26/04/2011

degraus

Não desças os degraus do sonho
Para não despertar os monstros.
Não subas aos sótãos - onde
Os deuses, por trás das suas máscaras
Ocultam o próprio enigma.
Não desças, não subas, fica.
O mistério está é na tua vida!
E é um sonho louco este nosso mundo...

mário quintana

dala: excertos

Dando seqüência ao mergulho na contrita e transcendente atmosfera da Sexta-Feira da Crucificação (veja vídeo abaixo), selecionei um trecho de minha novela Dala, que publicarei em breve em meio eletrônico.

Dala personifica nada mais nada menos do que a Terra, o planeta.  U. é a sede de Absoluto, de Espírito, do transcendente no cotidiano, e é a radical recusa desse cotidiano, exatamente por não perceber nele o espaço do divino. Tão embriagado dessa sede e dessa recusa, tão desgastado pelo vaivém de sua tarefa de poeta num mundo excessivamente prosaico, que o seu processo de ruptura torna-se-lhe insuportável, culminando em visões mágicas na noite de seu aniversário, através das quais ele é alçado até a órbita terrestre, e lá envolto pela magia de Dala, personagem através do qual dou feições humanas ao nosso próprio planeta.
 
O trecho em questão é a parte final do capítulo em que o jovem U. narra a trajetória de sua existência a Dala, até a noite em que logrou encontrar-se face  a face com ela.

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Dala - final do capítulo V
 
Dala:
(reinstalando a seriedade no âmbito da navigagem)
"então, imune à trajetória terrena, te vi numa tentativa de retorno ao transcendente, às rarefeitas e incompletadas raízes: houve o retornar reticente e tardio aos cânticos e templos. a matriz de Santa Rita de Cássia, repleta de penumbras proibidas, ainda afastadas de ti. a procissão nas manhãs da Crucificação, o roxo lutuar das flores exigindo silêncio. tu de longe, no espaço a ti reservado.’’

U.:
(ainda com a cabeça recostada no peito de Dala, numa voz recatada, olhando para baixo)
"sim, dala amiga, recordo  tais vivências com dolorosa nitidez. nas manhãs:

 procissão. silêncio. contritos todos.
a manhã é um culto secreto, místico
estamos possessos pela melodia, aturdidos

e à tarde e à noite as sete palavras varavam a cidade, ecoavam pela casa. tornavam tudo bíblico, pareciam circundar a cidade com muralhas invisíveis e arcanjos terríveis. um santo sepulcro, transcendental. até que um dia os senhores padres houveram por bem alternar as comemorações da Santa Semana: um ano numa paróquia, o seguinte na outra. mudou-se também o itinerário das procissões. eu habitava longe da outra igreja e das ruas por onde a revivescente passou a passar, ano sim ano não. eu não era bom peregrino, perdi um pouco do ritmo

fomos para o jardim da casa
rezava-se à cidade. articulamos
negras vozes que se dissiparam

a horas altas, olhos nebulosos
plantar lírios azuis, impossíveis

migrar para o alto e além, purificar-se da impressão de pecado que nos invade, nos oprime, por percebermos quão longe o humano está de exercer o seu testemunho, a sua tarefa de sentinela e companheiro do Real, ou de Deus, se preferires. essa mistura de singeleza e magnetismo das alturas que nos advém quando da Santa Semana lavava-me, deixava-me apenas triste, pequeno, amamentava-me numa melancolia modesta, uma espécie de nostalgia e recatada solidariedade para com o Crucificado, que me dispensava da condição de pecador por fazer parte de uma tão incompreensível raça.
enfim, a celebração religiosa, feita ao mesmo tempo de recatos e tremores, parecia fazer com o mundo terreno perdesse sua face medonha, medrosa, religando-se a um outro mundo, não celestial, perfeito, mas apenas distante, diferente, impassível, feito de lírios azuis e impossíveis, modesto e melancólico em sua incapacidade para tornar verdadeiramente azul e etéreo o mundo terreno, concreto, vivente.

enfim, viajava, vivia, celebrava solitário em minha ambígua condição de ateu saudosista. mas o que deveria durar até o domingo de Páscoa (o renascimento, a vida nova) acabava já na manhã de sábado de Aleluia, o mundo e a vida apareciam-me novamente como terrenos, sensuais, triviais. acho que, para mim, o calendário humano deveria ser uma constante sexta-feira da Paixão, um eterno ano de recolhimento, silente respeito e contrição, até que de fato pudéssemos todos enxergar um palmo adiante do nariz, vermos a nossa condição de testemunhas e amparo do Real

senti que caíamos: tudo e todos
houve uma alegria... e uma manga
caiu no quintal. no jardim da casa

em tudo estava ela...
em tudo!

o que digo é que, depois da sexta-feira da Compaixão, da solidariedade lutuosa dos humanos para com o Real e sua testemunha Crucificada, havia sempre a queda, o retorno da lucidez e da desdenhosa resignação para com os justificáveis frutos terrenos dos homens. até que num domingo à noite, embriagado e faminto numa missa, retirei-me definitivamente do culto, cabisbaixo, definitivamente descrente da possibilidade de um mundo azul e etéreo, desdenhosamente prisioneiro de um mundo terreno. devo ter me tornado qualquer coisa como um adulto, feito de sentimentos sérios e confiáveis

ensejei viver por hábito.
amei por necessidade

e assim foi a jornada, em meio a teus filhos,  desta

criatura nula
sem razão, método, ciência
cura

foi só, passaram-se anos
atravessei as terras
ergui o substituto
assim vivi. mas não me bastando
as fontes secaram-se

e por detrás desse espantalho, a quem deleguei a função de substituir-me, estava sempre à espreita Uoutro, dilacerado e entediado, raivoso e desdenhoso, crente e errante, mas sempre escondido, sem se achar com direito à cidadania, impondo a si próprio uma clandestinidade como única forma de não sangrar mais, de não se arrebentar de vez. até que nesta noite imensa, ofegante, não suportei mais, ousei e consegui vir aqui, até ti

por entre fendas e musgos
te entrevi - misto de estrela
seda pedra vento

Dala, errante do plenilúnio
girando girando a dança
dança
cadente e ligeira...
na trança do infinito...
sarabanda

são estas as notícias que te traz teu mais recente acompanhante, confuso... fala-me agora, de ti...”

22/04/2011

vídeo: inflamatus

( oitavo movimento do stabat mater,  de Rossini)



O Stabat Mater Dolorosa é  a peça de música sacra apropriada para  ver e ouvir na Sexta-Feira da Crucificação, durante a Semana Santa dos católicos.

Stabat Mater ("Estava a mãe") corresponde às duas primeiras palavras do Hino Mariano, o qual descreve a angústia de Maria durante a Crucificação do Cristo. 
De acordo com Otto Maria Carpeaux, os cinco grandes exemplos dessa composição musical, para esse magnífico texto, foram compostos por Vivaldi, Pergolesi, Haydn, Verdi e Rossini.

Quanto ao texto propriamente dito, existem dois tipos de Stabat Mater, o Dolorosa e o Speciosa, sendo usado liturgicamente o primeiro.

