06/02/2012

o mca de vitória...

...e os urgentes dilemas da luta popular planetária

Aqui em Vitória, nesta semana do Dia Nacional de Luta, que ocorrerá em 09 de fevereiro, prosseguem as atividades do Movimento Contra o Aumento. Várias atividades estão programadas para a semana.

Na verdade, neste ano tem havido novamente tentativas de uma ampliação do Movimento Contra o aumento, ou seja, um maior envolvimento e articulação de outras entidades do movimento popular - associações de moradores, sindicatos, professoes etc - já que até então as mobilizações têm ficado restritas aos estudantes universitários e secundaristas.

Mas as articulações para esse maior envolvimento não têm avançado, tal como ocorreu no ano passado. No dia 18 de janeiro, houve uma primeira reunião, bastante animada e com participação de muitas entidades, e depois disso não se teve avanços.

Tudo indica que tem havido resistências por parte dos estudantes mais combativos e de suas representações; talvez temam que uma coordenação ampliada e plural possa desvirtuar os rumos do movimento ou fazê-lo perder a sua natureza horizontal, autônoma e descentralizada. Afinal, sabem que em qualquer entidade, em qualquer movimento popular, a maioria de seus membros, ou pelo menos a maioria de suas lideranças, está, de um jeito ou de outro, ligada a algum partido, ou projeto partidário.

É preciso reconhecer que essa preocupação tem razão de ser. Afinal, no mundo inteiro (com os movimentos Ocupa nos EUA e no Brasil, com os Indignados na Europa, com as revolats dos povos árabes) está sendo gestada e praticada uma nova forma de militância política - mais espontânea e transparente, mais criativa e aguerrida, e que resgata um elemento fundamental: a democracia direta, sem hierarquias, burocracias e militâncias passivas.
************************
Na realidade, essa é uma discussão que já vem desde o ano passado: até onde haverá real eficácia - em termos de transformação das estrututras politicas e econômicas - nessas diferentes e aguerridas formas de mobilização? Elas trazem realmente a semente das lutas do futuro, ou seja as lutas populares terão que aderir a essas novas formas, sob pena de se tornarem obsoletas, inócuas?

Ou os vibrantes movimentos que explodiram em 2011 são apenas um momento enriquecido da história dessas mesmas lutas populares e, nesse caso, têm que ter a humildade e a lucidez de dialogar com outras formas de luta, mais organizadas, disciplinadas e objetivas (dialogar no sentido de aprender e também de ensinar, ou seja, fazer com que as formas tradicionais de resitência avancem, superem seus vícios e oportunismos)?

E é preciso lembrar que aqueles que de fato fazem as mobilizações pelo transporte público em Vitória, e talvez em várias cidades do país, trazem consigo essa postura libertária, que ao mesmo tempo inova e resgata.

Por outro lado, as lutas populares estão retornando a um momento de maior combatividade, maior organização e, principalmente, maior integração, na tentativa de construção de uma pauta e de uma agenda comuns. Algumas ações integradas: o Fórum Social Mundial, A Rede Alerta contra o Deserto Verde, aqui do ES, o próprio Dia Nacional de Luta Cntra o Aumento Tarifário, as mobilizações dos Atingidos por Barragens, dos ativistas do Fórum de Mídia Livre, as ações programadas para ocorrer em junho de 2012, durante a Rio + 20.

E esse rico e urgente momento pede que todas as formas de luta reflitam um pouco mais nas suas limitações e nos seus vícios, nos seus nas contradições e nos seus oportunismos. Afinal, a barbárie se instala, a cada dia mais ameaçadora, entre nós, como resultado direto das contradições em que o capitalismo se enreda atualemnte - a cada solavanco, a cada sintoma de sua  crise estrutural, o capital procura saídas cegas e irracionais que vão afetando, sufocando, massacrando, pessoas, relações, vidas, projetos, e o próprio planeta.

É urgente  o amadurecimento e a integração de esquerdas, movimentos, resistências.
Com a palavra, a história.

************************
A propósito, no artigo Lições de Janeiro, no qual Tarso Genro propõe rumos para o Fórum Social Mundial,  há algumas palavras bastante oportunas a respeito dessa necessidade de una luta comum:

"Nenhuma das grandes demandas sociais, ecológicas, culturais-nacionais, étnico-nacionais, econômicas e financeiras dos “movimentos” e dos partidos de esquerda, poderão ser cumpridas, com certa abrangência e qualidade, se o império do capital financeiro insaciável, sobre os estados, não for derrogado pela política. A revolução nacional-democrática dos anos 60 deve ser substituída pela revolução internacional democrática, global, para libertar os estados do jugo do capital financeiro: eis um dos temas que o Fórum Social Mundial poderia tratar, sem exigir que as forças que o compõem percam a sua natureza e especificidade."

"O grande problema do Fórum é a possibilidade, primeiro: do isolamento dos movimentos sociais, em relação ao curso das lutas políticas reais, que se travam no interior da estrutura estatal, no âmbito dos poderes - Executivo, Legislativo e Judiciário -; e segundo: o isolamento dos partidos concretos, realmente existentes, em relação aos movimentos sociais. Eles estão nos sindicatos e nas instituições de representação da sociedade civil e também estão nos próprios movimentos, carentes de agenda política universal. Esta transição, dos movimentos para o coração do Estado, através da política, é o verdadeiro desafio revolucionário do nosso tempo e o Fórum Social Mundial deve uma contribuição para a solução deste enigma, sob pena dele esgotar-se numa estética de protesto sem causa política dotada de universalidade."

agora é no brasil inteiro

Dia NACIONAL de luta contra o aumento tarifário!


Neste ano, Teresina foi a primeira a cidade a chamar  atenção, em escala nacional, para manifestações populares contra as tarifas de ônibus abusivas, contra a má qualidade do transporte público  e contra a falta de transparência nas concessões desse mportante serviço para a iniciativa privada.

Logo em seguida foi a vez de Vitória do Espírio Santo, que já tinha dado aguerrida demonstração de enfrentamento em junho de 2011(esclarecendo que essas não foram as primeiras cidades a realizar  as mobilizações neste ano,  como se pode ver aqui).

E, agora, dando sequência a este efervescente início de 2012 (efervescente não apenas em relação à luta pelo transporte público), o movimento se articulou em nível de Brasil, como o objetivo de construir o Dia NACIONAL de luta contra o aumento tarifário!.

Ao que tudo indica, essa proposta de uma mobilização unificada não surgiu de nenhuma entidade ou nenhum movimento específico; foi, mais uma vez, uma articulação efetivada  e divulgada através das redes sociais presentes na internet, Facebook principalmente.

Vale registrar uma iniciativa interessante, e que não ficou somente em mobilizações promovidas pela rede virtual: na cidade de Guarulhos (Grande São Paulo) o movimento pelo transporte público realizou, já no ano passado, um plebiscito popular sobre a questão, que com certeza deve ter envolvido diversas entidades dos movimentos sociais e populares, além de grande parte da população, é claro. Sem dúvida, uma excelente tática para que o movimento não seja visto como iniciativa apenas de estudantes.

Mais informaçõessobre o plebiscito, contato pelo facebook com Thiago Santos, de Guarulhos.

mab convoca para dia de luta

Mais um momento da luta popular, neste 2012 que já começou vibrante.

14 de Março: Dia internacional de luta contra as barragens,
pelos rios, pela água e pela vida
O Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB) convoca todas as entidades, organizações, pastorais, redes, ativistas e movimentos sociais a inserirem-se e nos ajudarem a realizar as mobilizações que marcarão o Dia Internacional de Lutas Contra as Barragens, pelos rios, pela água e pela vida, na jornada do 14 de Março.
(email enviado por Rede Alerta contra o Deserto Verde)

Leia mais aqui: dia-internacional-luta-contra-barragens-pelos-rios-pela-gua-e-pela-vida

05/02/2012

noturno de belo horizonte

O chope não me traz o desejado esquecimento
Os insetos morrem de encontro à lâmpada
Ou se açoitam no sofrimento destas rosas secas.
Vem do Montanhês este ar de farra oculta,
Bem mineira, e um trombone, atravessando
A pensão "Wankie", próxima à Empresa Funerária,
Acorda os mortos desolados na Rua Varginha.
Uma lua muito calma desce do Rola-Moça
E se deita, magoada, sobre os jardins da Praça,
O telhado do Mercado Novo, o bairro da Lagoinha.

