Algo bem diferente de nossas elites - e da ampla parcela de nossa classe média que vive, ou imagina viver, segundo os padrões dessa mesma elite - que têm como hábito de elegância e de bom tom desprezar o que há de riqueza cultural no seu próprio. Isso, claro, supondo que conheçam o que há no meio do seu próprio povo. Isso, claro, supondo que se sintam como parte de um povo, qualquer que seja ele. Mas tudo isso não tem muita importância, afinal as práticas e os valores esquizofrênicos dessa elite e dessa classe média despersonalizada não contarão muito no novo mundo que se prepara.
31/03/2009
ashaninkas e franceses: celebração da diferença
Algo bem diferente de nossas elites - e da ampla parcela de nossa classe média que vive, ou imagina viver, segundo os padrões dessa mesma elite - que têm como hábito de elegância e de bom tom desprezar o que há de riqueza cultural no seu próprio. Isso, claro, supondo que conheçam o que há no meio do seu próprio povo. Isso, claro, supondo que se sintam como parte de um povo, qualquer que seja ele. Mas tudo isso não tem muita importância, afinal as práticas e os valores esquizofrênicos dessa elite e dessa classe média despersonalizada não contarão muito no novo mundo que se prepara.
rebelião na Grécia, março (I)
Últimas Ações na Grécia
os dióspiros vermelhos —
vai nascer o sol
10/03/2009
iara e a arca da filosofia
Numa visão marxista, ou do socialismo dito científico, pareceria simplesmente utópico e ingênuo querer “decretar” a mudança de postura do homem em relação ao mundo e a si próprio, sem pretender mudar antes as estruturas econômicas e sociais. Afinal, o comportamento individual está submetido aos costumes e práticas, aos valores e visões que ele encontra ao vir ao mundo. Seria uma visão idealista, não dialética, pretender que a vontade ou a idéia determine o real.Com certeza, não há como se opor à visão dialética do mundo e da história, nem é essa a pretensão de Abdalla; muito pelo contrário.
Mas há uma contribuição a se extrair da leitura de “O Princípio...” . Na verdade, a obra segue a linha de pensamento que tenta avançar para além de um marxismo que, em certa medida, reproduz o paradigma do capitalismo. Ou seja, um marxismo que tem uma visão de mundo produtivista, que considera o infinito progresso material o motor da própria história. Como se a transformação das estruturas sociais somente pudesse se dar através de mais e mais progresso material, com mais e mais agressão ao mundo físico que nos rodeia, e mais e mais restrição à riqueza espiritual e existencial que se habita em nós todos. Como se, sem usar as mesmas armas do capitalismo, o pensamento e a prática que propõem a transformação não tivessem mais como atrair seguidores, ou não tivessem mais o que propor.
Porém, sem negar, de forma alguma, a necessidade de enfrentamento das obsoletas estruturas capitalistas, neste ponto é o caso de se perguntar se não há algo em comum por trás do próprio capitalismo e do próprio socialismo, que seria o paradigma da agressão, do domínio obsessivo sobre o real. E talvez entender que a melhor forma de o socialismo transformador superar o capitalismo agonizante seja negar esse sedutor e arrogante paradigma do capitalismo, pensar e propor uma nova motivação para o estar-no-mundo do homem, um sentido novo, que não seja apenas o conquista pela conquista, e sim o da cooperação e do respeito ao mundo e ao outro e, porque não, o sentido do reverência ao mistério das coisas do cosmos e do tempo. Afinal, não fomos forjados para sermos apenas testemunhas de nós próprios e da história, há outras dimensões das quais devemos cuidar, às quais devemos desvelos.
‘O Princípio da Cooperação’ tenta dar a sua contribuição exatamente na construção desse novo processo de transformação do homem e da história.Mas voltando ao convite, com “Iara...” Maurício Abdala aventura-se agora no terreno da ficção, sem abandonar o fundo filosófico. Seguem o convite e o texto de divulgação enviados pelo autor.
