21/01/2009

Com os olhos em Gaza

Antes de passarmos às espantosas fotos do Massacre de Gaza, algumas palavras, ainda em estado de estupor e indignação, e mesmo de ódio - evidentemente, não ao povo de Israel ou a quem quer que seja, mas ódio às estruturas de poder que nos impõem essa estupidez e maldade, com as quais certamente ainda teremos que conviver por muito tempo.

É compreensível que as pessoas demorem a se dar conta de algo diferente, anormal, num mundo com tantos, variados e dramáticos acontecimentos, cruciais ou supostamente cruciais: crise econômica mundial, primeiro negro a se tornar imperador do capitalismo, desastres naturais oriundos do caos das mudanças climáticas, acidentes aéreos, etc etc; sem contar o bombardeio diário de centenas de informações de somenos importância para os outros, mas que de uma forma ou de outra nos dizem respeito - ou pelo menos somos levados a crer que nos dizem respeito.

Assim, somente aos poucos certos aconteciemntos vão ganhando a atenção das pessoas. E foi assim, gradualmente, que o mundo foi tomando consciência do horror daquilo que aconteceu - e provavelmente volte a acontecer - na Faixa de Gaza. Acontecimento absurdo, incompreensível. espantoso, para quem imagina que vive numa civilização cujos estados, poderes, instituições e forças políticas apregoam aos quatro cantos do mundo seguirem seriamente palavras e expressões como democracia, razão, evolução moral e política, solidariedade etc etc etc.

Acontecimentos como o de Gaza desmascaram a ingênua e tranqüilizadora visão que se tem de uma Europa e de um Estados Unidos – de um Ocidente, enfim - conscientes de suas limitações e contradições, fazem cair por terra os argumentos daqueles que acreditam sincera ou hipocritamente que o capitalismo será sempre capaz de encontrar a solução para suas próprias contradições, problemas e catástrofes.

Com Gaza fica visível que quanto mais extremado e mais modernoso, quanto mais complexo e refinado, quanto mais prenhe de bugigangas tecnológicas, mais descontrolado o capitalismo se torna, mais estúpido, burro, irracional e imune a conceitos como humanidade, sofrimento, serenidade, solidariedade, respeito, amizade, progresso moral ou evolução espiritual.

Não vale a pena falar aqui dos reais motivos que levaram os governantes de Israel a atacar Gaza, não vale a pena tentar se contrapor aos argumentos da grande mídia, (que ao fim e ao cabo, passada a comoção, sempre acusará os “fanáticos” do Hamas e da Al Qaeda) nem tentar entender porque os EUA e a Europa permitem aos militares de Israel promover esse absurdo massacre. Quem quiser se convencer, se informar ou discutir melhor acerca do que está por detrás do Massacre de Gaza, poderia dedicar um pouco de tempo a lguns espaços alternativos - há uma relação na lateral do blog.

Um bom exemplo é o texto que publicamos, de Tariq Ali – Das cinzas de Gaza, traduzido por Luis Leiria para o site português www.esquerda.net (veja a seção 'pontes')

Mas, por ora, fiquemos com as contundentes imagens, que certamente todos gostariam d enão ter que olhar - e também com um poema de Simón Zavala Guzmán. Dos livros que este poeta equatoriano enviou recentemente ao blog DESVELAR, escolhemos traduzir o poema "Introspeccion Revolucionaria", para estar ao lado deste não tão impotente testemunho das imagens do Massacre.












As imagens foram extraídas de email enviado por Bernard Almeida, garotopodre3@hotmail.com, para a lista de discussão da pALCA (veja a seção 'pontes')

Outras imagens do Massacre
















20/01/2009

Palestina somos todos nós - Boicote a produtos de Israel e Estados Unidos









Das cinzas de Gaza

Por Tariq Ali, publicado originalmente no Guardian e traduzido por Luis Leiria, para o site português www.esquerda.net (veja a seção 'pontes').

