10/02/2021

a tarefa de acordar e cuidar

Quando estive em Itambacuri, em 2011, surpreendi-me com a mensagem abaixo, escrita num muro. Achei interessante, e bastante condizente com estes tempos de lento e difícil despertar da humanidade.

No seu início, o texto parece um tanto ou quanto escapista, parece que vamos ler apenas mais um desses bem intencionados - mas inócuos - louvores a energias cósmicas, a supostos seres supremos que estariam a esperar por uma evolução mágica de  nossa parte, como se, no nosso crescimento e na nossa tarefa,  pudéssemos nos isolar completamente deste mundo, de suas cada vez mais absurdas contradições.

Mas, na sua segunda seção, o texto mostra  a que veio, sente-se o apelo ao engajamento, mas um engajamento proposto numa dimensão superior, para além do enfrentamento com a estupidez cotidiana e brutal desse sistema obsoleto chamado de capitalismo. 

Sem entrar agora em minúcias, remete um pouco à proposta do filósofo Heidegger, que nos convoca para um reencontro  com a presença do Ser, do Mistério, a fim de que possamos de fato superar as contradições e limitações destes tempos sombrios, sufocantes,  mas decisivos para a continuidade da jornada humana através dos tempos.

Pois a História, a Revolução - e o próprio  desvelar e desdobrar do Espírito  ao longo do tempo e do espaço cósmico - não podem se amparar apenas na lucidez da ciência marxista. Na verdade, é preciso suavizar um pouco essa implacável e, às vezes, petulante lucidez da Técnica e da Ciência, com uma percepção mais cuidadosa dessa presença misteriosa e fugidia, mas palpável, que é a presença do Ser em cada um dos entes presentes à  nossa volta.

E é exatamente aos entes humanos que cabe o cuidado maior para com todos os outros entes, incluindo-se, claro, o cuidado para com todos os outros entes humanos.

Então, é preciso aprender a olhar, sentir e cuidar do próprio Ser, ou do próprio Espírito, quando cuidamos de todos os outros entes, aprender que o que se passa por aqui nunca é banal, é sempre potente, é sempre um silencioso chamado do do Ser e do Sagrado, um convite, uma convocação do Mistério : aquele que sabe  e sente que tem cuidar de si, dos outros e do próprio Ser, não pode fingir que o que acontece aqui, na nossa fragilidade e transitoriedade, nunca é banal, nunca é repetitivo, nunca é inconsequente...  

Tarefa maior, no fundo, não é cuidar de nossa própria felicidade ou plenitude, pois elas são um tanto ou quanto precárias.... Tarefa maior é apenas saber estar aqui, saber que se está aqui, e nesse ínterim, nessa tão fugaz passagem, tentar colher o melhor de si, para si, par os outros entes humanos, para todos os outros entes, e para o próprio Ser...

"Você não está adormecido, está distraído..."

Voltando à História e à Revolução, esse Verbo, perdido num muro  do interior das minhas Minas, sempre me traz esse lembrete: talvez seja o caso de aprender a juntar profetas como o Cristo, Hegel, Marx e Heidegger, aprender que sem amplitude metafísica, sem a presença do Ser, não será possível sustentar a longa marcha da Revolução e do verdadeiro despertar humano. Mas isso é conversa mais demorada, e bem  complicada, com certeza...

De formas que, como ainda diz o mineiro interiorano, por enquanto fiquemos por aqui: essas Minas sempre surpreendem mais um pouquinho.   










Sobre o silêncio das estrelas um ser especial nos imaginou
A terra mãe engendrou a essência da vida
Não podemos simplesmente fechar os olhos e fingir ou pensar
que aqui neste lugar não esteja passando nada.
Você não está adormecido, está distraído...

anônimo - itambacuri, minas

07/02/2021

úmidos contastes - 02


Após o testemunho e oferenda das águas vermelhas e verdes, eis que que outra contrastante aparição me convoca o olhar. Novamente o Ser me interpela para a percepção da Origem. 

Embora não tão nítida, ou espetacular e chamativa, mas com a mesma e discreta delicadeza. A folhagem verde em mudo diálogo de  despedida com as folhas amarelas ou castanhas,  já tendo cumprido o seu papel de agir como verdes entes, como folhagem viva de seiva.
Levada pelas águas da chuva, desliza agora rumo a uma nova e desconhecida trajetória no meio dos entes - dispersão, encontros, fusões, sabe-se lá com o que o onde.





E, mais à frente, outras e muitas folhagens perecidas, que não foram carregadas pelas impetuosas águas, permanecendo à espera em meio às pedras do parque. 


