01/07/2009

rilke - fragmentos

"Não existe uma coisa na qual eu não me encontre
Não é só minha voz que canta: tudo ressoa."

"Aqui, entre aqueles que passam, sê, no reino do declínio
Sê o cristal que ressoa e no fragor da ressonância já se quebrou."

"Um ser sem invólucro, aberto à dor.
Atormentado pela luz, abalado por cada som."

"Mas quando, em qual de todas vidas
Somos nós, enfim, seres que se abrem para acolher?"

rainer rilke (extraido de 'O espaço literário', de Maurice Blanchot, ed. Rocco, 1987)

através

Através de todos os seres para o único espaço:
espaço interior do mundo. Silenciosamente voam as aves
através de nós. Ó eu que quer crescer
olho para fora e em em mim que a árvore cresce!
rainer rilke (extraido de 'O espaço literário', de Maurice Blanchot, ed. Rocco, 1987)

quem quer que sejas

quem quer que sejas: deixa tua alcova
da qual já sabes tudo que desejas;
teu lar na tarde, longe, se renova
quem quer que sejas

com teus olhos exaustos, que ainda a custo
entre os gastos umbrais logram passar
ergues inteira a sombra dum arbusto
posto ante o céu - esguio, singular

e tens já pronto o mundo; estranho assim
como palavra que amadurecesse
no silêncio, e que teu olhar esquece
quando lhe captas o sentido, enfim...

rainer rilke (O livro de horas, ed. Civilização Brasileira, 1994)

legado

navegar o centímetro do gesto
no mar infinito do verbo

é teu o que te for dado:
o olhar cansado preso à teia
o medo já domado da fera
o beijo.

tudo o mais
entrega.
mariana botelho

Também vão nesse mês dois poemas de Mariana Botelho. O seu poema ‘Legado’ parece dialogar com os ‘Canticos’ de Cecília Meireles, com a diferença de ter sido construído numa fala um pouco mais enxuta e com uma imagética mais simbólica, ou mais cerrada. Já ‘Paraíso’ remete tanto a Cecília quanto a Rilke, com sua prece feita às coisas e à solitude do poeta em meio ao fluxo do tempo; mas, claro, com uma fala toda própria de Mariana Botelho, ou uma fala mais apropriada para estes tempos de urgência.

Aliás, a atração que a poética de Mariana exerce parece estar um pouco ligada à essa faculdade de explorar e explicitar veios esquecidos veios da poesia; mesmo em tempos de falas e vivências fragmentadas, atomizadas, bombardeadas por signos e velocidades, a sua poesia se detém em essências, silêncios, solidões; enfim, a sua poesia tem não apenas o dom, mas encontra também o tom certo, o tom próprio da contemporaneidade, para trazer para este tempo de urgências aquelas conversas diretas e delicadas com o ser das coisas, apontadas nos textos acima, quando falei de Rilke e Cecília.

paraíso

aqui temos todas
as horas do
dia

prata escorre dos
lajedos
depois da
chuva

lágrimas engrossam o
canto dos pássaros o
uivo dos
cães

estar só
é dádiva
mariana botelho

minha cidade: padre paraíso, vale do jequitinhonha, minas - aqui somos quase sertão

anarquismo e cecília

Ao lado do registro da vertente filosófico-melancólica da poesia de Cecília Meireles, abordada em silêncios e desvelos II, os ‘Cânticos’ remetem-nos também a uma certa postura libertária e anarquista. Há neles um caráter de despojamento e de afirmação da liberdade em relação a qualquer ordem estabelecida, uma certa certa negação dos valores dos quais essa mesma ordem se utiliza para capturar as liberdades e espontaneidades que somos todos nós, ou que deveríamos ser, e no lugar da negação os poemas afirmam a atenção, o cuidado que devemos conosco mesmos, para que exercitemos mais o nosso desvelo para com as para com as coisas que estão aí, na sua gratuidade, leveza e densidade.

E, nesse ponto, podemos também tranquilamente retornar ao vínculo entre a poesia de Cecília e as cosmovisões das civilizações do Oriente, mas com aquilo que essas cosmovisões têm de consistente e de milenar, e não com os seus simulacros e fragmentos - tal como apontado em silêncios e desvelos I . Pois se há algo que a maioria dessas chamadas sabedorias propõem, é exatamente a necessidade de o indivíduo se despojar de seus enlaces excessivos com o transitório, o ruidoso, o repetitivo, o fácil e o fenomenal, que nos distraem do essencial e do sentido das coisas e de nós próprios no meio das coisas.
Aliás, parece que também haveria algo a dizer acerca da afinidade entre movimento libertário e as cosmovisões do Oriente, mas numa outra ocasião, num texto mais específico.

De qualquer forma, não se pretende aqui vincular Cecília Meireles e movimento anarquista, apenas registrar que são em poemas como esses que se pode perceber com mais nitidez a incontestável ponte que existe entre a arte e as propostas libertárias. Tanto quanto a autêntica arte, a visão libertária e anarquista é feita de riscos, de disposição criadora, de confiança no potencial fraterno dos indivíduos, de ênfase na celebração da vida e do mundo, ao invés da ênfase na conquista, na autoridade e no poder; e tanto a arte quanto a posição libertária carregam consigo a necessária lucidez e sensibilidade para perceber que, enquanto existentes, somos apenas precários mas fascinantes instantes no fabuloso mistério do tempo e do cosmos.
Essa afinidade entre arte e anarquismo com certeza que os cânticos de Cecília nos mostram - dentre tantos milhares de poemas de milhares de poetas. E como dito acima, os 'Cânticos' refletem maturidade existencial, apresentam-se de fato como o dizer verdadeiro de alguém. Aliás, vale uma consulta tanto ao conceito de dizer verdadeiro quanto ao conceito de parresiasta, presentes por exemplo no pensamento do filósofo Foucault, e difundidos entre alguns expoentes e militantes do anarquismo. Fica para uma outra oportunidade uma abordagem mais demorada acerca das relações do dizer verdadeiro da arte e dos anarquistas.
Leia, entre outros, o cântico I

o senhor ventura

Neste mês Desvelar apresenta um pouco de literatura de Portugal, com trechos de ‘O Senhor Ventura", do escritor Miguel Torga (1907-1995), publicado em 1943. O próprio título dá o tom da obra. Pois é de fato um romance - ou uma novela - ágil, eivado de ação, aventuras e desventuras, principalmente desventuras. Pois é preciso lembrar que o vocábulo ventura não significa propriamente alegrias, gozos, sucessos. Significa apenas o que deve vir, seja bom ou ruim, o acaso, o destino. E o destino do Senhor Ventura é atribulado, aguerrido, indômito e por fim melancólico.
A narrativa á vazada numa certa atmosfera de melancolia e saudade, como não poderia deixar de ser em se tratando de típica literatura portuguesa. Mas no Senhor Ventura há mais de Portugal, além da nostalgia. Esse irrequieto e sofrido personagem de Torga é de certa forma uma tentativa de resgate poético do grandioso destino de Portugal, à época das Grandes Viagens. Como aliás já sugere o misterioso narrador oculto, logo na abertura do livro.
Desta feita, Desvelar publica apenas trechos da primeira parte do livro, a parte mais recheada de ação, empreendimentos e viagens. Fica para uma outra oportunidade amostras da vida amorosa e do desolado declínio do Senhor Ventura. Como também fica para outra ocasião um comentário menos apressado acerca dessa comovente história do português Miguel Torga.
No Brasil, a obra foi publicada pela Nova Fronteira, em 1999.
"Em tardes assim como as de hoje, cansado de esperar não sei por que milagre, desanimado diante do mapa do mundo que da parede me desafia desde a meninice, começo a pensar no Senhor Ventura. Na sua evocação mitigo durante algumas horas a dor que vai dando cabo de mim. Não me resigno à idéia de ter vindo à luz neste tempo e numa terra durante séculos inquieta de saber e descobrir, e depois tragicamente adormecida para tudo que não seja olhar-se e resignar-se". página 11
“O que essa temeridade foi, não cabe aqui. Só mesmo um homem de carcaça de ferro e coração com pelos é que era capaz de fazer chegar àqueles confins os duzentos carros do contrato. Primeiro, a travessia da China, por caminhos onde Deus Nosso Senhor nunca passou; depois, o deserto imenso, escaldante, a secar a água, a gasolina e o próprio sangue de quem incautamente se lhe abandonava.
- Vamos!
E uma rajada de vontade atravessava a caravana inteira.
Pontes improvisadas sobre abismos, combates à carabina com salteadores de estradas, impossíveis de toda a natureza, nas ordens do senhor Ventura eram brincadeiras de criança.
- E valerá a pena a gente arriscar-se tanto? perguntou, ao fim dum dia medonho, o Pereira.” página 37

