A mobilização contra o encontro da OTAN de 2009 havia começado desde o ultimo encontro, no qual uma ativista morreu atropelada por um carro do comboio do encontro. Desde o final de março um acampamento autogestionado, anti-autoritário e ecológico foi instalado na cidade de Estrasburgo para abrigar milhares ativistas. Paralelamente aconteceu o G20 em Londres, e lá durante o grande protesto um manifestante foi espancada pela policia e ao fim da tarde foi encontrado morte, parada cardíaca.
15/04/2009
Protestos anti-OTAN
A mobilização contra o encontro da OTAN de 2009 havia começado desde o ultimo encontro, no qual uma ativista morreu atropelada por um carro do comboio do encontro. Desde o final de março um acampamento autogestionado, anti-autoritário e ecológico foi instalado na cidade de Estrasburgo para abrigar milhares ativistas. Paralelamente aconteceu o G20 em Londres, e lá durante o grande protesto um manifestante foi espancada pela policia e ao fim da tarde foi encontrado morte, parada cardíaca.
literatura: gerard e gilliat, heróis sem prêmio
Um brevíssimo resumo dos dois livros.
“O salário...”: há um violento incêndio num poço de petróleo de uma multinacional americana, dezesseis trabalhadores indígenas mortos. A única forma de apagar o sinistro seria através de poderosas ondas de vento provocadas por explosivos colocados em volta do poço. Mas seria necessário transportar a nitroglicerina através de uma distância de 500 km. A estrada de chão é razoável, mas para esse tipo de transporte é preciso muita perícia e coragem: qualquer choque mais forte e o instável líquido se aqueceria a uma temperatura fatal. A Crude consegue contratar quatro motoristas (aventureiros fracassados, desesperados para sair da Guatemala) para tentar levar a perigosa carga, em dois caminhões. Um dos veículos explode na estrada matando os dois motoristas. Gerard, o único que consegue chegar vivo até o poço, recebe o prêmio sozinho (seu companheiro morrera por falta de socorro do próprio Gerard). Mas, na entusiasmada viagem de volta, Gerard também morre, num acidente bobo.
Fica difícil, no exíguo espaço de um artigo, ilustrar a idéia apontada no início, a da admirável tarefa desse dois heróis anônimos. Só mesmo lendo os livros, envolvendo-se na quase mágica batalha de Gilliat: dos rochedos e do fundo do mar ele retira o que comer, improvisa ferramentas, um abrigo onde se proteger das tempestades e do negrume, do navio ele retira material par fazer um 'muro' debaixo d'água, que protegesse o local de trabalho da ação das correntes marítimas, para citar apenas algumas de suas peripécias.
E acompanhar a sôfrega viagem de Gérard e seus companheiros, minuto a minuto no limiar de um colapso, o corpo e a consciência eletricamente ligados a cada buraco da estrada, que poderiam provocar uma explosão na volátil e perigosa carga. E, além da preocupação com os buracos e com uma velocidade mal calculada (tinha que ser ora mais devagar, ora mais rápido, por causa das "costelas" da estrada, por exemplo), há ainda o pavor do fortíssimo sol tropical a aquecer o tanque de explosivo. E é tudo concreto, passível de ser realizado, não há brincadeiras, Victor Hugo e Arnaud não recorrem a efeitos especiais, sabem do que estão falando.
Eles personificam a clássica definição que os gregos davam para o herói: mistura de divino e de humano, o divino realizável, tornado possível pela ação dos mortais. Mas se os heróis ousam humanizar o divino, também pagam um alto preço por terem se envolvido com o "fogo do céu" (Hölderlin).
Finda a tarefa do herói é como se existisse um vazio, o cotidiano humano, após o retorno, parece por demais lento, estranho, sem perspectivas. Já no primeiro dia de suas voltas ( e o último de suas vidas) é como se Gérard e Gilliat fossem agarrados pela saudade do Absoluto, do transcendente que haviam experimentado nos últimos dias. Uma saudade que, num nível secreto e inextirpável, deve ter instilado neles um obscuro desejo de morrer, de repousar. Os quatro mil dólares de prêmio (que permitiriam a Gérard retornar à Europa, liberto de uma vida deteriorada num país miserável do terceiro mundo) e o casamento de Gilliat com Déruchette seriam prêmios irrisórios, por demais humanos, para quem havia por alguns dias incorporado no corpo e na consciência situações cruciais da evolução da civilização ocidental: o salvamento do mais moderno meio de transporte da época e a garantia de fornecimento da mais importante fonte de energia do século XX.
O prêmio justo seria que fossem elevados à condição de comandantes, mas, na atual etapa da história, um prêmio impossível para marinheiros, aventureiros e operários que não tiveram a sorte de nascer no lugar de pseudo-comandantes.
Resta dizer que nesse morrer dos heróis vislumbra-se, também, um outro paralelo, do qual falamos no início: a trajetória da personagem se entrecruzando com a do escritor.
É preciso não esquecer que personagens são submissos à vontade e às necessidades inconscientes do autor. E depois de forjar uma relação de tamanha intensidade de nossos heróis com o Absoluto, para o escritor é sem sentido, é banal conceder ao personagem uma existência limitada no meio dos mortais, depois que ambos, o criador e a criatura, beberam do "fogo do céu". O escritor joga para dentro do personagem seu próprio vazio e perplexidade, após ter vivido a desgastante e solitária grandiosidade proporcionada pela feitura da obra. É como se aniquilando as possibilidades da criatura, o escritor aniquilasse a sua própria e inútil saudade do Absoluto proporcionado pela criação da Obra. Resta-lhe esquecer aquela vivência e por isso às vezes precisa "matar" seu personagem.
Aqui, talvez coubesse fazer uma ressalva a essa 'solução final' praticada pelo escritor: caso o autor colocasse a sua obra num plano maior, no plano do coletivo, do engajamento, talvez ele não precisasse recorrer à dissolução, à aniquilação, para dar um sentido para essa mesma obra; quer dizer, se estivesse de fato comprometido com a lucidez e com a esperança proporcionadas pela luta coletiva, o escritor não se permitiria reduzir a sua criação, com tudo o que ela tem de complexo, a uma necessidade puramente egocêntrica, subjetiva. Realmente, desse ponto de vista, parece muito presunçoso, da parte de Hugo e Arnaud, aniquilar seus personagens, apossar-se de seu destino final como deuses arbitrários, entediados - ainda que o façam de maneira inconsciente.
E, avançando um pouco mais, poderíamos até mesmo acusar os nossos escritores de reacionários, de proporem um falso enfrentamento: na medida em que criam personagens que desafiam aquilo que está colocado, que transgridem as regras, e depois aniquilam esses mesmos personagens, os escritores seguem apenas a velha fórmula moralista de alertar para os perigos de se desafiar a ordem estabelecida, seja ela colocada pelas forças da natureza ou da sociedade - enfim, o castigo para os heróis que ousam desafiar os deuses.