Caros amigos
Um abraço
Imagine que, num dia comum, um estranho animalzinho saia da tela da televisão e convide você para uma aventura que marcará para sempre sua vida. Imagine que as coisas de seu mundo e a sua vida adquiram um outro sentido e você se encontre, de repente, desafiado a enfrentar enigmas e a mostrar toda a coragem e a sabedoria que nem sequer imaginava que possuía.Como você se sentiria ao encontrar-se em um universo habitado por criaturas engraçadas, inteligentes, com poderes mágicos e com o destino do mundo nas mãos?
A aventura de Iara e seu encontro com a misteriosa Arca da Filosofia irá conduzir você e seus amigos a esse mundo fantástico, em que lêmures, corujas, cães, galinhas e pavões são os protagonistas. Ao mesmo tempo em que desvenda mistérios, decifra enigmas e enfrenta desafios, Iara descobre o que se esconde por trás das aparências e, assim, começa a entender o mundo da filosofia. Ao se conscientizar de que tudo que a rodeia é carregado de significados e de histórias, a garota entende por que o estranho animalzinho entrou em sua vida, convidando-a para a maior, a mais bela e a mais profunda viagem de sua existência. (Texto do autor)
campanha veja outras caras
09/03/2009
veículos virtuais: opiniões e 'atitudes'
rumos da arte capixaba e cultura em rede
O Grupo Quintal de Teatro, após uma bem-sucedida temporada em Recife e João Pessoa, no mês de janeiro, retorna com a temporada em Vitória, antes de circular pelo Estado e por outras cidades do país.Entre 11 e 22 de março, de quarta a domingo, às 20h, o espetáculo “O Figurante Invisível” apresenta-se no Teatro Galpão. Ingresso Cultura em Rede Os membros do `Quintal`, conscientes do seu papel social enquanto agentes da arte/cultura, participantes ativos das batalhas do movimento cultural do Estado, - artistas que hoje têm a honra de interpretar na sua obra de arte `facetas da vida’ do artista de teatro, microcosmo do universo de todo artista, intelectual e outros guerreiros da vida sensível neste planeta - vêm lançar, através das redes de cultura das quais seus membros fazem parte, o ingresso cultura em rede. Vivemos, como artistas, nos queixando de nosso público, sempre insuficiente, dos poucos leitores das obras literárias ou de consumidores das artes plásticas; reclamamos dos órgãos públicos, que não tratam do tema com a seriedade e importância que merece, na proposição de uma política pública de cultura para o Estado e todos os seus municípios. Não temos encontrado soluções a curto prazo para estas questões, continuaremos buscando junto com todos destas redes, mas acreditamos mesmo nessa trama da cultura em rede, e queremos fazer a nossa parte. Dar a nossa contribuição, de alguma forma, para que os apreciadores de arte possam usufruir das obras que produzimos cada dia mais. E que eles sejam mais e mais a cada dia. Criamos um valor de ingresso, subsidiado por nós mesmos, artistas do Quintal, destinado àqueles que participam das redes de cultura. É um valor de 50% do valor da meia entrada, dando direito àquele que o acompanhar, de pagar meia entrada. Aliás, o Quintal já cobra dos artistas em geral, o valor de meia entrada em seus espetáculos. Temos o objetivo de trazer o público que participa das redes de cultura, que muitas vezes não `consome` mais arte porque não tem condições financeiras para tal. E é de extrema coerência com nossas palavras - queixosas de público, e pela óbvia razão do alimento arte, que precisamos ver as obras uns dos outros, e nos facilitar este acesso, sempre que possível. Sugerimos que um tipo de ingresso ou acesso, do tipo que estamos lançando, seja adotado pelos grupos e artistas que participam destas redes. Certamente nos veremos mais nas platéias uns dos outros, e outras pessoas serão contagiadas com o fluxo que faremos. Para poder usufruir do Ingresso Cultura em Rede, basta imprimir um email em seu nome (este, por exemplo), proveniente de uma rede de cultura, com o texto de divulgação do espetáculo, ou email marketing, e apresentar na bilheteria. Valores dos ingressos: R$ 20,00 inteira, R$10,00 meia (estudantes, artistas), R$ 5,00 cultura em rede (membros de redes de cultura indicadas), entrada franca para pessoas da terceira idade. No mais, desejamos encontrar cada um de vocês compartilhando conosco o palco do Teatro Galpão, em um dos dias dessa nossa pequena temporada, e sempre, nas nossas cotidianas batalhas pelo nosso espaço como artista nessa sociedade.
