demolhavas. Depois esperávamos até que a tabela das marés que tinhas sempre contigo te indicasse a hora certa para a viagem - confesso-te que, de todos os rituais que tu tinhas, essa espera era o momento que mais me custava a passar. Dizias que não querias que eles fossem dar a Vila Franca ou que apodrecessem no Mouchão de Alhandra. Que com a maré vazante eles descansariam em paz eterna, no oceano profundo. Que do mar vieram e ao mar retornariam, algas às algas, areia à areia. E eu acreditava.
De mãos nos bolsos, imóvel sobre o tabuleiro, indiferente aos carros que travavam e apitavam, ficava a ver o teu choro triste quando te despedias deles e os lançavas um a um da ponte abaixo. Pescadas, corvinas, cações, salmonetes, toda a espécie de peixe de todo o mar de Portugal era objecto da tua compaixão diária, do teu luto desenfreado.

Sabes bem que nunca te quis mal, amor. Sabes bem que me era muito difícil poder pagar todos os peixes que compravas, que a vida foi sempre madrasta para nós, que tudo se tornou cada vez mais difícil depois da fábrica ter fechado as portas.

Quero que saibas que penso muito, muito em ti. E que choro muito, mas mesmo muito, sempre que aqui na prisão nos servem pescada cozida ou carapaus com molho à espanhola. Nesses dias, nada como. Passo fome. E grito. Grito como tu gritaste quando naquele dia te empurrei em direcção à paz eterna no mar profundo.

09/06/2011

a frágil palavra liberdade

politico
ocupando a rua
fazendo carreata
pedindo votos
é “festa da democracia”

povo
ocupando a rua
fazendo passeata
pedindo direitos
é “baderna desordeira”

com quantas mentiras
se constrói uma
“liberdade de imprensa”?

com quantos depósitos
se constrói uma
“liberdade de empresa”?

fraga ferri - vitória, es

convite à liberdade - rebelião no ocidente 12

Em Vitória a Marcha da Liberdade está sendo convocada para o próximo dia  18/06, de 14h às 18h, com concentração no Estacionamento da UFES. Espalhe a rebelião:
www.marchadaliberdade.org/
twitter: #marchadaliberdade,  #worldrevolution


Prisões, tiros, bombas, estilhaços, assassinatos. Por todo o país, protestos legítimos estão sendo reprimidos com ataques violentos da força policial. Querem nos calar.
Avenida Paulista, 21 de maio de 2011: Marcha da Maconha. A história se repete. A tropa de choque, sob os olhos do governo e da mídia, avança sem piedade sobre manifestantes armados apenas com palavras e faixas. As imagens do massacre à liberdade de expressão, registradas por câmeras, corpos e corações, ecoaram na rede e nas ruas com um impacto de mil bombas de efeito moral, causando indignação e despertando as pessoas de um estado anestésico. O que governo algum poderia desejar estava acontecendo: o povo começou a se organizar. Desta vez, não baixaríamos a cabeça.

Sete dias depois, defensores das mais diversas causas, vítimas das mais diferentes injustiças, estavam de volta ao mesmo local para dar uma resposta à opressão. As ruas de São Paulo foram tomadas por 5 mil pessoas de todas as cores, crenças e bandeiras. Na Internet, uma multidão espalhava a mensagem como vírus pelas redes sociais. Naquele dia, o Brasil marchou unido por um mesmo ideal. Nascia ali a Marcha da Liberdade.
Não somos uma organização. Não somos um partido. Não somos virtuais. Somos REAIS. Uma rede feita por gente de carne e osso. Organizados de forma horizontal, autônoma, livre.
Temos poucas certezas. Muitos questionamentos. E uma crença: de que a Liberdade é uma obra em eterna construção. Acreditamos que a liberdade de expressão seja a base de todas as outras: de credo, de assembléia, de posições políticas, de orientação sexual, de ir e vir. De resistir. Nossa liberdade é contra a ordem enquanto a ordem for contra a liberdade.

Convocamos:
Todos aqueles que não se intimidam, e que insistem em não se calar diante da violência. Contamos com as pernas e braços dos que se movimentam, com as vozes dos que não consentem. Ligas, correntes, grupos de teatro, dança, coletivos, povos da floresta, grafiteiros, empresários, operários, hackers, feministas, maltrapilhos e afins. Associações de bairros, ONGs, partidos, anarcos, blocos, bandos e bandas. Todos os que condenam a impunidade, que não suportam a violência policial repressiva, o conservadorismo e o autoritarismo do judiciário e do Estado. Que reprime trabalhadores e intimida professores. Que definha o serviço público em benefício de interesses privados.

Ciclistas, lutem pelo fim do racismo. Negros, tragam uma bandeira de arco-íris.
Gays, gritem pelas florestas. Ambientalistas, cantem. Artistas de rua, falem em nome dos animais. Vegetarianos, façam um churrasco diferenciado!
Nossas reivindicações não têm hierarquia. Todas as pautas se completam na perspectiva da luta por uma sociedade igualitária, por uma vida digna, de amor e respeito mútuos. Somos todos pedestres, motoristas, cadeirantes, catadores, estudantes, trabalhadores. Somos todos idosos, índios, travestis. Somos todos nordestinos, bolivianos, brasileiros, vira-latas.
E somos livres.

Você tem poder! Nossa maior arma é a conscientização. Faça um vídeo, divulgue nas suas redes sociais, arme sua intervenção, converse em casa, no almoço do trabalho, no intervalo da escola. Compartilhe suas propostas nas paredes, no seu blog, no seu mural. Reúna-se localmente, convoque seus amigos, erga suas bandeiras, vá às ruas.
Estamos diante de um momento histórico global. Pela primeira vez, temos chance real de conquistar a liberdade. O mundo está despertando. Vamos mostrar que brasileiro sabe protestar. Levante-se do sofá e vá à luta. Vamos juntos construir o mundo que queremos!
Princípios do movimento:
- Liberdade de organização e expressão;
- Contra a repressão e a violência policial em qualquer âmbito da sociedade;
- Contra o conservadorismo que pauta o judiciário e o Estado.
Reivindicação geral:
- Regulamentação que proíba o uso de armamentos pela polícia em manifestações
sociais.

Espalhe a rebelião. #marchadaliberdade #worldrevolution
http://www.marchadaliberdade.org/

 
Kênia Lyra, keks.kenialyra@gmail.com 27 9993 5321

08/06/2011

o peru sumiu da mídia:

começou o terceiro turno

A mídia ofuscou completamente a vitória de Ollanta Humala, no Peru, um acontecimento político cuja importancia simbolica extrapola a fronteira regional. Embora apertada, a vitória da centro-esquerda peruana abre uma falha na regressão conservadora em marcha no mundo, sobretudo na Europa, reafirmada com a vitória da direita em Portugal, mas ensaiada também na América Latina, com a ascensão do neo-pinochetismo de Sebastián Pinera, no Chile. Derrotado nas urnas o conservadorismo tentará esmagar Omala no terceiro turno, através do cerco midiático e da asfixia financeira. Aplicarão contra seu governo o mesmo know-how, ou algo pior, tentado contra Lula no Brasil, Kirchner na Argentina e, mais recentemente, com os golpes contra Evo, na Bolívia. Ontem, a Bolsa de Lima caiu 12%. No Brasil, a mídia reduziu a cobertura das eleições a um "desalento dos mercados" e sombreou o resultado proporcionalmente à consolidação da vantagem de Humala. É só o começo. A integração latinoamericana, que se fortaleceu com a manifestação democrático do povo peruano, deve agora providenciar os meios para sustentar o novo governo neste início que se configura como uma das transições mais delicadas da política regional. (Carta Maior; 3º feira, 07/06/ 2011)

de choque em choque

por Roberto Garcia Simões, publicado em  A Gazeta, 07/06/2011

Éflagrante a incapacidade do governo Casagrande de se antecipar e firmar uma negociação contínua com estudantes sobre transporte coletivo. A sociedade não pode ser convocada somente em 30 de dezembro para aumentar tarifa. É preciso uma agenda da mobilidade que contemple toda a sociedade: "quem e quanto pagar" por tarifas, passes livres, qualidade do serviço.

