11/02/2009

Rumos do FSM

Nos inúmeros e ricos debates em torno da última edição do Fórum Social Mundial, ocorrida em Belém, agora em janeiro, uma das questões que mais se coloca é aquela que diz respeito aos rumos do FSM, mais especificamente o problema da relação do Fórum com os governos e partidos de esquerda.
Militantes esquerdistas, membros de governos progressistas (principalmente da América Latina), intelectuais e acadêmicos de várias partes do mundo – variadas são as vozes que vem se indagando sobre a necessidade de uma maior abertura do Conselho Internacional (a principal instância dirigente do FSM) para os partidos e governos.
Cobram também uma tomada de posição mais clara e comprometida do Fórum em relação aos problemas mais urgentes e complexos por que passa a humanidade: os profundos abalos sofridos pelo capitalismo, a dramática e imprevisível crise do aquecimento global, o Massacre de Gaza e a possibilidade de que os governantes dos países centrais do venham a promover uma guerra em grande escala, como solução para a séria ameaça de paralisia que ronda a engrenagem capitalista; para quem acha mirabolante ou catastrofista a possibilidade da guerra, analistas lembram que foi de fato através da 2ª Guerra Mundial que os países desenvolvidos se recuperaram da Crise de 1929.
Mas, voltando ao FSM, a grande cobrança feita aos seus dirigentes e participantes é a de que o Fórum não continue a funcionar tão somente, ou prioritariamente, como um espaço para intercâmbio de experiências, vivências e projetos entre ONGs, militantes, movimentos sociais e entidades diversas; enfim, que o Fórum supere a fase de resistência ao neoliberalismo, e participe da construção efetiva de “um outro mundo possível”, junto com os movimentos sociais e com os governos progressistas e de esquerda, principalmente os da América Latina.
Um bom e lúcido exemplo do debate em torno dos rumos do FSM está no texto do sociólogo Emir Sader, publicado originalmente no site de Carta Maior. Entre tantos e ótimos textos, DESVELAR decidiu publicar o de Emir Sader, em razão da síntese que o sociólogo faz do último encontro e das suas propostas para o futuro do Fórum. Leia o texto aqui.
De qualquer forma, com todos os problemas e impasses, é preciso celebrar o advento e a continuidade do Fórum, que há quase uma década soube agrupar e catalisar as inúmeras manifestações de resistência e enfrentamento ao modelo econômico neoliberal que, através de um capitalismo extremado, pretendia transformar o planeta, as pessoas e a própria vida em meras peças de um absurdo e abstrato jogo de poder e conquista.
Abaixo, seguem alguns links, também com ótimas análises, para quem quiser se debruçar um pouco mais nessa questão dos rumos do FSM e dos avanços na construção de “um outro mundo possível”, com alternativas inteligentes e transformadoras para o enfrentamento da profunda crise provocada pelo modelo capitalista, em todos os seus aspectos: econômico, ambiental, alimentar, energético e, por último, mas não menos importante, também nos aspectos moral, espiritual e existencial; afinal, percebemos com cada vez mais indignação, urgência e perplexidade o quanto o capitalismo - depois de ter cumprido o seu papel transformador na história - tem tornado o homem triste, pobre, hostil, amedrontado, limitado e limitador.
Assembléia das Assembléias teve pouca força aglutinadora:

05/02/2009

falas - a fascinação pelo pior

A seção “Falas” é um espaço reservado para trechos de obras em prosa, de autores consagrados ou não, publicados ou inéditos.
Inauguramos com um fragmento do livro “A fascinação pelo pior’, (publicado no Brasil pela Editora Rocco, em 2008) do jovem escritor francês Florian Zeller, nascido em 1979.

“Já tinha observado, por exemplo, que é muito raro as pessoas abandonarem essa atitude falsamente distanciada e irônica que as protege tão bem do mundo. Hoje em dia, tudo o que se expressa só pode fazê-lo através do filtro deformador da aproximação rápida e do humor - não o humor, na verdade, mas a piada, a ironia, a mera leviandade. Tudo vira pretexto para rir, mas se trata de um riso besta e grosseiro. Todos, no fundo, absolutamente distantes uns dos outros, o que significa dizer, no fim das contas, uns à custa dos outros. Alguém que pense e sinta por conta própria nunca poderia participar dessa espécie de euforia triste. É algo que sinaliza o fim da conversação entre as pessoas e, portanto, de certa forma, aponta para o reino da solidão.” (Florian Zeller, “A fascinação pelo pior”, p. 90)

partida

antes de ir
apenas mais dois pontos
:
nesse universo de pontos
meus dois olhos em prantos
prontos para a despedida
morrer é apenas
a unificação de tantos pontos
vicente filho - para paul celan

parado na multidão

poesia, se eu fosse você
um minuto que fosse
e se deparasse comigo numa esquina
daqui, de cachemira ou de candahar
eu sorriria
não para mim, nem de mim, nem de si
olharia desconfiado para o lado
desajeitado querendo olhar para trás
querendo acenar
mas seguindo - ainda bem
procurando outro bobo
em outra esquina
vicente filho

volúpia

Rasga o espaço
a flecha

Minha volúpia
percorre o artesanato
do teu corpo

Chego
à longitude
do teu sexo
e do teu recato

Tua inocência
se fecha
tardiamente

Logo
cansa-se o guerreiro
que mora
no meu sangue

Guardo o arco
e vou-me embora

Não sei até que
ponto
eu feri
o teu céu azul
simón zavalla - 'biografia circular'

ilegibilidade

ILEGIBILIDADE deste
mundo. Tudo duplo.
Os relógios poderosos
dão razão à hora físsil
roucos
Tu, encalacrado em teu âmago
te apeias de ti
para sempre.

(paul celan - 'partitura da neve', 1971)Comentários de Flávio Kothe:
Celan não viu mais serem publicados os poemas seguintes, suicidou-se no início de 1970. Eles são o fascinante registro de uma peregrinação para a morte. Parece que ele desiste de cavalgar a noite que havia se apossado dele. A duplicação do mundo na tradição metafísica (mundo terreno x mundo divino, corpo x alma, pensamento x sentimento, etc) parece ser a causa da ilegibilidade dele. O marcador do tempo já está rouco, mas o principal é que ele, Celan, é como um escorpião que já picou a si mesmo com a sua própria cauda. Os poemas de Paul Celan, publicados aqui no DESVELAR, na medida do possível virão acompanhados dos comentários feitos Flávio R. Kothe, pelo tradutor e organizador "Paul Celan, hermetismo e hermenêutica" . Optei por publicá-los, em razão de se tratar de poesia hermética e de refletir uma vivência complexa e polêmica como foi a de Celan. Oportunamente, teremos uma uma abordagem mais detalhada, tanto dos comentários quanto da peosia de Celan.

ó tu com a funda

Ó TU COM A FUNDA
ó tu com a pedra:

é noite sobre noite
eu brilho aquém de mim mesmo.
Traga-me para baixo
leve-nos a
sério
(paul celan - 'partitura da neve', 1971)


Comentários de Flávio Kothe:
À primeira vista a funda e a pedra lembram o episódio bíblico do combate entre Davi e Golias, oximoron narrativo em que o mais fraco derrota o mais forte (o que serve de base a todas as narrativas de aventuras, desenhos animados etc). Depois, vê-se que talvez aí se perca o sentido mais primário: aquele que está com afunda e a pedra é aquele que está disposto a agredir e atacar. Ao invés disso o poeta propõe o desarme, o encontro e a conversa. Como se sabe, a inveja mata: não ao invejoso, mas ao invejado. Mas ter inveja é cegueira. O próprio leitor pode ser este sujeito armado com a funda. Os poemas de Paul Celan, publicados aqui no DESVELAR, na medida do possível virão acompanhados dos comentários feitos Flávio R. Kothe, pelo tradutor e organizador "Paul Celan, hermetismo e hermenêutica" . Optei por publicá-los, em razão de se tratar de poesia hermética e de refletir uma vivência complexa e polêmica como foi a de Celan. Oportunamente, teremos uma uma abordagem mais detalhada, tanto dos comentários quanto da poesia de Celan.

