09/03/2010
orvalho
no meio do lixo
enquanto uma lua suja
nos lançava respostas
nós nos esmigalhamos separando
e novamente embolamos num só:
o Senhor partiu o pão
o pão partiu o Senhor
paul celan
(fiaposóis, ed. tempo brasileiro, 1985) ********************* Celan, novamente radical, novamente visceral. Se no poema anterior, Cecília advoga em nome de coisas inanimadas e movimentos variegados, Celan o faz em nome do próprio homem, aponta o dedo para o ‘Senhor’ em razão de sua imperícia em providenciar algo tão básico: suprir de pão àqueles a quem ofereceu tanto.
Afinal, haveria uma insanável contradição ontológica entre oferecer o mundo, a beleza, o existir, e principalmente fazer do homem os olhos do divino, centelha do Espírito, e ao mesmo tempo não dar ao homem - ou pelo menos não dar a todos os homens - as condições concretas para fruir adequadamente de tudo isso e, principalmente, para se cumprir enquanto tarefa, enquanto partícipe do parto da criação.
Se a distante estrela de Cecília se acha cansada de sua própria e vasta órbita pelo cosmos, esquecida dos homens e pelos homens, aqui, até a nossa vizinha lua é suja, encardida, e não responde com brilhos e inspiração a poetas embevecidos; afinal o que a lua testemunha é por demais sórdido, na visão do poeta.
E se Cecília faz breve menção aos pobres com o seu punhos secos a exigir o pão que não lhes chega, Celan faz dessa ausência de pão o motivo central de seu cortante e breve poema-acusação. Não faz um vibrante inventário dos existentes, escolhe como cenário de sua acusação tão somente o lixo, os detritos, o resto, os escolhos da humanidade.
Para ele, o que há para observar é o conflito pelo pão, que ‘esmigalha e embola’ os homens. O pão ‘partido pelo Senhor’ não dá para todos. E assim a luta pelo pão divide a humanidade e negaria o caráter de sagrado do mundo, ‘parte o Senhor’ ao meio.
de profundis
[...] “De profundis. Deus meu eu vos espero, Deus vinde a mim. Deus, brotai no meu peito, eu não sou nada e a desgraça cai sobre minha cabeça e eu só sei usar palavras e as palavras são mentirosas e eu continuo a sofrer, afinal o fio sobre a parede escura. Deus vinde a mim e não tenho alegria e minha vida é escura como a noite sem estrelas e Deus por que não existes dentro de mim? Por que me fizeste separada de ti? Deus vinde a mim, eu não sou nada, eu sou menos que o pó e eu te espero todos os dias e todas as noites, ajudai-me, eu só tenho uma vida e essa vida escorre pelos meu dedos e encaminha-se para a morte serenamente e eu nada posso fazer e apenas assisto ao meu esgotamento em cada minuto que passa, sou só no mundo, quem me quer não me conhece, quem me conhece me teme e eu sou pequena e pobre, não saberei que existi daqui a poucos anos, o que me resta para viver é pouco e o que me resta para viver no entanto continuará intocado e inútil, por que não te apiedas de mim? Que não sou nada, dai-me o que preciso. Deus dai-me o que preciso e não sei o que seja, minha desolação é funda como um poço e eu não me engano diante de mim e das pessoas, vinde a mim na desgraça e a desgraça é hoje, a desgraça é sempre, beijo teus pés e o pó dos teus pés, quero me dissolver em lagrimas, das profundezas chamo por vós, vinde em meu auxilio que eu não tenho pecados, das profundezas chamo por vós e nada responde e meu desespero é seco como as areias do deserto e minha perplexidade me sufoca, humilha-me, Deus, esse orgulho de viver me amordaça, eu não sou nada,das profundezas chamo por vós das profundezas chamo por vós das profundezas chamo por vós das profundezas chamo por vós”.
Clarice Lispector
Esse trecho da famosa obra de Clarice Lispector é baseado no não menos famoso Salmo 130.
Mas aqui é claramente um brado desesperado, um lamento que se sabe fadado ao fracasso. Um lamento próprio do poeta ocidental, que se sente desgarrado da Fonte, do todo, que foi levado pela História e pela Razão à orgulhosa condição ter que se distanciar do Ser e do Sagrado para melhor se exercer como instrumento da Arte e da Razão, e para essa mesma Razão melhor exercer o seu domínio sobre o Real.
Por isso talvez seja ainda mais comovente do que o salmo original. Comove o tom cru, bruto, com que a autora reconhece seu desespero e seu desgarramento. Ou por outra, com base nos termos que vimos usando até agora: comove a forma com que o Espírito manifesta-se através do Verbo, ao testemunhar o desamparo e a perplexidade de um de seus frutos privilegiados.
No limite, é o lamento do próprio Espírito, já aquele que lamenta, o homem, é a voz do Infinito no tempo e no mundo terreno, já que o Infinito celebra e apreende a si próprio através do singular ser finito que é o homem, através do olhar humano.. Somente o homem pode lamentar assim a dor da separação, o desamparo de estar só, desgarrado da própria Fonte. Às coisas e aos animais não é dado esse atributo.
O que está expresso, então, nessa admirável manifestação do Verbo é muito mais do que aquela condição de ateu arrependido e saudosista, própria do poeta ocidental, abordada ao falarmos do poema de Ernesto.
Do que trata é de saudade e do anseio do finito pelo Infinito e do próprio. Infinito por si mesmo. Do que se trata é da manifestação do próprio Infinito através do Verbo, da palavra forjada pelos homens. Palavra que ao ser criada teve como um de seus fundamentos também a apreensão e celebração do Mistério, e não apenas a mera comunicação e interação entre os homens ou um mero domínio do Real.
Nessa linha, tanto quanto os cânticos, a música e a oração, um poema é em última instância mais um momento de apreensão e celebração do Mistério, da Presença, da Fonte – seja ele um poema canto vívido e colorido, um brado indignado e humanista, seja ele um tocante e profundo lamento como este de Clarice.
tu, escuridão
tu, escuridão da qual descendo
de ti gosto mais que da labareda:
ela reduz
o mundo em que reluz
a uma espécie de círculo
fora do qual nenhum ser a conhece.
já a escuridão, em si tudo contém:
formas e flamas e animais, e eu
- assim como também ela reúne
pessoas e potências...
e pode ser isto: uma grande força
a se mover nos subúrbios de mim...
acredito nas noites.
rainer rilke
(livro de horas, ed. civilização brasileira, 1994)
***********************
Mas deixemos que Rilke feche este cortejo de poemas para Deus, de Deus, contra Deus.
O seu poema é um sereno, mas não menos profundo, cântico ao obscuro, ao inominado, ao informe, ao nada, às trevas.
Pareceria uma contradição fechar com um cântico ao nada, se até aqui viemos falando de Luz, Olhar, Forma, Ser, Presença.
Mas este poema de Rilke faz lembrar que o Ser somente se sustenta em relação ao Nada, em combate ao Não-Ser: o Universo se expande rumo ao intocado, o Cosmos cresce exatamente ocupando o Vácuo, ou por outra, a Criação, que ainda geme as dores do parto, só pode se parir em meio ao Grande Útero do Vazio. Tudo o que o Mistério foi, é e vier a ser somente pode se dar num cenário cercado de Nada, de Obscuro.
São então duas faces da mesma realidade: de um lado a ameaça do Nada a rondar e espreitar o Ser, o Cosmos; de outro, uma espécie de comunhão entre o Ser e Nada, entre Criação e Vazio, ente Cosmos e Escuridão: a Criação precisa do Vazio para parir, o Cosmos precisa da Escuridão para se intumescer, o Nada atrai o Ser para que este o preencha.