“Estava porém escrito que aquele negro negócio não podia frutificar e que o pouco tempo que duraria tinha de doer muito ao verdadeiro dono. Desígnios complicados lá do alto, que o alentejano só entendeu quando se encontrou de coração a sangrar pela primeira vez.
Certo dia, um bando de soldados do exército rebelde, sem armas e sem dinheiro para as comprar ao português, resolveu tomá-las à força. O senhor Ventura foi avisado por um traidor, ao entardecer.
Era caso para pensar três vezes. Mas o do Alentejo nem se comoveu.” página 48

“O combate começou então, duro como a decisão do Senhor Ventura. E tanto ele, do Alentejo, como o Pereira, do Minho, como os mercenários, de nenhuma terra, parecia que estavam a defender a pátria.
Mas os outros eram mais e batiam-se como desesperados, que ou triunfavam, ou não tinham salvação. Traziam aquela audácia que o Senhor Ventura conhecera já, nos tempos em que ele tinha tudo a ganhar e nada a perder de uma refrega. Eram um jogo no futuro, enquanto o alentejano e os companheiros eram somente uma defesa do passado. E, por isso, acabaram por levar a melhor. Entraram, mataram, saquearam, incendiaram, e só por milagre o Senhor Ventura conseguiu salvar-se na escuridão, com o corpo do Pereira às costas, a gemer, ferido de morte por uma bala que lhe atravessara o peito” . página 49

“No silêncio da noite e em pleno deserto, sob um céu escuro onde só uma estrela bruxuleava, o Senhor Ventura recebeu então no mais profundo da alma o último suspiro do companheiro. E pela primeira vez a sua humanidade dura teve consciência do mistério da vida e da morte, e das forças cósmicas que aproximam os homens e os fazem amar-se uns aos outros. Por que razão chorava ele o corpo exangue que lhe arrefecia nos braços? Por que motivo um desespero amargo lhe apertava a garganta? Tanta gente que vira morrer a seu lado! Mas, por mais que quisesse, não conseguia render-se à insensibilidade deste argumento.Conhecera aquele sujeito por acaso – continuava, a tentar convencer-se -, sabia quês e chamava Pereira, era do Minho e cozinhava bem. Nada mais. Que o distinguia, afinal, dos outros? Contudo, as lágrimas corriam-lhe em fio pela cara abaixo.” página 50

25/06/2009

se cada dia cai

se cada dia cai
dentro de cada noite
há um poço
onde a claridade está presa.

há que sentar-se
na beira do poço da sombra
e pescar a luz caída
com paciência.

Pablo Neruda

o 'dia de bloom' em vitória

Cláudia Coser, Wilson Coêlho, Rosane Morais e Gilbert Chaudanne
Vitória teve, pela primeira vez, o seu ‘Bloomsday’, ou ‘Dia de Bloom’. Foi realizado na FAFI, no dia 16 de junho, numa iniciativa conjunta da ‘Psicanálise e Cultura’ e da Escola de Teatro e Dança FAFI. Para quem ainda não ouviu falar do ‘Bloomsday’ reproduz-se, ao final, um pouco do material de divulgação.
Na programação houve a exibição do filme ‘Bloom', de Sean Walsh, 2003, duração de 113 minutos. O filme, obviamente, é inspirado na nunca suficientemente elogiada obra do irlandês James Joyce, e trata da famosa história que se passa no dia 16 de junho de 1904.
Depois aconteceu uma conversa em torno do tema “Joyce, Psicanálise, Literatura, Cinema” com a participação do público e de Wilson Coêlho, Gilbert Chaudanne, Cláudia Coser e Rosane Morais.Entre vários outros, foram abordados os seguintes temas: o paralelo entre as peripécias do judeu errante (representado por Bloom) e de Ulisses (o herói da ‘Odisséia’, de Homero); as ruas de Dublin como o labirinto do qual o herói Bloom/Ulisses tem que escapar; os momentos delirantes/carnavalescos presentes no livro, o contraste entre os heróis da ‘Odisséia’ e do ‘Ulisses’; visões da Psicanálise acerca do ‘Ulisses’ e do próprio Joyce.

Ao final, sugeri aos organizadores alguns temas para o Bloomsday dos próximos anos: a relação de Beckett com Joyce e as influências deste último sobre Beckett, as semelhanças e diferenças entre Joyce e o mineiro Guimarães Rosa, e uma suposta afinidade entre Brasil e Irlanda, como a carnavalização e o catolicismo arraigado.

Parabéns aso organizadores e que o 'Bloomsday' de Vitória continue de fato nos próximos anos. É o que com certeza esperam os leitores de Joyce presentes nesse primeiro evento.

Extraído do material de divulgação: “O 'Bloomsday' é um feriado comemorado no dia 16 de junho na Irlanda. É o único feriado em todo o mundo dedicado a um livro, excetuando-se a Bíblia. Também é comemorado todos os anos em vários lugares e em várias línguas. Em comum entre os muitos entusiastas e simpatizantes envolvidos nestas comemorações há o esforço por relembrar os acontecimentos vividos pelo personagem Leopold Bloom, durante 16 horas do dia 16 de junho de 1904 pelas dezenove ruas da cidade de Dublin.”