O ataque a Gaza, planeado há seis meses e executado no momento certo, tinha em grande medida, como observou correctamente Neve Gordon, o objectivo de ajudar os partidos candidatos à reeleição a vencer as próximas eleições israelitas. Os mortos palestinianos são pouco mais que alimento eleitoral nesta competição entre a direita e a extrema-direita em Israel. Washington, e os seus aliados da União Europeia, perfeitamente cientes de que Gaza estava na iminência de ser atacada, tal como no Líbano em 2006, sentaram-se para ver.
Washington, como é seu hábito, culpa os palestinianos pró-Hamas, com Obama e Bush cantando o mesmo hino da pauta da AIPAC (American Israeli Political Activity Committee, Comité Americano Israelita de Actividade Política, o lóbi judeu nos EUA). Os políticos da UE, tendo observado o cerco, a punição colectiva a Gaza, o assassinato de civis, etc. estavam convencidos que foram os ataques com foguetes que "provocaram" Israel, mas apelaram aos dois lados a porem fim à violência, sem obter qualquer efeito. A velha ditadura de Mubarak no Egipto e os islamistas favoritos da Nato de Ankara não registaram sequer um simbólico protesto, chamando os seus embaixadores em Israel. A China e a Rússia não pediram uma reunião do Conselho de Segurança da ONU para discutir a crise.Diante da apatia oficial, uma consequência deste último ataque será inflamar as comunidades muçulmanas através do mundo e aumentar as fileiras das organizações que o Ocidente afirma estar a combater na "guerra contra o terror".

O banho de sangue em Gaza levanta questões de estratégia mais amplas para ambos os lados, que se relacionam com a história recente. Um facto que é preciso reconhecer é que não há Autoridade Palestiniana. Nunca houve. Os Acordos de Oslo foram um absoluto desastre para os palestinianos, criando um conjunto de guetos desligados e encolhidos sob permanente vigilância de um agente brutal. A OLP, antes a depositária da esperança palestiniana, tornou-se menos que uma pedinte do dinheiro da UE.O entusiasmo do Ocidente pela democracia termina sempre que os que se opõem às suas políticas ganham eleições. O Ocidente e Israel tentaram de todas as formas garantir uma vitória da Fatah: os eleitores palestinianos rejeitaram o concerto de ameaças e de subornos da "comunidade internacional", numa campanha que viu a detenção rotineira de membros do Hamas e de outros oposicionistas pelo exército israelita, os seus cartazes confiscados ou destruídos, os fundos da UE e dos EUA a serem canalizados para a campanha da Fatah, e os deputados do Congresso dos EUA a anunciar que o Hamas não devia ser autorizado a candidatar-se.Até a data da eleição foi determinada pela vontade de burlar o resultado. Marcada para o Verão de 2005, foi adiada até Janeiro de 2006 para dar a Abbas tempo para distribuir vantagens em Gaza - nas palavras de um oficial de informações egípcio, "o público vai assim apoiar a Autoridade contra o Hamas".

O desejo popular de que houvesse uma vassourada depois de dez anos de corrupção, intimidação e arrogância sob a Fatah provou-se mais forte que tudo isto. A vitória eleitoral do Hamas foi tratada pelos governantes e jornalistas do mundo atlântico como um sinal deplorável do fundamentalismo crescente, e um golpe temível às perspectivas de paz com Israel. Foram aplicadas pressões financeiras e diplomáticas imediatas para forçar o Hamas a adoptar as mesmas políticas do partido que derrotara pelo voto. Sem compromissos com a combinação de ganância e de dependência da Autoridade Palestiniana, caracterizada pelo auto-enriquecimento dos seus servis porta-vozes e polícias e a sua concordância com um "processo de paz" que só trouxe mais expropriação e miséria à população, o Hamas ofereceu a alternativa de um exemplo simples. Sem ter qualquer dos recursos da sua rival, instalou clínicas, escolas, hospitais, centros de formação profissional e programas de bem-estar para os pobres. Os seus líderes e quadros viviam frugalmente, dentro dos padrões do povo comum.

