23/05/2009

fotopoema

café da manhã de domingo

apanhado
desacompanhado
desfocado
cortado
faminto
à porta da padaria. sem apanhar nosso pão gostoso de cada dia.
poema e fotografia: Roberto Soares Coelho

explosões do verbo e da cidade

Depois de mais de dois meses sem praticamente a presença da poesia neste blogue, uma seleção de poemas focados na vida urbana, uma visita íntima a este caótico, precário e cada vez mais explosivo espaço onde desenrolamos nossas resistências e sobrevivências - exatamente as resistências que tornam este nosso espaço também cada vez mais fascinante, sedutor e promissor.

De início, dois poemas bem parecidos na temática, e não só na atmosfera ou cenário, os excelentes ‘Constelação’, de Carlos Ernesto, e ‘As filhas da noite’. Este último é de José Antônio Cavalcanti, editor do blog “Poemargens”. Do poeta Zantonc, como o próprio se autodenomina, publicamos também a última parte da trilogia ‘Ar, margens, dons’.

Quanto a Ernesto, quatro poemas este mês. DESVELAR já publicou, em dezembro, o seu ‘Poema inexato a artur rimbaud’. Vale registrar que os seus poemas são produto de uma sensibilidade e um talento precoces, foram escritos por Ernesto dos 14 aos 18 anos e fazem parte do ‘Flutuais’, editado artesanalmente em 1985.

De Waldo Motta, alguns poemas talvez não falem expressamente do cenário urbano, talvez uma fala mais existencial, mas não deixa de ser uma fala que brota no meio e em função da vivência urbana - e de suas violências. Permitindo-me aqui um vôo da imaginação, vejo uma íntima complementação entre Waldo e Ernesto: como se os irados e desdenhosos clamores de Ernesto em ‘Nosso tempo’ fossem respondidos pelo pacificado solilóquio de ‘O labor discreto’ - aliás, Waldo parece também dialogar com um próprio poema seu, o 'Receituário..' .
Ou como se, numa divertida sobreposição de vozes, Ernesto, em ‘Noturno’, estivesse a confirmar com ironia um poema de Waldo, o ‘Limiar’ (publicado em janeiro), como se estivesse a descrever, com impiedosa frieza e sarcasmo, o ‘personagem’ do poema.

Vicente Filho não esquece sua marca registrada (aquela ironia mesclada de melancolia já apontada aqui, num comentário publicado em novembro) e no poema 'no shopping' sai destilando-a pelos sedutores corredores dos shoppings - esses assépticos templos do consumo, ninhos da apatia e do deslumbrado conformismo, a esconder a solidão, o medo e a indiferença, em meio a multidões, vitrines e luzes multicoloridas... e, claro, em meio a mercadorias, milhares delas, sempre renovadas e sempre se insinuando aos consumidores, como se fossem uma real e inadiável necessidade em suas vidas; e depois VIcente num belo e convincente contraponto aponta o dedo para as feridas do mundo de verdade: ‘fora do shopping’.

Trago também mais um fotopoema de minha autoria, ‘Café da manhã de domingo’. A foto, eu a fiz creio que em 2000, quando ainda aprendia a fotografar. É fácil reparar nas falhas: os pés do garoto cortados, a imagem meia embaçada, com o objeto mal focado. O poema propriamente dito, creio que o escrevi um ano depois, e o interessante é que muito do poema repousa nas falhas técnicas da foto, quando jogo com o corte do garoto e da foto, com o ‘desfocado’ da imagem e do olhar do personagem, mas a interação saiu de forma extremamente espontânea, sem a preocupação de tentar justificar as falhas da foto - um desses ‘misteriosos’ desvelamentos da criação artística. Registro ainda que a foto foi tirada próximo a uma padaria do centro de Vitória, a ‘Pão Gostoso’, mas de resto poderia ser obtida em qualquer lugar da cidade, são personagens que abundam por aí - desde que ‘fora do shopping’, é claro.

Assim como também estão em toda parte da cidade sinais de uma explosão/implosão cada vez mais iminente. Como, aliás, também já alerta o poema ‘Receituário para racistas...’, de Waldo Motta, com suas incendiárias invocações de 'um angu' a respingar para todos os lados e em cima de todo mundo.
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Enfim, aí estão algumas explosões do verbo a tentar retratar as explosões e implosões de cada dia na cidade.
Mas que as potencialidades dessa explosão sejam, sim, canalizadas para a destruição do que essa ordem tem de ruim, ultrapassado, desumano e... bárbaro, rumo à construção de algo libertário, decente. Porque, afinal, alguma explosão vai com certeza acontecer, e afinal é melhor alguma explosão real do que essas pequenas e disfarçadas explosões e implosões do dia a dia.