um presente : bloom, o filme

Quanto ao filme de Sean Walsh, 'Bloom', há a predominância de uma atmosfera subjetivista, mesclada com uma certa melancolia; e aí perde-se bastante da vivacidade, da inquietude e da sensualidade que, no livro, brota não apenas das pessoas mas das próprias coisas - do mar, do céu, das casas, das ruas, principalmente das ruas. Mas é como se o diretor tivesse se visto no dilema de escolher entre essa vivacidade das ruas, expressa nos diálogos e nas descrições, e a delicadeza das pessoas e das coisas, expressa principalmente nos monólogos.
Enfim, se já é extremamente difícil transpor o universo de qualquer obra literária para a linguagem do cinema, com competência e sensibilidade, seria pedir demais que Sean Walsh desse conta das inúmeras facetas do ‘Ulisses’. Na verdade, o simples fato do diretor ter encarado o desafio já o tornaria merecedor do respeito de escritores e leitores de Joyce.
Mas ele merece mais, também os nossos aplausos, pois cumpriu o desafio com a devida competência, sensibilidade - e com a mais completa ausência de ‘invenções’ presunçosas e cansativas, como muitas vezes acontece nessas tentativas de diálogo literatura/cinema.
Destaque para a cena final, a do famoso monólogo de Molly: houve uma total fusão entre as imagens, luzes e sons da cena filme com o fluxo de consciência da personagem magistralmente descrito no livro (do qual publicamos também um trecho em ‘a odisséia de Joyce’); Sean Walsh soube captar toda a rica mistura de erotismo, desejo, nostalgia, ironia, dúvidas e interrogações que estão na fala da esposa de Bloom, que acorda no meio da noite ao ter o sono interrompido pela chegada de Bloom em casa, após o seu demorado cortejo de mais um dia pelas ruas de Dublin e da existência.
Vale também registrar que os atores que interpretam Bloom e Molly foram muito bem escolhidos, interpretação equilibrada, fluida, mas vivaz e rica em nuances quando assim exigido; além da competência como atriz, com certeza a aparência física da atriz Angeline Ball colabora para que ela transmita ao espectador/leitor aquela mistura de luxúria e simplicidade, aquela sensualidade inocente, livre do peso do ‘pecado’, característica da esposa de Bloom. Leve ressalva talvez para o ator que representa Stephen Dedalus, não propriamente com relação à sua atuação, mas pela escolha do ator: muito jovem, mais para estudante ou adolescente do que para jovem escritor em difícil e impetuoso processo de buscas e descobertas. Talvez o personagem Dedalus devesse ter ‘aparecido’ mais no filme.
De qualquer forma, para quem gosta de Joyce, o filme é um delicado e vivo presente. Se os nossos desejos pudessem se tornar realidade, bem que Walsh poderia fazer um ou mais filmes sobre a mesma obra, abordando outras cenas, experimentando outras atmosferas, enfatizando um pouco mais Stephen ou Molly, ou outro personagem - de preferência com os mesmos atores, principalmente a que representa Molly. Afinal, se há na cultura do Ocidente obras que mereçam continuações e releituras o ‘Ulisses’ com certeza é uma delas. E com certeza Sean Walsh saberia nos dar outro presente.
Nota: Stephen Dedalus, Molly Bloom e Leopold Bloom, interpretados, respectivamente, por Hugh O'Conor, Angeline Ball e Stephen Rea. Leia ainda: as odisséias de joyce
Roberto Soares Coelho

as odisséias de joyce

Movido pela realização do primeiro ‘Bloomsday’ de Vitória, Desvelar publica abaixo alguns trechos do ‘Ulisses’, obra de James Joyce que inspira em todo o mundo o ‘Dia de Bloom’.
De toda a história da literatura, essa obra é sem dúvida a mais complexa, ambiciosa e a mais bem sucedida em seus objetivos. É uma odisséia, uma narrativa grandiosa, não somente da vida de um homem (Leopold Bloom), mas de certa forma de toda a chamada civilização ocidental.

Quando se diz ‘seus objetivos’ entende-se que há um plano, um projeto. De fato, Joyce não se deixou levar apenas pelo fluxo criativo, ou por uma idéia geral, ao escrever o ‘Ulisses’. Prova disso é a estrutura quase matemática da obra.
O livro é dividido em 18 capítulos, e em cada um deles há a presença, discreta ou explícita, de um elemento ou tema diverso: uma hora do dia, um órgão do corpo, uma cor, um símbolo e, mais fascinante que tudo, uma arte e uma forma de narrativa para cada um dos capítulos.

Joyce passeia por paródias, poemas, sermões farsas, monólogos, ‘falas’ que desnudam consciências ora juvenis ora femininas ora bêbadas. Sem falar, claro, no capítulo final, escrita na narrativa chamada de fluxo de consciência, que Joyce elabora com maestria até hoje inigualada. Aliás, para muitos é certo que a obra de Joyce até hoje não foi superada, principalmente no que diz respeito ao ‘Ulisses’ e ao ‘Finnegan’s Wake’; obra no máximo igualada em muitos aspectos pelo mineiro Guimarães Rosa, principalmente o Rosa épico, poético, cósmico, religioso, metafísico e inventivo de ‘Grande Sertão: veredas’, e o Rosa explorador e radical de ‘Tutaméia’ e de ‘Terceiras estórias’.
Obviamente que tudo isso é apenas uma pálida pincelada acerca da obra do escritor irlandês. Para se ter uma idéia, ‘Ulisses’ são cerca de oitocentas páginas de pura invenção, inquietude, celebração e gozo da palavra. Mas não celebração e invenção em abstrato, feita para escritores e intelectuais; ao contrário, a riqueza e o fascínio de Joyce nessa obra está exatamente em ter logrado, como pouquíssimas vezes se viu na literatura, a perfeita junção entre palavra e vida, entre arte e gente. Da palavra escrita de Joyce, das páginas do livro parece que de fato ‘brotam’ pessoas, olhares, risos, pensamentos, mágoas, dúvidas, ciúmes, alegrias, sonhos, ansiedades.

E tudo acontece em praças, praias, bares, quartos e ruas, principalmente ruas, dá realmente a impressão de acontecer no mundo de ‘verdade’, no mundo no qual o leitor vive. Sim, é uma espécie de realismo, mas de realismo superior, que somente pode ser construído a partir da palavra mágica, singular e potente do escritor Joyce. Essa proximidade com a vida, com as coisas e com as pessoas somente tem paralelo na já citada obra de Guimarães Rosa.

Enfim, é a história de um Ulisses não tão heróico quanto o da ‘Odisséia’, um Ulisses moderno, que poderia ser qualquer um de nós, na figura do esquivo e inseguro, malicioso e calculista, sensual e nostálgico Leopold Bloom.
E, como dito acima, alguns estudiosos na sua estrutura, nos seus recursos a linguagens, artes, ciências, ‘Ulisses’ também pode ser lido como uma narrativa, uma pequena e discreta epopéia de toda a complexa trajetória da civilização com todo o que ela tem de fascinante e de contraditório, de celebração e de lamento. Na verdade, essa gigantesca tentativa de epopéia da história da humana parece que James Joyce busca construí-la na sua outra obra radical, o ‘Finnegans Wake’ (a qual infelizmente ainda não me dispus a ler), que embora seja de complexa dificuldade em termos de tradução, vem sendo editada em outras línguas - para se ter uma idéia, aqui no Brasil somente foi publicada em 2000, na certamente corajosa tradução de Donaldo Schules.
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Os trechos do ‘Ulisses’, abaixo publicados, referem-se ao passeio que Bloom faz por uma das praias de Dublin, ao entardecer; em meio às suas cismas, dúvidas e projetos para a noite, ele observa um grupo composto por duas jovens e crianças.

A arte relacionada ao capítulo é a pintura, o símbolo é uma virgem, os órgãos são o olho e o nariz e a técnica narrativa é a tumescência/detumescência.

Embora apenas dêem uma vaga idéia do capítulo (no total são umas sessenta páginas) registre-se a mudança na técnica de narração: até mais ou menos a metade do capítulo é uma fala delicada, poética, satírica apenas na aparência (uma narrativa que, ao menos na aparência, procura descrever ou comungar com o mundo de garotas, ou mais especificamente, de uma garota virgem). Depois a fala subitamente transforma-se: é agora mais pausada, menos afetada emasi masculinizada, incisiva. É Bloom entrando em cena. Até então, a delicada e brincalhona narrativa sequer fazia suspeitar de sua presença, na espreita, a manter com a jovem Getty MacDowell um ambíguo flerte.