E, no que esperaram,  eis que serviram de dançarina companhia para o arrojado vento, que veio junto com a chuva. Bailaram, bailaram, arrastadas pelo impetuoso dançarino,  e ao fim da lépida  e louca dança, o vento as deixou novamente pelo solo - o impetuoso e incansável viajante sedutor de flores e gentes e tantos outros entes. 



Mas, agora, as folhagens  já mais espalhadas, formando desenhos inesperados, transformando-se já em novos entes, mesmo que inda na condição de folhagens recém-perecidas, sem ainda terem tido tempo par as habituais e inevitáveis metamorfoses físicas e químicas, enfim, sem ainda terem ganhado nova roupagem aos olhos dos entes humanos.



 

A aparição da Origem - oferenda do Ser aos entes humanos - está sempre à nossa frente, basta aprender a olhar e  sentir, basta deixá-la silenciosamente entrar em nós, basta nos oferecermos como  clareira para a abertura do Ser e da Origem através dos entes.  

úmidos contrastes - 01

Depois de tantos e tórridos dias, um verdadeiro prêmio a espessa e ininterrupta chuva deste domingo. Não resisti e fui vagar sob as águas,  pelas ruas do centro de Vitória, assim que a chuva amainou um pouco. Aproveitei e levei a câmera -  há muito não fotografava.
Tive o meu dia e a minha hora, no Parque Moscoso. Fui atraído por delicados contrastes entre os entes. Em primeiro, entre  as próprias águas. 



Esse pequeno canal , que quase sempre quase seco, hoje estava obviamente volumoso, encorpado.  E, coisa que nunca tinha reparado, particularmente avermelhado-amarronzado. A forte coloração certamente foi em razão de uma pequena e próxima área nua, sem cimento e sem gramado, cuja argila deve ter sido fortemente carregada para o canal pelas impetuosas águas da chuva




Então, o  contraste do vermelho do canal com  verdíssima  água do lago do Parque. Nunca soube se essa vívida tonalidade das águas do lago se deve em razão do reflexo das muitas árvores em volta, ou se são algas ou limo, sedimentadas no fundo, para alimentar as tartaruguinhas e os muitos peixes que existem ali. 



De qualquer forma, me senti imediatamente magnetizado pelo vívido, ondulante e fluido contraste. Como se os entes do canal e do lago pedissem um olhar, solicitassem o cuidado de algum ente humano, para testemunhar, sentir ou celebrar a aparição de suas presenças em tonalidade tão vívidas e contrastantes, sob a ainda úmida manhã de domingo, em meio ao silêncio quase absoluto do parque deserto. 




Testemunhar o seu singular e fugaz  momento de junção, de comunhão - embora fisicamente separados - dos entes das águas vermelhas e das águas verdes, em suas vivíssimas e contrastantes aparições.
Fiz o que pude, para registrar com imagens e  palavras, e para celebrar  com olhares e percepções mais essa singular manifestação da Origem. 

05/02/2021

playa giron

Há-de haver sempre uma bota em cima do sonho
efémero do homem
uma bota de força e sem razão
pronta a bater
disposta a sujar-se com sangue.

Cada vez que os homens se levantam
cada vez que reclamam aquilo que é seu
ou procuram ser homens simplesmente
cada vez que soa a hora da verdade
a hora da justiça
a bota rasga suja esmaga
destrói a esperança a ilusão
da simples ventura para todos
porque tem outros fins como Deus
como dizem os padres que o seu deus
tem outros altos fins insondáveis
outros planos em que entram Hiroshima
Espanha Argélia Hungria e tudo o resto
em que entram a injustiça a opressão
o abandono a fome o frio o medo
a exploração a morte
todo o horror toda a dor do homem.

Vai trocando de pés conforme o oiro
conforme o poder e a força se mudam
mas há-de haver sempre uma bota
e às vezes mais que uma

a pisar os sonhos dos homens.


http://ruadaspretas.blogspot.com.br/2012/06/idea-vilarino-playa-giron.html

21/01/2021

sobre verdes e cinzas

O meu fotopoema "casa verde" é uma singela conversa com uns versos de Esteer Basílio, publicado há pouco no Instagram:


grande pedra no verde ve: cinza

parede de pedra na cidade verte: lares

com seus dois olhos, a pedra testemunha:

a sua esquerda, o desolar o desolar

a sua direita, como falar?