Pois o risco é que fiquemos apenas nessas pequenas e fragmentadas explosões, que vão aos poucos instalando a barbárie nas cidades e nas nossas vidas, e aos poucos vão fazendo com que aceitemos a barbárie como algo natural. O risco é, também, que essas implosões do dia a dia sejam cada vez mais utilizadas pelos poderes do Estado, que sejam conduzidas ou manipuladas rumo à barbárie, barbárie essa que contribui exatamente para a manutenção da velha ordem: violência, consumismo, medo, existências deprimidas e sufocadas, até que se instale de vez uma instabilidade quase total: nas ruas, no trabalho, em casa, no trânsito.

Pois claro que tudo isso é muito interessante para o atual sistema de poder, afinal seria a ordem feita de desordem, seria a ordem da instabilidade, a ordem que deixaria a todos e todas assustados, reacionários e à mercê das exigências e promessas do Poder de plantão, promessas e exigências que com certeza sempre virão vazadas num tom de urgência e de esperança; ou seja, primeiro cria-se um caos, depois exigem-se sacrifícios e renúncias da massa assustada e, ao mesmo tempo, acena-se com mudanças e soluções que sempre estão um pouco mais além do presente, num eterno recomeço, com mais caos e mais sustos e renúncias, e mais projetos de mudanças e soluções... Enquanto isso, a barbárie preenchendo cada dia mais os nossos espaços, ao mesmo tempo em que a ordem anestesia-nos com seus corredores de shoppings atulhados de bugigangas, eletrônicas ou não, e anestesia-nos com vários outros narcóticos, internéticos ou não.

E que a explosão seja como uma resposta àquele grito lançado há décadas por Drummond, quando lamentava não se poder ‘dinamitar a ilha de manhattan’. Que nos permita um recomeço, onde se possa enfim juntar todo mundo, misturar todos e todas num novo, libertário e grande angu: prostitutas, jovens mendigos, bêbados, poetas, os deslumbrados dos shoppings, mercadores e marcados. Onde afinal todos nos encontremos livres do domínio do medo ou da indiferença, quando então as pessoas não precisarão mais se comportar como almas de plástico a se refugiar em shoppings, a fugir do verdadeiro mundo e da verdadeira vida, como se assim pudessem de fato deixar o ‘mal de lado’, quando na verdade o que se deixa de lado é o encontro com a riqueza e a fragilidade, com a coragem e o mistério de cada um.

Que ela nos permita superar a dicotomia entre o shopping e as ruas, para que a rua seja novamente o lugar de todos e todas, que não sejam mais sinônimo de medos, mendicâncias e merdas nas calçadas, nem que haja mais necessidade de existir coisas e espaços como shoppings, ou que pelo menos eles não sejam mais sinônimo de refúgio, de guetos e de fuga do mundo, que os novos espaços de lazer sejam realmente lugar de encontro entre pessoas.

E que essa explosão venha logo, venha realmente a tempo de evitar que essa ordem já degenerada nos transforme em autômatos a habitar nos bueiros da história, assépticos, saciados e moderninhos, mas assustados como ratos e com alma de plástico; que a explosão provoque em nosso ‘louco tempo’ uma transformação bastante diferente daquele mórbido roteiro que o jovem Ernesto retratava, já em 1978, no seu vibrante poema ‘A metamorfose’; aproveitando a metáfora dos roedores: para que não tenhamos a incômoda sensação de viver como ratos num mundo transformado num imenso e policiado ‘parque de araque’, tal como no poema de Vicente Filho, ‘no shopping’.

E que esses e muitos outros poetas, com as suas explosões do verbo, sigam cumprindo uma tarefa que também é da poesia, que é a de alertar para o perigo da morte da alma, da ausência da lucidez, do sonho e da ousadia, e a de convidar ou convocar para as reais e pulsantes possibilidade de um outro mundo e de uma outra vida. Que continuem com seus cantos incendiários e indignados, a colaborar para que esses nossos espaços de resistência, estas nossas cidades, além de fascinantes e envolventes, mantenham-se também como promessa de resgate e redenção.
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Por fim, vale registrar que nenhum dos poetas, comentados neste texto, restringe a sua fala a apenas cantos engajados ou indignados com a miséria social, afetiva, intelectual ou espiritual, imposta aos homens e mulheres pela lógica do atual modelo de civilização; a esse respeito leia também o texto um pouco de mares e silêncios.


Roberto Soares Coelho

constelação

o céu é uma abóbada de lótus
tudo é público...

as abstrações, os vapores... desprezíveis!

só existe a prostituta, qualquer prostituta
que conta estrelas, só
despojada, infernal
pernalta
gritante

e na última constelação
só ela vibra, ruflando asas
voando...

sobre horizontes pudicos e justos

carlos ernesto - flutuais, 1985

as filhas da noite

passeiam pelas calçadas
atrevidas
atravessadas pela vida

suas pernas são foices
que cortam o gozo
e se abrem vazias
como um cofre
à espera de moedas

zantonc - blog poemargens

ar, margens, dons (parte III)

as ruas então em festa:
códigos, circuitos, câmeras de vigilância
verbiequívocovisuais controles anêmicos
acadêmicos políticos policiais
- o mundo oficial -
alimentam as hienas noturnas

o capital contabiliza todos os excessos
a mais-valia compra corpos e felicidade
plastificada, no cartão ou no paraíso