Com relação a essa última possibilidade, basta ler as obras em questão para se chegar a conclusão bem diversa. E quanto a exigir do escritor uma solução sempre construtiva, lúcida, crente, para as contradições que ele consegue manifestar através de personagens e situações, isso já seria querer demais, já seria falsificar a própria realidade, ou melhor, seria dar vida a situações e personagens pré-fabricados segundo moldes morais, filósoficos ou ideológicos: neutralizar as contradições de personagens em nome de um engajamento, de um projeto de transformação seria o mesmo que negar esssas contradições e, portanto, distorcer ou negar a possibilidade superá-las efetivamente.
Que nos contentemos com a tarefa essencial dada ao escritor, que é a criação de algo, a tarefa de provocar no Real o advento de mais um ente novo, como se o escritor fosse um demiurgo, a cooperar com a criação, com este Todo que se criou, que se cria e que continuará a se criar. Ao escritor já basta ter operado como instrumento para o surgimento de mais uma manifestação no Real, ou neste Todo. Afinal, o escritor tem também o direito de existir tão somente enquanto construtor e conquistador, tanto quanto os comandantes e os comandados, tanto quanto os heróis anônimos representados por Gerard e Gilliat. As duas obras acerca das quais viemos falando neste artigo são, em primeiríssimo lugar, nada mais do que duas novas manifestações lançadas ao Real, e ao mesmo tempo duas novas celebrações desse mesmo Real, desse Todo. Então passa para um plano secundário exigir que os escritores dêem soluções abstratas ou convenientes para as contradições que ele encontra no Real. O que o escritor pode e deve fazer é registrar essas contradições e dramas da maneira mais comovente que puder; para que, aí sim, aquele que ler e acolher a obra possa escolher a leitura que fará delas - se filosófica, ética, política ou apenas estética, ou prazeiroza, sem outro compromisso que não a comunhão. Para que leitor e escritor possam celebrar a nova criação lançada no Todo, ou no Real. É o que esse texto tentou fazer - acolher, celebrar e fazer a sua leitura dessas duas criações.
Roberto Soares Coelho
ocupação dandara
Segunda-feira, 13 de Abril de 2009
A Páscoa Subversiva de Dandara
Antes de Jesus, o povo celebrava a Páscoa em memória a saída do Egito, a chegada à terra prometida. Páscoa é passagem, travessia, como nos diria Guimarães Rosa. A verdade se põe pra gente é no meio do caminho. Em meio aos mares revoltos e as cruzes do nosso mundo, onde a crise financeira (na verdade uma crise do sistema de morte) sobrecarrega os oprimidos com fardos maiores, eis que um sinal da vida que resiste brota no chão de Belo Horizonte.
Histórico e situação atual
A ocupação foi realizada na madrugada de 09/04/09 com 150 famílias, pelo Fórum de Moradia do Barreiro, Brigadas Populares e MST. O terreno tem 40 hectares e está abandonado desde a década de 70, além de acumular dívidas de impostos na casa de 18 milhões de reais.
Toda a imprensa cobriu o caso e está havendo grande repercussão pública em Belo Horizonte. As matérias de modo geral (exceto Globo) têm tratado com relativa isenção, e o Estado de Minas resolveu silenciar. A Record tem feito plantões permanentes atualizando os fatos e dando a melhor cobertura.
Atualizações
A polícia tem dado vôos rasantes de helicóptero, intimidando as famílias acampadas.Ainda não foram solucionados os problemas de acesso à água e energia.
Não há mais espaço na área de confinamento que a PMMG demarcou, mas seguem chegando famílias.
Fizemos uma lista de espera que já tem 300 cadastros de famílias querendo entrar na Dandara.
flecheira libertária II
Essas seções do nusol mostram com clareza e argúcia que não adianta tentar ir pelo pensar e agir mais fáceis, ou mais tranqüilizadores. flecheira 106 - 14/04/09
história de vida
Presas tomam seus filhos nos braços e fogem a pé da prisão, no final da tarde do domingo de Páscoa, em São Paulo. Estão vivas! Enquanto as boas almas reclamam por falta de segurança, elas correm riscos por si e por seus filhos.
conservadorismo moderado: fragmentos de notícias
Reativar manicômios; renovar a cortina de ferro na Europa; saudades de Stalin; tribunal penal internacional;greve de fome de presidente contra o parlamento; cotas; proibicionismos; amor ao emprego; amor à escola; amor ao perdão; separar-arruinar-reduzir para depois incluir; condenar as drogas; cultuar a psiquiatria e a farmacologia; acreditar no fim das impunidades; fazer plástica para parecer menos velho (a); câncer; o ovo de Darwin; clamar por segurança, prisões e punições; viver solitário na vida computo-informacional; confiar na mídia; assistir abestalhado execuções por penas de morte na televisão; conviver com um micro big-brother...
satélites com batatas fritas
Nos anos 1960, a McDonald’ Corp. sobrevoava bairros em monomotores para localizar escolas e, perto delas, instalar lanchonetes. Nos anos 1970, passaram a buscar locais promissores de helicóptero. Na década de 1980, começaram a comprar fotos de satélite, para estudar padrões de crescimento urbano e, assim,
planejar novas lojas. Já nos anos 2000, a companhia criou um programa, o Quintillion, que indica lugares para novas unidades a partir do cruzamento de mapas georreferenciais, dados demográficos, fluxogramas de produtos, pessoas e padrões de consumo. Tecnologia como a da NASA, das polícias, dos governos, dos bancos, dos exércitos poderosos. Eis, também, o negócio de vender hambúrgueres na sociedade de controle!
flecheira 105 - 07/04/09
pedagogia da revista
R$ 945,00 sumiram da escola. A direção do estabelecimento de ensino chamou a PM e apontou os suspeitos. Diversos adolescentes foram obrigados a tirar a roupa para serem revistados. Nada foi encontrado. Cenas de uma escola estadual da periferia de Goiânia. “Queremos segurança nas escolas, mas tem que ter limite!” — reclamou um pai perplexo com a condução do caso. Sem perceber que abrir a porta para a almejada segurança implica perscrutação ilimitada, extensiva a quem dela acredita necessitar.
um perigo para a sociedade. Qual?