Desde abril, circulava nas redes sociais: "Vitória vai literalmente parar" (@ Protesto GV): 2 de junho, 6 horas, Palácio Anchieta. Além de "tentativas" de negociação, o que ocorreu em abril e maio? O governo não tem estrutura e pessoal para o diálogo permanente - e não o de ocasião. É discurso sem sustentação prática. Chegou ao ponto de o protesto ter começado sem a sua presença para ouvir a demanda da hora, acertar reunião e buscar liberar uma pista.

Diferenciando-se da esquerda arcaica, o "ativismo virtual", segundo o prof. Marco A. Nogueira: a) atua de forma mais livre e horizontal; b) não tem lideranças claras; c) partidos não comandam; d) há muita festa e determinação, mais do que disciplina militante. São movimentos em movimento que rompem com paradigmas de entidades estudantis do passado. As negociações são mais complexas.

Nas 6 horas de trânsito bloqueado, com Casagrande em Brasília, e o vice, Givaldo Vieira, fora da capital, relatos no Twitter davam conta de que houve ligações para dirigentes de entidades. Nada aconteceu de efetivo, até a chegada do vice. Paralisia. Agendou-se uma reunião para 13 horas. Ao mesmo tempo, o BME deu um ultimato: desocupar em 5 minutos. Do oito para oitocentos. Resultado: confronto violento na rua, e negociação que não chegou ao Palácio.

Não concordo com a obstrução total da mobilidade, nem com vandalismos. Mas é um dilema, no calor do protesto, encontrar o "ponto do doce": incomodar, ganhar repercussão e força e, simultaneamente, respeitar direitos. Não é trivial calibrar transtornos. Estudantes no protesto, e não só eles, investidos de poder, também expressam, em atos, emoções e "instintos primitivos" que suplantam racionalidades.

Os excessos se amplificam quando viram alvo de bombardeios apimentados. Os policiais deveriam estar mais bem capacitados para os momentos de forte tensão da lei e da ordem. As negociações não podem começar com a "tropa de choque" perfilada. O coronel Odorico dizia: "É ilegal, baixa o pau" (CBN, Sucupira, 20.05). Ao contrário, buscar a mediação é essencial.

São altos os riscos de "guerra" nessa ambiência. É inerente a tensão entre a eficácia do protesto - número de participantes e incômodos gerados - e o Estado de Direito. No centro de Vitória, os manifestantes acumularam poder nas seis horas de paralisação total.

Nesse clima de beligerância, o governo optou pelo confronto. Empurrou os movimentos para a Ufes. No final da tarde, a truculência do BME ampliou-os. Em menos de 24 horas, os manifestantes saltaram de dezenas para milhares. É o resultado mais veloz do "crescer é com a gente". Na noite do dia 3, outro choque. O uso da força em um dia veio a ser o prenúncio de fraqueza no outro: o governo se rendeu aos milhares de manifestantes. A polícia observou-os na Ufes e deixou-os ocupar o entorno da Terceira Ponte. Certo?

Ontem, depois dos extremos, outro protesto com interrupção parcial do tráfego e pauta de negociação. É possível a passagem para uma mobilidade sustentável?

Roberto Garcia Simões é professor da Ufes e especiaIista em políticas públicas.

estranhas criaturas

Venham ver sob que luzes surgem os poemas, em que leitos navegam as palavras desabridas.
Venham ver a força desta corrente na rebentação da névoa.
Se entre as duas margens conseguirem avistar o que se esconde na neblina, então vejam como tudo baila sem que um único músculo se mova.

henrique fialho
estranhas criaturas, deriva, Porto, 2010

05/06/2011

sobre os acontecimentos em espanha - rebelião no ocidente 11

(veja também: viva españa!)
por Miguel Urbano Rodrigues, extraido de diario.info

Os acontecimentos da Espanha, pelo seu significado, estão a polarizar a atenção da Europa e de milhões de pessoas noutros continentes. Em Washington, Berlim, Paris e Londres, o acampamento da Puerta del Sol, inicialmente encarado como iniciativa folclórica de jovens pequeno burgueses frustrados, gera agora preocupação.

Quando o chamado Movimento M-15 se alastrou em dezenas de cidades do país e nas capitais europeias, e centenas de pessoas se manifestaram frente às embaixadas espanholas, a indiferença evoluiu para um sentimento de temor.
Porquê?

O protesto espanhol insere-se na crise global de civilização que a humanidade enfrenta, cujas raízes arrancam da crise estrutural de um sistema de opressão: o capitalismo.

Seria um erro concluir que os jovens que criaram o Movimento «Democracia Real Ya » são revolucionários e o seu objectivo é a destruição do regime. O M-15 atraiu gente muito diferente. Alguns nem sequer rejeitam a obsoleta e corrupta monarquia bourbonica. Mas rapidamente a contestação popular excedeu as previsões. O Movimento, após a repressão do primeiro dia, foi olhado quase com benevolência pelo PP e pelo PSOE, os dois grandes partidos da burguesia. Mas, ao assumir proporções torrenciais, o protesto adquiriu os contornos de uma condenação do regime, na qual as massas emergiam como sujeito histórico.

Na Puerta del Sol começaram a ouvir-se brados inesperados: «No al FMI »; «No a la farsa electoral»; «PSOE y PP, la misma gente!»; «No a las guerras de los EEUU!». Soou até a palavra «Revolução!»
Daí o medo.
Praça Catalunha, Barcelona, 27 de maio
Os jovens de Madrid sabem o que não querem, mas a grande maioria não tem uma ideia minimamente clara sobre o que fazer e como actuar. As reivindicações aprovadas a 20 de Maio, na Assembleia do acampamento, são moderadas, algumas ingénuas. Espontaneísta, o M-15 não acampa no centro de Madrid em função de uma estratégia de Poder.

Quando aquilo principiou o que unia a multidão heterogénea de jovens pouco mais era que a recusa da caricatura de democracia. Terá sido uma surpresa para o pequeno núcleo inicial a adesão maciça de adultos, de desempregados, de reformados. Foi ainda numa atmosfera de confusão que surgiram as primeiras lideranças embrionárias, os porta-vozes do acampamento.

Jovens entrevistados por mídias internacionais manifestaram espanto ao tomar conhecimento da repercussão internacional da iniciativa e das concentrações de solidariedade em cidades espanholas e européias.