A escória
- resíduo do humano liquefeito -
escorre de guetos, górgonas e esgotos
invisível licor a invadir becos e portas secretas
contido apenas por gps e algemas

invisíveis da mais espessa invisibilidade
figuras goyescas lançam rajadas e granadas
contra as estrelas

zantonc - blog poemargens

nosso tempo

meu tempo é louco
louco e mastigável (feito drops)
nele não há orifícios é incolor
e decíduo

onde repasta-se é mudo, torpe e
aleijado (parece um velho doente)

meu tempo não vibra, não torna
em nada transforma - é feio e arrasta-se

meu tempo é fantoche ridículo
estático
cheirando a pó e fungos
venenosos

carlos ernesto (flutuais)

o labor discreto

As coisas não mudam assim
da noite para o dia, céleres.
Por isso, perdi a flama
que fazia de meus versos
uma tocha iracunda.
porque no final das contas
o importante é ter mudado
um pouco de mim, ao menos.
O cupim, no anonimato,
rói as vértebras deste tempo.

waldo motta (o signo da pele, 1981)

noturna

passeiam o bêbado e o frio
com o rosto pesado e violento
sob um montulho de círios
a cidade é um pasto adverso

tem seus signos e visgos
hálitos e urtigas

e também um eco medonho
que o bêbado sorve, pensando
trair frieza da vida

carlos ernesto (flutuais)

21/05/2009

os rios profundos

Obra do escritor peruano José Maria Arguedas (1911-1969).

Essa obra reflete a preocupação de Arguedas com o resgate das raízes míticas e históricas não apenas do povo peruano mas de todos os povos andinos. O que estava em questão, para o escritor, não era apenas defender ou buscar uma identidade nacional para o Peru, mas desconstruir a própria noção de pátria tal como imposta pelos colonizadores europeus. Antes das pátrias de imposição européia, já existiam as pátrias andinas, astecas, maias, guaranis, tupis, mapuches e inúmeros outros.

Mas os trechos aqui escolhidos não refletem essa problemática de identidades e alteridades, eles mostram outra faceta da prosa de Arguedas. Mostram um encantamento com as coisas que ultrapassa até mesmo o poético: árvores, rios, rochas, pontes, estradas, são mostrados numa fala que tem algo de denso e cósmico. Fogem daquela magia meio delirante que é comum na literatura do chamado realismo fantástico, a qual imperou por algum tempo na literatura latinoamericana.

A magia de Arguedas não recorre a nenhum fantástico, antes, com a sua sensibilidade, mostra o que há de fascinante mesmo nas coisas e paisagens que não aparecem como espetaculares. É como se em sua obra Arguedas buscasse um reencontro com o mítico e com o ancestral, não apenas através dos homens e de suas culturas e costumes, mas também através das coisas, dos lugares, do mundo, vendo o ancestral na simples presença ou na simples aparição das coisa no mundo e em volta de nós; como se buscasse, à maneira de um Heidegger (um europeu, note-se), a pura manifestação do ser nos entes que nos rodeiam.

A ressalvar, apenas o clima cansativo que o enredo adquire, por girar excessivamente em torno das aventuras e desventuras afetivas, físicas e existenciais do jovem narrador. Abordagem mítica, busca ancestral das coisas, com a maestria com que Arguedas o faz, exigiria um enredo menos juvenil, mais amadurecido; embora vazado na mesma poesia frágil e encantada que perpassa a narrativa do jovem em questão.
As Viagens
"Meu pai nunca pôde encontrar onde fixar residência; foi advogado do interior, instável e errante. Com ele conheci mais de duzentas cidadezinhas. Temia os vales quentes e só passava por eles como viajante; ficava algum tempo morando nas cidades de clima temperado: Pampas, Huaytará, Coracora, Puquio, Andahuaylas, Yauyos, Cantagallo... Sempre junto de um rio pequeno, sem bosques, com grandes pedras brilhantes e peixes miúdos. A murta, os sachos, o salgueiro, o eucalipto, o capuli, a tara, são árvores de madeira limpa, cujo galhos e folhas se recortam livremente. O homem as contempla de longe; e quem procura sombra se aproxima delas e repousa sob uma árvore que canta sozinha, com uma voz profunda, em que o céu, a água e a terra se confundem.

