28/05/2011

realengo e columbine

Realengo: Nós também temos Columbine  (trechos)
por pettersen filho, postado originalmente em abdic

Motivado pelo que ao certo nunca se saberá, Wellington Menezes, ao disparar seus tiros fatais, e no estampido dos seus revólveres, deu conta a todos nós, brasileiros, de uma vida cada vez mais autômata, a que somos levados pela tecnologia e mundo moderno, de sermos todos nós profundamente solitários, conectados por alguns megabytes, via internet , uns aos outros, sem Deus, paz, família ou credo político, ensimesmados em nosso cômodo "mundo perfeito"

Segundo o que se sabe, sem que, antes, ninguém percebesse, Wellington Menezes , como tantas outras pessoas que existem perambulando por aí, filho adotivo, desajustado, homodesconexo, enquanto declarava no seu âmbito interno "guerra" ao mundo , vivia completamente ignorado o seu mundo à parte, como tão bem leciona nosso Capitalismo, que a todos nós isola e padroniza, enquanto nos lança na sórdida competição por um "lugar ao sol", ao mesmo tempo em que fecha nossos olhos para o Próximo .

Ação que mescla tanto questões de saúde pública, passível ao Estado, quanto de humanismo, responsabilidade da própria Humanidade, a conduta de Wellington certamente não poderá ser atribuída, meramente, a uma patologia individual, ou à esquizofrenia de um "só-homem": Wellington Menezes ...

Sob pena de, se assim o fizermos, ser depositada, como em Columbine, uma superficial pá-de-cal sobre o problema, mas deverá, sim, ser analisada sob um prisma maior , de fenômeno Social , "doença coletiva", a que estaremos cada vez mais expostos, seja no Japão, na Inglaterra ou também no Brasil, onde somos algozes e ao mesmo tempo vitimas de um sistema de produção, mantença de poder e dominação humana, do "homem pelo homem", cada vez mais perverso e individualista.

Afinal, "Wellington Menezes", sem que percebas, pode ser seu vizinho, seu colega de trabalho, ai, bem ao seu lado, precisando de ajuda e conforto moral...

E a sua Escola, também, sem que percebas, poderá ser a próxima !
Já parou para pensar ?

da tunísia à américa - rebelião no ocidente 5

(Leia abaixo outros textos sobre a rebeliõ dos europeus e dos americanos)
Em maio de 2010 este blog já alertava que aquelas combativas manifestações populares, que haviam começado na Grécia ainda em 2008, poderiam de fato se espalhar pelo continente europeu, como está acontecendo hoje na Espanha e em Portugal, e como já ocorreu na França, na Inglaterra, na Islândia.

Claro que, em todos esses países onde estão ocorrendo as mobilizações populares, há diferenças na organização, no grau de participação e de influência das entidades historicamente mais oganizadas e talvez até mesmo diferença de objetivos. Mas há uma motivação comum: as consequências danosas, provocadas na vida das pessoas pelo agonizante projeto capitalista, com suas desesperadas medidas econômicas para se salvar.

Em seus estertores, o modelo capitalista de produção e de relações sociais impõe medidas cada vez mais duras para os povos de países diversos. Mas como era previsto, esses povos têm reagido ao aumento da irracionalidade do capitalismo, cada um de acordo com sua realidade histórica, social e política.

E agora já não se trata tão somente de países da periferia, os protestos, mobilizações e rebeliões não ocorrem apenas em nível do chamado terceiro mundo: América Latina, Ásia, Oriente, África. Na verdade, as reações populares aos excessos do capitalismo têm se dado com mais intensidade exatamente nos paises centrais, principalmente na Europa - aliás, com mais intensidade e com mais duração. A esse propósito, veja os textos que seguem, publicados há já algum tempo, aqui no desvelar ou em outros espaços alternativos.
londres: multidão nas ruas
islândia: o exemplo de um povo
nove postagens sobre a grécia
um novo ativismo na inglaterra
E, embora isso não esteja sendo muito divulgado, essas mobilizações e rebeliões contra o capitalismo também estão começando a ocorrer - e já com uma certa intensidade e frequência - exaramente no mais importante país do capitalismo, os Estados Unidos. Seguem alguns textos, também tratando de fatos que vem ocorrendo há já algumas semanas ou meses.
marcha contra wall street
do oriente médio ao meio oeste
carta de michael moore aos estudantes
Enfim, são cada vez mais evidentes os sinais de que chegou o momento de um acerto de contas entre os comandantes e os comandados no Ocidente.

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Obviamente que não se trata de nenhum mágico resgate da utopia, ou de uma súbita adesão dos povos aos ideais libertários e de libertação. Trata-se tão somente de cansaço, de desilusão e, principalmente, de descrença dos povos na capacidade das sociedades capitalistas para fazerem o mundo funcionar com um mínimo de eficiência, segurança e justiça social. É como se se esgotasse a capacidade da sociedade de controle para distrair, seduzir os povos.

É uma descrença que vai se instalando aos poucos, embora não seja provocada pelo seu oposto, que seria a imediata adesão dos povos à crença no socialismo. Mas somente ingênuos, presunçosos e revolucionários de gabinete imaginam que a transformação das estruturas sociais e econômicas, em nível planetário, se daria de forma abastrata, 'espiritualizada', como se os povos de um momento para o outro 'acordassem' de sua 'ignorância' e de sua letargia e decidissem que o capitalismo é extremamamente danoso e que precisa ser urgentemente substituído.

Somente ingênuos e teóricos de gabinete preconizam essas espécies de revoluções limpas, idealistas, abstratas, sem uma motivação concreta, cotidiana, material, 'vulgar'.

parar o atentado contra o ser: rebelião no ocidente 4

Ainda com relação a eventos impactantes neste período de superação do capitalismo, Maio foi o mês da suposta morte de Bin Laden por militares norte-americanos.

Para além da complexidade e da estranheza que envolvem a figura de Bin Laden e o polêmico episódio do 11 de setembro, fica uma certeza: os árabes, acusados de fundamentalistas, fanáticos e retrógrados, talvez tenham sido os mais ousados, os mais modernos dentre todos nós.

Afinal, depois da geração da contracultura, nenhum grupo, povo ou movimento ousou de fato questionar, duvidar (e, mais que tudo, combater até mesmo com a própria vida) os malefícios provocados pelo projeto de conquista do Ocidente, com seus valores e e com seu modo de vida difundidos pelo mundo afora.
Não se está aqui afirmando, de forma alguma, que esses valores e esse modo de vida tenham trazido apenas dor, repressão e empobrecimento existencial, o que está se apontando é que os árabes foram os únicos nas últimas décadas a iniciar de fato um acerto de contas com o Ocidente.

Um grito de alerta
Com suas bombas e com seu fundamentalismo religioso, os árabes da Al-Qaeda talvez tenham apenas lançado um corajoso e desesperado grito de alerta contra o erro e o mal, contra o pecado que estaremos cometendo se deixarmos que os comandantes do Ocidente prossigam em seu insano projeto de conquista, de domínio do mundo e da vida, do Real, a qualquer preço e sem objetivos humanitários; esse insano projeto que, embora admiravelmente racional e eficiente em suas técnicas e métodos, não tem inteligência nenhuma, não tem sabedoria alguma em se tratando de alimentar ou ao menos estimular a plenitude de vida das pessoas e dos povos.

É como se os árabes houvessem percebido que - nas décadas de 80 e 90 - a apatia, a impotência ou a perplexidade envolveram, em maior ou menor grau, todas aquelas pessoas, movimentos, idéias e grupos que poderiam enfrentar os comandantes do Ocidente. E, assim, já que estávamos por demais fragmentados, impotentes e confusos, foi como se os árabes tivessem tomado para si a tarefa de se contraporem à insanidade dos comandantes, até que pudéssemos de novo nos reagruparmos e compreendermos melhor o que estava acontecendo.

Desse ponto de vista, não é nenhum absurdo ou devaneio considerar os árabes da Al-Qaeda como companheiros de jornada nesse dificil e ainda confuso processo de transição pelo qual passa a humanidade. Afinal, nem todos estão dispostos ou conseguem lutar apenas com palavras de ordem, marchas e poemas, há aqueles povos e indivíduos que, pela sua própria história, só podem enfrentar com bombas aquilo que consideram como erro.

Afinal, pode estar chegando o tempo em que estaremos de fato marchando para que um Oriente e Ocidente se encontrem e comunguem, sem imposição e sem domínio, sem distância e sem hostilidade, para que se alimentem um ao outro e um do outro. Para que um dia as bombas explodam apenas em forma de palavras, de poemas, de dança, de música.

