29/09/2009
poesia: ainda a europa
a rapariga de vermeer
a rapariga de Vermeer, agora famosa
olha-me. a pérola olha-me.
os lábios vermelhos, húmidos
e brilhantes da rapariga de Vermeer.
rapariga de Vermeer, pérola
turbante azul: és toda luz
e eu sou feito de sombra.
a luz olha a sombra com altivez
condescendência, talvez piedade.
(adam zagajewski - polônia )
Adam Zagajewski nasceu em Lvov ((hoje, Ucrânia), na Polónia, em 1945. Vive entre Cracóvia, Paris e Chicago. É considerado pela crítica internacional como um clássico contemporâneo, como o foram Milosz, Herbert, Holub, Popa ou Brodsky. É um poeta dessa estirpe.
Acaba de publicar, neste 2008, na Farrar, Straus and Giroux, de Nova York, “Eternal Enemies”, traduzido do polaco por Clare Cavanagh, professora de línguas e literaturas eslávicas na Northwestern University, que já havia traduzido para o inglês, Szymborska e Milosz.
Humor, inteligência, cepticismo e economia de linguagem podem ser encontrados nesta versão que trago do inglês, onde conspiram o peso do lugar e da história, a emergência da arte e da vida quotidiana. (Transcrito do blog português poesia ilimitada)
a alma
nós sabemos que tu és inexprimível
anémica, frágil e suspeita
por misteriosas ofensas quando eras criança.
nós sabemos que não te é permitido viver agora
na música ou nas árvores no crepúsculo.
nós sabemos—ou pelo menos disseram-nos—
que tu não existes seja em que lado for.
e no entanto continuamos escutando a tua voz fatigada
--num eco, numa queixa, nas cartas que recebemos
de Antígona no deserto Grego.
adam zagajewski - polônia
a poesia nem sempre...
adopta a forma
de um poema
depois de cinquenta anos
a escrever
a poesia
pode apresentar-se
ao poeta
na forma de uma árvore
de um pássaro
que voa
de luz
adopta a forma
de uma boca
refugia-se no silêncio
ou vive no poeta
livre de forma e de conteúdo
Tadeusz Rózewicz nasceu em Radomsko em 1921. Estudou História da Arte na Universidade de Jagueloniana, em Cracóvia. Viveu em Wroclaw durante trinta anos. Poeta, dramaturgo e novelista foi traduzido em numerosos idiomas, sendo considerado um precursor da vanguarda em poesia e drama, um inovador firmemente arraigado na recriação incessante da tradição romântica. Independente, diz-se convencido de uma missão artística que considera um estado de concentração interna, agilidade interior e sensibilidade ética. Różewicz pesquisa as instâncias contemporâneas da crueldade humana. É o fundador de uma tendência chocante da literatura polaca que se concentra na existência, concebida como o esforço para existir, como a luta contra o nada. Jorge Sousa Braga colabora uma vez mais no Poesia Ilimitada, com a tradução de "A Poesia nem sempre...". (do blog poesia ilimitada)
rapariga
o atrevimento de simplesmente expor
de vez em quando uma opinião
ou um seio: quando começa isso
e no fundo quando acaba? as mulheres
são feitas de raparigas, aos quarenta
ainda deitam a língua de fora como aos quinze
ficam cada vez mais jovens
não sabem não seduzir. como a poesia:
um gato que prudentemente caminha sobre as teclas
de um piano e olha para trás:
ouviste? viste-me?
ah, o ar jovem das raparigas de quarenta
como umas vezes querem, e outras não
mas afinal sempre, se repararmos bem.
onde estão os bons velhos tempos? estão aqui, esses tempos.