Tísicos bóiam que nem defuntos na solidão
Dos Guaicurus. O próprio noturno de Belo Horizonte
Tem lá suas virtudes: nas pensões mais imorais
Há sempre um Cristo manso falando à Samaritana.
As mulheres do Norte de Minas, uma de Guanhães,
Duas de Grão-Mogol e três da cidade do Serro
Mandam ao ar esta canção intolerável
Que aborrece até mesmo o poeta Evágrio.
Pobre Evágrio, perdido na estação de Austin.
Triste e duro como uma garrafa sobre a mesa.

Entanto nada indica haja tiros, facadas, brigas
De amantes na Rua São Paulo, calma e sem epístolas.
O Arrudas desce tranqüilo, grosso e pesado,
Carregando cervejas, fetos guardados, rótulos de
Farmácia, águas tristes refletindo estrelas.
Tudo, ao depois, continuará irremediavelmente
Como no princípio. Somente, ao longe,
Na solidão de um poste, num fim de rua,
O vento agita o capote do guarda.

dantas mota - carvalhos, minas gerais
"planície dos mortos" (1945)

04/02/2012

entre mergulhos

Entre mergulhos
uma pedra rasa salta três vezes
na água.
E assim se divide
assim se parte
o rio. A infância
dum lado. Do outro
a terra firme
onde isto se passou.
pedro meixa - portugal

03/02/2012

uma semana de cerco à Rede Bobo:

um novo marco na luta popular?

O primeiro protesto contra a Rede Globo aconteceu no dia 20 de janeiro, em São Paulo - veja aqui.
O segundo protesto - este mais marcante e emblemático - completa uma semana amanhã. Trata-se da greve de fome, em frente à sede da emissora de televisão, levada a cabo pelo cineasta Pedro Rios Leão, o mesmo que documentou a barbárie de Pinheirinhos.

Independente dos desdobramentos desses duas primeiras ações de enfrentamento contra o símbolo da manipulação e da alienação no país,  fica a gratificante constatação de que a resistência popular começa a mirar alvos mais mais amplos, começa a transformar, em atos concretos de enfrentamento,  aquilo que sempre foi sabido, mas que nunca pode ser colocado em prática: que os sustentáculos dos mecanismos de dominação, que devem ser enfrentados, desmascarados e superados, não são apenas os parlamentos, as forças repressivas, o aparelho judiciário,  mas  também, e talvez principalmente, o aparato de comunicação ligado a esses mecanismos de dominação.    

Nesse sentido, essa solitária e oportuna Greve de Fome de Pedro Rios talvez venha a se tornar um marco da luta popular no Brasil,  demarcando o momento em que a resistência popular ousou mirar horizontes mais amplos e  radicais.
Radicais, no sentido de ir de fato à raiz dos problemas do povo, quando se constata que todas as outras instâncias foram esgotadas, no sentido de pura e simplesmente ir para as ruas, para mostrar aos comandantes dos mecanismos de dominação que, finalmente, é chegado o momento de os povos do planeta inteiro terem a sua real parcela de poder e de responsabilidade nos rumos de sua história, da história da humanidade e da história do planeta.

Segue o vídeo com a entrevista de Pedro, algemado em frente à sede da Rede Globo. E, em seguida, uma ótima reportagem e transcrição de trechos da referida entrevista,  feita por Ana Tavares para quem tem medo da democracia?

Pinheirinho, Pedro e a Globo
por Ana Helena Tavares
Quarta-feira, 1º de Fevereiro de 2012, o cineasta Pedro Rios Leão, que esteve em Pinheirinho (São José dos Campos – SP) documentando tudo, está em seu 4º dia algemado e em greve de fome em frente à Rede Globo. Ele protesta contra a omissão da mídia que acobertou a barbárie. O site “Quem tem medo da democracia?” foi lá conversar com ele (vídeo acima).

Pedro tem tido sempre a companhia de diversos outros jovens. Tem sido muito bem tratado pelos pedestres, comerciantes e já até recebeu visitas cordiais de alguns funcionários da Globo. Contou também que um Tenente esteve lá, dizendo-se a mando do governador do RJ, e deu pra ele um número de celular para que ele o ligasse caso alguém o tentasse tirar de lá.

Formação marxista e “apartidarismo”
Com formação marxista, segundo ele “rígida”, porém “muito mais acadêmica do que ativista”, Pedro nunca militou em nenhum partido político. Vestido com a camisa 10 de Zico, comemorativa pelo título mundial do Flamengo, em 81, ele disse ter feito esta escolha “na tentativa de mostrar apartidarismo”.

Apenas participou do movimento “Ocupa Rio”, de vertente apartidária, que ele define como tendo sido “um protesto contra o capitalismo e a enganação que é a democracia representativa, um sistema baseado em abuso de poder econômico, tráfico de influência e força bruta”.

Considera que “estamos passando por um período de graves rupturas econômicas, entre elas a concentração de renda que se tornou absurda, com a exploração inegável e massiva do mercado privado, onde o assédio moral é implícito. No mundo inteiro a política de mercado livre falhou e criou monstros capazes de engolir governos. Em 1916, o Thomas Jefferson falou que ‘os bancos são mais perigosos que todos os exércitos ativos do mundo’”.



A sociedade não pode se fazer de “tadinha”
Segundo ele, há uma “quadrilha que controla o país há muito tempo, formada por banqueiros, empresários, congressistas…” E não adianta só reclamar, porque garante: “O Congresso liberal é feito para ser um balcão de negócios. Se são essas as pessoas que legislam, evidentemente as leis vão proteger os negócios corporativos.”

E vai mais fundo: “Há uma postura muito ruim da sociedade civil de acusar a polícia, o congresso e o governo de corrupção, como se a sociedade fosse cândida e passiva. Tadinha! Eu acho que está na hora de as pessoas relacionarem o sistema corrupto que elas sustentam com a preguiça e omissão delas de exercerem os seus direitos políticos. Não existem forças legalistas ou malvadas dentro do governo ou de um partido. Dentro de qualquer estrutura, seja partidária ou sindical, existem pessoas que aplicam a lei e outras que empregam práticas capitalistas”

A luta não é jurídica, é política
Pedro exemplifica: “O Daniel Dantas já teve pedido de prisão decretado algumas vezes, mas alguns juízes insistem em mantê-lo livre, baseados no absurdo descontrole que existe sobre o poder judiciário no Brasil. Então, as pessoas tem que se conscientizar de que não existe um sistema em funcionamento, existe uma guerra encarniçada, política, dentro do aparelho de Estado, que só vai se resolver para o nosso lado a partir do momento em que a sociedade civil intervir”.

A revolução da tecnologia de informação
“Hoje, a gente pode se comunicar, se expressar, mostrar as coisas. A pulverização da mídia beneficia e agrada o consumidor. As pessoas estão largando a televisão, um quadrado que fala sozinho, para se envolverem em debates”. E ele vê isso tudo positivamente: “Gera benefícios gigantescos na sociedade”.

O Caso Pinheirinho
Para Pedro Rios Leão, que presenciou o drama vivido em Pinheirinho, nem o governo nem a justiça nem a polícia vão aplicar a lei. Assegura que a única “força política” capaz de fazer isso é a sociedade civil. E explica porque resolveu ir até lá: “Quando eu estava aqui no Rio de Janeiro e já acompanhava a disputa política entre o Naji Nahas e seus braços no poder judiciário de São Paulo e o governo paulista contra o governo federal, eu já estava muito preocupado. Eu fui para lá na segunda-feira (23/01, dia seguinte à desocupação), mas antes eu vi o pacto federativo sendo rompido, soube que a Polícia Federal tinha sido expulsa a tiros e o Paulo Maldos (secretário nacional de articulação social da presidência da República) havia sido baleado.”
Se Marechal Lott fosse vivo…
“Se a gente tivesse um único general legalista neste país, se Marechal Henrique Teixeira Lott fosse vivo, isso não teria acontecido. Porque o que aconteceu é muito mais grave que uma questão da esquerda. Eu acho que um militante do Jair Bolsonaro consegue entender que a Polícia Militar não pode atirar na Polícia Federal. Por mais de direita ou conservador que você seja, você fica irritado quando mostram que estão te fazendo de otário, que mentem descaradamente na sua cara”.