Elegia 1938

Trabalhas sem alegria para um mundo caduco
onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo
praticas laboriosamente os gestos universais
sentes calor e frio, falta de dinheiro, fome e desejo sexual

Heróis enchem os parques da cidade em que te arrastas
e preconizam a virtude, a renúncia, o sangue frio, a concepção.
À noite, se neblina, abrem guarda-chuvas de bronze
ou se recolhem aos volumes de sinistras bibliotecas

Amas a noite pelo poder de aniquilamento que encerra
e sabes que, dormindo, os problemas te dispensam de morrer.
Mas o terrível despertar prova a existência da Grande Máquina
e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras.

Caminhas entre mortos e com eles conversas
sobre coisas do tempo futuro e negócios do espírito.
A literatura estragou tuas melhores horas de amor.
Ao telefone perdeste muito, muitíssimo tempo de semear

Coração orgulhoso, tens pressa de confesssar tua derrota
e adiar para outro século a felicidade coletiva.
Aceitas a chuva, a guerra, o desemprego e a injusta distribuição
porque não podes, sozinho, dinamitar a Ilha de Manhattan.

Carlos Drumond de Andrade (da obra 'Sentimento do mundo', 1940)Na fala acima, há setenta anos atrás, a poesia ja apontava o empobrecimento da vida e das pessoas vivendo num modelo de civilização que já começava a dar sinais de esgotamento. Modelo baseado na conquista e na dominação do mundo, das pessoas e do próprio tempo, civilização baseada na velocidade, na pressa de atingir um horizonte nunca completamente alcançável e cada vez mais distante, e que já trazia como consequência direta para a vida o isolamento, a fragmentação, o desconhecimento e a hostilidade entre pessoas.
Na sua fala, o poeta Drummond aponta a impotência de não se conseguir “dinamitar” os erros e distorções dessa civilização equivocada, mesmo para aqueles que percebiam e sofriam o erro no corpo e na alma. Mas não deixou de ser um poema profético, se lembrarmos aqui que a a ‘Ilha de Manhattan’ foi ‘dinamitada’ duas vezes em menos de dez anos: uma pelo assombroso ataque dos terroristas da Al Qaeda, em 2001, e outra, agora, pelos próprios e privilegiados senhores da Capitalismo, que vem "dinamitando” com competência o seu símbolo maior, a Bolsa de Wall Street, sediada exatamente na Ilha de Manhattan.
Que os escombros desse erro venham logo abaixo, para que não tenhamos que presenciar tantas vezes o horror das dinamites de 2001, e de tantas outras dinamites ao redor do mundo - lembramo-nos das mais recentes, bem à frente de nossos olhos, aquelas do Massacre de Gaza.
Estejamos a postos, para pensar e forjar o novo mundo, o outro mundo possível que poderá brotar desses escombros, dessa fera agonizante que já se vai tarde, muito tarde. Que saibamos responder com coragem e invenção ao melancólico alerta bradado nas Minas Gerais através da fala do poeta Drummond.

21/01/2009

Com os olhos em Gaza

Antes de passarmos às espantosas fotos do Massacre de Gaza, algumas palavras, ainda em estado de estupor e indignação, e mesmo de ódio - evidentemente, não ao povo de Israel ou a quem quer que seja, mas ódio às estruturas de poder que nos impõem essa estupidez e maldade, com as quais certamente ainda teremos que conviver por muito tempo.

É compreensível que as pessoas demorem a se dar conta de algo diferente, anormal, num mundo com tantos, variados e dramáticos acontecimentos, cruciais ou supostamente cruciais: crise econômica mundial, primeiro negro a se tornar imperador do capitalismo, desastres naturais oriundos do caos das mudanças climáticas, acidentes aéreos, etc etc; sem contar o bombardeio diário de centenas de informações de somenos importância para os outros, mas que de uma forma ou de outra nos dizem respeito - ou pelo menos somos levados a crer que nos dizem respeito.

Assim, somente aos poucos certos aconteciemntos vão ganhando a atenção das pessoas. E foi assim, gradualmente, que o mundo foi tomando consciência do horror daquilo que aconteceu - e provavelmente volte a acontecer - na Faixa de Gaza. Acontecimento absurdo, incompreensível. espantoso, para quem imagina que vive numa civilização cujos estados, poderes, instituições e forças políticas apregoam aos quatro cantos do mundo seguirem seriamente palavras e expressões como democracia, razão, evolução moral e política, solidariedade etc etc etc.

Acontecimentos como o de Gaza desmascaram a ingênua e tranqüilizadora visão que se tem de uma Europa e de um Estados Unidos – de um Ocidente, enfim - conscientes de suas limitações e contradições, fazem cair por terra os argumentos daqueles que acreditam sincera ou hipocritamente que o capitalismo será sempre capaz de encontrar a solução para suas próprias contradições, problemas e catástrofes.

Com Gaza fica visível que quanto mais extremado e mais modernoso, quanto mais complexo e refinado, quanto mais prenhe de bugigangas tecnológicas, mais descontrolado o capitalismo se torna, mais estúpido, burro, irracional e imune a conceitos como humanidade, sofrimento, serenidade, solidariedade, respeito, amizade, progresso moral ou evolução espiritual.

Não vale a pena falar aqui dos reais motivos que levaram os governantes de Israel a atacar Gaza, não vale a pena tentar se contrapor aos argumentos da grande mídia, (que ao fim e ao cabo, passada a comoção, sempre acusará os “fanáticos” do Hamas e da Al Qaeda) nem tentar entender porque os EUA e a Europa permitem aos militares de Israel promover esse absurdo massacre. Quem quiser se convencer, se informar ou discutir melhor acerca do que está por detrás do Massacre de Gaza, poderia dedicar um pouco de tempo a lguns espaços alternativos - há uma relação na lateral do blog.

Um bom exemplo é o texto que publicamos, de Tariq Ali – Das cinzas de Gaza, traduzido por Luis Leiria para o site português www.esquerda.net (veja a seção 'pontes')

Mas, por ora, fiquemos com as contundentes imagens, que certamente todos gostariam d enão ter que olhar - e também com um poema de Simón Zavala Guzmán. Dos livros que este poeta equatoriano enviou recentemente ao blog DESVELAR, escolhemos traduzir o poema "Introspeccion Revolucionaria", para estar ao lado deste não tão impotente testemunho das imagens do Massacre.












As imagens foram extraídas de email enviado por Bernard Almeida, garotopodre3@hotmail.com, para a lista de discussão da pALCA (veja a seção 'pontes')

Outras imagens do Massacre
















20/01/2009

Palestina somos todos nós - Boicote a produtos de Israel e Estados Unidos









Das cinzas de Gaza

Por Tariq Ali, publicado originalmente no Guardian e traduzido por Luis Leiria, para o site português www.esquerda.net (veja a seção 'pontes').

O ataque a Gaza, planeado há seis meses e executado no momento certo, tinha em grande medida, como observou correctamente Neve Gordon, o objectivo de ajudar os partidos candidatos à reeleição a vencer as próximas eleições israelitas. Os mortos palestinianos são pouco mais que alimento eleitoral nesta competição entre a direita e a extrema-direita em Israel. Washington, e os seus aliados da União Europeia, perfeitamente cientes de que Gaza estava na iminência de ser atacada, tal como no Líbano em 2006, sentaram-se para ver.
Washington, como é seu hábito, culpa os palestinianos pró-Hamas, com Obama e Bush cantando o mesmo hino da pauta da AIPAC (American Israeli Political Activity Committee, Comité Americano Israelita de Actividade Política, o lóbi judeu nos EUA). Os políticos da UE, tendo observado o cerco, a punição colectiva a Gaza, o assassinato de civis, etc. estavam convencidos que foram os ataques com foguetes que "provocaram" Israel, mas apelaram aos dois lados a porem fim à violência, sem obter qualquer efeito. A velha ditadura de Mubarak no Egipto e os islamistas favoritos da Nato de Ankara não registaram sequer um simbólico protesto, chamando os seus embaixadores em Israel. A China e a Rússia não pediram uma reunião do Conselho de Segurança da ONU para discutir a crise.Diante da apatia oficial, uma consequência deste último ataque será inflamar as comunidades muçulmanas através do mundo e aumentar as fileiras das organizações que o Ocidente afirma estar a combater na "guerra contra o terror".