19/02/2009
fotopoema: advento
pequena pedra
no verde vê.
...água...
paredão de pedra
na névoa verte.
...água...
pedra cá pede.
pedra lá perde.
...água...
prece à.
pressa da...
...água...
poema: roberto soares
fotografia: roberto soares - santana do paraíso, vale do aço, minas
fotopoema: casarão
saias onde eu me
agarrei
no quintal o fantasma da
mangueira
no canto da sala a cadeira da minha
avó onde um dia
a dor me
esperará
mariana botelho
(fotografia: casa em padre paraíso, vale do jequitinhonha, minas - acervo da biblioteca municipal da cidade)matinal
pele
saber-lhe o cheiro de
terra o intenso
sabor de
chuva
colher com discreta
violência o primeiro
silêncio do
dia
mariana botelho
afinação
das coisas
quando uma coisa produz silêncio
ela está
pronta mariana botelho
Convocatória Libertária!
Há uma obviedade na recusa total aos partidos e organizações políticas; são parte do velho mundo. Somos os filhos malcriados desta sociedade e não queremos nada dela. Esse é o pecado que nunca nos perdoarão. Atrás das máscaras negras, somos vossos filhos. E estamos nos organizando.
Não nos esforçaríamos tanto em destruir o material deste mundo, seus bancos, seus supermercados, suas delegacias, se não soubéssemos que ao mesmo tempo socávamos sua metafísica, seus ideais, suas idéias e sua lógica.
Qualquer um poderia dizer que nossa revolta encontra seu próprio fim na medida em que se limita a destruição. Isto seria certo no caso de que junto aos enfrentamentos nas ruas, não houvéssemos estabelecido a necessária organização que requer um movimento a longo prazo: cantinas providas por saques regulares, enfermarias para curar aos nossos feridos, os meios para imprimir nossos próprios jornais, nossa própria rádio. A medida que liberamos território do império do Estado e sua polícia, devemos ocupá-lo, preenchê-lo e transformar seus usos de maneira que sirvam ao movimento. Deste modo, o movimento nunca para de crescer.
Desde Berlim a Madri, de Londres a Tarnac, tudo é possível.
A solidariedade deve transformar-se em cumplicidade. Os enfrentamentos devem expandir-se. Devem declarar-se as comunas.
Desta forma, a situação nunca retornará à normalidade. Desta maneira as idéias e práticas que nos unem serão laços reais.
Deste modo seremos ingovernáveis.
Transcrito de http://anarkopagina.org/noticias/grecia.nova.internacional.html
18/02/2009
flecheira libertária I
telhado, arremessaram telhas e a polícia desceu o cacete.
Especialistas, jornalistas e autoridades falam em punição e
reformas: expressão da guerra em torno dos resíduos de
instituições disciplinares. Aqui e ali a acomodação desse embate
se traduz numa nova institucionalização, que leva o nome de escola
democrática para as escolas preferenciais dos governos, e noutros
casos a agenciamentos de guetos e miséria cultural nada incomum em
grandes cidades de países desenvolvidos. No entanto, onde está a
coragem dos estudantes diante da urgência em abolir a escola?
comunidades. Amam a merda em que vivem. Não querem ultrapassá-la, mas governá-la. Detonam o espaço da escola; são aviltados pela polícia; explodem. Já vimos esse filme norte-americano, funcionando tanto para disseminar valores punitivos como a vã esperança no professor paciente e bonzinho capaz de normalizar a ortopedia escolar.
A delação transparente
Esta é a frase que o nadador celestial profere dia e noite para se desculpar do uso festivo da sua maconha. O jovem nadador constata que é um produto valioso da eficiência individualista no capitalismo e se prepara para aceitar as punições. Os contratos não serão renovados sem pedidos de perdão eterno. Em breve, ele, rico e arrependido, se transformará em encenador de devoções religiosas e do bom-mocismo cidadão como já ocorreu com vários outros esportistas. Aprendeu que a ilegalidade impune e lucrativa se comete na surdina. I’ sorry, mesmo!(Flecheira 98, 18/02)
Em Manhatan as dondocas-adornos de financistas de Wall-Street fundaram um grupo de apoio às suas colegas, o DABA (Namoradas de Banqueiros Anônimas) tipo A. A. , mas sem abrir mão do acesso restrito, é claro, para se solidarizarem e trocarem desabafos sobre a crise, lamentando “ de gastos em seus cartões de crédito” ou “ o sexo passou a ficar horrível!” ou “ estão entediadas”. Suas vidinhas de mulherzinhas seguem impecáveis.