Famosa proprietária de um shopping de consumo caríssimo de São Paulo foi presa juntamente com seus assessores. Ela foi sentenciada a mais de 90 anos de cana por diversos crimes de sonegação. Em poucas horas saiu livre porque os juízes não a consideram um perigo para a sociedade. De fato ela não é um perigo para a sua sociedade de granfinos. Ela é daquelas que se protegem dos outros: o perigo para a sociedade (dela). Isso tem um nome: seletividade do sistema penal. Tem outro: a propriedade é um roubo (das forças de invenção e contestação). E mais um: as outras sociedades são compostas por conformistas e otários.
melhor ou pior?
O governo brasileiro distribuirá à PM de todo o país armas do tipo taser, consideradas “menos letais”. Só isso já causaria o deleite da maioria, porém há mais: nas armas existem mecanismos de registro da hora do disparo e que permitem sua identificação para uma eventual auditoria. Deleite dos democratas. A assepsia da sociedade de controle induz à complacência. As palavras de um filósofo ecoam: perguntar o que é mais tolerável é cair numa armadilha.
Babel?
“A viagem foi bem menos perigosa do que a maioria esperava” declarou uma das integrantes da primeira visita turística ao Iraque desde 2003. Após beberem uma “ Heineken gelada” e caminharem por Basra, Uruk, Kerbala e Najaf, entraram no microônibus com ar refrigerado escoltado por seguranças particulares. Enquanto no porta-retrato ou no álbum destes turistas pioneiros ficarão pregadas as recordações desta “ viagem” em Bagdá, corpos e mais corpos silenciados por metralhadoras abrem espaço para novas e lucrativas expedições.
Hermanos...
Os correntes protestos na Argentina por mais segurança levaram o governo a anunciar um novo plano nacional de segurança pública: a contratação de 6.800 policiais, a compra de 500 viaturas equipadas com GPS, 5.000 câmeras de vigilância, além de 21.500 celulares a serem distribuídos para os caguetes de plantão. Os pontos principais de ação são as zonas de vulnerabilidade: periferias de Buenos Aires e de Mendoza. As pessoas reivindicam, confiam e apreciam cada vez mais equipamentos tecnológicos de monitoramento; é a naturalização de uma conduta policial em nome do bem comum e da prevenção geral. Desejam e clamam pela propagação do governo sobre as suas vidas e sobre a tua.
“ nômade não é forçosamente aquele que se movimenta: existem viagens paradas num mesmo lugar, viagens em intensidades” (gilles deleuze)
Hypomnemata nº 107
Do amor ao Estado e dos amantes da ordem
Argumentavam que essas pessoas entregavam-se nas mãos dos criminosos, por falta de presença do Estado, na medida em que o Estado só aparecia para pobres e favelados com sua face repressiva — a polícia —, capaz apenas de conter os efeitos e não as causas da violência e da insegurança. Para atacar as alegadas causas, era preciso investir em políticas públicas voltadas para redução da pobreza e ampliação do exercício de diretos. Seguindo tal argumentação, a polícia não serve para nada, logo, ela pode ser dispensada, abolida. Mas não foi isso que aconteceu. Hoje, o amor ao Estado e a atuação dos amantes da ordem, ampliou a presença da polícia como prova do zelo de governantes com os seus comandados. Diversificaram as atribuições dos policiais, agora divididas com policiais que não usam fardas militares. Atualmente, a polícia baixa, desce o cacete, para depois oferecer assistência social, médica e odontológica; dar cursos de formação cidadã e até oferecer serviços de agência de empregos.
Irmanadas às ONGs, financiadas por grandes empresas e coordenadas pelo governos estaduais, multiplicam-se os policiais bem formados e caridosos que atuam em periferias, vielas, cortiços, becos, bocas e bibocas, seduzindo um rebanho normalizado que atende, voluntariamente e com fervor, à convocação para serem, também, policiais que zelam pela saúde, bem-estar e segurança da comunidade. Essa educação para a ordem começou, no Brasil, com a aplicação das medidas sócio-educativas em meio aberto para jovens classificados como infratores, que recebiam, dentro e fora das instituições austeras, formação e formatação necessária para acreditar na sua condição de futuro cidadão e adolescente em desenvolvimento. A polícia, hoje, retoma suas funções iniciais de zeladora do bem comum, como anunciada em sua emergência na Europa, multiplicando a presença dos pastores laicos que cumprem suas cátedras policiais como atuação da chamada sociedade civil organizada. Assim, amplia-se o esplendor do Estado e faz-se o regozijo dos assujeitados e amantes da ordem que habitam os campos de concentração a céu aberto.
Na sociedade de controle, política e polícia se irmanaram como a tecnologia de poder que perpetua as práticas disseminadas de governo entre os assujeitados e a crença no Estado como incontornável condição de existência.
O bullying, de acordo com os mesmos especialistas, seria a prática, entre os alunos, de agredir física, verbal ou psicologicamente os coleguinhas.
Tal fenômeno provocaria tamanho transtorno psicológico, que levaria crianças e jovens a cometer suicídio ou a responder de forma extremamente violenta, como os massacres de Columbine, ou, mais recentemente, na Alemanha.
Esta relação despertou entre alguns a posição de perdedores radicais, cuja existência, sujeita a essa mesma ordem, se restringe à rancorosa destruição do outro que ele não consegue ser. São aqueles que, tendo suportado calados ou covardemente, uma série de sujeições e humilhações de outros colegas, reagem em uma explosão autoritária.
A partir destes casos extremos pesquisas são realizadas para fundamentarem novas medidas e investimentos sobre o corpo das crianças e dos jovens. Criam-se conceitos, doenças, e transtornos que passam a compor uma atmosfera de medo e desconfiança generalizada, e imobilizadora.
Pais, escolas, comunidade, médicos, polícia e os próprios alunos se voltam para a prevenção e contenção de um perigo (inexistente) que pode vir a existir. A paranóia é preferível ao descontrole, e desta forma, não sobra muito espaço para a vida.
Crianças e jovens, em qualquer lugar do mundo (ao menos aquelas que já não foram completamente podadas ou dopadas) gostam de experimentar. Experimentam sensações, sabores, sentidos, outras ordens e a sua potência.
31/03/2009
rebelião na Grécia, março (II)
(divulgado pela agência de notícias anarquistas – ana)
Belo exemplo grego que deveria ser seguido. Populares com marretas, picaretas, britadeiras, pás, e muitos sonhos, ocupam um estacionamento, destroem o asfalto, plantam árvores e transformam o lugar em parque público.
Durante todo o dia de sábado (07 de março), a Assembléia Popular de Exarchia ocupou um grande estacionamento próximo de onde morreu Alexis Grigoropoulos, para recuperar este espaço “cinza e asfaltado” da cidade e exigir sua transformação num parque. Na ação, os ocupantes, crianças, idosos, adolescentes, adultos, homens, mulheres, organizaram no local comidas coletivas, com vinho e danças.
