08/06/2009

a densidade e o silêncio...

...sobem ao palco
cena 03 - decifra- me ou te devoro, intérprete Vinicius Cavatti
cena 04 - desenvolto, intérprete Wederson Fernandes
cena 05 - jirah, intérprete André Messias
fotografias de Carlos Antolini
As fotografias acima são do "Cosmogonos" e escrevi o texto abaixo em 2007, por ocasião da apresentação do trabalho , no Teatro Carlos Gomes, em Vitória; portanto bem antes de começar a editar este blogue. 
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Cosmogonos”, o trabalho mais recente de Paulo Fernandes, confirma a atração que o tema da origem das coisas e da vida exerce sobre o diretor e dançarino (cosmogonia: geração do cosmos, gênese das coisas e do tempo). Paulo Fernandes há muito tempo desafia o público com propostas não muito freqüentes nos palcos de dança e teatro - e não somente aqui no Espírito Santo - ao enveredar por linguagens e temas de atmosferas marcadamente míticas e cósmicas.

Não é tarefa fácil fazer no palco esse resgate do primitivo e do ancestral, que todos carregamos no corpo e na memória. A responsabilidade do artista, quando envereda por essas trilhas - infelizmente cada vez mais esquecidas, em nossa civilização abundante de almas de plástico, enfeitadas de bugigangas eletrônicas, a habitar dentro de assépticos condomínios, shoppings e carros último modelo - é a de conseguir, efetivamente, despertar em nós as ligações obscuras e intuitivas que temos com o mundo, com as coisas e com o tempo.
Há que se ter um extremo cuidado para não inchar o trabalho com inúmeras referências e, aí, se perder num trânsito deslumbrado entre as muitas visões cosmogônicas (as diversas religiões, filosofias e sabedorias); e, também, para não cair na tentação do subjetivismo, das divagações pessoais - evitando impor ao espectador a sua visão pretensamente iluminada do que seja uma percepção profunda, uma relação adequada com a vida e com o ser. Enfim, é preciso se postar com maturidade e equilíbrio, pois quanto mais distantes estamos da origem mais temos o que falar e como falar sobre o assunto - que, aliás, deveria ser um dos assuntos mais importantes de todo e qualquer civilização, esse tema de buscar uma relação profunda e reverente com aquilo que nos cerca.
Pois a tarefa de colocar esse assunto no palco vem consumindo as energias do diretor em seus últimos trabalhos, com o cuidado, a serenidade e a seriedade exigidas. Através de ágeis saltos no espaço, de movimentos rastejantes no chão, de uma quase completa imobilidade do corpo, de gestos geométricos com as mãos ou através de passos robotizados, Paulo Fernandes obstina-em em fazer com que os movimentos dos bailarinos nos ofereçam, por instantes que sejam, aquela atmosfera de densidade e estranheza, de admiração e espanto, que nos envolve quando às vezes temos testemunhamos um pouco desse mistério cósmico que nos acolhe.

Como que puxado por um poderoso imã, Fernandes vai atrás da tarefa de reconstruir para nós, agora através da arte, o precário e escorregadio desenho desses místicos instantes de testemunho da cosmogonia. E, na sua persistência e no seu rigor, o diretor aponta com precisão as trilhas, como que empurra o seu grupo de dançarinos para lá atrás no tempo, impondo a economia e a seriedade de gestos, enfim, exige dos movimentos dos atores (ou da ‘forma’ do espetáculo) aquela mesma concisão e reverência que o diretor consegue impor ao enredo (ou ao ‘conteúdo’) e de que falávamos acima. A ausência de concessões, a recusa ao caminho fácil, está presente até mesmo na trilha sonora: são sonoridades quentes, expressivas, mas com algo de cavernosas, de distância no tempo e no espaço, nada de músicas conhecidas ou apenas agradáveis aos ouvidos.

Já quanto ao ‘conteúdo’, não há propriamente um enredo. O que existem são blocos, episódios em aparência soltos, fragmentados, mas que se juntam numa articulação que, em última instância, dependerá exclusivamente da leitura, da percepção do espectador - o que é comum no teatro de ensaio, de propostas mais conceituais ou filosóficas. O que não quer dizer que não haja, na concepção do diretor, uma seqüência, uma estruturação. No caso de “Cosmogonos”, através de oito episódios, o espetáculo começa literalmente pelo começo (um personagem mascarado, quase imóvel, representando o princípio criador) e vai até nossa era globalizada, na figura da dançarina de gestos mecanizados simbolizando nossa robotização consumista, ideológica e existencial.

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É sempre benvinda e necessária uma arte que não se ocupe apenas de dramas individuais, sociais, afetivos ou de questões estéticas, mas que, complementando essas outras abordagens, seja uma arte que se atreva a assumir o seu parentesco com a religiosidade, a filosofia e o mito, uma arte que ouse nos lembrar que, ao lado dos muitos outros sentidos, o nosso sentido, aqui nesse espantoso mistério do ser, é também o de reverenciar, fundir-se, orar, relembrar, uma arte menos ocidental e mais universal, uma arte do sagrado.
Uma arte que ajude, a nós ocidentais, a evitar nosso quase definitivo esquecimento dos princípios e das origens, nosso medo dos silêncios, nossa fuga de tudo que proponha uma densidade interior, própria. E que também não celebre apenas uma fusão bêbada, carnavalesca ou dionisíaca, como se fôssemos todos bacantes à procura de uma anulação, de um esquecimento de nós mesmos. Uma arte que, embora resgate e celebre a origem comum, o faça de forma a não disfarçar a inescapável e insubstituível ponte que cada um de nós tem com o mistério das coisas, do tempo, das vidas e de si próprio. Uma arte que nos ofereça não apenas carnavalização mas também a reverência ao mistério - nada contra o carnaval e as bacantes, claro, mas tudo a seu tempo e lugar.
Com esse trabalho Paulo Fernandes assume a opção de tentar caminhar em direção a essa arte. Que o diretor e dançarino saiba perseverar na sua tarefa de fazer da dança o instrumento do simbólico e do mítico, do coletivo e do transcendente, que continue a trazer para o palco o silêncio e a densidade.
Roberto Soares

troca de comando no CPV

O CPV (Conselho Popular de Vitória) é a entidade que reúne a imensa maioria das associações de moradores do município. Vitória é dividida em 08 regiões administrativas e o CPV segue essa divisão, para facilitar sua organização interna. Assim, sempre que ocorrem eleições para a diretoria do CPV, também são eleitos os representantes das Regionais, diretamente escolhidos pelas lideranças comunitárias da respectiva região. Essa presença concreta do CPV nas regionais, bem como a escolha direta e democrática dos diretores, sem dúvida reforça a imagem do CPV como entidade maior do movimento popular em nosso município.
Isso sem falar, claro, na presença constante do CPV em quase todas as eleições de associações de moradores da cidade, seja como condutor, fiscalizador ou orientador do processo eleitoral, como aconteceu, aliás, nas recentes eleições de nossos vizinhos do Morro da Fonte Grande, comunidade localizada aqui no centro de Vitória, sobre a qual publicamos um breve informe.
O atual presidente do CPV, Waldemar Cunha Neto, deverá em breve comunicar o seu afastamento da presidência, tendo em vista convite para integrar uma chapa que disputará as eleições na FAMOPES, a entidade que congrega todas as associações de moradores do em nível estadual, incluindo-se o próprio CPV.
Aplaudimos e desejamos sucesso ao Waldemar, em seu novo desafio, registrando que cumpriu suas atribuições no CPV com eficiência e serenidade. Lembrando que o desafio de conduzir a FAMOPES é também tarefa nossa e de todas as lideranças populares do Estado, e com certeza nós do CPV estaremos presentes com Waldemar, numa eventual direção da entidade. Mais à frente publicaremos um panorama acerca da gestão de Waldemar à frenet do CPV.
Com relação ao Congresso da FAMOPES, o mesmo acontecerá entre os dias 03 e 04 de julho e, em sua assembléia do dia 04 de junho, o CPV indicou 20 delegados com direito a voz e voto.

Conheça mais sobre o CPV no link fortalecer o cpv

fortalecer o CPV

Neste momento em que o CPV troca de comando, é oportuno dedicar algumas reflexões que contribuam para se evitar o risco da apatia, da acomodação ou até mesmo da ausência de continuidade do trabalho sério e competente que foi feito no CPV pelo Waldemar, cuja gestão iniciou o processo de resgate revitalização da mais importante tarefa do Conselho, que é o fortalecimento e autonomia do movimento popular.
Afinal, é direito e dever de cada um de nós propor idéias e caminhos que façam do CPV efetivamente um coletivo participativo, fraterno e lúcido com relação ao seu potencial, à sua missão e aos riscos inerentes a essa missão.
Dois pontos precisam ser prioritariamente trabalhados pela nova gestão do CPV: a sua organização interna e a capacitação política e técnica dos conselheiros. Neste texto vamos falar apenas do segundo ponto.
CAPACITAÇÃO DE TODOS OS CONSELHEIROS
De todos os conselhos municipais, o CPV é visivelmente o mais importante para o movimento comunitário, até mesmo pelo simples fato de que passam pelo CPV as indicações dos representantes das comunidades paar todos os outros conselhos municipais.
Mas de nada adianta indicarmos conselheiros e mais conselheiros, se eles não forem devidamente capacitados no aspecto técnico e, principalmente, no aspecto político. Interessa principalmente às comunidades ter conselhos municipais realmente atuantes, autônomos e democráticos, e que se façam respeitar e que sejam efetivamente buscados pelas comunidades.
Aqui devemos nos lembrar que ao executivo, ao legislativo, às entidades de classe, ao meio empresarial, não cabe lutar exaustivamente para que esses conselhos adquiram de fato poder decisório, deliberativo e fiscalizador. Para essas instâncias, os conselhos são um poder concorrente e é previsível que cada instância de poder procure demarcar seu próprio território, sua área de atuação.
Por outro lado, as comunidades estão cada sempre vulneráveis em suas demandas, sempre dependentes de relações de poder assistencialistas e eleitoreiras, submissas a interesses de parlamentares, de administrações ou de partidos políticos.
Por isso, é que cabe principalmente ao movimento comunitário se esforçar para que os conselhos municipais exerçam de fato as atribuições que lhe são conferidas em lei. As outras instâncias de poder já têm seus mecanismos de atuação consolidados e respeitados, é ingenuidade esperar que elas de fato se preocupem em fortalecer os conselhos - não estamos falando aqui de indivíduos, de conselheiros, mas dos centros de poder que eles representam; a análise aqui não é moral ou ética, é apenas constatação social e política.
Mas, para que os conselhos possam de fato exercer esse papel transformador, eles precisam estar instrumentalizados, capacitados técnica e politicamente. Tão ou mais importante do que entender e intervir nos mecanismos funcionais das instituições (legislativo, executivo, empresas públicas, os próprios conselhos) é compreender a dinâmica das relações de poder que comandam essas instituições, que determinam os projetos dessas instituições, os mecanismos que permitem que essas instituições sirvam aos interesses da minoria, representada pelas elites, pelas grandes empresas, profissionais liberais ou sirvam aos interesses da maioria, representada pelas comunidades e movimentos sociais.
Compreender os mecanismos e as relações de poder, capturar suas constantes e sutis transformações, reconhecer em tempo hábil as táticas e estratégias dos diferentes grupos de poder em busca de seus objetivos, tudo isso exige o exercício do pensar crítico, que não se deixa levar pela ingenuidade política ou pela simplificação das análises da realidade. Em razão disso, a formação dos conselheiros deve ser contínua e atualizada, e não apenas eventual.
Roberto Soares, representante do CPV na Regional 01 (centro de Vitória)