:

uma selva de torres

e um quase-mar


Esse poema de Esteer é um diálogo com outro fotopoema meu, que criei, lá anos atrás.  Palavras minhas acerca de uma fotografia que registrei em Ipatinga, Minas. Ei-lo:




pequena pedra
no verde vê                         água
paredão de pedra
na névoa verte                    água
pedra de cá pede
pedra de lá perde                água

lá, pressa e fuga da             água

cá, prece e pedido de          água


Achei interessante e gratificante o lúdico jogo. No seu poema Esteer se inspira no dialogo de minhas pedras em meio ao verde transcendente, denso, mas traz o seu olhar para o meio das suas desoladas pedras urbanas, sufocadas, intranscendentes.

E, por coincidência, começaram a demolir, há pouco, uma casa, a Casa Verde, ao lado e abaixo da Catedral de Vitória, perto da qual gosto muito de passar, a caminho de meu trabalho. Para mim, um desses entes e lugares que nos remetem a Origem, ao frescor e silencio com que o Ser se manifesta nos entes.

Por óbvio, quando já estamos suficiente abertos para o manifestar, para a aparição dessa Origem através dos entes, não é preciso nenhum lugar especial, nenhuma espécie de "mandala" ou de fetiche,  para que tenhamos acesso a abertura que o Ser constante, incessante e silenciosamente nos oferece, a qualquer tempo e lugar

Mas, por outro lado, certamente que - nessa busca e encontro da Origem, do frescor do Ser através dos entes - cada um de nós, com sua trajetória de vida toda própria e singular,  tem a legítima necessidade  de se identificar com este ou aquele lugar, com esta ou aquela situação, neste ou naquele momento.

Esse é, então, o meu "caso" com a Casa Verde perto da Catedral. Um lugar, um momento, uma situação escolhida pela minha consciencia para escutar, ver, sentir a Origem, a abertura do Ser através dos entes -  no caso, Origem e abertura que se deu através dos vários entes, ou elementos, presentes na manhã e nas proximidades da Casa Verde e da catedral.

E, então, acompanhado das fotos, nasceu o poema, certamente vindo ao mundo também inspirado pela necessidade - inconsciente, espontanea , por óbvio - de continuar a conversa poética com os versos de  Esteer Basílio.  

E um outro registro. Embora eu não tenha chegado a frequentar, a Casa Verde chegou a funcionar como espaço cultural, espaço de resistencia de um grupo de artistas, acho que mais ligados a música e/ou teatro experimental. Então , o poema não deixa de ser um testemunho de mais essa demolição da memória de uma cidade e de suas pessoas, em nome da outra cidade, da "cidade que eles constroem em busca da felicidade" (Paul Celan).

14/01/2021

a casa verde

                                  a esteer basílio

leia também   sobre verdes e cinzas


a menina que lépida
subia a ladeira da manhã
e surpresa-sorridente súbito 
 admirou e arquitetou fantasias:


bem que a solitária casa verde
poderia se manter de pé
bem que dessa vez
os bichos deixassem
livre a verde e velha  lindeza 
a sua frágil e simples verdeza
já ferida de morte, mas viva
e altiva - uma diva e dádiva 
para a menina que arquiteta
tão no seu lugar, plantada no tempo
sob a sombra do branco templo
e da alta torre protetora 
que ainda intenta alertar
aos cegos bichos demolidores:
haverá crime, pecado, sujeira
e cegos, e também surdos
não ouvem o Alto
não vêem o Branco
não sentem o Azul
não cantam com o Negro
 
não podem admirar
a verdadeira obra de arte
pintura que juntos criam:
a casa verde, o anil céu
a alva alta torre catedral
o negro poeta pássaro
o cinza triste do olhar menina

 
os bichos, coitados e cruéis
e seus poderosos braços e máquinas
e maravilhosas ideias e engenharias:
peças de sempre a servir
 “as cabeças monstruosas
e a cidade que elas constroem
em busca da felicidade”  *

inda assim a menina passa leve
releva as cinzas dos bichos
desolha o desolado e o quase-demolido
e o olhar só leva a lavada alma da manhã
flutuando como moldura da pintura
e é só o que irá morar na sua memória


a menina a arquitetar a quimera
da casa verde eternamente em pé
num mundo multicolorido
sem as sombrias cinzas expelidas
"das cabeças monstruosas” 



*   versos de paul celan, poeta  romeno (1920-70)