As grandes pedras fazem parar a água desses rios pequenos; e formam os remansos, as cascatas, os redemoinhos, os vaus. As pontes de madeira ou as pontes pênseis e os cestos para as travessias apóiam-se nelas. Brilham ao sol. É difícil escalá-las porque quase sempre são compactas e polidas. Mas desses pedras percebe-se como o rio se remonta, como aparece nas curvas, com em suas águas se reflete a montanha. Os homens nadam para alcançar as grandes pedras, cortando o rio chegam até elas e dormem lá. Porque de nenhum outro lugar se ouve melhor o som da água. Nos rios largos e grandes nem todos chegam até as pedras. Só os nadadores, os audazes, os heróis; os outros, os humildes e as crianças, ficam; espiam da ribanceira como os fortes nadam na correnteza, onde o rio é profundo, como chegam até as pedras solitárias, como as escalam, com quanto trabalho, e depois se erguem para contemplar a quebrada, para espirar a luz do rio, a força com que corre e se interna nas regiões desconhecida."
(Página 27)****************
"Por isso, aos domingos, saía precipitadamente do colégio, a percorrer os campos, a atordoar-me com o fogo do vale.
Descia pelos caminhos dos canaviais, à procura do grande rio. Quanto mais descia, mais poeirento e quente era o caminho; os pisonayes formavam quase bosques; os terebintos ficavam mais altos e grossos. O terebinto que nas montanhas mornas é cristalino, de vermelhas uvas musicais que cantam como chocalhos quando sopra vento, aqui, no fundo do vale ardente, transforma-se numa árvore frondosa, alta, coberta de terra, como que esmagada pelo sono, seus frutos apagados pelo pó; submersa como eu no ar denso e calcinado.
Às vezes podia chagar ao rio, depois de andar várias horas. Chegava a ele quando mais angustiado e aflito me sentia. Contemplava-o, de pé sobre o vão da grande ponte, apoiando-me numa das cruzes de pedra encravadas no alto da coluna central.
O rio, o Pachachaca temido, aparece numa lisa, na base de um precipício onde não crescem senão trepadeiras de flor azul. Nesse precipício costumam descansar os grandes papagaios migradores; prendem-se nas trepadeiras e chamam aos gritos, da altura.

Rumo ao leste, o rio desce em corrente tranqüila, vagarosa e trêmula. Os grandes galhos de chachacomo, que roçam a superfície de suas águas, arrastam-se e voltam violentamente, ao desprender-se da corrente. Parece um rio de aço líquido, azul e risonho, apesar de sua solenidade e de sua fundura. Um vento quase frio varre o alto da ponte.
A ponte do Pachachaca foi construída pelos espanhóis. Tem dois olhos altos, sustentados por bases de alvenaria, tão poderosas como o rio. Os contrafortes que canalizam as águas estão presos nas pedras, e obrigam o rio a avançar agitando-se, dobrando-se em correntes forçadas. Sobre as colunas dos arcos, o rio esbarra e se parte; a água se eleva lambendo o muro, pretendendo escalá-lo, e se lança depois nos olhos da ponte. Ao entardecer, a água que salta das colunas forma arco-íris fugazes que giram com o vento.

Eu não sabia o que mais amava, se a ponte ou o rio. Mas ambos desanuviavam minha alma, inundavam-na de fortaleza e de sonhos heróicos. Apagavam-se de minha mente todas as imagens lastimosas, as duvidas e as recordações más."
(Pagina 67)
Os rios profundos, editado pelo Círculo do Livro, com cortesia da Editora Paz e Terra

um pouco de mares e silêncios

Em meio a tantas explosões do verbo e da cidade, um pouco de trégua, a suave mas funda fala de Mariana Botelho, em dois poemas. Afinal, a tarefa do poeta não é apenas a de denunciar o feio, o ruim e e o velho. Há que continuar celebrando a vida e o mundo mesmo em meio às explosões e à barbarie, e também há que manter acesa a vivência e a memória de outros mundos, dos vastos e vibrantes oceanos que estarão abertos a todos e todas - independente de serem ou não chamados de poetas e artistas - após as duras batalhas contra as estruturas que sustentam essa lógica obsoleta e perigosa, que governa nosso mundo e nossas vidas.
Enfim, a poesia se faz presente em todos os cantos: naqueles que denunciam e explodem e naqueles que celebram, que exploram e preparam os ricos solos e os vastos mares de cada um e de todos nós; embrando, claro, que esses diferentes cantos às vezes se irradiam de um mesmo poeta. Aliás, é preciso registrar que nenhum dos poetas, comentados no texto explosões do verbo e da cidade, restringe a sua fala a apenas cantos engajados ou indignados com a miséria física e espiritual, imposta aos homens e mulheres pela lógica do atual modelo de civilização.

coisa que me ocorreu de repente

a poesia se derrete nas mãos do poeta
como gato que ele afaga

a poesia queima nas mãos do poeta
como um fogo que ele alimenta

a poesia afoga as mãos do poeta
é um copo do oceano que ele mesmo inventa

o poeta é um mar de si mesmo
mariana botelho (blogue suave coisa)

abstrato


eu nunca beijei um poema.

no entanto ele está aqui
roçando leve minha
boca

nas horas dos
mais
doídos
silêncios
mariana botelho (blogue suave coisa)

no shopping

nem mesmo pode brotar
real alegria nesse lugar
logo nesse lugar
que tanto detesto

quando quereria rir por último
dos grandes e assombrosos percalços
calçados e percebidos
nos piores e menores momentos

simples, tão simples vida
a flutuar em escadas e pisos
porque a mim arrasam tantas
tentativas vãs?

como se fosse buraco de rato
ouvindo sinfonias
num parque de araque

vicente filho

fora do shopping

a causa não tem casa
mora na rua e quer a sua
você não vai dar
até quando, quem sabe...
meu time não vence
o outro perde
no zôo os animais
não querem mais pipoca
quanta droga...!
a polícia vicia
vigia o quadro morto
da ressurreição de ninguém

vicente filho

saudades do shopping

tudo ia bem
o mal de lado
o dia bem bolado
na sinfonia musical
da escada a rolar
rolar é bom
melhor ainda
de olhos fechados...
como sou esquecido
tinha gravado tudo a lápis

mas à noite sonhei...
com a borracha!

vicente filho

amamos muito tudo isso!