(herman de coninck - bélgica)
23/09/2009
lendo milosz
poemas escritos por um rico homem, sabedor
e por um mendigo, sem casa
um emigrante, só.
sempre quiseste ir
além da poesia, superá-la, planando
mas também abaixo, onde a nossa região
começa, modesta e tímida.
por vezes o teu tom
transforma-nos por um momento
e acreditamos - verdadeiramente
que cada dia é sagrado
que a poesia - como pôr isto?
torna a vida plena
mais cheia, orgulhosa, ousada
de formulação perfeita.
mas o fim de tarde chega
eu poiso o livro de lado
e o estrondo banal da cidade retoma –
alguém tosse, alguém chora e maldiz.
adam zagajewski - polônia
aí está o saldo final
confiei em mim desde o primeiro momento.
custa muito pouco ser dono do vento.
e à besta não lhe é mais custosa
a vida, até que a lançam à fossa.
nasci, amei, fui longe, fiz o resto.
com medo, às vezes, mantive-me no posto.
paguei sempre as dívidas contraídas
e agradeci, com as mãos estendidas.
se fingida mulher aqui e além me quis,
amei-a, para que pudesse ser feliz.
fiz cordas, varri, dei-me ao vinho
e entre os espertos fingi-me cretino.
vendi brinquedos, pão e poesia,
jornais e livros: o que se vendia.
não morrerei enforcado em fácil trama
ou em grande batalha, mas na cama.
vivi (já está aí o saldo final):
muitos outros morreram deste mal
17/09/2009
aforismos no twitter
O avô do twitter é o parachoque do caminhão.
Sarcasmo do cemitério: o escritor morre mesmo numa gaveta.
O quintal é uma rua sem saída.
O quarto depende da dignidade de um corredor para curar o pesadelo.
Eu já me abandonei várias vezes. Deveria ter me mandado uma carta: “Desculpe por não ter escrito antes".
Cócega é quando o corpo faz a piada.
Se é ironia, não pode ser fina.
O soneto é um poema sonâmbulo.
16/09/2009
flecheira libertária (5)
O proibicionismo às drogas subordinou culturas, favoreceu indústria de armas, especializou polícias, organismos internacionais e rastreamentos eletrônicos. Ampliou relações diplomático-militares e controles científicos. E, principalmente, propiciou a expansão do tráfico. O proibicionismo está a serviço do lucro, da repressão, do legal e do ilegal. Consagra o proprietário, o traficante e o dissimulador.
Os defensores da liberação das drogas sabem que elas são inseparáveis da cultura; sabem que liberar as drogas é acabar com o tráfico, conter um ramo altamente lucrativo do capitalismo, paralisar temporariamente os negócios dos moralistas, arruinar parte da crença na repressão e da fé em segurança. Os defensores da liberação são um perigo à empresa, ao Estado e ao traficante. Arruínam seus negócios. Os defensores da liberação das drogas querem mais que descriminalizar maconha!
O proibicionismo precisa da vida breve da criança pobre-podre-calcinada cada vez mais nas mãos do traficante como braço armado, consumidor, sicário e serviçal; precisa de jovens dispostos a morrer bem cedo, tentando, pelo avesso, imitar o burguês bem sucedido, o herói, o mártir, o bandidão das antigas na periferia, nas favelas; precisa de gente insatisfeita com esta merda de mundo, para consumir, se endividar e cair nas mãos dos traficantes como os preferenciais bibelôs de sua estética em ruínas... O proibicionismo e o tráfico celebraram um casamento indissolúvel. Só os revoltados sabem que onde há vida não há proibição e que onde há tráfico não há mais vida.
Um novo programa da força aérea estadunidense recruta jovens para o projeto de combate à distância. De uma sala nos EUA, com monitores e joysticks, os pilotos decolam aviões não-tripulados, lançam mísseis e retornam à base no Afeganistão. Um dos requisitos para a seleção é que eles tenham sido, desde criança, aficionados por videogame. O treinamento é simples, garantem os militares, porque os jovens já vêm educados: matar alvos em telas não lhes é estranho. Sensibilidades torpes e educação para lidar com mortes programadas, eis um traço das guerras na sociedade de controle.