O Speciosa rememora Maria junto à manjedoura, no nascimento do filho; o Dolorosa retrata o sofrimento de Maria, já presencindo a dor do filho na cruz. O Speciosa contém 13 stanza (duplas) de 6 linhas; o dolorosa, 10. O Dolorosa é o executado no mundo da Música Sacra.

A seguir, o texto correspondente ao oitavo movimento, mostrado no vídeo acima; segue-se o original em latim. 

Inflamado e elevado pelas chamas
seja defendido por ti, ó Virgem
no dia do juízo final.

Faz com que eu seja custodiado pela cruz
fortalecido pela morte de Cristo
e confortado pela graça.

Inflammatus et accensus
per te, virgo, sim defensus
in die judicii.

Fac me cruce custodiri
morte Christi praemuniri
conforverti gratia.

Noutra ocasião, postarei aqui minhas impressões de uma competente e aconchegante apresentação do Stabat Mater, que tive  a oportunidade acompanhar na Catedral de Vitória, nesta Semana  Santa.
A apresentação ficou a  cargo da Orquestra Filarmônica do Espírto Santo, com regência do maestro Modesto Flávio, acompanhado do coro da Fames - com  a presença da soprano Natércia Lopes - e do coral da CST.

20/04/2011

guerra da líbia e guerras do brasil

O texto abaixo é uma mensagem postada pelo poeta e diretor de teatro Wilson Coelho, na lista do Opiniões Cênicas, grupo de discussão virtual de Vitória, ES.

Vale pelas reflexões despertadas. Afinal, como já foi apontado aqui em março, é muita coincidência que, logo num país ainda hostil aos EUA e a Israel, as manifestações populares tenham evoluído imediata e eficientemente para uma revolta armada.

E todo mundo sabe que EUA e Europa não estão nem aí para questões humanitárias. Portanto, somente ingênuos e doutrinados acreditam que a Guerra da Líbia tem motivos nobres, ou que seria inevitável. Aliás, com respeito a esse último ponto, porque a mídia e os governantes nunca levaram a sério a proposta de uma comissão de negociação, aventada por alguns governantes da América Latina? Provavelmente não seria tão interessante quanto a guerra...

De tudo isso, o que choca e indigna é, como de costume, a frieza com que governantes e povos dos EUAe da Europa permitem que um povo seja assim massacrado e sua nação seja destruída - prestem mais atenção nessas denúncias acerca da utilização de bombas de urânio empobrecido e de bombas de fósforo branco, nessas guerras do terceiro milênio. É coisa de quem já perdeu a alma há muito tempo. Leia mais em resistir

Tudo bem, não é nada diferente daquilo que foi feito no Vietnã, no Afeganistão, no Iraque, na Palestina... Mas isso sempre nos choca e faz renascer nosso ódio e desprezo para com esses pessoas e poderes que, apesar de serem apenas instrumentos da história em sua complexa evolução dialética, ainda assim são responsáveis pela sua liberdade de agir assim ou assado e, portanto, responsáveis por sua próprias existências primitivas, estreitas, raivosas, egocêntricas.

Falar nisso, que povo será o próximo da lista? Talvez um dia o Brasil do cobiçado pré-sal e da cobiçadíssima Amazônia...? Ah, com certeza que, nesse hipotético dia, um bando de cretinos e de fascistóides iria para a mídia e para as ruas aplaudir e reverenciar os estrangeiros 'salvadores' da pátria - afinal, essas pessoas sempre encontram argumentos para os seus malabarismos verbais e morais, advindos de sua miséria existencial, adequadamente mantida no ponto certo pela sociedade de controle.
*************
Aliás, passada a trégua da Batalha de 2010, que foram as últimas eleições, parece que os setores retrógrados, presunçosos e egocêntricos começam a se articular novamente, contra o processo de transformação que está em curso neste país (embora obviamente limitado e sem ousadia).
Com essas suas posturas, esses setores pelo menos demonstram sinceridade e  engajamento político, e ajudam a desconstruir o mito de que não há luta de classes no Brasil, de que esse país seria o território por excelência da cordialidade e da conciliação. Na verdade, até o momento em que o processo de transformação possa ocorrer num ambiente institucional e de democracia formal, é claro que uma oposição a esse processo é benvinda e necessária, para servir de contraponto, de correção a excessos e mesmo de complementação ou alternância de projetos.

Mas, desde que seja de fato uma oposição democrática e não fascistóide, que seja de fato modernizante e não obsoleta, desde que seja de fato acomapanhada de um projeto de país e não apenas de manutenção de poderes e privilégios descabidos e descarados.

Não há ainda essa oposição aos governos do PT. E para construí-la não basta apenas a perspicácia e o comprometimento de dirigentes partidários e de líderes empresariais. É preciso que a chamada classe média e alguns setores populares contrários ao PT exijam, reivindiquem uma oposição assim, ao invés de ficar apenas papagueando no mundo digital e no mundo real posições fascistas, obsoletas e simplórias - articuladas, divulgadas e conduzidas por dirigentes partidários, jornalistas, acadêmicos, militares e empresários que perderam o bonde da história.

Ao texto, então, postado por Wilson Coelho e  publicado abaixo.

o que a mídia NÃO vai mostrar

MESMO QUE KADDAFI SEJA O BIZARRO QUE FOR, A ONU CONSTATOU EM 2007:  

1 - Maior Indice de Desenvolvimento Humano (IDH) da África (até hoje é maior que o do Brasil)
2 - Ensino gratuito até a Universidade
3 - 10% dos alunos universitários estudam na Europa, EUA, tudo pago
4 - Ao casar, o casal recebe até 50.000 US$ para adquirir seus bens
5 - Sistema médico gratuito, rivalizando com os europeus. Equipamentos de última geração, etc...
6 - Empréstimos pelo banco estatal sem juros
7 - Inaugurado em 2007, maior sistema de irrigação do mundo, vem tornando o deserto (95% da Líbia), em fazendas produtoras de alimentos
E assim vai....

PORQUE DETONAR A LÍBIA ENTÃO?

Três  principais motivos:
1 - Tomar seu petróleo de boa qualidade e com volume superior a 45 bilhões de barris em reservas
2 - Fazer com que todo mar Mediterrâneo fique sob controle da OTAN. Só falta agora a Síria
3 - E o maior provàvelmente . O Banco Central Líbio não é atrelado ao sistema mundial Financeiro
Suas reservas são toneladas de ouro, dando respaldo ao valor da moeda, o dinar, e desatrelando das flutuações do dólar.

O sistema financeiro internacional ficou possesso com Kaddafi, após ele propor, e quase conseguir, que os países africanos formassem uma moeda única desligada do dolar (destaque por conta do blog desvelar).