Também foram feitas oficinas e, literalmente, os populares, com diversos utensílios, quebraram o asfalto do lugar aonde foram plantados pinhos e oliveiras. No período da noite, um grande quadro presenteado à insurgência grega pelos Zapatistas de Chiapas foi colocado na parede do edifício na frente do lugar do assassinato de Alexis, já tomado com centenas de cartas e uma placa de mármore posta pela família do jovem libertário. O dia foi encerrado com um grande concerto ao ar livre.
Já no dia anterior, sexta-feira (6), à noite, a três meses do assassinato de Alexis Grigoropoulos pelas mãos de agentes da polícia grega armados, manifestantes se reuniram no lugar de seu assassinato para um ato público. O quartel das Brigadas Antidistúrbios foi atacada com coquetéis molotov, e, em seguida, se deu fortes confrontos de rua com a polícia e manifestantes durante toda noite e madrugada.
Sulco fundo de arado.
A terra aberta ferida
Eis a vida.
Eunice Arruda
o duelo, de guimarães rosa
‘O Duelo’ é um dos nove contos de ‘Sagarana’, primeiro livro publicado por Guimarães Rosa. Em mais ou menos trinta páginas, num clima solerte e aventureiro, conta a história de uma perseguição, desencadeada através do sertões de Minas Gerais. Sabe-se que a literatura de Rosa é marcada pela inventividade, pelo experimentalismo da linguagem e da forma de contar histórias; e, como se já não bastasse, essa difícil originalidade é sobriamente permeada por uma atmosfera meio filosófica, uma metafísica própria das vastidões, asperezas e delicadezas do sertão mineiro, e própria das falas, cismas e silêncios de seus moradores, viajantes e andarilhos. Mas, se comparada à sua obra posterior, ‘Sagarana’ é quase leve, obra gostosa de ler, indicada principalmente para quem não ainda tomou contato com a desafiadora literatura roseana.
São narrativas cheias de incidentes, situações meio fantásticas ou imaginárias, mas que no mais das vezes não colocam os personagens em situações-limite, não têm o propósito de trazer para o leitor a dramaticidade e a trágédia, a peplexidade e as cismas de um ‘Grande Sertão: Veredas’, por exemplo. Além disso, não há ainda todo aquela festiva e genial abundância de criação de palavras, de liberdades sintáticas, de experimentações narrativas, que acaba por dificultar a fruição por parte de leitores menos habituados. Assim, ‘Sagarana’ è uma ótima porta de entrada para o inigualado universo de Gumarães Rosa. Segue abaixo uma vibrante e sedutora amostra dessas ‘quase sagas’ - ‘rana’ em tupi, significa algo como parecido, semelhante (Roberto Soares Coelho)
" Mas, por essa altura, Turíbio Todo teria direito de queixar-se tão-só da sua falta de saber-viver; porque avisara à mulher que não viria dormir em casa, tencionando chegar até ao pesqueiro das Quatorze-Cruzes e pernoitar em casa do primo Lucrécio, no Dêcàmão. Mudara de idéia, sem contra aviso à esposa; bem feito!.: veio encontrá-la em pleno (com perdão da palavra, mas é verídica a narrativa) em pleno adultério, no mais doce, dado e descuidoso, dos idílios fraudulentos.
Felizmente que os culpados não o pressentiram. Turíbio Todo costumava chegar com um mínimo de turbulência: ouviu vozes e espiou por uma fisga da porta; a luz da lamparina, lá dentro, o ajudando, viu. Mas não fez nada. E não fez, por que o outro era o Cassiano Gomes, ex-anspeçada do 1° pelotão da 2° companhia do 5° Batalhão de Infantaria da força Pública, onde as gentes aprendiam a manejar, por música, o ZB tchecoslovaco e até as metralhadoras pesadas Hotchkiss; e era, portanto, muito homem para lhe acertar um balanço na testa, mesmo estando assim em sumaríssima indumentária e fosse a distância para duzentos metros, com o alvo mal iluminado e em movimento.
Turíbio Todo não ignorava isso, nem que o Cassiano Gomes era inseparável da parabellum, nem que ele, Turíbio, estava, no momento, apenas com a honra ultrajada e uma faquinha de picar fumo e tirar bicho-de-pé.
Todavia, com o bom, o legítimo capiau, quanto maior é a raiva tanto melhor e com mais calma raciocina, Turíbio todo dali se afastou mais macio ainda do que tinha chegado, e foi cozinhar o seu ódio branco em panela de água fria.
E fez bem, porque então lhe aconteceu o que em tais circunstâncias acontece as criaturas humanas, a 19° de latitude S. e a 44° de longitude O.: meia dúzia de passos e todo o mau-humor se deitava num estado de alívio, mesmo de satisfação. Respirava fundo e sua cabeça trabalhava com gosto, compondo urdidos planos de vingança.
E pois, no outro dia, voltou para casa, foi gentilíssimo com a mulher, mandou pôr ferraduras novas no cavalo, limpou as armas, proveu de coisas a capanga, falou vagamente numa caçada de pacas, rui muito, se mexeu muito, e foi dormir bem mais cedo do que de costume. E isso foi na quarta-feira. Quinta-feira pela manhã...
(...)
Bem, quinta-feira de manhã, Turíbio Todo teve por terminados os preparativos, e foi tocaiar a casa de Cassiano Gomes. Viu-o à janela, dando as costas para a rua. Turíbio não era mau atirador: baleou o outro bem na nuca. E correu em casa, onde o cavalo o esperava na estaca, arreado, almoçado e descansadão.
Nem por sonhos pensou em exterminar a esposa (Dona Silivana tinha grandes olhos bonitos, de cabra tonta) porque era um cavalheiro, incapaz da covardia de maltratar uma senhora, e porque basta, de sobra, o sangue de uma criatura, para levar, enxaguar e enxugar a honra mais exigente.
Agora tinha que cair no mundo e passar algum tempo longe, e tudo estaria muito bem, conseqüente e certo, limpamente realizado, igualzinho a outros casos locais.
Mas... Houve um pequeno engano, um contratempo de ultima hora, que veio pôr dois bons sujeitos, pacatíssimos e pacíficos, num jogo dos demônios, numa comprida complicação: Turíbio Todo, iludido por uma grande parecença e alvejando um adversário por detrás, eliminara não o Cassiano Gomes, mas sim o Levindo Gomes, irmão daquele, o qual não era metralhador, nem ex-militar e nem nada, e que, por sinal, detestava mexida com mulheres dos outros. Turíbio todo soube do erro, ao subir no estribo . –Ui!.. Galope bravo, em vez de andadura!... – pensou. E enterrou as esporas e partiu, jogando o cascalho para os lados e desmanchando poeira no chão.