07/06/2009

comunidades trilhando

em frente à fonte que deu nome ao Morro


aos poucos a cidade vai ficando 'pra baixo'

debaixo da grandiosa jaqueira: Narciso ( presidente da AMOR) Roberto (regional do CPV) Elenice ( do COLEDUC) Juarez (vereador pelo PSB) Elaine (da Unidade de Saúde)

fila indiana numbelo jogo de cores, luzes e sombras

Moradores de diversas comunidades participaram, no último dia 23 de maio, de uma trilha pelo Parque da Fonte Grande. A iniciativa partiu de Roberto Soares Coelho (representante do CPV para o centro de Vitória) e de Narciso Aparecido (presidente da AMOR - Associação dos moradores do Rosário). Ao todo foram 14 participantes, entre lideranças e moradores do Rosário e de outras comunidades: Fonte Grande, Cidade Alta e Morro do Rio Branco, de Vitória e Aribiri, Santa Paula e Itaparica, de Vila Velha.

A caminhada começou na Rua Sete, subiu pelo Morro da Fonte Grande e chegou até a até a sede do Parque, onde assistimos a um vídeo, andamos por algumas trilhas e visitamos o Mirante. Na volta, descemos por uma outra trilha, do lado de Fradinhos.

Essa foi na verdade a parte mais interessante da caminhada. Guiados por Cláudio, pudemos conhecer muitas histórias sobre os moradores antigos, fazendas e comunidades que existiram nas matas que nos cercam. Cláudio chegou a morar numa das antigas fazendas. Pudemos perceber como é muito mais estimulante e enriquecedor ouvir o relato de alguém que realmente viveu a realidade do lugar. É muito diferente de ficar ouvindo explicações históricas, técnicas e padronizadas de funcionários que, por mais atenciosos e competentes que sejam, nunca vivenciaram as mesmas histórias, e assim não transmitem a mesma sensibilidade, não nos envolvem com a mesma intensidade.

Assim, entendemos que cumprimos nessa trilha os dois objetivos aos quais nos propusemos: o primeiro deles foi a integração entre os moradores da comunidade do Rosário e Morro da Capixaba com os moradores das outras comunidades. O segundo objetivo era o de promover o conhecimento do território onde nós vivemos. Isso pode parecer desnecessário, pois todos nós achamos que conhecemos o suficiente do lugar onde vivemos. Mas a verdade é bem diferente. Às vezes passamos anos a fio morando num lugar e não tomamos conhecimento de suas histórias, de sua diversidade cultural, de sua riqueza natural. Essa, aliás, é uma das propostas do COLEDUC (Coletivo Educador Ambiental): incentivar as pessoas a conhecerem o seu território para melhor protegerem esse território. Afinal, somente podemos cuidar e gostar daquilo que conhecemos bem.

Um outro detalhe a ser lembrado: além do senso de identidade e integração, essas iniciativas ajudam a despertar nas comunidades a sua segurança, a crença na sua capacidade de se auto-organizar, de tomar a frente, sem esperar por diretrizes ou mobilizações oriundas do poder público. Isso é importante, na medida em que desconstrói a dependência absoluta dos poderes de Estado. Claro que o movimento comunitário deve e pode usufruir daquilo que o poder público tem a oferecer. Mas não pode é criar dependência, é ficar inerte e somente se encontrar, se integrar e se conhecer a partir de iniciativas de técnicos, professores, funcionários em geral.

Enfim, utilizando os termos técnicos do COLEDUC, o movimento instituinte (movimento popular em geral) deve construir e preservar sua autonomia, sua liberdade e sua espontaneidade em relação ao movimento institucional (órgãos de estado).
Aliás, essa posição do COLEDUC tem tudo a ver com os fundamentos do movimento libertário e anarquista, proximidade da qual valerá a pena falar oportunamente.

Por ora, quem quiser ler mais sobre o projeto leia o texto primeiro contato.
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Ainda sobre trilhas: nós estamos programando outra caminhada. Desta vez será mais puxada. Vamos subir até o pico do Mestre Álvaro, na Serra, subida de mais ou menos 04 horas. A data prevista é o dia 27 de junho e a saída do ônibus será na Praça Costa Pereira, às 06:00 da manhã.

Estamos tentando conseguir um ônibus gratuito. Se tivermos que pagar, todos terão que ajudar. Mas não deve ficar muito caro, pouca coisa mais do que duas passagens de Transcol. De qualquer forma, se alguém puder ajudar a conseguir o ônibus, entre em contato conosco.
E quem quiser ir no Mestre Álvaro, entre em contato com um dos telefones abaixo. Dependendo da procura é bom garantir logo o seu lugar no ônibus.

Roberto: 9951-4067, Narciso: 8129-5126
MAIS IMAGENS DA TRILHA
a subida vai ficando puxada
na pacata companhia de bovinos

a cidade ainda mais distante, com a Terceira Ponte e o Atlântico ao fundo

05/06/2009

'negro é comida de onça'

O texto abaixo foi postado por Wilson Coelho, na lista de discussão 'Opiniões Cênicas', em 05 de junho; trata-se de uma crítica de Gerson R. Albuquerque direcionada a uma peça teatral montada em Rio Branco, capital do Acre.
Como a peça “Se o mundo fosse bom, o dono morava nele” não passou por Vitória, claro que não há como entrar no mérito da crítica que o autor faz.

Mas vale a sua publicação aqui, em razão da instigante postura do autor em relação a uma certa forma estereotipada e acomodada de se ver e interpretar a chamada cultura popular. Vale também registrar a extrema honestidadae e a coragem com a qual o Gerson Albuquerque expõe suas idéias; mesmo não havendo como entrar no mérito da crítica, como dito acima, não parece o caso de uma coragem movida por mágoas ou antipatias pessoais, o que - aliado à inteligência, contundência e pertinência do texto - justifica plenamente a sua reprodução e divulgação neste modesto espaço.