Percebe-se, então, porque Joyce denominou de tumescência/detumescência a técnica narrativa por ele utilizada nesse capítulo. Há num primeiro momento todo um entusiasmo, toda uma expectativa de um acontecimento agradável ou revelador, exatamente como a expectativa de uma garota virgem que se sabe observada por um homem que ela entende como experiente e ousado, e a cujos olhares e gestos ela corresponde de maneira ambígua, discreta. Depois há a fala prosaica do homem que a observava e que se excitava com as mãos, ao conseguir que a garota se exibisse discretamente para ele.
A mudança, quase brutal, da fala, ocorre quando a garota se levanta para ir embora e Bloom percebe que ela mancava. Da tumescência, da impetuosidade incial, temos então a detumescência, a frouxidão, não apenas da froma narrativa mas também da masculinidade de Bloom. São centenas de preciosidades assim que fazem Joyce nos fascinar.
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E, claro, não poderia faltar uma pequena amostra do famoso fluxo de consciência de Molly Bloom, que conduz o capítulo final (ver também o final do texto um filme, um presente). Fica para uma próxima oportunidade outros comentários, tanto acerca desse capítulo final, quanto acerca de muitos outros capítulos e situações.
Afinal, ler Joyce é compartilhar de suas odisséias, de suas originalíssimas explorações nos ainda vastos e desafiadores oceanos da palavra. Parodiando Guimarães Rosa ao falar de Minas: ‘Joyce são muitos”.
Roberto Soares Coelho

ulisses - trechos

A tarde de verão começara a envolver o mundo em seu misterioso amplexo. Bem longe no oeste o sol se punha e o último fulgor de um mui fugaz dia apegava-se amorosamente ao mar e areal, no garboso promontório velho e querido de Howth(...)
As três mocinhas amigas estavam sentadas nas rochas, comprazendo-se com a cena vesperal e a atmosfera que era fresca mas não demais friorenta. Muitas e freqüentes vezes soíam elas vir àquele recanto favorito para entreterem conversa aconchegada cerca das ondas faiscantes e discutirem assuntos femininos(...).
Gerty MacDowell, que estava sentada perto das suas companheiras, perdida em pensamentos, contemplando longe nas distâncias, era a bem da verdade um tão bom espécime da atraente mocidade irlandesa quanto se podia desejar ver. (...) Até ali eles tinham apenas trocado olhares dos mais fortuitos mas, agora sob a aba do seu chapéu novo ela aventurava mirá-lo e o rosto que a fitou ali no crepúsculo, lívido e estranhamente contraído, pareceu-lhe o mais triste que jamais ela houvera visto. (...)
Gerty tirou por apenas um instante o chapéu para arranjar a cabeleira e mais bonitinha, mais gostosinha cabeça de tranças castanhas jamais se viu(...) Ela quase podia ver o rápido surto de encantamento correspondente nos olhos dele que a fez formigar em cada nervo. Ela repôs o chapéu de modo que pudesse ver sob as abas e balançava os sapatos(...) Ele a fitava como a serpente fitava a sua presa. Seu instinto de mulher dizia-lhe que ela despertara o diabo nele e a esse pensamento um escarlate candente espalhou-se da garganta à fronte a ponto de a adorável cor de suas faces tornar-se uma rosa esplendente. (...)
Os olhos que estavam cravados nela faziam sua pulsação retinir. Ela fitou-o por um instante, acolhendo-lhe o olhar, e uma luz irrompeu nela. Paixão ardente havia naquele rosto, paixão silente como um túmulo, e esta a fazia dele. Por fim, eles haviam sido deixados a sós sem os outros a se intrometerem e a fazerem observações e ela compreendeu que podia confiar até a morte nele(...) As mãos e o rosto dele contraíram-se e um tremor se apoderava dela. Ela inclinou-se bem para trás ao olhar para cima e não havia ninguém para ver a não ser ele e ela quando ela revelou as graciosas pernas todas belamente feiçoadas assim, suavemente flexíveis e delicadamente torneadas, e ela lhe parecia ouvir o arquejo do coração dele, pois ela sabia da paixão de homem como aquele, sanguiardente(...)
E então um foguete disparou e estrondeou em estampido cego e oh! Então a vela romana encandeou e era como se um suspiro de oh! e todos gritaram oh! oh! em êxtases e ele golfou de si uma torrente em chuva de caracóis de cabelos dourados e eram todos verdes estrelas rociadas caindo douradas, oh, tão vívidas, oh, tão boas, doces, boas!(...) .
Ele estava inclinado contra a rocha de trás. Leopold Bloom (pois que era ele) mantém-se silencioso, a cabeça baixada ante aqueles olhos impérfidos. Mas que cruel havia sido! Às voltas de novo? Uma bela alma pura o chamara e miserável que era, como lhe respondera? Um grosseirão consumado é que fora. Ele dentre todos os homens! Mas havia uma infinita reserva de piedade naqueles olhos, para ele também uma palavra de perdão embora ele tivesse pecado e errado e desgarrado. Deveria uma moça confessar? Não, mil vezes não. Esse lhes era o seu segredo, só deles, sós no crepúsculo esconso e ninguém havia para saber ou dizer salvo o morceguinho que voava tão manso pela tarde aqui e ali e os morceguinhos não falam. (...) Páginas 398-422.
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A partir daqui, há a mudança da fala, a reversão da tumescência para a detumescência, sinalizada pelo gozo de Bloom e pela partida de Getty.
Sapatos apertados? Não. Ela é coxa! Oh!
O senhor Bloom olhava para ela no que ia manquejando. Pobre moça! Lá estava por que havia sido deixada de molho e os outros davam aquela disparada. Entendi que alguma coisa estava errada pelo jeito da pinta dela. Beleza escorraçada. Um defeito é dez vezes pior numa mulher. Mas as faz polidas. Contente de não ter notado enquanto ela estava à mostra. Diabinho esquentado apesar de tudo. Perto das regras, creio, faz sentirem comichõezinhas. Que dor de cabeça que tenho hoje. Onde é que pus a carta? (...)
As virgens ficam malucas ao cabo, eu suponho. Minha irmã? Quantas mulheres em Dublin estão com aquilo hoje? Martha, ela. Alguma coisa no ar. È a lua. Mas então porque todas as mulheres não ficam menstruadas ao mesmo tempo, com a mesma lua quero dizer? Depende do tempo em que nasceram, suponho. Ou todas dão a arrancada juntas e depois ficam para trás. Às vezes Molly e Milly juntas. De todos os modos tirei a melhor disso. (...) Não olhou para trás quando se foi praia abaixo. Não queria dar uma satisfação. Essas garotas brejeiras, essas garotas, essas garotas da praia. Belos olhos que tinha, claros. É o branco dos olhos que dá realce, não tanto a pupila. Entendeu ela que eu? Claro. Como um gato a salvo de salto de cachorro. (...)
Elas são todas olhos. Procuram sob a cama pelo que as chama. Ansiando levar o susto de suas vidas. Agudas como agulhas é que são. Quando eu disse a Molly que o homem da esquina da Cuffe era bonitão, pensando que ela ia gostar, ela já tinha pescado que ele tinha um braço postiço. Tinha mesmo. De onde lhes vem isso? (...) Páginas 423-427.
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Aqui, os trechos do monólogo de Molly Bloom.