Foi esta resposta às necessidades do dia-a-dia que conquistou para o Hamas a sua ampla base de apoio, não a recitação diária dos versos do Alcorão. É menos claro até que ponto a sua conduta na segunda Intifada lhe deu um grau adicional de credibilidade. Os seus ataques armados contra Israel, como os da Brigada dos Mártires de Al-Aqsa, da Fatah, e os da Jihad Islâmica, foram retaliações contra uma ocupação muito mais mortal que antes. Medidos à escala dos assassinatos do exército israelita, os ataques palestinianos foram poucos e espaçados. A assimetria ficou duramente exposta durante o cessar-fogo unilateral do Hamas, iniciado em Junho de 2003 e mantido durante todo o Verão, apesar da campanha israelita de raids e de detenções em massa que se seguiu, na qual cerca de 300 quadros do Hamas foram apanhados na Cisjordânia.
Em 19 de Agosto de 2003, uma autoproclamada célula do "Hamas" em Hebron, desautorizada e denunciada pela liderança oficial, fez explodir um autocarro em Jerusalém ocidental, ao que Israel prontamente respondeu com o assassinato do negociador do cessar-fogo do Hamas, Ismail Abu Shanab. O Hamas, por sua vez, ripostou. Em resposta, a Autoridade palestiniana e os estados árabes cortaram os fundos às suas obras de caridade e, em Setembro de 2003, a UE declarou todo o movimento Hamas como uma organização terrorista - uma antiga exigência de Tel Aviv.
O que realmente distinguiu o Hamas, num combate desigual e sem esperança, não foi o uso de bombistas suicidas, uma prática que contava com muitos competidores, mas a sua superior disciplina - demonstrada pela capacidade de impor um auto-declarado cessar-fogo contra Israel no ano passado. Todas as mortes civis devem ser condenadas, mas como Israel é o seu principal adepto, a hipocrisia euro-americana serve apenas para se desmascarar. A maior marca de assassinatos está no outro lado, brutalmente cravada na Palestina por um exército moderno equipado de jactos, tanques e mísseis, na mais prolongada opressão armada da história moderna.
"Ninguém pode rejeitar ou condenar a revolta de um povo que sofreu a força bruta de uma ocupação militar durante 45 anos", disse o general Shlomo Gazit, ex-chefe de informações militares israelita, em 1993. O ressentimento real da UE e dos EUA em relação ao Hamas é que este sempre se recusou a aceitar a capitulação dos Acordos de Oslo, e rejeitou cada um dos esforços subsequentes, de Taba a Genebra, de dissimular as suas calamidades diante dos palestinianos. A prioridade do Ocidente desde então foi romper a resistência. O corte de fundos à Autoridade Palestiniana foi uma evidente arma para forçar a submissão do Hamas. Outra foi estimular os poderes presidenciais de Abbas - publicamente escolhido para o cargo por Washington, como Karzai foi para Cabul - à custa do conselho legislativo.
Não foi feito qualquer esforço sério para negociar com a liderança eleita dos palestinianos. Duvido que o Hamas pudesse ter sido rapidamente subornado aos interesses ocidentais e israelitas, mas não seria sem precedentes, se acontecesse. A herança programática do Hamas permanece hipotecada à mais fatal fraqueza do nacionalismo palestiniano: a crença de que as escolhas políticas que se lhe apresentam são a rejeição da existência de Israel no todo, ou a aceitação de restos desmembrados de um quinto do país. Da fantasia maximalista do primeiro ao patético minimalismo do segundo, o caminho é muito curto, como a história da Fatah mostrou.
O teste para o Hamas não é se pode ser domesticado para a satisfação da opinião ocidental, mas se pode romper com esta tradição paralisante. Logo depois da vitória eleitoral do Hamas, um palestiniano perguntou-me em público o que eu faria no lugar deles. "Dissolvia a Autoridade Palestiniana", foi a minha resposta, "e punha fim à fantasia". Fazê-lo iria situar a causa nacional palestiniana na sua base correcta, com a exigência de que o país e os seus recursos sejam divididos equitativamente, na proporção de duas populações que são iguais em tamanho - não 80% uma e 20% a outra, uma desapropriação de tal forma iníqua que nenhum povo que tenha auto-estima jamais se vai submeter a ela a longo prazo. A única alternativa aceitável é um só Estado tanto para judeus quanto para palestinianos, no qual as extorsões do sionismo sejam reparadas. Não há outro caminho.