O banho de sangue em Gaza levanta questões de estratégia mais amplas para ambos os lados, que se relacionam com a história recente. Um facto que é preciso reconhecer é que não há Autoridade Palestiniana. Nunca houve. Os Acordos de Oslo foram um absoluto desastre para os palestinianos, criando um conjunto de guetos desligados e encolhidos sob permanente vigilância de um agente brutal. A OLP, antes a depositária da esperança palestiniana, tornou-se menos que uma pedinte do dinheiro da UE.O entusiasmo do Ocidente pela democracia termina sempre que os que se opõem às suas políticas ganham eleições. O Ocidente e Israel tentaram de todas as formas garantir uma vitória da Fatah: os eleitores palestinianos rejeitaram o concerto de ameaças e de subornos da "comunidade internacional", numa campanha que viu a detenção rotineira de membros do Hamas e de outros oposicionistas pelo exército israelita, os seus cartazes confiscados ou destruídos, os fundos da UE e dos EUA a serem canalizados para a campanha da Fatah, e os deputados do Congresso dos EUA a anunciar que o Hamas não devia ser autorizado a candidatar-se.Até a data da eleição foi determinada pela vontade de burlar o resultado. Marcada para o Verão de 2005, foi adiada até Janeiro de 2006 para dar a Abbas tempo para distribuir vantagens em Gaza - nas palavras de um oficial de informações egípcio, "o público vai assim apoiar a Autoridade contra o Hamas".

O desejo popular de que houvesse uma vassourada depois de dez anos de corrupção, intimidação e arrogância sob a Fatah provou-se mais forte que tudo isto. A vitória eleitoral do Hamas foi tratada pelos governantes e jornalistas do mundo atlântico como um sinal deplorável do fundamentalismo crescente, e um golpe temível às perspectivas de paz com Israel. Foram aplicadas pressões financeiras e diplomáticas imediatas para forçar o Hamas a adoptar as mesmas políticas do partido que derrotara pelo voto. Sem compromissos com a combinação de ganância e de dependência da Autoridade Palestiniana, caracterizada pelo auto-enriquecimento dos seus servis porta-vozes e polícias e a sua concordância com um "processo de paz" que só trouxe mais expropriação e miséria à população, o Hamas ofereceu a alternativa de um exemplo simples. Sem ter qualquer dos recursos da sua rival, instalou clínicas, escolas, hospitais, centros de formação profissional e programas de bem-estar para os pobres. Os seus líderes e quadros viviam frugalmente, dentro dos padrões do povo comum.

Foi esta resposta às necessidades do dia-a-dia que conquistou para o Hamas a sua ampla base de apoio, não a recitação diária dos versos do Alcorão. É menos claro até que ponto a sua conduta na segunda Intifada lhe deu um grau adicional de credibilidade. Os seus ataques armados contra Israel, como os da Brigada dos Mártires de Al-Aqsa, da Fatah, e os da Jihad Islâmica, foram retaliações contra uma ocupação muito mais mortal que antes. Medidos à escala dos assassinatos do exército israelita, os ataques palestinianos foram poucos e espaçados. A assimetria ficou duramente exposta durante o cessar-fogo unilateral do Hamas, iniciado em Junho de 2003 e mantido durante todo o Verão, apesar da campanha israelita de raids e de detenções em massa que se seguiu, na qual cerca de 300 quadros do Hamas foram apanhados na Cisjordânia.
Em 19 de Agosto de 2003, uma autoproclamada célula do "Hamas" em Hebron, desautorizada e denunciada pela liderança oficial, fez explodir um autocarro em Jerusalém ocidental, ao que Israel prontamente respondeu com o assassinato do negociador do cessar-fogo do Hamas, Ismail Abu Shanab. O Hamas, por sua vez, ripostou. Em resposta, a Autoridade palestiniana e os estados árabes cortaram os fundos às suas obras de caridade e, em Setembro de 2003, a UE declarou todo o movimento Hamas como uma organização terrorista - uma antiga exigência de Tel Aviv.
O que realmente distinguiu o Hamas, num combate desigual e sem esperança, não foi o uso de bombistas suicidas, uma prática que contava com muitos competidores, mas a sua superior disciplina - demonstrada pela capacidade de impor um auto-declarado cessar-fogo contra Israel no ano passado. Todas as mortes civis devem ser condenadas, mas como Israel é o seu principal adepto, a hipocrisia euro-americana serve apenas para se desmascarar. A maior marca de assassinatos está no outro lado, brutalmente cravada na Palestina por um exército moderno equipado de jactos, tanques e mísseis, na mais prolongada opressão armada da história moderna.
"Ninguém pode rejeitar ou condenar a revolta de um povo que sofreu a força bruta de uma ocupação militar durante 45 anos", disse o general Shlomo Gazit, ex-chefe de informações militares israelita, em 1993. O ressentimento real da UE e dos EUA em relação ao Hamas é que este sempre se recusou a aceitar a capitulação dos Acordos de Oslo, e rejeitou cada um dos esforços subsequentes, de Taba a Genebra, de dissimular as suas calamidades diante dos palestinianos. A prioridade do Ocidente desde então foi romper a resistência. O corte de fundos à Autoridade Palestiniana foi uma evidente arma para forçar a submissão do Hamas. Outra foi estimular os poderes presidenciais de Abbas - publicamente escolhido para o cargo por Washington, como Karzai foi para Cabul - à custa do conselho legislativo.
Não foi feito qualquer esforço sério para negociar com a liderança eleita dos palestinianos. Duvido que o Hamas pudesse ter sido rapidamente subornado aos interesses ocidentais e israelitas, mas não seria sem precedentes, se acontecesse. A herança programática do Hamas permanece hipotecada à mais fatal fraqueza do nacionalismo palestiniano: a crença de que as escolhas políticas que se lhe apresentam são a rejeição da existência de Israel no todo, ou a aceitação de restos desmembrados de um quinto do país. Da fantasia maximalista do primeiro ao patético minimalismo do segundo, o caminho é muito curto, como a história da Fatah mostrou.
O teste para o Hamas não é se pode ser domesticado para a satisfação da opinião ocidental, mas se pode romper com esta tradição paralisante. Logo depois da vitória eleitoral do Hamas, um palestiniano perguntou-me em público o que eu faria no lugar deles. "Dissolvia a Autoridade Palestiniana", foi a minha resposta, "e punha fim à fantasia". Fazê-lo iria situar a causa nacional palestiniana na sua base correcta, com a exigência de que o país e os seus recursos sejam divididos equitativamente, na proporção de duas populações que são iguais em tamanho - não 80% uma e 20% a outra, uma desapropriação de tal forma iníqua que nenhum povo que tenha auto-estima jamais se vai submeter a ela a longo prazo. A única alternativa aceitável é um só Estado tanto para judeus quanto para palestinianos, no qual as extorsões do sionismo sejam reparadas. Não há outro caminho.

sobre george saraiva

George Saraiva mora em Guarapari e também participa da Oficicina Poiesis.
No primeiro poema, 'desarmonia' , uma interessante simbiose – apesar da aparente oposição - entre linguagem e conteúdo, pois, se está a apontar impotências e impertinências de seu personagem/romancista, o poeta o faz com a fala e os recursos do romancista: a argúcia psicológica, a capacidade de descrever vivências e dimensões complexas, qualidades que são próprias exatamente do romancista (enfim, o poeta age como romancista pelo simples fato de conceber e dissecar de forma tão vigorosa e precisa o seu personagem/romancista).

No segundo poema de George Saraiva - 'blue buballoo' - há um oposto: na sua singeleza, é umé retrato do poeta no meio do instante que passa, no meio mesmo da aparição das coisas, é registro de sua sentinela.