Negro é “Comida de Onça” ou “Alma de Boi Bordado”
Fui assistir a apresentação do Festival Ventoforte, ontem (22/09), na Usina de Arte “João Donato”. Em cartaz “Se o mundo fosse bom, o dono morava nele”, sob a direção do argentino naturalizado brasileiro Ilo Krugli, baseado em “A Pena e a Lei” (1959) de Ariano Suassuna. Discussões técnicas à parte, o espetáculo permite algumas considerações, se é que isso ainda importa nesses tempos em que uma certa lógica estatal e a postura acrítica de muitos que professam a idéia de viver feito um “bando de coitados” num mundo “à margem da história” e a espera de uma “missão civilizatória”, decidem que o que é “bom para si, é bom para todos”, subvencionando suas preferências com verba pública, portanto verba de todos, sem a aquiescência de todos.
Nas mais de duas horas de espetáculo, a representação/montagem/encenação que Krugli faz do texto de Suassuna transborda a velha estética ocidentalizante da ridicularização do negro, há muito presente no cotidiano brasileiro. Mentalidade colonizada/vocação de colonizador é o binômio que articula personagens, falas, máscaras, mamulengos, gestos, movimentos, ritmos, corpos, caricaturas e discursos que se vê/ouve no palco.
Em meio a pretensos improvisos, pitorescos personagens vão tomando lugar no cenário de uma realidade mitificada. O “preto Benedito” se utiliza de “malandragens”, “espertezas” e “truques” saídos do “mundo da vagabundagem” para ludibriar dois “cabras valentes” - Cabo Rangel, o “Rosinha” e Vicentão, o “Barrote” -, humilhá-los ou desmoralizá-los em “praça pública”, bem “ali em frente a todo mundo”, como meio para conquistar o coração de Marieta, a Madalena do “sertão” idealizado de Suassuna, inundado pelas caricaturas espectrais de Krugli.
A marca de identificação do “preto Benedito”, entoada pelo coro e pelos populares que o insultam de fofoqueiro ou “leva-e-traz”, é “preto comida de onça”. “Preto é comida de onça”, repetem os demais personagens, arrancando risos e graciosidades de uma platéia para quem se constituiu como senso comum o conjunto de estereótipos e chacotas “normalizadoras” do profundo preconceito contra negros, africanos ou afro-descendentes no Brasil. Onde as peias e os chicotes dos feitores de ontem e de hoje se tornaram ineficazes, os “ditos populares”, os “causos”, as piadas, mangofas, brincadeiras, burlas e comédias foram ganhando espaço, dissimulando a violência do racismo sob a capa do culto, civilizado e cordial.
Fiquei observando meus colegas professores, estudantes, ativistas de várias frentes das lutas/movimentos sociais e demais pessoas presentes no teatro da Usina de Arte, caírem na gargalhada ante o “preto é comida de onça”, entoado na improvisação, digo montagem que Krugli produziu com base no texto de Suassuna, um dos mais badalados escribas urbanos de um nordeste inventado, condensado na metafísica de um passado a-temporal, petrificado em temas, personagens, falares e cantigas que perfazem a face de uma tradição una, homogênea, vazia de significados. Face essa cujos estereótipos são amplamente popularizados e disseminados por diversos meios e mecanismos que “massificam” um discurso idealizado sobre o “popular” e o “povo” com suas “tradições”, “valores”, “comportamentos” e “crenças”. Com isso – como afirma Durval Muniz de Albuquerque Júnior -, intentam condensar e tornar homogênea “uma realidade múltipla de vidas, histórias, práticas” e culturas produzidas por diferentes mulheres e homens enquanto sujeitos de suas histórias, em diferentes contextos temporais/espaciais.
No início da peça, ante ao anúncio do Cheiroso – o dono do mamulengo – de que o espetáculo “já vai começar”, a própria crítica que Krugli arremete contra a televisão e, em especial, à rede globo, é adocicada, esvaziada ao longo de todo seu espetáculo, posto que encena ali, “cara a cara” com o público, em todos os seus improvisos treinados e ensaiados, a mesma cantilena da TV Globo, do Globo, do Estadão, da Folha de São Paulo, de toda chamada “grande mídia” e suas sucursais, bem como do senso comum que paira no Brasil em torno das imagens produzidas sobre o “nordestino”, o “retirante”, o “pobre”, o “sertanejo”, o “caboclo”, a “prostituta” e, mais ainda, sobre o “negro” grafado pela pena e discurso do colonizador: “preto é comida de onça”.Ao término do segundo ato, um estrondo e as luzes se apagam, com os personagens de Krugli despencando um a um, enquanto o próprio diretor/ator – em seu treinado improviso – se questiona sobre o pagamento da conta de luz à eletropaulo, quer dizer, eletroacre, pedindo desculpas aos presentes por aquele possível transtorno. Nesse instante o diretor deixa claro que seu “mamulengo” não habita as ruas, mas os teatros e circuitos fechados, inacessíveis aos que vivem nas ruas; é “cultura popular”, sem o “povo” ou, no máximo, com um “povo” que é só caricatura; improviso longe do imprevisto, do não programável.
Passo seguinte, mais uma vez, a voz do diretor/ator – simulando o improviso – convida os espectadores a saírem pela porta de entrada do teatro e se dirigirem até o “final da rua” – a outra metade do palco – onde a equipe da rede globo teria abandonado seus equipamentos de iluminação e, com essas generosas sobras da televisão, seria possível realizar o terceiro ato e o epílogo, encerrando assim seu espetáculo.
A apoteose da nada criativa carga de preconceitos de Krugli se manifesta em falas que, mais de uma vez, repetem os chavões das mídias comandadas pela rede globo em torno de temas como “terrorismo de bandidos” ou “balas perdidas” nos morros cariocas, repletos de “pretos comida de onça”. Porém, é no final do terceiro ato de “Se o mundo fosse bom o dono morava nele”, de Ilo Krugli, que surge em cena a chave de ouro da velha estética do preconceito e de uma “cultura popular brasileira” petrificada por uma tradição escrita e folclorizada sob a égide do olhar colonizador/mente colonizada: a aparição do Boi Bumbá, digo, “Boi Bordado” e a entrada em cena de uma atriz negra - desnuda da cintura para cima - como a alma do boi; aparição insólita de uma “visagem” na fantasmagorica representação desse premiado diretor.
Após esse terceiro ato e mais um epílogo em que, finalmente, Benedito, o “preto comida de onça” se “acasala” com a “sensual” Marieta, “procriando” uma série de “bichinhos”, Krugli encerrou seu espetáculo, efusivamente aplaudido e elogiado. Na saída, velhos e jovens espectadores, satisfeitos com esse contato com “a cultura brasileira”, como afirmava uma senhora ao meu lado, dirigiram-se para suas casas, rememorando as cantigas e retóricas preconceituosas de que negro, isto é, “preto” quando não é “comida de onça”, é “alma de boi bordado”.
Comicidade rude nesses tempos de discussões atravessadas sobre identidades negras, em um país que deveria de auto-proclamar multi-étnico, multi-lingüístico, multi-cultural. Os meios de comunicação, as escolas, as igrejas, os teatros, as músicas, os cinemas, as artes plásticas, as linguagens todas e tudo o que isso implica – em sua possibilidade de produzir corpos e mentes - deveriam entoar outras falas, outros discursos capazes de romper com essa ultrapassada e homogênea idéia de uma ordem, um povo, uma verdade, uma história, uma tradição, uma cultura, um país.
Enfim, os ventos que sopram de lá, de cá e de todos os lugares podem ser capazes de superar essa estética que nos acompanha há mais de cinco séculos. A estética de diferentes multidões de gentes e de culturas enclausuradas ou empasteladas em reduções do tipo “Se o mundo fosse bom, o dono morava nele”, montada, representada e dirigida por Ilo Krugli. Na apresentação do Governo do Estado do Acre, digo, do Grupo de Teatro Ventoforte, infelizmente, o que vi foi a trágica encenação de um patético e racional “improviso”. Ali, bem no “meio da praça”, em frente a todos os presentes, reafirmou-se – entre risos e anedotas de longo alcance – a velha catequese colonizadora: “preto é comida de onça” e “alma de boi bordado”.

Rio Branco, Acre, 23 de maio de 2009
Gerson R. Albuquerque, professor do Centro de Educação, Letras e Artes
Universidade Federal do Acre (
gersonroal@gmail.com)

03/06/2009

coleduc: primeiro contato

Em 2006, a professora universitária Graça Lobino propôs à diretoria do CPV que a entidade manifestasse, junto ao Ministério do Meio Ambiente, interesse em participar do projeto chamado COLEDUC - Coletivo Educador Ambiental. Foi elaborado então o projeto “O movimento instituinte na reconstrução do espaço vivido como direito cidadão”, que propunha trabalhar segundo as diretrizes do COLEDUC, direcionado, num primeiro momento, para os conselheiros das escolas e das unidades de saúde.
Mas, num horizonte mais amplo, o COLEDUC de Vitória propõe capacitar e empoderar lideranças populares em geral, para que essas lideranças exerçam-se de fato como agentes de transformação autônomos, para que entendam que o espaço instituído ou institucional (os poderes de estado) têm que ser uma construção do movimento instituinte (o movimento popular), que é quem de fato institui o institucional, e quem pode, por extensão, direcionar, negar ou superar esse poder de estado, ou institucional.
O texto abaixo, eu o escrevi por ocasião do primeiro Encontro Coletivo Educador de Vitória, que se deu em 17/03/07, para divulgação junto às lideranças populares presentes. Trata-se de um apresentação do que vem a ser esse importante e ousado projeto implementado pelo Ministério do Meio Ambiente e pelo Ministério da Educação - embora erm alguns trechos seja um tanto formal ou técnica, cheia de “pedagogês” e “sociologês”, por isso talvez não seja muito atraente para alguns leitores. Mas não devemos prejulgar, o que importa é o ‘espírito’ do projeto, a sua visão de mundo, a qual inclusive tem uma certa vocação libertária, horizontal e autônoma. Aliás, falaremos sobre essa afinidade num momento oportuno.Esclareça-se que, no Espírito Santo, somente dois projetos foram aprovados pelo MMA e MEC, sendo o nosso projeto um deles.

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Um pouco sobre o COLEDUC

No Brasil, a Educação Ambiental é regulada pela Política Nacional de Educação Ambiental (PNEA), instituída por um lei de 1999, e vem sendo executada pelo ProNEA (Programa Nacional de Educação Ambiental) desde 2003. Alguns dos princípios básicos desse Programa são:
· enfoque democrático e participativo
· visão do meio ambiente como algo mais amplo, abrangente
· a educação como um processo contínuo e permanente

Com base nas diretrizes da PNEA e do ProNEA, foi criado o Programa Nacional de Formação de Educadoras(es) Ambientais (ProFEA). Esse programa pretende implantar a educação ambiental, de forma que haja menos intervenções diretas e mais apoio complementar do poder público, ou seja, uma política de educação ambiental que possibilite e incentive o surgimento de reflexões e ações cada vez mais autônomas, com coletivos municipais e regionais se pensando, se organizando e se autosustentando.
E foi de uma iniciativa desse Programa, o ProFEA, que surgiu o projeto chamado de COLETIVO EDUCADOR. O propósito último seria o de desenvolver uma movimentação nacional contínua e sustentável, visando a formação de educadoras(es) ambientais a partir de diferentes contextos: uma rede articulada, autônoma e interdependente tem por utopia a formação de 180 milhões de brasileiros(as) educados(as) e educando numa visão mais ampla de meio ambiente.

O projeto pretende mapear potenciais “Coletivos Educadores para Territórios Sustentáveis”, possibilitando sua inclusão no Cadastro Nacional de Coletivos Educadores em distintas bases territoriais do Brasil e, assim, viabilizar recursos e processos destinados a sua formação e fortalecimento.
A meta é a identificação de 300 potenciais Coletivos Educadores, a serem selecionados mediante a demonstração de sua capacidade de articular parcerias com as instituições, de dialogar com o ProFEA e de exercer uma atuação permanente e continuada numa base territorial pré-definida.

Um pouco sobre o ‘nosso’ COLEDUC

Elaborado pelo CPV (Conselho Popular de Vitória), o projeto recebeu o nome de “O movimento instituinte na reconstrução do espaço vivido como direito cidadão”. O próximo passo foi o de contactar a SEME - Secretaria Municipal de Educação de Vitória, que abraçou com entusiasmo a idéia.
O Coletivo Educador Ambiental de Vitória (ColEduc-ES) é, então, um grupo constituído por representantes da sociedade civil organizada e do poder público, com o objetivo de construir um projeto político de Educação Ambiental na cidade de Vitória.
O ColEduc-ES terá a missão de promover, na cidade de Vitória, o empoderamento de um grande número de lideranças populares na questão sócio-ambiental. Inicialmente, esse empoderamento se dará através dos Conselhos de Escolas dos CEMEI's (Centros Municipais de Educação Infantil) e das EMEF's (Escolas Municipais de Ensino Fundamental).

O objetivo é o de capacitar cerca de 200 cidadãos, dentre pais de alunos e representantes das comunidades nos Conselhos de Escola. Esse envolvimento se dará através de diálogos profundos, constantes e críticos, versando sobre educação ambiental, que se orientarão sempre para a busca e a elaboração de uma visão bem mais ampla e política do que seja o meio ambiente; e na construção coletiva dessa nova visão de meio ambiente haverá o constante contato entre diferentes comunidades e segmentos sociais.
Aqui é preciso ressaltar que essa capacitação, pretendida para os nossos futuros educadores ambientais, não será direcionada apenas para os aspectos técnicos da questão ambiental. A preocupação será também a de despertar para a compreensão das relações de poder que determinam o problema (e as possíveis soluções) do meio ambiente, ou seja, muito mais do que tratarmos apenas de conservação e preservação de um meio ambiente constantemente agredido e prestes a entrar em colapso, o propósito do Movimento Instituinte estará sempre girando em torno das realidades políticas e econômicas que permitem, incentivam ou ignoram essa agressão recorrente, irresponsável e cega ao mundo que nos cerca e nos sustenta.