As mortes e a ocultação de corpos
Pedro acredita que as provas de sequestro e ocultação de cadáver são “inencontráveis”, mas sustenta que há mortos. E vai mais longe: ”Qualquer um que pise em São José dos Campos, sabe disso”.

02/02/2012

mais fascismo: já é o ovo da serpente no brasil...

... e bem debaixo das 'barbas' da companheirada do PT?

Em mensagem divulgada pela Rede Alerta contra o Deserto Verde, e publicada ao final desta postagem, segue mais uma denúncia de desocupação brutal por parte das forças de repressão.

Dessa vez feita pela Polícia Federal, a mesma que prendeu, sem amndado judicial,  um professor universitário da UNIR - Universidade Federal de Rondônia, que participava de uma manifestação da categoria. Veja o vídeo abaixo:


Definitivamente, está se tornando preocupante essa rotina de brutalidade e truculência com que estão sendo tratadas as mobilizações e ações de resistência de movimentos e pessoas que tentam lutar por seus direitos e por seus princípios.
Essa espécie tolerância zero para com aquilo que não se enquadra, para com aqueles que ousam levanatr a cabeça, pode ser um perigoso passo em direção ao fascismo institucionalizado.
É realmente preocupante: afinal ao longo do 2011, e nesse breve início de 2012, foram tantas as ações repressivas despropositadas ou mesmo ilegais: em Jirau, em Vitória, na USP (duas vezes, contando o como caso doe studante negro), em Rondônia, em Pinheirinhos, no Centro de São Paulo e, agora  na Bahia - somente para citar  as que vêm de memória.

O mais preocupante é que não se pode imputar essa brutalidade e truculência apenas aos governos de partidos conservadores. Este terceiro mandato do PT porecisa estar mais atento a essas situações, para que não corra o risco de ficar na história como o Partido que - apesar de todo um histórico democrático-popular antes de chegar ao governo, e apesar de vários avanços progressistas, mesmo que não no grau desejado - permitiu que se chocasse o "ovo da serpente" do fascismo no Brasil.

Abaixo a mensagem divulgada  pela Rede Alerta. A ação da Polícia Federal em Olivença (próximo a Ilhéus) se deu nesta manhã de quarta-feira.
 ***************************
Mais uma ação violenta no Povo Tupinambá de Olivença
Estamos todos aterrorizados!!!!
Hoje em mais uma ação da Policia Federal de Reintegração de posse no Povo Tupinambá de Olivença houve grande pânico na Aldeia Tucumã na Ba 001, Acuipe de Baixo.
Os Policiais Federais chegaram fortemente armados, aterrorizando os indígenas presentes, ameaçando inclusive prender menores tupinambá.

Foram destruídas 15 casas de alvenaria, 05 casas de madeiras, e muitas Ocas de palha. Hoje são mais de 20 famílias sem terem onde morar. Crianças, anciões e grávidas que não sabem onde irão morar.

Conversei com vários indígenas que afirmam que a polícia usou de violência moral, perguntando inclusive se eles eram realmente indios, Quem são eles para dizer quem é ou não indígena?
Assunto:
URGENTE POLÍCIA FEDERAL INVADE ÁREA INDÍGENA E AGRIDE TUPINAMBÁ

HOJE QUARTA- FEIRA 1º DE FEVEREIRO, ÁS 6:00 HORAS DA MANHÃ A POLÍCIA FEDERAL INVADIU Á COMUNIDADE DO ACUÍPE DE BAIXO HÁ 30 KM DE ILHÉUS ONDE ESTAVAM VÁRIAS FAMÍLIAS EM ÁREA DE RETOMADAS, E COM TODA VIOLÊNCIA DEBAIXO DE CHUVA ENTROU NAS CASAS E TIROU A FORÇA, CRIANÇAS DE ATÉ I ANO E MEIO, ADOLESCENTES, IDOSOS ETC... E COLOCOU NO CAMBURÃO, UM DOS ÍNDIOS POR NOME DE CRISPIM E OUTRO POR NOME DE NAILTON FORAM ALGEMADOS POR QUE COMEÇARAM A TOCAR O MARAKÁ E CANTAR MÚSICAS DE RITUAL "PORANCIM" E AMEAÇARAM A PRENDER DUAS LIDERANÇAS QUE AINDA ESTÃO DENTRO ESCONDIDOS, O PROBLEMA É QUE ELES TAMBÉM JÁ DERRUBARAM ALGUMAS CASAS E LOGO VAI PRENDER MAIS PESSOAS QUE ESTÃO AINDA ESCONDIDAS.

SEGUNDO O UM DOCUMENTA QUESE A PRÓPRIA POLÍCIA TEM RELATOU QUE ESSA AÇÃO VAI SE ESTENDER A TODAS AS RETOMADAS DO LITORAL, TABA JAYRY, TUPÃ, ITAPOÃ E SYRYÍBA.

NESSE EXATO MOMENTO ALGUMAS PESSOAS ESTÃO ALOJADOS NA ESCOLA E OUTRAS ESTÃO DETIDAS DENTRO DE UMA DAS CASAS. ATÉ AGORA NENHUMA INSTITUIÇÃO CHEGOU PARA ACOMPANHAR E APOIAR, A FUNAI, CIMI, APOINME.....O ESTADO É GRAVE E A POLÍCIA SE FAZ PRESENTE COM A INTENÇÃO DE PRENDER MAIS PESSOAS E USA E ABUSA DA AUTORIDADE

ATENCIOSAMENTE

NÁDIA AKAUÃ - LIDERANÇA TUPINAMBÁ

retratos da barbárie 2: peluzo e a justiça popular, a grávida algemada e o povo do egito

Cezar Peluso, presidente do STF, alerta que um país que denigre o seu Poder Judiciário é um país suicida, um país que corre o risco de voltar aos tempos da barbárie. A fala do jurista  aconteceu ontem,  na abertura do ano Judiciário, e é uma clara referência à sessão que julga as ações impetradas, pelas entidades dos juízes, contra o poder de investigação do CNJ em relação a esses juízes.

Parece um típico caso de ideologia, ou de má-fé, tal como Sartre entendia esse conceito. Pois, há uma clara inversão da realidade, a favorecer aquele que se sente atacado, ou que sente atacada a sua 'nobre' categoria profissional, em prejuízo da verdade dos fatos.  
Ora, a barbárie ja aí está há muito. E uma barbárie para cuja consolidação e manutenção as práticas autoritárias, arrogantes e obscuras do Poder Judiciário muito contribuem - sem falar, é claro, das leis que estão a serviço da engrenagem de poder, sem falar da 'Justiça' que, no estado capitalista, é um dos aparatos de dominação, etc etc. 

Ora, quando se pede um mínimo de controle social, através do CNJ,  para cima desse Poder arrogante, autoritário e obscuro - para que esse Poder possa colaborar mínima e concretamente na redução dos danos da barbárie, que aí já está - vem o o seu mandatário maior e faz essa chantagem patética com a sociedade civil. Mal imagina esse jurista que, no novo mundo que os povos buscam construir,  a tal da Justiça será rigorosa e democraticamente  acompanhada e adminsitrada, através do controle popular.

Ainda veremos um tempo em que presidentes de tribunais, desembargadores, procuradores, juízes etc, serão escolhidos pelo poder popular, e não terão, necessariamente, que ter diplomas de Direito e afins.
Afinal, as leis e todo o arcabouço jurídico serão outros, também serão fruto da construção popular e, como tal, qualquer um, em princípio, poderá ser escolhido ou aprovado pelas instâncias populares para  exercer a  tarefa de ajudar a julgar, conciliar, decidir - ajudar , já que tais tarefas certamente não ficarão ao arbitrário critério de uma só pessoa. A propósito dessa Justiça Popular, ou comunal, ela vem sendo implantada pelo povo boliviano nos governos de Evo Morales.

