22/04/2010

a voz ancestral

O poema abaixo, de Fernando Pessoa, vai como resposta a uma solicitação do Beto, do blog rascunhos de um pagão, em comentário feito ao poema a Deus, de Carlos Ernesto.

Bastante apropriado, aliás, já que nesse poema o poeta português mostra uma faceta sua não muito conhecida, ou não muito comentada: a sua ligação com o ocultismo. A esse respeito, um breve trecho do blog vidas lusófonas:
"Começa a procurar respostas nas ciências ocultas. "Creio na existência de mundos superiores ao nosso e de habitantes desses mundos e em existências de diversos graus de espiritualidades", revela. Entusiasma-se com as Sociedades secretas (Rosa-Cruz, Maçonaria, Templários). Conhece o espiritismo, a magia, a cabala. Traduz para o português muitos livros da Colecção Teosófica e Esotérica. Sob a influência do ocultismo escreverá O último sortilégio e Além-Deus. Inicia-se e cultiva, sobretudo, a astrologia."

Com inquetionável mérito, o poema de Pessoa complementa a seleção dos poetas publicados em Março e comentados no texto poemas para Deus. Grato ao Beto por ter me permitido a oportunidade de suprir essa lacuna.

Pois para além da mensagem ou motivação de Pessoa, o poema se realiza de fato como uma invocação, como um chamado ao Mistério. Há um lamento que se faz pausado, que sabe de sua caminhada em direção ao desencanto.

Desencanto com a perda da sacralidade das coisas, ou melhor, de nossa perda ou embotamento para vivenciar a sacralidade das coisas, perda essa advinda com o Iluminismo e com o predomínio da álgida claridade dessa Razão que sustenta e conduz a história moderna.

Não importa quais as 'sacras potências' que Pessoa invoca, o que importa é o poético resgate que faz do sagrado, o resgate da relação do poeta com o sagrado, através de uma míriade de imagens, num verdadeiro desfile de coisas e sentimentos que adquirem vida, pulsação, na voz do poeta as coisas finitas readquirem a sua capacidade de vibrarem junto com o Infinito, ou por outra, o Infinito se revela na voz do poeta e celebra a si próprio, mesmo que através de um lamento.

Por último vale comparar o poema de Pessoa com a deus de Ernesto e com carta de Cecília Meireles. Em Pessoa há o lamento pela perda da sacralidade, do 'dom', em Ernesto há a orgulhosa resistência do poeta-século XX em ver sentido na entidade chamada Deus, e em Cecília há aceitação e comunhão apesar do artifício literário de uma falsa acusação, acusação que na verdade é apenas uma oportunidade para celebrar o Infinito e o Mistério.

Mas em todos os três poemas a mesma riqueza, a mesma abundância de imagens, situações e sensações. Como se fosse uma úncia e mesma voz - ancestral e infatigável voz do Infinito a se parir através do finito humano.

o último sortilégio

Já repeti o antigo encantamento,
E a grande Deusa aos olhos se negou.
Já repeti, nas pausas do amplo vento,
As orações cuja alma é um ser fecundo.
Nada me o abismo deu ou o céu mostrou.
Só o vento volta onde estou toda e só,
E tudo dorme no confuso mundo.

Outrora meu condão fadava as sarças
E a minha evocação do solo erguia
Presenças concentradas das que esparsas
Dormem nas formas naturais das coisas.
Outrora a minha voz acontecia.
Fadas e elfos, se eu chamasse, via,
E as folhas da floresta eram lustrosas.

Minha varinha, com que da vontade
Falava às existências essenciais,
Já não conhece a minha realidade.
Já, se o círculo traço, não há nada.
Murmura o vento alheio extintos ais,
E ao luar que sobe além dos matagais
Não sou mais do que os bosques ou a estrada.

Já me falece o dom com que me amavam.
Já me não torno a forma e o fim da vida
A quantos que, buscando-os, me buscavam.
Já, praia, o mar dos braços não me inunda.
Nem já me vejo ao sol saudado erguida,
Ou, em êxtase mágico perdida,
Ao luar, à boca da caverna funda.

Já as sacras potências infernais,
Que, dormentes sem deuses nem destino,
A substância das coisas são iguais,
Não ouvem minha voz ou os nomes seus.
A música partiu-se do meu hino.
Já meu furor astral não é divino
Nem meu corpo pensado é já um deus.

E as longínquas deidades do atro poço,
Que tantas vezes, pálida, evoquei
Com a raiva de amar em alvoroço,
Inevocadas hoje ante mim estão.
Como, sem que as amasse, eu as chamei,
Agora, que não amo, as tenho, e sei
Que meu vendido ser consumirão.

Tu, porém, Sol, cujo ouro me foi presa,
Tu, Lua, cuja prata converti,
Se já não podeis dar-me essa beleza
Que tantas vezes tive por querer,
Aos menos meu ser findo dividi —
Meu ser essencial se perca em si.
Só meu corpo sem mim fique alma e ser!

Converta-me a minha última magia
Numa estátua de mim em corpo vivo!
Morra quem sou, mas quem me fiz e havia,
Anônima presença que se beija,
Carne do meu abstrato amor cativo,
Seja a morte de mim em que revivo;
E tal qual fui, não sendo nada, eu seja!

fernando pessoa
("Fernando Pessoa - Obra poética - Volume único", Cia. José Aguilar Editora, Rio de Janeiro)

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21/04/2010

sabedoria paterna I








sabedoria paterna II

Vejam acima que bela seqüência de charges - embora constrangedora e entristecedora.

Como o chargista capta com argúcia a transformação da infância em infâmia consumista e individualista. Ao pais nada mais a fazer do que repassar de forma robotizada a estreita mensagem de vida que herdaram, ou que lhes foi imposta ao longo de uma existência vivida de acordo com valores nunca questionados.

Junte-se essa tendência para a omissão e para a resistência em exercitar o espírito crítico; junte-se a legítima preocupação dos pais com o futuro de suas frágeis crianças; junte-se a extrema eficiência do capitalismo para manipular nossas fragilidades e afetos e essa tendência do ser humano em se acomodar, em se satisfazer com falsas promessas de plenitude e com fáceis seduções.

E o que se tem é isto retratado pela charge: crianças desde tenra idade possuídas, estupradas por apelos que as alienam de si próprias, que as roubam daquelas descobertas autênticas, apreensões poéticas e mágicas, daqueles diálogos inaugurais com o mundo e com o ser, que somente podem ocorrer na nossa infância.