Enfim, ao Movimento Instituinte caberá compreender, questionar e contribuir no enfrentamento das situações de degradação impostas pelos poderes instituídos, sejam eles de natureza pública ou privada, sejam eles de âmbito federal, estadual, municipal ou local. A utopia maior do Movimento será a de contribuir para consolidar de vez uma nova postura da civilização ocidental para com o mundo, uma postura de integração e não mais de agressão, de domínio, uma postura de reverência e amizade e não apenas instrumentalização e conquista que, no fundo, apenas disfarçam o medo, a insegurança e a incapacidade para se postar com a devida humildade perante o Outro que é o mundo, o cosmos.
O nosso projeto tem como foco o Movimento Instituinte, centralizando a sua proposta de ação na Escola e na Unidades de Saúde, através da formação dos conselheiros locais oriundos do movimento popular e da associação de pais - e podemos perceber a importância dessa escolha para o movimento popular.

Afinal, a opção foi no sentido de enfatizar e valorizar o movimento instituinte em relação ao movimento instituído - o movimento popular em relação aos espaços institucionais, a comunidade em relação à administração escolar, a democracia direta em relação à democracia representativa; essa escolha, na verdade, reflete uma das diretrizes do ProFEA, qual seja, a de não restringir a formação de educadres ambientais apenas aos técnicos, pedagogos e professores, não restringir a educação ambiental à educação formal.


Roberto Soares Coelho, representante do CPV na Regional 01 - centro de Vitória - é membro do COLEDUC /ES desde a sua fundação.

02/06/2009

rebelião na Grécia (4)

Ações na Grécia rebelde contra a repressão no México
(por agência de notícias anarquistas-ana - a_n_a@riseup.net)

Espiral de solidariedade, semente de resistência!
Atenas, Grécia


As companheiras e companheiros de bases de apoio do EZLN...
As companheiras e companheiros da Otra Campaña e da Zezta Internazional...
As companheiras e companheiros da Sexta Comissão e da Comissão Intergaláctica do EZLN...
A todos os lutadores sociais...
Com muita preocupação e raiva nos inteiramos das intenções e das agressões que foram cometidas pelas forças policiais e militares, assim como por grupos paramilitares, contra nossos companheiros e irmãos das bases de apoio do EZLN e os da Otra Campaña em San Sebastián Bachajón. O objetivo destas operações é clara: a imposição dos mega-projetos capitalistas, como a estrada em San Cristóbal-Palenque, a destruição da terra e dos recursos naturais, a submissão, a expulsão das comunidades indígenas em resistência, o intuito de acabar com a autonomia zapatista...
O poder capitalista revela uma vez mais seu verdadeiro rosto, o da repressão e da violência, da calúnia e das mentiras, das ameaças, das torturas e das arbitrárias detenções contra a digna luta zapatista e o movimento da Otra Campaña, contra cada movimento, cada rebelde e insubmisso em qualquer parte do México e do Mundo.

A cada dia sofremos aqui, neste rincão do sudeste da Europa, a retaliação do Estado contra os insubmissos, os imigrantes, todos os que se rebelaram em Dezembro de 2008, e seguimos lutando por liberdade e dignidade. Mas as detenções, as torturas, as perseguições orquestradas pelo Estado grego são respondidas com a construção de novos espaços livres e auto-gestionados: parques e terrenos recuperados, mais okupas, com a luta pela liberação de nossos presos, pela defesa da terra e do meio ambiente, pelos direitos dos imigrantes, dos trabalhadores.
O terrorismo de Estado e do capital, com qualquer cor que se vista, não tem pátria. Tampouco a rebeldia e a solidariedade. E é este 'nós', os de baixo, que, como uma ponte, como uma pátria sem nacionalidade, sem limites geográficos, distâncias ou fronteiras, nos faz mais fortes para seguirmos lutando pela liberdade, a dignidade, a justiça, e que nos conduz cada vez mais a descobrir a força e o valor da solidariedade. E é a 'falta de respeito' rebelde que ridiculariza fronteiras, aduanas, exércitos, governos, guerras.
Seguimos as ações de difusão e de contra-informação sobre a repressão e agressões que sofrem nossos companheiros, as bases de apoio do EZLN e da Otra Campaña de Chiapas, sobre a condição dos presos políticos de Atenco, de Oaxaca, de Guerreiro, de todo o México, junto com os companheiros das assembléias, solidários anarquistas, antiautoritários e libertários, os quais somos todos simpatizantes e participantes.
Organizaram-se eventos de solidariedade que tiveram projeção com o vídeo 'A Autonomia Zapatista', debates, palestras, exposições fotográficas, espaços livres e auto-gestionados com os okupas, parques recuperados, faculdades ocupadas nas cidades de Tessalônica, Chania com o Rosa Negra (Ilha de Creta), Iraklio na okupa Evangelismo (Ilha de Creta), foram entregues panfletos, folhetos, expuseram-se mantos etc. Pelos próximos dias, estão sendo programados 3 eventos em Atenas: 29 de maio (parque okupado da rua Navarinou Exarjeia), 4 de junho (Okupa Lelas Karagianni, 37), 12 de junho (Okupa do prédio de Prapopulos).
Reiteramos mais uma vez nosso apoio firme e incondicional ao EZLN e às comunidades rebeldes zapatistas e à Otra Campaña.
Exigimos:
- A liberdade imediata e incondicional dos 7 companheiros presos políticos da Otra Campaña de San Sebastian Bachajón, dos companheiros de Atenco, de Oaxaca, de Guerrero e de todo México e do mundo.
- O cancelamento das ordens de prisão.
- O fim das agressões, perseguições e repressão contra as comunidades rebeldes zapatistas e de todos os rebeldes do México e do Mundo.
- Fim das perseguições dos lutadores sociais. Liberdade aos presos políticos!

A paixão pela liberdade é mais forte que todos os calabouços!
Para que a rebeldia não passe a ser um conto, uma lenda!
Rebeldia. liberdade, dignidade desde o México até o fim do mundo!
Por um mundo sem patrões, nem escravos, sem policiais, nem exércitos!
Sem cárceres, nem fronteiras! Até a libertação social mundial, a luta continua!
Tradução: Palomilla Negra

flecheira libertária (3)

"Flecheira Libertária" é uma seção do endereço libertário nu-sol. É um espaço de onde são lançadas flechadas certeiras e cortantes contra o senso comum e os mecanismos de domesticação e captura de nossa liberdade. É uma abertura, um buraco nas muralhas da engrenagem e na nossa tendência para a aceitação da ordem, nossa necessidade inconsciente de se entregar a uma visão sempre tranquilizadora do mundo e da história.
Flechadas que, geralmente através de um ou dois parágrafos, atingem em cheio o alvo e despertam para o risco de nos aquietarmos nas certezas estabelecidas, mesmo que tenham duramente conquistadas. Mesmo para quem não comunga das propostas anarquistas ou libertárias, vale a pena ao menos acompanhar o ousado e inusitado percurso dessas flechadas. E quem sabe se deixar flechar. Um pouco de lucidez e dúvidas não ferem tanto assim.
Flecheira 112, 26 de maio
assim já caminhou a humanidade.... ?
Chifre da África. 4 milhões de crianças correm o risco de desaparecer de fome, doenças, maus-tratos; 6 milhões de pessoas dependem de doações da caridade internacional, para serem mantidas lá, em seus campos de refugiados, em suas aldeias de terra seca, aguardando a caixinha de ração, a vacina contra sarampo, o fotógrafo condoído. E se a tal ajuda não chegar? Se nem o fotógrafo aparecer? Esses milhões começarão a se mover, a sair de suas choças e atravessar mares apenas para fazer viver suas crianças? Tal qual aqueles hominídeos primatas que se ergueram em duas pernas e, andando livres a partir da África, ocuparam o mundo inteiro, das estepes geladas às florestas úmidas, dos desertos às praias. Ou não, ou morrerão a míngua? Confinados dentro de cercas farpadas, esperando o comboio humanitário chegar pelo caminho empoeirado.

zeladores
Moças e senhoras educadas dedicam-se a delatar condutas politicamente incorretas. São as novas policiais ou zeladoras da sua vida. Há homens também entre elas, firmes em deixar tudo limpo. Limpar o congresso, bares, escolas e lares. Nada de barulhos, risadas, choros, diversão; somente ruídos controlados, sorrisos breves, lágrimas com discrição: violência surda! Não fume, não beba, não minta, não diga as palavras erradas. Seja um (a) conformista sóbrio (a). Ao abrir a capa vê-se no corpo as carnes do fascista!

tráfico de gente ou imigrações ilegais?
Não há capitalismo sem ilegalidades, sem tráfico de mercadorias, produtos e gente. Não são poucos os livros, os relatórios, as reportagens jornalísticas que informam como se ganha dinheiro arruinando a vida de pessoas, paisagens, ares e lugares. Na maioria das vezes, e em nome da segurança, o cidadão responsável pede mais polícia, exército, força-tarefa. Não raramente polícias, comerciantes ilegais e as legalidades capitalistas associados extraem lucros em grana, bebem o sangue, detonam crianças e jovens, traficam gente para empresas legais e ilegais. Lidam com vidas de pessoas como excesso no matadouro.
flecheira 111 - 19/05/09
fósforos queimados
Gaza (Palestina), Bagram (Afeganistão), Fallujah (Iraque), tanto faz. Bombas explodem a pretexto de portar luz à noite durante combates e o pó de branca fumaça adere à pele de corpos vivos e queima até ser totalmente consumido. Polêmicas humanitárias espocam aqui e ali com alarde, depois caem na apatia. Estaria o fósforo branco dentro das proibições do direito de guerra internacional? Não é arma química, nem arma incendiária, concluem especialistas internacionais, os quais permitem seu emprego, exclusivamente, para sinalizar, iluminar e fazer fumaça. Queima? Tanto faz um fósforo ou outro queimado para a vitória dos exércitos, tanto faz qual exército.

você pode fumar baseado (continuação)
Deu na primeira página da grande imprensa paulista: jovens fumam maconha, a direção da escola chama a polícia e acontece o confronto. Universidades pelo Brasil: jovens fumam pelos cantos temerosos e sorrateiros. Nos lares por aí, o uso de drogas segue condenado pelos pais. Seus filhos usuários, bem domesticados, calam ou concordam. E com sorrisinhos marotos se declaram antitabagistas. Era da dissimulação e dos contingentes reativos que pedem segurança, polícia, vigilância, prisão, tribunal e, ao mesmo tempo, consomem sua droguinha de juventude. Enquanto isso o tráfico enriquece, os bancos lucram, a polícia se arma e espiona sob a alegação de controle dos perigosos.

você pode ...
Um desfigurado contingente reativo escorre pelas ruas e avenidas fritos pelo crack. Um montado pequeno contingente reativo sacode pelas pistas de danças com cocaína e sintéticos. Um enorme contingente reativo tenta dormir contagiado pelos medicamentos. Hoje você pode, mas no interior dos variados contingentes reativos.