Enquanto isso, é preciso tolerar essas constrangedoras sandices do presidente do STF, frutos da ideologia, no sentido de Marx, e da má-fé, no sentido de Sartre. Resumidamente: a má-fé reflete os engenhosos mecanismos pelos quais a consciência do indivíduo permite que ele se veja tal como ele precisa se ver, para justificar para si e para os outros suas escolhas no mundo, independente do valor moral dessa escolhas. Percebe-se a estreita afinidade que tem com o conceito de ideologia, pelo qual classe e indívíduos justificam para si e para os outros as suas posturas políticas e morais na sociedade, no cotidiano e na história. 

Já a propósito da barbárie que aí já está, dois entre tantos e tantos exemplos: a parturiente algemada no hospital (veja aqui) e o  espantoso confronto entre torcedores de futebol no Egito (veja aqui).
Num, as forças repressivas do Estado cumprm a sua tarefa de vigiar e punir a qualquer custo e de qualquer forma aqueles que são o produto atual das práticas de dominação ao longo da história - escravidão, corrupção, JUSTIÇA INEFICAZ, autoritarismo,  apropriação do trabalho coletivo pelos cretinos, medíocres e vazios representantes 'elitistas' das classe dominantes, etc etc.

Noutro, o resultado trágico de uma explosão do povo do Egito, certamente provocada  pela opressão dessas mesmas classes dominantes e seus cretinos, medíocres e vazios representantes 'elitistas' etc, etc. Opressão cujos mecanismos militares, políticos, ideológicos e JURÍDICOS ainda não foram eleiminados na milenar terra do povo egípico, em que pesem as fantásticas  e gratificantes mobilizações de seu povo ao longo de 2011.

Mas, certamente, para o togado  Sr Peluso, esses retratos da bárbarie não são, em nenhum momento, resultado das ações e omissões do seu Poder Judicário, que, na sua visão,  se encontra tão seriamente 'ameaçado' pela 'barbárie' do controle popular. 


Veja também

01/02/2012

amanhã, ato público contra o fascismo

Ato no Pinheirinho abrirá agenda de lutas após o FST 2012
Assembleia dos Movimentos Sociais, que reuniu 1,5 mil pessoas na Usina do Gasômetro, sábado, em Porto Alegre, aprovou realização de um ato público no terreno desocupado do Pinheirinho, em São José dos Campos (SP), no dia 2 de fevereiro às 9 horas. "Vamos fazer um grande ato na próxima quinta-feira (2) em repúdio a esse governo fascista de Geraldo Alckmin, que não respeita a democracia nem os movimentos sociais”, disse Rosane Bertotti, representante da CUT e coordenadora da assembleia. Leia mais em
e em
http://www.jb.com.br/pais/noticias/2012/01/31/mst-participa-de-ato-publico-em-defesa-dos-moradores-do-pinheirinho/

**********************************

o exército popular e a luz do mundo

Abaixo, uma surpreendente imagem, no momento em que os ocupantes do bairro Pinheirinhos (São José dos Campos, SP) se preparam para resistir a uma eventual desocupação, a ser feita com a brutalidade de sempre por parte das forças de repressão.  

Moradores do Pinheirinho, em São José dos Campos (SP), preparados para resistir a reintegração de posse na última sexta-feira (13) (Nilton Cardin/Folhapress)

Isso é que se pode chamar de um verdadeiro exército popular de libertação: a precariedade
 e a fragilidade insistindo, resistindo, sustentando a tarefa que todos nós temos, ou  deveríamos ter, de construir neste planeta uma morada digna, e ao mesmo tempo
fazer desta vida uma  exercício de plenitude, generosidade  e lucidez; lucidez vem
de  luz e "vois sois a luz do  mundo",  já lembrava o  poeta-andarilho da Galiléia
que, há milênios, já semeava a revolução transcendente no mundo. 
*********************************
Embora tenha acompanhado atentamente a barbárie que foi a desocupação do Pinheirinho, por motivo de viagem não pude postar textos e imagens.
Na verdade, tinha preparado o texto e a imagem acima antes de viajar, para publicar em momento oportuno, em momento de celebração da vitória por parte dos moradores do Pinheirinho.

Não imaginava que a luta do Pinheirinho tivesse esse desfecho trágico e fascista, afinal a Justiça Federal dava respaldo a uma solução negociada, ou minimamente solidária.

Mas, ainda assim, e talvez em razão mesmo desse fascismo declarado, creio que vale a sua publicação. Fica ainda mais forte como símbolo de luta, resistência e perseverança. Lembrando que a imagem foi divulgada mais ou menos uma semana antes da barbárie do Pinheirinho, e o meu breve comentário escrito no dia 19.01.2012.

*********************************
Numa demonstração de lucidez, de indignação e de resistência ao fascismo, foram publicados à exaustão textos, manifestos e análises acerca dos episódios de Pinheirinhos e da expulsão dos moradores de rua do Centro de São Paulo. Entre tantas e gratificantes apresentações, separei dois interessantes textos (que inclusive têm afinidades nos seus títulos, lamentavelmente realistas)  que desnudam os reais motivos, tanto da desocupação do Centro de São Paulo, quanto da barbárie de Pinheirinhos:



31/01/2012

anatel x oi: convocação avaaz

Caros amigos
É inacreditável! A Oi Telecom está ameaçando o futuro da Internet no Brasil ao tentar anular as novas regras de qualidade de Internet que conquistamos no ano passado. Entretanto, a ANATEL se posicionou no meio do caminho dos planos da Oi e abriu o pedido para receber comentários da sociedade civil acerca desse novo ataque aos direitos da Internet. Clique abaixo para enviar uma mensagem para a ANATEL para eles continuarem firmes e fortes contra o ataque da Oi, e em seguida encaminhe esse email para todos:

É inacreditável! Nossa Internet está em risco no Brasil. No ano passado, vencemos uma grande batalha quando a ANATEL aprovou os novos padrões de qualidade da Internet que nos garantem um serviço de Internet confiável e rápido. No entanto, a Oi Telecom, um dos maiores provedores de Internet do Brasil, está prestes a esvaziar esses novos padrões e nos mandar de volta para os dias em que o serviço de Internet era lento ou simplesmente não existia, a menos que façamos algo antes do dia 1º de fevereiro para impedí-los.

A Oi quer maximizar os seus lucros e nos privar de uma Internet decente, mas podemos impedi-los. A ANATEL abriu o pedido da Oi ao público, o que nos dá a chance de manter as novas regras e mostrar a ANATEL que eles têm um enorme apoio do público.

Nós, brasileiros, já dissemos um grande "sim" para os padrões de qualidade anteriormente, mas precisamos fazer isso mais uma vez para proteger nossa vitória. Temos uma semana para inundar a ANATEL com milhares de mensagens pedindo ao conselho de diretores que se posicionem contra a atitude da Oi e protejam o serviço de Internet de qualidade para todos os brasileiros. Envie uma mensagem para a ANATEL agora:


Por muitos anos não havia padrões mínimos de qualidade no Brasil. Quando a ANATEL realizou a votação sobre o assunto, enviamos mais de 60.000 mensagens e conquistamos o direito dos padrões de qualidade para todos nós brasileiros! Agora, a indústria das telecoms está contra-atacando e quer cancelar as novas regras. A Oi diz que é impossível atingir esses novos padrões, mas especialistas no assunto já provaram o contrário. Não há motivo para nos afastarmos desses padrões outra vez!

A ANATEL precisa de nossa ajuda. Eles abriram o pedido da Oi, pois sabem que nós queremos que eles mantenham essa posição firme, mas eles precisam receber uma avalanche de mensagens para justificar sua posição contra a atitude da Oi.


Nossos direitos enquanto usuários de Internet estão em constante perigo, mas juntos podemos superar até as maiores ameaças. No ano passado, nosso poder popular impediu um ataque sobre os ditos "crimes digitais" no Congresso, abrindo caminho para um novo e impressionante Marco Civil da Internet. E, na semana passada, o mundo se uniu para impedir leis de censura da Internet nos EUA. Agora vamos nos unir mais uma vez e criar um clamor nacional para melhorar a qualidade de nosso acesso à rede e promover Internet para todos.