Em São Paulo, noivas e esposas de investidores bem sucedidos do mercado financeiro, que aspiram ser como as do top de Manhatan, comentam na coluna social como sofreram abalos indescritíveis, “ como ficar sem uma babá para o filho, que só dá para pensar em ter após ter feito o primeiro ou segundo milhão de dólares? E o que é pior como viver sem uma babá e uma enfermeira?” Rindo, começam “ a pensar em vender a mãe para recuperar investimentos...” Suas vidinhas de mulherzinha seguem incólumes.
Numa roda de peruas classe média periféricas, que desejam um dia ascender a aspirantes e a top, uma delas diz às outras: “ não agüenta mais ter de vender tudo para pintar o cabelo, lembrando que seu ex-marido a alerta: por favor só não venda as crianças!” Ela, solícita, o tranqüiliza, dizendo que caso as venda, não as entregará. Os seus cabelos e a sua vidinha de mulherzinha seguem intactos.
Uma enquete com jovens estudantes de Economia que acabam de ingressar na universidade, aponta que eles escolheram o curso porque “ trabalhar na área de investimento financeiro.” (Flecheira 98, 18/02)
17/02/2009
os ingovernáveis deste mundo: anarquistas e libertários
dois manifestos libertários
FSM 2001
Não iremos ao Forum "Social" Mundial! E não estamos sós!
Companheir@s
Nós não iremos ao autoproclamado Fórum Social Mundial. Em nosso coletivo, há um "consenso" de que tal Forum é a tentativa dos setores da esquerda tradicional, a velha esquerda estatista e burocrática, de apropriar-se da luta contra a "globalização" capitalista numa perspectiva nacional - desenvolvmentista. É a esquerda que quer o capitalismo "humanizado"; que quer "socializar" a mercadoria; que quer governar o Estado. Não é à toa que se realizará em Porto Alegre, escolhida, aliás, como capital permanente do evento: é o laboratório dos governos da esquerda oficial em nosso país, com o PT à frente.
O Forum é uma articulação que vai desde a Conferência dos Bispos Católicos (CNBB), passando pela degradada CUT, os partidos da esquerda institucional, o MST, até organizações empresariais.
A estrutura do Forum é hierárquica, verticalizada, como sói de ser esses eventos da esquerda burocrática. Palestrantes/conferencistas, de um lado, e, de outro, público espectador. Não tem nada a ver com as nossas experiências horizontais, democráticas, autônomas, organizadas desde baixo, como no N30, M1, S26 e assim por diante. Aliás, é preciso que se diga: nenhum dos grupos que estão organizando o FSM participou de nenhum dos dias de ação global contra o capitalismo!!!! Eles não se sentiriam bem: o que eles sabem fazer são os velhos congressos de "representantes" que não representam ninguém, manifestações que mais parecem "showmícios", campanhas eleitorais mais estetizadas do que as dos partidos tradicionais da burguesia...
O que eles querem com esse Fórum?
1. Apropriar-se de uma luta da qual não participam: os dias de ação global conta o capitalismo;
2. Absorver a crítica anticapitalista numa elaboração de um projeto de administração capitalista, cujo centro a ilusão de uma política de "desenvolvimento nacional";
3. Catapultar-se eleitoralmente como alternativa de governo.
Nós não vamos ao Forum Social Mundial. Nem nós, nem a grande maioria (se não a totalidade) dos grupos que vêm participando das lutas em nosso país contra a farsa dos 500 anos, das ações globais, que rejeitaram a burocratização e a partidarização do II Encontro Americano pela Humanidade e contra o Neoliberalismo...