Sim eu penso que ele tornou eles um pouquinho mais duros chupando eles tanto tempo que ele me fez ficar com sede tetéias é como ele chama eles eu tive de rir sim pelo menos este aqui fica durinho de bico por qualquer coisa eu vou dar um jeito para ele fazer de novo e vou tomar ovos batidos com marsala para fazer eles ficarem cheios para ele como é que é curiosa a maneira que todas essas veias e coisas é feita dois iguais em caso de gêmeos eles são considerados como representantes da beleza colocados em cima como aquelas estátuas no museu fingindo esconder ele com mão dela(...)
Adeus pro meu sono esta noite de todos os modos eu espero que ele não vá se meter com esses medicandos a levarem ele a se desencaminhar imaginando que é moço de novo voltando às quatro da manhã que eram se não era mais ainda assim ele teve bons modos pra não me acordar que é que eles acham pra palrar toda a noite esbanjando dinheiro e ficando cada vez mais bêbados eles bem que podiam beber água e depois lá começa ele a dar ordens à gente para por ovos e chá Findom e torrada quente com manteiga eu suponho que vamos ter ele sentado como o rei da terra bombeando com o cabo da colher pra cima e pra baixo no ovo dele onde é que ele aprendeu foi aprender isso e eu adoro ouvir ele tropeças nos degraus de manhã com as taças chacoalhando na bandeja(...)
Esta droga de cama velha sempre tinindo como o diacho eu creio que se podia escutar a gente até do outro lado do parque até que eu sugeri pra botar o acolchoado com o travesseiro debaixo do meu traseiro eu me pergunto se não é mais bonito de dia eu penso que é mais cômodo eu penso que vou cortar todos esses pelos aí que me escaldam eu podia ficar parecendo uma garota novinha será que ele não ficar de boca aberta na primeira vez quando levantasse minha roupa eu dava tudo pra ver a cara dele(...)

20/06/2009

rebelião na grécia (5) - carta...

Carta de um anarquista na prisão

A carta abaixo, divulgada no blog Grécia Libertária, foi escrita pelo anarquista grego Ilias Nikoláu, encarcerado numa prisão da Grécia. É um desses testemunhos que dispensam muitos comentários; não somente pela coragem, determinação, sensibilidade e lucidez de quem a escreve, mas até mesmo em respeito à sua situação de prisioneiro. Para aqueles que estão até mesmo perdendo a sua liberdade em nome da resitência e de um horizonte completamente diferente para todos nós, para aqueles que estão de fato se cumprindo como profetas de um novo tempo, um silêncio respeitoso às vezes é a melhor homenagem.

Carta do companheiro anarquista Ilias Nikoláu
"Há quase 6 meses estou aqui, nas masmorras da democracia. Uma prisão provocada pelo meu jeito de viver e pelas minhas idéias. Os criadores desta situação são os cães fardados democracia. Os dias, passo-os entre as paredes mudas e miseráveis, os pensamentos vêm e vão, algumas imagens atravessam rápidas a minha cabeça, outras se demoram um pouco mais, mas há também aquelas imagens, memórias e sentimentos que não vão embora nunca, que não são esquecidas e que estão bem enraizadas no coração de minha consciência.
Eles não podem ser dobradas, não podem ser alteradas, não podem ser fragmentadas. São memórias da raiva, são as imagens das chamas e dos ruídos ensurdecedores, sentimentos de amor e de companheirismo, são os momentos e experiências de um modo de vida, que tem como principal objetivo levantar alto a bandeira de uma dignidade indomável.
Tal como escrevi na minha primeira carta, "Eu pertenço ao acampamento dos que são guiados pela dignidade”. Para mim tudo começa e tudo acaba aí. Os projetos, as dificuldades e as prisões são para mim nada mais que sintomas de um estilo de vida saudável. Uma vida que não abaixa sua cabeça, uma vida que não se contenta com o que existe, mas que busca e aspira algo que, infelizmente, parece impossível para a maioria. Mas o impossível não é nada de imaginário, apenas algo que ainda não tentamos, experimentamos.
Claro que os inimigos são muitos. Os mecanismos de Poder e seus seguidores, os seus donos e os seus eleitores, os seus guardiães e defensores. Essas isoladas e desesperadas massas, que se sentem gratas, cada vez que o Poder aumenta as medidas repressivas, e se sentem seguras e aplaudem quando os seus senhores são bem protegidos. À mais miserável sobrevivência chamam de "vida". Uma sobrevivência administrada em doses, uma dignidade perdida debaixo de ordens diretas ou indiretas.
E há a sua famosa democracia, que está se armando e se blindando, que persegue, encarcera e assassina tudo o que lhe é hostil.
Mas a questão para nós não é saber se eles são muitos, se estão organizados e se têm os meios e os métodos para nos vencer. A questão para nós é a de colocar todo o nosso ser na luta. E não se trata de uma luta pacífica por alguns ideais, por um belo mundo ou por uma utopia, mas de uma luta pela dignidade, pela liberdade e pela destruição do Poder.
A nossa existência nós temos que buscá-la, temos que conquistá-la. Não é algo a ser comprado e vendido nas prateleiras dos supermercados ou nas vitrines dos shoppings, com cartões de crédito. Não é algo que abaixa a cabeça e jura em frente da bandeira de alguma nação e em seguida vai guerrear contra outras existências, supostamente inimigas de nossa nação.
Os nossos princípios e as nossas ações nós os definiremos clara e lucidamente, no dia a dia de uma luta difícil. Sejam o que for as histórias que as autoridades inventarem sobre terroristas, encapuzados e ‘agentes’, responderemos que nunca iremos nos submeter à obediência e ao silêncio. Guiados pela dignidade nós nos dirigimos em direção à liberdade."
Saudações Companheiras
Ilias Nikolau, 6 de junho de 2009, da prisão Amfissas
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dandara: a epopéia continua

Está se consolidando como uma verdadeira epopéia a luta dos moradores que fazem parte da Ocupação Dandara, no bairro Céu Azul, em Belo Horizonte. Na verdade, nada de muito novo: tentativas de despejo, ameaças disfarçadas ou acintosas da polícia, através de batidas visível e desnecessariamente direcionadas para os moradores da Dandara, omissão e indiferença da Prefeitura, cobertura ausente ou tendenciosa da imprensa.
Enfim, o roteiro de sempre. Não há nenhuma surpresa. Afinal, seria esperar demais que magistrados, imprensa, políticos e empresários se comovessem com o drama daqueles que são aos poucos jogados para fora dessa engrenagem irracional que nos aprisiona. Essas pessoas, grupos ou categorias sociais estão cumprindo o seu papel de defender friamente os alicerces da ordem que alimenta e mantém sua posição dentro dessa ordem. Sempre encontrarão argumentos inteligentes e consistentes (do ponto de vista deles, claro) para justificar suas ações ou omissões. Aliás, a imprensa e justiça têm papel fundamental nesse processo de fornecer tais argumentos.
E para os outros, a chamada opinião pública, os que estão dentro da ordem irracional, não há motivos ou estímulos suficientes para se rebelar contra essa mesma ordem. Ainda mais nestes tempos em que o modelo capitalista tem conseguido anestesiar mentes, corações e vontades quase que com perfeição. Mecanismos para essa anestesia não faltam: o medo da violência e da barbárie, as falsas urgências criadas por um consumismo que é a tábua de salvação do capitalismo, a asfixia dos meios de comunicação e da colonização cultural, e por aí afora.
Mas cabe, sim, aos que foram excluídos - até dos menores benefícios dessa ordem - denunciarem com suas ações e suas existências a irracionalidade dessa mesma ordem. Cabe a eles, e não aos que estão anestesiados, cumprirem-se (ou ao menos tentarem cumprir-se) como profetas de um novo tempo. Aqueles que se libertam e aqueles que são excluídos dessa ordem com certeza perdem em benefícios, segurança, sociabilidade e até mesmo um pouco de sua identidade com o coletivo. Mas ganham em lucidez, e ganham também a oportunidade ou a difícil tarefa de insistirem em novos horizontes para o homem no mundo.
Aqueles que se benficiam dessa ordem ou que estão anestesiados por ela sempre se incomodarão com pessoas que insistem em denunciar e convocar para a luta, a transformação, e assim somente podem ver como excêntricas, oportunistas e ultrapassadas ações e palavras que lembrem a fraternidade, a resistência, a dignidade e a amizade para todos. Ser profeta de um novo tempo, na verdade, exige que compreendamos e nos coloquemos acima dessas posturas ora desumanas, ora raivosas, ora apenas conformistas, e acima desses raciocínios e justificativas viciadas, que no mais das vezes sempre vêm acompanhados de argumentos supostamente inteligentes e modernos.
Assim, apesar dos costumeiros obstáculos - e em parte por causa deles - que os integrantes da Ocupação Dandara prossigam nessa tarefa de profetas de um novo tempo. E que encontrem alento na carta do anarquista grego Ilias Nikoláu com seu comovente e indomável testemunho, e que vai publicado também como uma homenagem aos companheiros e companheiras da Dandara.
Quanto às crianças como Pedro e Ananda, mostradas na matéria abaixo, é a luta e a crença de movimentos como o da Ocupação Dandara e de pessoas como o anarquista Ilias Nikoláu, que lhes darão outras possibilidades, para que não tenham que seguir, por exemplo, o caminho dos ‘sinais de trânsito’ e nem o mesmo caminho do garoto do fotopoema café da manhã de domingo (algumas pessoas afirmam que ele foi executado, cerca de três ou quatro anos depois dessa fotografia). Claro que para muitos eese apelo envolvendo crianças não passa de chantagem emocional por parted e líderes oportunistas e espertalhões. Mas não se poderia esperar outros argumentos de mentes e vontades que se encontram anestesiadas e assustadas, mesmo que se trate de pessoas que já chefiaram um Vara de Infância e Juventude... Que fazer, anão ser continuar a tarefa?
Quem quiser saber mais detalhes de como está a atual batalha politica e jurídica pelo terreno ocupado, leia a matéria o desembargador e as crianças ou acesse o blog ocupação dandara.