Traz um pouco dessa capacidade serena e modesta de testemunhar o ser e o tempo que tem sido esquecida por uma certa poesia moderna, na sua preocupação excessiva ora com labirintos existenciais e narcisistas, ora com a legítima invenção de códigos verbais, ora com o simples jogo com as palavras; jogos e códigos que, originais ou repetitivos, depois irão servir de objeto/pretexto para críticos, professores e/ou prefaciadores debruçarem-se sobre o poema e as palavras como se estivessem a dissecar entranhas ou analisar partículas com microscópios.

sobre waldo motta

Waldo Motta é poeta nascido em Boa Esperança, norte do Espírito Santo.
A marca mais conhecida de sua poesia é um homoerotismo contundente e às vezes desbocado, mas nem por isso menos lírico e inventivo Não se trata meramente de poesia que apela tão somente para o choque, a porrada verbal, o escândalo.
Se lida com atenção, a poesia homoerótica é apenas uma das tonalidades de sua fala - e, para alguns, nem é a mais rica, é apenas a mais impactante, aquela que dá mais platéia; há que saber saborear a sua poesia social, a existencial e a de fundo religioso ou místico.
Na realidade, em suas criações mais recentes, Waldo parece buscar uma espécie de superação do próprio conceito de poesia, ou pelo menos do conceito de poesia predominante na literatura ocidental - tentativa de superação que se concebe como estando até mesmo à frente de conceituadas linhas de vanguarda.
É uma poesia que busca fundir elementos aparentemente díspares como hebraísmos, cabala, numerologia, lendas, linguagens e cosmogonias de nossos indígenas, tudo isso sem abrir mão da inventividade, do verso burilado, mas principalmente sem abrir mão do sentido, da mensagem - para usar termos mais técnicos, Waldo Motta ainda é um poeta que não se deixa levar somente pela melopéia (dimensão sonora) nem pela fanopéia (elementos visuais do poema) mas também e prioritariamente pela logopéia (dimensão do sentido, do entendimento).
Ou em bom português, e como o próprio Waldo diz em suas oficinas e preleções teóricas, é uma poesia que ainda tem a preocupação com o conteúdo, que se preocupa em comunicar algo ao leitor, em estabelecer uma ponte mínima que seja.
Waldo Motta ministrou recentemente a Oficina Poiesis.
Site do poeta: http://br.geocities.com/waldomottapoeta/home.html

blue buballoo

cada gota
que se desfaz sobre o jardim
é espasmo de sol.

cada borboleta,
inebriada com o jardim confuso,
é espasmo de sabor.

e a conclusão da vida?
- espasmos periódicos!
george saraiva
ecos

questão de gênero

Em outro poema estava
a noite (por um momento)
absoluta. E a respiração
que (de dentro)
o ouvido escuta.
E alguma lição
a se tirar disso
esquecida.
Em outro poema.
ronald polito, 'de passagem'

em teu peito, pasto...

em teu peito, pasto
desta égua famélica,
entre tuas coxas
frouxas ao assédio,
nesta tesa e tensa,
haste de teu sexo
nas dunas da bunda
onde deixo rastos,
na concha bivalve
dos lábios, na ostra
sôfrega da língua,
enfim neste corpo
em que colho olores
e sabores vários,
é que me refaço,
rapaz, dos labores
é que me aplaco
esses meus furores,
é que me consolo
de meus dissabores.

waldo motta, 'waw'
ecos

paciência

tentar controlar
a entrada e saída
de ar. parar.
resistir. Não
repetir

escrever um palavra
invisível
e apagar
em seguida

não se mover
mais, não rasurar
a folha em branco

nem assim haverá
silêncio
descanso
ronald polito, "de passagem", nankim editorial

miliciana

a farda
é um fardo
ao corpo
do soldado

e a divisa
um limite
que o limita
militar
o soldado,
um certo
dado
do jugo
o quartel,
quarto enorme
de vigília:
ninguém dorme
marcos tavares

introspecção revolucionária

Esta contundente e singela fala de Simón Zavalla vai como testemunho poético neste momento em que, perplexos e indignados, estamos com os olhos em Gaza
I
ontem, quando brincávamos
atrás das palavras
qualquer coisa nos admirava
e nos calava a boca
e tão imunes ao mundo estávamos
que hoje se nos entristece a alma

sim, éramos tão imunes:
os bancos da escola
pulavam na nossa vida
e mil filas de letras
jogueteavam alegres nas vermelhas
tranças da companheirinha ou no olhar
que buscava o sonho
ainda de calças curtas

ontem, os dias eram outros dias
os beijos de nossas mães
moravam nas nossas bochechas
e o canto do avô nos vinha
como um até amanhã
sem palavras

foram tempos fugazes
a barba e o bigode
nos despertaram dos sonhos
e viemos caminhando metidos nos farrapos
dos irmãos maiores que morreram
II
hoje estamos aqui
sobre a terra que tantas vezes
se vestiu de sangue
sou um dos vossos
eu me chamo Simon, um qualquer
sou um grito com nome
e um punhado de sangue
sou uma incertitude que sorri
e um casualidade dentro do tempo
com desejos de homem

venham a ver-me:
as unhas pouco a pouco comi e a fome
condecorou o meu estômago -
com dores agudas
sou um triunfo a mais –
para a miséria

olha-me, humanidade:
tenho um fuzil
que canta na minha cabeça
e venho estender-lhes a minha mão
e a minha fraqueza de esqueleto
III
aqui estamos
pulando de migalha em migalha
com um lasso passo de vermes
os domingos nos doem
e o tic-tac das semanas nos golpeia
vamos já derrotados por esta estrada
disparando palavras como velharias
e sequer Deus nos reconhece

pobrezinho do fuzil!
deve estar chorando
esta noite não pude acariciá-lo
nem deitá-lo em meus braços
que vou fazer
já é de manhã!

Olhem-nos, hermanos:
somos meros caranguejos
com bandeiras de luta
aos farrapos no asfalto.
simón zavalla

19/01/2009

Oficina Poiesis

A Oficina Poiesis aconteceu no segundo semestre de 2008, em Vitória. Foi ministrada pelo poeta Waldo Motta, patrocinada pela Secretaria Municipal de Cultura de Vitória, dentro do projeto Circuito Cultural.
No fechamento da Oficina tivemos, também em Vitória, no dia 24/10/2008, um encontro entre poetas capixabas e poetas/editores de São Paulo. O encontro, chamado de Poesia ao Vivo, contou com a participação deste que edita este blog, de Marcos Tavares, Fabrício Noronha, George Saraiva, Tatiana Briosch, Franklin Neto e Fábio Freire e também dos atores William Berger, Cristina Garcia e Alan, que leram criações dos poetas acima citados.
Quanto aos convidados de São Paulo: Massao Ohno, Ronald Polito e Celso de Alencar.
Houve também a apresentação de um trecho da peça "Terra sem mal", baseada no poema alegórico de mesmo nome, de Waldo Motta. Fechando a noite, a banda Sol na Garganta do Futuro apresentou o seu repertório, que funde música e poesia, tendo à frente o vocalista e poeta Fabrício Noronha.
A Oficina Poiesis deverá acontecer novamente ano, bem como o Poesia ao Vivo. Na verdade, a Oficina pretende constituir-se como movimento, promovendo não só a integração entre poetas e público, mas também entre poesia, música e teatro, tendo como elemento de ligação exatamente a palavra poética - escrita, falada, teatralizada, visualizada.
Trata-se de inciativa que, entre outros objetivos, visa resgatar uma poesia que se volte para a vivência de seu próprio tempo e para as pessoas desse tempo, evitando-se uma fala cerebral, abstrata, evitando fazer da poesia mero jogo verbal ou mero roteiro para labirintos existenciais e narcisistas, excessivamente desfocados das contradições e das perplexidades, dos desamparos e das resistências de todos nós, nesse tempo que já é quase barbárie mas também promessa de outro mundo possível.
O blog DESVELAR, no intuito de contribuir para a divulgação da poesia feita e vivida no Espírito Santo, vem publicando, dentro do possível, trabalhos dos poetas participantes da Oficina Poiesis.

limiar

As casas cochilam
ao longo da rua.
Silente e corcunda,
caminho a esmo.

Nos lábios da brisa,
surradas palavras
de encorajamento
que só me azucrinam
meus fudidos nervos.
Galos se esgoelam
que nem camelôs
da Vila Rubim
prescrevendo o ópio
das velhas manhãs.
Mas remédio algum
me cura de mim.