sobre george saraiva

George Saraiva mora em Guarapari e também participa da Oficicina Poiesis.
No primeiro poema, 'desarmonia' , uma interessante simbiose – apesar da aparente oposição - entre linguagem e conteúdo, pois, se está a apontar impotências e impertinências de seu personagem/romancista, o poeta o faz com a fala e os recursos do romancista: a argúcia psicológica, a capacidade de descrever vivências e dimensões complexas, qualidades que são próprias exatamente do romancista (enfim, o poeta age como romancista pelo simples fato de conceber e dissecar de forma tão vigorosa e precisa o seu personagem/romancista).

No segundo poema de George Saraiva - 'blue buballoo' - há um oposto: na sua singeleza, é umé retrato do poeta no meio do instante que passa, no meio mesmo da aparição das coisas, é registro de sua sentinela.

Traz um pouco dessa capacidade serena e modesta de testemunhar o ser e o tempo que tem sido esquecida por uma certa poesia moderna, na sua preocupação excessiva ora com labirintos existenciais e narcisistas, ora com a legítima invenção de códigos verbais, ora com o simples jogo com as palavras; jogos e códigos que, originais ou repetitivos, depois irão servir de objeto/pretexto para críticos, professores e/ou prefaciadores debruçarem-se sobre o poema e as palavras como se estivessem a dissecar entranhas ou analisar partículas com microscópios.

sobre waldo motta

Waldo Motta é poeta nascido em Boa Esperança, norte do Espírito Santo.
A marca mais conhecida de sua poesia é um homoerotismo contundente e às vezes desbocado, mas nem por isso menos lírico e inventivo Não se trata meramente de poesia que apela tão somente para o choque, a porrada verbal, o escândalo.
Se lida com atenção, a poesia homoerótica é apenas uma das tonalidades de sua fala - e, para alguns, nem é a mais rica, é apenas a mais impactante, aquela que dá mais platéia; há que saber saborear a sua poesia social, a existencial e a de fundo religioso ou místico.
Na realidade, em suas criações mais recentes, Waldo parece buscar uma espécie de superação do próprio conceito de poesia, ou pelo menos do conceito de poesia predominante na literatura ocidental - tentativa de superação que se concebe como estando até mesmo à frente de conceituadas linhas de vanguarda.
É uma poesia que busca fundir elementos aparentemente díspares como hebraísmos, cabala, numerologia, lendas, linguagens e cosmogonias de nossos indígenas, tudo isso sem abrir mão da inventividade, do verso burilado, mas principalmente sem abrir mão do sentido, da mensagem - para usar termos mais técnicos, Waldo Motta ainda é um poeta que não se deixa levar somente pela melopéia (dimensão sonora) nem pela fanopéia (elementos visuais do poema) mas também e prioritariamente pela logopéia (dimensão do sentido, do entendimento).
Ou em bom português, e como o próprio Waldo diz em suas oficinas e preleções teóricas, é uma poesia que ainda tem a preocupação com o conteúdo, que se preocupa em comunicar algo ao leitor, em estabelecer uma ponte mínima que seja.
Waldo Motta ministrou recentemente a Oficina Poiesis.
Site do poeta: http://br.geocities.com/waldomottapoeta/home.html

blue buballoo

cada gota
que se desfaz sobre o jardim
é espasmo de sol.

cada borboleta,
inebriada com o jardim confuso,
é espasmo de sabor.

e a conclusão da vida?
- espasmos periódicos!
george saraiva
ecos

questão de gênero

Em outro poema estava
a noite (por um momento)
absoluta. E a respiração
que (de dentro)
o ouvido escuta.
E alguma lição
a se tirar disso
esquecida.
Em outro poema.
ronald polito, 'de passagem'

em teu peito, pasto...