Triste, muito triste. Nem Marx deve ter imaginado que para sobreviver o capitalismo precisaria lançar mão dessa usurpação da magia, do lúdico e da metafísica. Crianças que, além de usurpadas de si mesmas, terão grande chance de se exercerem como jovens e adultos mimados e arrogantes, tolos e presunçosos - mal habituados a conseguir tudo aquilo que desejarem, educados para não enxergarem o outro como pessoa e sim como mero obstáculo ou confirmação de seu tolo narcisismo, já que os seus pais e elas próprias foram assim forjados, seduzidos e manipulados pelos apelos consumistas, superficiais e individualistas.

Pais e filhos a viverem num virtual mundo de falsos desejos e plenitudes: bela geração de almas de plástico que irá sustentar e administrar a bárbarie capitalista do futuro. É de se reconhecer o extremo brilhantismo do capitalismo ao descobrir esse filão do consumismo infantil, essa extrema eficiência com que o capitalismo prepara e renova sua prole presente e futura.

A finalizar, vale registrar mais uma vez o traço ao mesmo tempo sensível e implacável do cartunista: repare-se no olhar meigo, inocente e disponível do bebê, mas também um olhar solícito, grato, ávido para assimilar as preciosas lições de seu sábio e assustado papá.

Mais do que nunca vive o alerta antigo: Socialismo ou Barbárie!

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Já que este é também um blog de poesia, busquemos abaixo,  num poema de Cecília Meireles,  um complemento para essas constrangedoras imagens do bebê: Cecília há muito já  aceitava que nem sempre  beleza e  inocência podem ou devem caminhar juntas com inteligência, a sensiblidade e a reverência ao mundo e ao outro.
Nestes tempos de bárbárie, então, em que até as nossas crianças estão à mercê do desespero da besta fera agonizante chamada capitalismo...

os dias felizes

Os dias felizes estão entre as árvores
como os pássaros:
viajam nas nuvens
correm nas águas
desmancham-se na areia.

Todas as palavras são inúteis
desde que se olha para o céu.


A doçura maior da vida
flui na luz do sol,
quando se está em silêncio.

Até os urubus são belos
no largo círculo dos dias sossegados.
 Apenas entristece um pouco
este ovo azul que as crianças apedrejaram:

formigas ávidas devoram
a albumina do pássaro frustrado.

Caminhávamos devagar
ao longo desses dias felizes
pensando que a Inteligência
era uma sombra da Beleza

cecília meireles

veja charge e texto sabedoria paterna

31/03/2010

igrejas - minas

(ouro preto, minas)

Claro que não se pode esquecer que o fausto e a beleza, a imponência e a solidez das igrejas católicas obedeciam a motivações que iam muito além do simples deleite artístico, estético e da vivência espiritual. Eram também uma manifestação de poder e de dominação e sedução das classes populares.

Além do que, muito dessa pompa e imponência foi construída às custas do sofrimento, do trabalho extremo de escravos e despossuídos da época, como costuma acontecer na construção dos grandes monumentos erigidos ao longo da atribulada história.

(ouro preto, minas)

Mas nada disso pode invalidar exatamente o reconhecimento da imponência e da criatividade, da beleza e harmonia presentes nas igrejas católicas. Mais, tão importante quanto valorizar ou reconhecer a sua riqueza arquitetônica e artística, importa aprender o seu símbolo de transcendência, de instância que possibilita, sugere ou reflete a fusão do homem com o divino, do finito com infinito.

A propósito, não custa lembrar a já bastante conhecida etimologia da palavra religião = religare, ligar novamente. juntar terra e céu, profano e sagrado. Igrejas são, então, momentos onde se cristalizam essas tentativas de reencontro, de religação do homem com o universo, do finito com o Infinito.

E já que o assunto dos poemas deste mês é a relação do homem com o sagrado, o transcendente, e já que estamos em meio à celebração da Semana Santa pelos católicos, nada mais apropriado do que publicar algumas fotografias de igrejas.

Além disso, se as escolhidas são as igrejas católicas é porque, pelo menos no Brasil, são elas que representam abundantemente esses momentos de celebração do sagrado, são elas que juntam beleza e imponência, religiosidade e história.

Enfim, são, tal como os poemas publicados neste mês, belos momentos de celebração, criativas e poéticas manifestações do próprio Espírito – sentido que o filósofo Hegel dá a essa palavra, com todas as suas contradições históricas e ‘dores do parto’, tal como também está lembrado nos comentários acerca dos poemas deste mês.

(ouro preto, minas)

(vilarejo de paraguai, cajuri, minas)

Essa singela e curiosa igrejinha de Paraguai, Zona da Mata de Minas, reflete bem a dupla tarefa das arquiteturas católicas. Aí não se percebe nenhum fausto ou luxo. Mas presente a mesma imponência, tornada ainda ostensiva se contrastada com a simplicidade das casas do vilarejo. Como se, ao mesmo tempo em que fosse uma reconfortadora e reverente memória da presença do Mistério (repare-se na modesta morada dos mortos, plantada em pleno pasto, guardada pela árvore e pela igreja), o templo católico agisse também como uma espécie de vigilância social, política e ideológica em relação aos moradores.


antigo seminário do Caraça, minas

antigo seminário do Caraça, minas


aqui, o mesmo bucolismo de Paraguai e da última igreja de Ouro Preto. No Caraça, a junção da religiosidade com a cultura. Pelo Colégio do Caraça passaram nomes de destaque da arte e da literatura mineiras, e representantes da oligarquia política do estado. O Caraça na wikipédia



fotografias: roberto soares


igrejas - espírito santo





igreja de santo atônio, no bairro de mesmo nome, vitória, es. fotografa do alto do morro da fonte grande. há um agardável choque descobrir - em meio ao verde, ao mar e ao casario popular - a imponente igreja que lembra templos muçulmanos ou hindus


convento da penha, vila velha, es. famoso centro de peregrinação. a propósito, realiza-se na próxima semana, do dia 05 ao 12, a concorrida Festa da Penha. acontece a romaria dos homens, uma das maiores do país. não da para perceber mas o convento está encarapitado no alto de uma íngreme colina, donde se contempla o mar e a maior parte dos municípios da grande vitória (serra, cariacica, vitória e vila velha). pra se ter uma idéia da altura, remeto a uma vista do porto de tubarão e à terceira ponte, embaixo, ambos fotografados lá do alto (veja também o poema terceira ponte nesta edição).



terceira ponte, com vitória à esquerda e vila velha à direita do vídeo

fotografias: roberto soares

poemas para deus

Num certo sentido, a Quaresma não é algo que diga respeito apenas aos católicos, mas a todas as denominações religiosas, e até mesmo aos que não têm nenhuma crença ou vivência religiosa.
Claro, não a Quaresma em si, com todas os seus milenares rituais católicos, mas aquilo que a motiva, que a fundamenta.
Pois a Quaresma, para os católicos, é essencialmente conversão, o tempo de se interiorizar, ocasião para se refletir sobre a sua espiritualidade, a sua relação com Deus.