Parar o atentado contra o Ser
Falar nisso, e para além do enigma Bin Laden, publiquei aqui um poema sobre essa já lendária figura. Fi-lo em 2006, quando se completaram cinco anos do atentado de 11 de setembro. No poema expressei exatamente essa ambiguidade que cerca Bin Laden: tendo sido cria dos americanos e da CIA, de que lado estava afinal: à direita, à esquerda, do lado de cá, do lado do sonho e da crença na comunhão entre pessoas e povos, ou do lado de lá, do lado das sangrentas bandeiras inglesas e americanas, dançando a dança da morte de Bush e de Blair? Foi apenas teatro a sua espantosa e épica trajetória entre nós?

Não importa o que de fato o que motivou Bin Laden, não importa até onde a sua figura foi fabricada ou manipulada pelos poderes estabelecidos. O que importa é que, de uma forma ou de outra, a sua imagem se firmou como símbolo de que, além de possível e necessário, é urgente  questionar, enfrentar e derrotar um modo de organização social que caminha cada vez mais para a irracionalidade, que se apresenta cada vez mais com um erro gritante, como pecado contra a vida  e contra o próprio Ser - pois se,  como dizia Hegel,  tudo, inclusive nós, é uma manisfestação do Espírito ou do próprio divino, então atentar contra nós próprios e contra o mundo é também um atentado contra o esse ainda enigmático projeto do Ser ou do Espírito.



as comunas de espanha e de portugal: rebelião no ocidente 3

Leia acima: rebelião no ocidente 4  e rebelião no ocidente 5

O movimento espanhol 15-M anunciou esta segunda-feira uma manifestação em Madrid para o próximo domingo, dia 29 de Maio, que irá sair da praça Cibeles às 10h da manhã. Foto gaelx/Flickr


extraído de carta maior

O movimento espanhol 15-M anunciou que realizará uma manifestação em Madri no próximo domingo, dia 29 de maio, que irá sair da praça Cibeles às 10h da manhã. Na reunião também foi debatida e aprovada a proposta para a realização, no mesmo dia, de uma marcha até ao palácio da Zarzuela para pedir ao Rei que se pronuncie sobre a manifestação dos indignados.


Os manifestantes do 15-M consideram que encerraram a semana com um tremendo êxito nas concentrações e nas assembleias organizadas e que agora começaram outra semana "decisiva", tendo decidido prolongar o acampamento "pelo menos" até ao próximo domingo.


Os concentrados sugeriram o estabelecimento de turnos para não esgotarem as forças da manifestação. Decidiram também a divulgação do movimentos aos bairros, aos municípios e à Internet, com o objetivo de dar permanência ao movimento, segundo os organizadores. Porém, ainda não existe consenso sobre a direção que o movimento deverá ter no médio prazo.


Foram também votadas as propostas dos comerciantes da Porta do Sol que se queixam de quebras nas receitas na ordem dos 50 por cento. Apenas foi aprovada uma das reivindicações dos lojistas: a retirada dos cartazes das vitrines, mas apenas dos pequenos comerciantes.A assembleia realizada segunda-feira anunciou também que já foram recolhidas 200 mil assinaturas de apoio ao protesto.

Os acampamentos mantêm-se em muitas outras cidades de Espanha.


“Claro que vamos ficar!”
Na terça-feira, ocorreu a 5.ª Assembleia Popular aberta do acampamento de Lisboa, na sequencia da decisão aprovada na assembleia do dia anterior. Mais de 500 pessoas responderam sim ao apelo do movimento que, desde a quinta-feira da semana passada, tem se juntado à Praça do Rossio, em Lisboa, “pela reinvenção da política”.

A assembleia de segunda-feira contou com um debate vivo e participativo, durante o qual inúmeras pessoas aproveitaram o “microfone aberto” para dar voz à sua indignação.


Decidiram a criação de uma sala de estudo permanente, no espaço da concentração, que possa servir de base de trabalho a estudantes que desejem permanecer no Rossio durante o dia e a criação de um espaço de apoio a crianças e pais que decidam participar na ação e nas actividades do movimento. Os grupos de trabalho prosseguem.

Os acampados em Lisboa reforçam o apelo a todos os que se identifiquem com o manifesto do movimento no sentido de se juntarem ao mesmo, no Rossio, “trazendo consigo a sua indignação, as suas ideias, os seus sonhos e a sua voz”. Bem como outros apoios logísticos básicos... como água, azeite, geleiras, sacos térmicos, latas de conserva, pratos, copos e talheres reutilizáveis, corda grossa, lonas de tecido e plástico para proteger do sol e da chuva, cavaletes, etc.

No Porto, na Praça da Batalha, o acampamento que já dura cinco dias mantém-se. Têm um espaço de leitura (com jornais diários oferecidos) e de estudo, uma cozinha, uma zona para jogos didáticos e finalmente um local de descanso protegido pelo sol.

19/05/2011

um outro maio na europa: rebelião no ocidente 2

de madrugada permaneciam na puerta del sol, em madrid,
mais de 2000 pessoas. foto de epa/pablo talamanca

Milhares de manifestantes ocupam o centro de Madri
por Esquerda.net/PCWorld Espanha
Mais de 10 mil pessoas, de várias idades, responderam terça-feira a um apelo feito em redes sociais e concentraram-se na Puerta del Sol, em Madrid, em protesto contra a crise econômica e as políticas anti-sociais implementadas pelo governo espanhol. Segundo o jornal El Mundo, às duas da madrugada, mais de 2000 pessoas permaneciam no local. O objetivo é manter este acampamento improvisado até 22 de maio, dia das eleições autônomas e municipais.

Segundo noticiou o El Pais, foi estabelecida uma rede de voluntários de forma a apoiar os manifestantes. Foram criadas cinco comissões: alimentação, comunicação, infra-estrutura e actividades, e aconselhamento jurídico.
Mais de 300 polícias cercaram a Praça e controlam as ruas adjacentes.

Em Granada, três pessoas foram detidas após a polícia ter dispersado os manifestantes que se preparavam para pernoitar no Paseo del Sálon. Os detidos são acusados de “resistência à autoridade”, acusação que negam. Durante a noite de hoje, os manifestantes voltarão a concentrar-se em Granada, na Plaza del Carmen. Para Sevilha está marcada uma concentração de duração indefinida a partir de quinta-feira.

No domingo, 18 pessoas foram presas durante os protestos convocados para mais de 50 cidades espanholas. Na segunda-feira, a polícia espanhola prendeu mais um manifestante que se preparava para acampar na Puerta del Sol, em Madrid. Cinco pessoas, menores de idade, continuam detidas, segundo divulga o El Pais.

Os representantes da Plataforma Democracia Real ya!, que convocou os protestos do domingo passado, dia 15 de Maio, afirmam que, neste momento, são os próprios cidadãos que organizam estas ações.

Redes sociais ajudam espanhois a protestar contra a crise - Por PC World - Espanha

As redes sociais têm ajudado a mobilizar milhares de pessoas em diversas cidades da Espanha, em um movimento conhecido inicialmente como “os indignados” e que recentemente ganhou o nome de "15M". O movimento tem invadido as ruas – e as redes sociais, sob hashtags como #democraciarealya e #nolesvotes.

Milhares de pessoas têm-se mobilizado por toda a Espanha para reivindicar mudanças, principalmente no nível político, em antecipação às eleições regionais e locais marcadas para domingo (22/5). A praça Puerta Del Sol, em Madri, tornou-se o marco zero para este protesto específico, e as redes sociais (lideradas pelo Twitter) mobilizam centenas de cidadãos em vários tipos de protestos e manifestações.

Como ocorreu em outros países, centenas de espanhóis têm tomado as ruas em protesto contra a situação política, econômica e social existente no país. Sem um líder claro, este grupo difuso e indefinido tem sido formado por milhares de pessoas para protestar contra os políticos e pedir mudanças.

Lei Sinde
O movimento formou-se em torno da oposição à chamada Lei Sinde, que vai regulamentar os downloads de Internet na Espanha. A oposição das pessoas a essa regulamentação gerou a hashtag #nolesvotes, que convocava os cidadãos a não votar em partidos políticos que apoiam esta iniciativa: PSOE (no governo), PP (principal partido da oposição) e CiU (o partido catalão). Enrique Dans, professor do Instituto de Empresa e forte defensor do movimento, explicou a filosofia da iniciativa em seu blog.