Mas deixando de lado a metafísica: o poema de Rilke é uma celebração àquilo que ainda não é mas que será penetrado pelo Ser, e ao mesmo àquilo que oferece ao Ser a possibilidade de vir a ser, de se fazer Presença e Mistério.
28/02/2010
saudações poéticas e militantes
Nesse retorno, em poesia Desvelar publica Abdo Xavier, poeta de Viçosa, Minas. Três peças misto de candentes e amargas, com os versos lembrando um pouco a poesia simbolista, trazendo um quê de vago e transcendente, sem que o poeta defina objetivamente aquilo que o perturba, que o atrai ou o espanta, essa discreta delicada percepção de uma atmosfera entre melancólica e nebulosa, que era uma das marcas dos poetas simbolistas.
Já em política Desvelar traz um comentário, América Latina: lúcida e ousada..., e indicação de textos sobre a militarização da América Latina e do mundo, promovida pelo elite dos EUA através de seu comandante e comandado Barack Obama, que chegou a despertar reais esperanças em grande parte dos povos do planete, por ocasião de sua eleição e posse.
o negro espelho da retina
havia uma Estrela no Céu
que quando eu era criança me apaixonava
era o menor pingo no Espaço
foi por causa dela que surgiu a minha chaga
eu era pequeno, eu sei... não tive culpa...
a Estrela era a menor que o Céu abençoava
foi por isso que não ascendi, inteiro como desejava...
eu era pequeno, eu sei... não tive culpa...
o Espaço não me causava vertigens, nunca...
a terra sim, propunha-me fundezas
quando a terra abria para mim os olhos da Tristeza
mais aos céus eu elevava os olhos e chorava
cresci assim, pequenino e taciturno:
menino dos ollhos de mel, das pernas sempre atadas...
a Estrela hoje nos céus deixou sua morada
cresci assim: tão leve e tão Noturno
quando vejo no céu um toldo reluzente
uma constelação amiga, uma canção
ou mesmo um Negrume
se fixo o pensamento frente ao lume
ou a escuridão embota a minha mente
sou plaga arriada em arrebol de cinzas
e mesmo que sonhasse só veria Cinzas.
abdo mattos
after nature
o meu Gelo anda em meio a arvoredos
que um dia foram pais da minha sensibilidade
ó meu velho Apego
a tudo que de belo me continha...
outrora, todavia.
abdo mattos
(viçosa, minas)
o poeta
de quem suporta a terra
sem participar
da guerra
abdo mattos
(viçosa, minas)
américa latina: lúcida e ousada... (I)
Num encontro de cúpula, ocorrido agora em fevereiro, no México, os países da América Latina e do Caribe aprovaram a criação de um novo bloco regional, sem a participação dos Estados Unidos e do Canadá. O nome provisório da organização é Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos. Ressalte-se que a decisão se deu por unanimidade, com aprovação dos chefes de governo e ministros de todos os 32 países presentes ao Encontro.
A iniciativa é de uma ousadia histórica e extremamente oportuna. Não se trata de exercitar aqui um antiamericanismo estéril e supostamente ultrapassado.Pois o fato é que as ações do governo Obama, na política externa, caminham com segurança na direção da manutenção e ampliação do domínio militar dos Estados Unidos sobre o resto do mundo.
Aumento do número de tropas no Afeganistão, ampliação para o Paquistão da chamada “guerra contra o terror” e preparação da opinião pública mundial para uma eventual invasão do Irã. Analistas atentos vêem nessas ações uma estratégia para ‘cercar’ militarmente cada vez mais a Rússia e principalmente a China.
Ou seja, o governo americano já teria optado pelo confronto militar em grandes proporções, como forma de evitar a todo custo o seu inevitável declínio no âmbito da economia, da política e da cultura.
Os governantes e as elites dos EUA não estariam aceitando a clamorosa mudança pela qual o mundo vem passando, em direção a uma pluralidade de poder, com mais países, ou blocos de países, tendo condições econômicas e políticas de decidir os destinos de seus povos, e da própria humanidade. Os EUA não estariam prontos para renunciar ao seu arrogante e implacável, doentio e assassino papel de império mundial, de única superpotência do mundo, para se contentar em ser apenas uma entre dez ou mais potências mundiais.
Enfim, a conhecida e perigosa situação de uma fera agonizante, que esperneia para todos os lados, atacando e ferindo a todos que estiverem muito próximos, antes de se aquietar, de ser dominada.
No momento oportuno, publicaremos alguns textos que procuram demonstrar como essa opção pelo caminho militar já está claramente desenhada nas ações do governo Obama.
Por ora, fiquemos no âmbito da nossa pátria América Latina: instalação de bases militares na Colômbia e no Paraguai, apoio clandestino ao golpe em Honduras, reativação da IV Frota no Atlântico Sul, ocupação militar do Haiti e militarização da região das Malvinas pela aliada Inglaterra.
São todas ações decididas, rápidas, como se estivessem seguindo de fato um cronograma já traçado pelos núcleos de decisão do governo americano. São ações que parecem ter como objetivo transformar o continente num território potencialmente explosivo - uma das ações mais visíveis de provocação e de tentativa de instauração da discórdia entre os povos da região vem se dando através da criação de uma atmosfera de tensão entre os povos da Colômbia e da Venezuela.
Na postagem abaixo, seguem os endereços de alguns textos, para quem quiser refletir melhor sobre essas questões e extrair suas próprias conclusões.
américa latina: lúcida e ousada... (II)
A IV Frota em ação: um porta-aviões chamado Haiti
Aqui o autor mostra como o terremoto no Haiti foi extremamente interessante para os interesses geopolíticos americanos, dando aos EUA a oportunidade de - com uma rapidez suspeita de tão impressionante e precisa - deslocar mais de dez mil soldados para o país devastado, promovendo uma verdadeira ocupação militar de portos e aeroportos sob pretexto de ajuda humanitária. Esses milhares de soldados com certeza estarão mais próximos do cenário de um eventual conflito entre Venezuela e Colômbia.
O xadrez mundial do petróleo: Brasil
Exaustivo e instrutivo texto de um professor , Numa análise séria e com dados convinncentes, sem viés ideológico, o texto nos torna mais lúcidos acerca da intensidade das mudanças que estão a ocorrer na América Latina e, em especial com relação ao Brasil, e como essas novas situações de poder – principalmente na questão da energia e das democracias populares estão a incomodar o poder imperial americano e suas forças auxiliares, as elites regionais da América Latina.
Malvinas: colonialismo e soberania
Breve texto de Gilson caroni, a alertar que a questão das Ilhas Malvinas interessa a todos os povos da América Latina e não apenas ao povo argentino. Junte-se a inciativa britânica - de enviar considerável força militar para o sul de nosso continente - com a reativação da IV Frota dos EUA e certamente teremos que que nos perguntar se mais uma vez os ingleses estariam cumprindo o seu papel de lacaios dos EUA, numa eventual militarização do Atlântico Sul que, não por coincidência, é onde estão as fabulosas reservas do petróleo brasileiro na camada de pré-sal.
A politica da administração Obama ameaça a humanidade
No endereço abaixo uma análise de como a opção dos EUA pela militarização e pela guerra se espalha pelo mundo afora. Oportunamente indicaremos outros textos acerca da estratégia americana no arco geográfico que engloba o Afeganistão, o Paquistão, o iraque e o Irã.