Dito em termos diferentes dos católicos, é momento para o indivíduo confirmar, fortalecer ou mesmo rever a sua postura em relação a algo maior do que ele, seja esse algo Deus, Fonte, Poder Supremo, Energia, Ser...
E certamente que essa atitude, de indagar acerca da existência dessa Fonte ou Presença Superior, é algo universal, inerente a todo indivíduo, enfim, constitutivo da própria condição humana.

Falta ainda registrar que obviamente não podemos negar a função de repressão, alienação e manutenção da ordem dominante, que é própria das religiões institucionalizadas.
Quanto ao caráter transformador, combativo e libertador de algumas religiões - e principalmente de alguns setores dentro da Igreja Católica, mormente na Igreja Latinoamericana - não é o propósito desses comentários. A esse respeito veja na edição de setembro de 2009 os textos O grito ecoa e O grito e a cura.

O que se vai considerar aqui, tendo como pano de fundo os poemas publicados em março, é o caráter de complexidade da relação do homem com o Ser; o que se entende aqui é que – mesmo que a pretexto de uma ação política ou artística libertadora - não podemos reduzir a inquietude e a interrogação, próprias de nossa constituição ontológica (e que para a maioria das pessoas no mais das vezes se expressa na religiosidade), não podemos reduzir essa inquietação ao fenômeno da religião, principalmente das religiões institucionalizadas, com o seu exército de igrejas e sacerdotes.

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Assim, em meio à sacra atmosfera da Quaresma dos católicos, Desvelar publica neste março poemas que falam de Deus, para Deus, com Deus, contra Deus.

Na verdade, os poemas aqui publicados desmentem o imaginário de que os poetas da modernidade seriam daqueles que mais desafiam, ignoram ou escarnecem do ícone Deus. Para alguns críticos, é até mesmo um sinal de maturidade e evolução artística quando o poeta moderno supera o seu constrangimento ou a sua arrogância para tratar do tema, com toda a seriedade - e a criatividade que lhe for própria.

Para outros, inclusive, a tarefa mais ousada dos poetas e filósofos verdadeiramente criativos e ousados deveria ser a mesma dos místicos, devotos e religiosos extremos, qual seja, chegar o mais próximo possível de Deus, do Sagrado, do da Presença Inapreensível, vê-lo Face a Face – mesmo que, ao contrário dos místicos, essa busca seja para negar a existência ou a validade desse Sagrado, dessa Presença, mesmo que seja para colocar no seu lugar outras divindades, outro Absoluto... outro Deus, tal como a Razão, a História, a Arte, o Belo, a Vida etc.

Enfim, mesmo numa civilização tão racionalista e tecnicista como o é a civilização ocidental - tão distanciada do mistério e da transcendência – não apenas os poetas, filósofos, místicos e religiosos mas qualquer pessoa, que ainda tenha um mínimo de inquietude e de abertura para o mundo, certamente tem que se haver com perguntas e descobertas acerca da origem e do sentido dela próprio e das realidades que nos cercam, que nos solicitam, nos desafiam, nos oprimem ou nos encantam.

Afinal, ainda não estamos completamente mergulhados num asséptico, incolor e assustado mundo de plástico e de vida eletrônica, ainda somos de carne, osso e consciência, ou espírito, ou alma, para quem preferir.

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Como os comentários estão um tanto ou quanto longos, preferi não publicá-los num texto único, num só bloco. Assim, logo após cada poema, vêm os respectivos comentários, que vão se encadeando e s e complementando, como se num só texto.

Aos poemas para Deus, de Deus.

Roberto Soares (Quaresma de 2010)

29/03/2010

fiat lux: e deus se faz

no princípio eram trevas
meus olhos abriram-se
e fizeram a luz

no escuro
uma pequena luz
é maior que toda a escuridão
que arranha meus olhos
como a luz era boa
enxerguei nela um homem

vicente gonçalves
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Vicente Filho abre em grande estilo e ousado tema: numa releitura do Gênesis bíblico, poetiza com admirável intuição nada mais nada menos do que o parto do próprio Deus que, ao se fecundar e se parir, dá origem ao próprio Ser, que ao final da contas é Ele próprio. Ao fim, bastante perspicaz a identificação da luz com o homem, criatura predileta do Criador.

Luz e homem, homem iluminado que, habitado pelo Espírito, ao final retornará ao próprio Criador, tendo como projeto maior se cumprir como os olhos do próprio Deus. Nesse caminhar, nessa jornada ao longo dos milênios o homem se tornando cada vez mais luz, lucidez, assumindo-se e elevando-se da matéria puramente inanimada ou animal para ascender-se como Espírito, como Luz, parte constituinte da própria Fonte, do próprio Deus.

E assim, o homem nada mais é do que Deus em processo, é Deus se construindo a duras penas ao longo dos milênios e da História, abdicando de ser apenas Espírito Absoluto para se tornar finito, frágil, aberto - o alemão Hegel trouxe para a Filosofia profundas considerações sobre essa Dialética entre Espírito e Natureza.

Mas - numa abordagem menos metafísica e mais poética, ou mística -, esse processo de se transmutar em finito e fragilidade é também uma forma de Deus admirar-se a si próprio, de se louvar a si próprio através dos olhos e dos êxtases do homem, enfim, de se testemunhar a si próprio enquanto Criação e criatura.
Assim, nessa troca mútua e constante pelos séculos dos séculos, homem e Deus se confundem numa só realidade, num só advento, o homem aos poucos apreendendo que o que lhe cabe ao fim de tudo é buscar agir, viver e sentir como os olhos da Fonte, como aliás já cantava um antigo poeta da Galiléia: “Vós sois os olhos do mundo”.

O poeta Vicente Filho tem essa rara capacidade de captar com singela essência - em versos despojados e aparentemente simples - a poderosa e complexa realidade que nos rodeia, da qual somos feitos e para a qual somos feitos.

28/03/2010

que vais fazer, Deus?

que vais fazer, Deus, se eu morrer?
eu sou teu cântaro (e se eu me quebrar?)
eu sou tua água (e se eu me estagnar?)
eu sou teu hábito e sou teu ofício;
sem mim, tu perderias a razão de ser...

depois de mim, não terás casa em que
palavras próximas e tépidas te acolham
vai cair de teus fatigados pés
a sandália macia que sou eu.

teu largo manto deixar-se-á cair.
teu olhar, que com minhas faces eu
aqueço, como se com almofadas,
virá de longe a procurar por mim
- e ao pôr-do-sol se porá
no colo de estranhas rochas.

que vais fazer, Deus? estou preocupado.

rainer maria rilke (livro de horas, ed. civilização brasileira, 1994)

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Esse poema de Rilke é como um eco, uma pereita confirmação daquilo que foi dito há pouco: com sua costumeira mescla de delicadeza e transcendência, Rilke faz uma verdadeira sagração da simbiose entre Deus e homem.