“ na escola ensinam-lhe cidadania, patriotismo... e como eleger chefes”
“ os que optam pela via libertária têm pela frente todas as adversidades”
(edgar rodrigues).

23/05/2009

fotopoema

café da manhã de domingo

apanhado
desacompanhado
desfocado
cortado
faminto
à porta da padaria. sem apanhar nosso pão gostoso de cada dia.
poema e fotografia: Roberto Soares Coelho

explosões do verbo e da cidade

Depois de mais de dois meses sem praticamente a presença da poesia neste blogue, uma seleção de poemas focados na vida urbana, uma visita íntima a este caótico, precário e cada vez mais explosivo espaço onde desenrolamos nossas resistências e sobrevivências - exatamente as resistências que tornam este nosso espaço também cada vez mais fascinante, sedutor e promissor.

De início, dois poemas bem parecidos na temática, e não só na atmosfera ou cenário, os excelentes ‘Constelação’, de Carlos Ernesto, e ‘As filhas da noite’. Este último é de José Antônio Cavalcanti, editor do blog “Poemargens”. Do poeta Zantonc, como o próprio se autodenomina, publicamos também a última parte da trilogia ‘Ar, margens, dons’.

Quanto a Ernesto, quatro poemas este mês. DESVELAR já publicou, em dezembro, o seu ‘Poema inexato a artur rimbaud’. Vale registrar que os seus poemas são produto de uma sensibilidade e um talento precoces, foram escritos por Ernesto dos 14 aos 18 anos e fazem parte do ‘Flutuais’, editado artesanalmente em 1985.

De Waldo Motta, alguns poemas talvez não falem expressamente do cenário urbano, talvez uma fala mais existencial, mas não deixa de ser uma fala que brota no meio e em função da vivência urbana - e de suas violências. Permitindo-me aqui um vôo da imaginação, vejo uma íntima complementação entre Waldo e Ernesto: como se os irados e desdenhosos clamores de Ernesto em ‘Nosso tempo’ fossem respondidos pelo pacificado solilóquio de ‘O labor discreto’ - aliás, Waldo parece também dialogar com um próprio poema seu, o 'Receituário..' .
Ou como se, numa divertida sobreposição de vozes, Ernesto, em ‘Noturno’, estivesse a confirmar com ironia um poema de Waldo, o ‘Limiar’ (publicado em janeiro), como se estivesse a descrever, com impiedosa frieza e sarcasmo, o ‘personagem’ do poema.

Vicente Filho não esquece sua marca registrada (aquela ironia mesclada de melancolia já apontada aqui, num comentário publicado em novembro) e no poema 'no shopping' sai destilando-a pelos sedutores corredores dos shoppings - esses assépticos templos do consumo, ninhos da apatia e do deslumbrado conformismo, a esconder a solidão, o medo e a indiferença, em meio a multidões, vitrines e luzes multicoloridas... e, claro, em meio a mercadorias, milhares delas, sempre renovadas e sempre se insinuando aos consumidores, como se fossem uma real e inadiável necessidade em suas vidas; e depois VIcente num belo e convincente contraponto aponta o dedo para as feridas do mundo de verdade: ‘fora do shopping’.

Trago também mais um fotopoema de minha autoria, ‘Café da manhã de domingo’. A foto, eu a fiz creio que em 2000, quando ainda aprendia a fotografar. É fácil reparar nas falhas: os pés do garoto cortados, a imagem meia embaçada, com o objeto mal focado. O poema propriamente dito, creio que o escrevi um ano depois, e o interessante é que muito do poema repousa nas falhas técnicas da foto, quando jogo com o corte do garoto e da foto, com o ‘desfocado’ da imagem e do olhar do personagem, mas a interação saiu de forma extremamente espontânea, sem a preocupação de tentar justificar as falhas da foto - um desses ‘misteriosos’ desvelamentos da criação artística. Registro ainda que a foto foi tirada próximo a uma padaria do centro de Vitória, a ‘Pão Gostoso’, mas de resto poderia ser obtida em qualquer lugar da cidade, são personagens que abundam por aí - desde que ‘fora do shopping’, é claro.

Assim como também estão em toda parte da cidade sinais de uma explosão/implosão cada vez mais iminente. Como, aliás, também já alerta o poema ‘Receituário para racistas...’, de Waldo Motta, com suas incendiárias invocações de 'um angu' a respingar para todos os lados e em cima de todo mundo.
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Enfim, aí estão algumas explosões do verbo a tentar retratar as explosões e implosões de cada dia na cidade.
Mas que as potencialidades dessa explosão sejam, sim, canalizadas para a destruição do que essa ordem tem de ruim, ultrapassado, desumano e... bárbaro, rumo à construção de algo libertário, decente. Porque, afinal, alguma explosão vai com certeza acontecer, e afinal é melhor alguma explosão real do que essas pequenas e disfarçadas explosões e implosões do dia a dia.

Pois o risco é que fiquemos apenas nessas pequenas e fragmentadas explosões, que vão aos poucos instalando a barbárie nas cidades e nas nossas vidas, e aos poucos vão fazendo com que aceitemos a barbárie como algo natural. O risco é, também, que essas implosões do dia a dia sejam cada vez mais utilizadas pelos poderes do Estado, que sejam conduzidas ou manipuladas rumo à barbárie, barbárie essa que contribui exatamente para a manutenção da velha ordem: violência, consumismo, medo, existências deprimidas e sufocadas, até que se instale de vez uma instabilidade quase total: nas ruas, no trabalho, em casa, no trânsito.

Pois claro que tudo isso é muito interessante para o atual sistema de poder, afinal seria a ordem feita de desordem, seria a ordem da instabilidade, a ordem que deixaria a todos e todas assustados, reacionários e à mercê das exigências e promessas do Poder de plantão, promessas e exigências que com certeza sempre virão vazadas num tom de urgência e de esperança; ou seja, primeiro cria-se um caos, depois exigem-se sacrifícios e renúncias da massa assustada e, ao mesmo tempo, acena-se com mudanças e soluções que sempre estão um pouco mais além do presente, num eterno recomeço, com mais caos e mais sustos e renúncias, e mais projetos de mudanças e soluções... Enquanto isso, a barbárie preenchendo cada dia mais os nossos espaços, ao mesmo tempo em que a ordem anestesia-nos com seus corredores de shoppings atulhados de bugigangas, eletrônicas ou não, e anestesia-nos com vários outros narcóticos, internéticos ou não.

E que a explosão seja como uma resposta àquele grito lançado há décadas por Drummond, quando lamentava não se poder ‘dinamitar a ilha de manhattan’. Que nos permita um recomeço, onde se possa enfim juntar todo mundo, misturar todos e todas num novo, libertário e grande angu: prostitutas, jovens mendigos, bêbados, poetas, os deslumbrados dos shoppings, mercadores e marcados. Onde afinal todos nos encontremos livres do domínio do medo ou da indiferença, quando então as pessoas não precisarão mais se comportar como almas de plástico a se refugiar em shoppings, a fugir do verdadeiro mundo e da verdadeira vida, como se assim pudessem de fato deixar o ‘mal de lado’, quando na verdade o que se deixa de lado é o encontro com a riqueza e a fragilidade, com a coragem e o mistério de cada um.

Que ela nos permita superar a dicotomia entre o shopping e as ruas, para que a rua seja novamente o lugar de todos e todas, que não sejam mais sinônimo de medos, mendicâncias e merdas nas calçadas, nem que haja mais necessidade de existir coisas e espaços como shoppings, ou que pelo menos eles não sejam mais sinônimo de refúgio, de guetos e de fuga do mundo, que os novos espaços de lazer sejam realmente lugar de encontro entre pessoas.

E que essa explosão venha logo, venha realmente a tempo de evitar que essa ordem já degenerada nos transforme em autômatos a habitar nos bueiros da história, assépticos, saciados e moderninhos, mas assustados como ratos e com alma de plástico; que a explosão provoque em nosso ‘louco tempo’ uma transformação bastante diferente daquele mórbido roteiro que o jovem Ernesto retratava, já em 1978, no seu vibrante poema ‘A metamorfose’; aproveitando a metáfora dos roedores: para que não tenhamos a incômoda sensação de viver como ratos num mundo transformado num imenso e policiado ‘parque de araque’, tal como no poema de Vicente Filho, ‘no shopping’.

E que esses e muitos outros poetas, com as suas explosões do verbo, sigam cumprindo uma tarefa que também é da poesia, que é a de alertar para o perigo da morte da alma, da ausência da lucidez, do sonho e da ousadia, e a de convidar ou convocar para as reais e pulsantes possibilidade de um outro mundo e de uma outra vida. Que continuem com seus cantos incendiários e indignados, a colaborar para que esses nossos espaços de resistência, estas nossas cidades, além de fascinantes e envolventes, mantenham-se também como promessa de resgate e redenção.
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Por fim, vale registrar que nenhum dos poetas, comentados neste texto, restringe a sua fala a apenas cantos engajados ou indignados com a miséria social, afetiva, intelectual ou espiritual, imposta aos homens e mulheres pela lógica do atual modelo de civilização; a esse respeito leia também o texto um pouco de mares e silêncios.