A edição dos poemas de maio já estava praticamenete encerrada, preparava-me para colocá-la no ar, quando veio-me o texto abaixo, como um verdadeiro maná de verbo libertário a se despejar de céus cibernéticos e incendiários. É desses textos que dispensam apresentação ou complementos.
Sua força e lucidez falam por si.
Apenas a registrar a extrema agilidade com que o autor pula de tema em tema, de imagem em imagem, amarrando-os numa fala mesclada de sensibilidade, contundência e convocatória desafiante, a desfilar ante nossos olhos e imaginação as realidades assépticas e plastificadas que passeiam pelos shoppings nossos de cada dia.
A esse respeito, que o texto seja lido junto com os poemas de Vicente Filho, logo acima, e com o texto explosões do verbo e da cidade - o pensamento e a arte juntos no incansável combate.
Amamos muito que ainda existam falas assim.

Amamos muito tudo isso!
Dos grandes templos às humildes vendas.
Amamos muito tudo isso.
Amamos.

No luxo extremo vemos as Grand Magazines.
Locais esmerados onde prevalece o topo da cadeia alimentar do consumo.
Os Shoppings Zonas sul, onde são todos loiros, até as garçonetes, até os seguranças, inclusive as moças que cuidam da faxina. É o sonho nórdico, as indiscretas atualizações da ideologia nazista. É para lá que os burgueses afluem, levando suas companhias, naqueles templos do efêmero, onde salários mínimos são gastos em intervalos de minutos.
As belas vendedoras, que atendem tão educadamente os barões e as baronesas do capital, sempre sorriem. Mas no fundo daquela gentileza há um ódio infinito e secreto, silencioso.

Amamos muito tudo isso.

Há alguns requisitados restaurantes Class A, cujos atendentes ficam às portas do estabelecimento em dias de chuva, portam guarda-chuvas para assegurar que os clientes (Deuses) não se molhem. Os garçons se encharcam, mas preservam a integridade dos consumidores. Um nobre francês do século XVIII sentir-se-ia em casa nesse lugar.

Amamos muito tudo isso.

Nos shoppings populares as pessoas se esmagam na busca sísifa pelo nada e pelo nenhum. O novo aparelho de celular é comprado, consolo momentâneo para a baixa renda, que busca no mercado pirata a consumação do seu sonho consumista. Meses depois estará novamente insatisfeito. O aquecimento da economia agradece.

Amamos muito tudo isso.

O capitalismo é bom. Inerente ao homem. O ser humano tem predisposição para a atividade comercial direcionada ao lucro. Essa teologia tinha seu charme no setecentismo, trajando vestes iluministas e prometendo a emancipação perante o intervencionismo absurdo das grandes cadeias de poder. Seus prosélitos agiram de boa fé, divulgaram aos quatro cantos do mundo as benesses do capitalismo.
Diziam pacientemente para os nômades africanos, e em voz até infantilizada, que livre comércio era o único caminho para a felicidade. Convenceram os chineses de que a única sacralidade digna de nota seria a libra esterlina. Abordaram os aborígines da Oceania e discorreram sobre a relevância existencial do ato de comprar e vender.

Divulgaram o evangelho do lucro e prometeram a felicidade. Nada sabiam sobre a destruição do bioma, a extrema exploração dos menos válidos e da crise existencial inerente ao ato insano do consumismo.
Agiram de boa fé, ainda que com uma malícia experimental. Séculos mais tardes, desacreditados por catequizadores bem mais engajados e articulados (homens barbudos, sisudos, com lenços e polainas vermelhos), acabaram por se tornar menos elegantes em suas argumentações. Alteraram o discurso, não se tratava mais de uma busca pela felicidade, mas sim de uma imperiosidade da história, uma tecnicidade, entregar-se ao capital não era uma escolha, mas uma obrigação.

A romântica inocência dos adeptos da Escola Clássica deu lugar ao sarcasmo amargo dos neoliberais. Alguns descobriram a futilidade de se dialogar com os mineiros, tornou-se mais viável ignorar seus lamentos.
Por algumas décadas eles reinaram, e a cada gemido do mundo arrotavam. As cifras estavam a seu favor. Porém, o tempo das vacas magras chegou, alguns mortos acordaram, fantasmas ameaçadores passaram a visitar os sonhos dos que nunca choram.
Os neoliberais se ajoelharam perante o panteão e imploraram pela intervenção: “Ex Machina, ajude-nos”. Foi um lampejo, mas o suficiente para que perdessem a compostura. Sentiram-se envergonhados, tal qual o apaixonado que por um rompante romântico declara o amor para uma indiferente dama.