Com esperança e determinação
Equipe Avaaz



29/01/2012

vozes de minas: amaranto

Aos desavisados pode até parecer que das Minas Gerais só tem saído cantores como Victor e Leo, Paula Fernandes.... Nada contra o trabalho desses artistas, mesmo porque é preciso reconhecer que, tanto a dupla de Abre Campo quanto a cantora de Sete Lagoas, têm belas vozes. Só que deveriam ser melhor aproveitadas, com um repertório mais apropriado para uma terra da qual brotaram cantores e bandas como Milton Nascimento, João Bosco, Paulinho Pedra Azul, Beto Guedes, Zé Geraldo,  Lô Borges, 14 bis, O terço, Skank, Patu Fu, Ana Carolina, Chico Lobo e tantos outros.

Mas, enquanto ao menos a bela Paula não ousa voôs mais audaciosos e repertórios mais criativos e condizentes com sua origem, sua voz e sua presença de palco - libertando-se dessa engrenagem que transforma a música e o canto em performances repetitivas e  descartáveis - que outras vozes e presenças advindas das altivas e silenciosas montanhas de Minas sejam acolhidas, embora, claro, sem o mesmo e lucrativo estradalhaço, tal como o grupo Amaranto: 

apresentação do grupo no programa Senhor Brasil, em 29.12.2011

Abaixo, algumas imagens do Amaranto, durante o show Reciclagem, junto com a grupo Cálix - setembro de 2011, no Palácio das Artes, BH



24/01/2012

de chumbo eram somente dez soldados

de chumbo eram somente dez soldados
plantados entre a Pérsia e o sono fundo
e com certeza o espaço dessa mesa
era maior que o diâmetro do mundo

aconchego de montanhas matutinas
com degraus desenhados pelo vento
mas na lisa planície da alegria
corre o rio feroz do esquecimento

meninos e manhãs, densas lembranças
que o tempo contamina até o osso
fazendo da memória um balde cego
vazando no negrume de um poço

pouco a pouco vão sendo derrubados
as manhãs, os meninos e os soldados

antônio carlos secchin
todos os ventos, ed. nova fronteira, 2002

20/01/2012

a globo na mira do povo

Há quem pense que não se deveria sequer mencionar o BBB da Globo nas redes sociais, blogs e sites alternativos  e progressistas. Seria uma forma de evitar sua publicidade e sua legitimação, já que as críticas e recusas seriam insuficientes e inofensivas perante o poder da rede Globo, ou seja, não levariam a nada.
Essa espécie de bloqueio pode até ter sua razão de ser e sua eficácia. Mas ocorre que, neste ano, as coisas estão tomado um rumo diferente. Cada vez mais pessoas se indignam, se entediam e manifestam puro e simples desprezo para como 'programa ' da Rede Bobo. Parece que  a melhor tática  não é a de ignaorar, parece que a hora é de atacar, de fazer da Globo alvo de movimentos, sejam presenciais sejam virtuais.

E isto por dois motivos: 1) o caso mal explicado do estupro dentro 'programa' mostrando que os 'produtores' do 'programa'  vão ultrapassar cada vez mais os limites do respeito e da ética e 2) a discussão, que se arrasta há algum tempo, acerca de um projeto de lei que defina novas regras para a mídia em geral. Essas duas situações estão ajudando a alimentar a luta para despertar o povo contra os abusos, distorções e manipulações  da Rede Bobo, das demais emissoras de televisão, dos grandes jornais e revistas.  O protesto de hoje em São Paulo é um bom começo desta luta. Veja abaixo:

Protesto contra a Globo no caso BBB 
Sexta, dia 20, das 12h às 14h, em frente a Globo São Paulo 
Av. Dr. Chucri Zaidan, esquina da Av. Roberto Marinho

A Frentex – Frente Paulista pelo Direito à Comunicação e Liberdade de Expressão, o FNDC – Fórum Nacional pela Democratização na Comunicação e a Rede Mulher e Mídia convidam todos para este ato pela:
1) Responsabilização da Globo por:
• Ocultação de um fato que pode constituir crime;
• Prejudicar a integridade da vítima e enviar para o país uma mensagem de permissividade diante de uma suspeita de estupro de vulnerável;
• Atrapalhar as investigações de um suposto crime;
• Ocultar da vítima as informações sobre os fatos que teriam se passado com ela quando estava apagada.

2) Os anunciantes do BBB – como OMO, Niely, Devassa, Guaraná Antarctica e FIAT – devem ser entendidos como co-responsáveis, e a sociedade deve cobrar que retirem seus anúncios do programa ou boicotá-los.

3) O Ministério das Comunicações deve colocar em discussão imediatamente propostas para um novo marco regulatório das comunicações, com mecanismos que contemplem órgãos reguladores democráticos capazes de atuar sobre essas e outras questões.
Leia aqui a nota do Fórum Nacional pela Democratização da Comunicação (FNDC) responsabilizando a Globo pelo ocorrido durante o BBB (transcrito do blog vi o mundo)

Leia também Pedro Bial no paredão.

17/01/2012

protestos em vitória: desdobramentos

Dois novos acontecimentos  acerca das manifestações do Movimento Contra o Aumento em Vitória. Um é a nota conjunta (publicada abaixo) da CJP e do CEDH, respectivamente, Comissão de Justiça e Paz , da Arquidiocese de Vitória,  e Conselho Estadual de Direitos Humanos. O outro é uma reunião ampliada do movimento, que vem sendo articulada por Maurício Abdalla, professor de Filosofia da UFES, e que acontecerá amanhã (veja aqui).  

Essa reunião tem como um de seus principais objetivos atrair mais pessoas e entidades, numa tentativa de desconstruir a falsa noção de que o movimento é uma iniciativa exclusiva e fechada do movimento estudantil. 
É fundamental que essa ampliação ocorra, pois, de fato,  o MCA não tem conseguido levar muitas pessoas para as ruas, além dos aguerridos estudantes, e nem tem conseguido mobilizar outras entidades para a discussão do transporte urbano - eu, particularmente, até me senti inibido em participar das mobilizações deste ano, pois no ano passado eu me senti como um estranho no ninho; para dizer a verdade acho que, na manifestação da UFES e em algumas assembléias,  de cabelos grisalhos somente havia eu e um sindicalista da categoria dos portuários.
*******************
Na verdade, houve, em 2011, uma iniciativa semelhante, de agregar mais entidades e propostas ao movimento. Chegou-se à conclusão de que o movimento não deveria enfatizar excessivamente a questão do aumento das tarifas e do passe livre, mas tentar mostrar à população e às entidades  a importância de se  construir uma discussão democrática e transparente, acerca da complexa questão da mobilidade urbana, com tudo o que ela envolve: acesso aos lucros dos empresários, para se poder definir uma tarifa realista; maior número de ônibus, mas com melhoria na qualidade do transporte, de forma que aumente também o número de usuários e diminua o número de veículos pequenos, para que o mero aumento dos ônibus  não inviabilize ainda mais o trânsito na região metropolitana; criação de um Conselho de Transporte Urbano relamente democrático e representativo dos usuários, entre outras propostas apresentadas. 

Apesar dessa ampliação do movimento não se ter consolidado ainda em 2011, é de se crer que a inciativa deste ano vá caminhar neste sentido. 
*******************
Mas o fundamental, o grande desafio,  será o de encontar realmente formas de dialogar com a população, de envolver as pessoas, de convencê-las de que está em jogo é muito mais que um mero aumento de  quinze centavos nas passagens, e muito mais que a punição a um ato isolado, tal como foi a queima do ônibus na semana passada (veja aqui).