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A matéria abaixo foi transcrita na íntegra da site da Folha Online, publicada no dia 23 de dfeevreiro, e aborda com competência e concisão a iniciativa da criação da Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos.
E como é apenas uma matéria informativa, sem viés ideológico, não é preciso que o leitor tenha receios ou torça o nariz, pelo fato de ter sido extraída de um dos muitos veículos de comunicação que temem e combate ma consolidação de uma democracia real e popular no nossso país. "Os países de América Latina e Caribe aprovaram nesta terça-feira, em cúpula regional no México, a criação de um novo bloco regional, sem os Estados Unidos e o Canadá. Os estatutos da Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos serão definidos apenas em 2011, em reunião em Caracas (Venezuela), anunciou o presidente do México, Felipe Calderón.
O grupo, considerado uma versão B da OEA (Organização dos Estados Americanos), "deverá, prioritariamente, impulsionar a integração regional com o objetivo de promover nosso desenvolvimento sustentável, de impulsionar a agenda regional em fóruns globais, e de ter um posicionamento melhor frente aos acontecimentos relevantes mundiais", disse Calderón ao ler parte da declaração final.
A criação do novo bloco "é de transcendência histórica", completou o presidente cubano, Raúl Castro, durante a sua participação na Calc (Cúpula da Unidade da América Latina e Caribe). "Cuba considera que estão dadas as condições para se avançar com rapidez na constituição de uma organização regional puramente latino-americana e caribenha".
O grupo foi criado para que a região tenha uma voz uníssona nos fóruns multilaterais. O maior apoio à iniciativa vem dos presidentes de esquerda da região, como o venezuelano Hugo Chávez e o boliviano Evo Morales, que defendem o novo organismo como uma opção ao "imperialismo" dos Estados Unidos.
Aos olhos dos especialistas, a OEA não conseguiu por completo integrar uma região dividida entre esquerda e direita. Cuba se nega a reintegrar o organismo, depois de uma suspensão de quase meio século por pressões dos EUA.
O secretário geral da OEA, José Miguel Insulza, afirmou em entrevista à rede americana CNN nesta terça-feira que o novo bloco não competiria com a organização. "Não vejo assim. Se trata mais de caminhar e estimular a integração. A OEA tem um papel importante a desempenhar em coisas de caráter hemisférico", declarou Insulza.
Valenzuela disse nesta segunda-feira que o projeto de criação de um bloco que não tenha participação dos Estados Unidos não incomoda e descartou que esse eventual novo bloco de 32 países suplante a OEA.
Já Shannon disse, durante encontro na Fiesp (Federação das Indústrias do Estado de São Paulo), que nada pode substituir a OEA. "OEA é OEA, um espaço sumamente importante para que todos os países do hemisfério possam ter um diálogo político. Esta importância só vai aumentar com o tempo. A capacidade das Américas, diferentes Américas, Caribe, América Central, América do Sul, de dialogar é uma coisa boa e vamos apoiar."
Segundo o presidente mexicano, o nome Comunidade de Estados Latino-americanos e Caribenhos ainda não é definitivo e deve ser definido ao longo do processo de constituição que começou nesta terça-feira e deve culminar com as reuniões na Venezuela, em 2011, e no Chile, em 2012.
Calderón explicou ainda que, enquanto os trâmites para a criação não sejam concluídos, a Calc e o Grupo do Rio manterão suas agendas, métodos de trabalho, práticas e procedimentos "a fim de assegurar o cumprimento de seus mandatos". "
o homem que se olha...
Que vai morrer. Não sabe quando ou como
Mas reconhece a finitude da vida
– Da sua vida, de cada vida
Contempla o processo biológico
E admira-se perante o zelo do tempo
A modelar-lhe a velhice no rosto
rui almeida
(blog hospedaria camões)
já ninguém nos toca à porta
a vender cerejas.
devíamos talvez lembrar
à terra o nosso nome
plantar sílabas frescas
que nos matem a sede
ter um pingo de esperança
na morte depois da vida.
renata coelho botelho
(blog hospedaria camões)
o céu visto de cima
da cidade mais pequena, mas a noite
tinha passagens secretas, bastava seguir
os sinais.
A sombra de um réptil avançava muito fundo
nos teus estratos, tacteavas num território de pedras difíceis
às vezes perigosas. Depois imergias e a boca estava
amarga outra vez, a roupa amontoada na cadeira
como o princípio de um poema indesejado.
Reflectindo nos teus olhos, o céu
era um lugar inabitável.
rui pires cabral
(do blog hospedaria camões)
18/12/2009
interrupção temporária
Para não passar em branco neste dezembro, indico os poemas e o texto publicados no ano passado, por ocasião do natal: então é natal...
Até breve.
30/10/2009
atento
a noite!!!
a lua, a lua...
a rua!!!
a manhã, a manhã...
amanhã!!!
a boneca, a boneca...
a louca, a louca!!!
a chuva, a chuva, a chuva...
a água!!! a água!!! a água!!!
a flor...
a flor da tarde!!!
a vida!!!
a pinga!
manda mais uma...
vicente filho - belo horizonte
27/10/2009
tormentos e utopias de um poeta
guardião invisível
um caso me desperta
dentro de outro
sonho com um louco
acordo comigo
e penso onde estará o louco
meu café amargo
começa com o meu dia
cada gole seco
um pensamento
já estou no meio do dia
meu tormento...
só espero minha noite
meu louco talvez volte
vicente filho - belo horizonte
Um certo voô da imaginação para comentar os poemas deste mês - como um breve conto.
Em 'guardião invisível', Vicente Filho dá vida a um irrequieto e sonambúlico personagem. Lembra a anônima melancolia de um daqueles passantes de Baudelaire, a vagar por ruas e cidades hostis, rodeado de gentes levadas à indiferença e ao desconhecimento mútuo, um passante que se vê em desamparado exílio de sua terra, desesperançado de qualquer outra acolhida, refugiando-se então na sua prória e secreta interioridade, à espera de se aconchegar novamente na sua obscura ‘loucura’ noturna.
É um retrato simples, mas que com certeza tem a ver com esse nosso tempo, tornado cada vez mais hostil pelo decadente e degradante modo de viver e produzir na modernidade capitalista. E, claro, tem a ver com o artista e o poeta deste tempo, levado muitos vezes a crer apenas na sua verdade, a criar apenas a partir dessa verdade interior, já descrente de uma ação e criação artísticas que comungue com o coletivo e com a vida cotidiana.
Mas, em 'adormece’, o melancólico sonâmbulo é convocado pela fala pausada de Ernesto, como um convite ao descanso, porém não um repouso feito de imobilismo, desistência ou amargura; ao contrário, é um repouso dialético, que sugere um renascer, ou ao menos uma continuidade do caminhar, agora um caminhar enriquecido pelas derrotas e revelações, mágoas e preciosidades que cada um traz consigo. Uma fala bela, rica de imagens sutis e elaboradas que, sem se apoiar num tom ‘político’ ou panfletário, convoca à superação, à ação e à crença, sustentado no puro e simples desvelar-se para as preciosidades e as virtudes de nosso estranho, mágico e cósmico estar-no-mundo.
Como resposta à invocação de Ernesto, em ‘apego’ Vicente Filho oferece ao seu personagem uma tentativa de volta à terra e à unidade perdidas. Tentativa meio que irônica, como se o persongem soubesse de antemão do fracasso em promover esse ingênuo regresso no tempo e no espaço, sabedor de que o resgate de sua plenitude, de sua capacidade de agir, crer e criar exigirá que ele passe por outras terras; seus surdos passos de poeta terão que continuar em busca de outra festa, talvez uma festa menos precária e individualizada, menos submissa aos ditames das grandes propriedades deste mundo.