Constrangimento. “Tudo segue como antes”, disseram, “o mercado é nosso guia, confiem nele, ele nos guiará à felicidade”. O mundo olhou com um ar incrédulo e reprovador. Ficou evidente a covardia e a inépcia desses pastores, desses condutores de almas. Mais do que nunca estão solitários. O ódio de muitos se volta contra eles. Há um olhar homicida dos pobres, do primeiro e terceiro mundo. Os enganados, os despejados, os famintos, os que fedem a mijo, eles querem acertar as contas, querem tudo que foi prometido. Alguém disse carnificina? O Alto Clero do capitalismo está aterrorizado.

Amamos muito tudo isso.

a metamorfose

diante de mundo rápido
tempo estremece
não há tempo para vertigens
movimentos
soluços
revoltas

seus olhos ardem
não compreendes as razões
há mercúrio letal
em tuas veias
em tuas artérias
mercadores
marcam tua carne
mostram-na
avaliam-na

você compra diariamente
consome
vício inadiável
pacto ancestral
gosto de carne
ferro aço
naves de alumínio
(nunca voaste)

trazes
alma volátil
peso absurdo
se desfaz em mil folhetos

dia a dia
gota a gota
você não percebe
não discrimina
o homem da maqui-máscara
a fruta da massa plástica

e qualquer dia
você vai correndo
pela rua
em becos
e bueiros
e te chamarão...
rato rato
rato rato

carlos ernesto (flutuais)

receituário para racistas e contra-receita de angu

Ogun pá
lelé pá
Ogun pá
koropá...
(canto afro)

Quem atiça o tição
sabe do risco que corre
sabe que ao bulir com fogo
é arriscado se queimar
é arriscado provocar
a ebulição de quanto
há tanto vem nos enchendo
o caldeirão da paciência.

Portanto, todo cuidado
é pouco quando se atiça
o tição, quando se bole
com o fogo, pelo risco
de transformar rebuçado
em ração para a racinha
ordinária dos racistas

Quem atiça o tição
sabe muito bem do risco
de atear fogo em tudo
sabe que, ao provocar
a ebulição da massa
é arriscado explodir
o angu em todo mundo

sabe que, súbito, tudo
tudo pode ficar preto
& vermelho, como queiram
num belíssimo incêndio
um incêndio inusitado.

Pois quem atiça o tição
atira mais lenha aos sonhos
que nos abrasam, braseiro
oculto sob o borralho
dessa vida borralheira.

waldo motta (waw, 1991)

a hora adiada

Depois de mim, este miserável
quarto de pensão, quantos não abrigará?
os olhos se arrastam pelas coisas
como os de quem, no limiar da morte
olha pela última vez o mundo de que se desgarra

Os parcos móveis não me explicam
Esses cubos de concreto que compõem a cidade
não me explicam
a lua, distante e neutra, as estrelas
omissas em sua intangibilidade
não me explicam

Mas porque dessa coisa indefinida
e indócil e fechada que sou
vem esta vaga esperança
de me explicar a mim
não me suicido
por hoje

waldo motta (o signo na pele, 1981)

19/05/2009

alerta por uma internet livre

Pelo Brasil afora inúmeras têm sido as iniciativas de mobilização contra iniciativas que tentam impor restrições ao uso do internet. Toda essa movimentação se intensificou a partir do momento em que o Senado aprovou, em julho de 2008, o substitutivo do Senador Eduardo Azeredo, o qual “cria 13 novos crimes na internet e novas restrições às/aos usuárias/os e provedores, tal como obriga provedores a guardar registros pessoais de usuárias/os da internet para possíveis futuros exames da ‘Justiça’, se assim requisitado. O projeto foi modificado desde a saída de sua casa de origem, Câmara dos Deputados, para onde volta novamente para aprovação” (CMI).

Quem quiser conhecer mais e se envolver nessa importante campanha, vão alguns links:
Também segue nesta edição um manifesto em defesa da internet livre. Além de um texto lúcido e pertinente em suas propostas, vale registrar o singelo mas contundente alerta ao final: ‘...então a janela de oportunidade aberta pela Internet terá sido fechada, e teremos perdido algo bonito, revolucionário e irrecuperável.’