26/03/2020

Lázaro e Monsieur Corona - III

Tratando hoje de temas menos transcendentes e mais mundanos.
O prédio ao lado do meu sempre foi surpreendente, no que tange às manifestações de seus moradores, ainda mais agora em tempos de Corona.
Ontem à noite um sujeito decidiu fazer uma espécie de treinamento na garagem do prédio. Suponho que seja um instrutor de um curso ou um jogo qualquer, que, para não perder sua necessária renda, deve ter proposto aos alunos treinarem ou jogarem no prédio dele.
Até aí, tudo certo. É preciso se virar, sobreviver, afinal o desastre econômico que aguarda o maldito capitalismo, será talvez maior que o da crise de 1929. Aleluia!
Pode ser que o Corona seja a tão aguardada oportunidade para derrubarmos na sarjeta o gigante de pés de barro, destruir o seu castelo de areia, derrotar o tigre de papel, e por aí afora. Tudo vai depender do grau do colapso provocado por Monsieur Corona nas estruturas do Capital, da capacidade de mobilização do povo  e da organização das verdadeiras organizações de esquerda e das suas lideranças lúcidas, a exemplo de Rui Costa Pimenta e do PCO.
Voltando ao tal instrutor. O problema é que o sujeito é simplesmente uma máquina de berrar. Ele é patético ao dar as suas instruções. Esquece que não está numa dessas assépticas e enjoativas academias, que não está numa rua deserta, mas sim num local cercado de prédios e moradores.
Para além do comportamento fascista e primitivo, parece que a coisa envolve também um pouco de narcisismo. Aquelas coisas que a Psicanálise fala, acerca da necessidade de determinados sujeitos tem de se manifestar ruidosa e ostensivamente, em qualquer situação que seja. Aquilo que parece pura explosão de alegria, vitalidade ou espontaneidade, não passando de patética necessidade se exibir, de exibir o seu ego para os outros, exigir a atenção dos outros para o seu egozinho, que se acha tão atraente, tão admirado. Narciso tentando mostrar aos outros (atualmente de forma vulgar e fascista) que ele é Narciso, o cara. Às vezes é preciso recorrer à Psicanálise para entender essas manifestações, não dá pra ficar chamando Heidegger toda hora, mesmo porque seria covardia.
*
Ah, mas tem que chamar Marx, um pouquinho que seja.
Vejamos. Apesar de minha perplexidade irritada com o fato, quis entender que treinamento era aquele, afinal precisamos estar sempre a par das maravilhosas novidades trazidas pela nossa colonizada classe média, copiadas geralmente das nova-iorques e miamis da vida; quanto à referência a essas cidades, não posso fazer nada, a falta de originalidade não é minha, há décadas a nossa diligente-criativa classe média repete o seu itinerário, fazer o quê?   
Sabe-se que a lógica que governa o capitalismo precisa, desesperadamente e sempre, criar novos produtos, serviços, sensações, hábitos; enfim, o capitalismo precisa, a cada dia, criar falsas necessidades humanas, para que não seja paralisada a sua implacável, gigantesca e estúpida máquina de fazer mercadorias e dinheiro, de fazer dinheiro através de mercadorias.
A famosa expressão de Marx: D – M – D+, dinheiro que se converte em mercadoria, para gerar mais dinheiro, e sempre mais, e mais, e  mais, e mais.
Enfim, apesar de ter sido obrigado a ouvir os berros do instrutor, por  quase duas horas, não consegui entender qual era aquela maravilhosa novidade, importada pela nossa colonizada e sempre deslumbrada classe média,  aquela nova mercadoria inventada pelo capitalismo para sustentar sua cada vez mais estúpida, desumana e imbecilizante.
Mas tudo indica que era uma espécie de treinamento ou entretenimento juvenil, baseado em jogos de guerra; bem a propósito desses tempos. Viva a pré-barbárie!
*
Na outra ponto do prédio. Mais uma esforçada demonstração de como certa parcela da classe média coloca em prática o suposto conceito que ela faz de si própria: educada, discreta, respeitosa. Tá, sei. Vejamos.
Um casal, para ter companhia durante o confinamento, tomou a brilhante iniciativa de comprar um casal de calopsitas. Quem conhece esse pássaro, sabe como ele canta de maneira estridente, insistente e, pior, durante o dia inteiro. É um canto  repetitivo, monótono. E talvez desesperado.
Claro, já é moda, há uns tempos, criar esse pássaro, nos apartamentos de classe média e nas moradias populares.
Na sua pobreza existencial, os carcereiros desses pássaros, como aliás de todo tipo de pássaro, devem achar que essas infelizes criaturas cantam para alegrar seus pobres ouvidos.
Esses infelizes não têm a sensibilidade necessária para entender algo tão básico: eles cantam é de tristeza e desespero, por não poderem viver no ambiente para o qual vieram ao mundo. Ou seja, na vastidão e no frescor das alturas e do vento, no azul do céu e no cinza das tempestades. 
Até aqui nenhuma novidade, não valeria a pena gastar neurônios com essa estupidez e pobreza existencial, incrustada há séculos entre nós.
Mas de qualquer forma, fica o registro. Pois é simplesmente irritante ter que ficar o dia inteiro ouvindo o lamento repetitivo e estridente. E é patético, risível e constrangedor imaginar e  ouvir a alegria estúpida do casal carcereiro de classe média, que todas manhãs vai lá próximo da gaiola, como um reizinho e rainhazinha idiotas, a cantarolar junto com o seu pobre prisioneiro.
Fica difícil saber o que é mais lamentável: se os carcereiros reizinhos, com sua presunçosa alegria, ou se o irritante canto do pobre prisioneiro. Um canto poético, sim, um lamento desesperado, sim, mas também monótono, chato e estridente.
Uma absurda situação em que a beleza e a grandeza proporcionadas pelo Ser aos entes, se torna nada mais que tristeza, irritação e constrangimento.
Tudo bem que esse exemplo de pobreza existencial não veio com o capitalismo, já existia antes dele. Mas certamente que, com o advento do capitalismo, e com a sua irracionalidade e crueldade cada vez mais aceleradas, os absurdos humanos se multiplicam, encontram terreno fértil. 
Afinal, o alucinado fluxo de mercadorias não pode parar, é preciso produzir, circular, vender, consumir, e tudo se repetir indefinidamente, e desse ciclo infernal não escapam nem mesmo os pobres pássaros. E, claro, também não escapam os cãezinhos, que são reproduzidos, criados e conduzidos como se fossem pobres criaturas de plástico, como se não fossem cães de verdade. Mas essa é  questão para outro momento
*
E só pra reforçar: belo texto, que encontrei no site da soama, entidade de proteção aos animais, de Caxias do Sul: pássaros em gaiolas.
Quem sabe alguma coisa disso chegue aos pobres carcereiros de pássaros, pelo menos ao casal debilóide, que fica a ouvir o estridente e desesperado grito do casal de calopsitas e,  em seu patético narcisismo,  ainda deve achar que todos os vizinhos se deleitam com a lamentável e cruel invasão sonora.
Fico a imaginar o que está por vir, depois de dez, vinte, trinta dias de confinamento. 
*
O poema abaixo, de um amigo lá de Poté (vale do Mucuri),  seria um tapa na cara desses carcereiros estúpidos, se eles pudessem entendê-lo, claro . Aí, talvez compreendessem que existem no mundo coisas diferentes e tão preciosas como nós próprios.
presente, periquitante 
hoje
não mais que hoje
sinto - a vida existe
mesmo periclitante