O desafio será o de trazer as entidades, dos setores ainda combativos dos movimentos sociais, para a construção dessa consciência coletiva. E essa difícil construção e esse desafio estarão vencidos quando, um dia, os usuários dos ônibus (senão todos, ao menos uma grande parte deles) ao invés de reclamarem das mobilizações, por se sentirem prejudicadas no seu direito de ir e vir, desçam dos ônibus e se juntem, mesmo que temporariamente, às manifestações e reivindicações. 
*******************

Aliás, talvez uma das formas de envolver e mobilizar entidades e usários, fosse exatamente construir uma proposta ao mesmo tempo mais radical e mais efetiva, mais prática, qual seja, a de reivindicar pura e simplesmente a estatização, a estadualização, a municiplização, ou seja lá o que for, do transporte público na Grande Vitória.
Ou seja, apresentar à população um projeto de lei com planilhas, números, cálculos, etc, que convençam o público de que é viavel politicamente, e economicamente vantajoso para a população, fazer com que o poder público assuma a prestação do serviço de transporte público.

E é uma proposta também estimulante para os movimentos sociais, já que se acenaria com a possibilidade de controle democrático  e popular de uma eventual estatização do serviço, com a fiscalização (de valores, orçamentos, planilhas, qualidade do serviço, desvios de conduta etc) sendo praticada pelas entidades, via Conselho de Transporte Público, ou outra instância a ser criada.
*******************
Com relação à receptividade  - por parte  das entidades e do movimentos sociais - de uma convocação para se ampliar a luta popular em torno da transporte público, a Nota Pública da CJP/CEDH é um sinal de que essa mobilização ampliada na verdade, está endo aguardada pelo movimento social efetivamente combativo.
Registre-se que a CJP esteve presente (na pessoa de seu presidente e do editor deste blog)  na iniciativa - ocorrida em 2011 e mencionada acima - de se ampliar essa discussão  e mobilização. Registre-se, também, que depois de sua reativação há alguns anos, a CJP vem assumindo uma postura cada vez mais engajada e combativa - e cada vez mais benvinda - com a serenidade e a lucidez próprias de uma pastoral ligada à ala progressista e transformadora da igreja católica. 

protestos em vitória: nota pública CJP/CEDH

Nota Pública

O Conselho Estadual dos Direitos Humanos (CEDH) e a Comissão Justiça e Paz (CJP) da Arquidiocese de Vitória vêm por meio desta manifestar-se sobre os acontecimentos relacionados ao movimento contra o aumento da passagem urbana ocorrido na Região Metropolitana de Vitória:

- Condenamos a recusa de diálogo por ambos os lados e repudiamos qualquer forma de violência, e também o uso da força desproporcional da polícia para a repressão de manifestações sociais;

- Exigimos a apuração rigorosa da queima de ônibus para identificação e responsabilização dos verdadeiros autores, pois assim evitamos a criminalização generalizada dos movimentos sociais;

- Apelamos aos manifestantes para que não interditem totalmente as vias públicas, garantindo o direito de ir e vir da população;

- Propomos que os coordenadores do movimento dos últimos acontecimentos avaliem a metodologia e a organização das ações, com o objetivo de evitar possíveis constrangimentos.

Sabemos que, historicamente, essa pauta remonta ao ano de 2005 quando o movimento estudantil foi às ruas manifestar-se contra o aumento concedido pelo governo em vigor na época. Trata-se de uma reivindicação legítima e histórica que vem assumindo contornos e ações que tem provocado na sociedade uma série de reflexões e posicionamentos.

Sugerimos dois encaminhamentos: que o debate seja ampliado e aprofundado pela convocação da Conferência Estadual de Mobilidade Urbana; e que seja firmado um protocolo de intenções entre o Governo Estadual e os Movimentos Sociais que orientem as ações de ambos em relação às manifestações públicas.

Gilmar Ferreira de Oliveira
Presidente do Conselho Estadual dos Direitos Humanos

Luiz Antônio Dagiós
Presidente da Comissão Justiça e Paz da Arquidiocese de Vitória

Vitória, 16 de janeiro de 2012

15/01/2012

o pirulito da praça sete

Duas belas e radiantes imagens da tradicional Praça Sete, de Belo Horizonte. Na verdade, não é bem uma praça, no sentido convencional. É mais um monumento, construído bem na intercessão das não menos tradicionais avenidas Amazonas e Afonso Pena. O monumento acabou ganhando dos belorizontinos o nome de Pirulito da Praça Sete, e se tornou, tanto quanto as avenidas mencionadas, um dos muitos símbolos queridos da capital dos mineiros.
Nas fotos acima, de Flávio Souza Cruz, a simplicidade do obelisco é realçada pela quietude da hora e, ao mesmo tempo, essa discreta imponência é enriquecida pela magia das luzes que circundam a praça e e pelo colorido efeito provocado provavelmente por faróis.
transcritas do blog epifania 

13/01/2012

sobre protestos, polícias e políticos

Abaixo, trecho de um texto do jornalista Laerte Braga:
"Protestos estudantis contra o aumento das tarifas de transportes coletivos urbanos em Vitória no Espírito Santo e Teresina, no Piauí, são reprimidos com a costumeira “gentileza” das polícias militares. Aberrações em qualquer democracia que se pretenda como tal, instrumentos de defesa das elites e forças corruptas, o que se vê, diariamente, até na mídia de mercado. Borduna, gás de pimenta, gás lacrimogênio, o de sempre. O governador do Piauí nem sei quem é, nem é necessário saber seu nome para saber que é como a maioria. Coronel político posto em cargo público a serviço de bancos, grandes corporações e latifúndio. O do Espírito Santo, ao contrário, chamam de Renato Casagrande. É governador nominal. Paulo Hartung governa de fato. Casagrande leva tranqüilo o troféu banana do ano até então em mãos de Eduardo Azeredo, ex-governador de Minas.

Não apita nem sobre seu almoço. Pelo contrário, atende a apitos de Hartung. Como não usa “tigre”, vive fazendo flexões. O Espírito Santo, por suas características, inclusive dimensões territoriais, resta sendo a síntese explícita das máfias políticas que atuam no Brasil. Executivo, Legislativo e Judiciário.

Um desses “meganhas”, transformado em estudante (deve ter sido um esforço sobre humano), nas velhas táticas das ditaduras, colocou fogo num ônibus em Vitória e transformou estudantes em baderneiros. Casagrande se refugiou na despensa enquanto Hartung comandava a operação. Comeu latas de salsichas enquanto aguardava as ordens para voltar a ser objeto de decoração visível ao público."

O texto em sua íntegra pode ser lido aqui

12/01/2012

pedra

Entrar dentro de uma pedra
Seria esse o meu caminho.
Deixar outrem tornar-se pombo
Ou rilhar com dentes de tigre.
Sou feliz por ser uma pedra.

Por fora, a pedra é um enigma:
Ninguém sabe como o desvendar.
Dentro, porém, deve ser fresca e silenciosa
Mesmo que uma vaca a calque com todo o seu volume,
Mesmo que uma criança a atire para um rio;
A pedra afunda-se, lenta, imperturbavelmente
Até ao fundo do leito
Onde os peixes vêm bater na pedra
E escutar.

Eu vi as faíscas voando
Quando duas pedras são friccionadas,
Talvez então não seja escuro, apesar de tudo, lá dentro;
Talvez exista uma lua brilhando
Desde algures, como se por trás de uma colina –
Apenas a luz suficiente para distinguir
Os estranhos escritos, as cartas astrais
Nas paredes de dentro.

charles simic - iugoslávia

sobre ruas e academias

"E a maioria dos "intelectuais" de nossa universidade hoje, que poderia ser voz ativa de denúncia e apoio aos movimentos, está preocupada com seu próprio umbigo, porque luta social não pode ser citada no Lattes e nem rende trocados."

Maurício Abdalla, professor da Filosofia na UFES, falando acerca da criminalização dos movimentos sociais, em geral,  e do Movimento Contra o Aumento, em particular,  no seu  facebook: http://www.facebook.com/mauricio.abdalla.
Leva a pensar num tempo, não tõ distante, em que artistas, acdêmicos e intelectuais se ocupavam de algo mais do fazer e viver a arte, posar em jornais e palestras ou  sair à caça de conhecimentos e títulos de suposta sapiência.