Coletivo Contra-a-corrente, 6 de Dezembro de 2000
Mais uma vez, milhares de todos os continentes acorrerão ao FSM: governos de esquerda, entidades clericais, ONGs, intelectuais, catedráticos, estudantes, grupelhos ideológicos detentores de toda verdade ou de humildes meias-verdades, políticos profissionais, sindicalistas, ou seja, representantes e especialistas de toda espécie; igualmente, gente desavisada e curiosa, muitos turistas e até mesmo indivíduos e coletivos revolucionários, organizados ou desorganizados, alguns honestos e de boas intenções. De fato, o arco-íris perde feio para a infinidade de cores que vai se estabelecer em Porto Alegre, em fins de janeiro e início de fevereiro de 2002. Perde feio exatamente ali onde a diversidade de cores do arco-íris é uma diversidade real, ao passo que o falso arco-íris do FSM é o inútil arremedo da diversidade que o mercado e os estados conseguem produzir quando para isso se esforçam.
Janeiro de 2002, sob os sons e as cores da insurreição d@s proletarizad@s contra o estado argentino.
Coletivo Acrático Proposta (Belo Horizonte), Proletarizad@s contra a corrente (Fortaleza), alguns anticapitalistas do Rio Grande Sul e do Ceará, Moésio Rebouças (São Paulo), Anselmo Malaquias, Tomás Bueno (Pirenópolis) vivendo sob e contra o estado brasileiro.
11/02/2009
A ex-República das Bananas não se curva mais para as Romas do mundo
(http://www.cartamaior.com.br/templates/colunaMostrar.cfm?coluna_id=4080) de Flávio Aguiar, colunista de Carta Maior, enfatiza um pouco mais esse aspecto das recorrentes tentativas de desqualificação do governo brasileiro por parte da imprensa, dessa vez a mídia agindo como se a atitude do Ministro Tarso Genro fosse algo inconsequente ou impensado, fosse um mero capricho de quem detém o poder ou fosse uma decisão baseada numa suposta amizade com o acusado Csare Battisti. A seguir, um trecho: “(...) O que se pode dizer depois de todo esse percurso é que pairam consistentes dúvidas sobre a lisura de tudo. E que num caso desses, o que se pode pregar, do ponto de vista da justiça, é o princípio do “in dubio pro reo”. Mas na imprensa conservadora vale o princípio segundo o qual “in dubio” ou “in certeza”, pau no governo Lula. Nessa ótica, até certo ponto, Battisti é irrelevante. O que importa é desqualificar o ministro (...)
Ainda sobre o caso Battisti, DESVELAR transcreve abaixo um texto bastante esclarecedor, com relação ao aspecto jurídico e político do processo, de autoria de Renato Simões.
BATTISTI E A UNIÃO DAS DIREITAS ÍTALO-BRASILEIRAS
Nos próximos dias, o Supremo Tribunal Federal se reunirá para decidir sobre o futuro de Cesare Battisti, cidadão italiano acusado de crimes políticos da luta armada dos chamados "anos de chumbo" em seu país, a quem o governo brasileiro concedeu, em decisão soberana, o status de refugiado político. Com a decisão adotada pelo Ministro Tarso Genro, o caminho do pedido de extradição de Cesare Battisti, preso desde 2007 em Brasília, deverá ter o caminho do arquivo. Deverá? Eis a questão que hoje movimenta animadas figuras expressivas do pensamento de direita dos dois países diretamente envolvidos – Itália e Brasil – e de toda a aldeia global.
A decisão do Supremo será tomada num contexto de franca ofensiva de comunicação dos reacionários dos dois países. A jurisprudência é clara, fixada em decisões anteriores do STF similares ao caso de Battisti, inclusive os que envolvem fugitivos da Justiça Italiana procurados ou condenados por ações armadas nos anos 70, quando a Corte brasileira negou os pedidos de extradição com fundamentos praticamente idênticos aos adotados pelo Ministro Genro em sua decisão atualmente tão contestada. Ela própria considerou constitucional dispositivos previstos na Lei 9.474/97, a mesma base utilizada para o parecer do Procurador Geral de Justiça em defesa do arquivamento do pedido de extradição movido pelo governo italiano contra Battisti, após a decisão soberana do governo brasileiro lhe concedendo o refúgio.