Rilke dispensa comentários muito longos, mesmo porque a sua poesia já foi comentada aqui no Desvelar, em julho de 2009 (silêncios e desvelos I e silêncios e desvelos II).
De qualquer forma registre-se mais uma vez a admirável e reverente singeleza com a qual Rilke aceita e celebra a condição humana de ser ao mesmo tempo fruto e suporte de Deus - poema que se supera enquanto tal, transmutando-se numa verdadeira, lúcida e profunda oração àquilo que existe, autêntica e suficiente simbiose entre Ser e Verbo, entre a árvore e o fruto: o ser se oferecendo enquanto Verbo, o Verbo percebendo e nomeando o Ser, e se reconhecendo enquanto fruto do Ser.

a Deus

tua delicadeza não bastou
quero chamas a consumir
os cataventos se foram
e meu rosto desaba no espelho

quero uma aliança com o eterno
que se renove na imensidão
da morte
e quando o equinócio chegar
quero estar no seu zênite

como um deserto que reflete
como um deserto que não termina
e se dana
na própria infinitude

quero-te e não te quero
aos demônios ouço
e te persigo
e me arrebato em tua poesia
inefável


retenho a vida, forte e insubmisso
tramas a minha morte
sou anjo de pedra
pedra ou sonho?
vida ou torpor?


sou-te e não me abrigo
tens a mim e não me possuis
amo-te e não entendo
a razão deste amor

carlos ernesto
(cartas ao mar fechado, edição do autor, 1979)

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Mas, interrompendo a vívida celebração de Vicente e Rilke, com o poema de Carlos Ernesto brota já uma primeira dissidência, um primeiro desafio à onipotência da divindade. Há na verdade uma como que rebelião da razão contra o mistério, do finito contra o infinito.
É como um grito que misturasse raiva e impotência, fascínio e lamento, pelo fato de a razão do poeta-filósofo não conseguir captar em sua inteireza o mistério do ser, e principalmente não conseguir se apreender no meio da rica ambigüidade humana, que é ser ao mesmo tempo fruto e alimento do Espírito.

É um magnífico e rico desfile de imagens a ilustrar a ambígua condição de alguns poetas do ocidente, a condição de ateus arrependidos e nostálgicos. Como se o Ser, o Mistério, não desse ao poeta ocidental outra opção que não um ateísmo, a partir do momento em que não se nos revela de forma clara, racional, a partir do momento em Deus não se nos manifesta de forma inequívoca, com sinais claros no céu da nossa vida e da nossa História.

A condição de ateu arrependido provém então, dessa incapacidade de poetas e filósofos do Ocidente em apreenderem o Mistério e o Sagrado através da simples intuição - ou daquilo que os religiosos chamam de fé – exigindo que esse Sagrado, que essa Fonte se manifeste de forma racional, ou pelo menos de forma mais direta, que jogue de igual para igual com o homem, e não do alto de sua obscura, intangível e arrogante realidade.
E ao mesmo tempo há uma certa nostalgia nesse ateísmo, uma saudade de um obscuro tempo de inocência, provavelmente na infância, quando tudo é magia, comunhão, celebração do mundo e do Mistério.

No fim do poema, um interessante e denso jogo entre rendição e resistência, entre comunhão e distanciamento, esse jogo de presença e fuga com que o Ser se apresenta àqueles que procuram inutilmente capturá-lo, desvelá-lo em toda sua inteireza, ou por outra, esse jogo com que Deus se apresenta àqueles que buscam vê-lo de perto, Face a Face

obsessão

não posso esconder:
- Deus é um troço
que me incomoda

inseto algures
na noite em claro

inquieta pulga
que me passeia
fazendo cócegas.

Deus me aflige
como doença
que progredisse
secretamente.

Deus é um bicho
de estimação.
se o escorraço
Deus me perdoa
e volta, à-toa.

Deus me persegue
como um remorso

waldo motta
(salário da loucura, 1984)
**************

Waldo Motta, num tom mais tranquilo, coloquial, menos iracundo e trágico do que no poema de Ernesto, reconhece e descreve com maestria e com mais leveza esse jogo de esconde-esconde.
Ao final, o poema deixa explícita aquela ambígua condição que no poema de Ernesto era apenas vislumbrada: a incômoda situação de ateu arrependido que envolve o poeta, o poeta tomado pelo ‘remorso’ de, ao contrário das chamadas pessoas comuns, não conseguir vivenciar, com simplicidade e confiança, realidades como Deus, Mistério, Fonte.

É preciso registrar que Waldo Motta é, neste país, um dos poucos poetas de renome que vem assumindo com todas as letras a temática de Deus, da religiosidade e do sagrado em sua obra, não se incomodando em arranhar sua reputação de poeta marginal, iconoclasta, com essa explícita opção pelo sagrado.

Isso, em se tratando de um dos mais criativos, radicais e desbocados poetas da atualidade brasileira, não é pouca coisa, e só vem ilustrar a afirmação feita acima: a de que a maturidade artística e poética não tem que necessariamente excluir o tema do sagrado e do divino, nem tem que se ater apenas a dissecações e malabarismos verbais e semióticos, pelo contrário, a maturidade pode e deve se dar pelo poder de síntese, de amplitude, de superação de etapas.

Waldo, na verdade, tem trilhado um caminho que dificilmente pode ser rotulado de apenas artístico ou poético, é uma construção que procura plasmar numa só arquitetura elementos de arte, ciência, religião, história, misticismo, cabala, entre outras manifestações do conhecimento humano - ou do Espírito, se assim preferirem os hegelianos.

Oportunamente, Desvelar publicará um comentário mais aprofundado da obra de Waldo Motta, para que o leitor tire as próprias conclusões acerca de suas propostas – polêmicas, para dizer o mínimo.

os vestígios

OS VESTÍGIOS DA MORDIDA no nenhures.

Também a isso
tens de combater
a partir daqui


paul celan
(fiaposóis, ed. tempo brasileiro, 1985)

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Paul Celan vai além das dúvidas e ambiguidades de Ernesto e Waldo. Não deixa nenhuma margem para qualquer espécie de comunhão com o sagrado, não se coloca a disposição para tocar, ‘morder’ o longínquo e o mistério
O fato é que Celan vivenciou por demais - ou introjetou excessivamente - o aspecto áspero da vida e do mundo; em parte pelo fato de a sua mãe ter sido assassinada num campo de concentração nazista, em parte pela sua sensibilidade de poeta visceralmente comprometido com o seu tempo e, assim, ele não elabora uma obra crente, ou por demais poética, para ele não fazia sentido poetizar o que não é poetizável.