Roberto Soares Coelho

constelação

o céu é uma abóbada de lótus
tudo é público...

as abstrações, os vapores... desprezíveis!

só existe a prostituta, qualquer prostituta
que conta estrelas, só
despojada, infernal
pernalta
gritante

e na última constelação
só ela vibra, ruflando asas
voando...

sobre horizontes pudicos e justos

carlos ernesto - flutuais, 1985

as filhas da noite

passeiam pelas calçadas
atrevidas
atravessadas pela vida

suas pernas são foices
que cortam o gozo
e se abrem vazias
como um cofre
à espera de moedas

zantonc - blog poemargens

ar, margens, dons (parte III)

as ruas então em festa:
códigos, circuitos, câmeras de vigilância
verbiequívocovisuais controles anêmicos
acadêmicos políticos policiais
- o mundo oficial -
alimentam as hienas noturnas

o capital contabiliza todos os excessos
a mais-valia compra corpos e felicidade
plastificada, no cartão ou no paraíso

A escória
- resíduo do humano liquefeito -
escorre de guetos, górgonas e esgotos
invisível licor a invadir becos e portas secretas
contido apenas por gps e algemas

invisíveis da mais espessa invisibilidade
figuras goyescas lançam rajadas e granadas
contra as estrelas

zantonc - blog poemargens

nosso tempo

meu tempo é louco
louco e mastigável (feito drops)
nele não há orifícios é incolor
e decíduo

onde repasta-se é mudo, torpe e
aleijado (parece um velho doente)

meu tempo não vibra, não torna
em nada transforma - é feio e arrasta-se

meu tempo é fantoche ridículo
estático
cheirando a pó e fungos
venenosos

carlos ernesto (flutuais)

o labor discreto

As coisas não mudam assim
da noite para o dia, céleres.
Por isso, perdi a flama
que fazia de meus versos
uma tocha iracunda.
porque no final das contas
o importante é ter mudado
um pouco de mim, ao menos.
O cupim, no anonimato,
rói as vértebras deste tempo.

waldo motta (o signo da pele, 1981)

noturna

passeiam o bêbado e o frio
com o rosto pesado e violento
sob um montulho de círios
a cidade é um pasto adverso

tem seus signos e visgos
hálitos e urtigas

e também um eco medonho
que o bêbado sorve, pensando
trair frieza da vida

carlos ernesto (flutuais)

21/05/2009

os rios profundos

Obra do escritor peruano José Maria Arguedas (1911-1969).

Essa obra reflete a preocupação de Arguedas com o resgate das raízes míticas e históricas não apenas do povo peruano mas de todos os povos andinos. O que estava em questão, para o escritor, não era apenas defender ou buscar uma identidade nacional para o Peru, mas desconstruir a própria noção de pátria tal como imposta pelos colonizadores europeus. Antes das pátrias de imposição européia, já existiam as pátrias andinas, astecas, maias, guaranis, tupis, mapuches e inúmeros outros.

Mas os trechos aqui escolhidos não refletem essa problemática de identidades e alteridades, eles mostram outra faceta da prosa de Arguedas. Mostram um encantamento com as coisas que ultrapassa até mesmo o poético: árvores, rios, rochas, pontes, estradas, são mostrados numa fala que tem algo de denso e cósmico. Fogem daquela magia meio delirante que é comum na literatura do chamado realismo fantástico, a qual imperou por algum tempo na literatura latinoamericana.

A magia de Arguedas não recorre a nenhum fantástico, antes, com a sua sensibilidade, mostra o que há de fascinante mesmo nas coisas e paisagens que não aparecem como espetaculares. É como se em sua obra Arguedas buscasse um reencontro com o mítico e com o ancestral, não apenas através dos homens e de suas culturas e costumes, mas também através das coisas, dos lugares, do mundo, vendo o ancestral na simples presença ou na simples aparição das coisa no mundo e em volta de nós; como se buscasse, à maneira de um Heidegger (um europeu, note-se), a pura manifestação do ser nos entes que nos rodeiam.

A ressalvar, apenas o clima cansativo que o enredo adquire, por girar excessivamente em torno das aventuras e desventuras afetivas, físicas e existenciais do jovem narrador. Abordagem mítica, busca ancestral das coisas, com a maestria com que Arguedas o faz, exigiria um enredo menos juvenil, mais amadurecido; embora vazado na mesma poesia frágil e encantada que perpassa a narrativa do jovem em questão.
As Viagens
"Meu pai nunca pôde encontrar onde fixar residência; foi advogado do interior, instável e errante. Com ele conheci mais de duzentas cidadezinhas. Temia os vales quentes e só passava por eles como viajante; ficava algum tempo morando nas cidades de clima temperado: Pampas, Huaytará, Coracora, Puquio, Andahuaylas, Yauyos, Cantagallo... Sempre junto de um rio pequeno, sem bosques, com grandes pedras brilhantes e peixes miúdos. A murta, os sachos, o salgueiro, o eucalipto, o capuli, a tara, são árvores de madeira limpa, cujo galhos e folhas se recortam livremente. O homem as contempla de longe; e quem procura sombra se aproxima delas e repousa sob uma árvore que canta sozinha, com uma voz profunda, em que o céu, a água e a terra se confundem.

As grandes pedras fazem parar a água desses rios pequenos; e formam os remansos, as cascatas, os redemoinhos, os vaus. As pontes de madeira ou as pontes pênseis e os cestos para as travessias apóiam-se nelas. Brilham ao sol. É difícil escalá-las porque quase sempre são compactas e polidas. Mas desses pedras percebe-se como o rio se remonta, como aparece nas curvas, com em suas águas se reflete a montanha. Os homens nadam para alcançar as grandes pedras, cortando o rio chegam até elas e dormem lá. Porque de nenhum outro lugar se ouve melhor o som da água. Nos rios largos e grandes nem todos chegam até as pedras. Só os nadadores, os audazes, os heróis; os outros, os humildes e as crianças, ficam; espiam da ribanceira como os fortes nadam na correnteza, onde o rio é profundo, como chegam até as pedras solitárias, como as escalam, com quanto trabalho, e depois se erguem para contemplar a quebrada, para espirar a luz do rio, a força com que corre e se interna nas regiões desconhecida."
(Página 27)****************
"Por isso, aos domingos, saía precipitadamente do colégio, a percorrer os campos, a atordoar-me com o fogo do vale.
Descia pelos caminhos dos canaviais, à procura do grande rio. Quanto mais descia, mais poeirento e quente era o caminho; os pisonayes formavam quase bosques; os terebintos ficavam mais altos e grossos. O terebinto que nas montanhas mornas é cristalino, de vermelhas uvas musicais que cantam como chocalhos quando sopra vento, aqui, no fundo do vale ardente, transforma-se numa árvore frondosa, alta, coberta de terra, como que esmagada pelo sono, seus frutos apagados pelo pó; submersa como eu no ar denso e calcinado.
Às vezes podia chagar ao rio, depois de andar várias horas. Chegava a ele quando mais angustiado e aflito me sentia. Contemplava-o, de pé sobre o vão da grande ponte, apoiando-me numa das cruzes de pedra encravadas no alto da coluna central.
O rio, o Pachachaca temido, aparece numa lisa, na base de um precipício onde não crescem senão trepadeiras de flor azul. Nesse precipício costumam descansar os grandes papagaios migradores; prendem-se nas trepadeiras e chamam aos gritos, da altura.

Rumo ao leste, o rio desce em corrente tranqüila, vagarosa e trêmula. Os grandes galhos de chachacomo, que roçam a superfície de suas águas, arrastam-se e voltam violentamente, ao desprender-se da corrente. Parece um rio de aço líquido, azul e risonho, apesar de sua solenidade e de sua fundura. Um vento quase frio varre o alto da ponte.
A ponte do Pachachaca foi construída pelos espanhóis. Tem dois olhos altos, sustentados por bases de alvenaria, tão poderosas como o rio. Os contrafortes que canalizam as águas estão presos nas pedras, e obrigam o rio a avançar agitando-se, dobrando-se em correntes forçadas. Sobre as colunas dos arcos, o rio esbarra e se parte; a água se eleva lambendo o muro, pretendendo escalá-lo, e se lança depois nos olhos da ponte. Ao entardecer, a água que salta das colunas forma arco-íris fugazes que giram com o vento.

Eu não sabia o que mais amava, se a ponte ou o rio. Mas ambos desanuviavam minha alma, inundavam-na de fortaleza e de sonhos heróicos. Apagavam-se de minha mente todas as imagens lastimosas, as duvidas e as recordações más."
(Pagina 67)
Os rios profundos, editado pelo Círculo do Livro, com cortesia da Editora Paz e Terra

um pouco de mares e silêncios

Em meio a tantas explosões do verbo e da cidade, um pouco de trégua, a suave mas funda fala de Mariana Botelho, em dois poemas. Afinal, a tarefa do poeta não é apenas a de denunciar o feio, o ruim e e o velho. Há que continuar celebrando a vida e o mundo mesmo em meio às explosões e à barbarie, e também há que manter acesa a vivência e a memória de outros mundos, dos vastos e vibrantes oceanos que estarão abertos a todos e todas - independente de serem ou não chamados de poetas e artistas - após as duras batalhas contra as estruturas que sustentam essa lógica obsoleta e perigosa, que governa nosso mundo e nossas vidas.
Enfim, a poesia se faz presente em todos os cantos: naqueles que denunciam e explodem e naqueles que celebram, que exploram e preparam os ricos solos e os vastos mares de cada um e de todos nós; embrando, claro, que esses diferentes cantos às vezes se irradiam de um mesmo poeta. Aliás, é preciso registrar que nenhum dos poetas, comentados no texto explosões do verbo e da cidade, restringe a sua fala a apenas cantos engajados ou indignados com a miséria física e espiritual, imposta aos homens e mulheres pela lógica do atual modelo de civilização.

coisa que me ocorreu de repente

a poesia se derrete nas mãos do poeta
como gato que ele afaga

a poesia queima nas mãos do poeta
como um fogo que ele alimenta

a poesia afoga as mãos do poeta
é um copo do oceano que ele mesmo inventa

o poeta é um mar de si mesmo
mariana botelho (blogue suave coisa)

abstrato


eu nunca beijei um poema.

no entanto ele está aqui
roçando leve minha
boca

nas horas dos
mais
doídos
silêncios
mariana botelho (blogue suave coisa)

no shopping

nem mesmo pode brotar
real alegria nesse lugar
logo nesse lugar
que tanto detesto

quando quereria rir por último
dos grandes e assombrosos percalços
calçados e percebidos
nos piores e menores momentos

simples, tão simples vida
a flutuar em escadas e pisos
porque a mim arrasam tantas
tentativas vãs?

como se fosse buraco de rato
ouvindo sinfonias
num parque de araque

vicente filho

fora do shopping

a causa não tem casa
mora na rua e quer a sua
você não vai dar
até quando, quem sabe...
meu time não vence
o outro perde
no zôo os animais
não querem mais pipoca
quanta droga...!
a polícia vicia
vigia o quadro morto
da ressurreição de ninguém

vicente filho

saudades do shopping

tudo ia bem
o mal de lado
o dia bem bolado
na sinfonia musical
da escada a rolar
rolar é bom
melhor ainda
de olhos fechados...
como sou esquecido
tinha gravado tudo a lápis

mas à noite sonhei...
com a borracha!

vicente filho

amamos muito tudo isso!