Recorte de sobra,
varo a madrugada.
Nada me consola
de ser miserável.
No entanto, algo,
algo inelutável
e indescritível
reboca meu corpo
rumo a mais um dia.

waldo motta

obsessão

não posso esconder:
- Deus é um troço
que me incomoda
inseto algures
na noite em claro
inquieta pulga
que me passeia
fazendo cócegas.

Deus me aflige
como doença
que progredisse
secretamente.

Deus é um bicho
de estimação.
se o escorraço
Deus me perdoa
e volta, à-toa.

waldo motta

poema para hoje

hoje é quinta-feira de uma época tenebrosa
há um tempo buscamos o sentido perdido das coisas
o encontro de cada desencontro . . .

na esquina dou bom dia a mim mesmo
e quem me vende o pão é minha própria imagem.
sou reflexo e imagem daquilo que fui e serei
sou o inverso daquilo que enxergo
um passo além do calcanhar
e a surpresa
dentro da caixa empoeirada.

a língua do sábio é a loucura do néscio
a agressão é a língua do idiota
a poesia é a ambrosia dos deuses
hidromel dos heróis
salvação dos famintos

só por ela entraremos na cidade santa
xangrilá perdida
só com ela derrotaremos nossos dragões
ganharemos corações
nessa carapaça de lata
e voltaremos a amar aquilo que sempre fomos.
william berger

22/12/2008

"então é natal, e ano novo também..."


Sabemos que a época natalina, há muito tempo, não é mais vivida apenas como momento maior da cristandade. O natal se tornou para todas as pessoas sinônimo de solidariedade, de esperança, de perdão e superação de conflitos. Em parte, talvez pelo fato de ser comemorado tão próximo ao Ano Novo das sociedades ocidentais. A proximidade das datas fortaleceria naturalmente o sentimento de renovação, de fim de um ciclo e início de outro (tal como insinuado no verso da famosa música de Lennon, que escolhemos como título desta postagem). O sagrado e o profano. A memória religiosa e a promessa terrena se encontrando. A celebração anual da esperança de que um dia a Grande Festa ocorra aqui e agora no reino dos homens.

Nem mesmo esta época de desenfreado consumismo e de indiferença e medo entre as pessoas é capaz de desvirtuar ou eliminar completamente esse momento de celebração e de resistência, que chamamos de espírito natalino.

Trazemos então três poemas, tendo como motivo a figura do Cristo, esse que, até hoje no Ocidente, ainda é o símbolo dessa crença, celebração e resistência. Poemas aparentemente amargos, pessimistas, até mesmo irônicos. Mas nem por isso menos tributários da crença e da possibilidade da Grande Festa, nem por isso menos respeitosos para com essa figura-símbolo. Ao contrário, é da sua crença que brota a sua aparente amargura e ironia.


o lamento do ressuscitado
não nasci, não cresci
nem morri de verdade...
até hoje!!!
chorei assim mesmo
sem mais sangue nas veias

é muito complicado ir além
a porta não abre, não abre...
forçá-la é tentativa vã
e pela fresta a fé não vem

nada do que dei fez a festa
o trunfo, sem triunfo
é só um defunto...
vicente filho




fotopoema: madeiro milenar


ei, companheiro crucificado
2000 já veio e já se foi admirado
da abundância de brilhosas bündchens
de bytes & gates, de gatunos & wall streets
e de restos de gente humana exilada
nas ruas capitais
deitadas em escadarias de catedrais salpicadas de bosta


cruz credo! credo em cruz! não
se
acenderam
ainda
as
luzes
de
tuas
árvores

(poema e fotografia de roberto soares - a foto foi tirada em ponta da fruta, vila velha, es)



UMA VEZ bem que o escutei
ele mesmo lavou o mundo, limpou tudo
sem ser notado, a noite toda
efetivamente

Uno e infinito
aniquilado
ilhado

Brilho havia. Luz. Salvação.
paul celan Junto com este poema de Celan, pretendia publicar os comentários de Flávio Kothe, o seu tradutor aqui no Brasil (em sua tradução de “Poemas”, publicada pela Tempo Brasleiro, Kothe comenta todos os poemas de Celan). Mas como estou em viagem não tenho o livro em mãos.
Assim, vou tentar transmitir de memória o essencial dos comentários de Kothe e quando possível publicá-los-ei na íntegra.

É com uma forte ironia que Celan relembra o breve tempo em que pode “escutar”, em que pode acreditar numa redenção da humanidade advinda da fé ou da abnegação cristã. Mas apesar da gradual descrença e do desespero - mesmo em relação à ação política e à própria possibilidade da vida (Celan se matou em 1970) - a figura do Messias mantém o seu fascínio para Celan: o Cristo como poeta que assume para si o louco e absurdo projeto de se imolar em nome de uma tarefa que ele sabia fadada ao fracasso, ao menos em termos imediatos. Mas mesmo assim se aniquilando, se ilhando, anônimo e desamparado, em nome dessa absurda escolha, em nome do projeto de ligar o homem ao divino, de despertar o que havia de divino no homem e de mostrar ao homem o que poderia haver de humano e precário no divino. O poema parece ser uma espécie de acerto de contas de Celan com a sua nostalgia, com o que ainda restava em seu imaginário de fascínio pela figura do Messias, mas um Messias humano, poeta, precário.

04/12/2008

poema inexato a arthur rimbaud

percebi um anjo correndo
quase-luz, fugia lépido
carregando pesados fardos

no chão algumas moedas engraçadas
no fim da linha um brilho esquisito

o anjo nada via
eu notei que devorava as flores
de um jardim intangível e perfeito


carlos ernesto

orvalho

ORVALHO. e eu estava deitado contigo, ó tu,
no meio do lixo
enquanto uma lua suja
nos lançava respostas

nós nos esmigalhamos separando
e novamente embolamos num só:

o Senhor partiu o pão
o pão partiu o Senhor

paul celan ecos

03/12/2008

arte popular: resgate e comunhão

Esse texto pode ser lido como um complemento ao 'A festa da vida nas ruas', relato poético que escrevi acerca da Iª Festa da Identidade Capixaba, ocorrida no último sábado, no Centro de Vitória.
As tarefas essenciais da arte moderna (entenda-se aqui arte moderna como aquela que veio com a Renascença e se consolidou de vez com o Romantismo, não havendo nessa definição nenhuma pretensão de detalhes acadêmicos) são as da crítica e da inovação, da denúncia e da transformação, seja no aspecto estético, político ou social. Ora, ocorre que com o passar dos séculos, essas tarefas foram se tornando cada vez mais complexas e custosas, pelo próprio fato de que a arte havia que acompanhar as também complexas, custosas, ininterruptas e cada vez mais velozes transformações das sociedades ocidentais, provocadas pelo necessário e revolucionário advento do modo de produção capitalista.

Esse processo de acompanhar, compreender ou questionar a marcha da sociedade, se fez com que a arte moderna cumprisse, e bem, a sua tarefa, por outro lado arrastou-a para a mesma complexidade e sofisticação daquilo que ela acompanhava, e com o tempo esse deslocamento inevitavelmente resultou no distanciamento cada vez maior entre artista, linguagem artística e público, ou pessoas “comuns’’ - distanciamento que só fez se agravar com a consolidação da sociedade e da cultura de massas.
No outro extremo permaneceu a arte popular, sem possibilidade de acompanhar esse projeto de conquista da modernidade, mesmo porque não era e não é vocação da arte popular exercer-se como arte moderna, nessa constante preocupação de renovação.

Ao contrário, a sua vocação é a da permanência, da tradição e, embora a inovação seja também própria da arte popular, ela se dá num ritmo próprio, sem submissão a fatores externos, ou seja, ela não tem como preocupação central a inovação a qualquer preço ou por qualquer motivo; enfim, não existem propostas explícitas de inovação e invenção, quando essas ocorrem são consequências de um proceso natural, decantado ao longo de anos e às vezes décadas. Em razão dessa sua vocação para a permanência e a tradição, a arte popular se manteve mais próxima da maioria das pessoas, de suas vivências e de seus formas de expressão.
É uma arte mais próxima das origens, uma arte que soube conservar um pouco dos mitos, da religiosidade e da transcendência próprias do ser humano, sem se deixar envolver pelo transitório e pelo racional.