Além de retornar a um tema que lhe é sempre caro - que é o tema do retrono à terra - no tom do poema há também um retorno de Vicente: uma fala feita de ironia mesclada de melancolia, presente em vários de seus poemas.
E como se prestasse solidariedade - ou como se fizesse companhia - ao nosso personagem em 'geográfico', de Adair Carvalhais, há também uma tentativa de resgate da unidade perdida, mas sem a mesma ironia que corrói a genuína alegria pelo retorno. Porém, se no conteúdo de sua fala percebe-se uma crença ou uma gravidade maior na tentativa de retorno, a forma dessa fala desmente essa suposta certeza: versos quebrados, palavras soltas, sentido que busca se firmar em passos precários - os mesmos surdos passos?
Em ‘desperto’, o inquieto personagem, novamente às voltas com seus cansaços e perplexidades, ainda tenta se enredar nos aconchegantes labirintos da madrugada, numa aparente recusa em sair para o campo aberto de uma novo dia, no enfrentamento de um mundo tornado por demais hostil e apressado, mecânico e sem poesia - nada então como deleitar-se consigo próprio, seu mundo interior, e com as diáfanas orquestras da noite e dos sonhos.
Tudo indica que de nada teria valido seu ininterrupto périplo mundo afora - nem os convites e companhias de outros poetas - mas os últimos versos revelam: há agora a presença de outras pessoas a sustentar e apontar ao poeta a sua tarefa, a sua sina, não importando se essa companhia - a senhora - representa algo ou alguém simbólico: a história, a ação político-poética, o trabalho como crença e construção do novo, ou algo mais individual: a simples entrega à vida amorosa ou familiar. E em seguindo a sua sina o nosso personagem prossegue no seu périplos por parques, tempestades, países.
O dia promete. Há o encontro com a doce presença da poeta Mariana Botelho, que de tanto se extasiar com a luxuriante paisagem de um parque ou floresta, clama à misteriosa alma do mundo que lhe permita esquecer os nomes humanos das plantas e das flores, para mais poder se embriagar exatamente nesse mistério da pura presença do mundo, com sua miríade de formas e cores, movimentos e propósitos; para mais poder deixar a jóia dos seus olhos desvelar-se para a simplicidade e preciosidade com que o mundo a presenteia - expressando assim a sua plena aceitação do convite feito há pouco pelo poeta Ernesto - numa fala amena e discreta, concisa e burilada, como é próprio de sua mineira poesia: suave coisa.
Embora ainda esteja longe, chegará um tempo em que não precisaremos mais distinguir entre poetas e não-poetas, quando todo e qualquer indivíduo poderá fazer de sua vida um poema, e quando todo e qualquer artista poderá fazer de sua arte um enriquecido encontro com a vida das gentes que o cercam, vida e arte sendo então um exercício de proximidade.
Mas, enquanto não construímos esse tempo, o nosso personagem precisa se afastar um pouco dos poetas e se irmanar com os sonhos, abismos e buscas de outras gentes. E eis que há loucura, sonho e ousadia da imaginação também nas chamadas pessoas comuns, simples. É o que se nos mostra através do poema do francês Proudhomme. Por distantes terras da Alemanha segue o nosso poeta, como silenciosa e solidária sombra da louca estrangeira que, à maneira da mineira Mariana, também busca a flor essencial, a forma fascinante, a condensada manifestação do ser e do mistério personificada nalgum perfume e nalguma cor singular.
Mas já aprendeu que, por mais intangível que seja, a flor rara está à mão, tal perfume inebriante a qualquer instante nos é oferecido pelo ser, basta que nos desvelemos o suficiente para o nosso estar-no-mundo. Sabe que é preciso procurar a preciosa ave dos ovos azuis em nós próprios e no mar de formas e presenças que nos rodeia.
Mas ao nosso poeta não cabe contrariar a estrangeira, é preciso deixar que ela própria encontre as suas respostas, esgote sua busca, mesmo que essa inquietude perpasse por toda uma vida e perdure até a morte - o que tem a fazer é apenas acompanhar a estrangeira, solidarizar-se com sua busca.
Cansado de poetas, de loucos e de irrequietas pessoas. Decide por uma visita a um orfanato, onde possa testemunhar um drama mais cotidiano, e menos etéreo.
Numa primeira leitura, ‘menina no orfanato’ parece refletir descrença e até um certo deboche com a dor alheia, mas na verdade pode ser visto como um aprendizado, como se o nosso poeta não quisesse mais se iludir a si próprio, tendo compreendido que a sua ‘sina’ não lhe permite “poetizar o que não pode ser poetizável” (Flávio Kothe, a respeito de Paul Celan).
E nesse singelo registro do desamparo e da súbita alegria da orfã, reencontra a si próprio, assume de fato a sua tarefa, concilia o poeta, o louco, o andarilho e o vivente no meio de outros viventes. Começa a exercitar o difícil equilíbrio entre a intimidade com o infinito e o testemunho do finito, entre aves de ovos azuis e bonecas de plástico ordinário.
Enfim começa a fazer a sua poesia transitar entre a busca interior e a ação exterior, a viver tanto na companhia dos caçadores do intangível e do sem nome, quanto dos catadaores da vida cotidiana, vê que um mundo não exclui o outro, uma compannhia não exclui a outra, somos todos construtores da difícil e mágica história, da cósmica tarefa dada a nós pelo misterio do ser e do tempo.
Conclui que viver transcende a nossa própria existência, é compromisso com uma presença maior que nós próprios: a vida é por demais delicada, preciosa e ainda incompreensível em sua inteireza– e construída ao longo de bilhões de anos e trilhões de quilômetros - para que, ao final, fique apenas no âmbito de nossos próprios desejos e medos, sonhos e mágoas. E entende que, além dessa tarefa de viver com plenitude e generosidade que cabe a cada um, ao poeta e artista é dado também o trabalho e o privilégio de contribuir para que outros possam de fato despertar exatamente para essa possibilidasde - viver com plenitude e generosidade.
Depois de se despedir de nossa orfã, caminhando novamente pelas ruas, o nosso poeta reflete que - ao lado daqueles que contribuem com o seu trabalho cotidiano e ao lado daqueles que contribuem com a sua ação política, libertária ou guerrilheira, ou mesmo espiritual – cabe ao artista contribuir com a sua sensibilidade, para que de fato se construa um mundo e uma história onde arte e vida sejam um só e mesmo exercício, onde todos possam de fato fazer de sua breve e precária existência um longo, ininterupto e mágico momento de comunhão, generosidade e confiança com todos os que o rodeiam.
Continuando sua andança pelas ruas, lembra-se de poema escrito há tempos por aqueles mesmos lugares. Admirado da leitura que faz daqueles versos que outrora escrevera sem se dar conta, agora confia em que os mendigos do mundo (sejam eles, poetas, trabalhadores, guerrilheiros ou mesmo mendigos de verdade) estarão todos de olhos abertos, mesmo com todas as suas ‘indigências’, e não permitirão que os lobos e maníacos (sejam do primeio, segundo ou terceiro mundo) imponham para sempre ao planeta os seus destrutivos consensos e exércitos.
Confia em que chegará o tempo em que não haverá mais lugar para os lobos, pois até esses terão sua energia potencial canalizada para a construção de um mundo em que todos se enxergarão de fato como ‘sal da terra’ , como ‘luz do mundo’, como olhos e centelha do divino, como pequena chama da grande energia que alimenta e move o cosmos, o ser, o tempo, os homens, mulheres e crianças... e os loucos e as flores sem nome.