A edição dos poemas de maio já estava praticamenete encerrada, preparava-me para colocá-la no ar, quando veio-me o texto abaixo, como um verdadeiro maná de verbo libertário a se despejar de céus cibernéticos e incendiários. É desses textos que dispensam apresentação ou complementos.
Sua força e lucidez falam por si.
Apenas a registrar a extrema agilidade com que o autor pula de tema em tema, de imagem em imagem, amarrando-os numa fala mesclada de sensibilidade, contundência e convocatória desafiante, a desfilar ante nossos olhos e imaginação as realidades assépticas e plastificadas que passeiam pelos shoppings nossos de cada dia.
A esse respeito, que o texto seja lido junto com os poemas de Vicente Filho, logo acima, e com o texto explosões do verbo e da cidade - o pensamento e a arte juntos no incansável combate.
Amamos muito que ainda existam falas assim.

Amamos muito tudo isso!
Dos grandes templos às humildes vendas.
Amamos muito tudo isso.
Amamos.

No luxo extremo vemos as Grand Magazines.
Locais esmerados onde prevalece o topo da cadeia alimentar do consumo.
Os Shoppings Zonas sul, onde são todos loiros, até as garçonetes, até os seguranças, inclusive as moças que cuidam da faxina. É o sonho nórdico, as indiscretas atualizações da ideologia nazista. É para lá que os burgueses afluem, levando suas companhias, naqueles templos do efêmero, onde salários mínimos são gastos em intervalos de minutos.
As belas vendedoras, que atendem tão educadamente os barões e as baronesas do capital, sempre sorriem. Mas no fundo daquela gentileza há um ódio infinito e secreto, silencioso.

Amamos muito tudo isso.

Há alguns requisitados restaurantes Class A, cujos atendentes ficam às portas do estabelecimento em dias de chuva, portam guarda-chuvas para assegurar que os clientes (Deuses) não se molhem. Os garçons se encharcam, mas preservam a integridade dos consumidores. Um nobre francês do século XVIII sentir-se-ia em casa nesse lugar.

Amamos muito tudo isso.

Nos shoppings populares as pessoas se esmagam na busca sísifa pelo nada e pelo nenhum. O novo aparelho de celular é comprado, consolo momentâneo para a baixa renda, que busca no mercado pirata a consumação do seu sonho consumista. Meses depois estará novamente insatisfeito. O aquecimento da economia agradece.

Amamos muito tudo isso.

O capitalismo é bom. Inerente ao homem. O ser humano tem predisposição para a atividade comercial direcionada ao lucro. Essa teologia tinha seu charme no setecentismo, trajando vestes iluministas e prometendo a emancipação perante o intervencionismo absurdo das grandes cadeias de poder. Seus prosélitos agiram de boa fé, divulgaram aos quatro cantos do mundo as benesses do capitalismo.
Diziam pacientemente para os nômades africanos, e em voz até infantilizada, que livre comércio era o único caminho para a felicidade. Convenceram os chineses de que a única sacralidade digna de nota seria a libra esterlina. Abordaram os aborígines da Oceania e discorreram sobre a relevância existencial do ato de comprar e vender.

Divulgaram o evangelho do lucro e prometeram a felicidade. Nada sabiam sobre a destruição do bioma, a extrema exploração dos menos válidos e da crise existencial inerente ao ato insano do consumismo.
Agiram de boa fé, ainda que com uma malícia experimental. Séculos mais tardes, desacreditados por catequizadores bem mais engajados e articulados (homens barbudos, sisudos, com lenços e polainas vermelhos), acabaram por se tornar menos elegantes em suas argumentações. Alteraram o discurso, não se tratava mais de uma busca pela felicidade, mas sim de uma imperiosidade da história, uma tecnicidade, entregar-se ao capital não era uma escolha, mas uma obrigação.

A romântica inocência dos adeptos da Escola Clássica deu lugar ao sarcasmo amargo dos neoliberais. Alguns descobriram a futilidade de se dialogar com os mineiros, tornou-se mais viável ignorar seus lamentos.
Por algumas décadas eles reinaram, e a cada gemido do mundo arrotavam. As cifras estavam a seu favor. Porém, o tempo das vacas magras chegou, alguns mortos acordaram, fantasmas ameaçadores passaram a visitar os sonhos dos que nunca choram.
Os neoliberais se ajoelharam perante o panteão e imploraram pela intervenção: “Ex Machina, ajude-nos”. Foi um lampejo, mas o suficiente para que perdessem a compostura. Sentiram-se envergonhados, tal qual o apaixonado que por um rompante romântico declara o amor para uma indiferente dama.

Constrangimento. “Tudo segue como antes”, disseram, “o mercado é nosso guia, confiem nele, ele nos guiará à felicidade”. O mundo olhou com um ar incrédulo e reprovador. Ficou evidente a covardia e a inépcia desses pastores, desses condutores de almas. Mais do que nunca estão solitários. O ódio de muitos se volta contra eles. Há um olhar homicida dos pobres, do primeiro e terceiro mundo. Os enganados, os despejados, os famintos, os que fedem a mijo, eles querem acertar as contas, querem tudo que foi prometido. Alguém disse carnificina? O Alto Clero do capitalismo está aterrorizado.

Amamos muito tudo isso.

a metamorfose

diante de mundo rápido
tempo estremece
não há tempo para vertigens
movimentos
soluços
revoltas

seus olhos ardem
não compreendes as razões
há mercúrio letal
em tuas veias
em tuas artérias
mercadores
marcam tua carne
mostram-na
avaliam-na

você compra diariamente
consome
vício inadiável
pacto ancestral
gosto de carne
ferro aço
naves de alumínio
(nunca voaste)

trazes
alma volátil
peso absurdo
se desfaz em mil folhetos

dia a dia
gota a gota
você não percebe
não discrimina
o homem da maqui-máscara
a fruta da massa plástica

e qualquer dia
você vai correndo
pela rua
em becos
e bueiros
e te chamarão...
rato rato
rato rato

carlos ernesto (flutuais)

receituário para racistas e contra-receita de angu

Ogun pá
lelé pá
Ogun pá
koropá...
(canto afro)

Quem atiça o tição
sabe do risco que corre
sabe que ao bulir com fogo
é arriscado se queimar
é arriscado provocar
a ebulição de quanto
há tanto vem nos enchendo
o caldeirão da paciência.

Portanto, todo cuidado
é pouco quando se atiça
o tição, quando se bole
com o fogo, pelo risco
de transformar rebuçado
em ração para a racinha
ordinária dos racistas

Quem atiça o tição
sabe muito bem do risco
de atear fogo em tudo
sabe que, ao provocar
a ebulição da massa
é arriscado explodir
o angu em todo mundo

sabe que, súbito, tudo
tudo pode ficar preto
& vermelho, como queiram
num belíssimo incêndio
um incêndio inusitado.

Pois quem atiça o tição
atira mais lenha aos sonhos
que nos abrasam, braseiro
oculto sob o borralho
dessa vida borralheira.

waldo motta (waw, 1991)

a hora adiada

Depois de mim, este miserável
quarto de pensão, quantos não abrigará?
os olhos se arrastam pelas coisas
como os de quem, no limiar da morte
olha pela última vez o mundo de que se desgarra

Os parcos móveis não me explicam
Esses cubos de concreto que compõem a cidade
não me explicam
a lua, distante e neutra, as estrelas
omissas em sua intangibilidade
não me explicam

Mas porque dessa coisa indefinida
e indócil e fechada que sou
vem esta vaga esperança
de me explicar a mim
não me suicido
por hoje

waldo motta (o signo na pele, 1981)

19/05/2009

alerta por uma internet livre

Pelo Brasil afora inúmeras têm sido as iniciativas de mobilização contra iniciativas que tentam impor restrições ao uso do internet. Toda essa movimentação se intensificou a partir do momento em que o Senado aprovou, em julho de 2008, o substitutivo do Senador Eduardo Azeredo, o qual “cria 13 novos crimes na internet e novas restrições às/aos usuárias/os e provedores, tal como obriga provedores a guardar registros pessoais de usuárias/os da internet para possíveis futuros exames da ‘Justiça’, se assim requisitado. O projeto foi modificado desde a saída de sua casa de origem, Câmara dos Deputados, para onde volta novamente para aprovação” (CMI).

Quem quiser conhecer mais e se envolver nessa importante campanha, vão alguns links:
Também segue nesta edição um manifesto em defesa da internet livre. Além de um texto lúcido e pertinente em suas propostas, vale registrar o singelo mas contundente alerta ao final: ‘...então a janela de oportunidade aberta pela Internet terá sido fechada, e teremos perdido algo bonito, revolucionário e irrecuperável.’

Manifesto da cultura livre
26 de Abril de 2009

A missão do movimento da Cultura Livre é construir uma estrutura participativa para a sociedade e para a cultura, de baixo para cima, ao contrário da estrutura proprietária, fechada, de cima para baixo. Através da forma democrática da tecnologia digital e da Internet, podemos disponibilizar ferramentas para criação, distribuição, comunicação e colaboração, ensinando e aprendendo através da mão da pessoa comum, e através da verdadeiramente ativa, informada e conectada cidadania: injustiça e opressão serão lentamente eliminadas do planeta.
Nós acreditamos que a Cultura deve ser uma construção participativa de duas mãos, e não meramente de consumo. Não nos contentaremos em sentar passivamente na frente de um tubo de imagem de mídia de mão única. Com a Internet e outros avanços, a tecnologia existe para a criação de novos paradigmas, um deles é que qualquer um pode ser um artista, e qualquer um pode ser bem sucedido baseado em seus méritos e não nas conexões da indústria.
Nós nos negamos a aceitar o futuro do feudalismo digital, onde não somos donos dos produtos que compramos, mas nos são meramente garantidos o uso limitado enquanto nós pagamos por tal. Nós devemos parar e inverter a recente e radical expansão dos direitos da propriedade intelectual, que ameaça chegar a um ponto onde se predominará sobre todos os outros direitos do indivíduo e da sociedade.

A liberdade de construir sobre o passado é necessária para a prosperidade da criatividade e da inovação. Nós iremos usar e promover o nosso patrimônio cultural, no domínio público. Faremos, compartilharemos, adaptaremos e promoveremos conteúdo aberto. Iremos ouvir a música livre, apreciar a arte livre, assistir filmes livres e ler livros livres. Todo o tempo iremos contribuir, discutir, comentar, criticar, melhorar, improvisar, remixar, modificar e acrescentar ainda mais ingredientes para a ‘sopa’ da cultura livre.
Ajudaremos todo mundo o entender o valor da nossa abundância cultural, promovendo o software livre e o modelo ‘open source’. Vamos resistir à legislação repressiva que ameaça as liberdades civis e impede a inovação. Iremos nos opor aos dispositivos de monitoramento em nível de hardware, que impedirão que os usuários tenham controle de suas próprias máquinas e seus próprios dados.