Esta iniciativa, aliada à crise econômica espanhola (que já levou o Fundo Monetário Internacional e outros órgãos a advertir sobre uma “geração perdida”), e o impacto de manifestações semelhantes em outros países e nas redes sociais têm dado origem aos protestos nas cidades espanholas.

A plataforma DemocraciaRealYa (http://democraciarealya.es) convocou para uma manifestação em várias cidades em 15 de maio. Em Madri, a reunião levou a confrontos com a polícia, levou o grupo às primeiras páginas dos jornais locais e culminou com a decisão de algumas dezenas de pessoas de acampar na praça Puerta del Sol como forma de protesto.
A DemocraciaRealYa afirma ser um movimento que é “apartidário, forjado no calor da Internet e das redes sociais e que tem como único propósito promover uma discussão aberta entre aqueles que desejam se envolver na preparação e na coordenação de ações conjuntas.”

Na noite de segunda-feira (16/5), a polícia tentou desmontar o acampamento que os “indignados” montaram na praça Puerta del Sol. O YouTube está repleto de vídeos da ação policial e os usuários das redes sociais têm expressado sua oposição em relação ao que tem ocorrido.

Desde então, centenas de hashtags apareceram nas mensagens do Twitter, incluindo #spanishrevolution, #acampadasol, #yeswecamp e #nonosvamos.Embora Madri esteja atraindo a maior parte da atenção, os acampamentos de protesto têm sido organizados em outras cidades na Espanha. Muitos deles são retratados em blog. (Arantxa Herranz)
As informações são do portal Esquerda.net e do PCWorld/Espanha.

18/05/2011

o início da derrocada da europa neoliberal: rebelião no ocidente

GREVE GERAL NA GRÉCIA:
O LEME FOI ENTREGUE À TEMPESTADE

Transportes, serviços públicos, escolas e sistemas de saúde paralisaram atividades nesta terça-feira na Grécia, enquanto ‘inspetores' da União Europeia e do FMI visitam Atenas para avaliar a situação econômica desagregadora. Um ano após a concessão da ajuda financeira para evitar a quebra do país, o quadro só piorou, com aumento do déficit público que se pretendia reduzir. Motivo: arrocho ministrado pelos ‘inspetores' dos mercados produziu recessão, desemprego e queda na receita do Estado. O que se discute agora é a urgência de um novo pacote de ‘ajuda' para evitar a falência que poderia contaminar todo o ambiente europeu e gerar novos Estados zumbi (Espanha na mira). O custo do novo auxílio seria um repiquete do arrocho sobre o setor público, com cortes adicionais em serviços essenciais, esfarelando a rotina já dramática de um país à deriva, cujo leme foi entregue à tempestade.
(Carta Maior; 4º feira, 11/05/ 2011)

grécia: lenta mas firme marcha rumo a uma revolução?

Milhares de pessoas participam de greve geral na Grécia

O centro de Atenas encheu-se nesta quarta-feira de milhares de manifestantes que protestaram contra as medidas de austeridade implementadas pelo governo e contra um novo plano de ajuda externa. Trabalhadores de transportes públicos, serviços públicos, saúde e educação paralisaram suas atividades. Governo quer arrecadar cerca de 76 bilhões de euros até 2015 mediante a privatização de empresas estatais e a venda de bens públicos.
extraído de esquerda.net

A segunda greve geral promovida em 2011 surge no momento em que já se sabe que o governo pretende aplicar um novo plano de austeridade para arrecadar cerca de 76 bilhões de euros até 2015 mediante a privatização de empresas estatais e a venda de bens públicos, e em que surgem informações que apontam para a necessidade da Grécia reestruturar a sua dívida e solicitar um novo plano de ajuda externa.
Milhares de manifestantes concentraram-se no centro de Atenas em resposta ao apelo lançado pela Confederação de Trabalhadores da Grécia (GSEE), que representa 1,5 milhão de pessoas, e o Sindicato de Funcionários Civis (ADEDY), que representa outros 700 mil.

Empunhando cartazes contra o Fundo Monetário Internacional (FMI) e a União Europeia, os gregos exigem que “os ricos paguem a crise e não o povo”, e apelam ao povo para que não baixe a cabeça e não se deixe vencer.
Vassilis Xenakis, representante de um sindicato do setor público, afirmou à BBC Radio 4 que “há um ano, o governo anunciou e tomou algumas medidas contra os funcionários públicos, contra os trabalhadores, contra os salários” e “o resultado foi que a população ficou mais pobre, os mercados estão congelados, não há crescimento, não há produtividade e ninguém investe”. Agora, adianta Vassilis, “o governo volta a pedir mais medidas, mas quem é que pode aceitar novamente essas medidas sem resultados?”.
Lojas fechadas, vôos cancelados, transportes públicos paralisados, escolas encerradas e hospitais em serviços mínimos. Este foi o cenário com que se deparam os atenienses logo pela manhã.
Também os jornalistas aderiram à greve de 24 horas que juntou a função pública e o setor privado contra as políticas de austeridade e os planos de privatização do governo.
Segundo noticia do El Pais, as autoridades gregas utilizaram gás lacrimogéneo para dispersar alguns manifestantes, sendo que um agente ficou ligeiramente ferido e pelo menos cinco manifestantes foram transportados de ambulância para o hospital.

As autoridades gregas apontaram um total de 20.000 manifestantes em Atenas.
















no fio da navalha

quando o amor decide se suicidar
não há quem o detenha;
súbito, gelam-se os abraços
e as palavras da véspera, queimam

cavalgam os capangas do orgulho
libertos de negra caverna masoquista
para nos roubar a ingenuidade infantil
de amar como loucos e sem exigências -
crianças inocentes e sem medos

mas agora crescemos e estamos a postos
nada nem ninguém nos engana:
nossos próprios demônios nos defendem
de qualquer tentação de ser felizes
e então podemos placidamente dormir
apoiados no lasso travesseiro do fracasso

a punta de navaja
Cuando al amor le da por suicidarse
no hay quien sea capaz de detenerlo;
de pronto se congelan los abrazos
y queman las palabras de ayer mismo.

Regresan los sicarios del orgullo
desde un negro reducto masoquista,
a robarnos la infantil inconsciencia
de amarnos a lo loco y sin preguntas,
como niños idiotas, sin recelos.

Ahora que hemos crecido y somos listos,
no nos engaña nadie; nos protege
nuestro propio demonio de la guarda
de cualquier tentación de ser felices
para poder dormir, plácidamente,
sobre la tibia almohada del fracaso.

ana montojo micó - espanha
tradução: roberto soares

16/05/2011

apenas observando

por frei betto

Ao viajar pelo Oriente, mantive contatos com monges do Tibete, da Mongólia, do Japão e da China. Eram homens serenos, comedidos, recolhidos e em paz nos seus mantos cor de açafrão.

Outro dia, eu observava o movimento do aeroporto de São Paulo: a sala de espera cheia de executivos com telefones celulares, preocupados, ansiosos, geralmente comendo mais do que deviam.
Com certeza, já haviam tomado café da manhã em casa, mas como a companhia aérea oferecia um outro café, todos comiam vorazmente. Aquilo me fez refletir: "Qual dos dois modelos produz felicidade?" Estamos construindo super-homens e super mulheres, totalmente equipados, mas emocionalmente infantilizados.

Uma progressista cidade do interior de São Paulo tinha, em 1960, seis livrarias e uma academia de ginástica; hoje, tem sessenta academias de ginástica e três livrarias!Não tenho nada contra malhar o corpo, mas me preocupo com a desproporção em relação à malhação do espírito.Acho ótimo, vamos todos morrer esbeltos: "Como estava o defunto?". "Olha, uma maravilha, não tinha uma celulite!"

A publicidade não consegue vender felicidade, então passa a ilusão de que felicidade é o resultado da soma de prazeres: "Se tomar este refrigerante, vestir este tênis, usar esta camisa, comprar este carro,você chega lá!"O grande desafio é começar a ver o quanto é bom ser livre de todo o condicionamento .

Há uma lógica religiosa no consumismo pós-moderno. Na Idade Média, as cidades adquiriam status construindo uma catedral; hoje, constrói-se um shopping-center. É curioso: a maioria dos shoppings-centers tem linhas arquitetônicas de catedrais estilizadas; neles não se pode ir de qualquer maneira, é preciso vestir roupa de missa de domingo. E ali dentro sente-se uma sensação paradisíaca: não há mendigos, crianças de rua, sujeira pelas calçadas...