DE TUNIS A MADRID
O protesto dos «indignados» de Espanha foi obviamente inspirado pelo modelo da Tunísia e do Egipto. Na época da comunicação instantânea, as redes sociais permitiram que em tempo rapidíssimo os apelos à concentração popular na Puerta del Sol fossem atendidos por milhares de jovens. A praça madrilena foi a Tahrir egípcia.
Tal como ocorrera no Norte de África, a exigência de «democracia» funcionou como motor da mobilização popular.

Mas, enquanto nas rebeliões contra Ben Ali e Hosni Mubarak as massas reivindicavam liberdades, eleições livres, um parlamento tradicional, destruição de aparelhos repressivos, o fim de ditaduras ferozes e a sua substituição por regimes representativos similares aos da União Europeia, em Espanha a «democracia real ya» reclamada pelos «indignados» partia dialecticamente da recusa do figurino pelo qual se batiam os africanos.

O que para os árabes era ambição e sonho aparece hoje a muitos dos acampados da Puerta del Sol como caricatura da democracia, rosto de um regime cuja prática nega os valores e princípios que invoca, que concentra a riqueza numa ínfima minoria e promove o desemprego, amplia a desigualdade social.

Enquanto a burguesia tunisina e egípcia se solidarizava com os rebeldes que se manifestavam contra Ali e Mubarak e o imperialismo rompia com os seus aliados da véspera, a burguesia espanhola, os partidos tradicionais e os poderosos da União Europeia condenavam os «indignados» peninsulares, identificando neles arruaceiros de um novo tipo.

Merece reflexão a dualidade antagónica da posição assumida pelo imperialismo americano. Na Casa Branca, o presidente Obama compreendeu que as reivindicações dos rebeldes da Tunísia e do Egipto não colidiam com a sua estratégia para a Região e, agindo com rapidez e eficácia, estimulou e aplaudiu nesses países a instalação de Governos de transição ditos democráticos, sob a tutela de personalidades militares e civis que, com poucas excepções, tinham servido as ditaduras eliminadas. Na Líbia bombardeia Tripoli; no Golfo pede à Arábia Saudita que afogue em sangue rebeliões incomodas como a do Bahrein, sede da V Esquadra da US Navy.

O imperialismo encara, naturalmente com desconfiança e apreensão, o alastramento do protesto inorgânico dos jovens «indignados». Obama e o Pentágono interrogam-se sobre as consequências imprevisíveis de um movimento que condena com dureza o envolvimento da Espanha nas guerras asiáticas dos EUA.

ADESÕES INTERNACIONAIS

A direita arrasou o PSOE nas eleições municipais de domingo. Os acampados da Puerta del Sol reagiram com indiferença aparente aos resultados. «Eles não nos representam», declararam porta vozes do M-15, sublinhando que na engrenagem do poder, o PSOE e o PP, embora com discursos, histórias , percursos e bases sociais diferentes, praticam no governo politicas neoliberais muito semelhantes, e politicas externas caracterizadas pela submissão às exigências dos EUA e de Bruxelas.

Significativamente, o espaço e o tempo que os media espanhóis dedicaram durante a última semana aos «indignados» diminuíram drasticamente desde sábado. O tema quase desapareceu das primeiras páginas dos grandes jornais e do programa dos canais de televisão. A vitória do PP e o avanço das Autonomias monopolizaram a atenção de políticos, analistas e jornalistas do sistema.

Oposta é a atitude assumida pela maioria dos intelectuais progressistas. Na Espanha e também na América Latina, personalidades de prestigio, em artigos e entrevistas publicados em revistas Web de informação alternativa, como Resumen Latino Americano e Rebelión e outras, expressam a sua solidariedade com os jovens do M-15 e reflectem sobre o significado e as consequências da contestação.
Cito alguns exemplos expressivos.

O filósofo e escritor marxista Santiago Alba Rico, num artigo intitulado «La Qasba en Madrid» sublinhou que a Espanha «não é uma democracia». E acrescenta, realista: «Não haverá uma revolução em Espanha. Mas uma surpresa, um milagre, uma tormenta, uma consciência nas trevas, um gesto de dignidade na apatia, um acto de coragem na anuência, uma afirmação anti-publicitaria de juventude, um grito colectivo de democracia na Europa, não é já um pouco uma revolução?»

Carlos Taibo, professor da Universidade Autónoma de Madrid, esteve na Puerta del Sol levando solidariedade, e dirigindo-se aos acampados disse ao saudá-los: «Os que aqui estamos somos, obviamente, pessoas muito diferentes. Temos na cabeça projectos e ideais diferentes. Mas conseguimos, apesar disso, chegar a acordo quanto a um punhado de ideias básicas». E, parafraseando Santiago Alba Rico, afirmou: «Aquilo a que em Espanha chamam democracia, não o é!».

O escritor italiano Carlo Frabetti escreveu: «Desde o protesto dos Goya de 2003 que não se conseguira um aproveitamento tão eficaz de contestação interna do sistema e a sua expressão cultural do espectáculo».

Atilio Borón, um sociólogo marxista argentino de prestígio internacional, dedica aos jovens acampados um artigo entusiástico intitulado «Os indignados e a Comuna de Paris». Lembra que aquilo que a democracia de Moncloa propõe para enfrentar a «crise é o despotismo do mercado, irreconciliável com qualquer projecto democrático». E, cedendo a um impulso romântico, conclui o artigo com estas palavras: «Se persistirem (os indignados) na sua luta poderão derrotar a prepotência do capital e, eventualmente, iniciar uma nova etapa na história não só da Espanha, mas da Europa».

Angeles Maestro, a destacada dirigente de «Corriente Roja», da Espanha, mais realista, salienta que os acampamentos em dezenas de cidades espanholas «têm um conteúdo anticapitalista» e neles ondula «uma multidão de bandeiras republicanas». Enfatiza o descrédito da montagem eleitoral e afirma que «As mobilizações maciças que se iniciaram em numerosas cidades do estado espanhol a 15 de Maio e que tiveram continuidade em acampamentos, assembleias e convocatórias para novas manifestações, expressam o alto nível de indignação e raiva de uma juventude que não tem qualquer esperança de chegar a ter os direitos básicos que a Constituição pomposamente proclama: direito ao trabalho, à habitação, à educação e saúde publica de qualidade, a uma pensão digna, etc.».

Quanto ao futuro do Movimento, adverte como revolucionaria experiente: «Nos processos sociais não há atalhos. Se é um facto que a fagulha da espontaneidade está sempre presente e serve para desencadear as mobilizaçoes, somente o avanço da organização é a medida da acumulação de forças, e sem acumulação de forças as lutas leva-as o vento.»

AMANHÃ INCERTO

Esperanza Aguirre, a reeleita alcaide de Madrid, não esconde a sua hostilidade aos acampados. Se dela dependesse, declarou, ordenaria à Policia que expulsasse da Puerta del Sol os acampados. A repressão inicial foi esclarecedora da sua posição. Mas carece de poderes para recorrer à força.

Qual o desfecho do protesto dos «indignados»?
Por ora é imprevisivel.
Vai persistir, transformando-se em desafio ao Poder?

Uma Assembleia, improvisada e tumultuosa como as anteriores, decidiu manter o acampamento até ao próximo domingo. Durante a semana os activistas irão aos bairros. Depois se verá.

Em Barcelona e noutras cidades, as concentrações de protesto também não se dissolveram, mas os próprios organizadores admitem que o número de participantes diminua nos próximos dias.