Manifesto da cultura livre
26 de Abril de 2009

A missão do movimento da Cultura Livre é construir uma estrutura participativa para a sociedade e para a cultura, de baixo para cima, ao contrário da estrutura proprietária, fechada, de cima para baixo. Através da forma democrática da tecnologia digital e da Internet, podemos disponibilizar ferramentas para criação, distribuição, comunicação e colaboração, ensinando e aprendendo através da mão da pessoa comum, e através da verdadeiramente ativa, informada e conectada cidadania: injustiça e opressão serão lentamente eliminadas do planeta.
Nós acreditamos que a Cultura deve ser uma construção participativa de duas mãos, e não meramente de consumo. Não nos contentaremos em sentar passivamente na frente de um tubo de imagem de mídia de mão única. Com a Internet e outros avanços, a tecnologia existe para a criação de novos paradigmas, um deles é que qualquer um pode ser um artista, e qualquer um pode ser bem sucedido baseado em seus méritos e não nas conexões da indústria.
Nós nos negamos a aceitar o futuro do feudalismo digital, onde não somos donos dos produtos que compramos, mas nos são meramente garantidos o uso limitado enquanto nós pagamos por tal. Nós devemos parar e inverter a recente e radical expansão dos direitos da propriedade intelectual, que ameaça chegar a um ponto onde se predominará sobre todos os outros direitos do indivíduo e da sociedade.

A liberdade de construir sobre o passado é necessária para a prosperidade da criatividade e da inovação. Nós iremos usar e promover o nosso patrimônio cultural, no domínio público. Faremos, compartilharemos, adaptaremos e promoveremos conteúdo aberto. Iremos ouvir a música livre, apreciar a arte livre, assistir filmes livres e ler livros livres. Todo o tempo iremos contribuir, discutir, comentar, criticar, melhorar, improvisar, remixar, modificar e acrescentar ainda mais ingredientes para a ‘sopa’ da cultura livre.
Ajudaremos todo mundo o entender o valor da nossa abundância cultural, promovendo o software livre e o modelo ‘open source’. Vamos resistir à legislação repressiva que ameaça as liberdades civis e impede a inovação. Iremos nos opor aos dispositivos de monitoramento em nível de hardware, que impedirão que os usuários tenham controle de suas próprias máquinas e seus próprios dados.

Não permitiremos que a indústria de conteúdo se agarre aos seus obsoletos modelos de distribuição através de uma legislação ruim. Nós seremos participantes ativos em uma cultura livre de conectividade e produção, que se tornou possível como nunca antes pela Internet e tecnologias digitais, e iremos lutar para evitar que este novo potencial seja destruído por empresas e controle legislativo. Se permitirmos que a estrutura participativa, e de baixo para cima, da Internet seja trocada por um serviço de TV a cabo, se deixarmos que o paradigma estabelecido para criação e distribuição se reafirme, então a janela de oportunidade aberta pela Internet terá sido fechada, e teremos perdido algo bonito, revolucionário e irrecuperável.

O futuro está em nossas mãos, devemos construir um movimento tecnológico e cultural para defender o comum digital.

Leia, divulgue, replique, traduza, republique mas não fique aí parado!
(Este manifesto, publicado originalmente pelo coletivo ‘Free Culture’ - http://freeculture.org/manifesto - foi traduzido e divulgado pelo editor do blogue ‘Xô Censura’.

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a revitalização da assejur e a construção de uma justiça popular

A ASSEJUR (Associação dos Escreventes Judiciários do Espírito Santo) realizou no dia 15 de maio uma assembléia da categoria, com o objetivo de promover a revitalização da Associação – para quem não sabe, escreventes são os funcionários dos cartórios dos fóruns, que trabalham nos processos e atendem as partes envolvidas e os advogados.

Durante a Assembléia foram escolhidos os cinco membros da Comissão Eleitoral, a qual irá conduzir o processo de escolha da nova diretoria. As inscrições de chapas deverão acontecer entre os dias 01 e 23 de junho, e as eleições possivelmente acontecerão em julho. O fato se deu na sede do SINDIJUDICIÁRIO, em Vitória, e compareceram cerca de quarenta pessoas, o que aparentemente é pouco.
Mas como se trata de uma primeira assembléia, a avaliação é de que o encontro foi extremamente positivo. Afinal, mesmo tendo sido fundada em 2001, a ASSEJUR nunca adquiriu a necessária visibilidade junto à categoria, a ponto de a maior parte dos escreventes até mesmo desconhecer a sua existência. Nunca teve uma sede própria e nem um cadastro de filiados.

Não há aqui o propósito de analisar a atuação dos diretores, eleitos ao longo destes oito anos, seus méritos ou deméritos, suas dificuldades ou sua dedicação etc.
O que cabe registrar aqui é a extrema importância (e não somente para os escreventes) desse processo de revitalização da Associação. É preciso lembrar que, mesmo sendo a categoria mais numerosa do judiciário, tem sido irrisória a participação dos escreventes nas assembléias, campanhas e mobilização do SINDIJUDIÁRIO, o sindicato que representa todos os servidores da justiça capixaba. É como se o sindicato representasse apenas os interesses de escrivães, comissários, agentes de serviço e oficiais de justiça, esses últimos, aliás, constituindo a categoria mais atuante dentro do sindicato.

Evidente que os motivos deste afastamento não estão na atuação do SINDIJUDICÁRIO, não se pode de forma alguma afirmar que os seus diretores têm priorizado as outras categorias em detrimento dos escreventes. Se, por acaso, em algumas situações as questões relativas aos oficias de justiça, por exemplo, são mais enfatizadas que as de outras categorias, isso se deve, é claro, à presença mais constante e articulada destes servidores nas convocações e mobilizações do SINDIJUDICÁRIO. Mas nada que tenha prejudicado ou se oposto aos problemas das outras categorias.