em teu peito, pasto
desta égua famélica,
entre tuas coxas
frouxas ao assédio,
nesta tesa e tensa,
haste de teu sexo
nas dunas da bunda
onde deixo rastos,
na concha bivalve
dos lábios, na ostra
sôfrega da língua,
enfim neste corpo
em que colho olores
e sabores vários,
é que me refaço,
rapaz, dos labores
é que me aplaco
esses meus furores,
é que me consolo
de meus dissabores.

waldo motta, 'waw'
ecos

paciência

tentar controlar
a entrada e saída
de ar. parar.
resistir. Não
repetir

escrever um palavra
invisível
e apagar
em seguida

não se mover
mais, não rasurar
a folha em branco

nem assim haverá
silêncio
descanso
ronald polito, "de passagem", nankim editorial

miliciana

a farda
é um fardo
ao corpo
do soldado

e a divisa
um limite
que o limita
militar
o soldado,
um certo
dado
do jugo
o quartel,
quarto enorme
de vigília:
ninguém dorme
marcos tavares

introspecção revolucionária

Esta contundente e singela fala de Simón Zavalla vai como testemunho poético neste momento em que, perplexos e indignados, estamos com os olhos em Gaza
I
ontem, quando brincávamos
atrás das palavras
qualquer coisa nos admirava
e nos calava a boca
e tão imunes ao mundo estávamos
que hoje se nos entristece a alma

sim, éramos tão imunes:
os bancos da escola
pulavam na nossa vida
e mil filas de letras
jogueteavam alegres nas vermelhas
tranças da companheirinha ou no olhar
que buscava o sonho
ainda de calças curtas

ontem, os dias eram outros dias
os beijos de nossas mães
moravam nas nossas bochechas
e o canto do avô nos vinha
como um até amanhã
sem palavras

foram tempos fugazes
a barba e o bigode
nos despertaram dos sonhos
e viemos caminhando metidos nos farrapos
dos irmãos maiores que morreram
II
hoje estamos aqui
sobre a terra que tantas vezes
se vestiu de sangue
sou um dos vossos
eu me chamo Simon, um qualquer
sou um grito com nome
e um punhado de sangue
sou uma incertitude que sorri
e um casualidade dentro do tempo
com desejos de homem

venham a ver-me:
as unhas pouco a pouco comi e a fome
condecorou o meu estômago -
com dores agudas
sou um triunfo a mais –
para a miséria

olha-me, humanidade:
tenho um fuzil
que canta na minha cabeça
e venho estender-lhes a minha mão
e a minha fraqueza de esqueleto
III
aqui estamos
pulando de migalha em migalha
com um lasso passo de vermes
os domingos nos doem
e o tic-tac das semanas nos golpeia
vamos já derrotados por esta estrada
disparando palavras como velharias
e sequer Deus nos reconhece

pobrezinho do fuzil!
deve estar chorando
esta noite não pude acariciá-lo
nem deitá-lo em meus braços
que vou fazer
já é de manhã!

Olhem-nos, hermanos:
somos meros caranguejos
com bandeiras de luta
aos farrapos no asfalto.
simón zavalla