O QUE É O ATAQUE HUMANITÁRIO PARA LIVRAR O POVO LÍBIO:

1 - A OTAN, comandada pelos EUA, já bombardeou as principais cidades Líbias com milhares de bombas e mísseis que são capazes de destruir um quarteirão inteiro. Os prédios e infra estrutura de água, esgoto, gás e luz estão sèriamente danificados
2 - As bombas usadas contem DU (Uranio depletado) tempo de vida 3 bilhões de ano - causa cancer e deformações genéticas (destaque por conta do blog desvelar).
3 - Metade das crianças líbias estão traumatizadas psicológicamente por causa das explosões que parecem um terremoto e racham as casas
4 - Com o bloqueio marítimo e aéreo da OTAN, principalmente as crianças, sofrem com a falta de remédios e alimentos
5 - A água já não mais é potável em boa parte do país. De novo as crianças são as mais atingidas
6 - Cerca de 150.000 pessoas por dia, estão deixando o país através das fronteiras com a Tunísia e o Egito. Vão para o deserto ao relento, sem água nem comida
7 - Se o bombardeio terminasse hoje, cerca de 4 milhões de pessoas estariam precisando de ajuda humanitária para sobreviver: Água e comida. De uma população de 6,5 milhões de pessoas.

Em suma: O bombardeio "humanitário" acabou com a nação líbia. Nunca mais haverá a nação Líbia. Foram varridos do mapa.
SIMPLES ASSIM.

18/04/2011

violão clássico: minueto de bach

o encontro

como se um raio mordesse
meu corpo pêro rosado
e o namorado viesse
ou em vez do namorado

um novilho atravessasse
meus flancos de seda branca
e o trajecto me deixasse
uma açucena na anca

como se eu apenas fosse
o efeito de um feitiço
um astro me desse um couce
e eu não sofresse com isso

como se eu já existisse
antes do sol e da lua
e se a morte me despisse
eu não me sentisse nua

como se deus cá em baixo
fosse um cigano moreno
como se deus fosse macho
e as minhas coxas de feno

como se alguém dos espaços
me desse o nome de flor
ou me deixasse nos braços
este cordeiro de amor

natália correia - portugal

nosso versos

nosso versos
caem sobre o mundo.
como chuva.

quase todos
se abrigam desses versos
sob chapéus de indiferença.

mas alguns
miram o céu
e os versos
lhes caem nos olhos

reconhece-os rua afora
pois eles trazem
os olhos incendiados

luis gonzález ansorena  -- espanha, extraído de apologia de la luz
tradução: roberto soares

14/04/2011

projetos de futuro

Esta tarde sou rico porque tenho
um céu todo de prata para mim
sou o dono também desta emoção
que é saudade igualmente do passado
e uma doce alegria por tê-lo vivido.

Tudo quanto me deixou me pertence
transformado em tristeza, e o que afinal intuo
que não hei-de alcançar converteu-se
num grato caudal de conformismo.

Meu património aumenta a cada instante
com aquilo que vou perdendo, porque quem vive perde,
e perder significa ter tido.

Não tenho já ambições, mas tenho
um projecto ambicioso como nunca tive:
aprender a viver sem ambição,
em paz por fim comigo e com o mundo.

vicente gallego - espanha
(tradução de albino m. - portugal)

13/04/2011

um verso

estranho mundo o nosso: cada dia
lhe interessa mais os poetas;
a poesia cada vez menos.

josé emilio pacheco - portugal

12/04/2011

vídeo: led zeppelin e as escadas precárias

procurava um vídeo bem representativo do rock dos anos setenta para postar aqui. eis que no diário gauche foi postado um texto e um vídeo de robert plant. achei muito interessante o texto, e o coloquei abaixo, mas preferi postar outro vídeo do led zepellin.
pois achei que a letra de stayway the heaven tem muito a ver com o texto do cristóvão feil: afinal o texto dele fala dessa geração que nasce,  cresce e vive - e morre - iludida, conduzida  por escadarias e paraísos tão precários e patéticos.
na verdade, essa geração não consegue ver muita escolha: ou ela se delicia com esses patéticos paraísos ou então, quando se rebela, ela se entorpece e enlouquece, como esse infeliz rapaz que provocou o absurdo massacre de realengo - veja texto aqui.


e, aqui,  o texto escrito por cristóvão feil, postado originalmente em diário gauche
Dias atrás, estava eu numa fila em algum lugar (tudo tem fila, agora, os filhos do lulismo querem consumir à tripa forra), e ouço o uivo gutural de Roberto Plant, no início do Immigrant Song, com o velho e bom Led Zeppelin. Virei num repente pra ver o sujeito que havia colocado aquele ringtone no telefone. Era um tipo faceiro, com pulôver nas costas e os braços do mesmo amarrados cuidadosamente no peito, onde havia uma corrente dourada. O famoso bundinha mimado por papi e mami. O cara acabou de avacalhar com o velho Plant. Nesta sociedade de hiper-ultra-consumo tudo é digerido, absorvido e regurgitado sem o menor respeito pelo significado de origem.

Fetichizaram Roberto Plant.
O mesmo que fizeram com o Che e tudo o mais.
Coisas da vida.
 
*****************
e, embaixo, não resisiti e aproveitei para também publicar um comentário feito por um usuário acerca do vídeo do led zeppelin, feito por tal medmaax. vale pela sua juvenil e irreverente indignação. 
Você dizem RESTART. Eu digo BLACK SABBATH
Você dizem CINE. Eu digo AC/DC
Você dizem FRESNO. Eu digo A7X
Você dizem PINK Eu digo PINK FLOYD.
Você dizem MILEY CYRUS. Eu digo LED ZEPPELIN.

Você diz  LADY GAGA. eu digo NIRVANA
Você diz  HANNAH MONATNA. Eu digo  QUEEN.
Você diz JONAS BROTHERS. Eu digo AEROSMITH.
Você diz  JUSTIN BIEBER, eu mando vc  se F* e digo GUNS N ROSES
95% dos adolescentes nos dias de hoje só aprenderam a ouvir o pop e outras porcarias.
Se vc é um dos 5% ajude, passe isto!

por medmaax

indagações corrosivas: escolas, pedagogias... e realengo

A mensagem abaixo foi postada inicialmente no Grupo de Discussão do COLEDUC - Coletivo de Eucadores Ambientais de  Vitória, ES, como uma resposta a uma outra mensagem, que convidava os participantes do COLEDUC para se mobilizarem em torno de uma ação política em prol da educação pública. O arquiteto Neison Guimarães respondeu, então, com as palavras abaixo.

por neilson guimarães
prezados...saudações... desculpem-me pela ignorância, mas...
o atual modelo educacional mudará algo no país?
as futilidades impostas aos jovems nas escolas ultrapassadas estão lhes servindo para algo?
resumindo:
os filhos das classes endinheiradas em sua grande maioria se dão bem, porém vejo as proles dos miseráveis sistêmicos continuarem na merda como os vermes, e a educação? para que serve nesse caso?

infelizmente já tenho constatado mendigos que um dia os conheci como operários, e lamentavelmente vejo seus filhos se acabando no craque, a droga do momento...
para que serve a educação para quem não tem dignidade humana, e vive como o escravo contemporâneo para dar bem estar à aristocracia?

agora me digam: qual a diferença de criarem ou não creches domiciliares na superfície do inferno? mudará o que?
parece até aquele papo das vans que fazem transporte público e as grandes empresas de transporte da aristocracia tentando brecar, porque não legalizar os coitados?

sinceramente colegas, quem mudará o atual panorama de exploração humana na superfÍcie do inferno, se até mesmo os próprios polÍticos representantes do povo vivem como sultões, e ainda aumentam o seu salário em 65%, ás custas do sofrimento dos escravos contemporâneos? e os seus próprios filhos estudam em escolas de países de 1º mundo, muito longe da caótica realidade brasileira!

e viva o meio ambiente...e viva as plantinhas e os bichinhos...e viva o capitalismo brutal...
e viva o apocalipse...que venha logo o tsunami!