porque sou quem sou
e se triste estou, brindarei
pássaros no céu
a voarem periquitantes

são coisas boas
são maiores que a gente
                                      vicente gonçalves (poté, mg)

24/03/2020

Lázaro e Monsieur Corona - II


Gosto de me levantar bem cedo em finais de semanas e feriados.  Aproveitar mais e melhor as brechas na estúpida escravidão moderna - ler, escrever, andar. Nesses longos meses em companhia de Monsieur Corona, então, será uma festa. 
Um pouco antes seis, caía uma chuvinha miúda, dessas que parecem silencioso lacrimejar, e imediatamente convidam à leitura de algum poeta metafísico: Rilke ou Hölderlin ou Drummond, Cecília ou Celan; algum poeta assim, que me fizesse companhia no acesso ao desvelar do Ser,  através do ente da chuva.
Assim, decidira fazer minha habitual visual ao Ser, indo até o Parque Municipal.
Na tensa tessitura das ruas, sob a dura concretude dos prédios e ensurdecido pelo estúpido ruído dos carros - e das mais ainda estúpidas e fascistas motos envenenadas - nesse cenário certamente é bem mais difícil conseguir se postar em frente, e em meio, à pura presença das coisas, com seu silêncio e singeleza.
Na solidão e quietude de alamedas, trilhas, gramados, de um recanto como o Parque, obviamente é muito mais tranquilo ter uma percepção pura da aparição dos entes, essa aparição que sempre traz consigo a fugidia presença do Ser: cada árvore, cada galho ou folhagem, um que outro pedação de pedra, uma porção de solo verde-vegetal, as miríades de amarelas florezinhas caídas, cada aparição dessas revela e esconde o singelo mistério do Ser. Não li o Heidegger de “O caminho do campo”, mas pelas suas  palavras em “Explicações da poesia de Holderlin”, imagino que seja para algo assim que ele se volta.
Mas entregue a esse começo de “diário” (ainda não me veio  uma palavra menos tola) o tempo passou, a convidativa chuvinha esfumou-se, como é praxe nesta época, começou a fazer calor, e adiei para de tardezinha minha aparição em meio às aparições dos entes que moram lá no espaço da Parque.
Já que assim, um pouco mais daqui, então: sou servidor público, trabalho na Secretaria de Educação, e estamos parcialmente dispensados do expediente. Está tudo ainda muito confuso, mas creio que em breve o Governo decretará suspensão total das atividades, com exceção do costumeiro Plantão.
Estou extremante preocupado com a situação de minha mãe  e de minha irmã, que moram no interior. Minha mãe está perto dos oitenta anos (grupo de risco) e ajuda a cuidar de minha irmã, que é portadora de uma doença rara (outro grupo de risco).
Além de minha mãe, que tudo supervisiona, passam pela casa delas, todos os dias e noites, mais três mulheres, cuidadoras. Situação de difícil enfrentamento, em épocas normais, imagine-se agora, com o advento do implacável Corona. A questão é que, todos os dias e noites,  as cuidadoras vão e voltam de suas casas, e aí o risco, tanto para elas, quanto para minha mãe e  irmã, são obviamente maiores; assustam, confesso.