Sobre as ações de amanhã, do Movimento Contra o Aumento, acompanhe em : https://www.facebook.com/events/272458766149529/

11/01/2012

e vitória parou de novo...

momento em que os estudantes fogem da ação do BME. ao tentarem  se refugiar nas
imediaçãoes do Palácio Anchieta,  foram impedidos por policiais,
 postados nas escadarias que conduzem ao Palácio.  
logo depois houve  a queima do ônibus, cuja autoria é negada pelos
manifestantes.
Leia mais sobre o protesto aqui:
 http://www.seculodiario.com/exibir_not.asp?id=37302


Atualização
Ainda sobre o incêndio do ônibus, há no facebook o vídeo e o comentário abaixos:



imagens do ônibus que foi incendiado no meio do #protestovix de hoje. Ao que tudo indica, ele foi provocado por uma pessoa aleatória não identificada como parte do protesto. Há suspeitas de que o sujeito seja um policial infiltrado, também conhecido como P2. BIZARRO (http://www.facebook.com/kaue.scarim)


rufam os tambores de guerra - 2

Para quem ainda acha que as as suspeitas de terrorismo, por parte dos EUA e de Israel contra o povo iraniano, são  apenas paranóia ou antiamericanismo inconsequente, acompanhe com atenção a série de mortes, por acidentes pou atentados, de vários cientistas iranianos:


*queda de avião norte-americano não tripulado no Irã, semana passada, reforça indícios de que a guerra dos EUA e aliados contra o país já começou**outros sinais listados pelo jornal El Pais: explosão de unidade da guarda iraniana em novembro, causando a morte do general Moqaddam, principal impulsionador do programa nuclear iraniano** explosão de planta de conversão de urânio na semana passada, em Isfahán**assassinado do físico nuclear Dariouh Rezaie, em julho** assassinado do cientista Majid Shariari e atentado contra o físico Fereydoon Abbasi, em dezembro de 2010** Carta Maior, 08/12/2011

09/01/2012

vitória vai parar de novo?

Marcada para depois de amanhã, quarta-feira, uma manifestação contra o aumento das passagens de ônibus. A concentração ocorrerá em Vitória, em frente ao Palácio Anchieta, das 06:00 às 09:00 h da manhã.
A mobilizaçãpo ocorre exatos 06 meses após as históricas manifestaçãoes de junho do ano passado, quando, após violenta repressão policial (inclusive com invasão do território da UFES)  milhares de estudantes, professores e trabalhadores saíram as ruas de Vitória nos dias que se seguiram. Sobre as manifestações do ano passado veja mais aqui, aqui e em outros textos de junho de 2011, na Seção Arquivos.

Com relação à mobilização deste início de 2012, leia matéria do Século Diário: http://seculodiario.com.br/exibir_not.asp?id=37152

E acompanhe em tempo real pelo Facebook: http://www.facebook.com/events/355422837817006/

pedro bial no paredão

Parece que amanhã é o dia de começar mais um Big Brother Brasil.
Mesmo que você se recuse terminantemente a perder tempo com a presunçosa e grotesca  baboseira do BBB, da Rede Globo, não há como fugir, ou melhor, como deixar de tomar conhecimento de sua existência. De um jeito ou de outro, as pesosas vão comentar, no trabalho, nas ruas, no ônibus, em encontros sociais quaisquer. Seja para criticar, para se indignar, seja apenas para trocar sérias 'opiniões' sobre a 'performance' dos participantes.
Quanto a estes, não vale a pena cricificá-los. Apenas produtos de um mecanismo massacrante, que elimina, com uma eficiência cada vez mais assustadora, qualquer possibilidade de as pessooas se voltarem para algo mais profundo, na construção de uma identidade e de uma plenitude próprias; ao invés disso, algema-as num cotidiano competitivo, assustado e sufocante, ao mesmo tempo em que as seduz para uma grotesca e anestesiada existência de plástico.
Portanto, mais apropriado dirigir algumas palavras aos seus mentores, na pessoa do supostamente carismático apresentador do 'programa'. As palavras são duras, mas, no mínimo, necessárias. Mereciam ser espalhadas pela internet. Talvez até chegassem aos seus destinatários. Não que isso fosse mudar alguma coisa. Afinal, as pessoas que estão à frente do 'espetáculo' sabem muito bem o que estão fazendo. Ganham muito dinheiro com as tais ligações dos entusiasmados telespectadores - parece que há uma estimulante comissão para o apresentador e outros membros da equipe. Parece também que o citado apresentador é dono de uma firma que gerencia o marketing do programa.

Então, as palavras abaixo não irão mudar em nada os seus projetos e valores, afinal, para eles há valore$ muito mais importantes em jogo, no jogo.  De qualquer forma, a Carta abaixo ao menos serve para explicitar uma certa resistência e mostrar que nem todos são embasbacados telespectadores do tal 'programa'. Que nem todos seguem como deslumbrados e apáticos cordeiros para o matadouro, ou melhor, para o paredão construído pelos mecanismos e dominação. Para mostrar que muitos ainda acreditam, e trabalham, para mandar o programa, a sua equipe e o mecanismo de dominação para o paredão da história.        

*******************   

CARTA PARA O PEDRO BIAL
Sr. Pedro Bial:
Imagino que minhas palavras jamais chegarão ao seu conhecimento. Mas pouco importa. Escrevo por indignação e não por reconhecimento. Escrevo por ter minha humanidade subestimada pela mediocridade, pela falta total de valores e princípios. Escrevo por entender o quanto sua presença na tela da TV é irrelevante e inoportuna.

O senhor não imagina ou não faz idéia do quanto ridícula é sua figura tentando convencer a audiência, da importância que o BBB representa para a vida de todos nós. Na verdade é mais um formato (reality show) que foi comprado e colocado goela abaixo em nosso povo. E o pior: o senhor é quem dá o último toque.

É claro que o senhor nada mais é do que um empregado da emissora, fazendo o que lhe é mandado. Mas isto não lhe exime, tamanho o seu requinte ante às câmeras. O senhor é deprimente. Repugnante.

Fico pensando em seus anos gastos em escolas, universidades, para depois tornar-se um bufão. Tem gente que lhe considera um poeta. E eu pergunto: Como? Quem disse? Quem se animaria a ser poeta, onde não há poesia? Que poeta é este que mata a flor e nos condena à mesmice? Creio que bufão lhe cabe melhor.

Sr. Pedro Bial, o senhor conduz um programa que em nada difere das rinhas de galos, cachorros, entre outras espalhadas pelos fundões deste país. O senhor conduz algo mais sórdido: rinha de gente. È empobrecedor, senhor Bial, para que no final o ganhador saia com uma soma em dinheiro. E diga-se de passagem, não se compara ao montante arrecadado em patrocínios e ligações telefônicas durante três meses de duração do programa.

O senhor não contribui em nada com a sua gente. O senhor entorpece mentes e mente entorpecendo a realidade.Por fim, gostaria ainda de dizer-lhe, que acredito na mudança deste país, acredito em novos valores, acredito que o mundo possa mudar, que possamos almejar algo bem melhor que corpos sarados no horário nobre. O senhor não estará lá, com certeza.

Como o senhor gosta muito de mandar gente para o “paredão”, entendo esta palavra e o ato em si como algo determinante e decisivo. Eu gostaria de mandá-lo para o “paredão”, no dia do triunfo final, no dia em que o povo ganhar as praças e as ruas, tomar os palácios e assumir as fábricas, ocupar a terra e produzir o pão. Com certeza, Sr. Pedro Bial, o senhor fará parte da primeira leva, a que irá sumariamente para o “paredão”. Para que assim tenhamos um mundo melhor.