****************
Apesar de ser um texto breve, e sem maiores pretensões de articulação, achei muito interessante o tom meio que libertário de sua indignação. Parece derrotismo mas é apenas uma crua constatação: até onde de fato a educação - um dos mais importantes aparatos ideológicos do capitalismo - pode de fato promover a libertação,o enfrentamento contra um sistema que oprime a e imbeciliza cada dia com mais eficiência? E até onde o atual sistema de dominação 'permite' que a educação 'liberte' e 'desperte' as pessoas?

Podemos realmente ter esperança na eficácia de uma mudança 'por dentro', gradual, institucional, feita sem rupturas e sem um radical enfrentamento das condições postas pelo atual sistema de dominação e controle? Vai chegar realmente a hora da superação, digamos, benéfica deste sistema? Ou será que teremos uma superação 'maléfica', de fato caminhando para o 'inferno', ou melhor, para um falso paraíso, tão bem representando pelo livro 'Admirável mundo novo", de Huxley - ou seja uma ditadura tecnológica e robotizante, mas consentida e desejada por uma humanidade cad dia mis resignada, assustada e entorpecida?

Não é colocar em dúvida a construção da cidadania, a validade da formação política e social, muito menos de desacreditar na luta popular e social - por mais desarticulada e cooptada que ela pareça estar em nosso país.

Mas o que o breve texto de Neilson lembra é o senso da urgência, do perigo que nos ronda: será que realmente teremos tempo e  condições de fazer um embate vitorioso contra  a agonizante besta do capitalismo, através apenas da luta institucional? Ou seremos convocados para um enfrenatemnto mais direto e mais ousado? E até onde saberemos captar e apreender a chegada dessa convocação, o chamamento da históia?
****************
Numa triste coincidência, estava  a finalizar o texto acima exatamente no dia em que ocorreu o Massacre de Realengo - veja texto aqui. Essa tragédia só vem a reforçar a validade das indagações que faço no meu texto e das afirmação que Neison Guimarães faz no seu.

A besta agonizante não se entregará tão facilmente e, enquanto resiste, teremos muita dor, trsiteza e vidas limitadas, medrosas, conduzidas pela sociedade de controle, e às vezes tragédias declaradas como essa de Realengo.

Ecoando Neilson, creio que a seguinte pergunta é oportuna: o que nossas escolas e nossas pedagogias  podem de fato fazer para evitar tragédais assim? Talvez seja o caso se prestar mais atenção nas escolas e pedagogias do MST.

leia também a besta agonizante
de neilson guimarães já publiquei aqui salamaleicon

massacre de realengo: mais vítimas da besta agonizante

Passada o choque inicial, que se segue a toda tragédia, e passada também a espetacularização e a banalização próprias dos atuais veículos de comunicação,  já se pode refletir com um pouco mais de lucidez sobre o Massacre de Realengo. Embora lucidez seja uma palavra um pouco difícil de se aplicar em acontecimentos como esse Massacre.

De toda forma, os trechos abaixo colocam  a questão num foco menos distorcido, ao invés de se procurar causas e soluções fáceis e moralistas. Pode parecer discurso repetitivo e inócuo, mas não é  focando em indivíduos e situações específicas que se compreende tragédias assim.

Sabemos que é apenas mais um infeliz episódio provocado pela irracionalidade do atual modelo de sociedade, a irracionalidade desta organização de controle e manipulação que não cessa de produzir dor, infelicidade, conflitos e às vezes tragédias explícitas. Tanto Columbine, nos EUA, quanto Realengo são aspectos da mesma realidade. E  sabemos que infelizmente muita dor e muita tragédia ainda hão de ocorrer, até que a humanidade consiga finalmente superar esse estágio em que a besta agonizante do capitalismo ainda consegue ferir e escoicear. 

palavra e silêncio (trechos)
por alfredo gonçalves, publicado originalmente em  província são paulo

O que dizer deste trágico e inesquecível dia 7 de abril carioca? O que dizer frente ao massacre de 12 crianças e adolescentes em plena sala de aula? O que dizer, na noite seguinte, diante dos muros revestidos de flores e velas da Escola Municipal de Realengo, zona oeste do Rio de Janeiro? O que dizer de uma violência tão nua e crua, tão fria e meticulosamente calculada?

As palavras emudecem. Emudece a escola Tasso de Oliveira, com suas paredes banhadas de sangue inocente. Igualmente mudos ficam a Cidade Maravilhosa, o Brasil e o Mundo. Mudos e atordoados, estupefatos, quedamos todos nós! Palavras como perplexidade, terror, barbárie ficam aquém dos fatos brutais… Infinitamente aquém! Parece que só o silêncio respeitoso e reverente é capaz de dizer algo. No sangrento espetáculo de vidas tão precocemente ceifadas, as palavras parecem sobrar ou faltar. Serão sempre de mais ou de menos.

Entretanto, não basta o silêncio! Ainda que as palavras sejam de menos, é preciso arriscar algumas, sob pena de cumplicidade ou omissão. Mas, de forma insistente, volta a pergunta: o que dizer?

(...)O que dizer às famílias enlutadas, obrigadas a sepultar seus entes queridos no vigor de sua primavera? Expressões de conforto? Abraços de carinho? Mensagens de confiança? Presença de holofotes, câmeras e microfones? Notícias sensacionalistas? Espaço para desabafos na mídia? Mas a dor é mais forte e mais funda, muito mais forte e mais funda que tudo isso. E ainda neste caso o silêncio se sobrepõe às palavras indiscretas e ao pranto sufocado, engolido.(...)

(...)O que dizer sobre o ex-aluno da escola, Wellington Menezes de Oliveira? Nome inglês mesclado com sobrenome bem brasileiro. O que dizer desse jovem de apenas 23 anos, órfão e só, perdido e abandonado? O que dizer de sua existência solitária e subterrânea, fora do alcance de toda a análise? Poderia ser o irmão mais velho das crianças que alvejou de maneira tão friamente pensada. O que dizer de alguém que mata, fere e em seguida se mata? Aqui poderíamos enfileirar uma série de por quês: de ordem social, econômica, política, cultural, psicológica, psicopatológica… Também poderíamos recorrer à sua carta-testamento ou ao testemunho dos policiais. Mas tanto seus tiros letais quanto suas palavras escritas continuam um enigma para quem segue vivendo sobre a face da terra. O que sobra desses poucos minutos de horror? Um silêncio tão cerrado quanto a boca dos mortos!