19/01/2009

Oficina Poiesis

A Oficina Poiesis aconteceu no segundo semestre de 2008, em Vitória. Foi ministrada pelo poeta Waldo Motta, patrocinada pela Secretaria Municipal de Cultura de Vitória, dentro do projeto Circuito Cultural.
No fechamento da Oficina tivemos, também em Vitória, no dia 24/10/2008, um encontro entre poetas capixabas e poetas/editores de São Paulo. O encontro, chamado de Poesia ao Vivo, contou com a participação deste que edita este blog, de Marcos Tavares, Fabrício Noronha, George Saraiva, Tatiana Briosch, Franklin Neto e Fábio Freire e também dos atores William Berger, Cristina Garcia e Alan, que leram criações dos poetas acima citados.
Quanto aos convidados de São Paulo: Massao Ohno, Ronald Polito e Celso de Alencar.
Houve também a apresentação de um trecho da peça "Terra sem mal", baseada no poema alegórico de mesmo nome, de Waldo Motta. Fechando a noite, a banda Sol na Garganta do Futuro apresentou o seu repertório, que funde música e poesia, tendo à frente o vocalista e poeta Fabrício Noronha.
A Oficina Poiesis deverá acontecer novamente ano, bem como o Poesia ao Vivo. Na verdade, a Oficina pretende constituir-se como movimento, promovendo não só a integração entre poetas e público, mas também entre poesia, música e teatro, tendo como elemento de ligação exatamente a palavra poética - escrita, falada, teatralizada, visualizada.
Trata-se de inciativa que, entre outros objetivos, visa resgatar uma poesia que se volte para a vivência de seu próprio tempo e para as pessoas desse tempo, evitando-se uma fala cerebral, abstrata, evitando fazer da poesia mero jogo verbal ou mero roteiro para labirintos existenciais e narcisistas, excessivamente desfocados das contradições e das perplexidades, dos desamparos e das resistências de todos nós, nesse tempo que já é quase barbárie mas também promessa de outro mundo possível.
O blog DESVELAR, no intuito de contribuir para a divulgação da poesia feita e vivida no Espírito Santo, vem publicando, dentro do possível, trabalhos dos poetas participantes da Oficina Poiesis.

limiar

As casas cochilam
ao longo da rua.
Silente e corcunda,
caminho a esmo.

Nos lábios da brisa,
surradas palavras
de encorajamento
que só me azucrinam
meus fudidos nervos.
Galos se esgoelam
que nem camelôs
da Vila Rubim
prescrevendo o ópio
das velhas manhãs.
Mas remédio algum
me cura de mim.

Recorte de sobra,
varo a madrugada.
Nada me consola
de ser miserável.
No entanto, algo,
algo inelutável
e indescritível
reboca meu corpo
rumo a mais um dia.

waldo motta

obsessão

não posso esconder:
- Deus é um troço
que me incomoda
inseto algures
na noite em claro
inquieta pulga
que me passeia
fazendo cócegas.

Deus me aflige
como doença
que progredisse
secretamente.

Deus é um bicho
de estimação.
se o escorraço
Deus me perdoa
e volta, à-toa.

waldo motta

poema para hoje

hoje é quinta-feira de uma época tenebrosa
há um tempo buscamos o sentido perdido das coisas
o encontro de cada desencontro . . .

na esquina dou bom dia a mim mesmo
e quem me vende o pão é minha própria imagem.
sou reflexo e imagem daquilo que fui e serei
sou o inverso daquilo que enxergo
um passo além do calcanhar
e a surpresa
dentro da caixa empoeirada.

a língua do sábio é a loucura do néscio
a agressão é a língua do idiota
a poesia é a ambrosia dos deuses
hidromel dos heróis
salvação dos famintos

só por ela entraremos na cidade santa
xangrilá perdida
só com ela derrotaremos nossos dragões
ganharemos corações
nessa carapaça de lata
e voltaremos a amar aquilo que sempre fomos.
william berger

22/12/2008

"então é natal, e ano novo também..."


Sabemos que a época natalina, há muito tempo, não é mais vivida apenas como momento maior da cristandade. O natal se tornou para todas as pessoas sinônimo de solidariedade, de esperança, de perdão e superação de conflitos. Em parte, talvez pelo fato de ser comemorado tão próximo ao Ano Novo das sociedades ocidentais. A proximidade das datas fortaleceria naturalmente o sentimento de renovação, de fim de um ciclo e início de outro (tal como insinuado no verso da famosa música de Lennon, que escolhemos como título desta postagem). O sagrado e o profano. A memória religiosa e a promessa terrena se encontrando. A celebração anual da esperança de que um dia a Grande Festa ocorra aqui e agora no reino dos homens.

Nem mesmo esta época de desenfreado consumismo e de indiferença e medo entre as pessoas é capaz de desvirtuar ou eliminar completamente esse momento de celebração e de resistência, que chamamos de espírito natalino.