Vai além: percebe que, principalmente em tempos difíceis como esse, mais o poeta deve crer e trabalhar nessa direção. Afinal, toda a hostilidade e indiferença, angústia e insegurança, pressa e massificação, que ele vê nas pessoas ao seu redor, pode não significar necessariamente que a barbárie e o disforme tenham se instalado definitivamente no meio do mundo, isso não significa que seja definitivamente vitorioso o padrão capitalista de comercializar e empobrecer a vida e as pessoas, de ferir e depredar o mundo; ao contrário, pode ser que toda essa massificação, brutalidade e passividade signifique apenas que esse modo de estar-no-mundo esteja com os seus dias contados, afinal, é bem provável que tudo chegue a um ponto insuportável, um ponto em que as pessoas finalmente não mais tolerem submeeter-se a uma tão sufocante alienação e seqüestro de sua tarefa de viver com plenitude e generosidade.
Ao crepúsculo, dando por finda a sua peregrinação de um dia tão intenso, recolhe-se a um bar qualquer, afinal há horas que uma poética mas insistente chuva escorre pelas ruas e prédios, a anunciar novembro. E também é hora de buscar alguém a quem contar as suas andanças, reflexões e sensações.
Após ouvi-lo, um desconhecido boêmio, um não-poeta, resume em versos para as peripécias de nosso personagem, fundindo Guimarães Rosa e Fernando Pessoa:
‘Viver é muito perigoso
quando a alma não é pequena
mas vale a pena a travessia’
Ao que o nosso personagem, grato por síntese tão brilhante - embora simples e despretensiosa – responde ao companheiro de mesa que, se não podemos sempre nos deleitar com nossa melhor hora nas madrugadas e flutuar nas tardes, também não precisamos fazer a travessia de nossos dias e meio-dias como se fossem eternos tormentos.
Afinal, se estamos cada vez mais órfãos e mendigos da vida plena, precisamos, ao longo da travessia, nos manter cada vez mais famintos da Utopia, famintos do grande encontro com o divino, ou seja, o grande e enriquecido encontro de todos nós conoscos mesmos e com o mundo, o ser.
E, já inebriado de bebida e poesia, conclui que para o advento de tão grandioso encontro, não podemos nunca deixar que os exércitos e maníacos nos tornem pequena a alma, que jamais matem a ave de ovos azuis, que em tempo algum pisoteiem a flor rara e sem nome e que não permitamos nunca que apaguem a luz do mundo.
Por fim, brinda e homenageia o anônimo boêmio com um novo poema, basatnte apopriado para o momento, ali mesmo forjado - irônico como de costume, mas sincero e pleno de confiança e gratidão ao mundo e às gentes, e que declamam juntos e já embriagados. Afinal, como logo depois proclama o anônimo boêmio, citando Baudelaire:
“- É a hora da embriaguez! Para não serdes os martirizados escravos do Tempo, embriagai-vos. Embriagai-vos sem tréguas. De vinho, de poesia ou de virtude, como achardes melhor".
- Ou de utopia, para não serdes os martirizados escravos da barbárie e de uma vida de plástico... – gargalha o nosso poeta.
Roberto Soares
adormece
que a jóia dos olhos presenteia
guarda as aves dos ovos azuis, preciosos
vislumbra o abandono da tarde de verão...
se os buritis te chamam, atende-os
que outra estiva igual não acontece
enovela os desertos fiados de teus sonhos
agasalha a criança faminta dos teus olhos...
as quatro porteiras da estrada, obstáculos
que o mundo, desigual, te conjurou...
esquece de teus gritos mais recônditos
não esquece ! caminha e mitiga...
colunas gregas, ilhas pacíficas, estranhas paragens...
nada disso podes vencer ou abarcar
recolhe teus olhos para os mundos mais distantes
beija a mão quente da tarde... flutua...
adormece, amigo carlos ernesto - viçosa, minas
apego
numa sonolenta manhã
tornei à minha imensa terra
sorrindo de seu olhar indiferente
segui meus surdos passos
no amplo terreiro acimentado
da grande propriedade dos Arandina
à frente, sempre sem me dar por nada
vi alguns semi-analfabetos
em improvisados bancos de escola
a lembrança ameaçava penetrar
pelos ocos de minha armadura
até que veio a mim uma mulher
bela e metida a freira
e me disse que ali
ainda se escrevia com carvão fino
sorri e segui meus surdos passos
até que de longe me voltei
e vi que estava numa parte alta
e pensei pensei longamente
numa festa que houvera ali vicente filho - belo horizonte
geográfico
lugar onde a
lua se
põe onde constroem se
sorrisos aqui me
afasto do
que não sou do que não
quero
demorei a me
reconhecer neste
lugar onde nascem os
rios e a
noite arde no
fogão onde
retorno para ser eu
mesmo
adair carvalhais - belo horizonte
(do blog ventos desencontrados)
desperto
do primeiro galo
que bateu as asas
meu último sono
virulento
caiu como uma pluma
orquestra de muares e cacarejares
deixem-me no meu leito
deleito
minha melhor hora
minha senhora, já de pé
me chama:
- a tua sina te ensina
23/10/2009
sobre flores sem nome, poetas e loucos
diz mariana botelho:
num dia como hoje
num lugar como esse
o que eu não daria
por uma flor
sem nome...
( do blog suave coisa, outubro de 2009)
diz Sully-Prudhomme:
a louca
dia e noite ela errava a ver quem descobria
a flor que vira acaso, um dia, na Alemanha
pequena e débil flor, flor como as da montanha
de um perfume esquisito e de uma cor sombria
das viagens que fez, trouxe a melancolia
e o incurável pungir dessa lembrança estranha
certo encanto mortal, sem dúvida, acompanha
a flor que na Alemanha, acaso, vira um dia
- quem, porventura, o odor lhe aspira ao cálix, sente
um novo mundo n'alma, abrir-se de repente -
dizia ela a morrer, saudosa desse odor
por ela muita gente a planta em vão buscara
mas a Alemanha é grande e aquela flor é rara
e a louca morre, enfim, sem ver de novo a flor
(Sully-Prudhomme, poeta francês, 1839-1907)
(tradução de Raimundo Correia)
15/10/2009
casamento
Aceitas para os teus olhares
as impurezas deste homem
e, para o teu corpo,
as cicatrizes que ele traz?
Aceitas para os teus sonhos
a aspereza deste homem
e, para as tuas boas lembranças,
as dores que ele provoca?
Aceitas para os teus dias
os ruídos deste homem
e, para as tuas noites vazias,
os gritos que ele te arranca?
Aceitas para a tua simplicidade
a arrogância deste homem
e, para as tuas delicadezas,
os cheiros do asfalto nele?
Aceitas para a tua beleza
a estranheza deste homem
e, para a tua sensualidade,
a prepotência e a força dele?
Diz que sim e a paz te será negada.
Mas não existe outra maneira de amar
senão em guerra.
Amor não é gelo, nem previsível
— não há uma estação do amor.
Amor é simum
avalanche
pesadelo
amor é ermo.
2.
Aceitas para a tua imponência
a permanência desta mulher
e, para as tuas muitas tristezas,
os cristais dos risos dela?
Aceitas para as tuas ausências
a espera desta mulher
e, para o teu lado de ferro,
as asas que ela te dá?
Aceitas para o teu ódio
as luzes desta mulher
e, para os teus dias de angústia,
os mapas que te oferece?