Assim, é natural que encontros como o de sábado (Iª Festa da Identidade Capixaba) desemboquem numa verdadeira comunhão entre artistas e povo, entre atores e espectadores, é nada mais nada menos do que o resgate de um tempo em que não havia tanta separação, indiferença e desconhecimento mútuo entre os indívíduos e entre as diversas formas de conhecer e estar no mundo (ciência, arte, religião) - um tempo anterior ao advento da cultura de massas. Na verdade, essa comunhão aponta não só para o resgate do passado, mas também para uma promessa de futuro - um futuro para além da cultura de massas.
Nessas manifestações populares ocorre o encontro concreto, sem mediações teóricas, entre arte e vida, entre cultura e natureza, sem preocupações de se definir aquilo que deve predominar.

E, embora não seja uma aspiração explícita, ou reconhecida, esses momentos de fusão com o público são tambérm uma aspiração de muitos artistas da modernidade, um resgate do elo perdido, ou a construção de um novo elo.
Sabemos que as condições históricas atuais saõ de um cada vez mais visível esgotamento do modelo de conquista proposto pelo outrora revolucionário sistema capitalista. E talvez essas condições históricas permitam e exijam o advento de uma arte que consiga realmente unir as características essenciais tanto da arte moderna quanto da arte popular.

Com certeza que, nessa construção de uma nova arte, celebrar junto com a arte popular não significará para o artista moderno abdicar da sua tarefa de crítica e denúncia, de invenção e de enfrentamento. Comungar com o povo e com a arte popular não significa se anular perante as características mais simples e espontâneas dessa arte.
Participar da construção de uma arte assim não significa jogar fora todo o precioso e grandioso acúmulo construído pela arte moderna, em sua incansável tarefa de acompanhamento, interpretação e expressão dos dramas e vivências dos homens da idade moderna.
Nem a arte popular teria que passar a ser mais elaborada, mais crítica ou estar em busca da constante inovação, sob o risco de também se afastar do universo das pessoas.

De qualquer forma, esses encontros mostram que é possível, sim, o resgate da comunhão entre arte e vida, entre ator e espectador, e o artista que quer caminhar na direção dessa nova arte com certeza só tem a ganhar quando dedica mais atenção à arte popular e, principalmente, a momentos mágicos e grandiosos como aquele que vivenciamos no sábado passado nas ruas do Centro de Vitória.
Roberto Soares
Ir para 'A festa da vida nas ruas'

02/12/2008

[o silêncio]

o silêncio tange o
sino de tão
leve ninguém
escuta
mariana botelho
ecos

minas - de ouro e horizontes

Em 1997, em BH, participei de uma criativa oficina de poesia, orientada pelo escritor mineiro Duílio Gomes. Num dos encontros, Duílio pediu que criássemos um poema a partir da palavra 'mariana'. Na ocasião criei o poema abaixo: 'mina mariana'. Por algum tempo fiquei inquieto, achava que faltava alguma coisa.
Depois desdobrou-se nesta trilogia, onde falo de passado, presente e vislumbres ou promessas de futuro, tendo como cenário e fio condutor as três capitais de Minas Gerais e o caminho para o mar - entre outras coisas, hoje vejo nos poemas uma espécie de reversão ou superação da história (dolorosa mas generosa) como se Minas ainda pudesse oferecer algo ao mundo, para além dos metais e minérios arrancados de suas entranhas - ou seja, percebo hoje que esses poemas são o meu tributo inconsciente a essa Minas mítica que carregamos dentro de nós, a Minas inconfidente, libertária, redentora, que o nosso imaginário insiste em preservar.

mina mariana

minas não mira o mar
o mar não ri para minas
minas canta uma outra ária
bebeu de outra mina: mariana

ouro preto, ponte inconfidente

a pele - becos e escadas, ruas e templos,
é polvilhada de puros poros de tempo

a alma - amores e escravos, poetas e o polvo
é ponte entre a mina e o horizonte

o ouro: duro, dourado e o sangrado alferes
a alimentar o polvo
a apontar perto e reto o porto ao povo

horizonte belo

floresta concreta plantada no prado
gestada já na mina, nutrida no ouro

promessa vibrátil de amoroso
contorno ao derredor da serra sagrada
consagrada

mas por ora: o polvo
devora a cordilheira e a seara

enquanto imensa família
ora pujante ora indigente
labuta o barro do preto sustento
de serena e morena estrada-manhã

a marchar célere como o amazonas
rumo ao cerrado e serrando ao meio
a bastilha e as esquadrilhas do polvo

e então talvez o mar e as minas
se beijem - aliviados
e o mar leve às aldeias do globo
o polvo - domesticado

o mar a murmurar em cada diferente porto
o nome da canção esquecida - canhota, torta
que brota da mina pura, singela
trilha a ponte de ouro e o horizonte belo
e jorra vibrante lavanda no seu corpo gigante.
tal mágica e rubra bandeira
talvez.

roberto soares

ecos

01/12/2008

a festa da vida nas ruas

Numa inciativa conjunta da Prefeitura Municipal de Vitória e da Comissão Espírito-santense de Folclore, aconteceu no último sábado, 29/11, a I Festa da Identidade Capixaba, que reuniu mais de 60 grupos folclóricos capixabas, num grande desfile pelas ruas do Centro de Vitória.

O tema da festa foi a histórica rivalidade entre as irmandades cristãs apelidadas de Caramurus e Peroás, devotos fervorosos de São Benedito que disputavam, ainda no século 19, a primazia de realizar a festa mais bela para o santo, e o trajeto do cortejo passou em frente aos mais importantes prédios e logradouros históricos do Centro de Vitória.

A seguir, um relato nada jornalísitico do que foi o desfile; ao contrário, a descrição é intencionalmente entusiasmada, decalaradamente apaixonada, de alguém que participou de todo o desfile e se encantou com o que viu e ouviu.

aqui, o início, nas escadarias da Igreja do Rosário e na de mesmo nome

“Foi bonita a festa, pá...”
As ruas da cidade foram tomadas por uma guerrilha multicolorida e multicultural.
Congo, folia de reis, ticumbi jongo, danças indígenas, grupos de dança alemã, pomerana e italiana.
Depois de se concentrar por um longo e festivo tempo na Praça Costa Pereira, lá pelas quatorze horas o assalto se iniciou pelas escadarias da Igreja do Rosário. Com o público e os artistas populares espremidos nas escadas, já se tinha uma impressão, embora ainda vaga, de que estávamos participando de algo diferente, algo mais aconchegante.
Mas, caminhando pelo relvado pátio da Igreja e descendo pela Rua Pereira Pinto, ainda havia uma certa postura de apenas espectadores de um espetáculo promovidos por artistas, ainda havia aquela atitude de distanciamento entre artista e público. Mas também havia já uma atmosfera verdadeiramente efusiva, com pessoas nas portas, janelas e calçadas, aplaudindo, tomadas por uma mistura de surpresa e admiração com aquilo que viam, com aquele rio de gente brotando súbito dos portões da igrejinha da comunidade.

na ladeira e em frente ao bar do Gegê
E na descida da Ladeira São Bento, a coisa começou a mudar de figura. Já não se separava mais público, cantores, músicos, personagens fantasiados. Era uma só vaga humana descendo pela ladeira – sonora, colorida, melodiosa. O cortejo desembocou no cruzamento com a Graciano Neves, em frente ao tradicional Bar do Gegê.
cortando o calçadão da Rua Sete e em frente à Igreja do Carmo
Dali para a frente, certamente que ainda mais animado pelo espírito irreverente da clientela do Gegê, o cortejo assumiu de vez a sua atitude guerrilheira, a sua missão de subverter a ordem natural, que geralmente vemos em relação à arte - de um lado, ou acima, o artista, ativo, centro do espetáculo, de outro lado, ou abaixo, o público, silencioso, espectador passivo.
Do já quarentão reduto da boemia de Vitória, a marcha musical prosseguiu rumo à Igreja do Carmo, passou em frente ao Convento de São Francisco, por cima do Viaduto Caramuru, se afunilou ao lado do Colégio Maria Ortiz e, depois de se espremer num beco, se espraiou pelo paço em frente ao Palácio Anchieta e ao Palácio Domingos Martins.

a bandeira segue em frente mesmo espremida entre os palácios e os muros do poder

Nesse ponto, já havia se configurado em definitivo o caráter subversivo do cortejo. O espetáculo era de todos, feito por todos e para todos, a dança, a cantoria e a música dos instrumentos já não tinham mais sentido sem a participação do público, que ora assistia, ora acompanhava, ora se esgueirava pelas ruas, becos e calçadas junto com os grupos folclóricos, já não havia artistas e público, atores espectadores. Havia apenas arte, cultura, ou melhor, celebração popular - havia na verdade a vida fluindo em festa pelas vias de Vitória, a vida festejando, a vida se festejando numa tarde de sábado.