Se não há em Celan espaço para a mera idolatria do belo, muito menos o há para a Utopia e para o Sagrado. O nenhures, o intangível, o longínquo, recusado e combatido pelo poeta, tanto pode significar a utopia proposta pela Razão ou pela Revolução, quanto a morada do Sagrado, o desvelamento de uma transcendente Presença, de uma suposta Fonte, Deus – tudo isso tem de ser esquecido, ignorado, ‘combatido’ a partir deste mundo e por causa deste mundo, ou das ‘cabeças monstruosas’ que dirigem este mundo, tal como diz em outro de seus poemas:

‘as cabeças, monstruosas, e a cidade
que elas constroem, em busca da
felicidade’


Aparentemente, esse combate e recusa ao sagrado por parte de Celan seria o equivalente da posição marxista de ver a religiosidade meramente como fonte de alienação, o famoso ‘ópio do povo’ - ou Deus como mera e complexa criação das subjetividade humana, para responder aos seus anseios e angústias, medos e impotências frente ao Real.

Mas aqui há uma situação mais complexa, Celan não reduz a religiosidade e a transcendência a apenas um narcótico, uma ilusão existencial. E não podendo recusar totalmente a possibilidade e a necessidade de transcendência para o homem, Celan também é atravessado por aquele mesmo dilema do qual falamos há pouco, aquela ambiguidade que envolve alguns poetas modernos na sua relação com o sagrado: não o nega, mas também não o assume, não o apreende mas também não consegue ignorá-lo.

Uma inequívoca mostra da presença desse dilema na obra de Celan é um poema já publicado aqui no Desvelar, no por ocasião do natal de 2008: apesar de um tom levemente irônico, o poema nos passa a impressão daquela mesma saudade de uma fé ou de uma crença que nunca existiram integralmente, daquela mesma sensação de ‘remorso’ da qual fala Waldo Motta, daquela mesma impressão de estar ao mesmo tempo próximo e distante do Sagrado, dentro e fora do divino, da qual fala Ernesto.

E no caso de Celan as suas dúvidas, inquietudes, dilemas, levaram-no realmente a uma poesia visceral, contribuindo talvez para literalmente destruí-lo. Afinal, o seu suicídio, em 1970, certamente que em parte deve ter sido provocado pela sua incapacidade de crer numa possibilidade de redenção para a humanidade, para a história e para a própria condição humana.
Celan não logrou ou não quis essa crença, fosse através da ação política, da beleza artística ou mesmo da apreensão do sagrado, do divino que há na história e no mundo, e que nos cabe desvelar e mesmo ajudar a construir, cada um da forma que puder.
O poeta não conseguiu acreditar que seria possível para o poeta resistir ao mal e ao erro espalhado no mundo pelas ‘cabeças monstruosas’; não vislumbrou que é possível e necessário, não somente ao poeta mas a qualquer indivíduo, contribuir para extirpar do mundo as condições sociais objetivas que sustentam essas ‘cabeças monstruosas’, mesmo que essa vitória não se dê ao longo de nosso breve tempo de vida.

pluma noturna

precisava ver!!!
acima o canto, fora do normal
preso, numa pluma viva
à vida fugidia ia

a gemer duplamente
vôo pra baixo
e entôo alto
o tom da canção

um vazio longe de encontros
navega sem leme, sem lua
sem mar... à glória
que nunca há

vicente gonçalves

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Este outro poema de Vicente Filho, se não trata abertamente do Sagrado, traz qualquer coisa de diáfano, de obscuro, que o aproxima do tema.
Não deixa de ter uma certa relação com o poema de Celan, como se Vicente estivesse a labutar com palavras e sensações, numa precária e inglória tentativa de tocar o intangível ‘nenhures’, de descrever o indizível, de colocar no papel aquilo que não se apreende claramente enquanto sentimento ou percepção, e muito menos enquanto manifestação de palavras claras, ordenadas.

Apesar disso, Vicente Filho, além de se dispor a ‘morder o nenhures’, ainda braceja para trazê-lo para perto, mesmo sabendo da impossibilidade de realizar plenamente tal tarefa – ou talvez por isso mesmo, insistindo nesse ‘canto fora do normal’, entendendo que essa talvez seja uma das mais viscerais tarefas do poeta: forcejar por dizer o indizível, mesmo sabendo-o indizível, mesmo sabendo que essa sua tarefa está condenada a uma ‘glória que nunca há’.

18/03/2010

março

Como se pode perceber, o tema dos poemas deste mês é nada mais nada menos que o Indizível, o Todo, a Presença, o Mistério, o Ser, a Fonte, ou se se preferir, simplesmente Deus. Comentários, e mais poemas, até o final do mês.

16/03/2010

brasilianas (I)


No dia 1º de março, aconteceu em São Paulo o ‘Fórum Democracia e Liberdade de Expressão’, organizado pelo Instituto Millenium. Participaram do encontro conhecidas figuras do jornalismo, do mundo acadêmico, empresarial e da política: Arnaldo Jabor, Demétrio Magnoli, Carlos Alberto Di Franco, Reinaldo Azevedo, o ex-ministro do Planejamento Antônio Palocci e o ministro das Comunicações Hélio Costa, entre outros.

Pela diversidade de áreas profissionais e pela competência profissional dos expositores - e até mesmo pela presença de membros ou ex-membros do governo Lula - poder-se-ia esperar que houvesse sido realmente um encontro para tratar com seriedade, responsabilidade e isenção partidária, do tema proposto, a saber, a liberdade de expressão na democracia.
Mas o que se viu não foi bem isso. Segundo relatos de várias fontes, o que ocorreu foi uma espécie de preparação dos setores anti-populares para as eleições presidenciais deste ano, preparação desesperada e descarada, pelo que se deduz da leitura do texto abaixo.

Na verdade poderíamos até mesmo acrescentar o rótulo de esquizofrênico a esse encontro. Afinal, numa definição bastante superficial esquizofrenia é um sintoma de quem vive dividido entre duas realidades opostas, ou melhor, de quem vive dividido entre o mundo real, concreto, e um mundo inventado, acolhedor, fictício mas protetor.
E parece que é que ocorre com os participantes do tal encontro: parece que ainda não se deram conta do irreversível processo de transformação política e social iniciado há já quase uma década no Brasil e na América Latina.