Trazemos então três poemas, tendo como motivo a figura do Cristo, esse que, até hoje no Ocidente, ainda é o símbolo dessa crença, celebração e resistência. Poemas aparentemente amargos, pessimistas, até mesmo irônicos. Mas nem por isso menos tributários da crença e da possibilidade da Grande Festa, nem por isso menos respeitosos para com essa figura-símbolo. Ao contrário, é da sua crença que brota a sua aparente amargura e ironia.


o lamento do ressuscitado
não nasci, não cresci
nem morri de verdade...
até hoje!!!
chorei assim mesmo
sem mais sangue nas veias

é muito complicado ir além
a porta não abre, não abre...
forçá-la é tentativa vã
e pela fresta a fé não vem

nada do que dei fez a festa
o trunfo, sem triunfo
é só um defunto...
vicente filho




fotopoema: madeiro milenar


ei, companheiro crucificado
2000 já veio e já se foi admirado
da abundância de brilhosas bündchens
de bytes & gates, de gatunos & wall streets
e de restos de gente humana exilada
nas ruas capitais
deitadas em escadarias de catedrais salpicadas de bosta


cruz credo! credo em cruz! não
se
acenderam
ainda
as
luzes
de
tuas
árvores

(poema e fotografia de roberto soares - a foto foi tirada em ponta da fruta, vila velha, es)



UMA VEZ bem que o escutei
ele mesmo lavou o mundo, limpou tudo
sem ser notado, a noite toda
efetivamente

Uno e infinito
aniquilado
ilhado

Brilho havia. Luz. Salvação.
paul celan Junto com este poema de Celan, pretendia publicar os comentários de Flávio Kothe, o seu tradutor aqui no Brasil (em sua tradução de “Poemas”, publicada pela Tempo Brasleiro, Kothe comenta todos os poemas de Celan). Mas como estou em viagem não tenho o livro em mãos.
Assim, vou tentar transmitir de memória o essencial dos comentários de Kothe e quando possível publicá-los-ei na íntegra.

É com uma forte ironia que Celan relembra o breve tempo em que pode “escutar”, em que pode acreditar numa redenção da humanidade advinda da fé ou da abnegação cristã. Mas apesar da gradual descrença e do desespero - mesmo em relação à ação política e à própria possibilidade da vida (Celan se matou em 1970) - a figura do Messias mantém o seu fascínio para Celan: o Cristo como poeta que assume para si o louco e absurdo projeto de se imolar em nome de uma tarefa que ele sabia fadada ao fracasso, ao menos em termos imediatos. Mas mesmo assim se aniquilando, se ilhando, anônimo e desamparado, em nome dessa absurda escolha, em nome do projeto de ligar o homem ao divino, de despertar o que havia de divino no homem e de mostrar ao homem o que poderia haver de humano e precário no divino. O poema parece ser uma espécie de acerto de contas de Celan com a sua nostalgia, com o que ainda restava em seu imaginário de fascínio pela figura do Messias, mas um Messias humano, poeta, precário.

04/12/2008

poema inexato a arthur rimbaud

percebi um anjo correndo
quase-luz, fugia lépido
carregando pesados fardos

no chão algumas moedas engraçadas
no fim da linha um brilho esquisito

o anjo nada via
eu notei que devorava as flores
de um jardim intangível e perfeito


carlos ernesto

orvalho

ORVALHO. e eu estava deitado contigo, ó tu,
no meio do lixo
enquanto uma lua suja
nos lançava respostas

nós nos esmigalhamos separando
e novamente embolamos num só:

o Senhor partiu o pão
o pão partiu o Senhor

paul celan ecos

03/12/2008

arte popular: resgate e comunhão

Esse texto pode ser lido como um complemento ao 'A festa da vida nas ruas', relato poético que escrevi acerca da Iª Festa da Identidade Capixaba, ocorrida no último sábado, no Centro de Vitória.
As tarefas essenciais da arte moderna (entenda-se aqui arte moderna como aquela que veio com a Renascença e se consolidou de vez com o Romantismo, não havendo nessa definição nenhuma pretensão de detalhes acadêmicos) são as da crítica e da inovação, da denúncia e da transformação, seja no aspecto estético, político ou social. Ora, ocorre que com o passar dos séculos, essas tarefas foram se tornando cada vez mais complexas e custosas, pelo próprio fato de que a arte havia que acompanhar as também complexas, custosas, ininterruptas e cada vez mais velozes transformações das sociedades ocidentais, provocadas pelo necessário e revolucionário advento do modo de produção capitalista.