17/06/2009

flecheira libertária (4)

flecheira - substantivo feminino; pequena abertura nas muralhas, pela qual se lançavam setas contra os inimigos ou sitiantes; frecheira, frecheiro, seteira (dcionário Houaiss)


Flecheira 112, 26 de maio

lata de lixo.
No Espírito Santo, os presos são amontoados em contêineres fétidos, latas de lixo humano, cercados por concertinas. É o horror. As autoridades obstaculizam as visitas de grupos de diretos humanos, alegando "questão de segurança". Mas estes entram e constatam que a comida podre, com "arroz, feijão e algo que parece batata", não é tão ruim diante de tanta imundice. Na revista íntima, mulheres são violentadas por agentes. Os assassinatos são contabilizados como fuga, o desaparecimento de indesejáveis, como na ditadura militar. Não há defensoria pública, somente a seletividade do sistema penal contra pobres, miseráveis, jovens e subversivos. As cercas elétricas e concertinas vão além do visual de campos de concentração: uma criança se corta ao tentar tocar em seu pai.

a lógica da reforma
A crítica que pretende humanizar a prisão-contêiner alimenta a distribuição de verbas e justifica a construção de mais prisões, fazendo a alegria de burocratas que vivem da morte lenta de gente considerada LIXO. Na democracia, representativa e participativa, há a ardilosa capacidade de conformar as pessoas na lógica da formalidade e alimentar esperanças vãs de mudança, respeitando a lei e o procedimento.

abolir
Enquanto existir prisões, de lata, de tijolos ou high-tech, existirá tortura e violência, desaparecimentos e morte lenta, polícia, secretários e burocratas alimentando-se dos corpos de pessoas que não interessam senão como ração de reformas. Para que não exista mais a lata de lixo humana, é preciso que não existam mais prisões.


tire o olho de mim
Num bairro da cidade de São Paulo moradores organizam uma patrulha sob a rubrica de “ vizinho está de olho!” o objetivo é inspecionar a casa e a vida dos outros em busca de inibir a ação de ladrões, por meio da vigilância da própria comunidade. A autoridade aprova, e reitera “ ser copiado por outros bairros” mas relembra que os moradores devem ajudar com informações e evitar qualquer tipo de ação policial. Talvez, perdido em sua própria retórica ele tenha se esquecido que o alcagüeta é aquele que mais deseja ser polícia.

guerras e inimigos nos fluxos
A mais nova guerra dos EUA é contra hackers, espiões e terroristas que transitam nos fluxos computoinformacionais imprescindíveis para o capitalismo e o governo do planeta. As guerras na sociedade de controle ganham novas profundidades que vão dos mega-bytes às vastidões cósmicas, opondo Estados, capitais, fundamentalismos. No entanto, nesses mesmos fluxos outras guerras podem surgir surpreendentes, esguias, imprevisíveis, sabendo que hoje se não se resiste fora dos fluxos, mas neles, afirmando novos costumes liberadores, guerreiros e inimigos das ordens.

“palavras fazem você ver novas terras e com elas estranhas viagens” (samuel beckett).
"Flecheira Libertária" é uma seção do endereço libertário nu-sol. É um espaço de onde são lançadas flechadas certeiras e cortantes contra o senso comum e os mecanismos de domesticação e captura de nossa liberdade. É uma abertura, um buraco nas muralhas da engrenagem e na nossa tendência para a aceitação da ordem, nossa necessidade inconsciente de se entregar a uma visão sempre tranquilizadora do mundo e da história. Flechadas que, geralmente através de um ou dois parágrafos, atingem em cheio o alvo e despertam para o risco de nos aquietarmos nas certezas estabelecidas, mesmo que tenham duramente conquistadas. Mesmo para quem não comunga das propostas anarquistas ou libertárias, vale a pena ao menos acompanhar o ousado e inusitado percurso dessas flechadas. E quem sabe se deixar flechar. Um pouco de lucidez e dúvidas não ferem tanto assim.

o desembargador e as crianças


Estes são Pedro e Amanda. Eles têm 6 e 5 anos. Junto com outros 1 milhão e meio de crianças eles fazem parte das famílias de baixa renda que não tem casa em Minas Gerais. Eles não tem uma casa pois nasceram pobres num país que concentra patrimônio e produção de riqueza. E que nunca fez a Reforma Agrária nem a Reforma Urbana para reverter este quadro.

Pedro e Amanda moram na Ocupação Dandara, junto com outras mil e duzentas crianças. Por decisão individual do desembargador Tarcísio Martins, do TJMG, todos eles serão despejados, e o terreno vai retornar à Construtora Modelo. O terreno tem 400 mil m² e estava abandonado há quarenta anos até chegarem lá o Pedro, a Amanda e seus pais, junto com outras mil e oitenta e seis famílias. A Construtora Modelo deve milhões de reais de impostos sobre o terreno, e é uma empresa conhecida de muitos mutuários lesados com cláusulas abusivas em Belo Horizonte e região metropolitana. Além disso há indícios de que o terreno foi grilado.

Mas o Dr. Tarcísio decidiu assim, por liminar no processo 24.9.545746. E, sem nem abrir a Constituição, que prevê que “a propriedade deverá cumprir a sua função social” ele reverteu sozinho uma decisão de outro desembargador. O que é estranho, pois não é comum isto acontecer. E também porque o Dr. Tarcísio tem um vasto currículo e fez sua carreira na defesa dos direitos dos menores abandonados. Ele tem vários livros publicados e foi muito atuante à frente da Vara de Infância e Juventude.