Alvos preferenciais da polícia na Itália, os imigrantes vindos da África, depois de atravessarem a ilha de Lampedusa e chegarem com vida à Europa, são enquadrados em uma nova legislação. Esta prevê seis meses de prisão para quem andar sem a documentação regularizada, despejo do morador e confisco do imóvel alugado e ainda estimula os médicos a denunciarem pacientes em situação irregular. A página da internet relacionada a um dos proponentes desta nova lei estampa que a tortura de clandestinos é um direito de defesa da nação.
Os canalhas de todo o tipo comemoram. Os imigrantes africanos, árabes, latinoamericanos, gente de todas as partes do planeta que não morreram na travessia em altomar tem como destino viverem sem descanso e sob suspeita, cercados pela polícia. Só assim é que seus corpos e suas existências consideradas insuportáveis são finalmente permutadas, esmagadas, submetidas à força do governo.
09/09/2009
o grito em movimento (1)
grito dos excluídos 2009

... mas dá pena ver esses garotos da marinha e do exército tão iludidos com seus brinquedinhos de fogo, sem a menor noção de que, ao estar a serviço da força bruta, são a última forma de sustentação de um modelo de civilização que impede a vida plena, ao promover a competição, a indiferença e o medo entre as pessoas.

as mãos que clamam e combatem se preparam para a caminhada, enquanto padre Kelder saúda os peregrinos de um mundo renovado

e começa a marcha, o grito pela vida e pelo resgate da organização popular ganha as ruas, ocupando os elitizados e iludidos espaços da Praia do Canto...

... iludidos porque seus moradores ainda não puderam aprender que o sentido da vida plena não está apenas em nossos apegos e afetos individuais ou familiares.
o grito e a cura
A continuidade do Grito dos Excluídos (veja nesse blog as matérias O grito ecoa... e O Grito dos Excluídos 2009), já por 15 anos, na verdade reflete uma postura histórica de iniciativas e responsabilidades que alguns setores católicos sempre tiveram em relação às lutas sociais e populares. É a opção verdadeiramente missionária da Igreja.
Como bem colocou padre Kelder Brandão numa de suas homilias, é esta a cura que o Cristo pregava e praticava: não apenas a cura física ou corporal, mas a cura do espírito e dos corações dos desamparados, abandonados ou ignorados por um mundo por demais competitivo, apressado e hostil; enfim, sair de dentro do templo em direção ao mundo e ao povo sofredor, humilhado, manipulado.
Mas, na verdade, a Igreja sair em direção ao povo e ao mundo significa também uma outra 'cura', ou melhor, uma tripla 'cura'. Além da oferecida aos desamparados, há também a 'cura' do próprio movimento popular, como dito acima; afinal o movimento está enfermo, paralisado, esvaziado de seus melhores quadros, que foram convocados pelo governo federal e pelos inúmeros governos municipais e, nesse processo de se colocar a serviço de governos populares, são muitas vezes seduzidos por uma nova maneira de ver o mundo, a si próprios e ao movimento do qual faziam parte, uma visão por demais institucional, que passa a enxergar nas pessoas apenas agentes políticos, apenas peças do jogo político-partidário.
E outra 'cura' se processa, claro, no âmbito dos próprios fiéis e da própria Igreja Católica. Ao se colocar à disposição para aprender e praticar a 'cura', o católico está curando a si próprio, encontrando o verdadeiro sentido de ser cristão, ao conseguir ver de fato em si e no outro a ' luz do mundo', o 'sal da terra'.
Quanto à Igreja Católica, enquanto instituição milenar ('santa e pecadora', para usar uma expressão do documento conclusivo do 1º Sínodo da Arquidiocese de Vitória), ela se ‘cura’ ao cumprir o seu papel de fundir num plano maior a prática espiritual e a prática política.
Ao optar verdadeiramente por cuidar do céu e da cidade, do cosmo e da polis, a Igreja traz para uma outra dimensão a atividade política, lembra que os frutos de todo o trabalho e de toda vivência humana têm sempre algo de sagrado e sempre colocam a vida plena em primeiro lugar, porque é sempre sagrada não apenas a vida humana mas a de todas as coisas, de todo o cosmos.