Repito: os jovens «indignados» sentem dificuldade em definir um rumo para a luta que iniciaram. A maioria talvez não tenha consciência da complexidade do desafio lançado ao Poder.

Volto a citar Angeles Maestro: «O processo de confluência múltipla em torno a um programa comum somente poderá abrir caminho se criar raízes nas lutas operárias e populares. Por outras palavras, se a construção do referente politico beber a seiva na luta de classes e demonstrar a sua utilidade para abordar um longo processo de acumulação de forças».

A consciência demonstrada pelos «indignados» de Madrid, de que a «democracia representativa» é uma ficção no Estado Espanhol, deve porém ser saudada como acontecimento importante no âmbito das lutas de massa europeias e não ignorada, subestimada ou mesmo criticada com sobranceria em atitudes irresponsáveis por alguns dirigentes de partidos de esquerda da União Europeia.

Não compartilho a euforia prematura de Atilio Boron, mas julgo oportuno reafirmar que a Espanha não é excepção na Europa. Não há democracia autêntica sem participação decisiva do povo. Na União Europeia um sistema mediático perverso e desinformador esconde a realidade. Os regimes existentes nos 27 diferenciam-se muito. Mas existe um denominador comum: a ausência de uma democracia autêntica. Neste início do século XXI, no contexto de uma gravíssima crise mundial de civilização, o capitalismo, em fase senil, cola o rótulo da democracia representativa a ditaduras da burguesia de fachada democrática.

Vila Nova de Gaia, 23 de Maio de 2011.

relato acerca da barbárie da UFES - rebelião no ocidente 10

(veja também: imagens do protesto, versão dos estudantes, barbárie de aracruz e viva españa!)

Ainda me sinto envolvido e entusiasmado pela grandiosa Marcha de desagravo, que aconteceu ontem à noite, sexta-feira, e da qual falarei com mais detalhes em breve.

E, como milhares de pessoas aqui do ES, principalmente jovens, também estou na expectativa de como esses acontecimentos se desdobrarão na próxima semana - já há uma outra manifestação programada para segunda feira de manhã, às 07 horas, em frente ao Pálácio Anchieta - para saber mais visite ato segunda feira será maior, no Facebook.
 Por isso ainda não me disponho a fazer uma reflexão mais articulada e elaborada do movimento. Por ora, redijo apenas um não tão breve relato dos surpreendentes e chocantes acontecimentos que presenciei na quinta feira à tarde, na UFES, após a manifestação do Palácio Anchieta:

Ao sair do trabalho, fui para a frente do Palácio Anchieta. Eram 14 horas e já tinha havido a dispersão do movimento pelo BME. Os estudantes estavam desencontrados, isolados, cada um tinha escapado à sua maneira da força policial. Mas aos poucos foram retornando.

Após algumas discussões exaltadas e as costumeiras denúncias à imprensa, numa rápida assembléia decidiram se deslocar para a UFES, onde tentariam promover uma nova e maior assembléia. Além disso, havia a informação de que um grupo da UFES sairia em passeata pela Avenida Fernando Ferrari, como manifestação de apoio ao movimento em frente ao Palácio Anchieta e em protesto contra a violência policial. A idéia era se encontrarem os dois grupos e decidirem o que fazer. Foi decidido imediatamente um roletaço - ocupar onibus que fossem para a UFES, sem pagar a passagem.

Lá fomos nós, depois assim que os estudantes pararam um ônibus. Eu tinha decidido acompanhar os estudantes, depois de ouvir alguns relatos, de pessoas que não estavam no movimento e que haviam confirmado que houvera truculência e excessos por parte do BME.

Como membro da CJP (Comissão de Justiça e Paz) da Arquidiocese de Vitória, eu resolvi participar do movimento como observador, para verificar se,caso houvesse uma manifestação de protesto em frente à UFES, naquela tarde o BME iria praticar os mesmos excessos que praticara em Aracruz, na desocupação de Barra do Riacho. Também estavam presentes no ônibus e na UFES dois outros membros da CJP, Vítor Zille e Arthur de Souza.
Esclareça-se que a brutalidade e os excessos de Aracruz foram denunciados por várias entidades, inclusive pela nossa CJP e também pelo CEDH (Conselho estadual de Direitos Humanos) cujo Relatório publico abaixo, elaborado por conselheiros que estiveram presentes na desocupação e presenciaram a brutalidade do BME. 

Na UFES,  após um breve encontro e uma rápida votação, os dois grupos decidiram pela ocupação e bloqueio da Avenida Fernando Ferrari. Num primeiro momento apenas uma das pistas foi bloqueada. E durante  toda a ocupação os estudantes se manifestavam no megafone acerca da conveniência de liberar ou não ao menos uma faixa de passagem.

Uns defendiam a radicalidade, argumentando que na ocupação em frente ao Palácio Anchieta tinham desocupado uma das pistas e mesmo assim o governo tinha autorizado o BME a atacar os manifestantes. Outros defendiam a moderação e liberação de uma das vias, argumentando que era preciso ganhar a simpatia da população e evitar a hostilidade e a tensão por parte dos motoristas impedidos de prosseguir. 
De minha parte, propus um meio termo: por questão de inteligência e de justiça que se ocupasse ora a pista que ia em direção a Serra, ora a pista que ia em direção a Vitória.

Mas nesse meio tempo tudo se  acelerou, com a informação de o BME estava  presente nas imediações, novamente autorizado pelo governo para promover a desocupação pela força. Um subtenente veio até os manifestantes, mas sem proposta de conciliação, apenas para comunicar que o governo não tinha enviado negociadores, tinha enviado apenas a polícia. 
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A partir desse momento, o que houve foi apenas a preparação dos estudantes para resistir à tropa de choque. Mesmo sabendo que eram remotas as chances, em nome da CJP tentei falar com alguém da direção estadual do PT, para evitar que o governador em exercício,Givaldo Vieira (que é do PT), mandasse  a tropa recuar. A secretária do PT estadual me disse que somente o sr. Luiz Moraes estava presente no diretório e que  não poderia atender naquele momento, mas que o mesmo tentaria fazer contato com o vice-governador. Reforcei o alerta de que poderia haver um desgaste muito grande para o Partido dos Trabalhadores pelo fato de um vice-governador do PT enviar, por duas vezes no mesmo dia, a tropa de choque para reprimir estudantes - só que nem eu mesmo imaginava o tamanho do desgaste, tal como ficou demonstrado na histórica passeata de sexta-feira à noite. Mas não houve retorno.

Mesmo porque já era tarde. As bombas de gás lacrimogêneo começaram a estourar à nossa volta. É horrivel a sensação depois que respiramos aquele gás. Tudo arde: o nariz, a garganta, o pulmão, parece que você está engolindo pimenta gasosa. E aprece que a nuvem venenosa não acaba nunca. Você se sente agredido nas suas próprias entranhas, na sua própria alma. O sangue e a indignação sobem à sua cabeça. E então não há como não revidar com palavras e com gestos, parece que você está sendo atacado por animais ou por robôs malignos, você não entende porque tanta brutalidade e tanta frieza por parte daqueles policiais.