Isso nos leva à inevitável conclusão de que o afastamento e a omissão dos escreventes se deve à própria categoria. E isso não é difícil de entender. Sabemos todos que a história do judiciário capixaba em relação aos servidores tem sido feita de nepotismos, apadrinhamentos, proteções, discriminações e arbítrios. Somente de alguns anos para cá, com um princípio de moralização dos concursos públicos, e a consequente renovação do quadro de servidores, é que se tem criado (bastante lentamente, é verdade) um clima de maior liberdade, reflexão crítica e exteriorização de demandas por parte até mesmo dos escreventes.

Os escreventes, mesmo os mais antigos, começaram a perceber que não existe mais a famosa ‘Família do Judiciário’, quando todos os reajustes, e outros benefícios, que valiam para os magistrados também valiam para os demais servidores; claro, afinal entre os servidores beneficiados com essa política de Grande Família a imensa maioria era de apadrinhados e parentes de desembargadores e magistrados. Ocorre que, junto com essa ‘proteção’, também havia (e ainda há em muitos locais de trabalho) uma espécie de chantagem, de ‘cobrança da proteção’, a famosa política do ‘Manda quem pode, obedece quem tem juízo’, cujos efeitos na vida dos escreventes o texto amélia, a escrevente de mentira (de Rômulo Bernabé, diretor de Política Sindical do SINDIJUDIÁRIO) retrata muito bem.

Nesse sentido, o fim da ‘Grande Família’ só deve ser comemorado, afinal está sendo uma oportunidade de, finalmente, os escreventes se assumirem como uma categoria de trabalhadores de fato, em toda a sua dignidade, a exercitarem todos os seus direitos e deveres, com todos os sacríficios e riscos, mas também com todas as satisfações e reconhecimentos, que uma tal postura significa para todo e qualquer trabalhador.

Nesse cenário, consolidar a ASSEJUR significa promover uma maior união entre os escreventes, e até mesmo entre estes e as demais categorias. E uma categoria mais forte, unida e solidária trabalha mais motivada, mais segura de seus direitos e menos sujeita a eventuais arbítrios, que infelizmente ainda estão muito mais presentes no Judiciário capixaba do que a sociedade imagina. Inclusive, escreventes que mantêm uma confiança e uma solidariedade recíprocas podem até contribuir para mudanças em procedimentos cartorários, supostamente ineficientes, acomodados ou mesmo arbitrários, herdados da política da Grande Família e do ‘Manda quem pode, obedece quem tem juízo’.

Assim, uma Associação dos Escreventes consolidada e atuante tem até mesmo importância no processo de transformação das nossas instituições. Em razão do seu maior número em relação às outras categorias, os escreventes são aqueles que fazem o Cartório e os processos andarem, são eles que mantêm um contato mais direto e duradouro com as partes e advogados (o que não significa, claro, que as outras categorias não tenham a sua óbvia e insubstituível importância).
E um maior empenho dos escreventes na agilidade e no tratamento com as partes com certeza ajudará a aproximar mais a Justiça das pessoas comuns, contribuirá para que a sociedade passe a exercitar, com firmeza e equilíbrio, o seu direito a uma justiça de fato transparente, ágil; enfim uma ASSEJUR forte significará nossa humilde mas valiosa contribuição para a construção de um Justiça Popular em nosso país, que respeite e atenda a todos aqueles que, em última caso, sustentam toda as estruturas e o pessoal da Justiça.

Essa maior proximidade dos escreventes com a sociedade também irá mostrar que a maior parte dos servidores e dos juízes são pessoas comuns, não são indivíduos inacessíveis e arrogantes, membros de grupos elitizados distantes do povo, muitas vezes traindo ou sugando esse mesmo povo, como frequentemente tomamos conhecimento, até mesmo bem debaixo dos nossos olhos - como no recente caso da Operação Naufrágio, aqui no Espírito Santo

Por fim, é importante lembrar que também o SINDIJUDICIÁRIO só tem a ganhar com essa revitalização da ASSEJUR. Afinal, os mesmos escreventes que assumirem essa nova postura de participação e compromisso com certeza também irão engrossar as fileiras do nosso Sindicato, estarão mais atentos às suas assembléias e mobilizações, estarão mais dispostos a colaborar e se envolver, e não apenas ficar ao nível da crítica fácil e inconsequente, mesmo que às vezes bem fundamentada.
Afinal, criticar e apontar problemas e erros é fácil, mas o que realmente conta é se colocar junto com os criticados para corrigirem eventuais erros na solução dos problemas. O que conta é ver a si mesmo como alguém importante no processo de transformação, é dar a si mesmo um outro horizonte, uma outra tarefa.

Roberto Soares Coelho, editor deste blog, é escrevente juramentado na Comarca de Vitória.