Entra-se naqueles claustros ao som do gregoriano pós-moderno, aquela musiquinha de esperar dentista.
Observam-se os vários nichos, todas aquelas capelas com os veneráveis objetos de consumo, acolitados por belas sacerdotisas.
Quem pode comprar à vista, sente-se no reino dos céus. Deve-se passar cheque pré-datado, pagar a crédito, entrar no cheque especial, sente-se no purgatório. Mas se não pode comprar, certamente vai se sentir no inferno... Felizmente, terminam todos na eucaristia pós-moderna, irmanados na mesma mesa, com o mesmo suco e o mesmo hambúrguer do Mc Donald...

Costumo advertir os balconistas que me cercam à porta das lojas: "Estou apenas fazendo um passeio socrático". Diante de seus olhares espantados, explico: "Sócrates, filósofo grego, também gostava de descansar a cabeça percorrendo o centro comercial de Atenas. Quando vendedores como vocês o assediavam, ele respondia: "Estou apenas observando quanta coisa existe de que não preciso para ser feliz !" 

11/05/2011

benvindos à idade média

"na última semana beatificamos um papa, casamos um príncipe, fizemos uma cruzada e matamos um mouro. bem-vindos à idade média"
(autor desconhecido)



tempos sombrios

por elaine tavares
Imaginem vocês se um pequeno operativo do exército cubano entrasse em Miami e atacasse a casa onde vive Posada Carriles, o terrorista responsável pela explosão de várias bombas em hotéis cubanos e pela derrubada de um avião que matou 73 pessoas. Imagine que esse operativo assassinasse o tal terrorista em terras estadunidenses. Que lhes parece que aconteceria? O mundo inteiro se levantaria em uníssono condenado o ataque. Haveria especialistas em direito internacional alegando que um país não pode adentrar com um grupo de militares em outro país livre, que isso se configura em quebra da soberania, ou ato de guerra. Possivelmente Cuba seria retaliada e, com certeza, invadida por tropas estadunidenses por ter cometido o crime de invasão. Seria um escândalo internacional e os jornalistas de todo mundo anunciariam a notícia como um crime bárbaro e sem justificativa.

Mas, como foi os Estados Unidos que entrou no Paquistão, isso parece coisa muito natural. Nenhuma palavra sobre quebra de soberania, sobre invasão ilegal, sobre o absurdo de um assassinato. Pelo que se sabe, até mesmo os mais sanguinários carrascos nazistas foram julgados.

Osama não. Foi assassinato e o Prêmio Nobel da Paz inaugurou mais uma novidade: o crime de vingança agora é legal. Pressuposto perigoso demais nestes tempos em que os EUA são a polícia do mundo.

Agora imagine mais uma coisa insólita. O governo elege um inimigo número um, caça esse inimigo por uma década, faz dele a própria imagem do demônio, evitando dizer, é claro, que foi um demônio criado pelo próprio serviço secreto estadunidense. Aí, um belo dia, seus soldados aguerridos encontram esse homem, com toda a sede de vingança que lhes foi incutida. E esses soldados matam o “demônio”. Então, por respeito, eles realizam todos os preceitos da religião do “demônio”. Lavam o  corpo, enrolam em um lençol branco e o jogam no mar. Ora, se era Osama o próprio mal encarnado, porque raios os soldados iriam respeitar sua religião? Que história mais sem pé e sem cabeça.

E, tendo encontrado o inimigo mais procurado, nenhuma foto do corpo? Nenhum vestígio? Ah, sim, um exame de DNA, feito pelos agentes da CIA. Bueno, acredite quem quiser. O mais vexatório nisso tudo é ouvir os jornalistas de todo mundo repetindo a notícia sem que qualquer prova concreta seja apresentada. Acreditar na declaração de agentes da CIA é coisa muito pueril. Seria
ingênuo se não se soubesse da profunda submissão e colonialismo do jornalismo mundial.

Olha, eu sei lá, mas o que vi na televisão chegou às raias do absurdo. Sendo verdade ou mentira o que aconteceu, ambas as coisas são absolutamente impensáveis num mundo em que imperam o tal do “estado de direito”. Não há mais limites para o império. Definitivamente são tempos sombrios. E pelo que se vê, voltamos ao tempo do farwest, só que agora, o céu é o limite. Pelo menos para o império. Darth Vader é fichinha!

Elaine Tavares é jornalista



07/05/2011

dizes que me quer

você diz que me quer de uma tal forma
que não consigo deixar de corar;
que me quer de um modo primitivo
sem razão aparente e sem desculpas
e que me quer porque me deseja
porque sabe que eu também te quero
e como o monstro deste amor nos come
a alma, a paciência e as maneiras.

que pena que todas estas coisas
morram em nós afogadas de silêncio.

amalia bautista - espanha
tradução: roberto soares

morangos silvestres

Um ser humano é um combinado de egoísmo,
sofrimento e necedade. Não comove ninguém.
Uma pedra não comove ninguém. A beleza
é um acidente banal e pressupõe a morte;
muitas vezes se rodeia de sandice, e se nos fala,
chega a ser assustador. A inteligência, refrescante
como um duche, sabe bem, no Estio; mas agora
que é Inverno toda a vida, que lugar atribuir
à inteligência? O de criada de servir nos aposentos
da ganância. Não comove, é evidente, ninguém.

A bondade, sim, comove. Mas é tão débil
e tão rara que ninguém a ouve. Não é fácil,
assim, encontrar algo que possamos amar. Eu
tenho procurado, eu juro que não sei o que fazer:
tudo me parece, até a música, produto de uma falha.

Vou por essas ruas ao acaso e não acerto a conhecer
quem me convença que bem outra poderia ser
a vida. Tudo se mostra sob espelhos deformantes
tudo arde numa estranha aceitação. Francamente
não consigo perceber. E gostava tanto, mas tanto
que alguém me demonstrasse que não tenho razão.
josé miguel silva - portugal, movimentos no escuro, ed. relógio d’água, (2005)

pobres, gritai comigo!

Pobres, gritai comigo:

Abaixo o D. Quixote
com cabeça de nuvens
e espada de papelão!
- E viva o Chicote
no silêncio da nossa mão!

Pobres, gritai comigo:
Abaixo o D. Quixote
que só nos emperra
de neblina!
- E viva o Archote
que incendeia a terra
mas ilumina!

Pobres, gritai comigo:
Abaixo o cavaleiro
da lança de soluços
e bola de sabão
no elmo de barbeiro!

- E vivam os nossos Pulsos
que, num repelão
hão-de rasgar o nevoeiro!

josé gomes ferreira - portugal

03/05/2011

o criador mata a criatura

(extraído de resisitir.info)

Com pompa e circunstância, o império anuncia a morte do sr. Bin Laden.
É caso para dizer que o criador mata a sua criatura. O sr. Bin Laden era um dos "activos" da CIA. A sua Al Qaeda foi organizada, financiada e armada pelos serviços secretos dos EUA.
Operacionais da Al Qaeda treinados pela CIA foram utilizados nas guerras da Jugoslávia e da Chechenia. Mas a desinformação é tamanha que continuam a atribuir àquele indivíduo os atentados de 11/Setembro/2001.
Esquecem-se cuidadosamente de dizer que na véspera, dia 10 de Setembro, o sr. Bin Laden estava internado num hospital militar americano.

02/05/2011

a segunda morte de Osama bin Laden


por Paul Craig Roberts

Se hoje fosse 1º de Abril e não 2 de Maio, podíamos ignorar como uma brincadeira a manchete desta manhã de que Osama bin Laden foi morto num combate armado no Paquistão e rapidamente lançado ao mar. No actual estado de coisas, devemos considerar isto como prova adicional de que o governo estado-unidense tem uma fé ilimitada na credulidade dos americanos.
Pense nisso. Quais são as probabilidades de uma pessoa que alegadamente sofre dos rins e precisa de diálise, e que além disso é afligido por diabete e baixa tensão arterial, sobreviva em esconderijos na montanha durante uma década? Se bin Laden fosse capaz de adquirir o equipamento de diálise e os cuidados médicos que as suas condições requeriam, será que o despacho do equipamento de diálise não apontaria a sua localização? Por que foram precisos dez anos para encontrá-lo?