O que dizer, enfim, de uma sociedade que engendra ações desse gênero? Cenas que estávamos acostumados a presenciar pela telinha, vindas do outro lado do mundo ou mar: dos Estados Unidos, da Alemanha, ou da Inglaterra…(...)

(...) Desta vez, porém, a violência parece ter atingido um grau mais elevado. Ou descer aos porões sombrios infectos, inusitados e selvagens em que se escondem inúmeras crianças, adolescentes e jovens. Quantas vezes já estivemos reféns desses seres, agindo em grupo ou solitariamente! E quantos deles nunca conheceram um olhar mãe, um beijo molhado, um carinho de afeto, uma palavra de ternura, um leito suave, uma roupa nova ou uma comida quente!

A brutalidade é grande demais para caber, inteira, na alma de um jovem. Wellington carrega muito mais anos de sofrimento do que sua tenra idade pode suportar. Sofrimento que se transfigura em agressão e, como um dique que se rompe, devasta tudo o que vê pela frente. Violência exacerbada à máxima potência, que atinge simultaneamente as vítimas, seus familiares, a sociedade e o próprio assassino. É aqui que a palavra emudece! Como emudeceu diante do holocausto da Segunda Guerra Mundial, por exemplo. As letras e palavras se tornam estreitas, acanhadas, impotentes. Incapazes de conter os sentimentos que varrem o coração de cada um de nós.(...)

04/04/2011

algumas variações de cultura


extraído de suave coisa

A cultura da couve, que exige um trato delicado e água perto
para dar folhas tenras. A cultura
do milho, que se disfarça às vezes em mulheres viçosas.
As socas de capim que constituem tamanha
sabedoria natural sobre os morros. A cultura da morte,
que não dá sossego, ou mesmo a cultura do sono
a descoberta arregalada dos olhos pensativos no céu.

A cultura curiosa da satisfação em te ver
após o banho. A sanha cultural dos sanhaços
bicando um mamão maduro no pé. A poeirenta
Kultur que se agasalha com tosse pesquisando venenos
na obra do poeta imaturo que abriu os braços no abismo
e mergulhou gargalhando para os pósteros.

O caldo espesso das culturas nanicas
que proliferam pela madrugada em esquinas
onde mosquitos invisíveis telegrafam na luz.
Os ombros bambos da cultura na cama
com essa impressão de cicatriz das suas unhas nas costas
raspando escamas ou camadas de conotação babilônica.
A cultura do êxtase. O encadeamento despojado
dos objetos sem função quando alguém
não se procura, não ensaia, não tece elogios, não discute.

A cara calma da pessoa calada que desaparece de cena
para observar seus iguais com paciência de boi.
Aquela pressa dos pacotes que estão vendendo cultura
e a falta que uma escova de dentes, no outro extremo,
faz na boca do povo.

(Leonardo Fróes, argumentos invisíveis)

29/03/2011

vídeo: avohai


a bela e pujante canção de zé ramalho. houve tempo, não muito distante, que possibilitava que poetas e cancioneiros celebrassem o mundo e exercitassem o seu desvelamento em meio a esse mundo com muito mais vibração e inventividade. não é mero saudosismo, nem crítica fácil à fragmentação, a impotência e à mal disfarçada repetição da arte atual. é apenzs lembrança e reverência a um tempo que nos permitia exercer a nossa tarefa, de viventes e de testemunhas do ser, com um pouco menos de mediocridade, de medo e de impotência, e de tola presunção.

e já que se está falando de tempos diferentes, embora não tão distantes assim, optei por publicar dois momentos diferentes do impetuoso e inventivo menestrel do resistente e criativo nordeste brasileiro. 



e já que se está falando em resistência cultural e inventividade do nordeste, vale lembrar: as  pessoas deveriam fazer turismo menos robotizado e menos pasteurizado, quando fossem ao nordeste. junto com assépticas pousadas e hotéis, à beira de inigualáveis praias, deveriam aprofundar um pouco mais a suas visitas pelo interior adentro.

conhecer o que o povo nordestino têm de criativo, de resistente e de personalidade cultural e social. talvez personalidade e brasilidade maiores do que muitos e presunçosos moradores das modernosas e quase falidas (em termos de existência decente ) cidades do sul/sudeste.

guerra da líbia: outro truque espaetacular dos donos do mundo?

Começam a surgir denúncias de que os rebeldes da Líbia teriam sido armados e até mesmo treinados pelas forças de inteligência dos Estados Unidos e da Europa. Mais ainda: durante as manifestações iniciais dos povos árabes, na Tunísia e no Egito, já estaria em andamento um plano para que EUA e Europa se apropriassem das legítimas aspirações dos povos árabes, para conduzir aquelas admiráveis manifestações de acordo com os seus interesses.

Antes de descartar tais conjecturas como paranóia, teoria da conspiração ou antiamericanismo simplista, convém não esquecer as já muitas conhecidas manipulações das referidas forças de inteligência, em várias ocasiões e em várias partes do mundo. Convém não esquecer nem mesmo as ambiguidades e obscuridades que cercam o jamais esquecido 11 de setembro: onde estão as investigações convincentes, onde estão as provas cabais de que não houve um complacência ou mesmo uma condução do governo americano no monstruoso atentado? Quem viu o documentário de Michael Moore não acha essas perguntas absurdas...

Voltando à Líbia: com que presteza, disposição e facilidade os rebeldes líbios se apossaram de armas e partiram para o conflito armado puro e simples! Sem manifestações em praças públicas, sem multidões. Dir-se-á: a reação do ditador Kadafi foi violenta e desumana a ponto de impossibilitar qualquer indecisão ou qualquer tentativa de vencer através da cidadania e da resistência meramente cívica.

Mas, até onde são confiáveis os jornalistas e veículos de mídia que nos informaram sobre as tais monstruosidades do ditador Kadafi? Ou por outra, não poderia ter havido não houve uma premediatada e muito bem construída situação de provocação, de forma que o desequilibrado ditador líbio reagisse da forma que reagiu? E assim estariam craidas as condições para que o mundo legitimamente gritasse contra as ações do ditador líbio, exigindo com razão uma intervenção humanitária.

Mas quem teria o pode de comandar tal intervenção, senão a Europa e os EUA, ou seja , os de sempre?

Se de fato assim foi, se de fato houve todo esse planejamento pelas forças de inteligência, não há como negar: mais uma vez os doentios donos do mundo americanso e europeus exercitaram de forma admirável a suas técnicas de mentira, de distorção, de inversão e de convencimento.
E dessa vez com um ganho extra: a par da utilização das legítimas revoltas dos povos árabes, para a conquista de seus interesses geopolíticos e econômicos (petróleo, sempre a troca de snague por petróleo), europeus e americanos desta feita também lograram conquistar a simpatia do mundo, já que posaram de salvadores do povo líbio, evitando que fosse massacrado.