Não permitiremos que a indústria de conteúdo se agarre aos seus obsoletos modelos de distribuição através de uma legislação ruim. Nós seremos participantes ativos em uma cultura livre de conectividade e produção, que se tornou possível como nunca antes pela Internet e tecnologias digitais, e iremos lutar para evitar que este novo potencial seja destruído por empresas e controle legislativo. Se permitirmos que a estrutura participativa, e de baixo para cima, da Internet seja trocada por um serviço de TV a cabo, se deixarmos que o paradigma estabelecido para criação e distribuição se reafirme, então a janela de oportunidade aberta pela Internet terá sido fechada, e teremos perdido algo bonito, revolucionário e irrecuperável.

O futuro está em nossas mãos, devemos construir um movimento tecnológico e cultural para defender o comum digital.

Leia, divulgue, replique, traduza, republique mas não fique aí parado!
(Este manifesto, publicado originalmente pelo coletivo ‘Free Culture’ - http://freeculture.org/manifesto - foi traduzido e divulgado pelo editor do blogue Xô Censura’.

Textos relacionados:

a revitalização da assejur e a construção de uma justiça popular

A ASSEJUR (Associação dos Escreventes Judiciários do Espírito Santo) realizou no dia 15 de maio uma assembléia da categoria, com o objetivo de promover a revitalização da Associação – para quem não sabe, escreventes são os funcionários dos cartórios dos fóruns, que trabalham nos processos e atendem as partes envolvidas e os advogados.

Durante a Assembléia foram escolhidos os cinco membros da Comissão Eleitoral, a qual irá conduzir o processo de escolha da nova diretoria. As inscrições de chapas deverão acontecer entre os dias 01 e 23 de junho, e as eleições possivelmente acontecerão em julho. O fato se deu na sede do SINDIJUDICIÁRIO, em Vitória, e compareceram cerca de quarenta pessoas, o que aparentemente é pouco.
Mas como se trata de uma primeira assembléia, a avaliação é de que o encontro foi extremamente positivo. Afinal, mesmo tendo sido fundada em 2001, a ASSEJUR nunca adquiriu a necessária visibilidade junto à categoria, a ponto de a maior parte dos escreventes até mesmo desconhecer a sua existência. Nunca teve uma sede própria e nem um cadastro de filiados.

Não há aqui o propósito de analisar a atuação dos diretores, eleitos ao longo destes oito anos, seus méritos ou deméritos, suas dificuldades ou sua dedicação etc.
O que cabe registrar aqui é a extrema importância (e não somente para os escreventes) desse processo de revitalização da Associação. É preciso lembrar que, mesmo sendo a categoria mais numerosa do judiciário, tem sido irrisória a participação dos escreventes nas assembléias, campanhas e mobilização do SINDIJUDIÁRIO, o sindicato que representa todos os servidores da justiça capixaba. É como se o sindicato representasse apenas os interesses de escrivães, comissários, agentes de serviço e oficiais de justiça, esses últimos, aliás, constituindo a categoria mais atuante dentro do sindicato.

Evidente que os motivos deste afastamento não estão na atuação do SINDIJUDICÁRIO, não se pode de forma alguma afirmar que os seus diretores têm priorizado as outras categorias em detrimento dos escreventes. Se, por acaso, em algumas situações as questões relativas aos oficias de justiça, por exemplo, são mais enfatizadas que as de outras categorias, isso se deve, é claro, à presença mais constante e articulada destes servidores nas convocações e mobilizações do SINDIJUDICÁRIO. Mas nada que tenha prejudicado ou se oposto aos problemas das outras categorias.

Isso nos leva à inevitável conclusão de que o afastamento e a omissão dos escreventes se deve à própria categoria. E isso não é difícil de entender. Sabemos todos que a história do judiciário capixaba em relação aos servidores tem sido feita de nepotismos, apadrinhamentos, proteções, discriminações e arbítrios. Somente de alguns anos para cá, com um princípio de moralização dos concursos públicos, e a consequente renovação do quadro de servidores, é que se tem criado (bastante lentamente, é verdade) um clima de maior liberdade, reflexão crítica e exteriorização de demandas por parte até mesmo dos escreventes.

Os escreventes, mesmo os mais antigos, começaram a perceber que não existe mais a famosa ‘Família do Judiciário’, quando todos os reajustes, e outros benefícios, que valiam para os magistrados também valiam para os demais servidores; claro, afinal entre os servidores beneficiados com essa política de Grande Família a imensa maioria era de apadrinhados e parentes de desembargadores e magistrados. Ocorre que, junto com essa ‘proteção’, também havia (e ainda há em muitos locais de trabalho) uma espécie de chantagem, de ‘cobrança da proteção’, a famosa política do ‘Manda quem pode, obedece quem tem juízo’, cujos efeitos na vida dos escreventes o texto amélia, a escrevente de mentira (de Rômulo Bernabé, diretor de Política Sindical do SINDIJUDIÁRIO) retrata muito bem.

Nesse sentido, o fim da ‘Grande Família’ só deve ser comemorado, afinal está sendo uma oportunidade de, finalmente, os escreventes se assumirem como uma categoria de trabalhadores de fato, em toda a sua dignidade, a exercitarem todos os seus direitos e deveres, com todos os sacríficios e riscos, mas também com todas as satisfações e reconhecimentos, que uma tal postura significa para todo e qualquer trabalhador.

Nesse cenário, consolidar a ASSEJUR significa promover uma maior união entre os escreventes, e até mesmo entre estes e as demais categorias. E uma categoria mais forte, unida e solidária trabalha mais motivada, mais segura de seus direitos e menos sujeita a eventuais arbítrios, que infelizmente ainda estão muito mais presentes no Judiciário capixaba do que a sociedade imagina. Inclusive, escreventes que mantêm uma confiança e uma solidariedade recíprocas podem até contribuir para mudanças em procedimentos cartorários, supostamente ineficientes, acomodados ou mesmo arbitrários, herdados da política da Grande Família e do ‘Manda quem pode, obedece quem tem juízo’.

Assim, uma Associação dos Escreventes consolidada e atuante tem até mesmo importância no processo de transformação das nossas instituições. Em razão do seu maior número em relação às outras categorias, os escreventes são aqueles que fazem o Cartório e os processos andarem, são eles que mantêm um contato mais direto e duradouro com as partes e advogados (o que não significa, claro, que as outras categorias não tenham a sua óbvia e insubstituível importância).
E um maior empenho dos escreventes na agilidade e no tratamento com as partes com certeza ajudará a aproximar mais a Justiça das pessoas comuns, contribuirá para que a sociedade passe a exercitar, com firmeza e equilíbrio, o seu direito a uma justiça de fato transparente, ágil; enfim uma ASSEJUR forte significará nossa humilde mas valiosa contribuição para a construção de um Justiça Popular em nosso país, que respeite e atenda a todos aqueles que, em última caso, sustentam toda as estruturas e o pessoal da Justiça.

Essa maior proximidade dos escreventes com a sociedade também irá mostrar que a maior parte dos servidores e dos juízes são pessoas comuns, não são indivíduos inacessíveis e arrogantes, membros de grupos elitizados distantes do povo, muitas vezes traindo ou sugando esse mesmo povo, como frequentemente tomamos conhecimento, até mesmo bem debaixo dos nossos olhos - como no recente caso da Operação Naufrágio, aqui no Espírito Santo

Por fim, é importante lembrar que também o SINDIJUDICIÁRIO só tem a ganhar com essa revitalização da ASSEJUR. Afinal, os mesmos escreventes que assumirem essa nova postura de participação e compromisso com certeza também irão engrossar as fileiras do nosso Sindicato, estarão mais atentos às suas assembléias e mobilizações, estarão mais dispostos a colaborar e se envolver, e não apenas ficar ao nível da crítica fácil e inconsequente, mesmo que às vezes bem fundamentada.
Afinal, criticar e apontar problemas e erros é fácil, mas o que realmente conta é se colocar junto com os criticados para corrigirem eventuais erros na solução dos problemas. O que conta é ver a si mesmo como alguém importante no processo de transformação, é dar a si mesmo um outro horizonte, uma outra tarefa.

Roberto Soares Coelho, editor deste blog, é escrevente juramentado na Comarca de Vitória.

amélia, a escrevente de mentira


Amélia já contava com vinte anos de trabalho, sozinha com seus três mil processos. Na realidade, no seu cartório deveriam trabalhar mais duas escreventes, mas elas foram colocadas à disposição de varas da capital. Sem as companheiras o trabalho era intenso e impiedoso, mesmo quando a administração lhe disponibilizou dois briosos estagiários. Quando questionada sobre a situação Amélia respondia: 'O que há de se fazer?'.

O ambiente diminuto dificultava os movimentos, o grande volume de papel ocupava todos os espaços, os móveis inadequados trouxeram as dores nas juntas, nos dedos, na coluna. Agora estava tudo bem, Amélia vinha pagando de seu bolso RPG, pylates, massagem e ginástica de correção corpora,l e aliviada exclamava: 'Ainda bem que posso pagar'.

Amélia sempre gostou de chegar cedo no trabalho, vinha pela manhã e ficava até o final da tarde, muitas vezes sua rotina superava dez horas diárias. Não muito excepcionalmente, permanecia até as vinte horas realizando audiências que extrapolavam o horário. Temerosa registrava: 'Manda quem pode e obedece quem tem juízo'.

Amélia possui o conhecimento da vida e sabe perfeitamente que todos seremos irremediavelmente substituídos, sabe que a velhice, a doença e a morte são o destino de todos os seres vivos, mas se enche de orgulho quando lhe batem às costas e afirmam ser ela insubstituível.

Companheiros(as) escreventes da Justiça Capixaba, vocês podem fazer como Amélia e continuar a ter uma vida de mentira ou, então, comparecer nos locais de votação, no mês de julho, e junto com seus (suas) companheiros (as) iniciar a construção de uma nova realidade transformando AMÉLIA NUMA ESCREVENTE DE VERDADE.

Romulo Lopes Bernabé
Diretor de Política Sindical do SINDIJUDICIÁRIO
Leia também o texto sobre a revitalização da Assejur