Considere também as afirmações, repetidas pelos media triunfalistas dos EUA a celebrarem a morte de bin Laden, que "bin Laden utilizou seus milhões para financiar campos terroristas no Sudão, nas Filipinas e no Afeganistão, enviando 'guerreiros sagrados' para fomentar a revolução e combater com forças fundamentalistas muçulmanas no Norte da África, Chechénia, Tajiquistão e Bósnia". Isso é um bocado de actividade para ser financiado por uns meros milhões (talvez os EUA devessem tê-los colocado na conta do Pentágono), mas a questão principal é: como é que bin Laden foi capaz de movimentar o seu dinheiro de um lado para o outro? Que sistema bancário o ajudou? O governo estado-unidense tem êxito em apresar os activos de povos de países inteiros, sendo a Líbia o mais recente. Por que não os de bin Laden? Estaria ele a carregar consigo US$100 milhões em moedas de ouro e a enviar emissários para distribuir os pagamentos das suas operações dispersas por lugares remotos?

A manchete desta manhã tem o odor de um evento encenado. O fedor emana dos noticiários triunfalistas carregados de exageros, dos celebrantes que ondeiam bandeiras e cantam "USA, USA". Poderia algo diferente estar em curso?

Não há dúvida de que o presidente Obama precisa desesperadamente de uma vitória. Ele cometeu o erro do idiota ou o recomeço da guerra no Afeganistão e agora, após uma década, os EUA enfrentam o impasse, se não a derrota. As guerras dos regimes Bush/Obama levaram os EUA à bancarrota, deixando no seu rastro enormes défices e um dólar em declínio. E o momento da re-eleição está a aproximar-se.

As várias mentiras e enganos, tais como "armas de destruição maciça", das últimas administrações têm consequências terríveis para os EUA e o mundo. Mas nem todos os enganos são o mesmo. Recordem, toda a razão para invadir o Afeganistão era em primeiro lugar para apanhar bin Laden. Agora que o presidente Obama declarou que bin Laden levou um tiro na cabeça, dado pelas forças especiais dos EUA a operarem num país independente e que estas o lançaram ao mar, não há razão para continuar a guerra.

Talvez o declínio precipitado do US dólar nos mercados de câmbio estrangeiros tenha forçado algumas reduções reais no orçamento, as quais só podem vir da travagem de guerra ilimitadas. Até o declínio do dólar ter atingido o ponto de ruptura, Osama bin Laden, o qual muitos peritos acreditam ter sido morto há anos, era um bicho-papão útil para alimentar os lucros do complexo militar e de segurança dos EUA.

02/Maio/2011

Ver também:

bin laden: luto, lustro

Na impossibilidade de escrever um texto mais abrangente acerca do desfecho da suposta caçada a Bin Laden, publico aqui um poema que escrevi em 2006, por ocasião do lustro (cinco anos) do atentado ao World Trade Center.


bin laden: luto, lustro
(cinco anos de 11 de setembro)


olha aí do seu lado
pode ser ele
bin laden
ei, olha de lado
não olha direto


mas onde ele tá
à direita
à esquerda
do lado de lá
do lado de cá?


agora olha lá bin laden
escorregando
nas grutas e ladeiras da ásia
ladino, latino


olha bin laden
bombando todas
bum! bum!
being! being!
boing! boing!
bom bom?


e olha os doidos dos árabes
orando para bin laden
e lá em cima no norte
a ladainha da morte
o louco balé de bush e blair
envoltos nas bandeiras listradas
por quanto tempo sangrentas
e ensangüentadas?


bin, bin, bum, bum!


roberto soares
vitória, 11/09/2006

26/04/2011

degraus

Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo...

mário quintana

dala: excertos

Dando seqüência ao mergulho na contrita e transcendente atmosfera da Sexta-Feira da Crucificação (veja vídeo abaixo), selecionei um trecho de minha novela Dala, que publicarei em breve em meio eletrônico.

Dala personifica nada mais nada menos do que a Terra, o planeta.  U. é a sede de Absoluto, de Espírito, do transcendente no cotidiano, e é a radical recusa desse cotidiano, exatamente por não perceber nele o espaço do divino. Tão embriagado dessa sede e dessa recusa, tão desgastado pelo vaivém de sua tarefa de poeta num mundo excessivamente prosaico, que o seu processo de ruptura torna-se-lhe insuportável, culminando em visões mágicas na noite de seu aniversário, através das quais ele é alçado até a órbita terrestre, e lá envolto pela magia de Dala, personagem através do qual dou feições humanas ao nosso próprio planeta.
 
O trecho em questão é a parte final do capítulo em que o jovem U. narra a trajetória de sua existência a Dala, até a noite em que logrou encontrar-se face  a face com ela.

************************
Dala - final do capítulo V
 
Dala:
(reinstalando a seriedade no âmbito da navigagem)
"então, imune à trajetória terrena, te vi numa tentativa de retorno ao transcendente, às rarefeitas e incompletadas raízes: houve o retornar reticente e tardio aos cânticos e templos. a matriz de Santa Rita de Cássia, repleta de penumbras proibidas, ainda afastadas de ti. a procissão nas manhãs da Crucificação, o roxo lutuar das flores exigindo silêncio. tu de longe, no espaço a ti reservado.’’

U.:
(ainda com a cabeça recostada no peito de Dala, numa voz recatada, olhando para baixo)
"sim, dala amiga, recordo  tais vivências com dolorosa nitidez. nas manhãs:

 procissão. silêncio. contritos todos.
a manhã é um culto secreto, místico
estamos possessos pela melodia, aturdidos

e à tarde e à noite as sete palavras varavam a cidade, ecoavam pela casa. tornavam tudo bíblico, pareciam circundar a cidade com muralhas invisíveis e arcanjos terríveis. um santo sepulcro, transcendental. até que um dia os senhores padres houveram por bem alternar as comemorações da Santa Semana: um ano numa paróquia, o seguinte na outra. mudou-se também o itinerário das procissões. eu habitava longe da outra igreja e das ruas por onde a revivescente passou a passar, ano sim ano não. eu não era bom peregrino, perdi um pouco do ritmo

fomos para o jardim da casa
rezava-se à cidade. articulamos
negras vozes que se dissiparam

a horas altas, olhos nebulosos
plantar lírios azuis, impossíveis

migrar para o alto e além, purificar-se da impressão de pecado que nos invade, nos oprime, por percebermos quão longe o humano está de exercer o seu testemunho, a sua tarefa de sentinela e companheiro do Real, ou de Deus, se preferires. essa mistura de singeleza e magnetismo das alturas que nos advém quando da Santa Semana lavava-me, deixava-me apenas triste, pequeno, amamentava-me numa melancolia modesta, uma espécie de nostalgia e recatada solidariedade para com o Crucificado, que me dispensava da condição de pecador por fazer parte de uma tão incompreensível raça.
enfim, a celebração religiosa, feita ao mesmo tempo de recatos e tremores, parecia fazer com o mundo terreno perdesse sua face medonha, medrosa, religando-se a um outro mundo, não celestial, perfeito, mas apenas distante, diferente, impassível, feito de lírios azuis e impossíveis, modesto e melancólico em sua incapacidade para tornar verdadeiramente azul e etéreo o mundo terreno, concreto, vivente.

enfim, viajava, vivia, celebrava solitário em minha ambígua condição de ateu saudosista. mas o que deveria durar até o domingo de Páscoa (o renascimento, a vida nova) acabava já na manhã de sábado de Aleluia, o mundo e a vida apareciam-me novamente como terrenos, sensuais, triviais. acho que, para mim, o calendário humano deveria ser uma constante sexta-feira da Paixão, um eterno ano de recolhimento, silente respeito e contrição, até que de fato pudéssemos todos enxergar um palmo adiante do nariz, vermos a nossa condição de testemunhas e amparo do Real

senti que caíamos: tudo e todos
houve uma alegria... e uma manga
caiu no quintal. no jardim da casa

em tudo estava ela...
em tudo!

o que digo é que, depois da sexta-feira da Compaixão, da solidariedade lutuosa dos humanos para com o Real e sua testemunha Crucificada, havia sempre a queda, o retorno da lucidez e da desdenhosa resignação para com os justificáveis frutos terrenos dos homens. até que num domingo à noite, embriagado e faminto numa missa, retirei-me definitivamente do culto, cabisbaixo, definitivamente descrente da possibilidade de um mundo azul e etéreo, desdenhosamente prisioneiro de um mundo terreno. devo ter me tornado qualquer coisa como um adulto, feito de sentimentos sérios e confiáveis

ensejei viver por hábito.
amei por necessidade

e assim foi a jornada, em meio a teus filhos,  desta

criatura nula
sem razão, método, ciência
cura

foi só, passaram-se anos
atravessei as terras
ergui o substituto
assim vivi. mas não me bastando
as fontes secaram-se

e por detrás desse espantalho, a quem deleguei a função de substituir-me, estava sempre à espreita Uoutro, dilacerado e entediado, raivoso e desdenhoso, crente e errante, mas sempre escondido, sem se achar com direito à cidadania, impondo a si próprio uma clandestinidade como única forma de não sangrar mais, de não se arrebentar de vez. até que nesta noite imensa, ofegante, não suportei mais, ousei e consegui vir aqui, até ti

por entre fendas e musgos
te entrevi - misto de estrela
seda pedra vento

Dala, errante do plenilúnio
girando girando a dança
dança
cadente e ligeira...
na trança do infinito...
sarabanda

são estas as notícias que te traz teu mais recente acompanhante, confuso... fala-me agora, de ti...”