Aceitas para o teu ranger
de dentes os beijos dela
e, até para o teu cansaço,
as almas desta mulher?
Aceitas pra o teu veneno
as veias desta mulher
e, para os teus tempos de câncer,
o abraço em que te protege?
Aceita, tua sapiência,
as pistas desta mulher?
E aceitas que onde ela esteja
é onde estar é melhor?
Diz que sim e tua guerra será negada.
Existem, sim, outras maneiras de amor
que não em guerra.
Amar não é selo, nem imprevisível.
E toda estação, decerto, é estação de amar.
Amar é brisa
planície
pensamento.
Amar é zelo
— e não tem meio-termo.
miguel marvilla - vitória, es
(do blog os mortos estão no living)
cada um por si
Depois, alguém abriu uma porta e deixou que Marisa Monte se materializasse de algum lugar ao fundo e oferecesse a ela o mote para fugir:
Eu não sou da sua rua,
Eu não sou o seu vizinho.
Estou aqui de passagem.
Este mundo não é meu,
Este mundo não é seu.
Mas ela não fugiu e, em resposta, quase rasgou com um pensamento qualquer o silêncio caudaloso que, então, se abateu sobre eles, sem saber que pensavam ambos as mesmas coisas, simultaneamente.
E saíram juntos, abraçados com força, não era porque fosse a primeira hora deles juntos que se furtariam à libido. Muito pelo contrário. Estou aqui de passagem.
É ASSIM: ele subtrai à pele dela a camiseta de algodão e, bolívar, liberta os seios arfantes de sua inexpugnável prisão de lingerie. Ela, serpêntica, enrosca-se nas coxas dele e o surpreende com quantas mãos inventa para tocá-lo. Ele, mal esteve aqui, em beijos abrasivos na planície dos ombros e da nuca, preparando o que haverá em pouco, e já reaparece em outro lugar, desbravando vertigens e regiões que ela ignorava desconhecer na própria anatomia.
Mas. Porque o ar vai ficando irrespirável de tanto uso, é necessário que se abram sem interrupções cortinas portas janelas e, assim, separada do outro, ela retorna rapidamente à consciência e se recompõe. “Não foi para isso que vim”, pensa, sem muita convicção. Este mundo não é meu.
Os lábios dele beijam de leve o lobo da orelha dela e descem suavemente, sem pressa, até o pescoço delicado que lhes é oferecido. No espaço agora virtual entre os dois, o desejo acumulado de tempos em que ainda não se conheciam forma uma película oleosa, sobre a qual deslizam sons, gostos, cheiros, formas. “Pena mesmo”, repetem, cada um por si.
ANTES QUE um corte brusco de energia elétrica deixe o quarteirão inteiro às escuras, o néon ainda brilha tempo suficiente para ilustrar a surpresa de ambos quando os caninos afiados de um penetram furiosamente a jugular desprevenida do outro, em busca de alimento.
A ilustração lá em cima, "O beijo", pra quem não sabe, foi pintada em óleo sobre tela, entre 1907 e 1908, por Gustav Klimt, um pintor austríaco. Se um dia perguntarem a vcs no Faustão, digam que, junto com Rembrandt (esse vcs vão perguntar ao oráculo quem é, se não souberem), é o meu favorito. Aqui há uma centena de quadros do cara e uma penca de informações preciosas, ainda que básicas, mas... em inglês, sorry.
miguel marvilla - vitória, es
12/10/2009
menina no orfanato
aquela mãe veio do céu
também caiu uma bicicleta
e duas bonecas
uma, pretinha, de pano
com os olhos vermelhos
em forma de estrela
e a outra, de plástico ordinário
dessas de 1,99
vicente gonçalves - belo horizonte
29/09/2009
poesia: ainda a europa
a rapariga de vermeer
a rapariga de Vermeer, agora famosa
olha-me. a pérola olha-me.
os lábios vermelhos, húmidos
e brilhantes da rapariga de Vermeer.
rapariga de Vermeer, pérola
turbante azul: és toda luz
e eu sou feito de sombra.
a luz olha a sombra com altivez
condescendência, talvez piedade.
(adam zagajewski - polônia )
Adam Zagajewski nasceu em Lvov ((hoje, Ucrânia), na Polónia, em 1945. Vive entre Cracóvia, Paris e Chicago. É considerado pela crítica internacional como um clássico contemporâneo, como o foram Milosz, Herbert, Holub, Popa ou Brodsky. É um poeta dessa estirpe.
Acaba de publicar, neste 2008, na Farrar, Straus and Giroux, de Nova York, “Eternal Enemies”, traduzido do polaco por Clare Cavanagh, professora de línguas e literaturas eslávicas na Northwestern University, que já havia traduzido para o inglês, Szymborska e Milosz.
Humor, inteligência, cepticismo e economia de linguagem podem ser encontrados nesta versão que trago do inglês, onde conspiram o peso do lugar e da história, a emergência da arte e da vida quotidiana. (Transcrito do blog português poesia ilimitada)
a alma
nós sabemos que tu és inexprimível
anémica, frágil e suspeita
por misteriosas ofensas quando eras criança.
nós sabemos que não te é permitido viver agora
na música ou nas árvores no crepúsculo.
nós sabemos—ou pelo menos disseram-nos—
que tu não existes seja em que lado for.
e no entanto continuamos escutando a tua voz fatigada
--num eco, numa queixa, nas cartas que recebemos
de Antígona no deserto Grego.
adam zagajewski - polônia
a poesia nem sempre...
adopta a forma
de um poema
depois de cinquenta anos
a escrever
a poesia
pode apresentar-se
ao poeta
na forma de uma árvore
de um pássaro
que voa
de luz
adopta a forma
de uma boca
refugia-se no silêncio
ou vive no poeta
livre de forma e de conteúdo
Tadeusz Rózewicz nasceu em Radomsko em 1921. Estudou História da Arte na Universidade de Jagueloniana, em Cracóvia. Viveu em Wroclaw durante trinta anos. Poeta, dramaturgo e novelista foi traduzido em numerosos idiomas, sendo considerado um precursor da vanguarda em poesia e drama, um inovador firmemente arraigado na recriação incessante da tradição romântica. Independente, diz-se convencido de uma missão artística que considera um estado de concentração interna, agilidade interior e sensibilidade ética. Różewicz pesquisa as instâncias contemporâneas da crueldade humana. É o fundador de uma tendência chocante da literatura polaca que se concentra na existência, concebida como o esforço para existir, como a luta contra o nada. Jorge Sousa Braga colabora uma vez mais no Poesia Ilimitada, com a tradução de "A Poesia nem sempre...". (do blog poesia ilimitada)
rapariga
o atrevimento de simplesmente expor
de vez em quando uma opinião
ou um seio: quando começa isso
e no fundo quando acaba? as mulheres
são feitas de raparigas, aos quarenta
ainda deitam a língua de fora como aos quinze
ficam cada vez mais jovens
não sabem não seduzir. como a poesia:
um gato que prudentemente caminha sobre as teclas
de um piano e olha para trás:
ouviste? viste-me?
ah, o ar jovem das raparigas de quarenta
como umas vezes querem, e outras não
mas afinal sempre, se repararmos bem.
onde estão os bons velhos tempos? estão aqui, esses tempos.