Era como se os artistas precisassem de fato das pessoas, da sua presença, para que a sua arte se realizasse naqueles momentos: total comunhão, interdependência, entre vida e arte.

Palácio Anchieta

Palácio Domingos Martins

nas proximidades da Catedral

Por fim, depois de ladear a Catedral de Vitória os guerrilheiros da arte popular, descendo pela Escadaria , finalmente retornaram ao ponto de partida.
O que foi realmente uma pena, da próxima vez que o percurso seja um pouco mais longo e demorado. Com certeza os atores do espetáculo – músicos, cantores, dançarinos e o público – encontrarão um fôlego extra, em nome dessa celebração da vida e da diferença, da tolerância e da riqueza cultural.
Aliás, será imperdoável, será injustificável que o Poder Público não faça o que estiver ao seu alcance para que essa celebração ocorra novamente, por muitas e muitas vezes – com certeza, não faltarão recursos para que aarte popular tenha a mesma atenção que o carnaval, o Festival Nacional de Teatro, o Vitória Cine Vídeo e outros eventos culturais de grande e médio porte patrocinados pela Prefeitura de Vitória e pelo Governo do Estado.

Afinal, a arte popular, coletiva, e o folclore merecem o mesmíssimo cuidado que a arte contemporânea, individual ou de grupo. E que não se cometa a afronta, o pecado de querer aprisionar essa celebração da beleza e da alegria, da resistência e da vida, em uma forma convencional, como uma espécie de desfile, com arquibancadas, cordões de isolamento, ingressos e camarotes e tudo o mais a separar o público dos artistas populares, a separar o público de si mesmo e a dividi-lo em castas.

Para ler mais sobre a poesia e a espontaneidade da arte popular clique em 'Arte Popular: resgate e comunhão'

que vais fazer, Deus?

Optei por publicar duas traduções diferentes do poema que vais fazer...? - a primeira de Geir Campos e a segunda por Paulo Plínio Abreu; os outros poemas de 'O livro de horas' foram também traduzidos por Geir Campos, Ed. Civilização Brasileira, 1994 (nota: os poemas de “O livro de horas” não têm títulos)

que vais fazer, Deus, se eu morrer?
eu sou teu cântaro (e se eu me quebrar?)
eu sou tua água (e se eu me estagnar?)
eu sou teu hábito e sou teu ofício;
sem mim, tu perderias a razão de ser...

depois de mim, não terás casa em que
palavras próximas e tépidas te acolham
vai cair de teus fatigados pés
a sandália macia que sou eu.

teu largo manto deixar-se-á cair.
teu olhar, que com minhas faces eu
aqueço, como se com almofadas,
virá de longe a procurar por mim
- e ao pôr-do-sol se porá
no colo de estranhas rochas.

que vais fazer, Deus? estou preocupado.

Que farás tu, meu Deus, se eu perecer?
Eu sou o teu vaso - e se me quebro?
Eu sou tua água - e se apodreço?
Sou tua roupa e teu trabalho
Comigo perdes tu o teu sentido.

Depois de mim não terás um lugar
Onde as palavras ardentes te saúdem.
Dos teus pés cansados cairão
As sandálias que sou.

Perderás tua ampla túnica.
Teu olhar que em minhas pálpebras,
Como num travesseiro,
Ardentemente recebo,
Virá me procurar por largo tempo
E se deitará, na hora do crepúsculo,
No duro chão de pedra.
Que farás tu, meu Deus? O medo me domina.

(Tradução: Paulo Plínio Abreu)

(rainer rilke, 'O livro de horas')

leveza

leve é o pássaro:
e a sua sombra voante
mais leve

e a cascata aérea
de sua garganta,
mais leve

e o que lembra, ouvindo-se
deslizar seu canto
mais leve

e o desejo rápido
desse antigo instante
mais leve

e a fuga invisível
do amargo passante
mais leve
cecília meirelles

ecos


regresso

minha casa cheira a nordeste
onde são tantas
minas

descubro-me para sempre
atada
a essas portas que se
fecham
mariana botelho
ecos

sertão, poté

debaixo do barranco
passa um rio, tão raso
a correr sobre a areia
tão baixo que deito-me
e não sinto a água

sinto a mágoa calada
o silêncio seco
de um lugar bom
para um rio passar

vicente filho
ecos

outubro

choveu bem agora bem cedo
poças de brilho aquático brincam
pula-pula para os pés passeantes
pássaros ensandecidos à cata
de gotas de arco-íris
cheiro verde e fecundo: sensualidade
saindo de paus umedecidos
no tenro ventre da terra

ruas andam encolhidas
nos becos um ar de susto
sob a ameaça de desabar
sobre todos nós sobre tudo
um céu que desfila plumas
(lavadas, pefumosas)
mas ainda carregando
sob vestes azuis-cinzentas
bombas de chumbo líquido

é precioso prosseguir:
pacificado périplo no templo do dia
tempo de águas primordiais
a imergir a memória com acenos

ora sedentos ora amenos

( roberto soares, outubro 2006)

vivo, divinizo

Ainda envolto na transcendente atmosfera de Rilke, esta modesta tentativa de comunhão poética com o mundo, de minha lavra.

de setembro o sol se perfuma
manhãs de cheiro de mexerica

fumos e incensos insondáveis
escorrem pelas largas alturas

aves inventam voltas
em intérminas vias de vento

límpidas estradas aguardam e acolhem
o andar sereno de secretas sedes

em janelas de escola, sonha-se:
o rolar de sedosas bolas de gude
por trilhas de delicada poeira

tantos moradores do mundo
a entoar o mesmo e uno hino:
- vivo, divinizo...

enquanto o sol de azul se bronzeia
nos aéreos areais

o Teu olho alimenta e aquece
o meu se alimenta e não esquece

juntos nossos olhos
se alumbram em instantes de setembro

(roberto soares, setembro 2006)

a hora inclina-se - rilke

a hora inclina-se e toca em mim
com claro bater metálico
os sentidos me tremem. sinto: eu posso...
e colho o dia plástico.
nada estava acabado antes de eu ver:
todo o devir aguardando em quietude.
maduros meus olhares: a cada um
como uma noiva, chega a coisa ansiada.

nada é pequeno para mim: gosto de tudo
e tudo eu pinto sobre ouro com grandeza
e bem alto o levanto
sem saber de quem vai a alma libertar
(rainer rilke, "O livro de horas")

se ao menos - rilke



se ao menos uma vez tudo se aquietasse
se se calassem o talvez e o mais ou menos
e o riso à minha volta...
se o barulho que fazem meus sentidos
não perturbasse mais minha vigília...

então, num pensamento multifário
poderia eu pensar-te até aos teus limites
e possuir-te (só o tempo de um sorriso)
e oferecer-te a vida inteira, como
um agradecimento

(rainer rilke, "livro de horas")

anil


manhãs, rastros de infância:
riachos fugidios
paisagens feitas de alimentos
ausências

afluentes recorrentes
areias sem porto fixo

o aberto abraço da manhã carrega um sorriso anil de felicidade, que se estende quilometricamente. borboletas edificam casas bonitas como crianças. um coração ainda não esquecido das primeiras fomes se alimenta nestas veias feitas de mansidão.
roberto soares

sobre o 'desvelar'

o desafio da tensão interna

DESVELAR busca dar espaço também para a poesia que ainda traz um pouco dessa capacidade serena e modesta de testemunhar o ser e o tempo, e que tem sido esquecida por uma certa poesia moderna, na sua preocupação excessiva, ora com labirintos existenciais e narcisistas, ora com a legítima invenção de códigos verbais, ora com o simples jogo com as palavras; jogos, códigos e atmosferas poéticas que, originais ou repetitivos, depois irão servir de objeto/pretexto para críticos, professores e/ou prefaciadores debruçarem-se sobre o poema e as palavras como se estivessem a dissecar entranhas ou analisar partículas com microscópios.