*
Como também confesso a minha angústia em relação à possibilidade de meu próprio morrer. Aliás, se não fosse para testemunhar a minha percepção, dessa possibilidade do meu próprio morrer, não haveria sentido nesse “diário”.
Não posso fugir a esse encontro, essa situação de morte anunciada, que envolve a todos nós -  não nos iludamos – é uma oportunidade singular, é até mesmo a obrigação de uma espécie de, senão de celebração, ao menos de testemunho. Testemunhar ou celebrar o que há de fascinante  e, claro, de apavorante, na possibilidade de se despedir em definitivo do próprio Ser. Compreender e capturar a grandeza e o absurdo desses momentos, em que está tudo por um fio, em que você já não sabe se de fato estará presente ao Ser no próximo dia, semana, mês.
Claro que não é preciso o implacável advento de Monsieur  Corona, para podemos vivenciar a magia e a fragilidade de nosso existir, o para vivermos e admirável espanto que é  aparição e a desaparição no mundo.
Para perceber que somos entes cuja principal atributo é o de existir como criaturas especiais,  que podem e devem se ocupar, em primeiro lugar, exatamente com essa singularidade: a de se perceberem como presentes ao Ser e aos demais entes, e de perceberem o Ser e os demais entes como estando presentes a ela, criatura, ente humano. Ao que se saiba, a nenhum outro ente, aqui na Terra, foi dada tal singularidade (quanto aos prováveis habitantes inteligentes nos confins deste Cosmos, bem, issso é outra história).
Sim, não deveria ser preciso o advento do Corona para tal entendimento de nossa condição e especial e metafísica no mundo.
Ocorre que as tarefas e imposições do dia a dia - ainda mais nesse estúpido e odioso estágio do Capitalismo – nos afastam desse convívio com a nossa condição de entes especiais. Nem mesmo aqueles voltados ao convívio com a arte e com a Filosofia conseguem exercitar esse convívio com a sua singularidade, durante vinte e quatro horas por dia, sete dias por semana.
Então, eventos espetaculares e singulares e ameaçadores, como o Corona, são o gatilho para retornarmos à condição de nossa própria singularidade, para resgatarmos o espanto perante o existir, para nos resgatarmos em meio ao fascínio da simples presença das coisas, dos outros entes, e para dedicarmos mais cuidado e atenção à fugidia e misteriosa presença do Ser.
Parece que é apenas uma outra forma, mais sofisticada ou mais presunçosa, de fazermos as já famosas perguntas: de onde viemos, o que somos e para onde vamos. Sim, há um pouco disso, mas não se trata apenas disso. Voltarei, noutra ocasião, à questão de termos que dar nosso testemunho do Ser num momento tão singular.

22/03/2020

Lázaro e Monsieur Corona - I


Meu nome é Lázaro, e atualmente estou morando em Belo Horizonte, num apartamento de dois quartos. Moro na Augusto de lima, próximo ao Maletta, e nas imediações do Mercado Central.
Vou construir um “diário” do meu confinamento, durante a reinado de Monsieur Corona (prometo que buscarei outra palavra, sei que essa se tornou por demais consumida-obsoleta e  adolescente).