E, dependendo da evolução do esgotamento capitalista e da capacidade de articulação, mobilização e proposição de um movimento anticapitalista em nível global, tal processo pode em breve se estender ao mundo como um todo.
Aí, de um jeito ou de outro, os esquizofrênicos deste país e deste mundo vão ter que acordar e aprender a viver no novo mundo que já temos como construir; e com certeza vão gostar muito mais desse novo mundo, quando puderem tirar os véus que lhes cobrem os olhares que, apesar de inteligentes e argutos, ainda não aprenderam a desvelar com generosidade o mundo e a vida em toda sua inteireza e transcendência.
Abaixo, a reportagem da jornalista Bia Barbosa, que esteve presente ao encontro do Instituto Millenium, originalmente publicada no no site da Carta Maior.

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Encontro promovido em São Paulo por setores da grande mídia, na segunda-feira (1º), expôs o preconceito, a desinformação e o desespero da direita brasileira com a possibilidade de vitória da ministra Dilma Rousseff nas eleições presidenciais deste ano. Com profundo ranço ideológico, e sem reservas, os expositores falaram da necessidade de organizar o discurso e a ação para evitar um eventual terceiro governo democrático popular.

Se algum estudante ou profissional de comunicação desavisado pagou os R$ 500,00 que custavam a inscrição do 1º Fórum Democracia e Liberdade de Expressão, organizado pelo Instituto Millenium, acreditando que os debates no evento girariam em torno das reais ameaças a esses direitos fundamentais, pode ter se surpreendido com a verdadeira aula sobre como organizar uma campanha política que foi dada pelos representantes dos grandes veículos de comunicação nesta segunda-feira, em São Paulo.

Promovido por um instituto defensor de valores como a economia de mercado e o direito à propriedade, e que tem entre seus conselheiros nomes como João Roberto Marinho, Roberto Civita, Eurípedes Alcântara e Pedro Bial, o fórum contou com o apoio de entidades como a Abert (Associação Brasileira de Emissoras de Rádio e Televisão), ANER (Associação Nacional de Editores de Revista), ANJ (Associação Nacional de Jornais) e Abap (Associação Brasileira de Agências de Publicidade). E dedicou boa parte das suas discussões ao que os palestrantes consideram um risco para a democracia brasileira: a eleição de Dilma Rousseff.

A explicação foi inicialmente dada pelo sociólogo Demétrio Magnoli, que passou os últimos anos combatendo, nos noticiários e páginas dos grandes veículos, políticas de ação afirmativa como as cotas para negros nas universidades. Segundo ele, no início de sua história, o PT abrangia em sua composição uma diversidade maior de correntes, incluindo a presença de lideranças social-democratas. Hoje, para Magnoli, o partido é um aparato controlado por sindicalistas e castristas, que têm respondido a suas bases pela retomada e restauração de um programa político reminiscente dos antigos partidos comunistas.

“Ao longo das quatro candidaturas de Lula, o PT realizou uma mudança muito importante em relação à economia. Mas ao mesmo tempo em que o governo adota um programa econômico ortodoxo e princípios da economia de mercado, o PT dá marcha ré em todos os assuntos que se referem à democracia. Como contraponto à adesão à economia de mercado, retoma as antigas idéias de partido dirigente e de democracia burguesa, cruciais num ideário anti-democrático, e consolida um aparato partidário muito forte que reduz brutalmente a diversidade política no PT. E este movimento é reforçado hoje pelo cenário de emergência do chavismo e pela aliança entre Venezuela e Cuba”, acredita. “O PT se tornou o maior partido do Brasil como fruto da democracia, mas é ambivalente em relação a esta democracia. Ele celebra a Venezuela de Chávez, aplaude o regime castrista em seus documentos oficiais e congressos, e solta uma nota oficial em apoio ao fechamento da RCTV”, diz.

A RCTV é a emissora de TV venezuelana que não teve sua concessão em canal aberto renovada por descumprir as leis do país e articular o golpe de 2000 contra o presidente Hugo Chávez, cujo presidente foi convidado de honra do evento do Instituto Millenium. Hoje, a RCTV opera apenas no cabo e segue enfrentando o governo por se recusar a cumprir a legislação nacional. Por esta atitude, Marcel Granier é considerado pelos organizadores do Fórum um símbolo mundial da luta pela liberdade de expressão – um direito a que, acreditam, o PT também é contra.

“O PT é um partido contra a liberdade de expressão. Não há dúvidas em relação a isso. Mas no Brasil vivemos um debate democrático e o PT, por intermédio do cerceamento da liberdade de imprensa, propõe subverter a democracia pelos processos democráticos”, declarou o filósofo Denis Rosenfield. “A idéia de controle social da mídia é oficial nos programas do PT. O partido poderia ter se tornado social-democrata, mas decidiu que seu caminho seria de restauração stalinista. E não por acaso o centro desta restauração stalinista é o ataque verbal à liberdade de imprensa e expressão”, completou Magnoli.

O tal ataque

Para os pensadores da mídia de direita, o cerco à liberdade de expressão não é novidade no Brasil. E tal cerceamento não nasce da brutal concentração da propriedade dos meios de comunicação característica do Brasil, mas vem se manifestando há anos em iniciativas do governo Lula, em projetos com o da Ancinav, que pretendia criar uma agência de regulação do setor audiovisual, considerado “autoritário, burocratizante, concentracionista e estatizante” pelos palestrantes do Fórum, e do Conselho Federal de Jornalistas, que tinha como prerrogativa fiscalizar o exercício da profissão no país.

“Se o CFJ tivesse vingado, o governo deteria o controle absoluto de uma atividade cuja liberdade está garantida na Constituição Federal. O veneno antidemocrático era forte demais. Mas o governo não desiste. Tanto que em novembro, o Diretório Nacional do PT aprovou propostas para a Conferência Nacional de Comunicação defendendo mecanismos de controle público e sanções à imprensa”, avalia o articulista do Estadão e conhecido membro da Opus Dei, Carlos Alberto Di Franco.
“Tínhamos um partido que passou 20 anos fazendo guerra de valores, sabotando tentativas, atrapalhadas ou não, de estabilização, e que chegou em 2002 com chances de vencer as eleições. E todos os setores acreditaram que eles não queriam fazer o socialismo. Eles nos ofereceram estabilidade e por isso aceitamos tudo”, lamenta Reinaldo Azevedo, colunista da revista Veja, que faz questão de assumir que Fernando Henrique Cardoso está à sua esquerda e para quem o DEM não defende os verdadeiros valores de direita. “A guerra da democracia do lado de cá esta sendo perdida”, disse, num momento de desespero.