O que cria o suspense sobre a manifestação do Supremo é o contexto de luta política que se seguiu, tanto no plano interno quanto no internacional, contra a decisão de Tarso Genro, amparada em unânime e bem articulada grita dos meios de comunicação de massa dos dois países.
Sucessivos governos italianos assimilaram com aparente tranquilidade o asilo informal concedido a Battisti e outros participantes da luta armada na Itália pelo presidente François Mitterrand. Por mais de uma década, eles viveram em paz na França, ali constituíram família e desenvolveram atividades profissionais, sob a condição imposta pelo governo socialista que os acolhia de renúncia formal à luta armada. Battisti assinou tal declaração, casou-se, teve duas filhas, escreveu livros e construiu sua vida na França até que os ventos conservadores que varrem o Velho Continente levaram ao poder a direita francesa e Jacques Chirac lhes cassou o status conferido por Mitterrand. O mesmo não sucedeu desta feita.
Alguns "crimes" cometidos na decisão do Ministro da Justiça no caso Battisti açodaram a direita italiana em sua reação furiosa. Um deles foi a menção à violação aos direitos humanos pelo Estado Italiano, extrapolando as próprias leis de exceção editadas no período: "é público e incontroverso, igualmente, que os mecanismos de funcionamento da exceção operaram, na Itália, também fora das regras da própria excepcionalidade prevista em lei. Tragicamente, também no Estado requerente, no período dos fatos pertinentes para a consideração da condição de refugiado, ocorreram antes momentos da Historia em que o 'poder oculto' aparece nas sombras e nos porões, e então supera e excede a própria exceção legal. Nessas situações, é possível verificar flagrantes ilegitimidades em casos concretos, pois a emergência de um poder escondido 'é tanto mais potente quanto menos se deixa ver'. Isso é professado em nome da preservação do Estado contra os insurgentes, que não é menos ilegítima do que as ações sanguinárias dos insurgentes contra a ordem", afirma Genro em sua decisão (parágrafos 17 e 18).
Berlusconi e a direita italiana não gostaram de ver apenas o seu passado remexido. Ao analisar o pedido de Battisti, e fundamentar sua decisão igualmente na sua condição de perseguido e nos riscos à sua vida e integridade pessoal decorrentes da extradição solicitada pela Itália, o Ministro Genro também aponta elementos de continuidade entre a situação de exceção vivida nos anos 70 e a ofensiva da nova velha direita italiana de retomar os processos contra os militantes da luta armada daquele período. "Concluo entendendo, também, que o contexto em que ocorreram os delitos de homicídio imputados ao recorrente, as condições nas quais se desenrolaram os seus processos, a sua potencial impossibilidade de ampla defesa face à radicalização da situação política na Itália, no mínimo geram uma profunda dúvida sobre se o recorrente teve direito ao devido processo legal. Por consequência, há dúvida razoável sobre os fatos que, segundo o recorrente, fundamentam seu temor de perseguição", encerra Genro sua decisão (parágrafos 43 e 44).
Assim, o presidente espetaculoso da Itália, montado em sua coligação que integra todas as tonalidades do pensamento mais direitista de seu país, incluindo-se aí os neofascistas e racistas da Liga do Norte, e ainda respaldado pelos meios de comunicação de que é proprietário privado e dos meios de comunicação estatais sob seu comando, transformou o caso Battisti num elemento de "união nacional" e de legitimação do Estado Democrático de Direito italiano pretensamente atingido pela decisão do governo brasileiro.
A direita tupiniquim alvoroçada encontrou um mote para fustigar o governo Lula, no contexto de uma crise internacional que elevou ainda mais a popularidade do Presidente e do próprio governo a patamares recordes de mais de 80%. Alinharam-se assim os principais editorialistas dos jornais escritos e as redes de televisão no ataque à soberania brasileira, reproduzindo os argumentos fascistas de autoridades italianas que nos remetem à condição de República de Bananas a desafiar o berço do Direito e da Civilização Cristã Ocidental.