Pedro Munhoz, http://www.pedromunhoz.mus.br/mural.html#txt003


CASO CONCORDE COM A CARTA E O COMENTÁRIO ACIMA DIVULGUE EM EMAILS, BLOGS, REDES SOCIAIS

PODE PARECER POUCO, MAS É ESTA A GUERRILHA QUE TEMOS, É ESTA A  GUERRILHA QUE PODERÁ AJUDAR A DERROTAR A ENGRENAGEM

08/01/2012

o cavalo

teus poros exalam o fumo
do lar dos deuses de onde vieste.
rompante de espuma e de lume
és sol quadrúpede ou mar equestre?

desfilando derramas o ouro
do teu rio inacabável,
desmedido relâmpago louro
de um deus equídeo possante e frágil.

tudo existiu para que fosses
no contraluz desta madrugada
mitológica proporção perfeita
em purpúrea bruma recortada.

pois que te é divino mister
humanos olhos extasiar
a dúvida é só perceber
se vieste do sol ou do mar.

natália correia - portugal
(Poesia Completa,
Inéditos 1985/90, Lisboa: Publicações Dom Quixote, 1999)

democracia de circo

Jader Barbalho e o filho, Daniel (Sergio Lima/Folhapress)
momento da posse do senador Jader Barbalho, depois de liberado pelo STF,
que entendeu que a Lei da Ficha Limpa não valeu para a
última eleição. foto: folha online

Possivelmente, a expresão de divertido deboche do garoto (filho ou neto de Jader Barbalho) seja apenas uma brincadeira própria da infância, com  a sua típica e saudável trangressão de regras e protocolos. Mas a verdade é que fica uma impressão de atitude bem adulta: como se tudo fosse uma abusada, arrogante e premeditada ação de desagravo em favor do senador Barbalho, acusado de tantos e tantos 'malfeitos', para dizer o mínimo (veja aqui).

Bem, se houve ou não maldade e maturidade precoce por parte do garoto, o fato é que a imagem reflete bem o estágio de obsolescência, hipocrisia  e ineficiência ao qual chegou a  a tal de democracia representativa  e burguesa.  

05/01/2012

a esquerda mundial após 2011

por Immanuel Wallerstein
publicado originalmente em português no site Outras Palavras.

Por qualquer ângulo, 2011 foi um bom ano para a esquerda mundial – seja qual for a abrangência da definição de cada um sobre ela. A razão fundamental foi a condição econômica negativa, que atinge a maior parte do mundo. O desemprego, que era alto, cresceu ainda mais. A maioria dos governos enfrentou grandes dívidas e receita reduzida. A resposta deles foi tentar impor medidas de austeridade contra suas populações, ao mesmo tempo em que tentavam proteger os bancos.

O resultado disso foi uma revolta global daquilo que o movimento Occuppy Wall Street chama de “os 99%”. Os alvos eram a excessiva polarização da riqueza, os governos corruptos e a natureza essencialmente antidemocrática desses governos – tenham eles sistemas multipartidários ou não.

O Occuppy Wall Street, a Primavera Árabe e os Indignados não alcançaram tudo o que esperavam. Mas conseguiram alterar o discurso mundial, levando-o para longe dos mantras ideológicos do neoliberalismo – para temas como desigualdade, injustiça e descolonização. Pela primeira vez pessoas comuns passaram a discutir a natureza do sistema no qual vivem. Já não o veem como natural ou inevitável…
A questão para a esquerda mundial, agora, é como avançar e converter o sucesso do discurso inicial em transformação política. O problema pode ser exposto de maneira muito simples. Ainda que exista, em termos econômicos, um abismo claro e crescente entre um grupo muito pequeno (o 1%) e outro muito grande (os 99%), a divisão política não segue o mesmo padrão. Em todo o mundo, as forças de centro-direita ainda comandam aproximadamente metade da população mundial, ou pelo menos daqueles que são politicamente ativos de alguma forma.

Portanto, para transformar o mundo, a esquerda mundial precisará de um grau de unidade política que ainda não tem. Há profundos desacordos tanto sobre a objetivos de longo prazo quanto sobre táticas a curto prazo. Não é que esses problemas não estejam sendo debatidos. Ao contrário, são discutidos acaloradamente, e pouco progresso tem sido feito para superar essas divisões.

Essas discordâncias são antigas. Isso não as torna fáceis de resolver. Existem duas grandes divisões. A primeira é em relação a eleições. Não existem duas, mas três posições a respeito. Existe um grupo que suspeita profundamente de eleições, argumentando que participar delas não é apenas politicamente ineficaz, mas reforça a legitimidade do sistema mundial existente.
Os outros acham que é crucial participar de processos eleitorais. Mas esse grupo está dividido em dois. Por um lado, existem aqueles que afirmam ser pragmáticos. Eles querem trabalhar de dentro – dentro dos maiores partidos de centro-esquerda quando existe um sistema multipartidário funcional, ou dentro do partido único quando a alternância parlamentar não é permitida.

E existem, é claro, os que condenam essa política de escolher o mal menor. Eles insistem que não existe diferença significativa entre os principais partidos e são a favor de votar em algum que esteja “genuinamente” na esquerda.
Todos estamos familiarizados com esse debate e já ouvimos os argumentos várias vezes. No entanto, está claro, pelo menos para mim, que, se não houver algum acordo entre esses três grupos em relação às táticas eleitorais, a esquerda mundial não tem muita chance de prevalecer a curto ou a longo prazo.

Acredito que exista uma forma de reconciliação. Ela consiste em fazer uma distinção entre as táticas de curto prazo e as estratégias a longo prazo. Concordo totalmente com aqueles que argumentam que obter poder estatal é irrelevante para as transformações de longo prazo do sistema mundial – e possivelmente as prejudica. Como uma estratégia de transformação, foi tentada diversas vezes e falhou.
Isso não significa que participar nas eleições seja uma perda de tempo. É preciso considerar que uma grande parte dos 99% está sofrendo no curto prazo. Esse sofrimento é sua preocupação principal. Tentam sobreviver e ajudar suas famílias e amigos a sobreviver. Se pensarmos nos governos não como agente potencial de transformação social, mas como estruturas que podem afetar o sofrimento a curto prazo, por meio de decisões políticas imediatas, então a esquerda mundial se verá obrigada a fazer o que puder para conquistar medidas capazes de minimizar a dor.
Agir para minimizar a dor exige participação eleitoral. E o debate entre os que propõem o menor mal e os que propõem apoiar partidos genuinamente de esquerda? Isso torna-se uma decisão de tática local, que varia enormemente de acordo com vários fatores: o tamanho do país, estrutura política formal, demografia, posição geopolítica, história política. Não há uma resposta padrão. E a resposta para 2012 também não irá necessariamente servir para 2014 ou 2016. Não é, pelo menos para mim, um debate de princípios. Diz respeito, muito mais, à situação tática de cada país.
O segundo debate fundamental presente na esquerda é entre o desenvolvimentismo e o que pode ser chamado de prioridade na mudança da civilização. Podemos observar esse debate em muitas partes do mundo. Ele está presente na América Latina, nos debates fervorosos entre os governos de esquerda e os movimentos indígenas – por exemplo na Bolívia, no Equador, na Venezuela. Também pode ser acompanhado na América do Norte e na Europa, nos debates entre ambientalistas/verdes e os sindicatos, que priorizam manutenção dos empregos já existentes e a expansão da oferta de emprego.

De um lado, a opção desenvolvimentista, apoiada por governos de esquerda ou por sindicatos, sustenta que, sem crescimento econômico, não é possível enfrentar as desigualdades econômicas do mundo de hoje – tanto as que existem dentro de cada país quanto as internacionais. Esse grupo acusa o oponente de apoiar, pelo menos objetivamente e talvez subjetivamente, os interesses das forças de direita.

Os que apoiam a opção antidesenvolvimentista dizem que o foco em crescimento econômico está errado em dois aspectos. É uma política que leva adiante as piores características do sistema capitalista. E é uma política que causa danos irreparáveis – sociais e ambientais.

Essa divisão parece ainda mais apaixonada, se é que é possível, do que a divergência sobre a participação eleitoral. A única forma de resolver isso é com compromissos, diferentes em cada caso. Para fazer com que isso seja possível, cada grupo precisa acreditar na boa fé e nas credenciais de esquerda do outro. Isso não será fácil.
Essas diferenças poderão ser superadas nos próximos cinco ou dez anos? Não tenho certeza. Mas se não forem, não acredito que a esquerda mundial possa ganhar, nos próximos 20 ou 40 anos, a batalha fundamental. Nela definir-se-á que tipo de sistema sucederá o capitalismo, quando este sistema entrar definitivamente em colapso.