A maioria fugiu para dentro do campus da UFES, que é area federal, portanto juridicamente protegida de diligências de policiais estaduais sem prévia autorização do reitor. Mas não foi o que se viu. BOMBAS  de gás e BALAS de borracha eram atiradas a rodo momento para dentro  do campus. O pânico tomou conta do campus, mesmo entre aquele que nada tinham a ver com a manifestação. No Teatro Universitário, que fica bem próximo à Avenida Fernando Ferrari, acontecia inclusive uma apresentação de teatro infantil.

A coisa chegou  a um espantoso ponto de descalabro, de despreparo e de arrogância por parte dos policiais. Numa de minhas alucinadas (devido ao gás, esclareça-se) e indignadas idas e vindas, percebi que o reitor caminhava sozinho em direção aos policiais, para tentar acabar com aquela absurda infração e agressão.

Eu e outros jovens tentamos dar-lhe cobertura, acenando aos policiais, apontando o dedo e gritando que aquele era o reitor da UFES e que não atirassem. De nada adiantou. Ou os brutamontes do BME não entenderam nada ou simplesmente ignoraram nosso apelo. Mandaram bala e bomba em nossa direção, como se fôssemos todos de algum exército inimigo!!!

Todos corremos de volta, inclusive o reitor. Nesse exato momento fui fisicamente atingido por uma bomba. O artefato bateu na bolsa que eu carregava e explodiu bem próximo à minah mão esquerda. Senti uma dor fortíssima, desconhecida para mim. Quando olhei para a minha mão ela estava toda inchada e enfumaçada, parecia queimada.

Entrei em pânico, só me preocupava em gritar perguntandoo onde havia uma "droga de torneira" água para que eu pudesse molhar a mão atingida. Um estudante me guiou até a cantina do Cine Metrópolis. Lá me levaram até o banheiro e depois ao Posto Médico da UFES. Mas a médica disse que não tinha condições de fazer um raio-x da minha mão e que pela aparência o caso poderia ser muito grave, então sugeriu que eu fosse até um PA em Vitória para fazer a radiografia.
Muito a contragosto concordei em ir embora e entrar numa viatura da segurança da UFES. Fui ao PA da Praia do Suá. Mas pra variar estava lotado. Tinha que fazer inscrição, triagem para saber se era realmente urgente - depois acham um absurdo o povo revoltado quebrar esses PAs e agredir médicos e enfermeiros. Na verdade o povo é tão paciente e submisso...

Tomei algumas opiniões informais e decidi que aquele raio-x poderia ser feito no dia seguinte, se houvesse necessidade. Quis voltar para a UFES, mas a mão doía bastante. Achei melhor ir para casa e passar numa farmácia antes. Fiquei sabendo depois que os estudantes, após uma assembléia, desceram a Reta da Penha e foram para a Terceira Ponte - o memso trajeto que faríamos no dia seguinte na redentora e festiva marcha de desagravo, e que para mim mesmo  eu chamei de Romaria do Sonho e da qual falarei em outro texto. Quanto à minha mão, na sexta-feira doeu ainda bastante e ficou inchada e azulada, mas hoje, sábado, melhorou quase compleramente, a ponto de eu poder digitar todos esses textos acerca do movimento.    

04/06/2011

protestos em vitória - rebelião no ocidente 9

As fotos abaixo retratam momentos do protesto dos estudantes, que aconteceu em Vitória, ES, na quinta feira de manhã, dia 01 de junho. Mostram cenas de confronto  dos estudantes com o BME, Batalhão de Missões Especiais da PM.

Isso porque o governo do Estado determinou a desocupação pela força das ruas: havia já quase 06 horas que os estudantes obstruíam duas avenidas (Jerônimo Monteiro e Getúlio Vargas), o que provocava um verdadeiro caos no trânsito da região metropolitana.

É preciso esclarecer que em Vitória há uma peculiaridade: as duas avenidas são praticamente as únicas vias de ligação entre os municípios da regiao metropolitana, o que deixa o trânsito bastante vulnerável, situação que foi aproveitada com eficiência e radicalidade pelos manifestantes, que praticamente esrtrangularam a locomoção de veículos e pessoas.
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Falando em radicalidade, não cabe aqui entrar no mérito da legitimidade ou da viabilidade das reivindicações dos estudantes. Acerca da posição dos oficial dos governantes e da mídia em geral, este blog encaminha os leitores aos sites do jornal a gazeta e do jornal a tribuna, além de sugerir que digite no Google protesto em vitória es.

Aqui, publico a versão dos estudantes, no texto abaixo, enviado por Larissa Ferreira, uma das participantes do protesto, a mesma aliás que me enviou as fotos abaixo - releve-se a qualidade das fotos, afinal foram tiradas de celular e no calor dos confrontos.

De qualquer forma, independente da questão pontual que motivou os protestos (a redução na tarifa dos ônibus e o passe livre para os estudantes) o blog  Desvelar fará um acampanhamento mais aprofundado do movimento, pois entendo que esses acontecimentos transcendem simples reivindicações econômicas ou de cidadania.

Parece que há muito mais em jogo: vejo na manifestação dos estudantes capixabas o mesmo pano de fundo  das rebeliões na Europa- - Grécia, Espanha, Portugal... - e dos polêmicos levantes dos povos árabes...
Vejo como um puro e simples sintoma do cansaço dos jovens, dos povos e das massas em geral com esse projeto de civilização do Ocidente, que a cada dia se aproxima mais e mais das raias da insanidade.





: versão dos estudantes - rebelião no ocidente 8


VERSÃO DOS ESTUDANTES DE VITÓRIA
Relato enviado ao blog por Larisa Ferreira Mendonça e publicado em toda a sua íntegra  e espontaneidade, apenas com  correções gramaticais e ortográficas

Bom, começando: o protesto começou há mais ou menos 6 meses, porém não houve retorno do governo para um possivel dialogo. Decidimos (todos os estudantes) que fariamos um novo protesto, porém diferente, desta vez pararíamos a Grande Vitória, a fim de podermos ter uma chance de esclarecer e resolver os problemas de nosso transporte coletivo com o Sr. CASAGRANDE.

Todos os estudantes entraram em acordo de que não haveria líderes, muito menos intermediadores governamentais ou estudantis desta vez...Para que ninguém fosse culpado ou responsabilizado por nossos atos, que foram coletivos!

Nesta quinta-feira, dia 2, cumprimos com nosso objetivo, (que era público e foi divulgado). Fechamos uma das avenidas em frente ao Palacio Anchieta, os estudantes esperaram para que CASAGRANDE desse as caras, mas infelizmente ele estava em Brasilia, conversamos com ele e ele disse que mandaria seu VICE... O BME ja estava no local desde as 8:00h, porém sem interferir, e aguardando ordens do CASAGRANDE.

O protesto era pacifico e estava de acordo com a constituição!

As 10:00h, O VICE DE CASAGRANDE e os PROTESTANTES que não eram apenas da UFES e estudantes, mas também havia pessoas da população e usuários do transporte, fizeram um acordo, nós protestantes abriríamos uma das avenidas, já que neste horário avíamos interrompido as duas avenidas, para que o VICE governador pudesse chegar ao Palácio Fonte Grande, aonde haveria uma possivel negociação com os protestantes às 11:30.

O horário não foi cumprido pelo vice governador, e esperamos mais 40 minutos, às 12:10 ainda com uma das avenidas interditadas ele disse que demoraria e só chegaria as 13:30, e que deveriamos escolher 10 pessoas comuns para negociar com ele -  NAO HAVIA LÍDERES!