Porém uma coisa parece que o meritíssimo não aprendeu, nem com todo este estudo. É que não existem direitos nem pessoas em abstrato. É que só existem crianças de rua porque existe concentração de renda e de patrimônio. E sua decisão vai botar mais crianças na rua, e vai também aumentar seu currículo de maneira vexatória.

Pedro e Amanda têm duas possibilidades de futuro neste exato momento.

O futuro que seus pais querem construir na Dandara é de ter uma casinha onde morar e uma fonte de renda que se sustentem em cooperativa com as demais famílias. Também querem estudar, brincar no parque que seria construído na área que eles perderam pela liminar. São muitos os sonhos que não dá para contar aqui.

O que o Dr. Tarcísio e a Construtora Modelo querem é bem fácil de explicar. Na verdade, você já conhece.Basta olhar aí do lado de fora da sua janela, nos sinais de trânsito.
Leia também: a epopéia continua

15/06/2009

assumir a própria ousadia

Algumas lideranças populares entendem que o Plano de Ação do COLEDUC, mencionado na matéria cpv avança com o coleduc, deve priorizar a constituição de Grupos de Trabalho que abordem, entre vários outros, dois temas muito importantes: a mobilização e a divulgação do COLEDUC junto às comunidades. Pois é fundamental que tenha de fato penetração nas comunidades, que ele se apresente para o movimento comunitário. Afinal, já se vão mais de três anos que o projeto foi aprovado e até o momento as comunidades não sabem dizer exatamente o que seja o COLEDUC e a que veio.
E agora que finalmente o projeto tem superado os entraves institucionais e de organização, é preciso começar a se pensar numa forma de atender a essa espécie de ‘demanda reprimida’ das comunidades. Pois embora haja um desconhecimento das propostas integrais do COLEDUC, percebe-se que as comunidades acolhem com interesse e até ansiedade um projeto que fala em “educação ambiental crítica”, “formação de educadores populares”, “sociedades sustentáveis no lugar de desenvolvimento sustentável” etc.
São expressões que seduzem e engajam as lideranças, mesmo que de forma apenas intuitiva.
Por isso é tão importante não se ater tanto a controles pedagógicos, conceituais e muito menos institucionais. É preciso não sufocar a espontaneidade e a criatividade que existe no meio do movimento comunitário. Existem inúmeros PAP3 (ver abaixo explicação sobre PAP3) informais, latentes, que têm inclusive muito a nos ensinar.
E, afinal, um das propostas do ProFea (Programa Nacional de Formação de Educadores Ambientais) não é exatamente a de aprender ensinando, não é a de que os formadores de educadores ambientais aprendam com os seus “alunos”, no nosso caso, aprendam com as lideranças populares e conselheiros locais?
Obviamente que sem desfazer do lúcido e minucioso trabalho teórico, já acumulado pelos técnicos e pesquisadores do ProFea, é preciso estarmos sempre atentos para não sufocar a espontaneidade e a particularidade de cada comunidade.
Por isso, é preciso que não enfiemos essa singularidade e essa espontaneidade em nossas camisas de força, não gastemos excessivamente tempo, energia e expectativas apenas com diretrizes, métodos, projetos, enfim, não nos preocupemos em chegar com ‘receitas’ prontas pra os futuros educadores ambientais populares. Aprender a despertar autonomia no movimento instituinte (o movimento popular) e aprender a dar autonomia.
Assim, o COLEDUC de Vitória estará assumindo e exercendo de fato a sua ousadia e originalidade.
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Aliás, em breve organizaremos nas comunidades do Centro o primeiro Encontro de Educação Ambiental , exatamente com o objetivo de apresentar o COLEDUC às comunidades e de articular melhor o trabalho dos representantes das comunidades nos Conselhos de Escola e nos Conselhos de Saúde.
Na verdade, já começamos um trabalho de integração e conhecimento do território, como pode ser visto na matéria comunidades trilhando.
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SOBRE OS PAP3, resumidamente: o COLEDUC é estruturado de forma a se irradiar por todo o território e seus grupos sociais, atarvés de uma rede de grupos chamados de PAP. PAP significa Pesquisa Ação Participante, ou mais simplesmente, Pessoas que Aprendem Participando. Assim temos:
PAP1 - A Coordenação Nacional do projeto, sediada em Brasília, indicada pelo MMA e MEC.
PAP2 - A coordenação local do projeto, no nosso caso sediada em Vitória, formada por membros do CPV e das secretarias envolvidas no projeto: educação, meio ambiente, saúde, direitos humanos, coordenação política e CDV (Companhia de Desenvolvimento de Vitória). Sua principal tarefa é a de formar educadores populares que comporão os PAP3.
PAP3 - formado por lideranças, moradores, conselheiros das comunidades. Tem como tarefa intervir na comunidade e formar novos educadores ambientais populares, que comporão os PAP4.
PAP4 - formado também por lideranças, moradores, conselheiros das comunidades, também com o objetivo de capacitar politicamente, empoderar e intervir para questionar, transformar, conscientizar, enfrentar.
Registrando ainda que todos os PAPs irão trabalhar, refletir, propor e intervir de forma articulada.
E lembrando sempre que a educação ambiental a ser proposta aos diversos PAPs é de caráter popular, libertário e ampliado, ou seja, não se restringirá apenas ao aspecto preservacionista, de conservação da natureza, mas também se guiará pelo aspecto de entender, transformar, recusar modelos e projetos de desenvolvimento, propor alternativas para que, no lugar de apenas desenvolvimento sustentável, se criem de fato sociedades sustentáveis. E sustentáveis não apenas no sentido econômico e ambiental, mas também cultural, político, afetivo e coletivo.

Leia também: coleduc: primeiro contato

cpv avança com o coleduc


Entidade indica membros para o Conselho Gestor

Em reunião realizada no dia 01/06, O CPV finalmente indicou os 06 membros que comporão o Conselho Gestor do COLEDUC, o qual terá também a presença de 06 membros indicados pelo executivo municipal. Fica, assim, formalizada a parceria entre o poder institucional ou instituído (as secretarias da prefeitura de Vitória, envolvidas no projeto) e o poder instituinte (as lideranças e conselheiros oriundos do movimento popular).
Essa indicação vinha se arrastando há algum tempo, em razão de dificuldades de mobilização das lideranças envolvidas com o COLEDUC, o que inviabilizava até mesmo uma maior reivindicação do poder instituinte em relação à participação do poder institucional. Afinal, se o próprio CPV - que é o órgão proponente do projeto junto ao Ministério do Meio Ambiente - não transmitia a necessária articulação e clareza de objetivos, como esperar um maior compromisso e envolvimento do lado do instituído?
Aliás, junto com essa definição dos membros do Conselho Gestor, os representantes institucionais também solicitam há já algum tempo um Plano de Ação, elaborado com clareza por parte do CPV, para que as reivindicações do COLEDUC possam de fato ser atendidas, tais como equipamemtos, pessoal, formação e transporte de conselheiros e lideranças etc. Apresentar esse Plano de Ação aos representantes da prefeitura deverá ser uma das primeiras responsabilidades dos indicados pelo CPV.
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08/06/2009

a densidade e o silêncio...

...sobem ao palco
cena 03 - decifra- me ou te devoro, intérprete Vinicius Cavatti
cena 04 - desenvolto, intérprete Wederson Fernandes
cena 05 - jirah, intérprete André Messias
fotografias de Carlos Antolini
As fotografias acima são do "Cosmogonos" e escrevi o texto abaixo em 2007, por ocasião da apresentação do trabalho , no Teatro Carlos Gomes, em Vitória; portanto bem antes de começar a editar este blogue. 
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"
Cosmogonos”, o trabalho mais recente de Paulo Fernandes, confirma a atração que o tema da origem das coisas e da vida exerce sobre o diretor e dançarino (cosmogonia: geração do cosmos, gênese das coisas e do tempo). Paulo Fernandes há muito tempo desafia o público com propostas não muito freqüentes nos palcos de dança e teatro - e não somente aqui no Espírito Santo - ao enveredar por linguagens e temas de atmosferas marcadamente míticas e cósmicas.