Cassiano Gomes acompanhou o corpo do irmão ao cemitério, derramou o primeiro punhado de terra, e recebeu, com muita compostura, entristecido e grato, as condolências petentes. Depois voltou em casa, fechou muito bem janelas e portas – felizmente ele era solteiro – e saiu, com a capa verde reiúna, a winchester, a parabellum e outros petrechos, para procurar o Exaltino-de-trás-da-Igreja, que tinha animais de sela para vender.
Comprou a besta douradilha; mas, antes, examinou bem, nos dentes, a idade; deu um repasse, criticou o andar e pediu uma diferença no preço. Encerrado o negócio, com os arreios e tudo, Cassiano mandou que dessem milho e sal à mula; escovaram-na, lavaram-na e ferraram-na de novo.
Já ele pronto, quando estava amarrando a capa nas garupeiras, ainda ouviu o que o Exaltino-detrás-da-igreja falou, baixinho, para Clodinho Preto:
- Está morto. O Turíbio Todo está morto e enterrado!.. Esta foi a última trapalhada que o papudo arranjou...
Cassiano pensou, fumou, imaginou, trocou, crismou, e, já a duas léguas do arraial, na grande estrada do norte, os seus cálculos acharam conclusão: Turíbio Todo tinha uns parentes na Piedade do Bagre, ou ali por menos longe... Para lá batera, direitinho, ainda assustado por conta do malfeito. Não podia ter tomado outro rumo, e, de seguro, dando o mais que pudesse, teria vindo a galope. Quando ele chegasse na Piedade – para diante não havia terras aonde um cristão pensasse ir, - descansado, junto de gente sua, tornaria e ter raiva e tratava de voltar nos passos.
E estava muito certo disso tudo:
- Ele vai como veado acochado, mas volta como cangussu... No meio do caminho agente topa, e quem puder mais é que vai ter razão... "
preparar a grande festa da humanidade
Registre-se também a breve queixa que o rapaz faz dos movimentos anarquistas, com relação à falta de firmeza e coerência dos mesmos. E o interessante é que esse texto vem sendo divulgado por entidades e espaços ligados ao movimento libertário e anarquista. Chamamos a atenção para esse detalhe, aparentemente insignificante, porque isso só mostra que há no movimento a necessária lucidez para perceber e lidar com suas próprias contradições, contradições que fazem parte de qualquer movimento que busca um mínimo de compreensão do desenvolvimento dialético da história e da humanidade.
E também mostra que o importante é ter em mente que, passar do velho para o novo, passar da compreensão à transformação das estruturas - seja para anarquistas, libertários ou socialistas - não significa exatamente agir de forma sempre coerente, perfeita, plena; afinal, isso seria fazer o jogo da velha ordem, seria deixar-se envolver por uma visão purista que somente beneficiaria aqueles que não querem a transformação, que fazem de tudo para negar a presença de pessoas, idéias e movimentos insatisfeitos com a ordem estabelecida.
Aos que querem conservar a ordem, é um ótima tática essa de desqualificar, apontar as incoerências, contradições e supostos oportunismos daqueles que pretendem revolucionar, como se aqueles que apregoam e forjam o novo tivessem que vir como anjos, tivessem que vir já como perfeitos frutos do novo. Como se os agentes da transformação não tivessem o direito de também estar em construção, a viver um constante e às vezes desgastante processo de ruptura com o dia a dia da ordem que negam, e na qual têm que trabalhar, evoluir, criar ou respeitar laços afetivos e familiares. E, nesse processo de recorrente construção e ruptura, claro que existem aqueles agentes que, em maior ou menor grau, aderem aos valores, práticas e vivências que caracterizam a velha ordem, passando reproduzir seus vícios, suas relações de poder, sua visão verticalizada e opressora. Mas isso não significa que todos os agentes da transformação enveredem por esse caminho, ou que não estejam minimamente lúcidos com relação a essas contradições e armadilhas.
Por outro lado, o detalhe acima apontado também mostra que, para aqueles que se colocam revolucionários da ordem, não há palavras, posições ou verdades definitivas. O movimento anarquista é passível das mesmas limitações, incoerências ou contradições que os socialistas. Uns e outros têm que se ver como complementos e não como oposição insolúvel ou agentes mutuamente excludentes.
Anarquistas têm que levar em conta que, talvez, talvez, o projeto de eliminar o Estado limitador, hierárquico e burocrático, somente possa se concretizar junto com o processo socialista, quer dizer, talvez uma sociedade libertária somente possa se consolidar a partir de um mínimo de superação do capitalismo pelo Estado socialista. Enquanto isso, libertários têm que aprender a respeitar e conviver com os agente do processo socialista, mas sem jamais renunciar à tarefa de denunciar os desvios desses agentes, seus deslumbramentos, seus oportunismos, suas reproduções das relações autoritárias próprias da velha ordem.
E, claro, também jamais renunciar à sua tarefa de insistir em apontar para os socialistas, e às pessoas em geral, o horizonte último da caminhada humana sobre a Terra, qual seja, o horizonte do congraçamento, da pacificação, da confiança, da riqueza de relacionamentos, da reverência para com os outros e com o mundo, enfim o horizonte da verdadeira Festa, com a qual podemos nos deparar lá à frente na História.
Anarquistas e libertários talvez sejam os últimos agentes que podem e devem manter acesa a chama que aponta para esse horizonte último da humanidade, e que aponta concreta e lucidamente, com argumentos e análises sérias, convincentes (sem se inspirar na metafísica própria da religião e nem se amparar na liberdade visionária própria da arte). Portanto, devem fazê-lo sem o constrangimento de parecerem utópicos, sonhadores, obsoletos, inconsistentes, escapistas e outros tantos adjetivos que são lançados - ora da direita, ora da esquerda - contra o movimento.
Já socialistas têm que meramente cumprir a sua tarefa de superação e eliminação do Estado capitalista, com eficiência e disciplina, lucidez e coragem, sem se preocuparem com um horizonte muito longínquo, com um hipotético mundo sem contradições e conflitos de qualquer ordem. Socialistas não trabalham com o ideal ou o desejável, mas com aquilo pode ser construído e forjado a partir das condições históricas presentes, concretas. Mas isso não os habilita a ignorar as posições de libertários e anarquistas, ou a desqualificá-las.
Pelo contrário, deveriam entender as aspirações libertárias como algo que mantém acesa a chama da utopia maior para a humanidade, como a lembrança de que a luta não se esgotará na superação do capitalismo, mas terá que ir adiante, rumo à supressão total de toda e qualquer estrutura que aliene o os homens e mulheres de sua palpitante relação com o mundo e consigo próprios.