Apenas quatro dias de isolamento.
E começa a parecer que já não existem mais diferenças entre os dias. Você tem que pensar uns segundos, para decidir - com o necessário grau de certeza - que hoje é realmente domingo, e não mais sábado, nem ainda segunda.
Ontem, já tinha passado por algo assim, mas de fugaz duração. Além disso, tal flutuante percepção do tempo já veio seguida, hoje,  de uma leve indiferença e liberdade em relação ao cotidiano: assim que levantei e fui à geladeira, decidi que não iria tomar a outra metade da garrafa de vinho que lá estava; afinal, terei dias e dias de confinamento pela frente, e assim posso tomar vinho ou cerveja  a qualquer dia, a qualquer hora. Supondo-se, é claro, que eu seja um sobrevivente ao Corona e que possa continuar existindo.
Então, creio que foi a conjugação dessas duas percepções que permitiram que a Voz novamente surgisse para mim, e  murmurasse ao meu ainda sonolento despertar, exigindo que eu escrevesse um diário de minha quarentena.
Afinal, está-se passando por uma singular vivência de si  e do mundo, e é preciso dar tal testemunho ao vivo, a loucura in loco: porque esperar que tudo passe para, então, daqui a  alguns meses, fazer dessa vivência algo a ser literária e filosoficamente processado, e somente assim colocado em palavras?
Ora, tudo urge, tudo se dissolve, já não há referências, marcos no horizonte etc etc: qual a certeza de que estarás sobrevivo ao Corona, daqui a meses ou semanas?
Contra tão implacável argumento da Voz,  desvio não havia.
Mas, suspeito que seja também por uma espécie de compensação, já que, desde quarta-feira, eu escrevi meros quatro ou cinco parágrafos para “Isaía, Irma e Baiano”, o romance aonde narro a última noite de vida e, por óbvio, a morte do mendigo Baiano, já em finalíssima  de fase conclusão – ó, terra do Verbo, grato pelo término de mais uma árdua-fascinante jornada, por teus labirínticos-exigentes caminhos.
Depois falo um pouco desse meu testemunho acerca do mendigo Baiano, vou colocar aqui pequeno trecho da obra.
Por ora, por aqui: atender a essa nova exigência da Voz.

25/08/2015

os domingos

Todas as funções da alma estão perfeitas neste domingo.
O tempo inunda a sala, os quadros, a fruteira.
Não há um crédito desmedido de esperança
Nem a verdade dos supremos desconsolos -
Simplesmente a tarde transparente
Os vidros fáceis das horas preguiçosas
Adolescência das cores, preciosas andorinhas.

Na tarde – lembro – uma árvore parada
A alma caminhava para os montes
Onde o verde das distâncias invencidas
Inventava o mistério de morrer pela beleza.

Domingo – lembro – era o instante das pausas
O pouso dos tristes, o porto do insofrido.
Na tarde, uma valsa; na ponte, um trem de carga;
No mar, a desilusão dos que longe se buscaram;
No declive da encosta, onde a vista não vai
Os laranjais de infindáveis doçuras geométricas;
Na alma, os azuis dos que se afastam
O cristal intocado, a rosa que destoa.

Dos meus domingos sempre fiz um claustro.
As pétalas caíam no dorso das campinas
A noite aclarava os sofrimentos
As crianças nasciam, os mortos se esqueciam mortos
Os ásperos se calavam, os suicidas se matavam.
Eu, prisioneiro, lia poemas nos parques
Procurando palavras que espelhassem os domingos.

E uma esperança que não tenho.

paulo mendes campos - minas (1922 - 1991)

03/06/2014

de volta... à poesia e à resistência

Após quase um ano sem novas postagens, chega ao fim o período de hibernação do desvelar.
Para marcar essa volta um poema da espanhola ana montojo micó.

E também uma nota de esclarecimento do movimento black block, postada abaixo, acerca de matéria postada pelo jornal Estado de São Paulo.

Caminha pelo parque
num dia de semana de Outono
sem tom nem som, sem cão
sem cadeira de empurrar
de velho ou de menino.

Não anda depressa nem devagar
deixa-se afagar
pelo sol mentiroso de Novembro.
Não corre atrás dum corpo inverossímil
fuma apenas com música de pássaros.

Doente terminal de saudades
desempregado, reformado, arguido
ou ao menos suspeito de tristeza.

ana montojo micó   -  espanha   (1949  -   )

black bloc esclarece


Antes de iniciar esse texto que está sendo divulgado por algumas páginas que divulgam ações da tática black bloc em sp, iremos dar algumas infos pra vocês sobre oque aconteceu com a Black Bloc SP Fase II e a Black Bloc SP de 55mil.