Por último, as tais perguntinhas que não querem calar, e das quais ninguém pode honestamente fugir, por mais apatia e conformismo que tenha, ou por mais boa vontade que tenha para com o poder estabelecido: Porque as ONUs, OTANs e UEs da vida não têm a mesma presteza e a mesma preocupação para agir em relação ao Egito, ao Iemen, ao Bahrein e principalmente em relação à despótica monarquia absolutista da Arábia Saudita?
Porque as monstruosidades, repressões, massacres sempre ocorrem em países que têm um histórico de enfrentamento com os europeus, americanos e israelenses, tais como Síria, Líbia, Irã e Venezuela?
Essas mídias e esses jornalistas nos trasnmitem realmente os fatos na sua íntegra e no seu real contexto?

A apatia e o conformismo, quando não a estupidez e a presunção, deveriam de vez em quando dar uma chance às dúvidas.

Seguem abaixo alguns textos que tratam da questão das revoltas e principalmente da questão da Guerra da Líbia.

nova operação colonial contra a líbia

por Domenico Losurdo [*]

Não satisfeitos com o bloqueio solitário de uma resolução do Conselho de Segurança da ONU condenando o expansionismo de Israel na Palestina ocupada, os Estados Unidos vêm hoje se apresentar novamente como os intérpretes e campeões da "comunidade internacional". Convocaram o Conselho de Segurança, e não foi para condenar a intervenção das tropas sauditas em Bahrein, mas sim para exigir e finalmente impor o lançamento da "no-fly zone" e outras medidas guerreiras contra a Líbia.
Algumas medidas agressivas já eram tomadas unilateralmente por Washington e por alguns de seus aliados, como a aproximação da frota militar americana das costas da Líbia e o apelo ao instrumento clássico da política do canhão. Mas Obama não parou por aí: nestes últimos dias vinha intimando Kadafi de modo ameaçador a abandonar o poder e pressionava o exército líbio a dar um golpe de Estado.

Mais grave ainda, desde há algum tempo os agentes estadunidenses, juntos com os da França e Grã-Bretanha, vinham deixando os funcionários líbios diante de um dilema: ou passar para o lado dos rebeldes ou serem processados perante o Tribunal Penal Internacional e passarem os restos das suas vidas encarcerados por "crimes contra a humanidade".
A fim de dar cobertura à retomada das práticas colonialistas mais infames, o gigantesco aparelho midiático de manipulação e desinformação lançou sua campanha e, entretanto, basta ler com atenção a própria imprensa burguesa para perceber o engodo. Por exemplo, diz-se há dias que a aviação de Kadafi bombardeia a população civil. Mas em 1° de março o jornal La Stampa escreve, pag. 6, e pela pena de Guido Ruotolo: "É verdade, provavelmente não houve bombardeio".

Mudou radicalmente a situação nos dias seguintes? Dia 16 de março, Lorenzo Cremonesi escreve de Tobruk no Corriere della Sera: "Como já aconteceu nas outras localidades onde interveio a aviação, o que houve foram apenas raids de advertência". "Eles queriam assustar; muito barulho por nada", disse-nos pelo telefone um dos porta-vozes do governo provisório. São, portanto, os próprios rebeldes que desmentem os 'massacres' invocados para justificar a intervenção 'humanitária'.

A propósito dos rebeldes. Eles são celebrados dia após dia como os campeões da democracia em toda a sua pureza, eis porém a forma como foi relatada por Lorenzo Cremonesi, no Corriere della Sera de 12 de março, sua retirada frente à contra-ofensiva do exército líbio: "Na confusão geral, acontecem também atos de pilhagem. O mais notório é o do hotel El Fadeel, de onde levaram televisores, colchões, cobertores, transformaram as cozinhas em lixeiras e os corredores em acampamentos imundos". Não parece ser o comportamento de um exército de liberação, e o mínimo que se pode dizer é que a visão maniqueísta do conflito na Líbia não tem o menor fundamento.

Há mais. A cada dia denunciam as "atrocidades" da repressão na Líbia. Mas, falando de Bahrein, conta Nicholas D. Kristoff no International Herald Tribune: "No curso destas ultimas semanas, vi cadáveres de manifestantes, quase todos executados de perto por armas de fogo, vi uma moça retorcendo-se de dor após ter sido espancada, vi o pessoal das ambulâncias ser golpeado por tentar salvar manifestantes".

Um vídeo de Bahrein mostra o que parecem ser forças de segurança atingir com uma bomba lacrimogênea um homem de meia-idade e desarmado, a poucos metros delas. O homem cai no chão e tenta levantar-se. Atiram então nele, na cabeça, outra bomba. Caso não seja suficiente, vale lembrar que "nestes últimos dias, as coisas vão de mal a pior". Antes mesmo da repressão, é na vida quotidiana que a violência se expressa; a maioria xiita é submetida a um regime de "apartheid".
Para reforçar o aparelho de repressão, agem os "mercenários estrangeiros" com tanques de assalto, armas e gás lacrimogêneo estadunidenses. O papel dos Estados Unidos é decisivo, como o explica o jornalista do International Herald Tribune, ao contar um episódio por si esclarecedor: "Umas semanas atrás, um colega meu do New York Times, Michael Slackman, foi capturado pelas forças de segurança de Bahrein. Ele me contou que chegaram a apontar-lhe armas. Receoso de alguém atirar nele sem mais nem menos, ele pega seu passaporte e grita que é jornalista dos Estados Unidos. A partir dali, o humor do grupo muda de repente. O chefe chega perto dele, aperta a sua mão e muito animado, lhe diz "Não se preocupe. Nós gostamos dos Estados Unidos!".

De fato, a Quinta Frota dos Estados Unidos tem base em Bahrein. Inútil dizer que tem como dever defender ou impor a democracia: sempre que não seja em Bahrein ou mesmo no Iêmen, e sim… na Líbia ou em algum outro país que, por sua vez, entre na mira de Washington.
Por mais repugnante que seja a hipocrisia do imperialismo, não é uma razão suficiente para esconder as responsabilidades de Kadafi. Embora tenha, historicamente, o mérito de ter acabado com a dominação colonial e as bases militares que intimidavam seu país, ele não soube estabelecer uma camada dirigente bastante ampla. Além do mais, utilizou os lucros do petróleo para construir improváveis projetos "internacionalistas" sob a bandeira do "Livro Verde", em vez de desenvolver uma economia nacional, moderna e independente. Perdeu-se assim uma oportunidade única de pôr fim à estrutura tribal da Líbia e ao antigo dualismo entre Tripolitânia e Cirenáica, e de contrapor uma sólida estrutura econômico-social diante das manobras renovadas e das pressões do imperialismo.
E temos não obstante, de um lado, um líder do Terceiro Mundo que, de forma rústica, confusa, contraditória e bizarra, segue uma linha de independência nacional, enquanto, de outro lado, em Washington, um dirigente expressa de forma elegante, educada e sofisticada as razões do neocolonialismo e do imperialismo. Somente um surdo à causa da emancipação dos povos e da democracia nas relações internacionais, ou então quem se deixa conduzir antes pelo esteticismo que pelo raciocínio político, pode alinhar-se com Obama, Cameron e Sarkozy!
Aliás, será tão elegante assim este refinado Obama que, embora condecorado com o prêmio Nobel da Paz, não leva sequer por um instante em consideração a sábia proposição dos países sul-americanos, ou seja, o convite de Chávez e outros dirigido às duas partes em luta na Líbia para que se esforcem por chegar a uma solução pacífica do conflito, em benefício da salvação e da integridade territorial do país?
Imediatamente após a votação da ONU, e indo ainda além da proposição que mal acabava de ser votada, o presidente dos Estados Unidos lançava um ultimato a Kadafi, que teve a pretensão de ação em nome da "comunidade internacional". Desde sempre, a ideologia dominante revela o seu racismo ao identificar a humanidade com o Ocidente; agora, desta vez, são excluídos da "comunidade internacional" não apenas os dois países cuja população é a mais numerosa, mas também um país chave da União Européia. Quando se coloca como intérprete da dita "comunidade internacional", Obama demonstra uma arrogância racista ainda pior do que aqueles que, no passado, reduziram os seus ancestrais à escravidão.