Nesta cruzada, direitas ítalo-brasileiras se juntaram, pressões diplomáticas injustificáveis foram adotadas na Itália e justificadas no Brasil, expressões preconceituosas e discriminatórias ofensivas contra o povo brasileiro foram veiculadas por meios impressos, rádio, TV e internet por uma direita sem bandeiras e sem outras perspectivas para o Brasil que não seja a submissão covarde aos ditames dos governos dos países que compõem o G-8, mesmo que econômica e politicamente decadentes, como é o caso da corte bufa de Berlusconi.
Vejamos como o STF resolverá o 'imbroglio'. Se manterá suas decisões anteriores, baseadas no direito e na Constituição brasileiras, ou se fará média com a mídia e os setores conservadores transnacionais em campanha para fazer de Battisti um instrumento da afirmação de sua prepotência e autoritarismo.
Renato Simões é conselheiro nacional do Movimento Nacional de Direitos Humanos (MNDH)
Balanço do Fórum e do outro mundo possível
Rumos do FSM
Militantes esquerdistas, membros de governos progressistas (principalmente da América Latina), intelectuais e acadêmicos de várias partes do mundo – variadas são as vozes que vem se indagando sobre a necessidade de uma maior abertura do Conselho Internacional (a principal instância dirigente do FSM) para os partidos e governos.
Cobram também uma tomada de posição mais clara e comprometida do Fórum em relação aos problemas mais urgentes e complexos por que passa a humanidade: os profundos abalos sofridos pelo capitalismo, a dramática e imprevisível crise do aquecimento global, o Massacre de Gaza e a possibilidade de que os governantes dos países centrais do venham a promover uma guerra em grande escala, como solução para a séria ameaça de paralisia que ronda a engrenagem capitalista; para quem acha mirabolante ou catastrofista a possibilidade da guerra, analistas lembram que foi de fato através da 2ª Guerra Mundial que os países desenvolvidos se recuperaram da Crise de 1929.
Mas, voltando ao FSM, a grande cobrança feita aos seus dirigentes e participantes é a de que o Fórum não continue a funcionar tão somente, ou prioritariamente, como um espaço para intercâmbio de experiências, vivências e projetos entre ONGs, militantes, movimentos sociais e entidades diversas; enfim, que o Fórum supere a fase de resistência ao neoliberalismo, e participe da construção efetiva de “um outro mundo possível”, junto com os movimentos sociais e com os governos progressistas e de esquerda, principalmente os da América Latina.
Um bom e lúcido exemplo do debate em torno dos rumos do FSM está no texto do sociólogo Emir Sader, publicado originalmente no site de Carta Maior. Entre tantos e ótimos textos, DESVELAR decidiu publicar o de Emir Sader, em razão da síntese que o sociólogo faz do último encontro e das suas propostas para o futuro do Fórum. Leia o texto aqui.
De qualquer forma, com todos os problemas e impasses, é preciso celebrar o advento e a continuidade do Fórum, que há quase uma década soube agrupar e catalisar as inúmeras manifestações de resistência e enfrentamento ao modelo econômico neoliberal que, através de um capitalismo extremado, pretendia transformar o planeta, as pessoas e a própria vida em meras peças de um absurdo e abstrato jogo de poder e conquista.
Abaixo, seguem alguns links, também com ótimas análises, para quem quiser se debruçar um pouco mais nessa questão dos rumos do FSM e dos avanços na construção de “um outro mundo possível”, com alternativas inteligentes e transformadoras para o enfrentamento da profunda crise provocada pelo modelo capitalista, em todos os seus aspectos: econômico, ambiental, alimentar, energético e, por último, mas não menos importante, também nos aspectos moral, espiritual e existencial; afinal, percebemos com cada vez mais indignação, urgência e perplexidade o quanto o capitalismo - depois de ter cumprido o seu papel transformador na história - tem tornado o homem triste, pobre, hostil, amedrontado, limitado e limitador. Assembléia das Assembléias teve pouca força aglutinadora:
05/02/2009
falas - a fascinação pelo pior
A seção “Falas” é um espaço reservado para trechos de obras em prosa, de autores consagrados ou não, publicados ou inéditos.
Inauguramos com um fragmento do livro “A fascinação pelo pior’, (publicado no Brasil pela Editora Rocco, em 2008) do jovem escritor francês Florian Zeller, nascido em 1979.