Socialistas têm que ter em mira o horizonte apregoado pelos movimento libertário - claro, não para se basearem nele, mas para não se mumificarem, não se acomodarem, não se traírem no seu glorioso, redentor e indispensável combate contra o capitalismo, sabedores que os brados e barricadas libertários são como uma alerta para seus desvios de conduta no duro e cotidiano enfrentamento com as estruturas da velha ordem.
E, tão importante quanto os alertas, socialistas têm que aprender a ouvir os chamados à utopia feitos pelos libertários.
Afinal, anarquismo não é brincadeira, não é escapismo ou fuga da verdadeira luta; não é algo abstrato, que existiria independente da realidade humana, o anarquismo não tem vida separada do ser humano, não surgiu antes dos homens e mulheres, as exigências e propostas libertárias são exigências própria da condição humana, há todo um fundamento filosófico, ético e ontológico a ampará-las.
Na verdade, as aspirações libertárias são apenas uma síntese daquilo que há de melhor, mais digno e mais comovente na arte, na religiosidade, na cultura popular, na ação política. O que acontece é que o que diferencia esse diferença desse movimento está exatamente em propor tudo isso para aqui e agora, a essência do anarquismo está na sua postura de acreditar que o melhor do ser humano e da vida pode e deve ser vivido sem mais delongas, sem quaisquer mediações ou condicionamentos, sejam eles filosóficas, políticas, artísticos, religiosos ou econômicos.
Quer dizer, a riqueza libertária está em nos lembrar que sempre seremos capazes de dar o melhor de nós e despertar o melhor do mundo e dos outros aqui e agora. O anarquismo nos lembra que a Grande Festa da vida e do mundo não é utopia, sonho ou delírio, muito menos prêmio raro ou celestial, e sim algo a ser construído pela nossas mãos e mentes, pelos nossos corações e espíritos. . E essa lembrança, esse apelo deve ser levado a sério também pelos seus irmãos de luta, os socialistas das mais diversas correntes.
como escapar do serviço militar
Todos os anos 1,6 milhão de jovens alistam-se e cerca de 100 mil são incorporados ao Exército, à Marinha ou à Aeronáutica (em 2008 foram 80 mil), segundo o Ministério da Defesa. Desses, 95% declararam no alistamento desejo de servir. Os que não queriam, foram convocados por ter alguma habilidade necessária à unidade militar da região. “A Estratégia Nacional de Defesa pretende alterar esse quadro, de modo a que o serviço militar seja efetivamente obrigatório, e passe a refletir o perfil social e geográfico da sociedade brasileira”, anuncia o Ministério da Defesa, sem dar detalhes de como isso será feito.
Por ora, a única exigência feita para os dispensados é uma pastosa cerimônia de Juramento à Bandeira, tão esvaziada quanto a obrigação de executar o Hino Nacional antes das partidas de futebol em São Paulo. Ninguém reclama. Caio recusou-se.
Determinado a encontrar um meio válido de não jurar à bandeira, entranhou-se nas leis militares. Telefonou para o Comando Militar do Sudeste e soube que podia pedir para prestar um serviço alternativo e que, por não haver convênio firmado, isso resultava na dispensa automática. “Mas a secretária da Junta Militar me falou que só Testemunhas de Jeová podiam alegar objeção de consciência. Ela me mandou jurar à bandeira, mas eu estaria mentindo se jurasse dar a vida pela nação, pois jamais faria isso”, diz, com um sorriso tímido de quem mal deixou a adolescência.
De próprio punho, Caio redigiu uma “declaração de imperativo de consciência”, e declarou-se anarquista. A Junta Militar exigiu a declaração de uma associação anarquista confirmando o vínculo. Caio, então, contatou mais de vinte organizações em busca de, como diz, uma “carta de alforria”. Perdeu um ano nessa. “Os anarquistas brasileiros não tiveram a coragem de colocar em prática o que tanto pregam. A maioria está mais interessada em festinhas”, reclama. E pondera: “Acho que eles tiveram medo de ser fichados pelo Exército”.
Desiludido, encontrou na internet a organização Movimento Humanista. Enfim, sentiu que seria atendido. “Pregamos a não-violência e somos contra o serviço militar obrigatório”, diz Paulo Genovese, coordenador do grupo, que faz reuniões semanais e promove a Marcha Mundial pela Paz e pela Não-Violência.
Diante de nova declaração de objeção de consciência, a Junta pediu dados dos integrantes e o CNPJ da organização. Três meses depois, foi preciso detalhar quais eram as incompatibilidades do movimento com o serviço militar. Era janeiro de 2008. “Passei noites em claro redigindo. Fui pessoalmente entregar”, diz, satisfeito. Sustentou que os humanistas colocam “o ser humano como valor central”, enquanto os militares devem defender a pátria “mesmo com o sacrifício da própria vida”. E que o “repúdio à violência” é incompatível com o “amor à profissão das armas”.
Quatro anos e oito meses após se alistar, Caio pegou seu Certificado de Dispensa do Serviço Alternativo. Em 2008, apenas seis jovens foram eximidos por objeção de consciência. Nos últimos cinco anos, 232. Mas Caio foi pioneiro. “Nunca motivos políticos livraram alguém, o meu processo é o número 001/08. Abri um precedente e agora tenho onde lutar por minha liberdade e pela dos demais”, comemora ele, que é analista de dados de telemarketing. Há anos quer prestar concurso público. Agora pode.
não à captura da rede!
Com o advento da internet e com a proliferação dos blogues, os jornalistas de certo modo encontraram um espaço para o exercício da autonomia profissional, a possibilidade de escreverem aquilo que entendem ser a verdade factual a ser exposta ao público.
Este caminho, a par de representar para esses comunicadores a via para o exercício independente da sua atividade, resulta para o público na oportunidade de receber informação fidedigna, cada vez mais negada pelos órgãos tradicionais de imprensa, em face dos seus crescentes interesses.
No entanto, em alguns estados - e a Bahia é o exemplo que nos interessa - a proliferação dos blogues, não tem representado para o público acesso a informação de qualidade, com comentários e críticas consistentes e isentas. Ao contrário, os blogues por aqui acabaram se transformando numa amarga, triste e lamentável extensão das páginas e colunas dos jornais, rádios e emissoras de TV.
Os nossos jornalistas e assemelhados, habituados aos costumeiros contorcionismos, vendem a imagem de uma independência que não gozam, seja por conveniência pessoal ou porque não conseguem se desvencilhar do velho hábito imposto pelos patrões.