Será tão elegante e refinado este Cameron que, para vencer em sua casa a oposição à guerra, repete até a obsessão que ela corresponde aos "interesses nacionais" da Grã-Bretanha, como se o apetite em relação ao petróleo não fosse já bastante claro?

E que dizer enfim de Sarkozy? Nos jornais, pode-se ler tranqüilamente que, mais do que no petróleo, ele pensa nas eleições: quantos líbios o presidente francês tem necessidade de matar para que sejam esquecidos os seus escândalos, suas gafes e tenha maior possibilidade de ser reeleito?

Os jornalistas e os intelectuais da corte gostam de pintar um Kadafi isolado, acuado por um povo unido. Porém, para quem acompanha atentamente os acontecimentos, é fácil perceber o grotesco dessa representação. O voto recente no Conselho de Segurança desmascarou outra manipulação: aquela que inventa a fábula sobre uma "comunidade internacional" unida na luta contra a barbárie. Na realidade, abstiveram-se e expressaram fortes reservas China, Rússia, Brasil, Índia e Alemanha!

Os dois primeiros países não foram além da abstenção e não usaram o seu poder de veto por uma série de motivos. Pois não é fácil sempre desafiar a superpotência solitária. Não se trata apenas disso e tanto China quanto Rússia conseguiram em troca que não se enviem tropas de terra (e de ocupação colonial); evitaram intervenções militares unilaterais de Washington e de seus aliados mais próximos, semelhantes às intervenções contra a Iugoslávia em 1999 e o Iraque em 2003; tentaram conter as manobras dos círculos mais agressivos do imperialismo, que gostariam de deslegitimar a ONU e substituí-la pela OTAN e a Aliança das Democracias; enfim, apareceu uma contradição no seio do imperialismo ocidental conduzido pelos EUA, como o mostra o voto da Alemanha.

Ao fazer referência a um país como a China, dirigida por um partido comunista, deve-se observar que o compromisso que ela quis aceitar em nada engaja os povos do mundo. Mao Zedong explicou em seu tempo que as exigências de política internacional e os próprios compromissos dos países de orientação socialista ou progressista são uma coisa; outra coisa, por sua vez, é a linha política de povos, classes sociais e partidos políticos que não conquistaram o poder e por isso não estão engajados na construção de uma nova sociedade.

Fica claro então que a agressão à Líbia torna mais urgente que nunca o ressurgimento da luta contra a guerra e o imperialismo.

25/Março/2011

A tradução, de Ana Maria Dávila, encontra-se em Correio da Cidadania
Este artigo encontra-se em http://resistir.info/ 

EUA e aliados cometem crimes monstruosos na Líbia

Os EUA e os seus aliados repetem na Líbia crimes contra a humanidade similares aos cometidos no Iraque e no Afeganistão.

A agressão ao povo líbio difere das outras apenas porque o discurso que pretende justificá-la excede o imaginável no tocante à hipocrisia.

A encenação prévia, pela mentira e perfídia, traz à memória as concebidas por Hitler na preparação da anexação da Áustria e das campanhas que precederam a invasão da Checoslováquia e da Polónia.

Michel Chossudovsky, James Petras e outros escritores progressistas revelaram em sucessivos artigos – citando fontes credíveis – que a rebelião de Benghazi foi concebida com grande antecedência e minúcia e alertaram para o papel decisivo nela desempenhado pelos serviços de inteligência dos EUA e do Reino Unido.

A suposta hesitação dos EUA em apoiar a Resolução do Conselho de Segurança da ONU que criou a chamada zona de "Exclusão Aérea", e posteriormente, em assumir a "coordenação das operações militares" foi também uma grosseira mentira. Farsa idêntica caracterizou o debate em torno da transferência para a NATO do comando da operação dita "Amanhecer de Odisseia", titulo que ofende o nome e a epopeia do herói de Homero.

O Pentágono tinha elaborado planos de intervenção militar na Líbia muito antes das primeiras manifestações em Benghazi, quando ali apareceram as bandeiras da monarquia fantoche inventada pelos ingleses após a expulsão dos italianos. Tudo isso se acha descrito em documentos (alguns constantes de correspondência diplomática divulgada pela Wikileaks) que principiam agora a ser tornados públicos por webs alternativos.

OS CRIMES ENCOBERTOS
Os discursos dos responsáveis pela agressão ao povo líbio e a torrencial e massacrante campanha de desinformação montada pelos grandes media ocidentais, empenhados na defesa e apologia da intervenção militar, são diariamente desmentidos pela tragédia que se abateu sobre a Tripolitania, ou seja o ocidente do país controlado pelo Governo.

Hoje não é mais possível desmentir que o texto da Resolução do CS – que não teria sido aprovado sem a abstenção cúmplice da Rússia e da China – foi desafiadoramente violado pelos Estados agressores.

Os ataques aéreos não estavam previstos. Mas foram imediatamente desencadeados pela força aérea francesa e pelos navios de guerra dos EUA e do Reino Unido que dispararam em tempo mínimo mais de uma centena de mísseis de cruzeiro Tomahwac sobre alvos muito diferenciados.

Têm afirmado repetidamente os governantes dos EUA do Reino Unido, da França, da Itália que a "intervenção é humanitária" para proteger as populações e que "os danos colaterais" por ela provocados são mínimos.

Mentem consciente e descaradamente.

As "bombas inteligentes" não são cegas. Têm atingido, com grande precisão, depósitos de combustíveis e de produtos tóxicos, pontes, portos, edifícios públicos, quartéis, fábricas, centrais eléctricas, sedes de televisões e jornais. Reduziram a escombros a residência principal de Muamar Khadafi.
Um objectivo transparente foi a destruição da infra-estrutura produtiva da Líbia e da sua rede de comunicações.
Outro objectivo prioritário foi semear o terror entre a população civil das áreas bombardeadas.

Afirmaram repetidas vezes o secretário da Defesa Robert Gates e o secretário do Foreign Ofice, William Haggue que as forças daquilo a que chamam a «coligação» mandatada pelo Conselho de Segurança, não se desviaram das metas humanitárias de "Odisseia". Garantem que o número de vítimas civis tem sido mínimo e, na maioria dos bombardeamentos cirúrgicos, inexistente.