O deputado petista Antonio Palocci, convidado do evento, até tentou tranqüilizar os participantes, dizendo que não vê no horizonte nenhum risco à liberdade de expressão no Brasil e que o Presidente Lula respeita e defende a liberdade de imprensa. O ministro Hélio Costa, velho amigo e conhecido dos donos da mídia, também. “Durante os procedimentos que levaram à Conferência de Comunicação, o governo foi unânime ao dizer que em hipótese alguma aceitaria uma discussão sobre o controle social da mídia. Isso não será permitido discutir, do ponto de vista governamental, porque consideramos absolutamente intocável”, garantiu.
Mas não adiantou. Nesta análise criteriosa sobre o Partido dos Trabalhadores, houve quem teorizasse até sobre os malefícios da militância partidária. Roberto Romano, convidado para falar em uma mesa sobre Estado Democrático de Direito, foi categórico ao atacar a prática política e apresentar elementos para a teoria da conspiração que ali se construía, defendendo a necessidade de surgimento de um partido de direita no país para quebrar o monopólio progressivo da esquerda.

“O partido de militantes é um partido de corrosão de caráter. Você não tem mais, por exemplo, juiz ou jornalista; tem um militante que responde ao seu dirigente partidário (...) Há uma cultura da militância por baixo, que faz com que essas pessoas militem nos órgãos públicos. E a escolha do militante vai até a morte. (...) Você tem grupos políticos nas redações que se dão ao direito de fazer censura. Não é por acaso que o PT tem uma massa de pessoas que considera toda a imprensa burguesa como criminosa e mentirosa”, explica.

O “risco Dilma”
Convictos da imposição pelo presente governo de uma visão de mundo hegemônica e de um único conjunto de valores, que estaria lentamente sedimentando-se no país pelas ações do Presidente Lula, os debatedores do Fórum Democracia e Liberdade de Expressão apresentaram aos cerca de 180 presentes e aos internautas que acompanharam o evento pela rede mundial de computadores os riscos de uma eventual eleição de Dilma Rousseff. A análise é simples: ao contrário de Lula, que possui uma “autonomia bonapartista” em relação ao PT, a sustentação de Dilma depende fundamentalmente do Partido dos Trabalhadores. E isso, por si só, já representa um perigo para a democracia e a liberdade de expressão no Brasil.

“O que está na cabeça de quem pode assumir em definitivo o poder no país é um patrimonialismo de Estado. Lula, com seu temperamento conciliador, teve o mérito real de manter os bolcheviques e jacobinos fora do poder. Mas conheço a cabeça de comunistas, fui do PC, e isso não muda, é feito pedra. O perigo é que a cabeça deste novo patrimonialismo de estado acha que a sociedade não merece confiança. Se sentem realmente superiores a nós, donos de uma linha justa, com direito de dominar e corrigir a sociedade segundo seus direitos ideológicos”, afirma o cineasta e comentarista da Rede Globo, Arnaldo Jabor. “Minha preocupação é que se o próximo governo for da Dilma, será uma infiltração infinitas de formigas neste país. Quem vai mandar no país é o Zé Dirceu e o Vaccarezza. A questão é como impedir politicamente o pensamento de uma velha esquerda que não deveria mais existir no mundo”, alerta Jabor.

Para Denis Rosenfield, ao contrário de Lula, que ganhou as eleições fazendo um movimento para o centro do espectro político, Dilma e o PT radicalizaram o discurso por intermédio do debate de idéias em torno do Programa Nacional de Direitos Humanos 3, lançado pelo governo no final do ano passado. “Observamos no Brasil tendências cada vez maiores de cerceamento da liberdade de expressão. Além do CFJ e da Ancinav, tem a Conferência Nacional de Comunicação, o PNDH-3 e a Conferência de Cultura. Então o projeto é claro. Só não vê coerência quem não quer”, afirma. “Se muitas das intenções do PT não foram realizadas não foi por ausência de vontades, mas por ausência de condições, sobretudo porque a mídia é atuante”, admite.

Hora de reagir

E foi essa atuação consistente que o Instituto Millenium cobrou da imprensa brasileira. Sair da abstração literária e partir para o ataque.
“Se o Serra ganhasse, faríamos uma festa em termos das liberdades. Seria ruim para os fumantes, mas mudaria muito em relação à liberdade de expressão. Mas a perspectiva é que a Dilma vença”, alertou Demétrio Magnoli.
“Então o perigo maior que nos ronda é ficar abstratos enquanto os outros são objetivos e obstinados, furando nossa resistência. A classe, o grupo e as pessoas ligadas à imprensa têm que ter uma atitude ofensiva e não defensiva. Temos que combater os indícios, que estão todos aí. O mundo hoje é de muita liberdade de expressão, inclusive tecnológica, e isso provoca revolta nos velhos esquerdistas. Por isso tem que haver um trabalho a priori contra isso, uma atitude de precaução. Senão isso se esvai. Nossa atitude tem que ser agressiva”, disse Jabor, convocando os presentes para a guerra ideológica.
“Na hora em que a imprensa decidir e passar a defender os valores que são da democracia, da economia de mercado e do individualismo, e que não se vai dar trela para quem quer a solapar, começaremos a mudar uma certa cultura”, prevê Reinaldo Azevedo.
Um último conselho foi dado aos veículos de imprensa: assumam publicamente a candidatura que vão apoiar. Espera-se que ao menos esta recomendação seja seguida, para que a posição da grande mídia não seja conhecida apenas por aqueles que puderam pagar R$ 500,00 pela oficina de campanha eleitoral dada nesta segunda-feira.

brasilianas (II)


No endereço ‘É triste estarmos falando em lulismo’, uma breve mas reveladora entrevista com Mauro Iasi (um dos fundadores do PT), o leitor encontrará uma lúcida crítica, tanto às limitações do governo Lula quanto às do próprio PT, em relação à necessidade de articular, de promover com mais urgência e intensidade a real hegemonia e participação direta dos setores populares na condução do país.

Claro, cada um tem o seu ponto de vista em relação aos avanços e limitações do governo petista e em relação ao realismo político das correntes majoritárias do PT, com a sua postura de fazer concessões e alianças conservadoras, em nome do acúmulo de forças e de um pretenso processo de transformação socialista, gradual mas seguro, que assim não oportunidade ou pretextos para os setores antipopulares promoverem o retrocesso, a interrupção do avanço popular.

Mas, por isso mesmo, é sempre bom ouvir as vozes contrárias, que alertam para as distorções, para as conseqüências do abandono de princípios e estratégias essenciais num real processo de construção popular, em nome do realismo político, da governabilidade e da manutenção da institucionalidade. Nada como exercer de fato o raciocínio e a postura dialética, que exigem sempre o respeito e a lúcida atenção às diversas concepções e práticas envolvidas no processo de transformação popular.