Observa-se que, sem qualquer pudor, transferiram para o blogues a subserviência e a insuperável vocação para transformar a profissão mal paga pelos patrões em rentável negócio. As críticas, quando feitas, ficam na superficialidade, afinal a sutileza é permitir ao próprio criticado entender que pega bem vender essa idéia de isenção e de radical cumplicidade com o público leitor. O descaramento é tal, que quase todos reproduzem as manchetes dos principais jornais do país, mas se negam a abrir espaços para críticas e comentários dos leitores. Em suma, ignoram os leitores e dialogam com os seus próprios botões. O resultado é que por aqui, os blogues transformaram-se em meras ‘bodegas noticiosas’ e extensão dos negócios dos seus titulares.
Um bom exemplo da visão comercial e dos interesses que permeiam a atividade da mídia local ocorreu nesta semana. O jornal A TARDE e a coluna do jornalista presidente da ABI Samuel Celestino, publicada no mesmo jornal, a partir de denúncia de bailarinos do Teatro Castro Alves, abriram fogo contra a Secretaria da Cultura, dirigida pelo diretor de Teatro Marcio Meireles. A animosidade contra a secretaria é clara e tem sido assunto de críticas de outros veículos. O secretário se defende dizendo que ao redirecionar os recursos gerou insatisfações uma vez que desmontou velhas estruturas que sempre se beneficiaram em administrações anteriores. Viria daí a inconformidade.
Na mesma edição do jornal, à primeira página vem uma manchete noticiando que aos estados da Bahia e do Piauí tiveram o pior desempenho educacional do país. Sobre essa verdadeira tragédia, nem uma palavra. Todos os colunistas, âncoras e blogueiros desta bela capital, sem exceção, enfiaram a viola no saco, porque educação pública diz respeito a pobre.
Como diz um radialista local: ‘nós somos formadores de opinião’. Para dar a exata dimensão do nosso estágio de primarismo e ignorância, imagine semi-analfabetos formando opiniões. Parafraseando o texto bíblico, enfim, quem bebe dessas fontes, sempre terá sede. E seguem todos bailando.
nos bastidores de Capitu
O tom dos textos é no mais das vezes bem didático e descritivo da rotina do grupo, mas passando para o leitor noções interessantes acerca da história do teatro, dos tipos de teatro e principalmente acerca do fazer teatral (Dinho Marques, o editor do blog, é professor de teatro na FAFI e diretor do Grupo Z).
Enfim, embora o blogue seja visivelmente dirigido para pessoas ligadas ao teatro, o leigo ou apenas espectador tem muito a ganhar com toda essa partilha de informações e vivências. Se ressalva há, é com relação ao aspecto excessivamente técnico ou detalhista que, às vezes, predomina nos textos. Mas nada que obrigatoriamente canse o leitor, não é difícil filtrar o que lhe interessa.
Claro, escrever é algo bem mais pesado, barroco e abundante do que o simples e gostoso dançar, mas é uma experiência que pode valer a pena, essa de acompanhar, ou ao menos visitar, através da escrita a gestação de mais esse trabalho do Dinho e o Grupo Z - e, claro, se possível conferir o resultado no palco.
Eu devo - essa foi a tarefa a mim encomendada - escrever sobre a última semana de ensaios. O problema é que eu não sei onde ela começa; eu não sei como ela termina. Tudo é contínuo, um fluxo. Talvez tudo isso tenha começado quando eu li pela primeira vez o Dom Casmurro, lá pela sétima série? Ou antes, quando em 1899 o romance foi publicado? Ou quando o romance, sabe-se lá de que forma, começou a se desenhar para o autor? Ou muito antes - e podemos ir pensando em vários elos, num exercício absolutamente inútil. Mas o fato é que a semana começa, se não me prega peças a memória - e ela sempre prega -, com os olhares; e esses olhares vêm de antes; no mínimo, da semana passada.
Os olhares. Os atores, divididos em dois grupos criaram cenas - não havia sobre essas cenas a serem criadas nenhuma exigência, podiam criar o que quisessem, qualquer cena curta: o exercício não estava aí. A questão era, na verdade, pontuar a cena criada com olhares: depois de feita, refazê-la, interrompendo o fluxo dramático com olhares que perdurassem no silêncio.
E foi interessante notar como há medo de parar a cena no olho, de interromper o diálogo. Medo dessa ação que nos parece, aristotélicos, inação. Mas melhor ainda foi forçar a barra nesse sentido, introduzir os olhares, e ir percebendo como eles sustentam a cena, como podem substituir falas que descobrimos serem desnecessárias, que só estão lá, provavelmente, em função de um vício nosso de querermos ser completamente entendidos a qualquer custo - como se isso fosse possível.
Os olhares são fortes e paradoxais - interrompem a cena e a sustentam; mostram a personagem e seu intérprete; levam a cena ao espectador e trazem-no para dentro dela.
Ao final - apenas como exercício -, repetimos a cena reduzida aos olhares. E ali estava tudo: o enredo, as falas, as ações, as relações, a cena. E vimos que os olhares - que são tão fortes no romance - são algo que queremos mesmo explorar.
Envolvido com Dom Casmurro, tendo a acreditar agora que tudo é uma questão de olhar. Escrito por Fernando, em 25/03/2009 " Roberto Soares Coelho
o twitter: o modismo e a arma política
saulo laranjeiras: nos braços da viola
TV Brasil começa a acertar
Ainda sobre a TV Brasil: para quem gosta de música popular no sentido estrito, deve conferir o programa comandado pelo cantor e compositor mineiro Saulo Laranjeiras, “Nos braços da viola”, às segundas-feiras, entre 19:30 e 20:00 h - aliás, com uma maior estabilidade na programação e um maior respeito aos horários, está ficando novamente agradável assistir à TV Brasil.
ashaninkas e franceses: celebração da diferença
Algo bem diferente de nossas elites - e da ampla parcela de nossa classe média que vive, ou imagina viver, segundo os padrões dessa mesma elite - que têm como hábito de elegância e de bom tom desprezar o que há de riqueza cultural no seu próprio. Isso, claro, supondo que conheçam o que há no meio do seu próprio povo. Isso, claro, supondo que se sintam como parte de um povo, qualquer que seja ele. Mas tudo isso não tem muita importância, afinal as práticas e os valores esquizofrênicos dessa elite e dessa classe média despersonalizada não contarão muito no novo mundo que se prepara.
rebelião na Grécia, março (I)
Últimas Ações na Grécia
os dióspiros vermelhos —
vai nascer o sol
10/03/2009
iara e a arca da filosofia
Numa visão marxista, ou do socialismo dito científico, pareceria simplesmente utópico e ingênuo querer “decretar” a mudança de postura do homem em relação ao mundo e a si próprio, sem pretender mudar antes as estruturas econômicas e sociais. Afinal, o comportamento individual está submetido aos costumes e práticas, aos valores e visões que ele encontra ao vir ao mundo. Seria uma visão idealista, não dialética, pretender que a vontade ou a idéia determine o real.Com certeza, não há como se opor à visão dialética do mundo e da história, nem é essa a pretensão de Abdalla; muito pelo contrário.