As 13:10h, enquanto as 10 pessoas seguiam para o Palácio da Fonte Grande o governador CASAGRANDE deu ordem para que o BME tirasse os protestantes do local a força. Houve um pequeno dialogo entre um manifestante e um dos policiais, aonde o estudante disse que o protesto era pacifico e protegido por lei, que ele não deveria atacar, porém o policial disse que as ordens vinham do Governador para que ele acabasse com a "baderna" custasse o que fosse! (Palavras do policial)

As dez pessoas que estavam a caminho do Palácio Fonte Grande, não conseguiram chegar pela violência dos policiais, e as pessoas que estavam em frente ao Palácio Anchieta se sentaram no chão e levantaram as mãos com a frase: "POLÍCIA PRA LADRÃO, PRA ESTUDANTE NÃO".

Um protesto pacÍfico se tornou uma guerra civil, por parte do BME, que usou bombas de efeito moral, gases de pimenta e balas de borracha. Muitos estudantes se feriram e correram, alguns que foram atingidos e atordoados, para se proteger, se muniram de pedras e atacaram os policiais.

Toda a população correu para se proteger dentro do Palácio Anchieta, que estava fechado, os policiais nao hesitaram e atacaram o Palácio com bombas de efeito moral e balas de borracha, quebrando os vidros e telhados do Palácio, estutantes nao conseguem jogar pedras do telhado, nao é? Poucas pessoas da população, revoltadas com a situação, começaram também a jogar pedras no Palácio, porém reforço o que digo, a polícia atacou o Palácio Anchieta, os protestantes chegaram a pegar as bombas de efeito moral jogadas no Palácio, para servirem como prova de que foram eles que começaram a quebrar os vidros, entretanto os policiais viram e pegaram os protestantes que estavam pegando as balas e bombas jogadas no chão e os atacaram e bateram, tirando de suas mãos todas as provas!

Com o ataque o protesto tomou rumos inesperados e proporções enormes!
Aonde esta essa democracia que consta em nossa Constituição, heim CASAGRANDE???... Pois pra nós sua atitude foi de uma ditadura militar!
Aonde está o direito do povo da Grande Vitória, aonde está o direito do povo de Aracruz?

a barbárie de aracruz


RELATÓRIO DE ACOMPANHAMENTO DE OPERAÇÃO DE REINTEGRAÇÃO DE POSSE COLETIVA EM BARRA DO RIACHO, ARACRUZ/ES

Data: 18 de maio de 2011
Representantes: Gilmar Ferreira de Oliveira (presidente); Arthur de Souza Moreira (conselheiro) e Luiz Inácio Silva da Rocha (secretário-executivo).

O Conselho Estadual dos Direitos Humanos recebeu informações no dia 17 de maio dando conta que haveria uma operação de reintegração de posse em Barra do Riacho, em Aracruz, conforme despacho de um juiz em processo judicial devidamente instaurado.

De acordo com o Manual de Diretrizes Nacionais para Execução de Mandados Judiciais de Manutenção e Reintegração de Posse Coletiva, expedido pelo Governo Federal, o Estado desde a gestão anterior adotou como procedimento notificar este Conselho para acompanhar todas as operações de cumprimento de Mandatos de Reintegração de Posse Coletiva.

Inclusive, no último dia 06, este Conselho foi acionado pela Secretaria de Estado de Segurança Pública e Defesa Social (SESP) para acompanhar uma Operação de Reintegração de Posse em Santo André, na Grande São Pedro, em Vitória/ES. Prontamente o CEDH designou um conselheiro para acompanhar a Operação e não foi registrados maiores problemas.

Entretanto, para a nossa surpresa não recebemos nenhum comunicado por parte do Governo sobre a Operação de Barra do Riacho, em Aracruz/ES. Mesmo assim, informações chegaram por meio de moradores da região dizendo que a Operação já estaria preparada e poderia acontecer a qualquer momento. De posse dessas informações, na tarde de terça-feira, tentou-se contato com o Governo através do Gabinete do Vice-governador, mas foi justificado que logo mais ele estaria na Assembleia Legislativa numa Audiência Pública e lá poderia conversar com o presidente do Conselho sobre o assunto.

Já na noite do mesmo dia, também foi foram acionados o Dep. Genivaldo Lievori, presidente da Comissão de Cidadania e Direitos Humanos da Assembleia, e Perly Cipriano Subsecretário da Secretaria de Estado de Assistência Social, Trabalho e Direitos Humanos, sendo comunicados sobre a situação de Barra do Riacho, em Aracruz. Eles se comprometeram em verificar as informações. O Dep. Genivaldo informou que já havia alertado o líder do Governo na Assembleia sobre a possível Operação.

Na manhã de quarta-feira (18), diversas ligações foram feitas para o Conselho relatando que a Operação já estava em curso e que existia um considerável contingente de policiais na região, boa parte do Batalhão de Missões Especiais (BME). Também ainda pela manhã, por volta das 09 horas, o Vice-governador, Givaldo Vieira, entrou em contato com o Presidente do CEDH, confirmando a realização da Operação.

O Presidente do Conselho questionou porque não teria sido comunicado e também alertou que a realização da Operação sem o cumprimento dos procedimentos de praxe e acompanhamento de órgãos de controle externo poderia causar problemas com conseqüências graves. Mesmo assim, o Vice-governador disse que o Governo não poderia suspender a Operação pois se tratava de uma Ordem Judicial, mas estaria atento aos acontecimentos, no esforço de tentar coibir exageros, inclusive deslocando representantes dos órgãos governamentais para o local.

Após esse contato com o Vice-governador, o Conselho recebeu a informação que a Operação de fato havia sido iniciada e já com denúncias de excessos por parte da polícia. Mais uma vez, ao ser acionado reiteradamente com esses relatos, o Conselho decidiu ir até o local para verificar a situação.

Depois do diálogo com o Vice-governador, foi feito contato com o Secretário de Estado de Assistência Social, Trabalho e Direitos Humanos, Rodrigo Coelho, sendo solicitado um veículo para transportar os conselheiros até Aracruz. Prontamente o pleito foi atendido, sendo viabilizado o veículo por volta das 11 horas. Deslocaram pra lá o presidente, Gilmar Ferreira de Oliveira, o conselheiro Arthur de Souza Moreira e o secretário-executivo Luiz Inácio Silva da Rocha.

A caminho o presidente do CEDH novamente recebeu uma ligação do Vice-governador dizendo que a Operação transcorria na perfeita normalidade e que nenhuma alteração havia sido registrada. Neste momento o Vice-governador foi comunicado que o Conselho estaria se deslocando até a região para acompanhar o desfecho da Operação.

Seguindo o trajeto, ao se aproximar da Barra do Riacho a comitiva já percebeu o clima de tensão. Havia algumas barreiras da Polícia Militar revistando veículos e fazendo alguns questionamentos aos motoristas.

Quando os representantes do Conselho chegaram ao local, foram interceptados primeiro por diversos moradores. Eles relataram alguns excessos cometidos pela Polícia e desrespeito no que tange a ausência de instituições públicas para acompanhar a Operação.