E, ao se ‘curar’, a Igreja peregrina acaba por ‘curar’, depurar, sacralizar a própria atividade política. Já não se trata de ver nas pessoas apenas peças de um processo político, por mais transformador ou revolucionário que esse processo seja, ou pretenda ser. Trata-se agora de ver no outro uma realidade mais rica e complexa e ao mesmo tempo mais frágil e carente de afeto, de acolhimento. Trata-se de ver a ação política também como espaço para que as pessoas se irmanem de fato, se reconheçam uns aos outros - o espaço político não deve se pautar apenas pela eficiência, pragmatismo, mesmo que se trate de um espaço revolucionário.
Mesmo porque, talvez somente esse ato de se irmanar e de acolher é que seja realmente revolucionário. A história tem demonstrado à exaustão que a simples eficiência revolucionária - ou transformadora das estruturas sociais e econômicas - não se sustenta, não transforma de fato os indivíduos e, por extensão, as novas instituições que eles criam a partir do processo revolucionário.
Pois, por mais que a ação política revolucionária tenha aprendido a colocar em pauta temas como o respeito às diferenças, a fraternidade, a solidariedade, nos momentos decisivos a chamada dimensão subjetiva, interior, das pessoas é esquecida em nome da defesa ou manutenção do processo revolucionário e, então, as pessoas voltam a ser friamente tratadas apenas como soldados de uma causa ou de um exército.
Assim, é preciso uma abordagem mística, ou transcendente, da ação política transformadora, construir coletivos que sejam de fato sinônimos de acolhimento e amizade, um acolhimento e uma transcendência que não se percam nos primeiros percalços ou urgências do processo de transformação. A ação política tradicional nunca acolhe com a mística e o calor humano necessários para transcender a si própria, ou para se situar numa outra dimensão.
A igreja peregrina pode e deve ser a doadora dessa ação política transcendente. Principalmente nestes tempos de indiferença, hostilidade e desconhecimento do outro, é possível trabalhar com o projeto de uma Igreja que atraia e seduza as pessoas, ao reverenciar em primeiro lugar o acolhimento, e nesse acolhimento propor às pessoas um novo sentido, não somente para a ação política mas para as suas próprias existências: enfim, a Igreja peregrina pode e deve atrair novos sujeitos, se souber construir coletivos onde a própria ação politica esteja sumetida a um sentido maior, o sentido do sagrado, do mistério que há em todos e tudo.
E, sem cair aqui no idealusmo ou na ingenuidade, é lúcido dizer que, talvez aí sim, tenhamos um movimento, um ação política verdadeiramente revolucionária e, quiçá, de caráter global, pois terá conseguido fundir o sagrado e a polútica, o terreno e o transcendente, o indivíduo e o coletivo, o cotidiano e o mistério.
07/09/2009
o grito em movimento (2)
grito dos excluídos 2009 - vitória, es
imagem bem a propósito: a necessidade de uma verdadeira reaproximação entre o movimento popular e a igreja peregrina (ou progressista, para quem preferir), simbolizada por padre Kelder dando uma 'forcinha' para a faixa do CPV, observado por Waldemar Cunha (de verde), presidente do entidade.

antes da lavagem no judiciário capixaba, um descanso nos gramados do presunçoso 'palácio': afinal o trabalho ali iria ser árduo e demorado... - para quem já se esqueceu, em dezembro passado a polícia federal ocupou o tribunal de justiça do espírito santo e prendeu o seu presidente e três desembargadores

as acusações: favorecimento a parentes e amigos nos concursos irregulares e nos cargos comissionados e, claro, as famosas vendas de sentenças, como bem resgata a faixa acima

dei uma forcinha para a lavagem e para os sempre presentes agentes do Comando de Caça aos Corruptos - mesmo porque, fui um dos poucos funcionários do judiciário capixaba (se é que não fui o único) presente nessa 'afronta' ao egrégio tribunal.