Não é o que informam os correspondentes de alguns influentes media ocidentais e árabes.
Segundo a Al Jazeera e jornalistas italianos, o "bombardeamento humanitário" de Adhjedabya foi na realidade uma matança sanguinária, executada com requintes de crueldade.
Outros repórteres utilizam a palavra tragédia para definir os quadros dantescos que presenciaram em bairros residenciais de Tripoli.

Generais e almirantes norte-americanos e britânicos insistem em negar que instalações não militares ou afins tenham sido atingidas. É outra mentira. As ruínas de um hospital de Tripoli e de duas clínicas de Ain Zara, apontadas ao céu azul do deserto líbio, expressam melhor do que quaisquer palavras a praxis dos "bombardeamentos humanitários". Jornalistas que as contemplaram e falaram com sobreviventes do massacre, afirmam que em Ain Zara não havia um só militar nem blindados, sequer armas.

Numa tirada de humor negro, no primeiro dia da agressão, um oficial dos EUA declarou que a artilharia anti aérea líbia ao abrir fogo contra os aviões aliados que bombardeavam Tripoli estava a "violar o cessar-fogo" declarado por Khadafi.
Cito o episódio por ser expressivo do desvario, do farisaísmo, do primarismo dos executantes da abjecta agressão ao povo líbio, definida como "nova cruzada" por Berlusconi, o clown neofascista da coligação ocidental.

Khadafi é o sucessor de Ben Laden como inimigo número um dos EUA e dos governantes que há poucos meses o abraçavam ainda fraternalmente.
O dirigente líbio não me inspira hoje respeito. Acredito que muitos dos seus compatriotas que participam na rebelião da Cirenaica e exigem o fim do seu regime despótico actuam movidos por objectivos louváveis.

Mas invocar a personalidade e os desmandos de Muamar Khadafi no esforço para apresentar como exigência de princípios e valores da humanidade a criminosa agressão ao povo de um país soberano é o desfecho repugnante de uma ambiciosa estratégia imperialista.

O subsolo líbio encerra as maiores reservas de petróleo (o dobro das norte-americanas) e de gás da África. Tomar posse delas é o objectivo inconfessado da falsa intervenção humanitária.
É dever de todas as forças progressistas que lutam contra a barbárie imperialista desmascarar a engrenagem que mundo afora qualifica de salvadora e democrática a monstruosa agressão à Líbia.

A Síria pode ser o próximo alvo. Isso quando não há uma palavra de crítica às monarquias teocráticas da Arábia Saudita, do Bahrein, dos Emirados.

Uma nota pessoal a terminar. Os líderes da direita europeia, de Sarkozy e Cameron à chanceler Merkel, cultivam nestes dias – repito – o discurso da hipocrisia. Nenhum, porém, consegue igualar na mentira e na desfaçatez a oratória de Barack Obama, que, pelos seus actos, responderá perante a História pela criminosa política externa do seu país, cujo povo merecia outro presidente.

Vila Nova de Gaia, 26/Março/2011

O original encontra-se em http://www.odiario.info/?p=2022

Este artigo encontra-se em http://resistir.info/

28/03/2011

poema, jogo do desvelamento I - mariana botelho

um poema novo de Marina Botelho - há um bom tempo que não se via tal. aliás, bastante oportuna  a sua publicação no desvelar, afinal faz eco a recente edição de poemas que tinham fio condutor exatamente a manhã, aqui publicados em janeiro.

ao poema de mariana, então: o que me atraiu de imediato foi o jogo denso, aparentemente contraditório e obscuro, entre presença e esquecimento do verbo, da fala. a fala, ou a sua ausência, a sua impossibilidade, misturada com o silêncio, mas o próprio silêncio se alimentando de verbo, o  poema respeitando, reverenciando o verbo, com o silêncio, quando isso se faz necessário.

e tudo com a habitual habilidade, seriedade e  concisão  da poeta, evitando que o poema, ou a fala, se resuma a apenas mais um dos inúmeros jogos verbais que proliferam não apenas nesta década cibernética, mas há ja décadas e décadas de poesia moderna/pósmoderna.

afinal,  é preciso aceitar que há de fato diferenças vísiveis e viscerais entre um mero jogo verbal e entre jogar com o verbo, jogar o jogo do verbo com o ser, com a presença.

 jogar o jogo do desvelar das coisas e de nós no meio do ser: essa talvez uma das principais razões de ser do poema. e mariana botelho é uma das pessoas que de tudo faz para evitar que esse jogo se transforme numa brincadeira repetitiva, ou num joguinho apenas aparentemente criativo ou essencial.

tal como uma emily dickson atual (aliás, alguém, não me lembro quem, já a acomparou com poeta americana) e tal como insinuada no iníco dessa apresentação, essa poeta lá das entranahs de minas nem sequer se preocupa com quantidades, com volumes de palavras escritas ou publicadas.a poeta parece se esforçar para por em prática o aprendizado, ou o exercício, de colocar o silêncio a serviço do verbo, quando assim é necessário ou suficiente.

a manhã nos obriga
a chorar
sempre

esquecer
a tosse noturna do filho

a urgência
do amor

o verbo
nosso pai

o silencio
nosso filho

nosso rito diário
de esquecer

mariana botelho - minas    

poema, jogo do desvelamento II - rilke

afinal, o ser e o mistério nem sempre querem que os desvelemos através de poemas e verbos, muito menos através de falatórios cotidianos, pasteurizados, incansavelemnte expelidos de tantas bocas e vindos de tantas direções, de qualquer que seja a categoria social, de qualquier que seja a formação cultural ou social. o ser, muitas vezes, pede apenas e delicadamente que o desvelemos tão somente com a escuta dos seus silêncios, com escuta de suas apariçoes e fugas.

o ser pede apenas e delicadamente que aprendamos a esquecer um pouco das distrações que nos desviam de seu desvelamento, esse desvelamento que nunca, jamais se dará de forma inequívoca, vísivel, segura, palpável.

o ser pede apenas e delicadamente que não nos distraiamos tanto daquilo que nos é essencial, que é a nossa condição de precárias testemunhas da fragilidade e do perecimento de tudo o que brota do próprio ser.

o ser pede apenas e delicadamente que aprendamos a aceitar essa mesma fragilidade e perecimento, não fugindo dessa nossa condição através de tantas sedutoras e engehosas distrações que nos solicitam (ou que solicitamos que nos solicitem) dia a dia, noite a noite, momento momento.
e aqui, a falar dessa nossa condição de testemunhas daquilo que é precivel, que nos é lembrada pelo frágil e delicado desvelamento dos er, é conveniente e necessária lembra a fala do frágil leão sombrio, o poeta metafísico rilke:

... E essas coisas, cuja vida
é declínio, compreendem que tu as celebras; perecíveis
elas nos conferem o poder de nos salvarmos, á nós,
os mais perecíveis.
Elas querem que, no fundo do nosso coração invisível, as
transformemos
em - ó infinito! - em nós! Seja qual for, no fim, o nosso
ser.
rainer rilke (Elegias de Duíno)