Esse processo de acompanhar, compreender ou questionar a marcha da sociedade, se fez com que a arte moderna cumprisse, e bem, a sua tarefa, por outro lado arrastou-a para a mesma complexidade e sofisticação daquilo que ela acompanhava, e com o tempo esse deslocamento inevitavelmente resultou no distanciamento cada vez maior entre artista, linguagem artística e público, ou pessoas “comuns’’ - distanciamento que só fez se agravar com a consolidação da sociedade e da cultura de massas.
No outro extremo permaneceu a arte popular, sem possibilidade de acompanhar esse projeto de conquista da modernidade, mesmo porque não era e não é vocação da arte popular exercer-se como arte moderna, nessa constante preocupação de renovação.

Ao contrário, a sua vocação é a da permanência, da tradição e, embora a inovação seja também própria da arte popular, ela se dá num ritmo próprio, sem submissão a fatores externos, ou seja, ela não tem como preocupação central a inovação a qualquer preço ou por qualquer motivo; enfim, não existem propostas explícitas de inovação e invenção, quando essas ocorrem são consequências de um proceso natural, decantado ao longo de anos e às vezes décadas. Em razão dessa sua vocação para a permanência e a tradição, a arte popular se manteve mais próxima da maioria das pessoas, de suas vivências e de seus formas de expressão.
É uma arte mais próxima das origens, uma arte que soube conservar um pouco dos mitos, da religiosidade e da transcendência próprias do ser humano, sem se deixar envolver pelo transitório e pelo racional.

Assim, é natural que encontros como o de sábado (Iª Festa da Identidade Capixaba) desemboquem numa verdadeira comunhão entre artistas e povo, entre atores e espectadores, é nada mais nada menos do que o resgate de um tempo em que não havia tanta separação, indiferença e desconhecimento mútuo entre os indívíduos e entre as diversas formas de conhecer e estar no mundo (ciência, arte, religião) - um tempo anterior ao advento da cultura de massas. Na verdade, essa comunhão aponta não só para o resgate do passado, mas também para uma promessa de futuro - um futuro para além da cultura de massas.
Nessas manifestações populares ocorre o encontro concreto, sem mediações teóricas, entre arte e vida, entre cultura e natureza, sem preocupações de se definir aquilo que deve predominar.

E, embora não seja uma aspiração explícita, ou reconhecida, esses momentos de fusão com o público são tambérm uma aspiração de muitos artistas da modernidade, um resgate do elo perdido, ou a construção de um novo elo.
Sabemos que as condições históricas atuais saõ de um cada vez mais visível esgotamento do modelo de conquista proposto pelo outrora revolucionário sistema capitalista. E talvez essas condições históricas permitam e exijam o advento de uma arte que consiga realmente unir as características essenciais tanto da arte moderna quanto da arte popular.

Com certeza que, nessa construção de uma nova arte, celebrar junto com a arte popular não significará para o artista moderno abdicar da sua tarefa de crítica e denúncia, de invenção e de enfrentamento. Comungar com o povo e com a arte popular não significa se anular perante as características mais simples e espontâneas dessa arte.
Participar da construção de uma arte assim não significa jogar fora todo o precioso e grandioso acúmulo construído pela arte moderna, em sua incansável tarefa de acompanhamento, interpretação e expressão dos dramas e vivências dos homens da idade moderna.
Nem a arte popular teria que passar a ser mais elaborada, mais crítica ou estar em busca da constante inovação, sob o risco de também se afastar do universo das pessoas.

De qualquer forma, esses encontros mostram que é possível, sim, o resgate da comunhão entre arte e vida, entre ator e espectador, e o artista que quer caminhar na direção dessa nova arte com certeza só tem a ganhar quando dedica mais atenção à arte popular e, principalmente, a momentos mágicos e grandiosos como aquele que vivenciamos no sábado passado nas ruas do Centro de Vitória.
Roberto Soares
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