(herman de coninck - bélgica)
23/09/2009
lendo milosz
poemas escritos por um rico homem, sabedor
e por um mendigo, sem casa
um emigrante, só.
sempre quiseste ir
além da poesia, superá-la, planando
mas também abaixo, onde a nossa região
começa, modesta e tímida.
por vezes o teu tom
transforma-nos por um momento
e acreditamos - verdadeiramente
que cada dia é sagrado
que a poesia - como pôr isto?
torna a vida plena
mais cheia, orgulhosa, ousada
de formulação perfeita.
mas o fim de tarde chega
eu poiso o livro de lado
e o estrondo banal da cidade retoma –
alguém tosse, alguém chora e maldiz.
adam zagajewski - polônia
aí está o saldo final
confiei em mim desde o primeiro momento.
custa muito pouco ser dono do vento.
e à besta não lhe é mais custosa
a vida, até que a lançam à fossa.
nasci, amei, fui longe, fiz o resto.
com medo, às vezes, mantive-me no posto.
paguei sempre as dívidas contraídas
e agradeci, com as mãos estendidas.
se fingida mulher aqui e além me quis,
amei-a, para que pudesse ser feliz.
fiz cordas, varri, dei-me ao vinho
e entre os espertos fingi-me cretino.
vendi brinquedos, pão e poesia,
jornais e livros: o que se vendia.
não morrerei enforcado em fácil trama
ou em grande batalha, mas na cama.
vivi (já está aí o saldo final):
muitos outros morreram deste mal
17/09/2009
aforismos no twitter
O avô do twitter é o parachoque do caminhão.
Sarcasmo do cemitério: o escritor morre mesmo numa gaveta.
O quintal é uma rua sem saída.
O quarto depende da dignidade de um corredor para curar o pesadelo.
Eu já me abandonei várias vezes. Deveria ter me mandado uma carta: “Desculpe por não ter escrito antes".
Cócega é quando o corpo faz a piada.
Se é ironia, não pode ser fina.
O soneto é um poema sonâmbulo.
16/09/2009
flecheira libertária (5)
O proibicionismo às drogas subordinou culturas, favoreceu indústria de armas, especializou polícias, organismos internacionais e rastreamentos eletrônicos. Ampliou relações diplomático-militares e controles científicos. E, principalmente, propiciou a expansão do tráfico. O proibicionismo está a serviço do lucro, da repressão, do legal e do ilegal. Consagra o proprietário, o traficante e o dissimulador.
Os defensores da liberação das drogas sabem que elas são inseparáveis da cultura; sabem que liberar as drogas é acabar com o tráfico, conter um ramo altamente lucrativo do capitalismo, paralisar temporariamente os negócios dos moralistas, arruinar parte da crença na repressão e da fé em segurança. Os defensores da liberação são um perigo à empresa, ao Estado e ao traficante. Arruínam seus negócios. Os defensores da liberação das drogas querem mais que descriminalizar maconha!
O proibicionismo precisa da vida breve da criança pobre-podre-calcinada cada vez mais nas mãos do traficante como braço armado, consumidor, sicário e serviçal; precisa de jovens dispostos a morrer bem cedo, tentando, pelo avesso, imitar o burguês bem sucedido, o herói, o mártir, o bandidão das antigas na periferia, nas favelas; precisa de gente insatisfeita com esta merda de mundo, para consumir, se endividar e cair nas mãos dos traficantes como os preferenciais bibelôs de sua estética em ruínas... O proibicionismo e o tráfico celebraram um casamento indissolúvel. Só os revoltados sabem que onde há vida não há proibição e que onde há tráfico não há mais vida.
Um novo programa da força aérea estadunidense recruta jovens para o projeto de combate à distância. De uma sala nos EUA, com monitores e joysticks, os pilotos decolam aviões não-tripulados, lançam mísseis e retornam à base no Afeganistão. Um dos requisitos para a seleção é que eles tenham sido, desde criança, aficionados por videogame. O treinamento é simples, garantem os militares, porque os jovens já vêm educados: matar alvos em telas não lhes é estranho. Sensibilidades torpes e educação para lidar com mortes programadas, eis um traço das guerras na sociedade de controle.
Alvos preferenciais da polícia na Itália, os imigrantes vindos da África, depois de atravessarem a ilha de Lampedusa e chegarem com vida à Europa, são enquadrados em uma nova legislação. Esta prevê seis meses de prisão para quem andar sem a documentação regularizada, despejo do morador e confisco do imóvel alugado e ainda estimula os médicos a denunciarem pacientes em situação irregular. A página da internet relacionada a um dos proponentes desta nova lei estampa que a tortura de clandestinos é um direito de defesa da nação.
Os canalhas de todo o tipo comemoram. Os imigrantes africanos, árabes, latinoamericanos, gente de todas as partes do planeta que não morreram na travessia em altomar tem como destino viverem sem descanso e sob suspeita, cercados pela polícia. Só assim é que seus corpos e suas existências consideradas insuportáveis são finalmente permutadas, esmagadas, submetidas à força do governo.
09/09/2009
o grito em movimento (1)
grito dos excluídos 2009

... mas dá pena ver esses garotos da marinha e do exército tão iludidos com seus brinquedinhos de fogo, sem a menor noção de que, ao estar a serviço da força bruta, são a última forma de sustentação de um modelo de civilização que impede a vida plena, ao promover a competição, a indiferença e o medo entre as pessoas.

as mãos que clamam e combatem se preparam para a caminhada, enquanto padre Kelder saúda os peregrinos de um mundo renovado

e começa a marcha, o grito pela vida e pelo resgate da organização popular ganha as ruas, ocupando os elitizados e iludidos espaços da Praia do Canto...

... iludidos porque seus moradores ainda não puderam aprender que o sentido da vida plena não está apenas em nossos apegos e afetos individuais ou familiares.
o grito e a cura
A continuidade do Grito dos Excluídos (veja nesse blog as matérias O grito ecoa... e O Grito dos Excluídos 2009), já por 15 anos, na verdade reflete uma postura histórica de iniciativas e responsabilidades que alguns setores católicos sempre tiveram em relação às lutas sociais e populares. É a opção verdadeiramente missionária da Igreja.
Como bem colocou padre Kelder Brandão numa de suas homilias, é esta a cura que o Cristo pregava e praticava: não apenas a cura física ou corporal, mas a cura do espírito e dos corações dos desamparados, abandonados ou ignorados por um mundo por demais competitivo, apressado e hostil; enfim, sair de dentro do templo em direção ao mundo e ao povo sofredor, humilhado, manipulado.
Mas, na verdade, a Igreja sair em direção ao povo e ao mundo significa também uma outra 'cura', ou melhor, uma tripla 'cura'. Além da oferecida aos desamparados, há também a 'cura' do próprio movimento popular, como dito acima; afinal o movimento está enfermo, paralisado, esvaziado de seus melhores quadros, que foram convocados pelo governo federal e pelos inúmeros governos municipais e, nesse processo de se colocar a serviço de governos populares, são muitas vezes seduzidos por uma nova maneira de ver o mundo, a si próprios e ao movimento do qual faziam parte, uma visão por demais institucional, que passa a enxergar nas pessoas apenas agentes políticos, apenas peças do jogo político-partidário.
E outra 'cura' se processa, claro, no âmbito dos próprios fiéis e da própria Igreja Católica. Ao se colocar à disposição para aprender e praticar a 'cura', o católico está curando a si próprio, encontrando o verdadeiro sentido de ser cristão, ao conseguir ver de fato em si e no outro a ' luz do mundo', o 'sal da terra'.
Quanto à Igreja Católica, enquanto instituição milenar ('santa e pecadora', para usar uma expressão do documento conclusivo do 1º Sínodo da Arquidiocese de Vitória), ela se ‘cura’ ao cumprir o seu papel de fundir num plano maior a prática espiritual e a prática política.