Além disso, a entrevista com Iasi é um ótimo contraponto: no texto sobre o Instituto Millenium o que se vê são críticas e impropérios ao PT oriundas dos representantes das elites, já na entrevista as críticas vêm de um militante de um partido com uma postura mais à esquerda, ou mais radical que o do PT.
Por aí se vê como o processo é um pouco mais complexo do que crêem tanto os setores mais moderados quanto os expoentes com discurso radicalizado, independente de quão lúcidas, acuradas e bem articuladas sejam as análises que um lado e outro faz da lutas e dos governos populares.
Trecho: "Seu respaldo em amplos setores dos trabalhadores representa mais uma hegemonia passiva do que de fato uma organização independente que colocaria os trabalhadores na cena política na defesa de seus interesses de classe. O apoio, eleitoral e midiático, dos setores mais empobrecidos deve-se a uma mescla de assistencialismo e características carismáticas que emanam da liderança de Lula, acima do partido e muitas vezes contra ele. O PT esperava colocar a classe trabalhadora com independência e autonomia no cenário político e de fato não é isso que vemos. "
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O artigo A miséria moral de ex-esquerdistas pode ser lido como uma contundente análise do sociólogo Emir Sader aos discursos e à prática de alguns dos presentes no encontro do Instituto Millenium, e que um dia defenderam posições ideológicas e posturas de vida completamente opostas às que abraçam hoje.
Trecho: "Viraram pobres diabos, que vagam pelos espaços que os Marinhos, os Civitas, os Frias, os Mesquitas lhes emprestam, para exibir seu passado de pecado, de devassidão moral, agora superado pela conduta de vigilantes escoteiros da direita. A redação de jornais, revistas, rádios e televisões está cheia de ex-trotskistas, de ex-comunistas, de ex-socialistas, de ex-esquerdistas arrependidos, usufruindo de espaços e salários, mostrando reiteradamente seu arrependimento, em um espetáculo moral deprimente."

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Ainda nessa seleção de textos que tratam de questões especificamente nacionais, vale conhecer um pouco mais da história e da atual situação da Escola Florestan Fernandes, combativo centro de formação idealizado, criado e mantido pelo MST, mas que é aberto a toda e qualquer entidade ligada à luta popular. Veja na matéria Vamos manter viva a universidade dos trabalhadores.
Trechos: "A escola oferece cursos de nível superior, ministrados por mais de 500 professores, nas áreas de Filosofia Política, Teoria do Conhecimento, Sociologia Rural, Economia Política da Agricultura, História Social do Brasil, Conjuntura Internacional, Administração e Gestão Social, Educação do Campo e Estudos Latino-americanos. Além disso, cursos de especialização, em convênio com outras universidades (por exemplo, Direito e Comunicação no campo). (...)
(...) Claro que esse processo provocou a ira da burguesia e de seus porta-vozes "ilustrados". Não faltaram aqueles que procuraram, desde o início, desqualificar a qualidade do ensino ali ministrado, nem as "reportagens" sobre o suposto caráter ideológico das aulas (como se o ensino oferecido pelas instituições oficiais fosse ideologicamente "neutro"), ou ainda as inevitáveis acusações caluniosas referentes às "misteriosas origens" dos fundos para a sustentação das atividades. As elites, simplesmente, não suportam a ideia que os trabalhadores possam assumir para si a tarefa de construir um sistema avançado, democrático, pluralista e não alienado de ensino. Maldito Paulo Freire!".

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Finalizando, no blog do Miro, o texto Veja apela para bandidos traz um análise precisa de como já estão sendo eficientemente colocadas em prática as diretrizes elaboradas no Fórum do Instituto Millenium:

Trecho: "A Casa Millenium, que reúne a lama da direita midiática nativa, deveria instituir um prêmio para os seus freqüentadores mais sádicos. A revista Veja já é uma forte concorrente. Logo após o seu convescote, ela já produziu duas capas espalhafatosas contra a campanha de Dilma Rousseff."

terceira ponte...

...primeiras manhãs

digo que o impalpável deus mistério
tem dias que dá de dormitar e orar
nestas bandas aqui do mundo

acontece:
os raios engenheiros do sol
vêm vistoriar a ponte e a manhã
mas se esquecem e se encantam:
brincam
cintilam
tintilam
nas águas profundas da baía
toda céu-dourada lá pelas dez horas

parece:
ora querem trazer o céu para a terra
ora querem fundir mar-e-céu azuzuis
ora querem
afundar e
dormir
ali

parece - e acontece – uma
oração de alegria azul dourada e calada
(danada de bonita, uai!)

roberto soares

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Este meu poema, e mais os três que se seguem, querem tão somente uma celebração do divino no meio mesmo do mundo. Três despretensiosas e singelas tentativas de desvelar a fugitiva presença do Ser em meio à infinidade de entes e fenômenos que povoam o Real, sem tentar fixar o Indizível, o Difuso, de forma desesperada ou exigente; ao contrário, a única preocupação é a de identificar e reconhecer o divino em realidades concretas, bem ao alcance nossos olhos e mãos: os raios do sol, o vento, os lírios, azul, o mar.
O poema terceira ponte, primeiras manhãs eu o escrevi em 98, logo nos primeiros meses de minha chegada aqui em Vitória. Publico aqui uma fotografia da Terceira Ponte.
Quanto a deus nos lírios, poema da portuguesa Renata Botelho, foi extraído do blog Hospedaria Camões.
Note-se o vigoroso contraste do poema a pérola... com o poema pluma noturna, ambos de Vicente Filho: no primeiro o sagrado é nomeado e apontado com firmeza, confiança e ímpeto quase guerreiro, ao passo que no segundo poema, como já apontamos tudo é difícil, hesitante, difuso.
A registrar ainda que tempo, vazado num tom mais engajado e menos metafórico, mais prosaico, não se detém tanto nessa ênfase da pura celebração - ou melhor, não faz a celebração do homem em meio aos entes do mundo, faz a celebração do homem em meio à sua própria história, embora, claro, uma celebração meio amarga, ou mais lúcida.
Uma reverente prospecção do mistério que se manifesta na história que fazemos, uma politização transcendente, uma inserção desta mesma história que fazemos num horizonte maior, no vasto e enigmático horizonte do tempo ao qual não temos acesso - bem, pelo menos enquanto não podemos ou não conseguimos ver a Fonte face a face.

a pérola nossa de cada dia

o que é uma pérola
são os olhos
uma linda boca
o nariz

deus, o que é deus
o mar o vento o sol
e se deus for a pérola dos olhos
e o vento que entrando
da beira do mar
em minhas narinas
em minha boca resfolegante
e o sol resplandecendo na manhã

aí sim, é deus

vicente gonçalves

deus nos lírios

sinto deus, todas as noites, nos lírios
de monet. olham para mim
por esta sombra incerta que morre
aos poucos comigo, cobrem
de seiva viva a escuridão da casa
e afastam os demônios
que se escondem nas frestas do sono.

pela manhã, junto as pétalas tenras
caídas no lençol, e rezo baixinho
com os pardais, um verso branco.


renata correia botelho - portugal
(blog hospedaria camões)