Mas há uma contribuição a se extrair da leitura de “O Princípio...” . Na verdade, a obra segue a linha de pensamento que tenta avançar para além de um marxismo que, em certa medida, reproduz o paradigma do capitalismo. Ou seja, um marxismo que tem uma visão de mundo produtivista, que considera o infinito progresso material o motor da própria história. Como se a transformação das estruturas sociais somente pudesse se dar através de mais e mais progresso material, com mais e mais agressão ao mundo físico que nos rodeia, e mais e mais restrição à riqueza espiritual e existencial que se habita em nós todos. Como se, sem usar as mesmas armas do capitalismo, o pensamento e a prática que propõem a transformação não tivessem mais como atrair seguidores, ou não tivessem mais o que propor.
Porém, sem negar, de forma alguma, a necessidade de enfrentamento das obsoletas estruturas capitalistas, neste ponto é o caso de se perguntar se não há algo em comum por trás do próprio capitalismo e do próprio socialismo, que seria o paradigma da agressão, do domínio obsessivo sobre o real. E talvez entender que a melhor forma de o socialismo transformador superar o capitalismo agonizante seja negar esse sedutor e arrogante paradigma do capitalismo, pensar e propor uma nova motivação para o estar-no-mundo do homem, um sentido novo, que não seja apenas o conquista pela conquista, e sim o da cooperação e do respeito ao mundo e ao outro e, porque não, o sentido do reverência ao mistério das coisas do cosmos e do tempo. Afinal, não fomos forjados para sermos apenas testemunhas de nós próprios e da história, há outras dimensões das quais devemos cuidar, às quais devemos desvelos.
‘O Princípio da Cooperação’ tenta dar a sua contribuição exatamente na construção desse novo processo de transformação do homem e da história.Mas voltando ao convite, com “Iara...” Maurício Abdala aventura-se agora no terreno da ficção, sem abandonar o fundo filosófico. Seguem o convite e o texto de divulgação enviados pelo autor.
Caros amigos
Um abraço
Imagine que, num dia comum, um estranho animalzinho saia da tela da televisão e convide você para uma aventura que marcará para sempre sua vida. Imagine que as coisas de seu mundo e a sua vida adquiram um outro sentido e você se encontre, de repente, desafiado a enfrentar enigmas e a mostrar toda a coragem e a sabedoria que nem sequer imaginava que possuía.Como você se sentiria ao encontrar-se em um universo habitado por criaturas engraçadas, inteligentes, com poderes mágicos e com o destino do mundo nas mãos?
A aventura de Iara e seu encontro com a misteriosa Arca da Filosofia irá conduzir você e seus amigos a esse mundo fantástico, em que lêmures, corujas, cães, galinhas e pavões são os protagonistas. Ao mesmo tempo em que desvenda mistérios, decifra enigmas e enfrenta desafios, Iara descobre o que se esconde por trás das aparências e, assim, começa a entender o mundo da filosofia. Ao se conscientizar de que tudo que a rodeia é carregado de significados e de histórias, a garota entende por que o estranho animalzinho entrou em sua vida, convidando-a para a maior, a mais bela e a mais profunda viagem de sua existência. (Texto do autor)
campanha veja outras caras
09/03/2009
veículos virtuais: opiniões e 'atitudes'
rumos da arte capixaba e cultura em rede
O Grupo Quintal de Teatro, após uma bem-sucedida temporada em Recife e João Pessoa, no mês de janeiro, retorna com a temporada em Vitória, antes de circular pelo Estado e por outras cidades do país.Entre 11 e 22 de março, de quarta a domingo, às 20h, o espetáculo “O Figurante Invisível” apresenta-se no Teatro Galpão. Ingresso Cultura em Rede Os membros do `Quintal`, conscientes do seu papel social enquanto agentes da arte/cultura, participantes ativos das batalhas do movimento cultural do Estado, - artistas que hoje têm a honra de interpretar na sua obra de arte `facetas da vida’ do artista de teatro, microcosmo do universo de todo artista, intelectual e outros guerreiros da vida sensível neste planeta - vêm lançar, através das redes de cultura das quais seus membros fazem parte, o ingresso cultura em rede. Vivemos, como artistas, nos queixando de nosso público, sempre insuficiente, dos poucos leitores das obras literárias ou de consumidores das artes plásticas; reclamamos dos órgãos públicos, que não tratam do tema com a seriedade e importância que merece, na proposição de uma política pública de cultura para o Estado e todos os seus municípios. Não temos encontrado soluções a curto prazo para estas questões, continuaremos buscando junto com todos destas redes, mas acreditamos mesmo nessa trama da cultura em rede, e queremos fazer a nossa parte. Dar a nossa contribuição, de alguma forma, para que os apreciadores de arte possam usufruir das obras que produzimos cada dia mais. E que eles sejam mais e mais a cada dia. Criamos um valor de ingresso, subsidiado por nós mesmos, artistas do Quintal, destinado àqueles que participam das redes de cultura. É um valor de 50% do valor da meia entrada, dando direito àquele que o acompanhar, de pagar meia entrada. Aliás, o Quintal já cobra dos artistas em geral, o valor de meia entrada em seus espetáculos. Temos o objetivo de trazer o público que participa das redes de cultura, que muitas vezes não `consome` mais arte porque não tem condições financeiras para tal. E é de extrema coerência com nossas palavras - queixosas de público, e pela óbvia razão do alimento arte, que precisamos ver as obras uns dos outros, e nos facilitar este acesso, sempre que possível. Sugerimos que um tipo de ingresso ou acesso, do tipo que estamos lançando, seja adotado pelos grupos e artistas que participam destas redes. Certamente nos veremos mais nas platéias uns dos outros, e outras pessoas serão contagiadas com o fluxo que faremos. Para poder usufruir do Ingresso Cultura em Rede, basta imprimir um email em seu nome (este, por exemplo), proveniente de uma rede de cultura, com o texto de divulgação do espetáculo, ou email marketing, e apresentar na bilheteria. Valores dos ingressos: R$ 20,00 inteira, R$10,00 meia (estudantes, artistas), R$ 5,00 cultura em rede (membros de redes de cultura indicadas), entrada franca para pessoas da terceira idade. No mais, desejamos encontrar cada um de vocês compartilhando conosco o palco do Teatro Galpão, em um dos dias dessa nossa pequena temporada, e sempre, nas nossas cotidianas batalhas pelo nosso espaço como artista nessa sociedade.