Ao optar verdadeiramente por cuidar do céu e da cidade, do cosmo e da polis, a Igreja traz para uma outra dimensão a atividade política, lembra que os frutos de todo o trabalho e de toda vivência humana têm sempre algo de sagrado e sempre colocam a vida plena em primeiro lugar, porque é sempre sagrada não apenas a vida humana mas a de todas as coisas, de todo o cosmos.
E, ao se ‘curar’, a Igreja peregrina acaba por ‘curar’, depurar, sacralizar a própria atividade política. Já não se trata de ver nas pessoas apenas peças de um processo político, por mais transformador ou revolucionário que esse processo seja, ou pretenda ser. Trata-se agora de ver no outro uma realidade mais rica e complexa e ao mesmo tempo mais frágil e carente de afeto, de acolhimento. Trata-se de ver a ação política também como espaço para que as pessoas se irmanem de fato, se reconheçam uns aos outros - o espaço político não deve se pautar apenas pela eficiência, pragmatismo, mesmo que se trate de um espaço revolucionário.
Mesmo porque, talvez somente esse ato de se irmanar e de acolher é que seja realmente revolucionário. A história tem demonstrado à exaustão que a simples eficiência revolucionária - ou transformadora das estruturas sociais e econômicas - não se sustenta, não transforma de fato os indivíduos e, por extensão, as novas instituições que eles criam a partir do processo revolucionário.
Pois, por mais que a ação política revolucionária tenha aprendido a colocar em pauta temas como o respeito às diferenças, a fraternidade, a solidariedade, nos momentos decisivos a chamada dimensão subjetiva, interior, das pessoas é esquecida em nome da defesa ou manutenção do processo revolucionário e, então, as pessoas voltam a ser friamente tratadas apenas como soldados de uma causa ou de um exército.
Assim, é preciso uma abordagem mística, ou transcendente, da ação política transformadora, construir coletivos que sejam de fato sinônimos de acolhimento e amizade, um acolhimento e uma transcendência que não se percam nos primeiros percalços ou urgências do processo de transformação. A ação política tradicional nunca acolhe com a mística e o calor humano necessários para transcender a si própria, ou para se situar numa outra dimensão.
A igreja peregrina pode e deve ser a doadora dessa ação política transcendente. Principalmente nestes tempos de indiferença, hostilidade e desconhecimento do outro, é possível trabalhar com o projeto de uma Igreja que atraia e seduza as pessoas, ao reverenciar em primeiro lugar o acolhimento, e nesse acolhimento propor às pessoas um novo sentido, não somente para a ação política mas para as suas próprias existências: enfim, a Igreja peregrina pode e deve atrair novos sujeitos, se souber construir coletivos onde a própria ação politica esteja sumetida a um sentido maior, o sentido do sagrado, do mistério que há em todos e tudo.
E, sem cair aqui no idealusmo ou na ingenuidade, é lúcido dizer que, talvez aí sim, tenhamos um movimento, um ação política verdadeiramente revolucionária e, quiçá, de caráter global, pois terá conseguido fundir o sagrado e a polútica, o terreno e o transcendente, o indivíduo e o coletivo, o cotidiano e o mistério.
07/09/2009
o grito em movimento (2)
grito dos excluídos 2009 - vitória, es
imagem bem a propósito: a necessidade de uma verdadeira reaproximação entre o movimento popular e a igreja peregrina (ou progressista, para quem preferir), simbolizada por padre Kelder dando uma 'forcinha' para a faixa do CPV, observado por Waldemar Cunha (de verde), presidente do entidade.

antes da lavagem no judiciário capixaba, um descanso nos gramados do presunçoso 'palácio': afinal o trabalho ali iria ser árduo e demorado... - para quem já se esqueceu, em dezembro passado a polícia federal ocupou o tribunal de justiça do espírito santo e prendeu o seu presidente e três desembargadores

as acusações: favorecimento a parentes e amigos nos concursos irregulares e nos cargos comissionados e, claro, as famosas vendas de sentenças, como bem resgata a faixa acima

dei uma forcinha para a lavagem e para os sempre presentes agentes do Comando de Caça aos Corruptos - mesmo porque, fui um dos poucos funcionários do judiciário capixaba (se é que não fui o único) presente nessa 'afronta' ao egrégio tribunal.

e, no ato de lavar a sujeirada, os peregrinos do mundo novo expulsam o dragão da maldade, da burrice, da visão de mundo que não deixa os poderosos e seus agregados ir além de uma ganância estúpida e vazia, que se ilude com uma sede de poder cada vez mais exigente, mas que nunca é completamente saciada...

... uma sede de poder que alimenta uma estrutura social, econômica e política cada vez mais perversa, desumana e que está nos levando cada dia mais para perto uma barbárie disfarçada de modernidade, consumismo e progresso.
25/08/2009
poesia de portugal, ora pois
Depois da publicação, em julho, de alguns trechos de “O senhor Ventura”, obra em prosa do escritor português Miguel torga, temos neste agosto uma pequena amostra da poesia feita atualmente em Portugal, com poemas selecionados dos blogs portugueses Hospedaria Camões e Casa dos Poetas.
Esta primeira seleção é de poemas mais longos, que refletem uma certa vocação da literatura portuguesa para o abundante, o barroco, para a escrita derramada aos borbotões, sem constrangimentos de parecer obsoleta, sem preocupação de etiquetagens modernas ou pós-modernas.
Mas essa abundância verbal não significa um descolamento de temas atuais, vívidos, e nem impossibilita o presença de uma atmosfera ou tonalidade contemporânea. Atmosfera ora desamparada e melancólica, melancolia bem típica aliás da tão decantada ‘alma’ portuguesa (‘beleza destroçada’) ora despojada/prosaica (‘computador no lixo’, ‘ode ao vinil’) ou com tons de engajamento no coletivo, mas engajamento numa dimensão mais complexa, mais abrangente, como em ‘nós somos’.
Há que registrar ainda duas falas mais para o transcendente (‘crepúsculo’, ‘se o teu olho é simples...’), que certamente se inserem na tradição daquela poesia metafísica (mas de uma metafísica terrena, que se desvela no concreto) tão bem representada pela poesia de Rilke, brevemente desvelada no mês passado.
E por fim a a celebração de venturas/desventuras amorosas e existenciais - ‘duas vezes nada’, 'a secção dos congelados', ‘os amantes inadequados’ e o singelo-contundente ‘as prostitutas’. Aqui, outra infiltração brasileira nessa celebração portuguesa, a mineira Mariana Botelho, com a ardente-generosa entrega de seu ‘toma’.
Leia mais sobre os poetas de Portugal, aqui publicados, em Hospedaria Camões e Casa dos Poetas.
as prostitutas
elas desciam à vila, as prostitutas –
a única saída
exactíssima resposta para a nossa
angústia seminal acumulada.
Vinham de Vale da Porca, ou outra
terra assim pasmada.
Traziam na cabeça lenços garridos
na carteira de mão a triste história:
a sedução primária, a miséria espessa
mas jamais o vício mercenário.
Nas eiras recebiam nossas águas
de permeio plantados como reis.
Procuravam lisonjeiras acertar
seu êxtase fingido com o nosso.
Beijavam-nos, diziam: tão novinho!
Suportavam-nos insultos e arremessos.
Com mão experiente (mas não habituada)
guiavam-nos na bela, impreterível
urgente aprendizagem
concediam-nos crédito e carinho –
as tãos castas mulheres
as prostitutas.
a. m. pires cabral (macedo de cavaleiros - portugal)