e, no ato de lavar a sujeirada, os peregrinos do mundo novo expulsam o dragão da maldade, da burrice, da visão de mundo que não deixa os poderosos e seus agregados ir além de uma ganância estúpida e vazia, que se ilude com uma sede de poder cada vez mais exigente, mas que nunca é completamente saciada...

... uma sede de poder que alimenta uma estrutura social, econômica e política cada vez mais perversa, desumana e que está nos levando cada dia mais para perto uma barbárie disfarçada de modernidade, consumismo e progresso.
25/08/2009
poesia de portugal, ora pois
Depois da publicação, em julho, de alguns trechos de “O senhor Ventura”, obra em prosa do escritor português Miguel torga, temos neste agosto uma pequena amostra da poesia feita atualmente em Portugal, com poemas selecionados dos blogs portugueses Hospedaria Camões e Casa dos Poetas.
Esta primeira seleção é de poemas mais longos, que refletem uma certa vocação da literatura portuguesa para o abundante, o barroco, para a escrita derramada aos borbotões, sem constrangimentos de parecer obsoleta, sem preocupação de etiquetagens modernas ou pós-modernas.
Mas essa abundância verbal não significa um descolamento de temas atuais, vívidos, e nem impossibilita o presença de uma atmosfera ou tonalidade contemporânea. Atmosfera ora desamparada e melancólica, melancolia bem típica aliás da tão decantada ‘alma’ portuguesa (‘beleza destroçada’) ora despojada/prosaica (‘computador no lixo’, ‘ode ao vinil’) ou com tons de engajamento no coletivo, mas engajamento numa dimensão mais complexa, mais abrangente, como em ‘nós somos’.
Há que registrar ainda duas falas mais para o transcendente (‘crepúsculo’, ‘se o teu olho é simples...’), que certamente se inserem na tradição daquela poesia metafísica (mas de uma metafísica terrena, que se desvela no concreto) tão bem representada pela poesia de Rilke, brevemente desvelada no mês passado.
E por fim a a celebração de venturas/desventuras amorosas e existenciais - ‘duas vezes nada’, 'a secção dos congelados', ‘os amantes inadequados’ e o singelo-contundente ‘as prostitutas’. Aqui, outra infiltração brasileira nessa celebração portuguesa, a mineira Mariana Botelho, com a ardente-generosa entrega de seu ‘toma’.
Leia mais sobre os poetas de Portugal, aqui publicados, em Hospedaria Camões e Casa dos Poetas.
as prostitutas
elas desciam à vila, as prostitutas –
a única saída
exactíssima resposta para a nossa
angústia seminal acumulada.
Vinham de Vale da Porca, ou outra
terra assim pasmada.
Traziam na cabeça lenços garridos
na carteira de mão a triste história:
a sedução primária, a miséria espessa
mas jamais o vício mercenário.
Nas eiras recebiam nossas águas
de permeio plantados como reis.
Procuravam lisonjeiras acertar
seu êxtase fingido com o nosso.
Beijavam-nos, diziam: tão novinho!
Suportavam-nos insultos e arremessos.
Com mão experiente (mas não habituada)
guiavam-nos na bela, impreterível
urgente aprendizagem
concediam-nos crédito e carinho –
as tãos castas mulheres
as prostitutas.
a. m. pires cabral (macedo de cavaleiros - portugal)
toma
esgota tua menina
até que não reste uma fibra
no ventre ardendo em brasa
no corpo a se apagar na treva
dois vaga lumes no pote
e o silêncio dos retratos –
bebe.
mariana botelho (minas - brasil)
o grito ecoa...
Os trechos publicados abaixo fazem parte do material de divulgação e mobilização do 15º Grito dos Excluídos, cujo lema, em 2009, é “A força da transformação está na organização popular”. O Grito foi lançado em 1995, numa iniciativa da CNNB (leia-se Igreja Católica progressista) junto com os movimentos sociais, e é sempre realizado no 07 de setembro, nos mesmos horários e locais das comemorações do chamado Dia da Independência. Segundo os organizadores, essa é uma forma de chamar a atenção para a longa caminhada que o povo brasileiro tem pela frente, antes de poder se considerar realmente independente e soberano.