Disseram ainda que uma criança teria sido baleada, um jovem covardemente agredido e que no momento das primeiras incursões houve muitos disparos de bomba de gás lacrimogêneo e bala de borracha, inclusive efetuados por um helicóptero que sobrevoava a região e atiradores de elite que estavam posicionados numa Caixa D’água de uma empresa que fica ao lado da ocupação.
Após ouvir preliminarmente os moradores, os representantes do Conselho se dirigiram em direção aos policiais que estavam atuando na Operação, para se identificar e comunicar que passariam a acompanhar os procedimentos, conforme disposição legal que cria o CEDH.

Ao caminharem em direção aos policiais, estando há cerca de 50 metros de distância, os policiais, sem nenhuma advertência, começaram a disparar bombas de gás lacrimogêneo e balas de borracha sob os representantes do Conselho. Ao perceber a reação da polícia os conselheiros recuaram correndo meio ao pânico que se instalou. Os moradores protestaram à reação truculenta da polícia.

Em seguida ao tumulto, os representantes do Conselho foram abordados por uma pessoa que se identificou como sendo policial militar, apesar de estar sem o devido fardamento. Ele disse que iria intermediar o contato com o Comandante da Operação.
Primeiramente o suposto policial tentou se comunicar por meio de um rádio comunicador, sem sucesso, e depois se dirigiu até aos policiais que disparam contra os conselheiros.

Ao retornar e se dirigir novamente aos conselheiros, disse que o Capitão responsável não iria falar com o Conselho, que a Operação iria continuar sem nenhuma interferência e disse que se o presidente do CEDH quisesse falar com alguém sobre a Operação era para ligar para o 190 e pedir para falar com o Comandante do 5º Batalhão da Polícia Militar que era o responsável pela Operação.

Após essa informação, os representantes do Conselho recolheram, com a ajuda de alguns moradores, parte dos projeteis das balas de borracha e bomba que foram desferidas contra os conselheiros e armazenaram num balde.
Neste momento os moradores foram novamente ouvidos e alguns relataram que uma das crianças que havia sido baleada teria ido a óbito no hospital. Imediatamente o Conselho se dirigiu ao Hospital São Camilo, único Pronto-socorro do município, mas foi informado que nenhuma criança proveniente da ocupação de Barra do Riacho havia dado entrada no hospital, muito menos havia registro de óbito. As funcionárias do Hospital relataram que o Conselho Tutelar, Polícia Militar e jornalistas também já havia ido até lá para certificar essa informação.
Depois de verificar essa última informação os representantes retornaram a Vitória e passaram, preliminarmente, toda essa situação relatada para o Subsecretaria de Direitos Humanos, Perly Cipriano, e para o Vice-governador Givaldo Vieira.
Considerações
Os representantes do CEDH puderam constatar que a operação contou com um farto aparato repressivo. Os policiais estavam fortemente armados e com o auxilio de um helicóptero e atiradores de elite posicionados em pontos estratégicos, no sentido de intimidar e reprimir qualquer esboço de reação.

Constataram também que no momento que estiveram por lá, nenhum outro órgão do Estado esteve presente, a não ser a própria policia. Os moradores que conseguiam resgatar seus móveis e demais utensílios domésticos faziam por contra própria.
O clima era de muita indignação por parte dos moradores, pois relataram que a Prefeitura não havia dado alternativas para as pessoas que não tinham outro local para ir e tão pouco acompanhou a Operação para apoiar a remoção das pessoas para lugares seguros.

Percebeu também que havia crianças e idosos no meio dos moradores despejados, sem qualquer tipo de amparo. A Operação foi conduzida de forma a negar qualquer tipo de controle externo e transparência. Além do incidente ocorrido com o Conselho, alguns membros da imprensa relataram dificuldades de desenvolver suas atividades e colher informações sobre os fatos.

Por fim, a truculência da Operação por parte da polícia foi flagrante ao ponto do próprio Conselho Estadual dos Direitos Humanos serem recebido como foi, mesmo com o amparo legal de investigar qualquer violação de direitos humanos em território estadual.
É o relatório.

Vitória/ES, 19 de maio de 2011.
GILMAR FERREIRA DE OLIVEIRA
Presidente do Conselho Estadual dos Direitos Humanos
ARTHUR DE SOUZA MOREIRA
Conselheiro do Conselho Estadual dos Direitos Humanos
LUIZ INÁCIO SILVA DA ROCHA
Secretário-executivo do Conselho Estadual dos Direitos Humanos

segunda feira será maior - rebelião no ocidente 7


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viva españa! - rebelião no ocidente 6

02/06/2011

de volta aos campos de batalha 2

Nem bem saímos de uma Batalha Eleitoral, e já entramos noutra, não a de 2012, mas a de 2014. Afinal, não passa de uma manobra de guerra esta cínica omissão da "Folha", denunciada e detalhada na matéria abaixo sobre Aécio Neves, extraída do site Carta Maior.

Imagine se os governos do PT estivessem fazendo de fato um enfrentamento contundente contra os detentores de privilégios políticos e econômicos deste país. Com certeza que estarímaos correndo sérios riscos de repetir o golpe de 64 no Brasil, o de 73 no Chile, o de 76 na Argentina, o de 202, na Venezuela, o de 2009 em Honduras, e por aí afora...

Enfim, com todas as suas contradições e limitações, é preciso respeitar o tempo de amadurecimento do projeto de transformação em curso no Brasil. Afinal, nenhum movimento ou força política foi capaz ainda de superar dialeticamente as limitações do PT e fazer avançar o projeto popular. E, mais grave ainda, nenhuma força foi capaz de resgatar aquela efervescência popular aglutinda pelo PT e em torno do PT, durante a década 80.

Com essa efervescência e combatividade popular, aí sim, o projeto de transformação poderia realmente fazer um enfrentamento mais radical e acelerado contra as estruturas elitistas e obsoletas deste país. Mas parece que infelizmente não está no projeto, desse PT que chegou ao governo, incentivar e resgatar essa combatividade e essa organização popular, e então apiar-se nelas para exercer de fato o poder de transformar, sem muitas concessões e alianças com setores de uma forma ou de outra privilegiados e excludentes.

Resta aguardar para quando haverá esse resgate da luta popular...
E se ele será conduzido pelo próprio PT (através de suas correntes mais à esquerda, que ainda resistem no interior do partido), se por novas forças políticas (com a sempre indispensável participação dos movimentos progressistas da Igreja Católica) ou se por uma complexa conjunção dessas e de tantas outras forças e movimentos que compõem a luta popular: MST, MAB, MPA, Assembléia Popular, PSOL, PSTU, PCO...

Aliás, a propósito da presença da Igreja Progressista nas lutas populares:  em 2011 o Grito dos Excluídos  abre o verbo e já fala explicitamente nas diretrizes para a construção de um Projeto Popular no Brasil, que vá além da democracia burguesa, representativa, que vá além de um processo político protagonizado apenas por partidos e por um poder executivo centralizador, burocrático e excessivamente institucional.

O Grito acontece todo 07 de setembro, dede 1995, e é coordenado pela CNBB, em parceria com demais Igrejas do CONIC (Conselho Nacional de Igrejas Cristãs), com os movimentos sociais e diversas entidades e organizações.
Quem quiser saber mais a respeito do Grito deste ano veja em grito dos excluídos.

de volta aos campos de batalha 1

Aécio Neves é denunciado por ocultar patrimônio e sonegar imposto

por André Barrocal, do site Carta Maior
No domingo, a “Folha” publicou – com grande estardalhaço – a lista de parlamentares que possuem emissoras de rádio e TV – ou que mantêm as emissoras em nome de parentes. A reportagem, na edição impressa, remetia o leitor para a “lista completa” que podia ser lida na internet, no UOL. E esclarecia que o material tinha sido preparado pelo Ministério das Comunicações.