As duas páginas foram simplesmente desativadas em menos de 48 horas com a desculpa de Nudez e incentivo ao vandalismo (algo assim), e nós nunca incentivamos nada, como todos sabem. Depois disso eles bloquearam os admins e por isso estamos um pouco parados (em postagens, claro.) Daí decidimos criar a fase III porque algumas pessoas estavam pedindo e, por puro medo, eles já estão bloqueando-a e já removeram a capa, sendo que essa capa que foi removida ficou meses nas outras duas páginas... Ou seja: estão querendo desarticular a tática aqui em sampa, mas, surpresa!
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NINGUÉM DEPENDE DE PORRA DE PÁGINA ALGUMA, SEUS FASCISTAS DE MERDA!
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Nós poderíamos escrever um texto enorme aqui dando resposta a mídia, mas estamos cagando pra ela e também estamos cagando pra Black Mídia que vem com desculpa de achar que a mídia vai fazer uma matéria séria, mas na real quer atenção nessa porra!
(Em relação a divulgar informações sobre oque vai ser feito na copa, vamos indicar pra vocês o manual do Guerrilheiro Urbano. Lá tem bem explicado oque acontece com quem fala muito. E entenda essa parte da forma que quiser.)

Bom, é isso. Vamos ao texto!

Comunicado a todos os adeptos e simpatizantes da tática Black Bloc SP :

Sobre a matéria falaciosa do jornal Estado de São Paulo e da suposta "entrevista Black Bloc" não tem muito o que falar na verdade, até porque já é algo que todos sabem mas fingem que não sabem.

Black Bloc promete caos na copa com ajuda do PCC?

Lembro que no ano passado nós comentamos aqui sobre uma reportagem vinculada no fantástico em que o PCC afirmava categoricamente que se eles não quisessem em conversas gravadas "não haveria copa do mundo" (sic) Lembro tbém que fizemos uma observação que tentariam vincular a tática Black Bloc com o PCC no qual "faríamos" uma espécie de parceria para tentar barrar a copa, esse falácia já é bem conhecida nesses meios de comunicação, querem propagar informações falsas a todo o custo para justificar ações mais ostensivas por parte do estado para criminalizar manifestantes e simpatizantes da tática Black Bloc.

Não tem como o Black Bloc dar entrevista pq o Black Bloc é tática de manifestação e não um grupo organizado. Não se deixe levar por declarações falaciosas do Estado de São Paulo e derivados.

Não existe Black Bloc fora da manifestação. Não existe o indivíduo Black Bloc, existem pessoas que durante uma manifestação usam táticas Black Bloc. Só isso, se disserem ou afirmarem algo além disso é mentira. 

 http://sao-paulo.estadao.com.br/noticias/geral,black-blocs-prometem-caos-na-copa-com-ajuda-do-pcc,1503308


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extraído do facebook de black bloc sp fase III 

08/10/2013

revolução com poesia e ousadia

  • acerca das ações dos black blocs em 07.10.2013
  • e contra o abusivo enquadramento de luana bernardo e humberto caporalli na lei de segurança nacional 

Para além da preocupação, de grande parte da esquerda, em decidir se o movimento black bloc contribui para um avanço mais contundente das lutas populares, ou se colabora, de maneira irresponsável e inócua,  para a criminalização dessas mesma lutas, o fato é que esses aguerridos militantes (melhor seria dizer aguerridos combatentes) têm proporcionado ações e momentos verdadeiramente espetaculares, em seus enfrentamentos cada vez mais ousados e raivosos contra as repressoras forças da obsoleta e irracional ordem estabelecida, e em seus ataques, também cada vez mais raivosos e ousados, contra alguns dos símbolos e centros de comando dessa mesma ordem: bancos, concessionárias, sedes de legislativos e judiciários submissos, hipócritas e ineptos, redes mundiais da detestável e insonsa comida fast-food, shoppings e por aí afora. 



veja-se esse jovem como que dançando sobre os fogos de uma revolução
que, por mais inviável que pareça, teima em se anunciar, insiste em se instalar
na sala de estar do cotidiano acomodado numa falsa paz
 

mais fogos e mais luzes  a anunciar o advento da teimosa revolução?
 


não falta nem mesmo música para celebrar esses, queiram ou não,
poéticos enfrentamentos. viva a ousadia e a criatividade; o sonho - plantado
pelos vanguardistas da contracultura nas décadas 60 e 70 - agradece  


e aí  as futuras gerações comunicando ao mundo - com ou sem máscaras,
com ou sem manuais, teses e partidos-  que, para tristeza e indignação
dos acomodados,  a luta não vai parar por aqui,
que a revolução vai continuar na sua
teimosia, hoje, amanhã, em 2014, 2015, 2020, 2030...
 

mesmo sabendo da repressão, da punição e da violência, às quais estão sujeitos,
esses soldados parece que não estarão dispostos a recuar. mesmo sabedores de
que o pesado braço da punição começa a baixar sobre eles, tal como aconteceu com o abusivo enquadramento na lei de segurança nacional, dos jovens luana bernardo e humberto caporalli  
 

afinal, esses combatentes parecem saber muito bem quais os
poderes que estão enfrentando