O texto e o tema deste ano demonstram que o Grito dos Excluídos não é um evento isolado, circunstancial, que ocorreria apenas por inércia, mas que é paciente e lucidamente construído no interior da chamada Igreja Progressista e junto com os movimentos sociais e as comunidades. Ou seja, mobilizações como essa mostram que amplos setores da Igreja Católica ainda estão comprometidos com a transformação das estruturas sociais e políticas e com as contradições deste mundo terreno, e não apenas com a evolução espiritual de indivíduos e sociedades.
A CNBB acertou em cheio ao eleger para este ano o tema da organização popular. Pois, na verdade, já passou a hora de se promover no país uma reorganização ou um resgate do movimento popular.
Sabemos que o movimento está cada dia mais anestesiado e esvaziado, e muito dessa apatia está na opção, ou necessidade tática, de ter que apoiar (ou ao menos não ameaçar) a estabilidade de um governo que tem claramente um projeto, ou pelo menos uma orientação, democrático-popular, mas que optou por se sustentar cada vez mais nos poderes instituídos, formais ou informais (Congresso, Judiciário, empresários etc) ao invés de se apoiar preferencialmente nas organizações populares e nos movimentos sociais.
Esse afastamento de um governo popular, em relação aos movimentos que o instituíram, torna difícil para esse mesmo governo implementar um projeto mais ousado, criativo e transformador, já que sempre encontrará resistências daquelas forças institucionais com os quais o governo se aliou - e isso independente do grau de corrupção, de desumanidade ou de descompromisso com a vida plena por parte dessas forças. Além disso, perde-se a oportunidade histórica de oferecer às camadas populares a possibilidade aprender a governar, de se co-responsabilizar pelos destinos de seu país, com todos os erros e acertos que um tal aprendizado implicaria.
E se as organizações e as lideranças não são convocadas para participar e se responsabilizar efetivamente pelo governo popular, e se não há uma renovação do movimento através da mobilização e sedução (promovida também pelo governo popular) de novas pessoas até então desligadas do movimento, a conseqüência é aquela apatia, esvaziamento e desorientação do movimento apontada no início. Desorientação que poderá até mesmo repercutir contra o próprio governo, quando se tornarem insustentáveis as pressões golpistas que costumam ser o último recurso de pessoas e forças sociais que nunca se conformam quando um povo começa e despertar e a aprender a dar um novo sentido, uma nova condução às instituições e poderes de Estado.
É nesse contexto que iniciativas como o Grito dos Excluídos são um sopro de alento para aqueles que crêem numa ação política mais espontânea, corajosa e calorosa.
Pois com essa institucionalização e engessamento dos movimentos sociais fica evidente que, neste momento histórico do Brasil, tem falhado o tripé Partido-Governo-Movimentos Sociais. Sabe-se que não tem havido a necessária autonomia entre do PT e dos Movimentos Sociais em relação ao Governo Popular, como também não tem havido a necessária integração entre o PT e os movimentos sociais.
Neste sentido, mais que benvindo é fundamental esse quarto ‘pé’, não somente para ajudar a sustentar o tripé da transformação, mas também para renovar, arejar, animar (no sentido de dar ‘anima’, alma) às pessoas e instâncias que promovem a transformação - e para questioná-las e enfrentá-las quando for o caso.
Veja também
20/08/2009
grito dos excluídos 2009
O evento, que conta com o apoio e a participação de todas as comunidades, escolas e organizações sociais, ocorrerá no dia 7 de setembro, com concentração a partir das 8 horas, na Praça dos Namorados. Todos devem levar vassouras para varrer o chão da corrupção e lavar as escadarias do Tribunal de Contas, do Tribunal da Justiça e da Assembléia Legislativa.