Não é tarefa fácil fazer no palco esse resgate do primitivo e do ancestral, que todos carregamos no corpo e na memória. A responsabilidade do artista, quando envereda por essas trilhas - infelizmente cada vez mais esquecidas, em nossa civilização abundante de almas de plástico, enfeitadas de bugigangas eletrônicas, a habitar dentro de assépticos condomínios, shoppings e carros último modelo - é a de conseguir, efetivamente, despertar em nós as ligações obscuras e intuitivas que temos com o mundo, com as coisas e com o tempo.
Há que se ter um extremo cuidado para não inchar o trabalho com inúmeras referências e, aí, se perder num trânsito deslumbrado entre as muitas visões cosmogônicas (as diversas religiões, filosofias e sabedorias); e, também, para não cair na tentação do subjetivismo, das divagações pessoais - evitando impor ao espectador a sua visão pretensamente iluminada do que seja uma percepção profunda, uma relação adequada com a vida e com o ser. Enfim, é preciso se postar com maturidade e equilíbrio, pois quanto mais distantes estamos da origem mais temos o que falar e como falar sobre o assunto - que, aliás, deveria ser um dos assuntos mais importantes de todo e qualquer civilização, esse tema de buscar uma relação profunda e reverente com aquilo que nos cerca.
Pois a tarefa de colocar esse assunto no palco vem consumindo as energias do diretor em seus últimos trabalhos, com o cuidado, a serenidade e a seriedade exigidas. Através de ágeis saltos no espaço, de movimentos rastejantes no chão, de uma quase completa imobilidade do corpo, de gestos geométricos com as mãos ou através de passos robotizados, Paulo Fernandes obstina-em em fazer com que os movimentos dos bailarinos nos ofereçam, por instantes que sejam, aquela atmosfera de densidade e estranheza, de admiração e espanto, que nos envolve quando às vezes temos testemunhamos um pouco desse mistério cósmico que nos acolhe.

Como que puxado por um poderoso imã, Fernandes vai atrás da tarefa de reconstruir para nós, agora através da arte, o precário e escorregadio desenho desses místicos instantes de testemunho da cosmogonia. E, na sua persistência e no seu rigor, o diretor aponta com precisão as trilhas, como que empurra o seu grupo de dançarinos para lá atrás no tempo, impondo a economia e a seriedade de gestos, enfim, exige dos movimentos dos atores (ou da ‘forma’ do espetáculo) aquela mesma concisão e reverência que o diretor consegue impor ao enredo (ou ao ‘conteúdo’) e de que falávamos acima. A ausência de concessões, a recusa ao caminho fácil, está presente até mesmo na trilha sonora: são sonoridades quentes, expressivas, mas com algo de cavernosas, de distância no tempo e no espaço, nada de músicas conhecidas ou apenas agradáveis aos ouvidos.

Já quanto ao ‘conteúdo’, não há propriamente um enredo. O que existem são blocos, episódios em aparência soltos, fragmentados, mas que se juntam numa articulação que, em última instância, dependerá exclusivamente da leitura, da percepção do espectador - o que é comum no teatro de ensaio, de propostas mais conceituais ou filosóficas. O que não quer dizer que não haja, na concepção do diretor, uma seqüência, uma estruturação. No caso de “Cosmogonos”, através de oito episódios, o espetáculo começa literalmente pelo começo (um personagem mascarado, quase imóvel, representando o princípio criador) e vai até nossa era globalizada, na figura da dançarina de gestos mecanizados simbolizando nossa robotização consumista, ideológica e existencial.

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É sempre benvinda e necessária uma arte que não se ocupe apenas de dramas individuais, sociais, afetivos ou de questões estéticas, mas que, complementando essas outras abordagens, seja uma arte que se atreva a assumir o seu parentesco com a religiosidade, a filosofia e o mito, uma arte que ouse nos lembrar que, ao lado dos muitos outros sentidos, o nosso sentido, aqui nesse espantoso mistério do ser, é também o de reverenciar, fundir-se, orar, relembrar, uma arte menos ocidental e mais universal, uma arte do sagrado.
Uma arte que ajude, a nós ocidentais, a evitar nosso quase definitivo esquecimento dos princípios e das origens, nosso medo dos silêncios, nossa fuga de tudo que proponha uma densidade interior, própria. E que também não celebre apenas uma fusão bêbada, carnavalesca ou dionisíaca, como se fôssemos todos bacantes à procura de uma anulação, de um esquecimento de nós mesmos. Uma arte que, embora resgate e celebre a origem comum, o faça de forma a não disfarçar a inescapável e insubstituível ponte que cada um de nós tem com o mistério das coisas, do tempo, das vidas e de si próprio. Uma arte que nos ofereça não apenas carnavalização mas também a reverência ao mistério - nada contra o carnaval e as bacantes, claro, mas tudo a seu tempo e lugar.
Com esse trabalho Paulo Fernandes assume a opção de tentar caminhar em direção a essa arte. Que o diretor e dançarino saiba perseverar na sua tarefa de fazer da dança o instrumento do simbólico e do mítico, do coletivo e do transcendente, que continue a trazer para o palco o silêncio e a densidade.
Roberto Soares

troca de comando no CPV

O CPV (Conselho Popular de Vitória) é a entidade que reúne a imensa maioria das associações de moradores do município. Vitória é dividida em 08 regiões administrativas e o CPV segue essa divisão, para facilitar sua organização interna. Assim, sempre que ocorrem eleições para a diretoria do CPV, também são eleitos os representantes das Regionais, diretamente escolhidos pelas lideranças comunitárias da respectiva região. Essa presença concreta do CPV nas regionais, bem como a escolha direta e democrática dos diretores, sem dúvida reforça a imagem do CPV como entidade maior do movimento popular em nosso município.
Isso sem falar, claro, na presença constante do CPV em quase todas as eleições de associações de moradores da cidade, seja como condutor, fiscalizador ou orientador do processo eleitoral, como aconteceu, aliás, nas recentes eleições de nossos vizinhos do Morro da Fonte Grande, comunidade localizada aqui no centro de Vitória, sobre a qual publicamos um breve informe.
O atual presidente do CPV, Waldemar Cunha Neto, deverá em breve comunicar o seu afastamento da presidência, tendo em vista convite para integrar uma chapa que disputará as eleições na FAMOPES, a entidade que congrega todas as associações de moradores do em nível estadual, incluindo-se o próprio CPV.
Aplaudimos e desejamos sucesso ao Waldemar, em seu novo desafio, registrando que cumpriu suas atribuições no CPV com eficiência e serenidade. Lembrando que o desafio de conduzir a FAMOPES é também tarefa nossa e de todas as lideranças populares do Estado, e com certeza nós do CPV estaremos presentes com Waldemar, numa eventual direção da entidade. Mais à frente publicaremos um panorama acerca da gestão de Waldemar à frenet do CPV.
Com relação ao Congresso da FAMOPES, o mesmo acontecerá entre os dias 03 e 04 de julho e, em sua assembléia do dia 04 de junho, o CPV indicou 20 delegados com direito a voz e voto.

Conheça mais sobre o CPV no link fortalecer o cpv