Claro que nada contra as criações poéticas apuradas, que se voltam para o próprio ato de criar e para os elementos do poema - as palavras, a frase, o som; enfim, tanto a metapoética, a poesia do poema, quanto qualquer outra fala poética têm seu espaço e necessidade dentro do exercício da poesia – e seria muita tolice pretender o contrário. Assim, não há neste blog nenhuma ressalva a qualquer poesia mais apurada ou mais técnica, mais cerebral ou mais hermética. Como também não haverá nenhuma ressalva a comentários técnicos, às “dissecações” do poema.
Mas o que é preciso lembrar é que se o poeta, ou se todo poeta, para se aproximar do leitor, precisa ser exaustivamente interpretado - através de análises técnicas, lingüísticas, semióticas, semânticas, certamente profundas e inteligentes - então a poesia corre realmente o perigo de existir somente para si própria e para poetas e especialistas.

Enfim, no blog DESVELAR sempre haverá espaço para uma poesia que busque atingir o leitor de chofre, iluminando-o como um relâmpago, atingindo-o como um soco verbal ou envolvendo-o como uma cariciosa melodia, mas de qualquer forma através de um contato imediato, de primeiro grau, ou com uma razoável grau de pureza, sem excessivas turvações que necessitem ser clareadas por terceiras pessoas; é preciso não se constranger com a comunicação que se faz de forma simples, entre poeta, poema e leitor.

Talvez um dos maiores desafios do poeta seja o de tentar conciliar a pesquisa, a invenção e o apuro com a pureza, a simplicidade e o contato imediato com o leitor. O poeta só tem a ganhar quando busca se esforçar ao máximo para navegar entre essas duas margens, numa constante tensão interna do processo de criação do poema, entre busca interior/exterior e comunhão com o outro e, nesse exercício do equilíbrio, não se deixando envolver além do necessário pelas exigências da pesquisa, da invenção ou do puramente cerebral que, às vezes, traiçoeiramente faz o poeta descambar para o solipsismo.

Claro que tudo o que dissemos nesse último parágrafo diz respeito a poetas que têm, entre suas preocupações, essa proposta de estabelecer um vínculo com o leitor de poesia, seja ele artista ou não.
E a propósito das preocupações e propostas múltiplas dos poetas, e diferentes da aqui exposta, é interessante acompanhar o bate-papo recente que houve no blog “as escolhas afectivas”, a respeito do papel da poesia. Recomendamos especial atenção à fala do poeta Carlito Esteves, com sua defesa da poesia enquanto “uma aventura intelectual’.

sobre rainer rilke

Neste blog, há vários poemas do tcheco Renê Rilke que foram extraídos da obra “O livro de horas”, publicado em 1905.

São belas amostras de sua poesia metafísica, vazados numa fala mais singela, que às vezes lembra o tom coloquial, mas nem por isso destituídos da densidade própria de seus poemas, densidade até aflitiva para esses nossos assépticos tempos e, infelizmente para muitos, uma densidade obsoleta . Nessa obra Rilke parece dialogar diretamente com a fonte de todo o universo, mas numa espécie de religiosidade terrestre, como se estivesse a conversar com um Deus acessível, quase tão frágil e desamparado como a criação. A própria referência do título é significativa: livros de horas são manuscritos próprios da Idade Média, ricamente ilustrados para fazer referência à devoção cristã, contendo textos, orações e salmos. Em sua forma original o livro de horas servia como leitura litúrgica para determinados horários do dia.

E “O Livro de horas” de Rilke é como se fossem singelas conversas com o divino, das quais lançamos mão ao longo do precário horário de nosso existir. Nessa obra Rilke consegue com naturalidade exercitar um encontro entre beleza e transcendência, oferecendo um pequeno vislumbre daquilo que poderia ser um real encontro entre arte e religiosidade, para além das limitações impostas impostas por religiões, filosofias, sabedorias e escolas artísticas.

Enfim, poetas como Rilke oferecem uma visão do que poderá ser o grande encontro entre arte, religião e razão, a grande integração - entre todas as formas de saber e perceber o mundo - que nos espera lá á frente da história; claro, desde que consigamos superar este momento de barbárie imposto ao mundo pelo perda de controle da razão tecnicista, domindora e instrumental própria do capitalismo industrial, caso consigamos criar e consolidar alternativas ao visível esgotamento do outrora revolucionário e necessário modo de produção capitalista.

sobre o 'Poesia Viva'

DESVELAR publica uma amostra de uma dessas boas surpresas que encontramos na rede. É o jornal "Poesia Viva", já em sua edição de número 33.
Repare-se na espontaneidade e na precisão dos poemas selecionados, no seu esforço para envolver o leitor na temática em questão, repare-se como não deixam de oferecer ao leitor imagens nítidas, situações convincentes, mesmo sem abandonar a invenção e a autonomia da linguagem; enfim, os poemas realizam aquele difícil equilíbrio de todo bom poema, aquela tensão interna entre a necessidade da invenção e a possibilidade da real comunicação com o leitor.
Falamos aqui um pouco mais das propostas do jornal e da Editora UAPÊ. Mas antes conheçam alguns poetas publicados na última edição online do jornal, começando pelo editorial – o tema deste número é a vida urbana.
o projeto UAPÊ
O jornal 'Poesia Viva' tem uma longa história, foi lançado em 1994. É um excelente veículo de divulgação da poesia: rigoroso e despretensioso, sóbrio e criativo, sem abrir mão da leveza e da criatividade.
E no caso do Poesia Viva há ainda um diferencial, pois, na verdade, o jornal faz parte de um projeto mais amplo, que é editora UAPÊ.
E parece que não só os poemas selecionados, mas todo o projeto do jornal Poesia Viva e da editora UAPÊ, procura seguir essa linha do equilíbrio entre a invenção e expressão, entre a pesquisa e a comunicação com o leitor - o que é bastante gratificante nesses tempos de afastamento da poesia em relação ao leitor.
O compromisso fundamental da UAPÊ é exatamente o de valorizar e divulgar a criação poético-literária que tenha um mínimo de respeito e afinidade com a cultura brasileira: “A Editora Uapê - Espaço Cultural Barra traz no seu significado o compromisso com a cultura brasileira. Uapê na língua índigena dos Uaupés, tribo do alto amazonas, expressa a flor vitória-régia.
Nossa proposta editorial valoriza a produção intelectual e artística dos autores, criando oportunidades para aqueles que querem publicar obras de qualidade, comprometidas com a realidade brasileira, cultivando, assim, as raízes do nosso solo cultural.”
Em sua edição impressa o Poesia Viva é uma publicação em formato tablóide, trimestral, e um dos seus principais objetivos é “ a troca entre novos e consagrados poetas, curiosos e amantes, viabilizando a divulgação dos poemas publicados e estimulando a leitura e as discussões sobre a poesia.”
Ainda com a palavra, os editores do Poesia Viva:
“A apresentação dos poemas é feita a partir de um fio condutor que se manifesta nas ilustrações de artistas contemporâneos. A cada exemplar, uma entrevista exclusiva com um grande poeta: Manoel de Barros, Adélia Prado, Fernando Py, Olga Savary, Affonso Romano de SantAnna deram depoimentos preciosos sobre suas obras e o universo literário.
A partir de janeiro de 2005, o Jornal Poesia Viva passou a ter também uma versão online, com todo o conteúdo do jornal impresso disponível na internet”.
Se você ainda não clicou lá em cima, conheça aqui alguns trabalhos de poetas publicados pelo "Poesia Viva".