22/04/2011

vídeo: inflamatus

( oitavo movimento do stabat mater,  de Rossini)



O Stabat Mater Dolorosa é  a peça de música sacra apropriada para  ver e ouvir na Sexta-Feira da Crucificação, durante a Semana Santa dos católicos.

Stabat Mater ("Estava a mãe") corresponde às duas primeiras palavras do Hino Mariano, o qual descreve a angústia de Maria durante a Crucificação do Cristo. 
De acordo com Otto Maria Carpeaux, os cinco grandes exemplos dessa composição musical, para esse magnífico texto, foram compostos por Vivaldi, Pergolesi, Haydn, Verdi e Rossini.

Quanto ao texto propriamente dito, existem dois tipos de Stabat Mater, o Dolorosa e o Speciosa, sendo usado liturgicamente o primeiro.

O Speciosa rememora Maria junto à manjedoura, no nascimento do filho; o Dolorosa retrata o sofrimento de Maria, já presencindo a dor do filho na cruz. O Speciosa contém 13 stanza (duplas) de 6 linhas; o dolorosa, 10. O Dolorosa é o executado no mundo da Música Sacra.

A seguir, o texto correspondente ao oitavo movimento, mostrado no vídeo acima; segue-se o original em latim. 

Inflamado e elevado pelas chamas
seja defendido por ti, ó Virgem
no dia do juízo final.

Faz com que eu seja custodiado pela cruz
fortalecido pela morte de Cristo
e confortado pela graça.

Inflammatus et accensus
per te, virgo, sim defensus
in die judicii.

Fac me cruce custodiri
morte Christi praemuniri
conforverti gratia.

Noutra ocasião, postarei aqui minhas impressões de uma competente e aconchegante apresentação do Stabat Mater, que tive  a oportunidade acompanhar na Catedral de Vitória, nesta Semana  Santa.
A apresentação ficou a  cargo da Orquestra Filarmônica do Espírto Santo, com regência do maestro Modesto Flávio, acompanhado do coro da Fames - com  a presença da soprano Natércia Lopes - e do coral da CST.

20/04/2011

guerra da líbia e guerras do brasil

O texto abaixo é uma mensagem postada pelo poeta e diretor de teatro Wilson Coelho, na lista do Opiniões Cênicas, grupo de discussão virtual de Vitória, ES.

Vale pelas reflexões despertadas. Afinal, como já foi apontado aqui em março, é muita coincidência que, logo num país ainda hostil aos EUA e a Israel, as manifestações populares tenham evoluído imediata e eficientemente para uma revolta armada.

E todo mundo sabe que EUA e Europa não estão nem aí para questões humanitárias. Portanto, somente ingênuos e doutrinados acreditam que a Guerra da Líbia tem motivos nobres, ou que seria inevitável. Aliás, com respeito a esse último ponto, porque a mídia e os governantes nunca levaram a sério a proposta de uma comissão de negociação, aventada por alguns governantes da América Latina? Provavelmente não seria tão interessante quanto a guerra...

De tudo isso, o que choca e indigna é, como de costume, a frieza com que governantes e povos dos EUAe da Europa permitem que um povo seja assim massacrado e sua nação seja destruída - prestem mais atenção nessas denúncias acerca da utilização de bombas de urânio empobrecido e de bombas de fósforo branco, nessas guerras do terceiro milênio. É coisa de quem já perdeu a alma há muito tempo. Leia mais em resistir

Tudo bem, não é nada diferente daquilo que foi feito no Vietnã, no Afeganistão, no Iraque, na Palestina... Mas isso sempre nos choca e faz renascer nosso ódio e desprezo para com esses pessoas e poderes que, apesar de serem apenas instrumentos da história em sua complexa evolução dialética, ainda assim são responsáveis pela sua liberdade de agir assim ou assado e, portanto, responsáveis por sua próprias existências primitivas, estreitas, raivosas, egocêntricas.

Falar nisso, que povo será o próximo da lista? Talvez um dia o Brasil do cobiçado pré-sal e da cobiçadíssima Amazônia...? Ah, com certeza que, nesse hipotético dia, um bando de cretinos e de fascistóides iria para a mídia e para as ruas aplaudir e reverenciar os estrangeiros 'salvadores' da pátria - afinal, essas pessoas sempre encontram argumentos para os seus malabarismos verbais e morais, advindos de sua miséria existencial, adequadamente mantida no ponto certo pela sociedade de controle.
*************
Aliás, passada a trégua da Batalha de 2010, que foram as últimas eleições, parece que os setores retrógrados, presunçosos e egocêntricos começam a se articular novamente, contra o processo de transformação que está em curso neste país (embora obviamente limitado e sem ousadia).
Com essas suas posturas, esses setores pelo menos demonstram sinceridade e  engajamento político, e ajudam a desconstruir o mito de que não há luta de classes no Brasil, de que esse país seria o território por excelência da cordialidade e da conciliação. Na verdade, até o momento em que o processo de transformação possa ocorrer num ambiente institucional e de democracia formal, é claro que uma oposição a esse processo é benvinda e necessária, para servir de contraponto, de correção a excessos e mesmo de complementação ou alternância de projetos.

Mas, desde que seja de fato uma oposição democrática e não fascistóide, que seja de fato modernizante e não obsoleta, desde que seja de fato acomapanhada de um projeto de país e não apenas de manutenção de poderes e privilégios descabidos e descarados.

Não há ainda essa oposição aos governos do PT. E para construí-la não basta apenas a perspicácia e o comprometimento de dirigentes partidários e de líderes empresariais. É preciso que a chamada classe média e alguns setores populares contrários ao PT exijam, reivindiquem uma oposição assim, ao invés de ficar apenas papagueando no mundo digital e no mundo real posições fascistas, obsoletas e simplórias - articuladas, divulgadas e conduzidas por dirigentes partidários, jornalistas, acadêmicos, militares e empresários que perderam o bonde da história.

Ao texto, então, postado por Wilson Coelho e  publicado abaixo.

o que a mídia NÃO vai mostrar

MESMO QUE KADDAFI SEJA O BIZARRO QUE FOR, A ONU CONSTATOU EM 2007:  

1 - Maior Indice de Desenvolvimento Humano (IDH) da África (até hoje é maior que o do Brasil)
2 - Ensino gratuito até a Universidade
3 - 10% dos alunos universitários estudam na Europa, EUA, tudo pago
4 - Ao casar, o casal recebe até 50.000 US$ para adquirir seus bens
5 - Sistema médico gratuito, rivalizando com os europeus. Equipamentos de última geração, etc...
6 - Empréstimos pelo banco estatal sem juros
7 - Inaugurado em 2007, maior sistema de irrigação do mundo, vem tornando o deserto (95% da Líbia), em fazendas produtoras de alimentos
E assim vai....

PORQUE DETONAR A LÍBIA ENTÃO?

Três  principais motivos:
1 - Tomar seu petróleo de boa qualidade e com volume superior a 45 bilhões de barris em reservas
2 - Fazer com que todo mar Mediterrâneo fique sob controle da OTAN. Só falta agora a Síria
3 - E o maior provàvelmente . O Banco Central Líbio não é atrelado ao sistema mundial Financeiro
Suas reservas são toneladas de ouro, dando respaldo ao valor da moeda, o dinar, e desatrelando das flutuações do dólar.

O sistema financeiro internacional ficou possesso com Kaddafi, após ele propor, e quase conseguir, que os países africanos formassem uma moeda única desligada do dolar (destaque por conta do blog desvelar).