“Já tinha observado, por exemplo, que é muito raro as pessoas abandonarem essa atitude falsamente distanciada e irônica que as protege tão bem do mundo. Hoje em dia, tudo o que se expressa só pode fazê-lo através do filtro deformador da aproximação rápida e do humor - não o humor, na verdade, mas a piada, a ironia, a mera leviandade. Tudo vira pretexto para rir, mas se trata de um riso besta e grosseiro. Todos, no fundo, absolutamente distantes uns dos outros, o que significa dizer, no fim das contas, uns à custa dos outros. Alguém que pense e sinta por conta própria nunca poderia participar dessa espécie de euforia triste. É algo que sinaliza o fim da conversação entre as pessoas e, portanto, de certa forma, aponta para o reino da solidão.” (Florian Zeller, “A fascinação pelo pior”, p. 90)
partida
apenas mais dois pontos
: nesse universo de pontos
meus dois olhos em prantos
prontos para a despedida morrer é apenas
a unificação de tantos pontos vicente filho - para paul celan
parado na multidão
um minuto que fosse
e se deparasse comigo numa esquina
daqui, de cachemira ou de candahar
eu sorriria
não para mim, nem de mim, nem de si olharia desconfiado para o lado
desajeitado querendo olhar para trás
querendo acenar
mas seguindo - ainda bem
procurando outro bobo
em outra esquina vicente filho
volúpia
a flecha
Minha volúpia
percorre o artesanato
do teu corpo
Chego
à longitude
do teu sexo
e do teu recato
Tua inocência
se fecha
tardiamente
Logo
cansa-se o guerreiro
que mora
no meu sangue
Guardo o arco
e vou-me embora
Não sei até que
ponto
eu feri
o teu céu azul
simón zavalla - 'biografia circular'
ilegibilidade
mundo. Tudo duplo.
Os relógios poderosos
dão razão à hora físsil
roucos
Tu, encalacrado em teu âmago
te apeias de ti
para sempre.
(paul celan - 'partitura da neve', 1971)Comentários de Flávio Kothe:
Celan não viu mais serem publicados os poemas seguintes, suicidou-se no início de 1970. Eles são o fascinante registro de uma peregrinação para a morte. Parece que ele desiste de cavalgar a noite que havia se apossado dele. A duplicação do mundo na tradição metafísica (mundo terreno x mundo divino, corpo x alma, pensamento x sentimento, etc) parece ser a causa da ilegibilidade dele. O marcador do tempo já está rouco, mas o principal é que ele, Celan, é como um escorpião que já picou a si mesmo com a sua própria cauda. Os poemas de Paul Celan, publicados aqui no DESVELAR, na medida do possível virão acompanhados dos comentários feitos Flávio R. Kothe, pelo tradutor e organizador "Paul Celan, hermetismo e hermenêutica" . Optei por publicá-los, em razão de se tratar de poesia hermética e de refletir uma vivência complexa e polêmica como foi a de Celan. Oportunamente, teremos uma uma abordagem mais detalhada, tanto dos comentários quanto da peosia de Celan.
ó tu com a funda
ó tu com a pedra:
é noite sobre noite
eu brilho aquém de mim mesmo.
Traga-me para baixo
leve-nos a
sério
(paul celan - 'partitura da neve', 1971)
Comentários de Flávio Kothe:
Elegia 1938
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo
praticas laboriosamente os gestos universais
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual
Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas
Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.
Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear
Coração orgulhoso, tens pressa de confesssar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a Ilha de Manhattan.
Carlos Drumond de Andrade (da obra 'Sentimento do mundo', 1940)Na fala acima, há setenta anos atrás, a poesia ja apontava o empobrecimento da vida e das pessoas vivendo num modelo de civilização que já começava a dar sinais de esgotamento. Modelo baseado na conquista e na dominação do mundo, das pessoas e do próprio tempo, civilização baseada na velocidade, na pressa de atingir um horizonte nunca completamente alcançável e cada vez mais distante, e que já trazia como consequência direta para a vida o isolamento, a fragmentação, o desconhecimento e a hostilidade entre pessoas.