Esse blogueiro estranhou, como se pode ler aqui, que a reportagem da “Folha” não citasse o senador Aécio Neves – impulsivo e notívago líder da oposição. Recentemente, como se sabe, Aécio foi flagrado numa blitz da Lei Seca no Rio. Recusou-se a fazer o teste do bafômetro. Deve ter as razões dele… O mais interessante: investigações posteriores mostraram que o carro dirigido pelo senador estava em nome da rádio Arco-Íris, que tem a irmã e a mãe de Aécio como sócias, em Minas – como se pode ler aqui. Toda a imprensa divulgou a história (de forma discreta, claro, porque tucanos em geral não devem ser incomodados com essas bobagens).
Estranhei que a rádio da família de Aécio não estivesse na reportagem da “Folha”. E cheguei a supor que omissão se dera porque Aécio e família também não constassem da lista original do Ministério – que suscitou a reportagem…
Mas eis que vários leitores alertam-me para o detalhe: na lista original, consta, sim, uma tal “Rádio Colonial FM Ltda” (em nome da irmã de Aécio)!
A Rádio Colonial e a Rádio Arco-Íris são a mesma coisa? Uma é nome fantasia a outra é o nome da empresa? Ou é uma segunda rádio? Tema ser melhor apurado…

Vejam, na página 250 da lista, o nome da irmã de Aécio, Andréa Neves (que, dizem, é a mentora do impulsivo líder da oposição). O relatório completo do ministério pode ser acessado nesse link.

Opa, a situação então ficou mais estranha!
A “Folha” incluíra na reportagem de domingo casos de parlamentares que colocam rádios em nome de parentes. A irmã de Aécio está na lista! E Aécio não aparece na reportagem!
Precisa dizer mais alguma coisa?

Como disse a Ângela – uma das leitoras que me alertaram para o fato: “A Folha só não deu mesmo porque não quis”.
Imaginem se houvesse uma rádio no nome da irmã de Lula? Ou da prima do Zé Dirceu? A “Folha” ia “esquecer” de incluir na reportagem?
Aécio não é qualquer um: trata-se do proclamado “novo líder da oposição”.

A “Folha” também não é qualquer uma. Na direção do jornal está Judith Brito, que anunciou ano passado de forma taxativa: como os partidos da oposição estão em crise, cabe à imprensa fazer oposição!
Ok! Mas, desse jeito, não, Judith! Fica feio demais… Brigar com os fatos vai deixar a imprensa de oposição tão fraca quanto a oposição partidária demotucana – que também briga com os fatos há 9 anos!
Desse jeito, de oposição verdadeira mesmo vão sobrar apenas o PMDB e o Palocci.

28/05/2011

os primeiros brados no coração do império

"esta é a última vez que nos comportamos bem; na próxima tomaremos a cidade" - frase de um manifestante durante a Marcha contra Wall Street, realizada em Nova Iorque. Leia mais aqui e aqui


vídeo: the cure

neste maio da suposta morte de Bin Laden, além do  poema luto, lustro e do parar os atentados contra o ser, desvelar publica este vídeo com a música do the cure, inspirada na famosa história do escritor franco-argelino albert camus.

afinal, e sem querer de forma alguma fazer humor mórbido e simplista, 'matando um árabe' é uma homenagem apropriada  para o líder guerrilheiro e, mais ainda, para o ganhador do prêmio nobel da paz de 2009, o senhor barack obama, o mesmo que manda invadir países para matar líderes guerrilheiros e que duplicou o número de soldados no afeganistão assim que tomou posse - a propósito vale  a pena ver o documentário restrepo, que passou  aqui por vitória há uns dois meses,  e analisar se de fato essa foi an melhor atitude do governo americano para responder aos esquisitos atentados de 11 de setembro.

Ainda sobre 11 de setembro e sobre esquisitices, foi surpreendemente lamentável e deprimente ver todas aquelas pessoas saindo para as ruas e 'comemorando' a morte de um homem. como se todos os dramas dos americanos fossem se resolver com a morte de bin laden. como se toda a mágoa planetária que existe contra o poder americano brotasse de um so homem ou de um só movimento de 'fanáticos'.

triste e patético fim de império comemorar assim algo que não irá mudar em nada o destino dos eua (veja textos abaixo sobre a rebelião no ocidente). se bem que é preciso dar desconto: é preciso duvidar seriamente dos tais 'milhares' de pessoas que foram às ruas para 'comemorar', afinal a mídia-empresa mostra e 'fabrica' aquilo que ela quer.

o 'matando um árabe' do the cure e de camus também deve ser lembrando no caso do espantoso massacre provocado por wellington menezes em realengo, aqui em pleno brasil do carnaval e do futebol. afinal, há já muitas décadas atrás, essa espécie de niilismo, ou de grito de desespero através da aniquilação do outro, já era esperado e apontado por escritores como camus, e décadas depois captado pelo the cure, como sintoma da irracionalidade e da opreesão próprias desta opressiva e obsoleta sociedade de controle do capitalismo.

como detectou com lucidez e coragem o jornalista petersen filho, no texto que vai abaixo (mesmo com atraso, vale a pena ler), com o massacre de realengo é o brasilsilsil chegando à modernidade tardia e doentia do capitalismo. pena que o capitalismo esteja agonizando, como uma fera furiosa.
******************************
Matando Um Árabe
Parado na praia
Com uma arma em minha mão
Olhando fixamente para o mar
Olhando fixamente para a areia
Olhando fixamente para o cano
Do árabe no chão
Vejo sua boca aberta
Mas não escuto nenhum som

Eu estou vivo
Eu estou morto
Eu sou um estranho
Matando um árabe


Eu posso voltar atrás
Ou eu posso abrir fogo com a arma
Olhando fixamente para o céu
Olhando fixamente para o sol
Qualquer escolha que eu faça
Tem a mesma importância
Absolutamente nenhuma


Eu estou vivo
Eu estou morto
Eu sou um estranho
Matando um árabe


Senti a arma disparar
Acalmando minha mão
Olhando fixamente para o mar
Olhando fixamente para a areia
Olhando fixamente para eu mesmo
Refletindo nos olhos
O homem morto na praia


O homem morto na praia


Eu estou vivo
Eu estou morto
Eu sou um estranho
Matando um árabe


******************************
Killing An Arab
I'm Standing on a beach
With a gun in my hand
Staring at the sky
Staring at the sand
Staring down the barrel
At the arab on the ground
See his open mouth
But hear no sound


I'm alive
I'm dead
I'm the stranger
Killing an arab


I can turn and walk away
Or I can fire the gun
Staring at the sky
Staring at the sun
Whichever I choose
It amounts to the same
Absolutely nothing
I'm alive
I'm dead
I'm the stranger
Killing an arab


Feel the steel butt jump
Smooth in my hand
Staring at the sea
Staring at the sand
Staring at myself
Reflected in the eyes of
The dead man on the beach


The dead man on the beach


I'm alive
I'm dead
I'm the stranger
Killing an arab