O QUE É O ATAQUE HUMANITÁRIO PARA LIVRAR O POVO LÍBIO:

1 - A OTAN, comandada pelos EUA, já bombardeou as principais cidades Líbias com milhares de bombas e mísseis que são capazes de destruir um quarteirão inteiro. Os prédios e infra estrutura de água, esgoto, gás e luz estão sèriamente danificados
2 - As bombas usadas contem DU (Uranio depletado) tempo de vida 3 bilhões de ano - causa cancer e deformações genéticas (destaque por conta do blog desvelar).
3 - Metade das crianças líbias estão traumatizadas psicológicamente por causa das explosões que parecem um terremoto e racham as casas
4 - Com o bloqueio marítimo e aéreo da OTAN, principalmente as crianças, sofrem com a falta de remédios e alimentos
5 - A água já não mais é potável em boa parte do país. De novo as crianças são as mais atingidas
6 - Cerca de 150.000 pessoas por dia, estão deixando o país através das fronteiras com a Tunísia e o Egito. Vão para o deserto ao relento, sem água nem comida
7 - Se o bombardeio terminasse hoje, cerca de 4 milhões de pessoas estariam precisando de ajuda humanitária para sobreviver: Água e comida. De uma população de 6,5 milhões de pessoas.

Em suma: O bombardeio "humanitário" acabou com a nação líbia. Nunca mais haverá a nação Líbia. Foram varridos do mapa.
SIMPLES ASSIM.

18/04/2011

violão clássico: minueto de bach

o encontro

como se um raio mordesse
meu corpo pêro rosado
e o namorado viesse
ou em vez do namorado

um novilho atravessasse
meus flancos de seda branca
e o trajecto me deixasse
uma açucena na anca

como se eu apenas fosse
o efeito de um feitiço
um astro me desse um couce
e eu não sofresse com isso

como se eu já existisse
antes do sol e da lua
e se a morte me despisse
eu não me sentisse nua

como se deus cá em baixo
fosse um cigano moreno
como se deus fosse macho
e as minhas coxas de feno

como se alguém dos espaços
me desse o nome de flor
ou me deixasse nos braços
este cordeiro de amor

natália correia - portugal

nosso versos

nosso versos
caem sobre o mundo.
como chuva.

quase todos
se abrigam desses versos
sob chapéus de indiferença.

mas alguns
miram o céu
e os versos
lhes caem nos olhos

reconhece-os rua afora
pois eles trazem
os olhos incendiados

luis gonzález ansorena  -- espanha, extraído de apologia de la luz
tradução: roberto soares

14/04/2011

projetos de futuro

Esta tarde sou rico porque tenho
um céu todo de prata para mim
sou o dono também desta emoção
que é saudade igualmente do passado
e uma doce alegria por tê-lo vivido.

Tudo quanto me deixou me pertence
transformado em tristeza, e o que afinal intuo
que não hei-de alcançar converteu-se
num grato caudal de conformismo.

Meu património aumenta a cada instante
com aquilo que vou perdendo, porque quem vive perde,
e perder significa ter tido.

Não tenho já ambições, mas tenho
um projecto ambicioso como nunca tive:
aprender a viver sem ambição,
em paz por fim comigo e com o mundo.

vicente gallego - espanha
(tradução de albino m. - portugal)

13/04/2011

um verso

estranho mundo o nosso: cada dia
lhe interessa mais os poetas;
a poesia cada vez menos.

josé emilio pacheco - portugal

12/04/2011

vídeo: led zeppelin e as escadas precárias

procurava um vídeo bem representativo do rock dos anos setenta para postar aqui. eis que no diário gauche foi postado um texto e um vídeo de robert plant. achei muito interessante o texto, e o coloquei abaixo, mas preferi postar outro vídeo do led zepellin.
pois achei que a letra de stayway the heaven tem muito a ver com o texto do cristóvão feil: afinal o texto dele fala dessa geração que nasce,  cresce e vive - e morre - iludida, conduzida  por escadarias e paraísos tão precários e patéticos.
na verdade, essa geração não consegue ver muita escolha: ou ela se delicia com esses patéticos paraísos ou então, quando se rebela, ela se entorpece e enlouquece, como esse infeliz rapaz que provocou o absurdo massacre de realengo - veja texto aqui.


e, aqui,  o texto escrito por cristóvão feil, postado originalmente em diário gauche
Dias atrás, estava eu numa fila em algum lugar (tudo tem fila, agora, os filhos do lulismo querem consumir à tripa forra), e ouço o uivo gutural de Roberto Plant, no início do Immigrant Song, com o velho e bom Led Zeppelin. Virei num repente pra ver o sujeito que havia colocado aquele ringtone no telefone. Era um tipo faceiro, com pulôver nas costas e os braços do mesmo amarrados cuidadosamente no peito, onde havia uma corrente dourada. O famoso bundinha mimado por papi e mami. O cara acabou de avacalhar com o velho Plant. Nesta sociedade de hiper-ultra-consumo tudo é digerido, absorvido e regurgitado sem o menor respeito pelo significado de origem.

Fetichizaram Roberto Plant.
O mesmo que fizeram com o Che e tudo o mais.
Coisas da vida.
 
*****************
e, embaixo, não resisiti e aproveitei para também publicar um comentário feito por um usuário acerca do vídeo do led zeppelin, feito por tal medmaax. vale pela sua juvenil e irreverente indignação. 
Você dizem RESTART. Eu digo BLACK SABBATH
Você dizem CINE. Eu digo AC/DC
Você dizem FRESNO. Eu digo A7X
Você dizem PINK Eu digo PINK FLOYD.
Você dizem MILEY CYRUS. Eu digo LED ZEPPELIN.

Você diz  LADY GAGA. eu digo NIRVANA
Você diz  HANNAH MONATNA. Eu digo  QUEEN.
Você diz JONAS BROTHERS. Eu digo AEROSMITH.
Você diz  JUSTIN BIEBER, eu mando vc  se F* e digo GUNS N ROSES
95% dos adolescentes nos dias de hoje só aprenderam a ouvir o pop e outras porcarias.
Se vc é um dos 5% ajude, passe isto!

por medmaax

indagações corrosivas: escolas, pedagogias... e realengo

A mensagem abaixo foi postada inicialmente no Grupo de Discussão do COLEDUC - Coletivo de Eucadores Ambientais de  Vitória, ES, como uma resposta a uma outra mensagem, que convidava os participantes do COLEDUC para se mobilizarem em torno de uma ação política em prol da educação pública. O arquiteto Neison Guimarães respondeu, então, com as palavras abaixo.

por neilson guimarães
prezados...saudações... desculpem-me pela ignorância, mas...
o atual modelo educacional mudará algo no país?
as futilidades impostas aos jovems nas escolas ultrapassadas estão lhes servindo para algo?
resumindo:
os filhos das classes endinheiradas em sua grande maioria se dão bem, porém vejo as proles dos miseráveis sistêmicos continuarem na merda como os vermes, e a educação? para que serve nesse caso?

infelizmente já tenho constatado mendigos que um dia os conheci como operários, e lamentavelmente vejo seus filhos se acabando no craque, a droga do momento...
para que serve a educação para quem não tem dignidade humana, e vive como o escravo contemporâneo para dar bem estar à aristocracia?

agora me digam: qual a diferença de criarem ou não creches domiciliares na superfície do inferno? mudará o que?
parece até aquele papo das vans que fazem transporte público e as grandes empresas de transporte da aristocracia tentando brecar, porque não legalizar os coitados?

sinceramente colegas, quem mudará o atual panorama de exploração humana na superfÍcie do inferno, se até mesmo os próprios polÍticos representantes do povo vivem como sultões, e ainda aumentam o seu salário em 65%, ás custas do sofrimento dos escravos contemporâneos? e os seus próprios filhos estudam em escolas de países de 1º mundo, muito longe da caótica realidade brasileira!

e viva o meio ambiente...e viva as plantinhas e os bichinhos...e viva o capitalismo brutal...
e viva o apocalipse...que venha logo o tsunami!

****************
Apesar de ser um texto breve, e sem maiores pretensões de articulação, achei muito interessante o tom meio que libertário de sua indignação. Parece derrotismo mas é apenas uma crua constatação: até onde de fato a educação - um dos mais importantes aparatos ideológicos do capitalismo - pode de fato promover a libertação,o enfrentamento contra um sistema que oprime a e imbeciliza cada dia com mais eficiência? E até onde o atual sistema de dominação 'permite' que a educação 'liberte' e 'desperte' as pessoas?