Com base na ação de Jesus Cristo que, diante da exclusão, defende os fracos e o direito a uma vida digna para todo ser humano, o Grito condena as formas de exclusão e as causas que levam o povo a viver em condições de vida precárias, muitas vezes sem perspectiva de futuro; denuncia a política econômica que privilegia o capital financeiro em detrimento dos direitos sociais básicos; propõe alternativas que tragam esperança aos excluídos e perspectivas de vida para as comunidades locais; promove a pluralidade e igualdade de direitos, bem como o respeito nas relações de gênero, raça e etnia e, também, pretende multiplicar as assembléias populares para discutir a organização social a partir do município, fortalecendo o poder popular.
“Ao invés de irmos ver e aplaudir tanques, canhões, metralhadoras, fuzis e outras armas que ferem e matam, vamos levar para a rua nossa indignação, nossa fé, nossa coragem, nosso compromisso, nossa alegria e nossa vontade de ver a vida sendo gerada e defendida. Vamos levar nosso grito, o grito de centenas, de milhares, de milhões de brasileiros que amam a vida acima de tudo e creem que um outro Estado é possível”, convida o coordenador de pastoral da Arquidiocese, padre Kelder Brandão.
“Vida em primeiro lugar, a força da transformação está na organização popular”
7 de setembro: vamos gritar por justiça e paz
O ano de 2009 vem sendo de muitas alegrias para a Igreja de Vitória. Os trabalhos e articulações pastorais em nossa Arquidiocese têm sido intensos. A cada dia, novas demandas e desafios surgem e necessitam de respostas.
No primeiro semestre foram muitas as realizações. Destacamos a Abertura da Campanha da Fraternidade, que transformou o Centro de Vitória num grande espaço celebrativo, com um evento profético. Um outro grande feito foi o 9º Encontro Estadual de CEB’s, que, à luz do tema “Ecologia e Missão”, reuniu centenas de pessoas para refletirem como a Igreja deve se comprometer diante de um tema tão atual e relevante.
“Vários foram os ‘gritos’ que surgiram antes, durante e depois desses eventos”, afirma Padre Kelder Brandão. E constata: “Anunciamos, denunciamos e incomodamos. Fomos cristãos, somos cristãos!”.
Vamos na fé, orando e lutando.
computador no lixo
no lixo. E todavia
o crânio de lata teve memória dentro
– gigabytes dela! –
fez as quatro operações
aceitou versos
no seu imaculado
vazio virtual.
agora já não soma
nem subtrai
nem geme poemas, nem sublinha
erros de ortografia.
os pingos de solda, precários
neurónios de metal
perderam a memória.
já que te antecipaste
companheiro
diz-me como é não funcionar.
e se a ferrugem dói.
a. m. pires cabral (macedo de cavaleiros - portugal)
ode ao vinil
por muitos acordes
suicidas enche-me
de catástrofes
entre o sentido
e a dissimulação
do seu destino
lá fora dançam impessoais
as personagens-fantasma
da poética mutilação
do eterno retorno
que lá dentro dança
fora de si
espero-me em silêncio
tal anjo perdido
poeticamente distorcido
pela palavra
espero-te ao espelho quebrado
sem nada para te dar
entre gemidos agudos e graves
na camisa de sete forças
da palavra
A. Dasilva O. (portugal)
a secção dos congelados
na memória como filmes mudos
pequenas histórias de amor
carnal. os grandes caudais da noite
sempre desaguam na tarde salobra
e rasa: janeiro amolece a tinta
das paredes, levamos à rua uma cara
mais fechada, e depois, na secção
dos congelados, não sabemos distinguir
o que sentimos além do frio que represa
as coisas todas: caminhamos sós
num privado bosque, convocamos
sombras que foram perdendo o nome
sinais que não transportam já
um sentido automático de desejo
ou sofrimento. e contudo, à revelia
das certezas que não quiséramos ter
acabamos sempre por tornar
às mesmas ruas, à noite insone
e imensa, onde nos dói descobrir
na companhia dos outros
o quanto nos reclama a solidão.
rui pires cabral (macedo de cavaleiros - portugal)