Podemos realmente ter esperança na eficácia de uma mudança 'por dentro', gradual, institucional, feita sem rupturas e sem um radical enfrentamento das condições postas pelo atual sistema de dominação e controle? Vai chegar realmente a hora da superação, digamos, benéfica deste sistema? Ou será que teremos uma superação 'maléfica', de fato caminhando para o 'inferno', ou melhor, para um falso paraíso, tão bem representando pelo livro 'Admirável mundo novo", de Huxley - ou seja uma ditadura tecnológica e robotizante, mas consentida e desejada por uma humanidade cad dia mis resignada, assustada e entorpecida?

Não é colocar em dúvida a construção da cidadania, a validade da formação política e social, muito menos de desacreditar na luta popular e social - por mais desarticulada e cooptada que ela pareça estar em nosso país.

Mas o que o breve texto de Neilson lembra é o senso da urgência, do perigo que nos ronda: será que realmente teremos tempo e  condições de fazer um embate vitorioso contra  a agonizante besta do capitalismo, através apenas da luta institucional? Ou seremos convocados para um enfrenatemnto mais direto e mais ousado? E até onde saberemos captar e apreender a chegada dessa convocação, o chamamento da históia?
****************
Numa triste coincidência, estava  a finalizar o texto acima exatamente no dia em que ocorreu o Massacre de Realengo - veja texto aqui. Essa tragédia só vem a reforçar a validade das indagações que faço no meu texto e das afirmação que Neison Guimarães faz no seu.

A besta agonizante não se entregará tão facilmente e, enquanto resiste, teremos muita dor, trsiteza e vidas limitadas, medrosas, conduzidas pela sociedade de controle, e às vezes tragédias declaradas como essa de Realengo.

Ecoando Neilson, creio que a seguinte pergunta é oportuna: o que nossas escolas e nossas pedagogias  podem de fato fazer para evitar tragédais assim? Talvez seja o caso se prestar mais atenção nas escolas e pedagogias do MST.

leia também a besta agonizante
de neilson guimarães já publiquei aqui salamaleicon

massacre de realengo: mais vítimas da besta agonizante

Passada o choque inicial, que se segue a toda tragédia, e passada também a espetacularização e a banalização próprias dos atuais veículos de comunicação,  já se pode refletir com um pouco mais de lucidez sobre o Massacre de Realengo. Embora lucidez seja uma palavra um pouco difícil de se aplicar em acontecimentos como esse Massacre.

De toda forma, os trechos abaixo colocam  a questão num foco menos distorcido, ao invés de se procurar causas e soluções fáceis e moralistas. Pode parecer discurso repetitivo e inócuo, mas não é  focando em indivíduos e situações específicas que se compreende tragédias assim.

Sabemos que é apenas mais um infeliz episódio provocado pela irracionalidade do atual modelo de sociedade, a irracionalidade desta organização de controle e manipulação que não cessa de produzir dor, infelicidade, conflitos e às vezes tragédias explícitas. Tanto Columbine, nos EUA, quanto Realengo são aspectos da mesma realidade. E  sabemos que infelizmente muita dor e muita tragédia ainda hão de ocorrer, até que a humanidade consiga finalmente superar esse estágio em que a besta agonizante do capitalismo ainda consegue ferir e escoicear. 

palavra e silêncio (trechos)
por alfredo gonçalves, publicado originalmente em  província são paulo

O que dizer deste trágico e inesquecível dia 7 de abril carioca? O que dizer frente ao massacre de 12 crianças e adolescentes em plena sala de aula? O que dizer, na noite seguinte, diante dos muros revestidos de flores e velas da Escola Municipal de Realengo, zona oeste do Rio de Janeiro? O que dizer de uma violência tão nua e crua, tão fria e meticulosamente calculada?

As palavras emudecem. Emudece a escola Tasso de Oliveira, com suas paredes banhadas de sangue inocente. Igualmente mudos ficam a Cidade Maravilhosa, o Brasil e o Mundo. Mudos e atordoados, estupefatos, quedamos todos nós! Palavras como perplexidade, terror, barbárie ficam aquém dos fatos brutais… Infinitamente aquém! Parece que só o silêncio respeitoso e reverente é capaz de dizer algo. No sangrento espetáculo de vidas tão precocemente ceifadas, as palavras parecem sobrar ou faltar. Serão sempre de mais ou de menos.

Entretanto, não basta o silêncio! Ainda que as palavras sejam de menos, é preciso arriscar algumas, sob pena de cumplicidade ou omissão. Mas, de forma insistente, volta a pergunta: o que dizer?

(...)O que dizer às famílias enlutadas, obrigadas a sepultar seus entes queridos no vigor de sua primavera? Expressões de conforto? Abraços de carinho? Mensagens de confiança? Presença de holofotes, câmeras e microfones? Notícias sensacionalistas? Espaço para desabafos na mídia? Mas a dor é mais forte e mais funda, muito mais forte e mais funda que tudo isso. E ainda neste caso o silêncio se sobrepõe às palavras indiscretas e ao pranto sufocado, engolido.(...)

(...)O que dizer sobre o ex-aluno da escola, Wellington Menezes de Oliveira? Nome inglês mesclado com sobrenome bem brasileiro. O que dizer desse jovem de apenas 23 anos, órfão e só, perdido e abandonado? O que dizer de sua existência solitária e subterrânea, fora do alcance de toda a análise? Poderia ser o irmão mais velho das crianças que alvejou de maneira tão friamente pensada. O que dizer de alguém que mata, fere e em seguida se mata? Aqui poderíamos enfileirar uma série de por quês: de ordem social, econômica, política, cultural, psicológica, psicopatológica… Também poderíamos recorrer à sua carta-testamento ou ao testemunho dos policiais. Mas tanto seus tiros letais quanto suas palavras escritas continuam um enigma para quem segue vivendo sobre a face da terra. O que sobra desses poucos minutos de horror? Um silêncio tão cerrado quanto a boca dos mortos!

O que dizer, enfim, de uma sociedade que engendra ações desse gênero? Cenas que estávamos acostumados a presenciar pela telinha, vindas do outro lado do mundo ou mar: dos Estados Unidos, da Alemanha, ou da Inglaterra…(...)

(...) Desta vez, porém, a violência parece ter atingido um grau mais elevado. Ou descer aos porões sombrios infectos, inusitados e selvagens em que se escondem inúmeras crianças, adolescentes e jovens. Quantas vezes já estivemos reféns desses seres, agindo em grupo ou solitariamente! E quantos deles nunca conheceram um olhar mãe, um beijo molhado, um carinho de afeto, uma palavra de ternura, um leito suave, uma roupa nova ou uma comida quente!

A brutalidade é grande demais para caber, inteira, na alma de um jovem. Wellington carrega muito mais anos de sofrimento do que sua tenra idade pode suportar. Sofrimento que se transfigura em agressão e, como um dique que se rompe, devasta tudo o que vê pela frente. Violência exacerbada à máxima potência, que atinge simultaneamente as vítimas, seus familiares, a sociedade e o próprio assassino. É aqui que a palavra emudece! Como emudeceu diante do holocausto da Segunda Guerra Mundial, por exemplo. As letras e palavras se tornam estreitas, acanhadas, impotentes. Incapazes de conter os sentimentos que varrem o coração de cada um de nós.(...)

04/04/2011

algumas variações de cultura


extraído de suave coisa

A cultura da couve, que exige um trato delicado e água perto
para dar folhas tenras. A cultura
do milho, que se disfarça às vezes em mulheres viçosas.
As socas de capim que constituem tamanha
sabedoria natural sobre os morros. A cultura da morte,
que não dá sossego, ou mesmo a cultura do sono
a descoberta arregalada dos olhos pensativos no céu.

A cultura curiosa da satisfação em te ver
após o banho. A sanha cultural dos sanhaços
bicando um mamão maduro no pé. A poeirenta
Kultur que se agasalha com tosse pesquisando venenos
na obra do poeta imaturo que abriu os braços no abismo
e mergulhou gargalhando para os pósteros.

O caldo espesso das culturas nanicas
que proliferam pela madrugada em esquinas
onde mosquitos invisíveis telegrafam na luz.
Os ombros bambos da cultura na cama
com essa impressão de cicatriz das suas unhas nas costas
raspando escamas ou camadas de conotação babilônica.
A cultura do êxtase. O encadeamento despojado
dos objetos sem função quando alguém
não se procura, não ensaia, não tece elogios, não discute.

A cara calma da pessoa calada que desaparece de cena
para observar seus iguais com paciência de boi.
Aquela pressa dos pacotes que estão vendendo cultura
e a falta que uma escova de dentes, no outro extremo,
faz na boca do povo.

(Leonardo Fróes, argumentos invisíveis)